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segunda-feira, 28 de março de 2016

A PRESSA É O INIMIGO...

★★★★★
Título: Batman vs Superman - A Origem da Justiça (Batman vs Superman)
Ano: 2016
Gênero: Super Herói, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Ben Affleck, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Gal Gadot, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Diane Lane
País: Estados Unidos
Duração: 151 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Batman e Superman duvidam das reais intenções heróicas um do outro, surgindo uma inimizade alimentada por um plano de Lex Luthor para que um conflito iminente entre eles aconteça.

O QUE TENHO A DIZER...
A Warner, detentora dos direitos da DC Comics, pode até ter sido um tanto que pioneira nas adaptações de quadrinhos, principalmente quando Tim Burton foi responsável por Batman, entre 1989 e 1991. Digam o que quiserem, sejam fãs ou não de suas adaptações, Burton mostrou que havia possibilidade de adaptar esses universos de outras formas sem descaracterizá-los. Tanto que aquilo que ele criou foi - e ainda é - referência. Basta assistir a trilogia de Christopher Nolan para ter a certeza absoluta disso. Os elementos básicos do ponto de vista criativo de Burton ainda estão lá, confirmados pelo próprio Nolan que afirmou na época que não tinha intenções de esquecer do legado deixado pelo diretor.

O grande problema é que a Warner nunca soube lidar com seus heróis no cinema, e coube à Marvel desbravar esse território com muita esperteza e coerência. A empresa não apenas está há 16 anos adaptando seus próprios heróis com sucesso como criou um novo gênero. Tal qual o estilo Faroeste se tornou um gênero ao longo das décadas, assim se tornaram os filmes de Super-Herois graças à Marvel. E quando essa reprodução assexuada de gêneros acontece, é sinal de que vieram para ficar em definitivo.

O que a Marvel fez foi algo realmente inédito. Criou um universo infinito e que se auto renova tal como seu universo nos quadrinhos. Mais do que isso, inventou uma fórmula, que vem sido repetida com sucesso há aproximadamente uma década, já mostrando sinais de cansaço, mas que ainda funciona.

Apenas os filmes baseados nos heróis da Marvel já arrecadaram no mundo, em uma conta bem rápida, em torno de US$15 bilhões ao longo desses 16 anos. O que é mais que a soma de vários títulos de diversos estúdios por aí no mesmo período.

A intenção de levar A Liga da Justiça para o cinema sempre existiu e os fãs sempre clamaram por isso, mas o milhonário orçamento (que entre 2000 e 2010 beirava os US$350 milhões), assustava e inviava o projeto. Foi com a ousadia da Marvel na reunião de heróis em Os Vingadores (The Avengers, 2012) que a Warner finalmente sacou que isso era possível, e então retomaram a idéia para abocanhar sua parte em um mercado tão lucrativo.

O diferencial da Marvel é que ela, por quase uma década, amaciou o mercado em doses homeopáticas até Os Vingadores se tornar uma trilogia em quatro partes (é isso mesmo), coisa que a Warner não fez em nenhum momento. E como que a correr contra o tempo e compensar a falta de estratégia, resolveu fazer de A Origem da Justiça o ponto de partida de sua empreitada, tentando (reforço: tentando) seguir os mesmos passos e, quiçá, reinventar a fórmula da rival.

Embora Batman sempre seja um sucesso até mesmo quando seja ruim (como as tristes adaptações de Joel Schumacher nos anos 90), o mesmo não se diz mais sobre Superman, um herói alienígena simples que vive a favor da humanidade, sem grandes complexidades, iconizado, solidificado e enferrujado no tempo. Por isso que a adaptação de Bryan Singer não foi mais do que um boo-hoo nostálgico, enquanto o reboot desnecessário de Zack Snyder foi uma tentativa fracassada de obscurecer e dramatizar o herói em um festival de exageros que cometeu o erro mais clássico de todos, e que Burton, lá atrás, já ensinava não fazer: descaracterizar o personagem.

Aliás, é um tanto esquisita a escolha de Zack Snyder para continuar a franquia, já que O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013) não recebeu críticas muito positivas, tal qual os filmes anteriores do diretor. Talvez tenha sido a pressa do estúdio em desenvolver esse universo da DC no cinema, ou a falta de disponibilidade de algum diretor mais competente já que, apesar de todos os defeitos de Snyder, seus filmes são visualmente marcantes, como foi 300 (2006) - talvez seu único trabalho digno de nota.

E esse é o grande problema do diretor, pois ele consegue engrandecer personagens em imagens, usando filtros, angulações de câmera, enquadramentos e efeitos que os enaltecem em fotografias bastante cartoonizadas, como quadrinhos pintados por Alex Ross, mas ao mesmo tempo os personagens sofrem nos desenvolvimentos exagerados para coisas muito simples, resultando tudo numa densidade tão profunda quanto um pires.

Isso tudo é notório naquele que foi seu mais ambicioso projeto até hoje, o filme Sucker Punch (2011), visualmente deslumbrante, mas vazio, um exemplar daquilo que se deve e ao mesmo tempo não se deve fazer no cinema fantasioso.

E o tom de A Origem da Justiça é o mesmo. Snyder engrandece os heróis através desse surrealismo das imagens, transformando em titãs os dois personagens principais, além de fazer a participação de Mulher Maravilha (Gal Gadot) ser distanciada de qualquer cafonice de outrora, fazendo valer a interminável espera por sua aparição nos cinemas. Mas isso tudo dura muito pouco e decepciona no resultado final.

A história é uma continuação direta de Homem de Aço, tanto que na sequência inicial revemos a destruição de Metropolis durante a batalha de Superman (Henry Cavill) com o General Zod através do ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), e só vai entender dessa forma quem assistiu ao filme anterior. Para quem não assistiu, a cena será como algo aleatório e sem sentido. A partir daí alguns meses se passam, e Wayne tenta responsabilizar Superman pelo grande massacre civil ocorrido naquele evento. Ao mesmo tempo, Superman considera Batman um mercenário perigoso pela forma tirana com que lida com as coisas, e através de sua identidade de Clark Kent, tanta expô-lo dessa forma usando o Planeta Diário para isso. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) precisa tirar Superman de seu caminho, aquecendo essa rivalidade ao maquinar um plano "diabólico" para que Batman se volte contra Superman, e vice-versa.

O enredo é até interessante, e se teve algo realmente bom em toda a história foi o ponto de partida de tudo porque os roteiristas utilizaram as críticas que O Homem de Aço recebeu para favorecer a trama. Na época os críticos pelo mundo levantaram a questão de que, já que Superman é um herói e sua missão é salvar vidas, foi bastante incoerente o filme fazê-lo destruir mais da metade da cidade e matar mais gente do que salvar. Foi um grande erro na história e na personalidade do herói simplesmente para favorecer a ação barata e o espetáculo de efeitos visuais que transformou o filme em um disaster movie por excelência. Então, ponto positivo para o roteiro que usou a própria realidade como referência e transformou essas críticas em parte dos questionamentos de Wayne sobre a conduta de Superman.

Só que, se por um lado o começo parecia interessante e promissor, o desenvolvimento de tudo se mostra desastroso. Há uma incoerência de situações e cronologia que não convencem, a começar pela visível diferença de idade entre os personagens. Luthor é mais jovem que Superman, e Batman é mais velho que todos. A impressão que se tem é que tiraram Luthor do seriado Smallville (2001-2011) e o velho Batman de sua versão da série em quadrinhos O Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), no qual está 20 anos mais velho e sem credibilidade.

Eisenberg dá uma caricatura a Luthor que mais irrita do que impressiona, fazendo do personagem um repeteco empobrecido do Coringa, longe, mas muito longe da diversão que era a versão canastrona de Gene Hackman, ou até mesmo na versão mais sisuda de Kevin Spacey. E falando em distância, o que dizer sobre Cavill? Tão longe da candura de Christopher Reeve, ou tão longe da doçura de Brandon Routh. A personalidade agora introspectiva e cascuda é coerente com algumas fases negras do herói nos quadrinhos e na sua crescente perda de esperança nos humanos, mas no cinema aparenta descaracterizado porque em nenhum momento houve uma construção que levasse a esse ponto com consistência.

Triste também é Lois Lane (Amy Adams), que assim como no filme anterior, entra e sai correndo de cena sem motivos. E por mais que Martha Kent (Diane Lane) tenha uma certa importância na conclusão da história, ela na verdade só aparece para literalmente nos lembrar a todo instante que é mãe do herói e nada mais. Duas atrizes desperdiçadas, que poderiam ter sido poupadas tanto quanto Jeremy Irons no mais insosso Alfred que existe, ou Holly Hunter como a Senadora Finch, que poderia ter sido um excelente acréscimo em toda a franquia como o único grande ponto mediador entre humanos e meta-humanos.

Por incrível que pareça, Ben Affleck é o único que consegue atuar no meio de tudo, o que prova que seus cabelos brancos valeram para algo em uma carreira de ator que mostrou-se melhor na direção. Anos luz distante da interpretação constrangedora de Demolidor (Daredevil, 2003), aquilo que parecia um equívoco supreendentemente não atrapalha. As cenas de batalha de seu personagem são as épicas batalhas de Batman por excelência, cheia de malabarismos, arsenais tecnológicos e porrada. Muita porrada bruta e seca de um Batman velho e impaciente, que deixou a tática de lado para encarar tudo de frente. Se o filme fosse apenas dele - o que quase é - teria sido muito mais empolgante.

E são em sequências como essa que vale a pena assisti-lo, mas tem que ter muita paciência. Snyder arrasta a história desnecessariamente em um filme que consegue ser mais longo que Os Vingadores em sequências de dar bocejo em gente grande. A diferença é que Os Vingadores tem todo um background que fortalece sua história, o que não acontece aqui. Ao contrário, o excesso de informação, de tramas e subtramas é justamente para, como dito acima, compensar o que não se fez até hoje.

Então, o filme parte do errôneo princípio de que nada antes dele aconteceu e que nenhum dos personagens já tiveram suas histórias contadas inúmeras vezes antes. Fica difícil nos convencermos de que eles não conseguem compreender seus métodos de justiça e que ignoram completamente seus atos heróicos pregressos. O roteiro poderia ter sido mais sucinto e usado Lex Luthor de uma forma mais inteligente para gerar uma conspiração mais convincente, menos forçada e artificial como é. Mas ao invés disso trata o espectador até com certa ignorância, pois a maneira como os heróis se tornam inimigos é feita de forma tão banal como se Gothan City e Metropolis fossem dois mundos completamente diferentes e distantes, e que nenhum deles nunca tivesse ouvido falar um do outro ou de suas intenções. Se a rivalidade tivesse surgido por uma coisa mais simples ou cliché como inveja pela popularidade ou pela importância de algum deles, acredite... teria sido muito mais interessante.

Mas mais banal ainda é a hora errada em que certas verdades são reveladas justamente por quem fez segredo sobre elas durante toda a trama capenga, estragando em definitivo o grande efeito surpresa do tão esperado duelo. É frustrante e simplório como magicamente a intriga se resolve depois de Batman passar mais de uma hora sangrando os olhos para destruir um arqui-inimigo que, na verdade, nem ele sabe de verdade porque é. E então, pra compensar esse grande e horroroso desfecho, o vilão Doomsday (que mais parece um troll burro do Senhor dos Anéis) surge em sequências de computação gráfica bem ruins, onde insistem na idéia de que para um monstro ser assustador ele tem que gritar e soltar o bafo fedorento contra a câmera. Tudo muito no escuro para tentar disfarçar defeitos indisfarçáveis, entre um e outro momento dramático profundamente dispensáveis. Aliás, Snyder não se cansa do escuro e dos filtros borrados, coisas que ficam muito piores no 3D.

O roteiro foi estranhamente escrito por Chris Terrio e David Goyer. Estranhamente porque Terrio foi o responsável pelo roteiro de Argo (2012), por sinal dirigido por Affleck, um filme simples com um desenvolvimento empolgante e comedido, elogiado exatamente por isso. E Goyer foi responsável pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Nolan, elogiados justamente pela trama bem costurada e desenvolvida sem rebosteios. Então é espantoso ver dois roteiristas talentosos e com qualidades tão interessantes oferecerem algo tão desorientado e redigido às pressas, o que prova novamente que o diretor simplesmente deu qualquer atenção a isso.

Não é à toa que a crítica não tem sido favorável, da mesma forma como ele não foi o estrondoso sucesso que se esperava em seu final de semana de estréia. Claro que foi uma estréia boa (US$170 milhões), mas não ultrapassou a de Os Vingadores (US$207 milhões). Portanto acredita-se que o interesse pelo filme caia como uma pedra no oceano nas próximas semanas, e que chegar a US$1 bilhão se torne uma missão custosa, já que é essa a cifra que garantirá as próximas continuações.

O que algumas pessoas me perguntaram, e foi o que perguntei quando pessoas que eu conheço assistiram antes de mim, é se vale a pena e é legal. Vale a pena e é legal, não por todo o produto em si, mas pela materialização da idéia. Ver os três heróis juntos, agigantados na megalomania visual de Snyder, mesmo que por um breve momento, parece valer o preço do ingresso. Mas a história, não se pode negar, por mais que os fãs argumentem nos fóruns por aí, é banal e até ridícula.

Como um todo, vai agradar os fãs mais desesperados e aqueles que pouco se importam com o resto além da ação - e que também há pouco, diga-se de passagem - embora é possível ver que muitos deles sairam desapontados do cinema. A grande preocupação é se a próxima sequência, já entitulada como A Liga da Justiça, cairá nos mesmos problemas, já que insistirão do tenebroso erro de manter Snyder na direção, diretor que provou por A + B que, fora o seu próprio ego, não tem talento suficiente para sustentar outras coisas grandiosas.

CONCLUSÃO...
Aparentemente não é um tipo de filme para ser inteligente, mas o que diferencia as histórias da DC da Marvel é justamente o fato das histórias da DC serem mais densas e adultas, com tramas mais elaboradas, sem muitos alívios cômicos e que fogem do habitual sem deixar de entreter como se deve. Baseando-se nos roteiristas, poderia ter tido o desenvolvimento simples de Argo, com uma trama melhor elaborada como foi O Cavaleiro das Trevas, mas ao invés desse desenvolvimento simples, focado e efetivo, é um filme disperso, cheio de reviravoltas desnecessárias para dar a falsa impressão de grandiosidade que ele de fato não tem. E se existe um verdadeiro inimigo em tudo isso, ele se chama "pressa", algo que a Marvel não teve e, por isso, se manterá no pódio por mais alguns bons anos.

sexta-feira, 11 de março de 2016

DEMOROU...

★★★★★★★☆☆☆
Título: A Visita (The Visit)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Terror, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbold, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hann
País: Estados Unidos
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal de irmãos decide documentar a visita de uma semana que fazem aos avós que nunca conheceram.

O QUE TENHO A DIZER...
O indiano M. Night Shyamalan teve uma ascensão muito rápida e brusca com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), talvez o filme que tenha realmente resgatado o terror do ostracismo que viveu nos anos 90. O sucesso do filme o catapultou, da noite para o dia, para a lista dos 10 principais diretores da época, posição que conseguiu manter, entre tropeços, até seu terceiro longa, Sinais (Signs, 2002). A partir de então, seus sete filmes seguintes desceram uma ladeira sem freio no desgosto. A única coisa que o manteve ativo na indústria foi o fato de suas produções ainda serem lucrativas por conta da curiosidade do público. Com os anos, Shyamalan se tornou um nome esquecido no tempo, ficando na memória aqueles poucos filmes de início de carreira, e na fila, aqueles poucos gatos pingados de fãs xiitas esperançosos de que, algum dia, ele voltasse à sua forma.

Desde o princípio, ele nunca escondeu sua vontade de ser um grande nome no cinema, aquele onde as pessoas conseguissem identificá-lo simplesmente assistindo seus filmes. Chegou até a citar como exemplo de objetivo, seu grande ídolo, Spielberg. É por isso que também cultiva a imagem de "diretor autoral", por também escrever histórias originais para todos os filmes que dirige, com excessão de O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010) e Depois da Terra (After Earth, 2013), adaptações dizimadas pela crítica sem dó nem piedade.

De certa forma ele conseguiu ser esse grande nome, mais pela má fama do que o contrário, porque aquilo que era pra ser um grande diferencial de sucesso, na verdade pouco significou em sua carreira. Shyamalan nunca conseguiu oferecer o mesmo impacto do seu primeiro grande sucesso, o qual sempre buscou e viveu sob a sombra, muito menos conseguiu se provar um grande roteirista. Suas produções passaram a virar piadas de críticos pelo mundo afora, que consideraram seus "finais inesperados" um padrão desconfortável porque apostavam na falta de lógica para causar surpresa fácil, se tornando experiências mais frustrantes do que surpreendentes apenas para manterem sua assinatura autoral enquanto subestimava a inteligência das pessoas.

Ele reconheceu a brusca queda de qualidade de seus filmes, e atribuiu a culpa aos estúdios, alegando que trabalhar para eles exigia abrir mão da liberdade artística.

Por isso que, na tentativa de conseguir novamente esse controle, A Visita é um filme independente e o mais barato de sua carreira.

Funcionou?

Em partes.

É claro que ele segue o mesmo estilo narrativo de todos seus filmes anteriores, a diferença é o formato documentado, desgastado ao longo da última década, mas que funciona mesmo assim por ser imediatista, já que na maior parte do tempo somos os "olhos" dos protagonistas, e é isso que facilita os sustos e justifica certa previsibilidade. Claro que há aqueles momentos que deixar a câmera ligada ou até mesmo carregá-la em todo e qualquer lugar não faz sentido, ou nos já manjados momentos de "confessionário" como acontece em todo filme com esse formato. Então, mesmo usando um estilo que ofereça mais liberdade, é impossível ignorar essas artificialidades.

Não é uma história confusa, tudo é até bastante simples e que funciona em grande parte por isso e pelo bom uso dos elementos surpresa até mesmo quando clichés. Mas o mais interessante é que, embora o roteiro de Shyamalan ainda pereça dos mesmos defeitos de sempre, como a falta de coerência de alguns fatos, ou o excesso de informações disconexas que pouco fazem sentido na história, há um humor ambíguo que intensifica a atmosfera inquieta e perturbadora que ele constrói.

Da mesma forma como fez interessante uso do ícone do herói e do vilão em Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), aqui ele faz uso de simbologias sociais, como a de que crianças são meigas e idosos inofensivos, ou vice-versa. E quando as coisas se mostram não ser bem assim, e a bizarrice do casal de idosos junto à curiosidade ainda infantil do casal de irmãos entram em conflito, é esse contraste interessante que faz aflorar o humor negro junto ao horror clássico e mais técnico.

O diretor afirmou ter feito três versões do filme: uma cômica, uma assustadora, e outra que ficasse no meio termo. A versão final optou pela terceira opção. Óbvio que nada seria tão efetivo se não fossem os atores, principalmente a avó (Deanna Dunagan), uma figura que é esquisita logo de cara, e Tyler (Ed Oxenbould), a personificação da Formiga Atômica e do humor cartoonizado, pois os dois são os extremos dos dois estilos que se fundem muito bem e que igualmente funcionam muito bem sozinhos.

Há momentos em que muita coisa não faz sentido, que o espectador mais atento irá perceber e que não dá pra citar sem estragar as surpresas, mas são defeitos que, ao contrário de seus últimos filmes, conseguem ser perdoáveis e irrelevantes.

Mais uma vez ele aposta na reviravolta final da trama, só que deixa o absurdo de lado e opta pela simplicidade funcional como há muito, muito tempo não fazia, talvez desde Corpo Fechado. A conclusão um tanto repentina pode acabar frustrando, como geralmente seus filmes fazem, mas não dá pra negar que o fim entre num terreno de brutalidade psicológica que ele nunca havia pisado antes.

O interessante de Shyamalan é que realmente ele é melhor diretor que roteirista, conseguindo construir atmosferas apreensivas e conduzir o espectador para os temores do desconhecido que poucos outros conseguem, e ainda por cima dar um tom espiritual em tudo. O problema é que esse desenvolvimento vai tão longe e atinge um ápice com tanta força que a conclusão não consegue superar ou manter o mesmo nível, se tornando simplória demais, fadada a um final banal. Não que isso aconteça aqui, mas é o que vemos em seus filmes no geral.

Felizmente o resultado não é tão frustrante, e A Visita é um misto bem interessante de humor e terror, enquanto o primeiro é mais sutil e o segundo se fortalece mais a cada nova sequência. Independente da previsibilidade, ele cumpre os sustos que promete e vai deixar muita gente que andava desgostada, satisfeita.

CONCLUSÃO...
Se é o retorno de Shyamalan à sua forma, ou a retomada do controle criativo daquilo que ele produz, ainda é cedo dizer, mas não há dúvidas de que é o primeiro filme que realmente pode ser chamado de interessante depois de longos anos. Um pedido de desculpas àqueles que esperaram por tanto tempo algo, no mínimo, divertido.

quinta-feira, 3 de março de 2016

SESSÃO DA TARDE OU DE DOMINGO...

★★★★★☆
Título: Já Estou Com Saudades (Miss You Already)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Catherine Hardwicke
Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore
País: Reino Unido
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A longa amizade de duas amigas é testada quando uma delas descobre estar com câncer.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando se fala em duas amigas, na qual uma delas fica doente, é impossível não se lembrar da comédia dramática de Garry Marshal, Amigas Para Sempre (Beaches, 1988), talvez o exemplo máximo do dramalhão norteamericano feito para o público feminino.

Mas o que fez dele um clássico do lenço molhado foi a parceria perfeita de Bette Midler e Barbara Hershey, além de uma história que não apenas é comovente como também havia subtramas cômicas que davam consistência ao filme, como os altos e baixos da carreira artística da personagem CC Bloom (Midler) até sua ascensão à fama, que por consequência renderam números musicais memoráveis no filme e uma trilha sonora digna de nota, tudo feito maravilhosamente por Bette Midler.

Difícil achar um filme que seja tão cliché e, ao mesmo tempo, que tenha dado tão certo quanto o filme de Garry Marshal. Nem mesmo Chris Columbus, um dos mestres do cinema comercial dos anos 90, conseguiu fazer de Lado a Lado (Stepmom, 1998) algo tão interessante quanto, nem mesmo com Julia Roberts e Susan Sarandon encabeçando o elenco.

Portanto, é difícil esperar que um filme com basicamente o mesmo tema dê muito certo nas mãos de Catherine Hardwicke que, convenhamos, não é tão boa diretora assim para conseguir lidar com um tema tão batido de maneira que atraia o interesse do espectador como se fosse novidade.

Mesmo tendo excelentes intenções no cenário cinematográfico e de empoderamento das mulheres ao se dedicar a filmes que tenham temáticas, elenco e equipe mais femininas, além de todos os roteiros de seus longas terem sido escritos por mulheres (ou em parceria com elas), é impossível em casos como esse de evitar cair no cliché até leviano.

Foram poucas as vezes que Hardwicke realmente ousou e deu certo, como fez no filme Aos 13 (Thirteen, 2003), em Os Reis de Dogtown (Lords Of Dogtown, 2005) ou até mesmo no seu mais recente curta metragem, Till It Happens To You (2015). Tanto é assim que o esforço para levar a trama por caminhos alternativos é bastante evidente, mas a roteirista Morwenna Banks apenas roda e roda para acabar caindo no mesmo lugar.

O trabalho que Toni Collette e Drew Barrymore desenvolvem é bastante interessante e até convincente porque as duas oferecem situações dramáticas e cômicas da mesma forma e em diferentes ocasiões, equilibrando e até mantendo o filme dentro de um platô seguro que não caia nem na piada pronta, e nem no choro fácil, até mesmo quando Collette resolve fazer a clássica cena de raspar os cabelos em frente a câmera.

Mas elas carregam o filme nas costas, tanto que é possível até sentir um certo cansaço de ambas para que tudo dê certo e funcione. A direção deixa a desejar, e sua opção pela câmera constantemente na mão e excesso de planos fechados, sempre focalizando mais o rosto das atrizes do que toda a cena e sua composição, são muito enjoativos. É como se ela pressionasse o espectador para notarem como elas estão sendo hilárias ou como elas estão sendo dramáticas. Não é assim que se constrói emoções e sentimentos.

Banks desenvolve uma trama extremamente difícil para as mulheres, que é o câncer de mama e as transformações durante o processo que interferem brutalmente no psicológico e na feminilidade da mulher, como a perda dos cabelos, a mutilação cirúrgica, o medo da rejeição e preconceito. E apesar de tantos erros essas situações até são construídas de maneira respeitosa e delicada, o que é bom e até um alívio.

As tramas paralelas também se desenvolvem sem tantos exageros, mas como todos os problemas que surgem são em decorrência da doença de Milly (Toni Collette) e suas consequências, esse efeito dominó no filme não é muito bem organizado, ficando pouco convincente e aleatório, como quando Jess (Drew Barrymore) afirma que Milly tem agido como alguém que usa a doença como desculpa para seus erros e problemas, quando o que ela mais fez durante a maior parte do filme foi totalmente o contrário. E aí fica bastante óbvio que, para criar um conflito momentâneo necessário para uma reviravolta estrutural na história, o roteiro tenta nos convencer de algo que ele não havia desenvolvido com clareza até então.

A relação de ambas só vai ficar realmente complicada no fim, quando a possibilidade de Milly se recuperar diminui cada vez mais. Como todo bom drama, é nesse ponto em que as atrizes dão tudo de si e fica impossível segurar as lágrimas e se sensibilizar de fato com toda a situação.

Mas como um todo, apesar de ser um tema pesado, essa tentativa de Hardwicke e Banks em tentar optar por caminhos alternativos aliviaram bastante o peso do drama inútil, e o bom humor predomina nos principais momentos. A pena de tudo é ser uma zona complicada demais para se explorar, porque já foi explorada com exaustão por outros diretores, sendo pouquíssimos os que se bem sucederam.

CONCLUSÃO...
Em resumo é mais um filme sessão da tarde ou de domingo, e que mesmo sendo bastante feminino, não é apenas para mulheres. Catherine Hardwicke e a roteirista Morwenna Banks até tentam sair da receita comum de se fazer um drama, mas é inevitável uma hora ou outra.

quarta-feira, 2 de março de 2016

NOSSOS 30 ANOS...

★★★★★★★☆
Título: Mistress America
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Greta Gerwig, Lola Kirk
País: Estados Unidos, Brasil
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A vida de Tracy era sem graça e desmotivante, até conhecer sua irmã postiça, Brooke.

O QUE TENHO A DIZER...
Se é fixação de Greta Gerwig em estar perdida no que ser ou fazer nos redores dos 30 anos em Nova York, então parece até justo considerá-la uma excelente aspirante a uma versão feminina, mais contemporânea e despretenciosa de Woody Allen. O que é uma excelente coisa visto que o cinema atualmente carece dessa autoria mais introspectiva, utilizando o cotidiano como uma análise pessoal de escolhas e vontades, e como ele interfere em tudo isso.

Em Frances Ha (2012), filme também dirigido por Baumbach e estrelado por Gerwig (e escrito pelos dois), a protagonista estava prestes a completar 30 anos e se encontrava na difícil situação de se encaixar em algum lugar. O que salvava Frances de crises existenciais era seu inabalável otimismo, que mesmo sem ter onde morar ou dinheiro para comer, conseguia enxergar nas pequenas coisas um motivo para seguir em frente. De qualquer forma, dentro de Frances havia uma frustração, uma agonia por ainda não ter conseguido chegar lá, naquele lugar que ela não sabia exatamente qual era.

Aqui a narrativa é pelo ponto de vista de Tracy (Lola Kirke), uma jovem que acabou de completar 20 anos e que está tendo dificuldades de se adaptar na rotina acadêmica da faculdade por sofrer de procrastinação e pela maneira um tanto inútil com que as matérias são conduzidas. Ela se sente desencaixada do mundo, pois as pessoas a sua volta não pensam como ela e não agem de maneira bastante inteligente como ela espera. Seu hobbie é escrever histórias, e sua aspiração é ser um dia uma grande e reconhecida escritora de sucesso, interessante e rodeada de pessoas importantes em um belo apartamento. Sua atual frustração é não conseguir fazer parte do seleto clube literário da faculdade, o único lugar no qual tem real interesse e acredita que será o ponto de partida de seu promissor futuro. Enquanto não consegue ser aceita pelo grupo, divide seu tempo trocando e comentando textos com seu único amigo e confidente, Tony (Matthew Shear).

Se ignorássemos a sinopse, seria até fácil imaginar que a atriz Lola Kirk representasse uma versão adolescente da protagonista e que a qualquer momento Gerwig entraria em cena em outro espaço e tempo como uma versão mais madura e atual, já que o início do filme causa essa impressão, além de Kirk ter uma semelhança física e comportamental com Gerwig muito grande. Mas na verdade Gerwig é Brooke, a irmã postiça que Tracy terá assim que seus respectivos pais se casarem. Elas não se conheciam, e quando isso acontece a identificação de ambas é imediata, quase simbiótica. O estilo de vida de Brooke, junto com sua personalidade extrovertida, livre e cativante a faz ser uma personagem marcante de uma fantasia que Tracy alimenta para si, aquilo que ela gostaria de ser, mas não imagina um futuro que a faça ser. E a partir de um comentário fantasioso de sua nova irmã, junto com todas as saudáveis impressões construídas, tudo a incentiva escrever sobre isso, e então a Mistress America do título (ou Dona America) surge, em conotação ao seu grande poder e importância.

Toda essa determinação e autoconfiança de Brooke nada mais são do que autodefesas para sua frustração e insatisfação em estar nos seus 30 anos mas sem ter conquistado algo sólido. Como ela mesma caracteriza, uma fase em que a cada ano que se passa as vontades aumentam e se tornam maiores porque as possibilidades se tornam cada vez menores. E tudo na vida da personagem agora se baseia apenas nisso. E por não ser um drama, o que faz toda essa desconfortante situação não se tornar um peso que puxe o filme para baixo é, justamente, o otimismo.

Sim, é como se Brooke desse sequência à vida de Frances na parceria anterior de Noah Baumbach e Greta Gerwig, onde Frances representa o começo de uma vida adulta insegura e indeterminada, e Brooke seja a segunda fase desse processo, em que o foco existe, mas as possibilidades ainda sejam limitadas. Ao mesmo tempo Tracy é um meio termo entre duas personagens tão cotidianas, talvez a caracterização da motivação que as fazem seguir em frente, independente das dificuldades.

É mais um filme interessante dos dois, que dá oportunidade para Gerwig novamente explorar esses conflitos e contradições da vida adulta jovem no seu tom bem humorado, peculiar e despretencioso. Uma visão um tanto "aestética" da realidade, ou seja, com certo tom de improviso, que não segue padrões estéticos convencionas, tal como uma música de Clarisse Falcão, em que tudo a princípio parece não ter ordem nem sentido, mas no fim tem compasso e coerência. E mesmo Gerwig saindo do protagonismo e dando maior espaço para Lola Kirk brilhar, é impossível não dar atenção ao seu carisma, sendo ele quem toma conta de toda a história no fim das contas.

E para Noah Baumbach, que dirige e também divide o roteiro com Gerwig, toda essa visão tragicômica das coisas é um prato cheio para sua perspicácia que igualmente evita o comum sem deixar de lado a vitalidade clássica das coisas, seja na segurança com que conduz as cenas, seja no caos organizado que consegue criar principalmente quando a história engata em alguma situação absurda que promete, como a visita de Brooke a uma antiga colega. É quando percebemos que o roteiro é muito mais sólido do que simplesmente um slice of life (representação de um pedaço da vida ou do cotidiano), mas um condensado contundente de que muitas das nossas vontades e aspirações afloram com o sucesso de outros, e sem querer essa cobiça se transforma em nossas piores frustrações numa cadeia que não tem idade para começar e nem para terminar.

O filme é leve e sem pretenções alguma, assim como foi Frances Ha, e nem por isso deixa de fazer seu espectador pensar sobre a vida ou se identificar com esses filmes e personagens. E tudo isso de forma muito simples e acessível, sem necessidade alguma de tomadas longas com discursos existenciais complexos e alienantes, pelo contrário, tudo dentro de um humor simples, inspirador e motivante.

CONCLUSÃO...
A parceria entre Baumbach e Gerwig é como Tracy e Brooke, e Mistress é mais um filme dos dois que dá certo e que de novo nos leva a fases complicadas da vida, mas que os dois conseguem sintetizar tudo com delicadeza e simplicidade.

terça-feira, 1 de março de 2016

MUDANÇAS E VALORES...

★★★★★★☆
Título: O Verão do Skylab (Le Skylab)
Ano: 2011
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Eric Elmosnino, Emmanuelle Riva, Denis Menochet
País: França
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Durante o verão de 1979, toda uma família francesa se reune para comemorar os 67 anos da matriarca, e aquilo que parecia uma reunião, se transformou em uma experiência marcante e transformadora.

O QUE TENHO A DIZER...
Julie Delpy é um daqueles multitalentos que raramente se vê. Ela dirige, escreve, atua, edita, compõe e canta. E é difícil citar apenas um que ela seja boa porque faz todos muito bem. Fazer parte da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Por do Sol e Antes da Meia Noite, não é o suficiente para resumir seu talento. Embora a abordagem aqui seja completamente diferente da comédia romântica 2 Dias Em Paris (2 Days In Paris, 2007), ou no drama histórico A Condessa (The Countess, 2009), Skylab não deixa de ser igualmente interessante.

Em uma viagem de trem com seu marido e filhos, Albertine (Karin Vilard) tenta reorganizar os passageiros do vagão para que sua família possa ficar unida. Sem sucesso, ela se senta separada dos demais, e por um momento se permite voltar ao passado. Suas memórias voltam ao verão de 1979, quando tinha apenas 11 anos e sua grandiosa família se reune às vésperas da primeira estação espacial, Skylab, reentrar na atmosfera por um acidente, ameaçando cair em algum território habitado.

Dessa vez Delpy mergulha em uma nostalgia resgatada de sua própria infância em um filme mais autobiográfico do que pareceu ser 2 Dias Em Paris, mas acima de tudo, nos traz de volta uma época que há muito foi esquecida, onde computadores, celulares e a internet não interferiam na natural decorrência de experiências e aventuras da idade. Uma época em que crianças brincavam livres nos quintais de suas casas, exploravam o mundo que as rodeavam e ouviam conversas adultas cujos significados pouco importavam. Adultos e crianças misturados, assuntos dos mais diversos com conotações sexuais e políticas que hoje soariam chocantes, mas eram tão naturais quanto fumar em ambientes fechados. E nem por isso a infância era perdida ou a inocência corrompida, nem mesmo em uma praia de nudismo. Cada um sabia sua idade, seu lugar, e seu respeito. Não havia excesso de malícia, e isso era o que bastava.

Em uma primeira parte a história não evolui muito além de embalar o espectador nessa viagem nostálgica um tanto Woody Allen de ser pelo ponto de vista da pequena e curiosa Albertine. É muito mais apreciada principalmente por quem nasceu entre os anos 70 e 90, pois irão se identificar mais facilmente com essa bagunça familiar costumeira e aquela sensação grandiosa da infância e pré adolescência de que tudo era possível e que apenas o céu era o limite.

Delpy desenvolve uma narrativa que faz toda uma época ter sentido, e constrói com imagens memórias e situações que se perderam com o tempo, como a da família como uma unidade inviolável mesmo entre escândalos da matriarca aniversariante na mesa de almoço enquanto uma discussão política acontece entre uma parte de esquerdistas feministas e outra de direitistas fascistas.

Mas em uma segunda parte, que coincidirá com a queda do Skylab, é quando Delpy emerge a densidade na história e a sensação de tudo estar passível de mudanças é exposto, desde o tio que voltou da guerra com profundos traumas psicológicos, ou até mesmo a própria Albertine que repentinamente atinge a puberdade, pegando todos de surpresa. Uma simbólica metáfora de que o tempo não para e que a modernidade tem feito a maturidade chegar mais precocemente do que se espera, e junto com ela a perda de certos valores morais que a própria Albertine adulta havia perdido. A diretora e roteirista usa a histeria coletiva da possível queda do Skylab como um excelente ponto de tragédia, seja para Albertine que se confronta pela primeira vez com a possibilidade de morrer, como será para os outros o fim de uma era de medo e dúvidas e o começo de um provável futuro promissor.

Com um visual memorável que relembra os principais detalhes da época, e uma bela fotografia que acentua mais ainda o poder familiar perdido e a importância da infância como um fator obrigatório de descobertas e mudanças, Skylab é delicado até mesmo nos momentos em que tenta ser denso, pois Delpy injeta comedidas doses de humor trágico para que esta comédia familiar não se transforme em um drama desnecessário. Afinal, a intenção é mostrar as aventuras e desventuras, os prazeres e desprazeres que transformam indivíduos tão únicos e diferentes em uma unidade tão forte sem uma razão óbvia.

Não é um filme de narrativa dinâmica ou hilária. Um pouco longo até sua conclusão por conta de excessos de cenas para construir essa atmosfera familiar com o espectador, mas que com o passar dos minutos se transforma em uma viagem interessante ao passado, contada de maneira bastante clássica e confortante mesmo assim. Porém, não entrega tudo aquilo que promete. Não é tão cativante quanto se espera, nem tão impressionante como parecia. Poderia ter estendido um pouco mais os conflitos políticos e as diferenças de ideais em um período de ascensão feminista e declínio de intenções comunistas, não pelo drama, mas pelos argumentos em si, pois os melhores diálogos do filme acontecem justamente quando esses temas são postos sobre a mesa.

CONCLUSÃO...
Uma bela e nostálgica viagem ao tempo que devolve valores há muito esquecidos. Se perde um pouco no tempo, se estendendo em situações que pouco levam a algo, e encurtando outras que fariam do roteiro algo não mais interessante, mas que traria um equilíbrio mais apreciável entre o humor cáustico de Delpy e a densidade que a história não construiu apropriadamente.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O OSCAR MAIS NEGRO DA HISTÓRIA...

Recapitulando...

Quando os indicados ao Oscar 2016 foram anunciados, Will Smith tinha tanta certeza que seria indicado que ficou um tanto "magoado" por descobrir que não havia sido. Ele ergueu a voz e decretou boicote à premiação justificando que a Academia ignorava negros, sendo o segundo ano consecutivo que nenhum deles era indicado nas categorias principais.

Pode-se imaginar a dimensão da polêmica. Muita gente desaprovou a atitude, outros aprovaram, e alguns poucos apoiaram de maneira diferente, como foi o caso de Spike Lee, que defendeu que a culpa não é da Academia em si, mas da desigualdade da Indústria como um todo. Claro que o discurso de Lee foi muito mais sensato e coerente, sendo basicamente em cima desse discurso que o Oscar se levou a sério, e sendo em cima do discurso de Smith que o Oscar fez piada do início ao fim como um belo tapa na cara.

Sim, de fato culpar ou boicotar a festa não mudaria nada. A mudança deve ser feita na base, partindo-se do princípio de que a arte não tem cor. As oportunidades devem ser iguais na hora da escolha de elenco, justamente para que quando um juri sente em uma mesa, essa igualdade se reflita nos votos e indicações.

Embora Chris Rock tivesse sido contratado para apresentar a premiação antes da polêmica acontecer e ironicamente Spike Lee ter recebido um prêmio honorável, a Academia não conseguiu esconder o desconforto porque toda a festa foi desenvolvida de tal forma a promover a doce ilusão de que o Oscar é igualitário.

Os organizadores espalharam estrategicamente negros por todos os lados: das zonas de entrevista no tapete vermelho ao auditório, do auditório aos bastidores. Artistas negros importantes (e os mesmos de sempre) apresentaram prêmios ou indicados. Até mesmo o maestro da orquestra não era mais o mesmo senhor branco e de cabelos brancos dos anos anteriores.

Vale dizer que não apenas negros, mas a organização também fez questão de promover a diversidade com etnias diferentes também. E entre piadas irônicas e discretamente insultuosas de Chris Rock naquela velha idéia de transformar a própria premiação em uma figura de chacota, o Oscar deste ano foi, sem dúvida, o mais negro e diversificado de todos, para que qualquer negro ou mexicano pudesse se orgulhar.

Eu tenho uma certa dificuldade em entender o humor norteamericano, e por isso fico na dúvida se Chris Rock foi coerente o tempo todo, ou simplesmente atuou como o host obrigado a agradar, acima de qualquer coisa.

Foi bom? Sim, foi. Mas não foi natural. Natural teria sido se nos anos anteriores essa diversidade tivesse sido igualmente farta assim. Foi uma atitude forjada por conta de um grito que virou polêmica, um grito que pode ter sido feito de maneira e em hora errada, mas que no fundo incomodava muita gente e ninguém teve coragem de soltar. Honesto teria sido a Academia reconhecer que essa desigualdade social existe na Indústria e abraçar a causa, mas não... como se não bastasse, houve até oportunidade para Cheryl Isaacs tomar a frente do palco para mostrar ao mundo que, vejam só... ela é negra e Presidente da Academia.

Em uma visão generalista, é fácil ser presidente negro, mas é difícil agir para os negros. A Indústria é tão igualitária que os mesmos atores negros de sempre foram chamados para participar da premiação: Morgan Freeman, Whoopi Goldberg, Angela Bassett, Quincy Jones... os mesmos que são tão os mesmos que estão até velhos, enquanto a variedade branca é sempre muito grande e jovem. É tão igualitária que, nos últimos 5 anos, apenas Lupita Nyong'O foi revelação, enquanto nesses mesmos 5 anos, no mínimo uns 5 nomes de atrizes brancas se destacaram, incluindo Brie Larson este ano.

Foi óbvia a atitude desesperada da Academia em levar toda a situação na brincadeira e com sorriso amarelo ao mesmo tempo que tenta se desculpar de mais de 80 anos de erros. Foi como Chris Rock disse... para quê dar gritos de protesto sobre o Oscar agora, depois de tanto tempo? A resposta é clara: antes tarde do que nunca. 

Então vejo a posição de Will Smith contraditória, pois foi tomada mais pra disfarçar um rancor do que uma incrível necessidade de mudança, mas ao mesmo tempo é possível ver que o cenário se transforme a partir de agora mesmo assim.

E dentro de toda essa injustiça social sólida, também foi interessante ver mexicanos fazendo história na premiação: Emanuel Lubezki levando o prêmio de Melhor Fotografia pelo terceiro ano consecutivo, e Alejandro Iñárritu levando o prêmio de Melhor Diretor pelo segundo ano consecutivo. Duas situações historicamente raras de se acontecer. E se contarmos o prêmio de Cuarón em 2014, é o terceiro ano consecutivo que um mexicano leva o prêmio de direção. Ou seja, mais raro ainda, e de fazer Donald Trump morder os punhos de raiva e querer construir uma muralha nas fronteiras o mais rápido possível.

No mais foi uma festa "rápida", dentro de um tempo mais justo que o tomara-que-caia de Sofia Vergara. E as maiores surpresas foram com a premiação de Mark Rylance ao invés de Sylvester Stallone na categoria Coadjuvante, e a preferência de Spotlight (2015) ao invés de O Regresso (The Revenant, 2015) na categoria Melhor Filme.

O brasileiro Alê Abreu não levou o prêmio, e preferiram Sam Smith ao invés de Diane Warren e Lady Gaga, em uma performance exagerada e teatral como só ela poderia fazer. A impressão que eu tinha é que enquanto uma lágrima dela não escorresse, ela não sairia do palco. Não escorreu, e ela teve que sair. Mas enfim... perto da sofrível performance de Sam Smith, numa música fraca e um tanto oca, de fato a canção de Gaga/Warren poderia ter ganho.

No mais foi a mesma festa protocolada e monótona de sempre, e se em resultado do protesto feminista do ano passado esse ano o protocolo proibiu repórteres de perguntarem às mulheres o que elas vestiam, pode ser que a partir do ano que vem os negros sejam mais ativos na premiação de maneira mais natural e não forçada como foi nesse.

Ah, e estava me esquecendo... DiCaprio finalmente levou o prêmio

sábado, 27 de fevereiro de 2016

COMO TODA CONTINUAÇÃO MAL PENSADA...

★★★☆
Título: O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino (Crouching Tiger, Hidden Dragon: Sword Of Destiny)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Artes Marciais
Classificação: 14 anos
Direção: Yuen Woo-Ping
Elenco: Michelle Yeoh, Donnie Yen, Shuya Cheng, Natasha Liu Bordizzo
País: China
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
18 anos após a morte de Li Mu Bai, a Destino Verde vira alvo dos clãs ambiciosos que almejam o poder e domínio marcial.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Ang Lee dirigiu O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000), ele consolidou o seu estilo de unir a cultura oriental com a ocidental de forma acessível e inspiradora. Baseado no quarto livro da pentalogia Crane-Iron, de Dulu Wang, era basicamente um drama sobre honra, respeito e amor, onde o estilo Wuxia predomina, que são histórias da cultura chinesa contadas como lendas, sempre narrando aventuras de mestres em artes marciais (ou guerreiros voadores) na China antiga.

O tremendo sucesso do filme fez a especulação sobre uma continuação sempre existir, mas Ang Lee nunca demonstrou interesse. Essa idéia se arrastou até 2013, quando a onda de reboots mostrou-se algo lucrativo e a Weinstein Company, juntamente com o Netflix, resolveram produzir uma continuação direta baseada em Iron Knight, Silver Vase, último livro da série.

Lançado simultaneamente no serviço e em cópias limitadas no cinema, teria sido um fenômeno se feito dez anos atrás, mas agora nada mais é do que uma oportunidade interessante para o Netflix continuar fazendo aquilo que aprendeu bem, que é pegar para si aquilo que os outros jogam fora.

A história segue 18 anos após a morte de Li Mu Bai no primeiro filme. O clã do qual Yu Shu Lien (Michelle Yeoh) faz parte se reduziu a poucos, e uma guerra se estabeleceu para que seja imposto um clã dominante no mundo marcial, e novamente a Destino Verde se torna alvo de ambição de muitos, cabendo ao clã de Shu Lien defendê-la e mantê-la nas mãos dos bem intencionados enquanto uma história de amor se forma e outra tenta ser superada.

Sinceramente, o resultado é equivocado como toda continuação mal pensada. A direção foi parar nas mãos do coreógrafo marcial chinês Yuen Woo-Ping, responsável pela coreografia tanto do filme original quanto de Matrix (1999) ou Kill Bill (2003), e sua inexperiência fez todo o respeito cultural que Ang Lee esculpiu com esmero no filme original ser destruído sem qualquer cerimônia pelo simples fato de não ser em mandarim. Ao invés disso é em lingua inglesa, algo sempre visto pelos chineses como uma afronta quando se trata da cultura deles. 

A trama de fato começa quando um misterioso mascarado tenta roubar a Destino Verde da Casa de Chá na calada da noite. É... de novo! A gente já viu essa mesma situação no filme original, e é até bom quando isso acontece porque dá pra fazer uma comparação direta. Aquilo que nas mãos de Ang Lee parecia um poema belamente coregrafado e até com um sutil humor, aqui se torna uma lutinha sem sentido, monótona, cheia de pausas e câmeras lentas indevidas que fazem toda aquela dinâmica de um filme marcial perder a graça. Sem falar da incrível previsibilidade da situação que já deixa evidente que serão eles o par romântico principal da história. Tenta criar situações engraçadas entre um golpe e outro, mas a edição arrastada não ajuda.

A incompetência é nítida. O roteiro de John Fusco nada tem daquela fantasia e senso histórico do anterior, e os diálogos ruins fazem os novos personagens serem esquecíveis, mais ainda quando em atuações sofríveis como a de Natasha Liu Bordizzo, a quem foi dado o papel de Vaso de Neve. Woo-Ping não consegue conduzir seus atores, muito menos posicioná-los. A câmera constantemente estática deixa as cenas apáticas. Várias das sequências começam (ou terminam) em planos aéreos para mostrar os cenários digitalizados e sem vida. Não há ousadia, nem identidade. Aliás, sobre os cenários, é constante a sensação de que eles não se conectam. De um campo vai para as montanhas, que vai para a Casa de Chá e que pula pra floresta. Não há transições, não há uma vida dentro do filme e nem uma continuidade aceitável. O que existe são esquetes em cenários para tentar reproduzir genericamente ou causar o mesmo impacto visual que o filme de Ang Lee causa com deslumbre.

Até mesmo as cenas de luta, o principal atrativo para o público que espera isso, e que é o verdadeiro talento do diretor, aqui parece uma sátira, uma brincadeira de quintal. A coreografia não é fluida, percebe-se uma certa "demora" na execução dos movimentos, como se os atores estivessem pensando nas marcações, algo que no original nunca acontece. Então não convencem, pelo contrário, acentuam mais ainda a insegurança dos atores em realizá-los. Apenas nas últimas batalhas que essa sensação melhora um pouco.

De repente o filme se torna um pastelão chinês, com batalhas sem sentido, personagens que se apresentam como super heróis engraçadinhos e que fazem caretas o tempo todo. Aí que a oportunidade do filme ser algo sério se perde de vez. Talvez a situação mais estranha seja a da personagem Jen Yu, que no filme original foi interpretado por Ziyi Zhang, a qual se atira em um precipício para se redimir de suas culpas e deixa a história em aberto se aquilo foi um suicídio ou uma fuga. A presença da personagem, agora vivida por Shuya Chang, não é esclarecida, e nem ao menos há um confronto entre ela e Shu Lien, o que, por vias de ser uma continuação direta, deveria ter sido obrigatório, já que toda a trama do primeiro filme aconteceu, em grande parte, em torno disso. Mas ao contrário do que se espera, ela entra e sai do filme como algo irrelevante.

É triste admitir, mas tudo é muito artificial e amador, algo que pelo trailer já esperava-se. Michelle Yeoh até tenta carregar nas costas, mas não consegue. É tudo tão forçado e distante do original que até os figurantes parecem estar lá sem saber porque estão. A única coisa que atrai (se é que pode-se dizer isso) é uma ou outra sequência e a fotografia, que por muitas vezes consegue ser bonita, mas não porque foi algo estratégico, mas um susto que deu certo porque a câmera está sempre em angulações confortáveis, tiradas de um manual de como fazer um filme em nível básico.

Definitivamente o Netflix errou. Claro que não deixa de ser um entretenimento e uma opção a mais exclusiva pra quem assina o serviço, mas não há motivo de assisti-lo quando o original também está disponível. Se tivessem feito um seriado baseado nos livros talvez o resultado teria sido muito mais interessante, e mais a cara do serviço.

CONCLUSÃO...
Se não serve pra ser assistindo nem como filme para televisão, serve menos ainda para ser assistido como uma sequência de uma obra prima que uniu o cinema comercial com o alternativo da cultura chinesa. Um clássico de Ang Lee insubstituível.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O MUNDO QUE VIVEMOS...

★★★★★★★★☆
Título: O Quarto de Jack (Room)
Ano: 2015
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Lenny Abrahamson
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, William H. Macy, Sean Bridgers, Joan Allen
País: Canadá, Irlanda
Duração: 118 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher e seu filho se libertam de um quarto por onde viveram anos. Ao saírem enfrentarão processos de descobertas, mas não mais na mesma sincronia.

O QUE TENHO A DIZER...
Joy (Brie Larson) foi sequestrada e mantida em cativeiro por sete anos. Frequentemente molestada pelo seu sequestrador, foi assim que engravidou de Jack (Jacob Tremblay), e assim o manteve por perto para motivá-la a viver nas condições de extrema solidão em que foi posta.

Os anos se passaram e Jack completou 5 anos. O mundo não se transformou ao seu redor, e o ambiente em que vive é, para ele, como uma extensão do útero de sua mãe, uma parte viva que o complementa, enquanto para Joy, o mundo que vivia teve de ser abandonado. Um mundo paralelo e escapista teve de ser criado para que seu filho se adequasse àquela realidade. Tanto que Jack se refere ao Quarto como uma pessoa, e não como um lugar, até porque ele não sabe o que são lugares, já que nunca esteve em outros.

Embora O Quarto De Jack seja um drama sobre a penosa vida em cativeiro que a protagonista se encontra e a forma como aprendeu a se abstrair disso, chega um momento em que sua história se transforma em um mar de descobertas em todos os sentidos. E grande parte disso se deve pelas observações de Jack e sua visão infantil e ingênua sobre os diferentes mundos que se chocam para ele em contraponto à visão mais comum e conformista de sua mãe após a libertação.

Os mundos reais e imaginários se confrotam quando Joy finalmente percebe que Jack não pode continuar vivendo daquela forma, e que um dia ele perceberia que há muito mais além das quatro paredes. Em um ato de desespero e sem escolhas, ele é jogado para fora do quarto, e é quando Jack conhece o mundo como se nascesse novamente. Tudo será uma descoberta e uma novidade, enquanto para ela o processo será mais doloroso e inverso em reflexo à sua perda de identidade e função depois de sair do cativeiro.

O filme definitivamente consegue abordar de forma bastante sutil os traumas tanto de Joy quanto de seu filho. Conseguimos nos colocar no lugar de ambos e imaginar como deve ser para Joy ter de abandonar em absoluto o mundo e as pessoas que amava, e como deve ser para Jack acreditar que a cama, as cadeiras, a mesa, a pia, o guarda roupa e a clarabóia são a constituição máxima de seu mundo. Mesmo que seja uma criança com uma condição mental plástica, ou seja, que se adapta facilmente, é imaginável o choque para ela ao abrir os olhos e descobrir que as únicas paredes que existem no mundo são aquelas que os próprios homens constróem. Enquanto para Joy essa plasticidade em se readaptar às situações não será tão simples assim, e acreditará ser mais fácil manter-se aprisionada em um lugar onde ninguém possa ter acesso.

Talvez a maior dificuldade da protagonista seja cortar o cordão umbilical imaginário de seu filho. Ela desenvolveu um estado de dependência e cuidado, e Jack foi seu único objetivo para continuar viva dentro do cativeiro. Ao sair dele ela entra em pânico ao perceber que ele está se adaptando bem às bruscas mudanças, pois é como se os objetivos dela não existissem mais, como se ela não tivesse mais objetivos para continuar vivendo. É quando seus conflitos fora do quarto se estabelecem.

Não é um drama pesado como poderia ser, mas sem dúvida é bastante comovente e emotivo com honestidade e sem exageros. Quando se tem a impressão de que a carga dramática ficará mais pesada, é aliviada com a narrativa de Jack, que tenta colorir em palavras suas novas descobertas e sua visão particular sobre aquilo que o rodeia.

Quando o filme está sob o ponto de vista de Joy, é como se o mundo não fizesse tanta importância. Ele é cinza, opaco, sem graça e doloroso. Mas quando o ponto de vista de Jack vem à tona, é como se as janelas fossem abertas e percebessemos como desperdiçamos nossa vida sem prestar atenção à nossa volta, e que nós mesmos nos confinamos em nosso mundo particular mesmo vivendo em liberdade. Uma associação entre a realidade com o quarto em que viviam: pequeno, comum e limitado.

Essa diferença de percepções já foi usada pelo diretor Lenny Abrahamson anteriormente em O Que Richard Fez? (What Richard Did, 2012), um filme igualmente delicado, que não evita  mostrar como o peso de nossas escolhas são responsáveis por drásticas mudanças em nossas vidas.

O trabalho desempenhado por ele aqui segue no mesmo equilíbrio entre a sutileza e a densidade, emocionando nos tempos certos e sendo motivador desde o princípio.

Além do roteiro bastante linear e conciso de Emma Donoghue (também autora do livro), os méritos do filme se valem pelo fato de não haver um momento de desperdício. Todas as cenas são claras e diretas e respeitam toda a delicadeza da história. O elenco reduzido e extremamente competente também faz toda a diferença. Não é à toa que Brie Larson vem abocanhando os prêmios da temporada, a qual, para se preparar para o papel, ficou em reclusão por um mês em um único cômodo, dentro de uma dieta restrita, como acontece com sua personagem.

Uma pena que não fica muito claro como a protagonista foi parar lá ou quem de fato era seu sequestrador, só é comentado muito brevemente a circunstância em que ele se aproveitou da situação. Bate essa curiosidade, mas não há dúvidas de que o filme funciona muito bem sem isso. Também pode ficar um pouco estranho para alguns o motivo do pai de Joy não conseguir aceitar o neto, mas não havia forma mais sutil para demonstrar o ódio e repúdio que ele sente não pela criança, mas pelo causador de tudo aquilo.

Aliás, existe uma teoria de que todo filme fica mais interessante quando William H. Macy aparece, e realmente isso volta a acontecer aqui. Uma pena que sua participação é breve demais quando poderia ter sido maior ao longo da segunda parte da história.

Acho interessante a polêmica que se criou em torno da androginia da criança. Por ter cabelo comprido não se sabe ao certo se é um menino ou uma menina. Enfim, como se realmente o sexo da criança importasse no desenvolvimento da história. Talvez tenha sido exatamente por isso que ela foi caracterizada dessa forma e posteriormente caracterizada de outra, como se ela mesma tivesse encontrado sua identidade no mundo externo.

O filme tem sido vendido como baseado em fatos reais. E embora o livro tenha levemente se baseado em um fato verídico, o diretor afirmou que o filme não faz referência a nenhum fato real.

CONCLUSÃO...
Um filme delicado e interessante que também funciona bastante como uma metáfora quando pensamos que, mesmo livres, nos limitamos e restringimos em um mundo imaginário dentro da imensidão de espaços e lugares a nossa volta. O Quarto não é um drama de vingança e de justiça, mas de diferentes percepções do mundo e daquilo que consideramos mundo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ULTIMAS APOSTAS PARA O OSCAR 2016!

Este ano, assim como tem sido nos anos anteriores, estát udo muito eclético, atuações bastante diferentes e roteiros variados caracterizam a temporada 2016 de premiações. Mas sem dúvida há um favoritimos maior nesse ano que nos últimos três. Se você não assistiu a todos os títulos, vale a pena. E para quem ainda não viu a lista de indicados, acesse AQUI.

MELHOR FILME
Novamente uma lista de oito títulos. Há drama, ficção científica, policial e até mesmo ação com Mad Max. Não há dúvidas de que os favoritos sejam A Grande Aposta (The Big Short, 2015) e O Regresso (The Revenant, 2015). Mas será o filme de DiCaprio que levará por motivos bastante evidentes. É um filme extremamente bem feito, um épico viceral de tirar o fôlego. Iñárritu novamente surpreendeu e, assim como Birdman (2015), o prêmio é merecido.

MELHOR DIRETOR
Adam McKay, de A Grande Aposta; George Miller, de Mad Max e Alejandro Iñárritu são os preferidos. Haveria grandes chances de McKay levar por determinados resgates narrativos em seu filme que deram uma interessante atualizada na linguagem moderna do cinema, bastante interessante e competente. Miller mereceria por um conjunto de obra, e até mesmo porque ele também atualizou sua linguagem e Mad Max consegue ser ao mesmo tempo clássico e contemporâneo numa mistura muito maluca que só ele soube fazer. Mas definitivamente o trabalho braçal de Iñarritu e toda essa viceralidade de O Regresso, os planos sequências fabulosos e o minimalismo técnico que transformou o filme em algo estupendo e deslumbrante contarão muito, e se Iñárritu levar o Oscar como Diretor pelo segundo ano consecutivo, será uma surpresa prevista, agradável e interessante, porque dobradinhas nessa premiação são difíceis.

MELHOR ATOR
DiCaprio e não se fala mais nisso. Muitos acreditam que ele deveria ter recebido o prêmio muito antes. Eu já não compartilho dessa opinião. Mas sem dúvida esse filme é o filme para o Oscar. DiCaprio se despiu completamente de qualquer zona de conforto. Encarar a natureza da forma como ele fez, e ainda oferecer uma atuação emocionante de todas as formas, é de cair o queixo. MAS... se ano passado o favorito era Michael Keaton, que perdeu a estatueta para Eddie Redmayne numa das maiores injustiças cometidas, não seria surpresa se esse ano acontecesse o mesmo e DiCaprio saísse chupando o dedo pela sexta vez enquanto Redmayne levasse o prêmio numa dobradinha. Confesso que acharia interessante se esse azar ocorresse, mas pode ter certeza que haveria uma revolta coletiva ao vivo.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Para ser bastante sincero, acredito que esta categoria esteja mais interessante que a de ator principal, só é um tanto ridículo terem dado a indicação para Christian Bale ao invés de Steve Carell, que sem dúvida é o cara que leva o público a delírio do início ao fim de A Grande Aposta. Há uma estranha torcida para Stallone levar, e é o que acredito que no fim acabe acontecendo.

MELHOR ATRIZ
Cate Banchett e Brie Larson são as favoritas. Jennifer está na lista só pra manterem seu status de estrela, porque embora ela carregue Joy inteiramente nas costas, não é uma personagem memorável, embora fabricada especialmente para esta ocasião. Então tem um ar teatral todo fake em torno, e poderá ser ignorada por isso. Charlotte Rampling desenvolve um trabalho excepcional em 45 Anos, mas é fato que a Academia costuma deixar passar atrizes maduras e pouco conhecidas nas Américas. Veja o caso de Emmanuelle Riva, que mesmo com 86 anos na época, desempenhou um trabalho formidável em Amour (2012), mas não levou o prêmio. Com 21 anos, é segunda indicação de Saoirse Ronan, bastante elogiada também, mas talvez não seja dessa vez novamente.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
A disputa está difícil. Pode ser Kate Winslet, pode ser a sueca Alicia Vikander, que poderia ter sido indicada por Ex_Machina ao invés de A Garota Dinamarquesa. Mas é capaz que Kate leve o segundo prêmio pra casa.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Ponte de Espiões, Spotlight e Ex_Machina são os preferidos. Acho o trabalho de Ex_Machina interessantíssimo, mas Spotlight definitivamente tem uma sutileza muito interessante na condução da história, sabendo desenvolver tudo muito bem sob o ponto de vista editorial da equipe jornalistica. Mas... a surpresa pode ficar mesmo para Straight Outta Compton, que é (chulamente dizendo) a versão hip hop de Whiplash (2014). Surpreendentemente Tarantino não entrou na lista, e particularmente dizendo era o que eu já esperava pois Os Oito Odiados, embora tenha uma idéia brilhante, se perde na megalomania tarantinesca de seu criador. Por outro lado Pontes dos Espiões é roteiro dos irmãos Cohen... então está difícil chegar a uma conclusão direta.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Definifitavamente irá para A Grande Aposta. E se não for, confesso que ficarei de cama, em choque, por uma semana. Perdido em Marte e O Quarto de Jack são igualmente favoritos, mas o roteiro de A Grande Aposta é extremamente moderno e diferente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

COMENTANDO O TEXTO: "O NEGRO NÃO ESCREVE, DIRIGE E NEM FAZ PARTE DOS CRÍTICOS"

Antônio Pitanga em foto para a coluna especial.
Fonte: UOL Entretenimento/Cinema
Quando li a coluna especial do Antonio Pitanga, entitulada O NEGRO NÃO ESCREVE, DIRIGE E NEM FAZ PARTE DOS CRÍTICOS, eu percebi em vários pontos a lucidez da discussão e a forma coerente que ele conduziu a segregação no meio artístico.

Assim como ano passado a discussão em Hollywood foi o espaço da mulher no cinema, esse ano a discussão é o espaço do negro, o que desencadeou uma série de discussões sobre o tema ao redor do mundo, em nações que sofrem do mesmo problema, principalmente no Brasil, um país onde mais de 50% da sua população se afirma negra ou parda, e que pode chegar facilmente aos 60% se considerarmos aqueles que negam a raça não por preconceito, mas por medo de sofrerem o preconceito.

A discussão começou porque Will Smith não foi indicado ao Oscar por Um Homem Entre Gigantes (Concussion, 2015). Revoltado, ele sua família resolveram boicotar o Oscar justificando a ausência de negros na premiação este ano. Certo...

Logo em seguida Spike Lee se agregou ao boicote, diretor que precisou arrecadar fundos no Kickstarter porque nenhum estúdio queria financiar um de seus projetos, mas afirmou categoricamente que não é pela premiação em si, mas pela indústria que não oferece espaço para os negros, o que resulta na baixa presença deles nas premiações. Sim, coerente e sensato, mais do que a família Smith.

Portanto, a briga não é por "cotas" no Oscar, mas maior participação dos negros em toda a indústria e em todo o processo.

Para aqueles que ainda não entenderam a problemática, aqui explico didaticamente: se em 100 filmes lançados 90 são com elenco principal predominantemente branco (diretores, produtores, roteiristas, atores, etc.) e apenas 10 deles possui elenco principal predominantemente negro, qual a probabilidade dos negros serem indicados nas premiações e nas principais categorias?

Probabilidade bem baixa, não é? Principalmente em um setor onde são lançados mundialmente entre 15 a 20 mil títulos por ano, sendo que, aproximadamente, apenas 8% desse número possui algum negro como protagonista ou coadjuvante principal.

No Brasil a situação "parece" não ser tão caótica quando se pensa em cinema: primeiro porque o número de produções é baixo; segundo porque as cotas exigem participação racial. Ajuda? Não. Porque tira-se as cotas e negros são extintos de partipação, sendo lembrados apenas para interpretar escravos, domésticas, cozinheiras e favelados. Não que hoje seja diferente, mas ao menos, entre uma novela e outra, Taís Araújo (que já interpretou uma escrava) faz uma mulher poderosa e bem sucedida. Ou seu marido, Lázaro Ramos, que foi o primeiro negro a ter tido a possibilidade de ser o protagonista de um seriado na maior emissora do país.

Terceiro problema é que aqueles que participam das produções e são contratados para cumprir a cota, são sempre os mesmos, como Taís Araújo, Lázaro Ramos, ou até mesmo a filha de Pitanga, Camila.

É difícil notar o número de negros no cinema e na televisão brasileira aumentar. São sempre pequenos grupos de Taíses, Lázaros, Julianas, Camilas e Majus, mantidos para camuflar a diferença real e existente, enquanto na novela Malhação (o principal termômetro da Rede Globo para novos talentos) é lançado anualmente de 5 a 10 novos nomes com promessa de estrelato. Todos brancos.

Diretores e roteiristas sofrem do mesmo problema. Se mal há espaço para atores, imagine para eles. Nos bastidores mais profundos confesso que desconheço, pode ser que alguns sejam contratados para os trabalhos mais braçais, mas duvido que exista algum produtor bem sucedido em atividade em grandes centros.

Aí você lê alguém comentar: é porque eles não foram bons o bastante.

Então, além de eles terem uma parcela participativa bastante baixa, obrigatoriamente precisam ser incrívelmente bons pra compensar o desfalque. Ou seja, um único negro precisa ser melhor que os 5 melhores brancos da fila.

Essa situação é bastante parecida quando ouvimos mulheres bem sucedidas dizerem: sim, tenho que me esforçar no trabalho para mostrar que sou melhor que os homens.

Isso é cruel e desumano. A escravidão dos tempos modernos.

Aí vem outra pessoa e comenta: se não há diretores, roteiristas ou comentaristas negros, é porque o material deles não é bom.

Quem disse que não é bom? Não é bom ou não é preferencial? Entre eu, um roteirista branco, e meu vizinho, um roteirista negro, a probabilidade de meu roteiro ser aceito é 95% maior do que a do meu vizinho, mesmo que meu roteiro seja inferior. Da mesma forma que, entre duas pessoas de diferentes raças capacitadas para o mesmo emprego, a possibilidade do branco ser contratado é infinitamente maior do que o negro. Mentira? Você empregador, sabe disso melhor do que eu. Basta me dizer quantos negros contratou nos últimos 10 anos para cargos de confiança ou que não sejam braçais.

Eu, nas minhas entrevistas, nunca vi darem preferência para o negro que passou pelo mesmo processo que eu. Aliás, em uma entrevista que fui, só havia brancos, na outra, três negros, dos quais nenhum conseguiu a vaga. Ao longo da minha vida acadêmica (entre ensino médio, superior e pós-graduação), só estudei com 2 negros, e um deles teve que comer o pão que o diabo amassou pra hoje fazer o mesmo que eu faço. Eu, no lugar dele e com o mesmo esforço, provavelmente já seria um diretor. E aí? Alguma coisa está errada, não concorda?

Aí algum empregador diz: eles não são capacitados.

Em primeiro lugar é o preconceito que muitas vezes dita que eles não são capacitados. Já se tem enraizado na cultura que negro é desqualificado porque é pobre já que, segundo o IBGE, dos 16 milhões de brasileiros miseráveis, 70% são pardos ou negros. Um negro que nasce em uma situação de miséria se submete a subempregos para sobreviver, é dinheiro para a comida e ponto. Nada mais. Sim, há muitos brancos na mesma situação, mas como a pesquisa mostrou, são "apenas" 30% dos miseráveis. E mesmo brancos e negros miseráveis terem as mesmas condições, é muito mais fácil para um branco sair dela do que um negro.

Então, nessa breve análise, percebe-se que uma afirmação tão simples como "negros não possuem espaço no cinema como os brancos", desenvolve um assunto muito complexo que sempre leva para outro nível de discussão. E apenas isso já demonstra que os problemas envolvendo preconceito, racismo e segregação vem muito mais de baixo do que se imagina, ao ponto de não sabermos onde se estabelece de fato, mas que está solidificada na cultura social de tal forma que, para as pessoas em geral, tudo isso parece muito normal.

E aí eu leio os comentários sobre essa coluna escrita pelo próprio Pitanga, e elas me chocam porque grande parte destes comentários é para justificar o racismo e sua existência, quando deveria ser o contrário. Muitos deles vem de pessoas que sequer leram o texto e soltaram comentários aleatórios sobre tudo, menos sobre do que o texto se tratava. O que claramente demonstra que o racismo é um problema sociocultural latente pela desinformação.

Quando Matt Groening criou Os Simpsons, a justificativa que ele deu para os personagens serem amarelos é para que não houvesse distinção de raça e que todos fossem iguais. Com excessão de um ou outro persongem caricato, já que estes costumam ser sátiras de figuras públicas, a Springfield dos Simpsons pode até ter personagens preconceituosos, mas pela ausência de cor, não são racistas.

Pitanga diz que a arte não tem cor, mas é na hora de montar um casting que o contrário se prova. Ao invés de enxergarem atores em um tom monocromático, como são os Simpsons, a diferença entre as cores é propositalmente acentuada, como em um filme preto e branco.

A arte só tem distinção de cor quando uma raça é representada, caso contrário, afirmar que um ator branco foi escolhido porque o personagem em que ele é baseado é branco ou porque ele é descrito como branco, não é justificativa. Frequentemente personagens masculinos são readaptados para mulheres, o mesmo para os homens. Da mesma forma como atualmente virou moda atores interpretarem personagens femininas, e o mesmo com as atrizes. Ou em um caso de etnia, em que chineses ou koreanos interpretam personagens japoneses ou vice-versa. Isso acontece porque a capacidade de interpretação é a mesma, e o resultado é o mesmo independente da forma ou da pele porque não são elas quem representam, mas a pessoa, o ator.

Dizem que Morgan Freeman afirmou que o dia que a discussão racial parar as coisas tomarão o rumo certo. Óbvio, porque o dia que a discussão racial parar significa que não é mais necessário tê-la. Se ela existe, é porque é necessário. Se você ignora ou se irrita com os negros que querem tê-la ou brancos que querem desenvolvê-la, é porque o problema parte de pessoas como você.


Portanto, vale um top 10 comentado dos "melhores" comentários feitos na coluna, e se você se identifica com algum deles, sim... você é racista e preconceituoso:

1) Igualdade racial se faz com trabalho, deixe de esperar de graça o que você tem e deve fazer.
Igualdade racial se faz com o trabalho de todos, principalmente porque essa segregação surgiu pelos brancos, algo que permeia na História até hoje. Portanto, existe débito histórico e atual.

2) O problema de muitos de cor preta é o mesmo de muitos de cor branca, e de muitos de cor parda, e o de muitas mulheres de todas as cores, chama-se preguiça.
É presunçoso citar um defeito nato do ser humano, tanto que é um pecado capital no catolicismo justamente porque todo mundo comete. A única coisa que se tem certeza é que a proporção de oportunidades para brancos é muito maior do que para negros. Tanto que 70% dos empregados no país são brancos enquanto 70% dos miseráveis são pardos ou negros. Reflita.

3) Sempre a mesma balela...
Talvez porque essa "balela" de problema afeta mais de 50% da população brasileira parda ou negra. Agora imagine no mundo?

4) O negro não escreve porque é negro?
Mania da ignorância torcer fatos e transformar qualquer opinião antirracista em "coitadismo". A discussão não é essa. A discussão é: Por que o negro que escreve não tem espaço? Assim como o negro que atua, que dirige, que administra, que organiza, que cria, que estuda e que desenvolve não tem espaço.

5) Assim como negros ajudaram a criar a escravidão, muitos negros se auto boicotam das oportunidades.
Bom... primeiro que existem várias formas de escravidão ao longo de toda a História. A escravidão negra, ocorrida entre os séculos XVI e XIX, é uma delas. Então afirmar isso é o mesmo que dizer que os judeus ajudaram a criar o nazismo.

6) A velha historia de complexo de inferioridade... Principalmente vindo de atores, atrizes. Nunca vi ou ouvi nenhum jogador de futebol, cantor de samba ou pagode ou axé reclamando pelo fator de ser negro... Parece que se o cidadão é negro ele já tem motivos para se auto descriminar... Essa sempre ladainha...
Já é involuntariamente imputado aos cidadãos negros motivos para serem discriminados. A alienação das pessoas de que a discriminação não existe é tão grande que mesmo quando jogadores de futebol são chamados de macaco, cantores de samba, pagode ou axé são ofendidos na rua... todo mundo acha isso normal e diz que "nunca viu ou ouviu algo do tipo", como se tudo fosse um sonho.

7) Spike Lee é negro. Barack Obama é negro. Oprah Winfrey é negra.
A velha história de usar poucos exemplos pra tentar justificar um problema de milhões. Com excessão de Spike Lee, que é um negro militante de sucesso, Barack Obama é considerado "o presidente de alma branca" pelos negros por motivos evidentes. E Oprah Winfrey é apenas uma metáfora, feita um exemplo de sucesso para alimentar a ilusão de que diferenças não existem. Dúvidas? Então existem mais Oprahs por aí, ou só Uma*?

8) Ou seja, a culpa é dos negros de não mudarem as coisas na ação. Você não muda reclamando rapaz, só mulher consegue isso porque sempre tem um homem trouxa para fazer algo por elas.
A reclamação é o último recurso quando se não consegue um objetivo por fatores óbvios, e isso é com absolutamente tudo, até mesmo no liquidificador queimado que você comprou das Casas Bahia. E sobre as mulheres, em uma sociedade machista e sexista que vivemos, assim como os negros, reclamar é o que resta para muitas delas.

9) Eu acho que os albinos também são injustiçados. Nunca vi um albino ganhar o Oscar.
Pra começar, albinismo não é raça. Segundo porque, por incrível que pareça, a incidência do albinismo entre os povos africanos é alta, e estima-se que a porcentagem de albinos nos mundo não chega nem a 1%. Imagina então quantos deles são atores, ou quantos deles não sofrem o mesmo tipo de preconceito?

10) Sou caucasiano e o melhor ator para mim há muito tempo: Denzel Washington, melhor lutador de box da história: Cássius Clay, melhor jogador do mundo desde de que surgiu o futebol: Pelé. Meu melhor amigo durante toda a faculdade, o "NEGÃO" Joel...
É a mesma coisa que afirmar que não é homofóbico porque tem amigos gays. Novamente pessoas usando pequenos exemplos pra justificar ou camuflar um problema, ou simplesmente ignorarem que esses problemas existem. Denzel Washington e Morgan Freeman deveriam ganhar o prêmio Top Of Mind do cinema, porque todo mundo que se diz não racista, só citam eles.

Conclusão? Esse "bla bla bla..." ou "mi mi mi...", como alguns dizem ser, continuará existindo por muito tempo enquanto o homem em si não perceber que só existem duas diferenças: seres racionais e irracionais. E por mais que eles ajam de forma irracional, nós não os excluímos por isso. Portanto, o mesmo não deve ser feito por uma questão de cor.





*Piadinha sem graça pra relaxar, em referência ao Oscar de 1995.
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