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segunda-feira, 13 de julho de 2015

ATERRORIZANTE COMO SE DEVE...

★★★★★★★★
Título: Corrente do Mal (It Follows)
Ano: 2014
Gênero: Terror, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Daniel Zovatto, Olivia Luccardi, Lili Sepe
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um encontro inocente entre dois jovens faz uma garota ser aterrorizada por algo que envolverá seus amigos em uma situação em cadeia inexplicável.

O QUE TENHO A DIZER...
A câmera gira levemente para mostrar uma casa de onde sai correndo uma garota. Annie está aflita, indo para o meio da rua enquanto sua vizinha pergunta se está tudo bem. Fugindo de algo que não sabemos, ela retorna para sua casa, completando um trajeto circular. Ela entra. Alguns segundos se passam e Annie novamente sai com a chave do carro nas mãos. A câmera, que a acompanhou em um pivô de 360° durante toda essa situação, continua lá, observando tudo do mesmo ponto até o carro partir.

Nessa continua apresentação, a excelente forma narrativa usada pelo diretor e roteirista David Robert Mitchell cria toda a atmosfera aterrorizante de um perigo que não se vê, mas sabemos que está presente. O cuidado visual nos detalhes de mostrar ao espectador toda a cena de forma simétrica e panorâmica é a alma de todo o filme. Mitchell não usa o foco para direcionar nossa atenção de forma didática, pelo contrário, ele explora a visão periférica com sutileza e profundidade. Tudo é conduzido de forma lenta, abusando de planos sequência para que o espectador tenha tempo de observar com cautela não apenas as ações dos personagens, mas todas as composições do cenário onde estão, até porque a história nos obrigará a isso.

Não há maneiras de explicar o enredo do filme sem deixá-lo simples demais ao ponto de soar desinteressante. A história é, de fato, muito simples, mas a idéia aqui é explorar os sentidos em um gênero que há muito tempo se esqueceu do que é isso, e não criar uma história mirabolante sobre algo sobrenatural. Segundo o diretor, a idéia de tudo partiu de um sonho recorrente que ele tinha quando criança, os conhecidos "pesadelos de ansiedade". E da mesma forma como os sonhos não possuem explicações, a história do filme também não, e por isso foi construída dessa forma. Tanto que, mesmo com uma atmosfera obscura e sobrenatural, a fotografia é, por vezes, bela e surrealista como um pesadelo deve ser.

Há muitas similaridades com qualquer história de terror japonesa vista em um passado recente, como O Grito ou O Chamado, em que uma maldição existe e cria uma cadeia de vítimas. Não há grandes diferenças nesse sentido, além da conotação sexual que nos faz relacionar a maldição como uma doença transmissível, como algumas críticas chegaram a associar.

Para construir o medo, Mitchell consegue fazer uma mistura muito bem homogênea dos elementos mais clássicos do gênero com os mais modernos, mas ainda sim quebrando alguns paradigmas como ao evitar ambientes muito escuros, ou o excesso de sangue. A prioridade é na narrativa lenta e linear, não na história, mas na forma como ele apresenta as situações e desenvolve seus personagens para construir a surpresa, a apreensão e a tensão que leva finalmente ao medo, exatamente nessa progressão. Tudo isso ao invés de simplesmente apostar no susto fácil jogado sem propósito nos filmes mais comerciais, ou em efeitos especiais digitais que nunca irão substituir a técnica.

Seja através do uso de imagens bem construídas ou da arrepiante trilha sonora de Rich Vreeland, tudo isso funciona porque o roteiro apresenta logo de cara a ameaça sobrenatural na qual os personagens, e nós mesmos, estaremos expostos, criando uma situação de medo e dúvida constantes em que nada ou lugar algum parecem ser seguros o bastante. Como dito, sabemos o que o perigo é, mas não quem é ou que ele pode fazer. E é isso que atemoriza. Mitchell utiliza a câmera como um verdadeiro objeto de exploração, de forma que o espectador ora tomará a posição de observador (e ter a sensação de paranóia), ora de observado (e ter a sensação de medo). E nesse jogo interessante de pontos de vistas é que esses diferentes níveis e intensidades do que é medo e do que é paranóia serão construídos. E acredite, há muito dos dois.

Os atores também desempenham um papel excelente, principalmente a protagonista, e o filme não teria esse tom até genuíno se não fosse por eles. Ao contrário do que muitos outros títulos fazem, aqui os personagens não perdem tempo com heroismo ou idéias cabulosas. Eles agem com naturalidade e são racionais nas decisões na medida do possível, como deve ser.

Não dá para negar que, embora a história por vezes não pareça ter pé ou cabeça, este seja, talvez, o primeiro filme em anos a elevar o nível do gênero, engatilhando com efetividade crises de ansiedade e extrema apreensão do começo ao fim. Assistí-lo é como ter aquela sensação de ser observado na multidão, ou daquele arrepio na espinha de alguém que se aproxima por trás sem avisar de uma forma bastante similar ou até mais intensa do que Shyamalan conseguiu com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999).

O medo é uma reação psicológica que leva o ser humano ao seu limite para enfrentar o perigo, descarregando a adrenalina que dilata nossas pupilas, resseca nossa boca, aumenta a frequência cardíaca e nossa atenção, nos preparando para a fuga e sobrevivência, e Mitchell consegue dirigir não apenas o filme, mas todas essa atividade biológicas como se nós fossemos parte da história, ao ponto de chegarmos até a acreditar que ela possa existir ou acontecer de fato. É o psicológico novamente, e o poder do uso da técnica que nos confunde a fantasia com realidade.

Com um baixíssimo orçamento de apenas US$2 milhões, chamou atenção no festival de Cannes de 2014, e arrecadou mundialmente mais de US$14 milhões. Valor baixo, mas satisfatório para algo independente que foi lançado em um número limitado de salas. Uma pena que ele não se viralizou como poderia, pois todos os elementos de um grande filme de terror e suspense estão presentes na melhor forma e estilo possível.

É garantido que ninguém olhe para estranhos com os mesmos olhos depois de assistí-lo, e só isso já faz do filme algo memorável do gênero como qualquer outro clássico já fez no passado.

CONCLUSÃO...
Um daqueles poucos filmes em que a história pouco importa quando todo o terror é construído de forma inteligente ao ponto do medo ser genuíno.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

HÁ MELHORES VIAGENS...

★★★★★
Título: Projeto Almanaque (Project Almanac)
Ano: 2015
Gênero: Fantasia, Ação
Classificação: Livre
Direção: Dean Israelite
Elenco: Jonny Weston, Sofia Black-D'Elia, Sam Lerner, Allen Evangelista, Virginia Gardner
País: Estados Unidos
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jovem cientista descobre que no porão de sua casa há uma máquina secreta desenvolvida pelo seu falecido pai e que pode se tratar de um protótipo de uma máquina do tempo.

O QUE TENHO A DIZER...
Filmagens em primeira pessoa já deixaram de ser novidade faz tempo. Não é algo que impacta mais porque, frente a tantas produções feitas neste estilo desde A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), perdeu-se aquela essência experimental interessante. Para inovarem, diretores e roteiristas tem feito uma mistura de estilos narrativos que viraram bagunça de linguagem. Seria como assistir um filme em que cada personagem fala uma língua diferente. Se é pra fazer dessa forma, que seja bem feito. É então que voltamos aos clássicos problemas dos filmes mais atuais neste estilo, como também acontece no recente No Olho do Tornado (Into The Storm, 2015). A inabilidade do diretor é bem grande, havendo partes em que a mudança brusca do tipo de filmagem realmente não encontra uma coerência.

Embora seja um filme tipicamente infantojuvenil, o longa de estréia do diretor Dean Israelite às vezes parece subestimar a inteligência desse público, como no momento em que um dos personagens analisa um fio, dizendo ser de uma tecnologia que apenas o Governo tem, e aí o protagonista simplesmente liga o equipamento em uma televisão. Simples assim. Tecnologia que apenas o Governo tem, mas que pode ser resolvida com uma velha televisão de tubo e um XBox. Além de tudo, de repente, tudo se torna muito simples de ser feito, como em qualquer aplicativo de celular.

Apesar de tudo isso, o filme consegue mexer com o imaginário, colocando na tela tudo aquilo que, talvez, todos nós gostaríamos de fazer se pudéssemos voltar ao tempo, desde simplesmente consertar os erros dos quais nos arrependemos, ou aproveitar momentos que não pudemos por alguma razão, até coisas mais fúteis como ganhar na loteria para comprar um carro potente e ser popular. A graça de tudo começa aí, depois de 50 minutos, e não há como não se identificar com essas fantasias. Uma pena que a história desperdiça um pouco a oportunidade de ser mais nostálgica e imersiva da forma como a narrativa tenta propor. Ao invés disso, perde muito tempo em um Festival Lollapalooza e no casal principal que não se resolve nunca, se transformando em uma história boba de amor adolescente que não convence.

Claro que em um momento obsessivo do protagonista tudo começa a dar errado, e os efeitos borboletas e dominós começam a desencadear, como aconteceria em qualquer filme desse tema. É unica e simplesmente diversão despretenciosa com fantasia limitada.

Definitivamente há filmes melhores sobre o tema.

CONCLUSÃO...
Nada mal para um filme de baixo orçamento, mas também não há nada de excepcional que impressione. Como dito, é um filme que será mais apreciado pelo público para o qual ele foi direcionado, embora nem ele mesmo possa se sentir muito impressionado porque há melhores viagens.

CARACTERIZAÇÃO SEM CARICATURA...

★★★★★★
Título: Transamerica
Ano: 2005
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Duncan Tucker
Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Elizabeth Peña, Fionnula Flanagan, Graham Greene
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Às vésperas de sua cirurgia de redesignação sexual, Bree descobre ter um filho que está do outro lado do estado, embarcando em uma viagem que a confrontará com seu próprio passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Uma coisa interessante do cinema norteamericano é que eles realmente exploram as capacidades de seus atores, transformando-os realmente em uma ferramenta de expressão independente do sexo. Seja comercial ou não, é interessante. Isso já aconteceu anteriormente em divesos filmes, como Linda Hunt em O Ano Que Vivemos em Perigo (The Year Of LIving Dangerously, 1982), ou John Travolta como Edna Turnblad na refilmagem de Hairspray (2007). Teve também Cate Blanchett vivendo Jude Quinn em Eu Não Estou Lá (I'm Not There, 2007), e vira e mexe, de tempos em tempos, isso volta a acontecer.

Neste filme de 2005, a personagem Sabrina "Bree" Osbourne é vivida pela atriz Felicity Huffman, conhecida mundialmente pela sua personagem Lynette Scavo em Desperate Housewives. Ela interpreta uma transexual feminina (um homem que percebe sua personalidade e seu corpo como uma mulher). O filme leva este título por conta da longa viagem que cortará todo o país de leste a oeste e, logicamente, por conta de sua transgeneridade.

O dilema de Bree é o mesmo de diversas pessoas que sofrem do Transtorno de Identidade e Gênero pelo mundo e que buscam fazer a cirurgia de redesignação sexual, no caso da personagem, uma vaginoplastia. Ela está há anos na fila de espera, sendo acompanhada periodicamente por sua terapeuta e por um psiquiatra. Quando ela finalmente recebe a liberação médica, ela descobre que tem um filho de 17 anos de uma relação heterossexual que ela nem se lembrava mais. O problema é que seu filho está detido em um reformatório, e ela não sabe se viaja de Los Angeles até Nova York para ajudá-lo antes ou depois da cirurgia. Sua terapeuta acredita que ela deve ir atrás de seu filho como um último passo para saber se ela realmente está preparada para a cirurgia, já que Bree negligencia seu passado como Stanley Schupak, se referindo a "ele" em terceira pessoa, como se ambos não fossem parte dela mesma. Para obriga-la a cumprir esta inesperada última fase do tratamento, sua terapeuta ameaça não entregar a prescrição cirúrgica caso ela não se empenhe em confrontar seu passado. Desesperada, ela voa para Nova York e paga a fiança de seu filho. Com medo de dizer a verdade, ela se apresenta a ele como uma missionária cristã disposta a ajudá-lo a encontrar o caminho, já que ele havia sido preso por porte de drogas e prostituição.

A partir daí o filme se torna um road movie, já que Bree resolve voltar para o oeste norteamericano de carro, o que vem a ser uma oportunidade para que os dois passem por dificuldades típicas de filmes assim, além de se conflitarem emocionalmente e se conhecerem com mais profundidade. Claro que toda a confusa situação tenta levar a história para lados mais cômicos para aliviar o peso do controverso assunto, mas é inevitável que momentos dramáticos bastante comuns aconteçam, como a negação de Toby (Kevin Zegers) ao descobrir que Bree é, de fato, seu pai.

A história tem um desenvolvimento um tanto tropeçado. É linear, comum e fácil, daquelas que poderiam ter sido resolvidas com alguma antecedência, como no momento que Bree busca ajuda de um grupo transgênero e Toby se sente confortável no meio de todos. Era um momento bastante propício para isso, mas que não acontece justamente para esticar a história e incrementá-la com outras camadas dramáticas, como a confusa relação da protagonista com sua família desfuncional de uma mãe conservadora e religiosa, de um pai conformista e de uma irmã invejosa e problemática. Esses dois grandes focos na vida da personagem se conflitam e, no fim, nenhum dos dois é satisfatório porque se perdem no processo.

Chama a atenção unica e exclusivamente pela protagonista, que é carismática sem fazer grandes esforços. Inteligente, educada, culta e articulada, conseguimos perceber que mesmo com tanto conhecimento se dedica em subempregos por puro preconceito do mercado. A situação se torna mais triste quando descobrimos que sua família é de classe média alta, e que todas as dificuldades que passa foram por escolhas próprias para buscar a sua felicidade e realização pessoal. A caracterização de Felicity Huffman impressiona logo nos primeiros minutos sem ser caricata. A fisionomia da atriz já ajuda bastante, mas a maquiagem pesada, o exagero no uso das cores das roupas e dos acessórios e a maneira com que ela se esforça para interpretar uma mulher feminina em um corpo masculino chega a ser impressionante, até o tom de voz é mais grave. Do que aparentemente soaria como uma estereotipação dos trangêneros, essa caracterização na verdade mostra muito em como a moda se torna algo extremamente importante e particular para essas pessoas como uma extensão da própria personalidade, e como refletem seus esforços para exteriorizarem o máximo que podem a verdadeira sexualidade. Por isso essa impressão de exagero, pois é uma batalha contra a própria genética. Um corpo em construção, como diz a própria personagem bem depois de citar todos os procedimentos estéticos pelos quais passou.

Chega a ser melodramático, mas o desempenho da atriz é tão técnico e bem estudado que conseguimos ver toda a evolução da personagem como uma verdadeira transexual feminina, tanto que a atriz concorreu ao Oscar em 2006 por sua performance memorável em um filme fraco, mas que consegue ser sincero mesmo assim.

CONCLUSÃO...
A estréia do diretor e roteirista Duncan Tucker pode não chamar muita atenção pela sua história, mas o drama da protagonista, por mais simplório e cliché que aparente, se aproxima bastante das dificuldades e preconceitos sofridos pelos trangêneros frente a uma sociedade que não busca compreendê-los além do que a sexualidade física mostra. Vale ser assistido por Felicity Huffman, que desempenha um papel impressionante e bastante importante dentro de tudo isso.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

NÃO FAZ A MENOR DIFERENÇA...

★★★★
Título: O Exótico Hotel Marigold 2 (The Second Best Exotic Marigold Hotel)
Ano: 2015
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 12 anos
Direção: John Madden
Elenco: Maggie Smith, Judi Dench, Bill Nighy, Ronald Pickup, Celia Imrie, Dev Patel, Tina Desai
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 121 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O Hotel Marigold é um sucesso, e agora Sonny planeja abrir um segundo Hotel Marigold, mas as coisas não saem exatamente como planejado.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2014, durante seu discurso ao aceitar o Oscar de Melhor Atriz, Cate Blanchett falou da importância das mulheres na indústria cinematográfica e citou sua colega Judi Dench, dizendo que a mesma não estava presente na cerimônia pois, com 80 anos, cumpria sua agenda de filmagens de uma continuação, e que uma mulher na idade dela, fazendo uma continuação, definitivamente significava que mulheres levam público ao cinema e que existem papéis para elas.

A continuação em questão era exatamente esta, que tentou seguir o inesperado sucesso do primeiro filme, lançado em 2011. Blanchett estava certa ao dizer que mulheres são importantes na indústria, talvez até mais que os homens. Basta partir do princípio que os maiores clássicos possuem protagonistas femininas mais fortes do que os próprios homens. Dúvidas sobre isso? Pegue qualquer clássico e faça essa observação. Eu não precisei ir muito longe ... E O Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) foi o primeiro que me veio à mente, ou até mesmo seu irmão bastardo, Jezebel (1938), ou qualquer filme de Hitchcock. Sim, são as mulheres quem dominam o cenário cinematográfico, mas o foco ainda é masculino e machista.

Este filme se torna interessante quando observado pelo ponto de vista de Blanchett, principalmente porque a maior parte do seu elenco é feminino e que soma quase meio século de vida. Mas quando comparado com seu original, baseado no livro homônimo de Deborah Moggach, esta continuação perde em conteúdo e no aproveitamento dessas atrizes e atores.

Enquanto no primeiro filme Judi Dench era a protagonista e narradora da história, nesta continuação ela vai para o posto de coadjuvante, entrando em seu lugar Maggie Smith. A troca é justa, já que a acidez e o mau humor da personagem que adora biscoitos foi o que mais chamou a atenção do filme anterior, mas que agora foi acentuado por uma candura que só não chega a ser melada porque Maggie Smith não é qualquer atriz.

O Hotel Marigold é um sucesso, mas a gente não sabe bem até onde porque nunca o vemos lotado e cheio de hóspedes além daqueles que moram e trabalham lá, que é todo o elenco do filme. O casal indiano, formado por Sonny (Dev Patel) e Sunaina (Tina Desai), estão de volta e se tornam o tema central, e o segundo Hotel Marigold do título absurdamente vira trama secundária.

Dentro da história do casal, Sonny tem três grandes conflitos: seu casamento, a compra de um imóvel que será o segundo hotel e seu ciúmes de Sunaina com seu amigo. O personagem de Patel, que no primeiro filme tinha um humor exagerado e inconveniente que funcionava, agora está chato e completamente irritante. Ele grita, gesticula demais, faz drama com qualquer coisa e não para de falar. Seu desenvolvimento é tenebroso. Para ajudar, Richard Gere cai de paraquedas para usar seus poderes de galã na história, tão perdido que às vezes a sensação que se tem é que ele nem sabe onde a câmera está. E os velhinhos do Hotel Marigold, onde estão? Perdidos. Jogados por aí.

O primeiro filme não foi genial e nada demais, mas foi prazeroso, diferente, voltado para um público maduro que carece de produtos direcionados a eles. Era nítida a vontade de todo o elenco de fazer o filme funcionar, algo que não se repete aqui. A história é entediante, com subtramas que tentam roubar as tramas centrais e coadjuvantes que tentam sobressair mais que os protagonistas. Realmente não dá pra entender muito bem o que o roteirista Ol Parker realmente tentou com tudo isso. Se no primeiro filme houve um questionamento muito interessante sobre a vida e até que ponto ela é relevante e longeva, aqui tudo gira em torno de relacionamentos vazios ou na tentativa de existirem. Ou seja, se tornou uma comédia romântica formalmente britânica qualquer.

É possível contar nos dedos de uma mão quantas vezes ele será realmente engraçado, e boa parte dessas vezes será com Maggie Smith, como quando ela se irrita ao explicar que um chá é uma infusão em água fervente, logo no começo do filme. Mas só.

CONCLUSÃO...
Esta continuação não chega a ser exatamente um filme apreciável. Ele é tão perdido em suas próprias idéias que se torna entediante e esquecível. Engraçado que as idéias podiam ser muito melhor aproveitadas por uma infinidade de temas, até porque o elenco é excepcional. Mas preferiram se manter na zona confortável da vazia trivialidade. No fim o filme não faz jus ao discurso de Blanchett, e na verdade, ele não faz a menor diferença.

terça-feira, 30 de junho de 2015

AGORA SÃO ELAS...

★★★★★★★★
Título: Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Ficção
Classificação: 16 anos
Direção: George Miller
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne
País: Austrália, Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Max está de volta, e tão enraivecido como antes, mas agora para ajudar um grupo de mulheres que de frágil elas tem nada.

O QUE TENHO A DIZER...
Antes de existir Velozes e Furiosos, Jogos Vorazes, Divergente, Maze Runner e qualquer outra história que envolva vinganças ou um mundo distópico, consumidos como água nos cinemas pelos adolescentes, existiu Mad Max, que era consumido por adolescentes e adultos em uma época que o cinema de ação sujo e pesado não tinha medo de ousar e ir sempre um pouco mais além dos limites.

Tanto que 1979 o cinema comercial australiano se destacou no mundo com o primeiro filme da série contando a história de Max Rockatansky, um oficial que trabalhava pela paz e justiça, mas de repente se vê tomado pelo ódio e vingança após sua família ser assassinada pelas gangues que ele perseguia. Max se transformou no símbolo da frieza, da fúria e do sangue que escorria dos olhos, um errante solitário que, com nada a perder, jogou sua vida na roleta da sorte enquanto se embrama em situações suicidas na busca de sua paz interior e humanidade de volta.

É... até parece um monte de baboseira, mas o que realmente chamou a atenção foi como George Miller, autor e diretor de toda a série, construiu o universo baseado na força motriz da violência, que é o poder acima de qualquer coisa, e fazê-lo de maneira supreendente através de simbologias e linguagem própria. Mad Max é em plena Terra o que Guerra nas Estrelas é no espaço, ou seja, um épico de ficção que construiu um universo de vida própria.

O herói é um daqueles icônicos personagens que tem uma personalidade tão marcante que é como se ele realmente existisse. O fato de ter um passado traumático que o fez se jogar no mundo, sem rumo e sem destino, ajudando pessoas que acabam cruzando seu caminho, dá liberdade para que ele seja inserido em qualquer situação. Seja cinco anos depois da história original para ajudar os habitantes que sofrem com as guerras em meio à crise energética do segundo filme, ou quinze anos depois para ajudar a comunidade jovem do terceiro filme enquanto tenta, em meio a tudo, o respeito de Bartertown. Ou seja, Max é o Chuck Norris de Miller, e ele se dará bem seja fazendo uma torta, seja em uma briga de foice no escuro.

A quarta continuação da série esteve em um inferno de decisões por anos. Sinal verde era dado, projeto era engavetado. O projeto voltava em pauta, engavetavam de novo. E isso desde 1998. O atentado de 11 de Setembro, problemas com o orçamento, as polêmicas envolvendo Mel Gibson, a Guerra do Iraque, tudo isso foi razão para esse vai e vem da produção que, por fim, foi abandonada.

Em 2010 as coisas finalmente engatilharam, e a produção teve início em 2011. Mel Gibson foi trocado por Tom Hardy e Charlize Theron foi incluída no elenco para trazer força e renovar o interesse, mas tudo sempre mantido em segredo. As filmagens terminaram em 2012, mas algumas cenas precisaram ser refeitas em 2013, e só agora o filme foi lançado.

Embarcando na atual onda das franquias que pararam no tempo, esse novo filme é um reboot ao mesmo tempo que também é uma continuação direta ao primeiro filme, logo após Max perder sua família. Mas não é especificado a ordem cronológica dos fatos além disso justamente para dar liberdade para que esse universo pudesse ser ampliado sem limitações para futuras continuações, o que já foi confirmado pelo próprio Miller que afirmou ter outras duas histórias prontas e que manterão Hardy como protagonista.

Não é necessário ter assistido nenhum dos filmes anteriores para compreender ou se interessar por esse, muito embora (re)assistir o primeiro é interessante para compreender melhor de onde vem a personalidade bruta e solitária do protagonista, além das referências visuais pós apocalipticas que são bastante utilizadas aqui. Mas é sempre bom e interessante saber e ver de onde tudo veio, principalmente aqueles que acharem que é simplesmente mais um filme de ação violento qualquer.

O filme já começa de forma um tanto nostálgica nos créditos iniciais com as fontes em vermelho que destacam os nomes dos protagonistas, parecido como era antigamente. Logo em seguida notamos a reestilização da série com a fotografia saturada para detalhar a beleza das paisagens inóspitas e os contrastes entre tons mais frios e quentes, aumentando bastante a sensação quente, seca e desértica, ao ponto de dar muita sede em quem assiste. Se trata de um filme atual, com linguagem visual moderna, dinâmica e expressiva, mas a intenção de ser quase um "western sobre rodas", como o próprio Miller descreve, é bastante óbvia por conta da rustidez dos personagens, da poeira que chega a fazer o olhos lacremejarem, da hostilidade do ambiente que Max está, e da luta pela sobrevivência ser uma filosofia de vida.

O ambiente árido de sempre, de um futuro esgotado de água e reservas energéticas, a clássica jaqueta, o Pursuit Special (seu carro original), os vilões mascarados, armaduras e equipamentos biomecânicos que se misturam entre tecnologias arcaicas e modernas, veículos estilizados, com improvisadas adaptações em cima de equipamentos saqueados pelas gangues, explosões, sangue e areia... tudo isso é o Universo visual único de Mad Max que funciona e impressiona do começo ao fim. É incômodo, e foi feito para ser, tal qual os anteriores. É um tipo de ação hiper realista que o cinema esqueceu como se faz, e da mesma forma esqueceram as pessoas de como ele é.

Tudo já começa tão intenso que 60 minutos se passam e a impressão que se tem é que o filme ainda está em sua sequência inicial. Boa parte dela quem comanda é Furiosa, enquanto Max está acorrentado em um carro como um parachoque humano.

Mas vale dizer que, embora o título leve seu nome, Max na verdade é um coadjuvante, e a personagem de Charlize é tanto quem participa mais ativamente na história como também quem rouba as cenas, funcionando como mais uma inclusão feminina importante na série tanto quanto Tina Turner foi no terceiro episódio. Furiosa se engrandece tanto no filme que só sabemos que Max existe porque o título do filme tem seu nome, e isso não é ruim porque faz parte da expansão desse mundo pós apocaliptico, além de incluir no cinema mais uma heroína no hall das mulheres fodas que qualquer homem pode ter medo, justamente numa época em que elas questionam com muita razão suas participações em filmes de gênero (considerados) "masculinos", como são os de ação violentos como essa série.

Isso não vira mérito apenas de Furiosa, mas das outras personagens também, como o grupo que a protagonista defende, de belas mulheres que parecem tiradas da grécia antiga. Isso pareceria cliché sexista, já que existiriam para agradar o público masculino, mas a situação fica bastante engraçada quando eles (incluindo os espectadores) são facilmente manipulados pela imagem frágil que elas passam. Também é interessante quando aparece uma jovem indefesa gritando por socorro e aparecem seus capangas no momento em Furiosa se aproxima dela, cena memorável.

Esse jogo em cima de clichés sexistas é muito forte, feito de forma sutil e inteligente, que não queima sutiã algum, única e simplesmente mostra que fragilidade não existe quando não se quer ter.

Miller não poupa na violência e nem no "politicamente incorreto" pra deixar o filme mais "leve", pelo contrário... ele mantém forte o renascimento do ozploitation que ocorreu na Austrália nos anos 70, em que filmes sangrentos foram produzidos em massa após a adesão das classificações etárias no país. O diretor coloca grávidas e idosas apanhando em cena e até uma sequência com um feto que vai fazer muita mãe chocada desistir e achar o filme de mau gosto. Pois é... Assim como o universo de Frozen é lindo, fofo e mágico, o de Max é um verdadeiro inferno, e ele fala algo equivalente a isso logo no começo. Por isso sua classificação etária é 16 anos.

As cenas de ação se desenvolvem muito bem. São exageradas, bem feitas, dentro dos níveis aceitáveis do absurdo, só que o desenvolvimento da história deixa a desejar. Por vezes chega a ser superfical demais, e muitas das coisas que não são explicadas se transformam em uma certa "mitologia" dentro do mundo de Max que não dá pra entender bem porque está lá. Isso atrapalha? Não. Até porque se tivessem explicado detalhadamente qualquer pormenor, ele deixaria de ser esse filme de estrada sem estrada que só faz você respirar por um momento. Tempo necessário pra levantar e ir ao banheiro, se você não quiser pausar.

Mais do que um filme de ação, o novo filme da franquia inflama alguns orgulhos machistas masculinos que ironicamente dão aquilo que os americanos chamam de U Turn na situação, e agora o protagonista tem de entregar o rifle para a mulher da história porque, das três balas, conseguiu errar dois tiros.

Muito bem mandado Miller.

CONCLUSÃO...
Para os homems amantes de violenta ação, Max está de volta. Para as mulheres que acompanham os homens amantes de violenta ação, Max está muito bem acompanhado, e ela rouba o filme dele.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

GÊNERO E ORIENTAÇÃO...

★★★★★★
Título: Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)
Ano: 2014
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: François Ozon
Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier, Raphaël Personnaz, Isild Le Besco
País: França
Duração: 108

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher descobre segredos do marido de sua melhor amiga, a qual faleceu recentemente.

O QUE TENHO A DIZER...
É importante começar dizendo que o filme não é um suspense, como tem sido promovido. O trailer erroneamente chega a informar que há um leve hitchockianismo na história, o que está longe de ser verdade. O trailer constrói essa atmosfera um tanto Brian De Palma em Dublê de Corpo (Body Double, 1984) para vender um assunto delicado e bastante subversivo, o que não aconteceria com facilidade se feito de maneira convencional e dentro do que o filme realmente propõe.

A história é sobre Claire (Anaïs Demoustier) que perde sua grande amiga de infância, Laura (Isild Le Besco), deixando seu marido, David (Romain Duris), e uma criança. É difícil para Claire aceitar a morte de Laura, pois foram inseparáveis durante toda sua vida. Rever David a faz relembrar com nostalgia da perda, o que é sempre doloroso, e por isso se mantém distante. Em um belo dia, para compensar seu relapso, resolve fazer uma visita surpresa a David e sua filha. Mas é ela quem fica supreendida ao vê-lo vestido de mulher.

Então o grande segredo do filme é esse, David é um cross dresser. E isso não é uma revelação que realmente estrague qualquer surpresa, porque esse suspense é algo que apenas o material promocional cria sem fundamento.

Em um tempo em que a mídia tem dado muita atenção a personalidades que tem assumido publicamente suas identidades e seus gêneros (como no Brasil, com o cartunista Laerte, ou nos Estados Unidos, com o ex-atleta Bruce Jenner/Caitlyn Jenner), esse filme consegue abordar o tema de forma bastante correta, e ousado por discutir sobre as diferenças entre fetiche, gênero e orientação sem pieguices.

No momento em que Claire descobre "o grande segredo" de David, o mesmo acredita ter apenas o fetiche em se caracterizar de mulher, o que o definiria unicamente como um cross dresser. Porém o desenvolvimento do personagem mostra sua grande realização quando caracterizado e até sua vontade de mudar de cidade para iniciar uma nova vida como Virginia, seu alter ego batizado pela própria Claire. Isso coloca em dúvida se o que o personagem tem realmente é um fetiche ou um conflito de gênero, que é uma pessoa não se sentir como fisicamente o sexo a define. Isso não afeta a sua heterossexualidade, tanto que o personagem mesmo afirma nunca ter tido relações com nenhum homem pois não sente atração pelo mesmo sexo. É quando a discussão sobre a orientação e o fetiche se foca em Claire, que mostra possuir uma certa bissexualidade com uma tendência bastante forte ao lesbianismo e até um certo prazer sexual no cross dressing em momentos muito importantes do filme, como quando passa o batom em seu marido e diz achar sexy, quando está na boate, ou quando efetivamente há um contato mais sexual entre ela e Virgínia.

Essa miscelânea de diferentes situações, sensações, prazeres, fetiches e identidades pode deixar muita gente confusa e incômoda. Mas mais do que o espectador, são os personagens quem ficam por eles também não saberem lidar com tudo isso dentro do contexto sociocultural que estão inseridos, e as informações vão encontrando seus lugares à medida que eles colocam seus preconceitos de lado e se abrem para conhecerem aquilo que até então desconheciam. Descobrem, então, que nada é diferente além dos sentimentos e da essência de cada um, que tudo era simplesmente um bloqueio definido pela própria cultura social ortodoxa e conservadora que impedem as aceitações e a evolução social.

O filme é baseado no livro The New Girlfriend, da inglesa Ruth Rendell, originalmente publicado em 1985. A adaptação francesa, escrita e dirigida por François Ozon, consegue abordar essas complexidades de maneira bastante discreta, sem apelar nas caricaturas, tanto que os próprios personagens se desenvolvem de forma a evitar isso, como na evolução que Virginia tem no seu estilo e comportamento no decorrer da história. Não chega a ter uma sutileza de Almodóvar, sendo uma dramédia que não pende em demasia para nenhum dos lados, faltando uma essência que realmente nos faça apaixonar pela história. Até a fotografia, que nos primeiros minutos chega a ser deslumbrante em enquadramentos perfeitos, deixa a desejar depois disso. Mas ainda sim é um belo material que aborda temas incomuns com bastante articulação e honestidade, e força o espectador a se livrar de preconceitos para compreender a existência dessas diferenças que devem ser respeitadas da mesma forma que respeitamos aquilo que conhecemos.

CONCLUSÃO...
François Ozon foi corajoso ao abordar tantas complexidades sexuais e de identidade de forma até pragmática, mas ao mesmo tempo sofre ao direcionar o filme entre a comédia e o drama, não oferecendo com efetividade nenhum dos dois. Nem por isso chega a ser um filme superficial, mas falta uma essência evolutiva, um crescente que realmente mantenha desperto o interesse por ele ou pelos personagens. Mas as discussões propostas são relevantes e bastante atuais, propondo pontos de vista diferentes do que aqueles que temos do nosso cotidiano.

domingo, 28 de junho de 2015

O QUE ACONTECEU?

★★★★★★★★
Título: What Happened, Miss Simone?
Ano: 2015
Gênero: Documentário, Biografia
Classificação: 12 anos
Direção: Liz Garbus
País: Estados Unidos
Duração: 101 min.

SOBRE O QUE É O DOCUMENTÁRIO?
Nina Simone sempre teve uma história conturbada de fama, sucesso, polêmicas, ativismo, decadência, retiro e ressurgimento. Foi a voz de um povo, e usou seu sucesso para isso, até que ele se voltou contra ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Definitivamente, para compreender a arte de Nina Simone é necessário conhecer sua história. E é isso que este documentário lançado na Netflix no dia 26 de Junho faz com êxito, de forma bastante surpreendente e emocionante.

O arquivo videográfico é vasto, ao ponto de utilizarem Miss Simone como a própria narradora de sua história através de entrevistas antológicas resgatadas, inseridas em imagens que registraram todas suas mais importantes fases, incluindo sua infância. E os depoimentos de sua filha, de seu ex-marido (através de registros, já que faleceu em 2012), bem como de seus amigos ainda vivos, servem para complementar aquilo que apenas especulava-se sobre sua persona. Se Nina não tivesse morrido, era bem possível acreditar que o documentário havia sido produzido com sua consulta, de tão latente que é sua presença. A artista é a grande estrela de todo o documentário, não pelo óbvio motivo de ser um material sobre ela, mas porque sua biografia é montada de maneira intimista, por pontos de vista pessoais que esclarecem uma personalidade complexa e temperamental, mas ainda coerente dentro de suas experiências e percepções, responsáveis por toda sua sólida expressão artística.

"Eu escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Para mim, essa é minha obrigação. E nesse momento crucial da nossa vida, quando tudo é tão desesperador, quando todo dia é uma batalha pela sobrevivência, não tem como não se envolver."

Ao contrário de ser um material que questione sua personalidade ou as diferentes condutas contraventoras que teve durante as décadas de 60 e 70, o documentário apenas afirma o posicionamento que ela teve sobre a arte e sua importância na sociedade, e como isso foi importante e ao mesmo tempo autodestrutivo para sua carreira e vida pessoal. O palco para Nina era o lugar onde ela não tinha medo, e para ela, por definição, "não ter medo é se sentir livre". Essa falta de medo, o excesso de liberdade, era sentido nas notas e nos dedos que voavam sobre o piano com precisão clássica, mas sem sê-lo.

Nina foi ter uma percepção muito tardia das diferenças raciais e o abuso sofrido pelos negros por ter crescido em uma comunidade onde não se falava sobre isso. Seu questionamento sobre as diferenças raciais e sociais só foi acontecer depois dos 20 anos de idade, quando foi recusada por um conservatório na Filadélfia sem nenhum motivo óbvio, já que sua audição para uma vaga havia sido elogiada, e isso a fez acreditar que a razão principal era sua cor. Posteriormente a isso ela se mudou para Nova York, onde pagou seus estudos ganhando US$90 por noite em um bar. O dono do estabelecimento obrigou que ela também cantasse caso quisesse manter o emprego, algo que ela também nunca tinha feito até então. Por conta deste trabalho, adotou seu nome artístico, e não demorou para que a voz de contralto, junto com o tom clássico introduzido nas músicas que performava, chamasse a atenção de clientes que se tornaram uma base sólida de fãs.

A partir de então sua carreira teve uma ascenção muito rápida, principalmente depois do casamento com Andrew Straud, que também foi seu empresário. O rápido sucesso a deixou financeiramente estável em um curto espaço de tempo, o que contribuiu para que não sofresse tantas consequências negativas por ser negra e mulher na década de 60.

Mas então, o que aconteceu, Miss Simone?

A constante pressão sofrida por seu marido e empresário começaram a fazer Nina perder as razões e motivos de ser uma artista. Os discos eram gravados em cima de repertórios montados pela própria gravadora, e seu trabalho começou a tomar um rumo comercial demais do que aquilo que ela almejava. A estafa se transformou em depressão, fazendo-a perder o interesse e consequentemente a razão de fazer música. Também sofria violência doméstica, abafada por ela mesma. Sempre acreditava que depois da última surra tudo seria diferente, e pensava assim por amor ao seu marido. Mas nada mudava, ao ponto de ela mesma acreditar que gostava disso.

Foi com o movimento dos direitos civis, de 1964 até 1974, que a grande reviravolta em sua carreira aconteceu. A falta de objetivos a fez encontrar nele não apenas algo que pudesse fazer parte, mas co também abriu seus olhos para o mundo e para o que as pessoas de sua raça passavam. Ela canalizou todos seus esforços nisso, como que para compensar o vazio que a consumiu no passar dos anos.

"Como ser artista e não refletir uma época? Para mim, os negros são as criaturas mais lindas do mundo. Então, minha função é torná-los mais curiosos sobre suas origens, suas identidades e se orgulharem disso. É por isso que tento fazer minhas canções as mais fortes possível, principalmente para fazer os negros terem curiosidade em si mesmos."

Seus repertórios sempre foram cheios de referências ao amor, à cultura afro americana e cantigas espirituais ou folclóricas que ouvia quando criança, herdadas de seus antepassados. No decorrer de sua carreira temas feministas também entraram no repertório, e foi com o engajamento no ativismo social que as raízes africanas se aprofundaram para confrontar aqueles que se opunham aos direitos civis igualitários, e trazer o interesse de seu próprio povo à sua cultura.

"Eu sempre acreditei que abalava as pessoas, mas agora quero investir mais nisso. Quero fazer de modo mais deliberado e frio. Quero abalar tanto as pessoas que quando saírem de onde eu tiver apresentado, eu só quero que elas estejam em pedaços. Quero entrar nesse covil das pessoas elegantes, com suas idéias velhas, presunçosas, e enlouquecê-las."

Após o assassinato do ativista Medgar Wiley Evers e do atentado à bomba em Birmingham, que matou quatro crianças negras, Nina respondeu a isso com a música Mississipi Goddamn, lançada em 1964. A música teve péssima repercussão na mídia, sendo boicotada pelas principais rádios norte-americanas que enviavam os LPs quebrados ao endereço da artista em resposta ao "péssimo gosto", já que a mesma ironizava pesadamente a forma como os negros eram tratados no Mississipi, um dos últimos estados a adotar leis igualitárias no Estados Unidos. A música veio a ser um grito libertário do movimento, bem como To Be Young, Gifted and Black, feita em homenagem a sua amiga e ativista Lorraine Hansberry, se transformou em um hino. E nada a impediu de participar de diversos encontros, incluindo sua participação na marcha de Selma a Montgomery, liderada por Luther King, em 1965.

Miss Simone fez de sua música uma arma, e da sua influência e imagem ferramentas para expressar ideais e reforçar a cultura negra. Do palco ela fez um palanque e descobriu que sua voz podia representar o grito de seu povo. Ao contrário do que o movimento pacífico liderado por Luther King promovia, ela acreditava que atos violentos deveriam ser combatidos da mesma forma, além de ser a favor de um estado separatista. O documentário, bem como os registros, mostram isso muito bem e de forma bastante clara.

"Era arrebatador participar daquele movimento naquela época porque eu era necessária. Eu podia cantar para ajudar meu povo, e esse virou o esteio da minha vida. Nem piano clássico, nem música classica ou mesmo música popular, mas a música dos direitos civis. Pude conhecer Martin Luther King, Malcom X, Andrew Young, e artistas, atores, atrizes, poetas, escritores, pessoas como eu que se sentiam compelidas a tomar uma posição como a minha."

Não demorou muito para que a cantora passasse a ser boicotada. E mesmo vendendo muitos álbuns, ninguém mais queria contratar seus shows no medo deles se tornarem discursos sociopolíticos. O público não queria isso, até mesmo porque Nina possuia muitos fãs brancos. A indústria fonográfica tentou manipular a situação como podia, aliviando o tema nos repertórios, embora em alguns álbuns eles ainda se mantiveram fortes, como em High Priestess Of Soul (1967), Silk & Soul (1967), Nuff Said! (1968) e Black Gold (1970), mas essas informações não estão no filme, o que é uma pena para quem não conhece suas músicas.

Cansada dos maus tratos sofridos pelo marido, da violência que seu povo sofria nas ruas diariamente, do seu constante desgosto frente a política de seu país, e após a morte de diversos líderes ativistas e amigos, incluindo o próprio Luther King, Nina se exilou em Barbados, onde, convencida por Miriam Makeba, se mudou para a Libéria e lá viveu em reclusão por 8 anos.

Uma pena que o documentário tomou uma narrativa que leva a crer que toda sua trajetória tenha sido baseada apenas no ativismo sobre os direitos civis, quando Simone também se tornou uma figura feminista bastante forte. Nina também confrontou o Governo norte americano ao se recusar a pagar os impostos em protesto à guerra do Vietnã, gravando o álbum Emergency Ward! (1972) em resposta a isso. Seu auto exílio em Barbados foi para evitar os processos e a eventual prisão por conta do boicote aos impostos. O período em que viveu nesse país, o caso que teve com o primeiro ministro Errol Barrow e sua amizade com Miriam Makeba também nem foram citados, como se a artista tivesse feito uma ponte direta dos Estados Unidos para a Libéria. Ao contrário do que o filme dá a entender, Nina continuou fazendo pequenos shows pela Europa durante o tempo que morou na Suíça e na França, ao invés de simplesmente desaparecer do cenário. Essa superficialidade nos últimos 15 minutos sobre sua última década de vida infelizmente só faz com que o documentário termine em uma narrativa linear, aliviando e omitindo atitudes da artista como que poupar tempo e a audiência de uma personalidade tão forte como a dela, que chegou a dar um tiro em um empresário da indústria fonográfica pelo roubo de milhões de dólares em royalties de suas músicas. "Tentei matá-lo, mas errei", como ela mesma chegou a afirmar.

Sabe-se que Nina Simone fez diversas e memoráveis apresentações pelo mundo depois que iniciou seu tratamento contra a depressão e bipolaridade, e isso não apenas trouxe consequências positivas no controle dos disturbios como também foi uma das fases mais libertadoras da artista, quando a raiva já estava controlada e a música voltou a ser um prazer. Até mesmo sua receptividade com o público chamou a atenção de diversas pessoas que tinham conhecimento de seus rompantes nervosos e intolerância, e de um humor que aos poucos retornou à sua forma antes de todo o caos ter início. Não teria sido nada mal se o documentário tivesse mostrado um pouco mais disso.

Considerada uma das maiores e mais polêmicas artistas do mundo, Nina é mais do que uma diva do Jazz, ou do Soul, até porque ela nunca se limitou a esses estilos, mas uma mulher que acreditou na sua voz e que seu trabalho tinha relevância social. Para ela, a função do artista é ter uma causa que acredite, e trabalhar por ela. Quando sua filha diz que sua mãe é uma das maiores performers que o mundo já conheceu, ela não mente sobre isso. O dom que Nina tinha em transformar a sua voz em um instrumento de emoções é algo que impacta até mesmo quem não conhece sua história ou suas músicas. A facilidade nata em atingir os sentimentos mais finos ao ponto de imergir o ouvinte em sua música sem ele perceber é o que faz qualquer pessoa parar para ouví-la, onde quer que esteja tocando. 

Desde suas canções românticas, de apelo feminista, até as ativistas que explicitavam as diferenças e dificuldades raciais, como quando canta Mississipi Godamn no Festival de Musica de Westbury três dias depois da morte de Luther King, com a voz desbotada, engasgada pela dor da morte do "Rei do Amor" (como ela o chamava), são todas performances memoráveis e inesquecíveis de uma artista que, mais do que o racismo ou o machismo, ela sofreu por cantar alto demais aquilo que as pessoas evitavam ouvir.

CONCLUSÃO...
Talvez o único material sobre a artista a colocá-la literalmente no centro da história, tendo ela mesma como a própria narradora em uma articulação muito bem feita entre o vasto arquivo de imagem e som. Episódios que ligam melhor as histórias, principalmente no período em que deixou os Estados Unidos para se exilar em Barbados antes de buscar a reclusão na Libéria, também foram fatos importantes na trajetória, mas que não foram sequer citados, o que dá uma impressão bastante superficial de sua vida durante os anos que viveu na África. Isso deixa a narrativa mais linear e fácil, mas ao mesmo tempo poupa o espectador de maiores detalhes. Mesmo assim consegue ser um material consistente e emocionante sobre uma das maiores vozes da história, e uma excelente introdução à sua história para aqueles que pouco (ou nada) sabiam sobre ela.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RETROSPECTIVA: THE WALKING DEAD

★★★★★★★
Título: The Walking Dead
Ano: 2010
Gênero: Drama, Horror, Suspense, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Andrew Lincoln, Chandler Riggs, Steven Yeun, Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Danai Gurira
País: Estados Unidos
Duração: 47 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um policial acorda de um coma e vê o mundo em completo caos. Tudo está diferente de como ele lembrava, incluindo sua própria família e ele mesmo. Agora ele terá que sobreviver no meio de uma guerra que não parece ter fim, e quanto mais se buscam soluções, mais difícil e inóspito o mundo se torna.

O QUE TENHO A DIZER...
Há alguns meses antes da estréia da sexta temporada, achei interessante fazer uma retrospectiva.

Lançada em 2010 e criada por Frank Darabont, é baseada em uma série gráfica homônima criada por Robert Kirkman e ilustrada por Tony Moore, publicada originalmente em 2003.

A primeira temporada foi limitada a apenas seis episódios para testar a audiência, discreta e dentro dos 5 milhões de pessoas. Número aceitável para garantir os treze episódios da segunda temporada que superou as expectativas da primeira. E o mesmo aconteceu nas temporadas seguintes, que agora possuem 16 episódios.

Com o espantoso e recorrente aumento da audiência, a quinta temporada chegou ao impressionante número de 17 milhões de pessoas, um recorde absoluto na história dos canais à cabo e que definitivamente posicionou a série no topo das produções mais comentadas no mundo, o que tem garantido sua renovação ano após ano, ao ponto de David Alpert, produtor executivo, afirmar que já sabem que rumos dar às temporadas 11 e 12, caso tenham a sorte de chegar lá.

Que a adaptação desbravou o horror na televisão, isso é verdade. Tanto que, após sua consolidação, diversas outras emissoras investiram no gênero, mas é ingenuidade acreditar que o material seja original, tanto da adaptação, quanto do material gráfico. Ambos bebem de fontes já conhecidas do cinema, como a Hexologia dos Mortos, de George Romero, ou dos filmes Extermínio (28 Days Later, 2002), de Danny Boyle, e sua continuação muito bem sucedida e elogiada, dirigida por Juan Carlos Fresnadillo. Tanto é assim que Danny Boyle ainda cogita na possibilidade de uma terceira continuação, mas evita falar sobre isso pois tem medo do seriado utilizar qualquer idéia que escape, já que fazem isso o tempo todo.

A história de Rick Grimes, que acorda de um coma em meio a uma pandemia, não é nova. Qualquer semelhança com Extermínio, não é mera coincidência. A diferença é que no filme de Boyle não são zumbis, mas pessoas contaminadas com um tipo de raiva humana.

Rick é um policial casado com Lori, com quem tem um filho chamado Carl, uma criança que se espelha totalmente em seu pai ao mesmo tempo que se conflita com ele, numa relação mais freudiana e previsível possível. Há até uma tentativa de Carl em cometer um fatricídio, mas que felizmente não se concretiza, pois é esse o gancho dramático que tem que existir entre eles. Assim como o eixo dramático com Lori será a relação paralela que ela tem com Shane, o melhor amigo de Rick.

Carl vê em seu pai o exemplo de herói invencível e absoluto por conta de símbolos que ele carrega, como o chapéu, a estrela do distintivo e a arma, objetos que representam com bastante força a seriedade, o senso de justiça, a autoridade e o poder não apenas em Rick como um policial, mas também como figura paterna. Rick, por sua vez, se esforça para passar essa imagem segura a sua família. Por conta disso, Carl irá se conflitar constantemente com Rick porque tentará a todo momento prová-lo de que também consegue ser tudo isso, naquele constante esforço infantil de realizar atitudes grandiosas e ser reconhecido por elas. Por serem atitudes prematuras e inexperientes, muitas vezes colocam a vida de sua família, além da sua própria, em risco, gerando mais motivos para repreensões do que orgulho. Junta-se a isso o ambiente hostil e ameaçador, e Carl desenvolve no decorrer das temporadas uma personalidade mais fria e violenta, com leves traços de uma psicopatia que não sabemos se será desenvolvida pelos roteiristas, já que é um tema bastante complexo e que foi abordado com muita rapidez em uma personagem na quarta temporada, durante a fuga de Carol e Tyreese da Prisão.

Em torno disso há os personagens coadjuvantes que servem para dar consistência em uma história que não poderia simplesmente acontecer em torno de uma família. E durante a peregrinação de Atlanta para Georgia, Rick conhecerá dezenas de pessoas, das quais algumas se tornarão aliadas imprescindíveis para derrotar a extensa lista de inimigos que ele colecionará durante sua jornada de sobrevivência.

Muitos personagens entram e saem da história, às vezes, de maneira bastante aleatória. Alguns a morte já estava prevista na série gráfica, mas os roteiristas passaram a utilizar esse elemento com muita frequencia para dar espaço a personagens novos na errônea idéia de que renovar a série é trocar constantemente o elenco, mesmo que os dramas se repitam.

E repetem muito.

Essa recorrente substituição de personagens deixa de ser um fator surpresa para se transformar em algo previsível e por vezes revoltante, porque quando esses personagens passam a ganhar uma maior densidade, eles são retirados da história sem grandes justificativas. Portanto, quando personagens novos são apresentados, pode ter certeza de que alguns que já estavam na história irão desaparecer por algum motivo. Essa previsibilidade é, talvez, um dos pontos mais negativos.

No filme Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007), a história é construída de forma a criar empatias do espectador com personagens que morrem prematuramente na história e efetivamente nos dão a mesma sensação de perda e desespero que os protagonistas sentem, e que não há possibilidades para o fortalecimento de laços frente aos perigos constantes e da imprevisibilidade da perda. Mas em Walking Dead, ao invés das mortes causarem este impacto dramático, elas passam a clara oportunidade da produção em liberar espaço no elenco para que o orçamento não estoure e os roteiristas consigam articular tramas mais facilmente. Essa situação é ainda mais feia com os personagens negros que, até a terceira temporada, sempre foram poucos e mal chegavam aos 10% do elenco. Quando um personagem negro era apresentado, era certo de que algum dos únicos dois que já estavam presentes na trama iria morrer. Foi uma situação tão feia que talvez seja por isso que, a partir da quarta temporada, o número de personagens negros aumentou consideravelmente. Mas ainda sim essas substituições são bem óbvias, como acontece também na quinta temporada, em que personagens morreram de forma até absurda simplesmente porque não tinham mais onde serem encaixados.

Como um todo, os personagens principais (ou que se tornaram principais no decorrer das temporadas) sempre agradam mais alguns do que outros, mas é bastante óbvio que Rick perdeu com o tempo seu senso de justiça e liderança, se tornando um personagem irritante, egocêntrico e paranóico por conta de tantas contradições entre aquilo que diz e aquilo que faz, principalmente sobre decisões extremas. Como é dito na quinta temporada, ele é um personagem que se importa com seus colegas, mas sempre coloca a vida deles em risco. Rick tem surtos e toma decisões erradas. Está tudo bem ele decidir matar alguns prisioneiros que ele desconhece numa atitude preventiva, mas ele friamente condena Carol quando esta tem uma atitude preventiva muito mais importante durante o surto de gripe na quarta temporada. Aliás, uma das reviravoltas dramáticas mais desnecessárias que o seriado teve, que não somente serviu para justificar um sumiço temporário da personagem para focarem em outras subtramas, mas também para desafogar o excesso de elenco, porque se o número de personagens aumenta drasticamente, um massacre na história é bem vindo.

Depois que a morte de mais da metade do elenco (recorrentes ou de apoio) foi justificada pela doença, o surto de gripe saiu da trama da mesma forma como entrou, e nunca mais falaram sobre isso.

Em contraponto, personagens que começaram fracos, como a prória Carol, ou aqueles que causavam desconfiança e desconforto, como Daryl e Michonne, se transformaram nos mais fortes e melhores construídos. Uma pena que Andrea teve um arco dramático muito mal desenvolvido na terceira temporada, e a sua relação com o Governador chegou a ser fraca, beirando o ridículo. Não foi nada convincente vê-la voltar para os braços do vilão mesmo depois de descobrir todo o lado perverso dele, ou simplesmente não encontrar uma forma de fugir de Woodbury e efetivamente ajudar seu grupo na Prisão. A personagem foi completamente destruída por grandes erros do roteiro quando ela era uma das que mais poderiam ter se destacado no futuro tanto quanto se destacou na segunda temporada.

Mas felizmente Daryl e Michonne conseguiram despertar uma empatia tão forte que se algum deles for morto em alguma temporada futura, será o suicídio do seriado. O trabalho desenvolvido pela atriz Danai Gurira é excepcional, e a lenta descoberta de seu passado doloroso causa a mesma sensação de surpresa e compaixão que é tida pelos personagens. O relacionamento que ela desenvolve com Carl e o vínculo de fidelidade que ela cria com Rick são verdadeiros, e não há melhores momentos do que aqueles em que ela dialoga ou está feliz, raras situações que quebram completamente sua imagem pesada, muda e solitária, onde podemos ver que embaixo de várias camadas emocionais fortes que a protegem da dura realidade que enfrenta, há uma pessoa bastante solidária, fiel, delicada e até mesmo engraçada. É sempre emocionante vê-la em situações de impactos mistos, pois a atriz consegue elaborar toda essa complexa construção sem exageros ou apelo cliché. E Daryl, interpretado por Norman Reedus, se sucede da mesma forma, embora o conflito que ele tenha seja maior com ele mesmo do que com qualquer outro.

Também é interessante a mudança de comportamento dos personagens no decorrer dos episódios, como Carol, Maggie ou Sasha, que se embrutecem e encouraçam suas personalidades conforme veem amigos e parentes morrerem um a um, ou quando percebem que os vivos são muito mais perigosos que os mortos. O massacre que ocorre na Igreja, durante a quinta temporada, é a definição mais próxima de como a constante exposição a ambientes hostis podem liberar os lados mais obscuros das pessoas a favor da sobrevivência.

Em hipótese alguma podemos negar qualidade na produção. Desde a primeira temporada, em que o orçamento era muito mais limitado, Frank Darabont conseguiu desenvolver um projeto ousado com um nível de qualidade cinematográfico, e mesmo depois que ele foi demitido por divergências criativas, o mesmo nível foi mantido. Os pontos altos seguem para as equipes visuais e sonoras porque, tanto quanto as histórias ou os personagens em si, o impacto do seriado e o interesse por ele não poderiam ser construídos sem esses quesitos técnicos que criam toda a atmosfera desse universo. A sensação apocalíptica chega a ser brutal e delirante, mas recheado de um certo exagero fictício às vezes difícil de engolir.

Todos os eventos entre a primeira e quinta temporada acontecem em um período de aproximadamente dois anos, o que não é um tempo suficiente para prédios, ruas e cidades inteiras estarem em ruínas. Um tempo muito curto para um cenário apocalíptico tão abrangente. São mortos vivos, não é um cometa que atingiu a Terra. Há falta água, de energia e de comida, mas nunca de munição. Durante a terceira temporada o que mais se ouve é que a munição está escassa, mas ela nunca acaba. Risos, risos.

Há também aqueles momentos em que situações são usadas aleatoriamente para tapar buracos evidentes na narrativa ou elementos usados pelos roteiristas simplesmente quando eles julgam necessários, sem levarem em conta o impacto que isso causa dentro do contexto, como Michonne utilizar os próprios zumbis para se disfarçar entre eles, ou posteriormente, quando descobre por acidente que coberta pelas entranhas dos mortos o resultado é o mesmo. Essa camuflagem simplesmente é esquecida na história, só lembrada novamente quando Carol retorna para atacar o Santuário. Nas outras situações, principalmente quando estão a caminho de Washington, os personagens se tornam burros demais ao preferirem enfrentar hordas de zumbis do que simplesmente usarem a camuflagem. Claro, se esse elemento fosse utilizado o tempo todo na história, o seriado não teria graça. Então melhor se a idéia nunca tivesse sido inserida, certo? Ou fosse aproveitada de alguma forma em situações como essa.

Para quem prestar atenção nesses detalhes e encontrar esses erros clássicos e clichés, irá nitidamente perceber potenciais desperdiçados. Novamente são erros de roteiro e incoerências que extrapolam os exageros aceitáveis, e apesar de tanto cuidado, no fim tudo impressiona, mas sempre naquela sensação de que a inteligência do espectador é subestimada. 

A proposta de Frank Darabont com a série era ser um drama apocaliptico, com elementos de horror e tramas centradas nas relações entre personagens e os esforços para sobreviverem em limites extremos. Com sua saída, tudo tomou um rumo diferente. Claro que alguns dramas pessoais e humanos ainda são importantes, mas hoje em dia, na idéia de que o mais sempre é mais, em que tanto o cinema e a televisão abusam do sensacionalismo para atrair a atenção, é perceptível como o seriado se tornou cada vez mais violento e gore com o passar dos anos, algo de fazer O Albergue (Hostel, 2005), de Eli Roth, parecer filme de comédia perto do suco de sangue da quarta e quinta temporada, as mais vista na história da televisão à cabo e as mais aclamadas. E é por isso que já podemos imaginar que os anos seguintes tentarão sempre superar o nível de violência dos anteriores, não importa se as histórias se repetirão ou se as fórmulas serão recicladas.

Não falo da explícita e brutal violência como se eu acreditasse que ela possa influenciar pessoas. Não acredito nisso. A preocupação é unica e exclusivamente sobre o produto. Quando um filme ou seriado tem suas potenciais qualidades ofuscadas pelo excesso de cenas brutais para atrair facilmente a audiência, há perda até mesmo do entretenimento para dar espaço à banalidade. Preocupante também quando as pessoas dão preferência por esse abuso gratuito do que a um roteiro mais relevante, sólido e melhor construído. Essa troca da qualidade pelo mero impacto visual leva a alienação.

É nítido que Walking Dead agoniza com seu próprio sucesso. A expectativa de fãs levam os produtores a exigirem que o seriado sempre se supere de alguma forma. Ele ainda consegue ser um excelente entretenimento por conta de suas qualidades visuais e quesitos técnicos que, para um programa de televisão, são de cair o queixo. Mas tem que ter paciência. A repetitividade de tramas paralelas, como as constantes crises de Rick sobre a educação de Carl, ou nas decisões conflitantes que colocam à prova sua liderança, chegam a ser cansativas. Muitos personagens se tornam chatos e irritantes por conta desse vai e vem de situações que se concluem, mas voltam a se repetir em algum momento. Às vezes é recorrente desejar que a história mate esses personagens logo, e ao invés de ser empolgante, isso é desanimador porque fica óbvio que eles deixaram de funcionar.

O grupo foge, é atacado. O grupo se abriga, e é ameaçado. Há sempre um grande vilão que quer encarcerá-los ou matá-los de alguma forma. O episódio na Fazenda, o ataque ao Presídio, a invasão a Woodbury, a guerra do Governador, o Santuário... todas são, no fundo, histórias que se repetem e só recebem um diferente acabamento a cada nova temporada, virando uma coisa manjada tanto quanto zumbis aparecerem de repente em uma janela ou atrás de alguém (situações que já até perdi as contas de quantas vezes acontecem).

A quinta temporada tentou retomar um pouco da essência da primeira e segunda, jogando os heróis novamente na estrada até se depararem com uma dúvida chamada Alexandria. Foi bom ver a história desacelerar por alguns episódios, vê-los bem instalados, com roupas limpas e respirando aliviados finalmente. Mas a sensação de que Rick irá sabotar tudo isso em algum momento por alguma decisão impositiva é constante. E sabemos que é assim que será.

Mas até quando isso irá funcionar, não sabemos.

CONCLUSÃO...
Walking Dead surgiu com uma proposta que mudou alguns conceitos na televisão, abrindo espaço para produções do gênero de terror. Há cinco temporadas os espectadores tem feito parte da vida de um grupo de pessoas que lutam para sobreviver em um mundo hostil em meio a mortos e vivos, transformando a vida e a personalidade de cada um deles tão profundamente ao ponto de esquecerem de como eram quando o mundo ainda não havia sido tomado por um vírus que liberou a pior essência de cada um. Personagens morrem conforme novos personagens entram, dramas se repetem e alguns conflitos parecem nunca se resolverem. Quanto mais longeva for a produção, mais do mesmo será feito, apenas com uma diferente roupagem. Há possibilidades para mudanças de rumo que agora se mostram necessárias, e a quinta temporada demonstrou bastante isso, com histórias mais consistentes e erros menos graves do que os que aconteceram na terceira e quarta temporada. Ainda diverte, assusta e causa tensão, grande parte disso por conta da efetividade técnica, do capricho na produção visual e de alguns poucos personagens bastante consistentes que conseguiram ganhar maiores densidades e destaques do que os próprios personagens principais. Até quando os clichés e a repetitividade irá funcionar sem deixar aquele gosto de comida requentada é uma incógnita, mas é possível aproveitar bastante até lá.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

DUAS DÉCADAS DE POUCA EVOLUÇÃO...

★★★★★★★
Título: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Comédia, Suspense
Classificação: 12 anos
Direção: Colin Trevorrow
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Judy Greer
País: Estados Unidos, China
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O sonho de John Hammond se concretizou, e o parque agora está aberto ao público.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Jurassic Park foi lançado em 1993, eu tinha apenas 12 anos. Todo o mundo ficou boquiaberto. Não é à toa que Bryce Dallas, a atriz do novo filme, comparou a importância do primeiro filme com a chegada do homem à Lua, porque foi uma revolução naquilo que se conhecia sobre efeitos especiais. Spielberg, juntamente com a Industrial Light & Magic, fizeram um favor à humanidade em recriar os animais pré históricos de forma tão realista e convincente porque foi o mais próximo daquilo que poderíamos chegar dos extintos animais que, com excessão dos fósseis, o resto era muito mais parte do imaginário humano.

Embora haja muita informação incorreta sobre eles, Jurassic Park virou referência até na ciência. Óbvio que uma moldada aqui e alí foi necessária para ficarem mais bonitos na tela, o que é algo natural dentro do cinema, mas depois disso os paleontólogos parecem ter se empenhado muito mais em provar a imprecisão dos detalhes justamente para evitar aquilo que o personagem Alan Grant propõe logo no começo do filme, de que o trabalho dos paleontólogos estaria em extinção com o avanço da tecnologia.

A primeira verdade é que o público pouco se importa com isso, pois preciso ou não, tudo era coerente com a proposta do livro de Michael Crichton.

Foi um filme revolucionário, bonito, assustador e com aquelas pitadas absurdas típicas de Spielberg. Foi feito com esmero nos detalhes, e por isso é emocionante. Uma ode à fantasia e um épico de ação que firmou o diretor como um mestre do gênero (algo que ele infelizmente se distanciou com o tempo).

Lembro que quando me falaram do filme pela primeira vez, a única coisa que perguntei foi se os dinossauros faziam aqueles movimentos "tremidos", em referência à técnica de stop motion. Essa técnica era a única noção que tínhamos sobre dinossauros e efeitos especiais nessa escala naquela época, ainda a mesma utilizada em O Elo Perdido, clássica série dos anos 70.

Como éramos bobinhos.

O significado que a computação gráfica e a tecnologia visual teve no cinema com o filme de Spielberg foi tão importante quanto foi o stop motion no início do século XX com Viagem à Lua, (Le Voyage Dans La Lune, 1902), do francês George Meliès. E eu chorei de emoção quando vi algo tão fantástico. Era como se eu estivesse lá, dentro do parque. Não havia nada mais realista na época do que o ator deitado sobre a barriga do Tricerátopes em animatronic, ou do Tiranossauro em computação gráfica correndo atrás do jipe no meio da mata, arrebentando árvores caídas e dando cabeçadas em tudo que via pela frente numa fúria instintiva que não dava tempo de piscar os olhos. E eu choro até hoje quando assisto porque, embora mais de 20 anos se passaram, esse clássico da fantasia de ação ainda impressiona mais do que muitos filmes atuais, incluindo os demais da própria franquia.

O segundo filme, também dirigido por Spielberg, utilizou os mesmos elementos do primeiro, mas o diretor fez algo mais, e só a sequência inicial já indicava isso, em que uma garotinha é atacada por uma colônia de Compsognathus. E assim foi. O suspense e o horror na luta pela sobrevivência foram intensificados de tal forma que o corpo doía na poltrona do cinema de tanta tensão, como na sequência de mais de 15 minutos de desastres, um seguido do outro, sem tempo pra respirar. Como não ter suado frio com Juliane Moore estabacada inconsciente na janela do caminhão pendurado em um precipício, em que o vidro trincava aos poucos com seu peso?

E eu chorei de novo, porque era o cinema fazendo comigo aquilo que ele deve fazer por excelência: impressionar.

O terceiro filme foi abandonado por Spielberg. Embora ele assinasse a produção, houve rumores de que ele nunca sequer pisou nos sets de filmagem, e o diretor Joe Johnston ficou um tanto perdido, bem como o roteiro. Por isso a existência do filme é quase esquecida. Esquecida, inclusive, neste novo filme.

O quarto filme é uma sequência, mas também pode ser considerado um reboot, não apenas pela mudança simbólica do nome como também pelo grande hiato de 22 anos da série.

O parque finalmente está aberto ao público, e realmente é emocionante ver logo nos primeiros minutos, ao som da clássica trilha sonora de John Williams (mas agora rearranjada por Michael Giacchino), o sonho de John Hammond concretizado com as belíssimas tomadas aéreas da nova Ilha Nublar e nas grandiosas escalas que firmam a idéia de como somos tão pequenos e frágeis que nem sequer os melhores engenheiros de estrutura do mundo são capazes de atestar nossa segurança.

Não é necessário ter assistido os filmes anteriores para entender esse, a não ser para identificar as referências jogadas aleatoriamente o tempo todo sobre eles, como preciosos souvenirs para agradar os fãs mais vorazes.

A história já começa com várias autocríticas (e também metacríticas) que se estendem por todo o filme. A principal delas é de que os dinossauros não impressionam mais. E essa é a segunda verdade.

Em 1993 as pessoas lotaram os cinemas para verem o que nunca haviam visto, e hoje elas lotam o cinema porque são fãs e esperam ver algo a mais. Na história a situação é a mesma, e por essa razão criaram um novo personagem projetado pela engenharia genética, chamado de Indominus Rex, um tipo maior, mais assustador, mais inteligente, mais tudo aquilo que alguém poderia imaginar. Seu nome parece até piada, e de fato vira dentro da metacrítica. Ele é a nova atração no intuito de manter o interesse dos visitantes (e também daqueles que estão no cinema). Justificam também que a tal falta de precisão histórica dos dinossauros é pelas modificações genéticas que eles sofreram em laboratório.

Mas espera... o primeiro filme também falava que as sequências genéticas haviam sido completadas com outra espécie, bem como os filmes seguintes também abordaram a evolução natural que eles tiveram, ou o ecossistema auto suficiente que se desenvolveu na Ilha Sorna. Então essas informações não são novas, são apenas reafirmadas para refrescar a memória de quem não lembra e informar aqueles que não sabem. Assim como também não é novo o fato do Indominus ser maior, mais rápido e até mais esperto que o Tiranossauro, porque no terceiro filme houve o Spinossauro, que nem sequer é citado no filme além de uma breve aparição de seu esqueleto.

Embora pareça, Indominus não é um dinossauro, essa é a terceira verdade. Da mesma forma como o espectador pode pensar isso, essa afirmação é feita diversas vezes durante o filme. É a metacrítica novamente, justificando os erros do filme dentro do próprio filme. Isso até ajuda a história, mas não exonera a produção de defeitos, até porque o estreante não pode ofuscar a estrela principal que é o Tiranossauro.

Se dizem as más linguas que Spielberg abandonou completamente o terceiro episódio da franquia, aqui é evidente sua presença. Basta notar as formas como as cenas tentam gerar impacto. São cenas clássicas de Spielberg. É como se ele tivesse pego a câmera das mãos do diretor Colin Trevorrow e falado: Deixa que eu faço isso!

Não há como negar que a história tenta se embrenhar na atualidade ao mesmo tempo que almeja conquistar um público que não é mais familiarizado com sutilezas. A linguagem do cinema hoje está mais dinâmica, mais bruta e pesada, sem tempo para diálogos de duplo sentido ou uma ironia mais refinada. Se em 1993 era assustador um Tiranossauro devorar um homem que esperava sentado em uma privada para ter um efetivo alívio cômico na brutalidade, hoje isso causa apenas risadas e nada mais. E voltando na idéia de que dinossauros não impressionam mais, é por isso que o tom cômico aqui é maior. E graças a Chris Pratt, encarnando um tipo Indiana Jones de ser, que o humor de todo o filme parece muito mais parte da personalidade descontraída e aventureira do herói que ele interpreta do que um simples pastelão insosso.

E vale ser dito: é nesse filme que descobrimos porque Pratt se tornou o novo astro de ação. Mas não daquela ação bate-e-arrebenta de Dwayne Johnson ou Jason Stathan, mas aquela mais caricata, embutida de humor físico e carismático. É o Harrison Ford da nova geração. Até Bryce Dallas tenta retomar um tipo de heroína atualmente esquecido no cinema, daquela que arregaça as mangas, mas não tira o salto alto por nada, uma Willie Scott atualizada. Aliás, os sapatos da personagem é o que mais se ouvia comentar na sala, e que até rende uma cena rápida e bem feita em câmera lenta enquanto bate os saltos em fuga do Tiranossauro, num estilo meio Brian De Palma em Femme Fatale (2002). É a piada pronta, a sátira e o cliché para que não nos esqueçamos em momento algum que o Mundo dos Dinossauros é unica e exclusivamente um entretenimento.

Por isso, o que vemos ao longo das duas horas são os mesmos clichés e personagens estereotipados de sempre, e que sempre fizeram parte não apenas dos filmes da série como também desse gênero de ação com certo tom satírico que Spielberg definiu tão bem com seus filmes nas décadas de 80 e 90. Há o herói charmoso e engraçado, a mocinha que grita mas é dura na queda, o bandido que quer ficar rico, os pamonhas que morrem fácil e as crianças que dão trabalho. O maniqueísmo é óbvio, e os estereótipos que facilmente geram conflitos no arco dramático para convergirem ao final feliz são clássicos. Sim, igual ao primeiro. Igual ao segundo. E esta é a quarta verdade.

A quinta verdade é que ele vai agradar qualquer tipo de pessoa porque ele foi construído para isso. Não há ousadias. É tudo parte de uma fórmula pronta, repetida diversas vezes, e executada corretamente, como um prato aprovado no MasterChef. Realmente há exageros desnecessários, como a dos animais passarem a se comunicar como se estivessem numa reunião na praça. Mas isso é o cinema blockbuster em sua forma mais óbvia, não há como ser diferente, por mais que pudessem ter sido, já que tiveram 22 anos anos para isso. 

O defeito maior de tudo fica a cargo de tanta informação ao mesmo tempo deixar tudo muito raso, principalmente na relação entre os personagens, ou a presença das crianças também nem causar o mesmo impacto de fragilidade que tinha nos dois primeiros filmes. Não há sequencias que realmente impressionam e tiram o fôlego como já tiveram no passado, com excessão do ataque das aves, algo introduzido no terceiro filme e usado em larga proporção agora. O espectador até se esforça para se sentir impressionado, e os efeitos especiais também, principalmente dos animatronics, que parecem reais.

Ainda acredito que o 3D tem muito a evoluir, e no caso desse filme essa tecnologia mais incomoda do que ajuda. Ela nos dá noção de profunidade, mas diminui muito a qualidade visual do filme. Perde-se muitos detalhes do próprio cenário e suas composições, principalmente quando (como sempre) o dia vira noite no ápice da ação para facilitar o uso da computação gráfica, e tudo com o óculos desconfortável mais parece um filtro mau usado do Instagram do que uma experiência imersiva. Logo, se puder evitar as cópias 3D, evite.

O resultado de tudo é apenas uma leve satisfação. A intenção da franquia sempre foi entreter e nos levar para um mundo até então desconhecido, mas que hoje, depois de ter sua fórmula repetida diversas vezes, virou algo familiar e previsível que ainda diverte, mas muito mais no sentimento nostálgico do que naquele sabor de novidade.

CONCLUSÃO...
22 anos podem ter reacendido o interesse pelas pessoas nos dinossauros de Spielberg, mas não fizeram tão bem assim à franquia, já que a produção ainda se utiliza das mesmas fórmulas de sempre para construir sua narrativa e os personagens rasos, muito embora Chris Pratt e Bryce Dallas conseguiram até fazer milagres com pouco e entregar momentos cômicos sem soarem pastelões ou fora de lugar. Cheio de piadas prontas e referências aos filmes anteriores, diverte muito mais como uma sátira de ação, até porque com tanta metacrítica embutida para justificar seus erros e defeitos, fica difícil não interpretá-lo assim.
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