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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

GRANDE COMO SPIELBERG PODE SER...

★★★★★★★☆☆
Título: O Bom Gigante Amigo (The BFG)
Ano: 2016
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Rebecca Hall
País: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota, ao avistar um gigante, é raptada por ele de seu orfanado para que ele não corra o risco do segredo de sua espécie ainda existir ser revelado. Ele a leva para onde mora, no País dos Gigantes, onde uma genuína amizade será construída, da qual ambos ficarão fortalecidos para enfrentar suas dificuldades.

O QUE TENHO A DIZER...
Assistir O Bom Gigante Amigo é chegar à conclusão de que nenhum diretor seria melhor do que Spielberg para realizá-lo, e quando ele assina a produção através de sua tão amada produtora Amblin Entertainment, acredite, é um projeto mais que pessoal.

Esse sentimento é tido por vários motivos. O principal deles é o diretor voltar a pisar em um terreno infantil no qual se distanciou desde de E.T. (1982). Claro que a fantasia nunca foi abandonada nesses 33 anos que se passaram, mas nenhuma das poucas produções desse gênero realizadas por ele, até mesmo Tintim (2011), trouxe a mesma ingenuidade ou delicadeza metafórica e inspiradora como foi com o extraterrestre, que felizmente ele repete aqui. 

Adaptado do livro homônimo de Roald Dahl, publicado em 1982, o projeto estava no papel desde 1991, mas só em 2014 foi finalmente parar nas mãos de Spielberg, que afirmou sempre ter tido vontade de dirigí-lo, pois o autor foi genial ao empoderar as crianças, sendo ousado ao introduzir uma combinação entre o obscuro e o lúdico de tal forma que apenas a Disney havia feito em seus primeiros clássicos, capaz de assustar e ser reconfortante ao mesmo tempo, oferecendo uma moral que é única a todos. E claro, não é à toa que a Disney co-produziu e distribuiu o longa.

O que Spielberg humildemente esqueceu é que seu clássico anterior se tornou uma referência justamente por ter as mesmas características, e é exatamente aí que essa linda produção igualmente se destaca. A outra razão óbvia é que o roteiro também foi escrito por Melissa Mathison, a mesma de E.T. e do maravilhoso A Chave Mágica (The Indian And The Cupboard, 1995), de Frank Oz. Melissa acabou falecendo no final de 2015 enquanto O Bom Gigante estava em produção, sendo a ela que o filme é dedicado nos créditos finais.

Portanto, não é à toa que o diretor utiliza a mesma estética narrativa de E.T. em alguns momentos, e o mesmo fez Melissa com o roteiro, levando tanto os personagens quanto os espectadores a uma inicial apreensão sobre o que irá acontecer, e se o gigante envelhecido, de silhueta envergada, seja tudo aquilo de ruim que habita a fantasia das pessoas que cresceram ouvindo os mais diferentes contos e lendas envolvendo figuras desconhecidas como ele, tanto quanto foi com o extraterrestre de olhos imensos e de corpo atrofiado, e por conta disso parecerem tão atemorizantes em um primeiro contato. São nesses momentos que sua delicadeza se destaca da mesma forma como ele descreveu a obra original de Dahl, porque ele consegue transformar até mesmo o apavorante em algo bonito e carismático, como a ensinar que o medo é apenas uma hipérbole da nossa fértil imaginação e que só cabe a nós dominá-lo.

A história volta a repetir a velha moral de que nada deve ser julgado por aquilo que aparenta ser, de que todos nós somos especiais de alguma forma e que, embora únicos, nunca estamos sozinhos, sendo essas as características que nos aproximam de semelhantes e os vínculos de amizade e amor fraternal nascem. Assim é a forma como a relação entre BFG e Sophie (Ruby Barnhill) ocorre. Simples, porém inspiradora e sólida o suficiente para sustentar todo o filme.

Ao mesmo tempo que a estética de BFG seja ameaçadora em um primeiro momento, sua expressividade serena (que muito se assemelha a um Spielberg sem barba), o sorriso singelo e espontâneo de canto de boca (que muito lembra Harrison Ford), além do aspecto frágil junto a um comportamento ora ágil, ora desastrado, é o que embute o humor e a leveza que igualmente se expressam no seu linguajar confuso, o qual infelizmente se perde na tradução/dublagem em português. Mas é quando sua personalidade se desenvolve e seu arco dramático toma forma que finalmente o conhecemos e nos sensibilizamos com seu drama comum de viver uma vida solitária e complexada, já que é o menor e mais fraco dos gigantes, sendo constantemente assediado e humilhado pelos demais, taxado como uma vergonha de sua espécie. Olha-lo novamente depois disso é compreender sua postura diminuída, de andar tímido e pés interiorizados. É quando ele se torna um personagem lindo por essência, é quando queremos ser seu amigo por compaixão.

Seus irmãos gigantes são liderados pelo maior e mais forte deles (mas também o mais ignorante). Fleshlumpeater carrega em si uma revolta que alimenta seu ódio por humanos e que o fez desistir de suas funções de ente responsável pelo equilíbrio da natureza e das coisas, função que BFG ainda exerce incansavelmente há séculos, capturando sonhos e distribuindo-os pelas sombras na calada da noite, evitando ser visto na cidade pelas mais variadas e mirabolantes camuflagens possíveis, numa destreza impecável e até bastante engraçada.

Visualmente a produção é impecável, principalmente o design de produção assinado por Janusz Kaminski, que há 26 anos trabalha com Spielberg. Ele abusa de cores quentes e estéticas um tanto circenses no cenário para compensar a ambientação soturna em que boa parte da história se passa. É claro que a sensação plástica ainda existe nos cenários e animações, mas a expressividade dos personagens digitais, principalmente nos milimétricos movimentos faciais e na sincronia labial, é de longe a melhor já feita, conseguindo superar até mesmo a captura de movimentos de Smeagol/Gollum para a trilogia O Senhor dos Anéis. Não seria de se assustar se BFG concorresse ao Oscar (se isso fosse possível), mesmo sendo um personagem animado, pois ele é tão convincente quanto consegue ser Ruby Barnhill, que por sua vez é tão carismática quanto Drew Barrymore em E.T.

Um dos poucos defeitos do filme é justamente não deixar claro na história os verdadeiros motivos pelos demais gigantes terem se tornado tudo aquilo que a lenda urbana agora os descreve - que é por onde a narrativa do filme tem início - ficando difícil compreender porque existe tanta diferença entre BFG e os outros, mesmo que Fleshlumpeater afirme em um determinado momento ter desistido dos humanos, deixando subentendido que isso aconteceu por algum trauma passado, ou pelo isolamento no qual foram obrigados a se submeter em alguma época por, talvez, serem considerados aberrações. Sua reta final também deixa um pouco a desejar, levando os personagens a um encontro inusitado com uma figura inusitada em um lugar mais inusitado ainda, talvez para tentar mostrar às crianças e adultos que tudo é possível quando existe honestidade e boas intenções, mas isso leva a uma intervenção na conclusão na história que poderia ter sido menos autoritária como foi e que acaba ferindo toda a moral construída desde o princípio, como uma ralada no joelho.

De qualquer forma, não dá para ignorar que muitos dos elementos do clássico de ficção de Spielberg estejam novamente presentes aqui, não como referências, mas como resgate de uma narrativa fantasiosa, que motiva o público infantil e o transporta para o lado mais profundo de seu imaginário sem subestimá-lo ou diminuí-lo em momento algum. Pelo contrário, o filme empodera e engrandece este público, além de mostrar aos adultos que a ilusão e a fantasia ainda existem independente da idade, só é necessário dar asas a isso.

A narrativa, como muito foi citada pela crítica, é lenta, mas caprichosa, fluida (até chegar na tal infeliz reta final), um filme para ser visto através dos olhos das crianças, caso contrário ele não terá o mesmo efeito. Fazendo isso, no fim todos serão imersos dentro de uma mesma atmosfera onde cresce uma história comovente, com personagens carismáticos e cativantes, uma fotografia lúdica de brilhar os olhos e uma trilha sonora de John Williams de arrancar lágrimas de satisfação por conta da pefeita sinergia e sincronia com que Spielberg desenvolve tudo numa paixão pessoal que não se via desde As Aventuras de Tintim (2011) ou Lincoln (2012), fazendo aquilo que parecia complexo se tornar simples aos olhos e aos sentimentos.

CONCLUSÃO...
Infelizmente foi muito ignorado, custando US$140 milhões e arrecadando um pouco mais de US$170 milhões no mundo, estatisticamente considerado um fracasso. Pouco do público conseguiu se imergir na história como Spielberg propõe, talvez pelo fato desse público estar desacostumado com uma visão mais ingênua da qual o cinema se esqueceu em uma época onde tudo é irônico, tudo é sarcático e dúbio. Tecnicamente impecável, além de ter uma sensibilidade típica de um Spielberg que agora consegue aflorar emoções e sentimentos mistos sem ser apelativo, como já foi no passado.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

DUAS DÉCADAS DE POUCA EVOLUÇÃO...

★★★★★★★
Título: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Comédia, Suspense
Classificação: 12 anos
Direção: Colin Trevorrow
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Judy Greer
País: Estados Unidos, China
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O sonho de John Hammond se concretizou, e o parque agora está aberto ao público.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Jurassic Park foi lançado em 1993, eu tinha apenas 12 anos. Todo o mundo ficou boquiaberto. Não é à toa que Bryce Dallas, a atriz do novo filme, comparou a importância do primeiro filme com a chegada do homem à Lua, porque foi uma revolução naquilo que se conhecia sobre efeitos especiais. Spielberg, juntamente com a Industrial Light & Magic, fizeram um favor à humanidade em recriar os animais pré históricos de forma tão realista e convincente porque foi o mais próximo daquilo que poderíamos chegar dos extintos animais que, com excessão dos fósseis, o resto era muito mais parte do imaginário humano.

Embora haja muita informação incorreta sobre eles, Jurassic Park virou referência até na ciência. Óbvio que uma moldada aqui e alí foi necessária para ficarem mais bonitos na tela, o que é algo natural dentro do cinema, mas depois disso os paleontólogos parecem ter se empenhado muito mais em provar a imprecisão dos detalhes justamente para evitar aquilo que o personagem Alan Grant propõe logo no começo do filme, de que o trabalho dos paleontólogos estaria em extinção com o avanço da tecnologia.

A primeira verdade é que o público pouco se importa com isso, pois preciso ou não, tudo era coerente com a proposta do livro de Michael Crichton.

Foi um filme revolucionário, bonito, assustador e com aquelas pitadas absurdas típicas de Spielberg. Foi feito com esmero nos detalhes, e por isso é emocionante. Uma ode à fantasia e um épico de ação que firmou o diretor como um mestre do gênero (algo que ele infelizmente se distanciou com o tempo).

Lembro que quando me falaram do filme pela primeira vez, a única coisa que perguntei foi se os dinossauros faziam aqueles movimentos "tremidos", em referência à técnica de stop motion. Essa técnica era a única noção que tínhamos sobre dinossauros e efeitos especiais nessa escala naquela época, ainda a mesma utilizada em O Elo Perdido, clássica série dos anos 70.

Como éramos bobinhos.

O significado que a computação gráfica e a tecnologia visual teve no cinema com o filme de Spielberg foi tão importante quanto foi o stop motion no início do século XX com Viagem à Lua, (Le Voyage Dans La Lune, 1902), do francês George Meliès. E eu chorei de emoção quando vi algo tão fantástico. Era como se eu estivesse lá, dentro do parque. Não havia nada mais realista na época do que o ator deitado sobre a barriga do Tricerátopes em animatronic, ou do Tiranossauro em computação gráfica correndo atrás do jipe no meio da mata, arrebentando árvores caídas e dando cabeçadas em tudo que via pela frente numa fúria instintiva que não dava tempo de piscar os olhos. E eu choro até hoje quando assisto porque, embora mais de 20 anos se passaram, esse clássico da fantasia de ação ainda impressiona mais do que muitos filmes atuais, incluindo os demais da própria franquia.

O segundo filme, também dirigido por Spielberg, utilizou os mesmos elementos do primeiro, mas o diretor fez algo mais, e só a sequência inicial já indicava isso, em que uma garotinha é atacada por uma colônia de Compsognathus. E assim foi. O suspense e o horror na luta pela sobrevivência foram intensificados de tal forma que o corpo doía na poltrona do cinema de tanta tensão, como na sequência de mais de 15 minutos de desastres, um seguido do outro, sem tempo pra respirar. Como não ter suado frio com Juliane Moore estabacada inconsciente na janela do caminhão pendurado em um precipício, em que o vidro trincava aos poucos com seu peso?

E eu chorei de novo, porque era o cinema fazendo comigo aquilo que ele deve fazer por excelência: impressionar.

O terceiro filme foi abandonado por Spielberg. Embora ele assinasse a produção, houve rumores de que ele nunca sequer pisou nos sets de filmagem, e o diretor Joe Johnston ficou um tanto perdido, bem como o roteiro. Por isso a existência do filme é quase esquecida. Esquecida, inclusive, neste novo filme.

O quarto filme é uma sequência, mas também pode ser considerado um reboot, não apenas pela mudança simbólica do nome como também pelo grande hiato de 22 anos da série.

O parque finalmente está aberto ao público, e realmente é emocionante ver logo nos primeiros minutos, ao som da clássica trilha sonora de John Williams (mas agora rearranjada por Michael Giacchino), o sonho de John Hammond concretizado com as belíssimas tomadas aéreas da nova Ilha Nublar e nas grandiosas escalas que firmam a idéia de como somos tão pequenos e frágeis que nem sequer os melhores engenheiros de estrutura do mundo são capazes de atestar nossa segurança.

Não é necessário ter assistido os filmes anteriores para entender esse, a não ser para identificar as referências jogadas aleatoriamente o tempo todo sobre eles, como preciosos souvenirs para agradar os fãs mais vorazes.

A história já começa com várias autocríticas (e também metacríticas) que se estendem por todo o filme. A principal delas é de que os dinossauros não impressionam mais. E essa é a segunda verdade.

Em 1993 as pessoas lotaram os cinemas para verem o que nunca haviam visto, e hoje elas lotam o cinema porque são fãs e esperam ver algo a mais. Na história a situação é a mesma, e por essa razão criaram um novo personagem projetado pela engenharia genética, chamado de Indominus Rex, um tipo maior, mais assustador, mais inteligente, mais tudo aquilo que alguém poderia imaginar. Seu nome parece até piada, e de fato vira dentro da metacrítica. Ele é a nova atração no intuito de manter o interesse dos visitantes (e também daqueles que estão no cinema). Justificam também que a tal falta de precisão histórica dos dinossauros é pelas modificações genéticas que eles sofreram em laboratório.

Mas espera... o primeiro filme também falava que as sequências genéticas haviam sido completadas com outra espécie, bem como os filmes seguintes também abordaram a evolução natural que eles tiveram, ou o ecossistema auto suficiente que se desenvolveu na Ilha Sorna. Então essas informações não são novas, são apenas reafirmadas para refrescar a memória de quem não lembra e informar aqueles que não sabem. Assim como também não é novo o fato do Indominus ser maior, mais rápido e até mais esperto que o Tiranossauro, porque no terceiro filme houve o Spinossauro, que nem sequer é citado no filme além de uma breve aparição de seu esqueleto.

Embora pareça, Indominus não é um dinossauro, essa é a terceira verdade. Da mesma forma como o espectador pode pensar isso, essa afirmação é feita diversas vezes durante o filme. É a metacrítica novamente, justificando os erros do filme dentro do próprio filme. Isso até ajuda a história, mas não exonera a produção de defeitos, até porque o estreante não pode ofuscar a estrela principal que é o Tiranossauro.

Se dizem as más linguas que Spielberg abandonou completamente o terceiro episódio da franquia, aqui é evidente sua presença. Basta notar as formas como as cenas tentam gerar impacto. São cenas clássicas de Spielberg. É como se ele tivesse pego a câmera das mãos do diretor Colin Trevorrow e falado: Deixa que eu faço isso!

Não há como negar que a história tenta se embrenhar na atualidade ao mesmo tempo que almeja conquistar um público que não é mais familiarizado com sutilezas. A linguagem do cinema hoje está mais dinâmica, mais bruta e pesada, sem tempo para diálogos de duplo sentido ou uma ironia mais refinada. Se em 1993 era assustador um Tiranossauro devorar um homem que esperava sentado em uma privada para ter um efetivo alívio cômico na brutalidade, hoje isso causa apenas risadas e nada mais. E voltando na idéia de que dinossauros não impressionam mais, é por isso que o tom cômico aqui é maior. E graças a Chris Pratt, encarnando um tipo Indiana Jones de ser, que o humor de todo o filme parece muito mais parte da personalidade descontraída e aventureira do herói que ele interpreta do que um simples pastelão insosso.

E vale ser dito: é nesse filme que descobrimos porque Pratt se tornou o novo astro de ação. Mas não daquela ação bate-e-arrebenta de Dwayne Johnson ou Jason Stathan, mas aquela mais caricata, embutida de humor físico e carismático. É o Harrison Ford da nova geração. Até Bryce Dallas tenta retomar um tipo de heroína atualmente esquecido no cinema, daquela que arregaça as mangas, mas não tira o salto alto por nada, uma Willie Scott atualizada. Aliás, os sapatos da personagem é o que mais se ouvia comentar na sala, e que até rende uma cena rápida e bem feita em câmera lenta enquanto bate os saltos em fuga do Tiranossauro, num estilo meio Brian De Palma em Femme Fatale (2002). É a piada pronta, a sátira e o cliché para que não nos esqueçamos em momento algum que o Mundo dos Dinossauros é unica e exclusivamente um entretenimento.

Por isso, o que vemos ao longo das duas horas são os mesmos clichés e personagens estereotipados de sempre, e que sempre fizeram parte não apenas dos filmes da série como também desse gênero de ação com certo tom satírico que Spielberg definiu tão bem com seus filmes nas décadas de 80 e 90. Há o herói charmoso e engraçado, a mocinha que grita mas é dura na queda, o bandido que quer ficar rico, os pamonhas que morrem fácil e as crianças que dão trabalho. O maniqueísmo é óbvio, e os estereótipos que facilmente geram conflitos no arco dramático para convergirem ao final feliz são clássicos. Sim, igual ao primeiro. Igual ao segundo. E esta é a quarta verdade.

A quinta verdade é que ele vai agradar qualquer tipo de pessoa porque ele foi construído para isso. Não há ousadias. É tudo parte de uma fórmula pronta, repetida diversas vezes, e executada corretamente, como um prato aprovado no MasterChef. Realmente há exageros desnecessários, como a dos animais passarem a se comunicar como se estivessem numa reunião na praça. Mas isso é o cinema blockbuster em sua forma mais óbvia, não há como ser diferente, por mais que pudessem ter sido, já que tiveram 22 anos anos para isso. 

O defeito maior de tudo fica a cargo de tanta informação ao mesmo tempo deixar tudo muito raso, principalmente na relação entre os personagens, ou a presença das crianças também nem causar o mesmo impacto de fragilidade que tinha nos dois primeiros filmes. Não há sequencias que realmente impressionam e tiram o fôlego como já tiveram no passado, com excessão do ataque das aves, algo introduzido no terceiro filme e usado em larga proporção agora. O espectador até se esforça para se sentir impressionado, e os efeitos especiais também, principalmente dos animatronics, que parecem reais.

Ainda acredito que o 3D tem muito a evoluir, e no caso desse filme essa tecnologia mais incomoda do que ajuda. Ela nos dá noção de profunidade, mas diminui muito a qualidade visual do filme. Perde-se muitos detalhes do próprio cenário e suas composições, principalmente quando (como sempre) o dia vira noite no ápice da ação para facilitar o uso da computação gráfica, e tudo com o óculos desconfortável mais parece um filtro mau usado do Instagram do que uma experiência imersiva. Logo, se puder evitar as cópias 3D, evite.

O resultado de tudo é apenas uma leve satisfação. A intenção da franquia sempre foi entreter e nos levar para um mundo até então desconhecido, mas que hoje, depois de ter sua fórmula repetida diversas vezes, virou algo familiar e previsível que ainda diverte, mas muito mais no sentimento nostálgico do que naquele sabor de novidade.

CONCLUSÃO...
22 anos podem ter reacendido o interesse pelas pessoas nos dinossauros de Spielberg, mas não fizeram tão bem assim à franquia, já que a produção ainda se utiliza das mesmas fórmulas de sempre para construir sua narrativa e os personagens rasos, muito embora Chris Pratt e Bryce Dallas conseguiram até fazer milagres com pouco e entregar momentos cômicos sem soarem pastelões ou fora de lugar. Cheio de piadas prontas e referências aos filmes anteriores, diverte muito mais como uma sátira de ação, até porque com tanta metacrítica embutida para justificar seus erros e defeitos, fica difícil não interpretá-lo assim.

sábado, 19 de janeiro de 2013

SPIELBERG SEM MUITOS EXAGEROS...

★★★★★★★★★☆
Título: Lincoln
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn, Joseph Gordon-Lewitt, Lee Pace
País: Estados Unidos
Duração: 150 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os fatos históricos durante os dois últimos meses da vida de Abraham Lincoln e as dificuldades do presidente norte-americano em por fim à Guerra Civil e a votação favorável da 13ª Emenda Constitucional, que aboliria a escravatura no país.

O QUE TENHO A DIZER...
Lincoln nada mais é do que mais um filme que vira e mexe Spielberg realiza para alimentar seu patriotismo republicano e igualitário, cuja moral não é diferente de nenhum de seus filmes anteriores do gênero. Sua história com esse filme já dura 12 anos, desde quando ele se interessou em comprar os direitos do livro Teams Of Revival: The Political Genious Of Abraham Lincoln, de Doris Goodwin, antes mesmo dela começar a escrevê-lo.

Os direitos foram adquiridos em 2001, e logo em seguida o roteiro foi desenvolvido. Em 2005 Liam Neeson já havia assinado contrato para fazer o papel do presidente, mas vários problemas adiavam a produção do filme como a constante insatisfação do diretor com o roteiro e a preocupação da Paramount de que o filme pudesse ser similar ao fracasso Amistad (1997), também de Spielberg. Isso acabou forçando o ator a abandonar o projeto em 2010, afirmando que acreditava estar muito velho para o papel, embora boatos digam que o abandono do ator foi por causa da morte de sua mulher. Com um novo roteirista e Daniel Day-Lewis escalado para substituir Neeson, as filmagens finalmente começaram em 2010.
Ao contrário de seus filmes anteriores sobre guerra ou as discussões políticas que as envolvem, este filme pouco mostra sobre o conflito armado durante a famosa Guerra Civil Americana no século XIX, ou Guerra da Secessão, que durou quatro anos e teve quase 1 milhão de mortos. O roteirista Tony Kushner, com quem Spielberg já havia trabalhado em Munique (Munich, 2005), manteve o foco apenas nos dois últimos meses de mandato do presidente, detalhando os conflitos políticos e de interesses gerados para a votação da 13ª Emenda Constitucional Americana, que poria fim à escravidão e a qualquer condição de servidão involuntária.

Abraham Lincoln é pouco conhecido por aqui, mas nos Estados Unidos é um dos presidentes mais influentes (se não for o mais) na história e na cultura patriotista do país por ser considerado o presidente mais humano que a nação já teve. O filme também pouco aborda sobre sua vida, sua origem sulista e pobre, seu autodidatismo, seu casamento com Mary Todd, ou os dramas sofridos por ele e sua fiel companheira após o casamento. Na verdade há poucas pinceladas sobre isso ao citarem a morte prematura do segundo filho e algumas menções bem discretas sobre a neurose de sua esposa que sofria de enxaqueca crônica e de outras doenças, e por isso era popularmente considerada maluca.

O roteiro se mantém fixo na proposta de mostrar as dificuldades, os trâmites, os jogos de poder e até mesmo a corrupção por trás da emenda constitucional que deu liberdade e finalmente considerou todos os americanos como cidadãos, independente de sua cor ou raça. Também coloca em pauta a questão sobre até que ponto o líder de uma nação deve agir para o bem comum. Isso se dá por conta de algumas atitudes inconstitucionais e corruptas que Lincoln se sentiu obrigado a fazer para instaurar a paz e ao mesmo tempo promulgar a abolição, ao invés de favorecer os brancos e a elite social, como é de praxe.

É um filme bastante lento, que caminha contando os passos da vitória de Lincoln com sua 13ª Emenda até seu assassinato, que novamente é mostrado de maneira muito discreta, apenas para dar gancho a um final com um discurso inspirado do presidente e ainda apropriado para os dias de hoje. Por conta disso possui uma narrativa muito chata e cansativa e até mesmo confusa nas suas mais de duas horas de duração, principalmente para aqueles que desconhecem o sistema político americano daquela época. Mesmo assim é um importante material sobre um capítulo histórico que influenciou diversas nações, inclusive na abolição da escravatura no Brasil.

Tecnicamente é o melhor filme do diretor, que finalmente alcançou a "tal" perfeição técnica que ele vem buscando há anos. Seu estilo está lá o tempo todo, mas finalmente ele não peca nos excessos como costumeiro nas suas produções anteriores. Ele tenta se manter o mais discreto possível num estilo de filmagem mais clássico e coerente com a época do filme, onde a câmera estática e as angulações atuam apenas como um observador, deixando de lado o abuso do uso de trilhos, grua ou câmera suspensa e aquela terrível mania de focalizar os atores durante frases de efeito, como ele incansavelmente costuma fazer para causar impressões grandiosas ou intensificar a participação do espectador. Essa mudança é notável principalmente no início do filme, única parte em que ele mostra o conflito direto entre soldados e civis de maneira bastante brutal e realista, mas sem soar moderno e documentado como ele fez, por exemplo, nos 15 minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan  (Saving Private Ryan, 1998).

A trilha sonora de John Williams (colaborador de longa data do diretor) também sofreu uma mudança significativa não apenas por também estar mais discreta, como também por aparecer apenas em momentos muito específicos e que são, por excelência, os poucos momentos que Spielberg faz questão de não abrir mão da cafonice costumeira de pesar no sentimentalismo e na impressão, marcas registradas do seu estilo, como na cena da votação da 13ª Emenda, em que o Juíz também resolve dar o seu voto em uma situação que ele afirma "não ser incomum, mas ser histórica", um dos raros momento de Spielberg sendo o Spielberg de sempre.

O diretor faz tudo bem dosado com o único propósito: valorizar o grande material que ele tinha em mãos, principalmente do talento ímpar de seu elenco. As atuações são surpreendentes. Daniel Day-Lewis está irreconhecível em uma maquiagem discreta e que chega bem próximo àquilo que Lincoln deveria ser, numa atuação segura, confortável e absolutamente convincente de um personagem histórico que era mais que um político, mas um grande pensador e contador de histórias, o nível de perfeição e domínio tal qual o de Meryl Streep em A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011). Diz a história que Lincoln era um homem muito alto e de presença, e Spielberg sempre se utiliza de truques de câmera e tablados para reproduzir isso de maneira até exagerada, errando na dose algumas vezes e soando forçado, mas que não tiram o brilho e a grandiosidade natural de Day-Lewis.

Sally Field, como Mary Todd, tem uma participação bastante coadjuvante e até pequena, o que é uma pena, pois sua presença é sempre marcante, sendo um dos seus áureos momentos na cena em que ela faz um discurso pra lá de irônico a Thaddeus Stevens, personagem de Tommy Lee Jones. Spielberg a princípio não queria escalá-la para o papel, por considerá-la muito velha (ela é dez anos mais velha que Day-Lewis e vinte anos mais velha que Mary Todd na época em que é retratada), mas ela estava tão determinada que implorou uma chance ao diretor de realizar um teste de cena junto com ator com a finalidade de convencer Spielberg de que ela podia interpretar o papel apesar da grande diferença de idade. O ator foi tão solícito que saiu da Irlanda (onde mora) para os Estados Unidos simplesmente para o teste, e Sally Field o agradeceu publicamente diversas vezes por essa atitude bastante considerável, nobre até.

O filme conseguiu 12 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e roteiro adaptado, além das demais categorias técnicas como figurino, produção de arte e fotografia, que usa e abusa da caracterização do ator tal qual a história pinta. Mas as demais premiações dessa temporada não tem demonstrado favoritismo ao filme, com excessão de Day-Lewis, que merecidamente deve ser agraciado com uma terceira estatueta numa carreira bem traçada de filmes e personagens memoráveis (se igualando, até mesmo, a Meryl Streep).

CONCLUSÃO...
É um filme desenvolvimento lento, que foge bastante de tudo aquilo que Spielberg já realizou até hoje, e ao mesmo tempo é o filme mais bem dirigido e comedido, sem muitos dos exageros cometidos nos seus filmes anteriores. Alguns momentos cafonas e bem característicos do diretor ainda estão lá, mas não ofuscam o grande material e o grande elenco dessa produção.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

MAIS UM GRANDE EFEITO DE MARKETING...

★★★★
Título: Super 8
Ano: 2011
Gênero: Fantasia, Ação, Ficção
Classificação: 12 anos
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Zach Mills, Rolley Griffiths, Elle Faning, Kyle Chandler
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de amigos resolve fazer um vídeo caseiro e durante os takes realizados em uma antiga estação de trem, presenciam e sobrevivem a um enorme desastre sobre trilhos que revelará surpreendentes acontecimentos a todos eles.

O QUE TENHO A DIZER...
Sinceramente não gostei desse filme e ninguém pode me culpar por isso.

Estava muito interessado em assistí-lo, por conta do trailer e de todo o mistério envolvido em cima da produção, algo bastante similar com o que J.J. Abrams instruiu ser feito com o material de promoção de Cloverfield (2008), já que ele foi o produtor. E para quem assistiu e gostou de Cloverfield, acreditou que Super 8 pudesse seguir uma premissa similar. O trailer fez o que era suposto, acendendo o fogo da curiosidade em uma campanha maciça, como sempre deve ser feito em circunstâncias como essa. Então ele foi lançado e recebeu dezenas de críticas positivas não apenas pela mída especializada como também do público leigo, mas as pessoas nunca contavam sobre o que era o filme para não estragar as surpresas, como se realmente houvesse algo de muito interessante para esconder.

Ter J.J. Abrams como diretor, roteirista e produtor era um atrativo muito grande, já que ele foi o criador de seriados televisivos que não fizeram estrondoso sucesso, mas que mudaram algumas estruturas narrativas que estavam muito batidas na televisão norte-americana e que ficaram no boca-a-boca da mídia por muito tempo como os seriados Felicity, Alias, Lost e o atual Fringe, dentre outros projetos que fracassaram apenas pela falta de audiência, mas com boas idéias. Depois que ele migrou para o cinema, vem construindo um legado sólido com sua produtora Bad Robot, e tem sido muito bom naquilo que tem se comprometido, chamando atenção de diretores como Spielberg, que também é o produtor deste filme e que garante alguma qualidade. É por isso que penso que este filme foi mais sobrevalorizado por conta dos nomes que estavam contidos nele do que pelo seu potencial, pois há o fato de existir um senso comum de que só porque há o nome de Spielberg, o produto é bom, o que não é verdade. Um filme ter qualidade é uma coisa, um filme ser bom, é outra. E este é uma dessas ocasiões em que o produto tem qualidade, mas não é bom, e no fim foi uma grande decepção e uma perda de tempo comparando com o que eu estava esperando.

Obviamente que há alguns fatores que chamam bastante a atenção e nos remetem a grandes clássicos do gênero, como E.T. (1982), por exemplo. A direção de arte é belíssima, reproduzindo o fim dos anos 70 da melhor maneira possível. Claro que alguns anacronismos existem, mas são esquecíveis e passam despercebido no olhar mais leigo e imediato. Além disso, a direção de Abrams é muito similar a algumas das características que fizeram de Spielberg uma referência na época, como o uso abusivo de travellings, panorâmicas e a grua. Os travelllings, principalmente na hora de fechar uma cena em um determinado personagem durante um momento de perigo, tensão ou fuga, para aumentar a dramaticidade da situação, é algo que Spielberg usa insistentemente em todos seus filmes e que de certa forma já virou uma piada, pois quem já conhece o seu estilo conseguem antecipar esses momentos tanto quanto o zoom dado em momentos de extremo drama em novelas mexicanas. Talvez Abrams tenha feito isso propositalmente, já que ele mesmo chegou a dizer que ele é um grande fã de Spielberg e o filme é uma homenagem aos primeiros filmes do diretor. Os atores jovens, muito convincentes nos papéis, tem uma química muito perfeita, o que dá aquela sensação-Goonies de nostalgia que não sentimos há muito tempo no cinema. Referências a clássicos estão lá o tempo todo. De Romero a Spielberg, de Ridley Scott a James Cameron, todos complementando as intenções. Logo, tecnicamente, o filme é ótimo.

Mas então ocorre o acidente de trem, e se você não assistiu o filme, não tem problema, porque vou contar detalhes mesmo assim. Primeiro, me desculpe, mas é impossível uma simples caminhonete destruir um trem inteiro daquela forma e transformar tudo em uma grande catástrofe sem precedentes, a física consegue explicar isso melhor do que eu. Segundo, como é possível alguém dirigir um carro diretamente contra um trem e bater contra ele, fazer o trem de 20 vagões explodir, tirá-lo inteiramente do trilho, jogar vagões pelo ar e destruir tudo a sua volta, mas continuar vivo e com apenas alguns arranhões no rosto? Sem sentido. Isso não aconteceria nem mesmo em Indiana Jones de tão inverossímel, forçado e absurdo.

Além do acidente também há o desenvolvimento da história. Demora horas para algo interessante acontecer, mantendo um tédio infinito naquela velha fórmula de suspense de nunca revelar a ameaça por inteiro, apenas por partes, como era feito em Alien (1979), o que é um vício do cinema que não funciona mais tão bem. Depois de uma hora fiquei com sono e desinteressado, as sequências de ação e tensão acabavam tão rápido quanto começavam e o fim foi algo muito decepcionante. Existe esse monstro que faz cachorros desaparecerem, mata e come pessoas e tudo que estiver à sua frente como um o Taz Mania, até o garoto de nobre coração dizer palavras mágicas que vêm de seu mais ingênuo espírito sem precisar de tradutor porque estes sentimentos são universais (???) e esse monstro finalmente para de criar o caos e decide voltar para seu planeta.

O que é isso?

CONCLUSÃO...
Sem dúvida eu esperava algo muito melhor, e isso não é culpa minha, é culpa do material promocional que divulgou o filme como um gênero que ele não tem, com uma narrativa que ele em momento algum faz, e com uma dinâmica que em momento algum acontece, tanto é que quase dormi várias vezes. Talvez se nada disso tivesse sido feito eu teria apreciado de maneira diferente. É um filme para adolescentes, e isso é o ponto positivo dele, mas até mesmo esse público sai do cinema sentindo que algo está faltando e não engolindo muito bem os absurdos porque, embora o filme seja também uma fantasia, ele não é tratado como tal como acontece no clássico incopiável e incomparável Goonies (1982).
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