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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DEU LIGA...

★★★★★★★☆
Título: Liga da Justiça (Justice League)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Zack Snyder, Joss Whedon
Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Henry Cavill, Amy Adams, Diane Lane
País: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Inspirado pela altruísta morte de Superman, Batman busca ajuda de Mulher Maravilha para recrutar outros aliados poderosos e assim terem forças o suficiente para combater uma grande ameaça que está por vir.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 2000, quando Brian Singer lançou o primeiro X-Men, cinéfilos visionários já sabiam que um novo gênero havia sido criado, e que os quadrinhos revolucionariam para sempre o futuro estagnado do cinema de ação. Hollywood tem se aproveitado disso incansavelmente, tanto que tem sido o gênero mais rentável desde então. Só as produções da Marvel já tiveram uma bilheteria que facilmente extrapola os US$20 bilhões quando se faz uma conta bem por cima, sequer sendo necessário analisar os dados contábeis no Box Office Mojo.

Quase 20 anos depois, muita pedra rolou, e enquanto a comissão de frente da Marvel foi abrindo alas, criando tendências e fórmulas, a Warner/DC mofava num mundo paralelo, acreditando que a coexistência ente os quadrinhos e o cinema seria algo passageiro. Por essa razão, preferiu permanecer na zona de conforto explorando apenas aquilo que sempre lhe deu lucro: o mundo obscuro de Batman. Os anos foram passando, a Marvel se divertia horrores e ria à toa, e o gênero, ao invés de decair, apenas se fortalecia. Houve uma tentativa aqui e alí da DC com o nostálgico Superman - O Retorno (2006), com o desastroso Lanterna Verde (2011) e o dispensável Homem de Aço (2013), e do nada, resolveu acordar para a vida e pegar este último como o ponto de partida daquilo que ela veio a chamar de Universo Expandido.

A pressa é a inimiga da perfeição, já dizia o ditado. O que demorou 20 anos para a Marvel aperfeiçoar, a Warner/DC resolveu fazer em 3. E o pior, sem qualquer pré-requisito. Ao invés de se aproveitar das experiências da rival, ela quis se provar única, pegando um ou outro elemento irrelevante da "concorrência" e transformando todo o resto para dizer que havia uma assinatura particular.

Funcionou? Não.

Os filmes estão aí para provar. Se Homem de Aço já começou todo errado, Batman vs. Superman foi um equívoco e Esquadrão Suicida foi tudo aquilo que Esquadrão Suicida não deveria ter sido, sobrou a Mulher Maravilha a salvação. O filme de Patty Jenkins conseguiu ser o momento de grande redenção da DC, conquistada com merecimento. E até o momento, não foi Batman, nem Superman, quem salvou o Universo Expandido da DC, mas a heroína grega criada por William Moulton Marston.

É compreensível que exista uma rincha entre os fãs da Marvel e os da DC. O mercado sempre precisou disso desde quando a rivalidade começou lá nos quadrinhos, nas décadas de 60, 70 e posteriores. Sabemos também que, enquanto os fãs se matam, os dois grandes selos jantam e brindam juntos, gargalhando de uma situação que o próprio mercado cria espontaneamente, caso contrário as empresas nunca teriam feito os famosos crossovers, como as mini-séries em quadrinhos DC vs. Marvel e Amálgama, ambas da década de 90.

Mas no cinema a coisa tomou proporções mais sérias, e a polaridade se tornou quase política. Por um lado temos os fãs da Warner/DC que não aceitam o constante sucesso da Disney/Marvel, argumentando pelos quatro cantos que a crítica mundial foi comprada (???) para falar mal a qualquer custo sobre os filmes da Warner/DC e deliberadamente denegrir sua imagem. Por outro lado temos os fãs da Marvel, que tiram sarro do fracasso alheio e contribuem para a anti-propaganda.

A verdade é que os dois lados estão errados. Há espaço para todos, mas não há espaço para aquilo que é evidentemente mal feito e mal planejado. Os filmes da Marvel podem ter entrado numa fórmula já cansada, ter excesso de piadas infantis e um irritante bom humor como os últimos filmes tem sido, mas a ação, o entretenimento e as conexões com todo seu universo funcionam. A Warner/DC ainda engatinha, e a cada passo para frente, um novo filme a faz dar dois para trás porque não há uma estrutura sólida, uma base concreta suficiente como a Marvel demorou anos para lapidar. Do Homem de Aço para o dia, a DC resolveu finalmente criar um universo cinematográfico com 15 anos de atraso que poderia dar certo, já que nos games e na TV esse universo já existe, é sólido, e funciona. Não está funcionando não porque chegou atrasada, mas porque existe uma ânsia obrigatória de sucesso e um foco ambicioso em cifras que a está fazendo atropelar processos, trocando os pés pelas mãos.

Um ou outro fã extremista pode querer justificar de mil maneiras que Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida foram propositalmente subestimados. Não importa o que se diga, é fato que são dois filmes que fazem qualquer coisa, menos agregar a idéia de que são parte de um mesmo ecossistema.

Liga da Justiça tinha tudo para dar errado. Absolutamente tudo. A começar por manter Zack Snyder na direção. Ele não havia entregado um bom trabalho nas duas tentativas anteriores com Homem de Aço e Batman vs. Superman, e mantê-lo era burrice desde o princípio.

Ruim com Snyder, pior ficaria sem ele, e assim foi quando o diretor se afastou do filme no fim da produção depois do suicídio de sua filha, em Março deste ano. É fato que imprevistos durante uma produção tem a tendência de desandar como claras em neve. A sorte foi que Joss Whedon havia recentemente fechado contrato com a Warner para dirigir Batgirl, e como sua disponibilidade pelo estúdio estava acessível, ele aceitou o convite/desafio de dar continuidade ao trabalho de Snyder. Ele não leva créditos como diretor, mas leva como roteirista.

Whedon pegou o filme quase pronto, mas isso não o impediu de mudar certas coisas, convocando novamente os atores para filmagens extras, mesmo com Gal Gadot grávida, e Henry Cavill com um bigode que não podia ser raspado por exigências contratuais de outro longa que estava filmando. Tanto a barriga de Gal quanto o bigode de Cavill foram removidos digitalmente nas cenas incluídas tardiamente. A barriga não foi um problema, mas a boca digitalmente reconstruída de Cavill gerou piadas e polêmicas ao ponto de argumentarem que teria saído mais barato pagar a multa contratual do que fazer um trabalho caro e porco como o que foi feito.

Mas a verdade é que os pitacos de Whedon foram importantíssimos para o resultado final. As cenas de ação se mostram mais fluidas e menos megalomaníacas, e as filmagens extras trouxeram leveza e humanidade aos personagens, elementos que sempre faltaram no outro diretor. Mesmo com boa parte do trabalho já feito por Snyder, as mãos de Whedon fizeram mágica na pós-produção, evitando ao máximo a saturação e o carregamento de filtros, além de uma edição que faz milagres e um resultado acima da média para quem esperava o pior.

Whedon também foi o responsável por trazer de volta o compositor Danny Elfman ao mundo DC, compositor responsável pela icônica trilha sonora de Batman (1989) e Batman: O Retorno (1992), ambos de Tim Burton. Não é à toa que uma deliciosa sensação nostálgica toma conta quando notas dessa clássica trilha sonora ecoa na sala do cinema enquanto Batman (Ben Affleck) se aventura pelas ruas de Gotham. Sem dúvida foi uma referência direta e muito importante de que o legado de Tim Burton precisava ser mantido, mesmo que distante. Uma pena que o filme acabou não dando espaço para o brilhantismo de Elfman enaltecer a atmosfera heróica como deveria, sua participação bastante comedida acaba por dar muito mais espaço a efeitos sonoros que tentam tirar a atenção de grandes defeitos do filme.

Sim, Liga da Justiça não consegue se abster de defeitos, o que não deveria ter acontecido para um projeto que existe desde a década de 90. Começando pelo excesso de cenas em computação gráfica até mesmo quando desnecessário. O grande vilão da trama, o Lobo da Estepe, não precisava ser um personagem digital. A dublagem de Ciaran Hinds é cavernosa e expressiva o suficiente para dar medo apenas em ouvir o seu suspiro, mas o personagem perde o impacto com expressões faciais bastante artificiais e uma falta de sincronia tão ruim que chega a parecer até piada. Outra coisa é que, embora Mulher Maravilha (Gal Gadot) tenha uma entrada triunfal logo no ínicio do longa junto a sua já característica trilha sonora, mantendo a mesma brutalidade acrobática em táticas ofensivas e defensivas que tanto chamaram atenção no seu filme solo, seria perspicaz que, depois do sucesso dele, muita da atenção fosse voltada mais a ela do que nos demais. Só que é possível notar que o roteiro tentar ofuscá-la a todo custo, não para manter um equilíbrio igualitário entre os heróis, mas para tentar enfiar "guela abaixo" no espectador uma predileção a Batman e Superman que não existe mais. Isso contraria a preferência natural do público e do próprio desenvolvimento da história, já que quanto mais as ameaças aumentam, mais inútil Batman fica, e quando Superman entra em cena é porque o filme precisa acabar, ignorando completamente que os poderes de Mulher Maravilha são os mais equivalentes aos de Superman que o universo DC tem, mas que o filme insiste em colocá-la em situações sempre bastante vulneráveis para, como dito, impedir que ela roube a cena. O que é impossível, diga-se de passagem, porque ela as rouba mesmo assim tanto quanto fez em Batman vs. Superman, e o interesse pelo seu segundo filme solo só aumentou depois disso.

Se a Liga for analisada como ela de fato se propõe, ter colocado um personagem como Lobo da Estepe como o primeiro grande vilão da franquia soa um pouco inadequado. A Liga na verdade foi montada para que as habilidades de cada respectivo herói fosse utilizada para missões específicas frente às inúmeras ameaças e diferentes vilões que foram brotando no universo DC, algo que não é o foco aqui, além de uma grande reunião de pessoas poderosas que batalham aleatoriamente com o que aparecer na frente. A escolha de um primeiro vilão, ou de uma primeira grande ameaça, deveria ter sido melhor feita para que houvesse uma progressão convincente daqui pra frente. Não foi dado um sentimento de continuidade, como acontece em Os Vingadores, e se no segundo filme aparecer um outro vilão que tem como objetivo novamente destruir o mundo, apenas teremos mais do mesmo e a sensação de deja vu que todo filme da Marvel tem dado ultimamente.

Mas como um todo, o filme traz uma excelente sensação de novidade tal como o primeiro filme d'Os Vingadores, e mesmo com tantos defeitos, muita coisa funciona. Finalmente parece que, mesmo a tropeços, Warner/DC está conseguindo encontrar seu rumo no cinema, principalmente no equilíbrio entre a ação e os momentos de alívio cômico que não beiram a infantilidade fora de hora dos títulos da Marvel, e muito menos a imbecilidade quase ultrajante de Esquadrão Suicida. O humor aqui é equivalente ao longa de Mulher Maravilha, sutil e pontual, sem exageros. Os momentos de humor ocorrem naturalmente e de maneira equilibrada, como na inusitada sequência em que Aquaman (Jason Momoa) começa a fazer declarações floridas e piegas, uma pegadinha que funcionou muito por fazer algo que há muito os alívios cômicos não fazem nos filmes: pegar o espectador de surpresa. E momentos assim há bastante. Além de tudo, por incrível que pareça, os diálogos paralelos tem mais consistência do que parecem, e merecem atenção.

The Flash (Ezra Miller) é um dos outros exemplos daquilo que funciona, pois ele poderia ter caído no banalismo caricato, mas Miller consegue segurar as pontas, expressando muito bem o deslumbre juvenil do personagem, de suas descobertas, e de fazer parte de algo grandioso e útil, e mesmo que seu comportamento chegue a ter leves semelhanças ao jovem Mercúrio, de X-Men: Primeira Classe (2011), as situações lhe caem tão bem que deixa de ser um estorvo para se tornar carismático. O mesmo sobre Aquaman. Completamente diferente da versão clássica dos quadrinhos, Jason Momoa trouxe uma carranca bem vinda ao personagem, uma fúria sem limites ou medo na hora de enfrentar o que deve ser enfrentado. O humor brucutu dele também está lá, implícito, contrabalanceando o egocentrismo de Batman (Ben Affleck), que também teve seu lado mais obscuro pendurado nos cabides e mais ironia em seus sorrisinhos de canto de boca.

Mas infelizmente para tudo há seu preço, e mesmo que Liga da Justiça cumpra bem seu papel, o fato é que ele deveria ter sido o primeiro grande filme inaugural do Universo Expandido da DC, e não o quinto. Depois de tantos acidentes de percurso e persistência do público fiel à espera de algo realmente bom por parte da Warner/DC, Liga chega um pouco tarde, num momento que seu público já estava descrente e cansado de esperar, e o reflexo disso é visto em sua péssima estréia nos Estados Unidos, não chegando sequer a US$95 milhões. Um desastre quando comparado com os anteriores, tanto deles mesmos, quanto da Marvel. E frente a isso, o futuro da DC no cinema, novamente, outra vez, será uma incógnita.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE GRACE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Alias Grace
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Marry Harron
Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Zachary Levy, Paul Gross, Anna Paquin, Rebecca Liddiard, David Cronemberg
País: Canadá
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Baseado na história real de Grace Marks, uma serviçal que é condenada a prisão perpétua por duplo homicídio.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1843, Thomas Kinnear e sua governanta, Nancy Montgomery, foram brutalmente assassinados na região do Alto Canadá, hoje sul da província de Ontário. Grace Marks e James McDermott, serviçais de Kinnear, foram acusados do crime. McDermott foi condenado à forca, e Grace acabou sendo sentenciada à prisão perpétua por, na época, ter apenas 16 anos, e porque a sua participação no crime tinha pontos inconclusivos.

A sentença foi controversa, pois por um lado a investigação concluiu que McDermott foi o principal responsável pelo crime por conta da brutalidade e da força necessária para tal, mas sua confissão afirmava que Grace não apenas participou, como também foi a mandante. Durante os 30 anos encarcerada, Grace afirmou não se lembrar de absolutamente qualquer coisa relacionada ao crime, e sua amnésia pós-traumática ergueu diversos questionamentos sobre o fato. Para piorar as dúvidas já existentes, o advogado de defesa dos réus orientou-os à uma confissão elaborada perante o juri. A confissão tinha apenas o intuito de aliviar a pena, já que a sentença havia sido determinada antes mesmo do julgamento. Logo, a confissão elaborada serviu, por fim, apenas para criar maior confusão sobre o que realmente aconteceu ou não, o que o seriado também consegue estruturar muito bem.

Por conta do excelente comportamento e conduta de Grace, além da relevância de ter sido presa tão jovem e passado boa parte da sua vida encarcerada, mesmo com um julgamento inconclusivo, com 46 anos de idade ela foi perdoada pelo Governador. Com a liberdade ela se mudou para Nova York. Após isso, nunca mais se teve registros sobre seu paradeiro, sequer data oficial de morte, e sua história, ao mesmo tempo que é uma dúvida, também se tornou lenda. Portanto, o final do seriado é fictício, e apenas uma forma da autora concluir a história de maneira que todas as discussões relevadas durante os episódios tomassem uma forma definitiva, deixando explícito que, para a personagem conquistar pequenas coisas que sempre deu valor, teve de aceitar continuar sendo subserviente.

O livro homônimo de Margaret Atwood, no qual o seriado é baseado, foi publicado em 1996, e utilizava como base a biografia de Grace Marks a partir das publicações de Susanna Moodie, de 1970. Segundo Atwood, o trabalho de Moodie foi uma grande inspiração, mas com o tempo percebeu, através de pesquisas, que muito do descrito sobre o assassinato não era verídico, o que a fez mudar sua opinião sobre a culpabilidade de Grace Marks, e então a idéia sobre o romance que trajeta entre o verídico e o fictício, criou forma.

A mini-série de 6 episódios (e será somente isso) tem prioridade na mesma narrativa em primeira pessoa da protagonista, cuja história se desenvolve através de diálogos com um personagem que não existiu na vida real, justamente para alguns fatos se manterem próximo dos acontecimentos verídicos, mas ao mesmo tempo dar liberdade para diversas outras interpretações.

O personagem fictício em questão é Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), um psiquiatra jovem, engajado em estudos sobre doenças mentais numa época em que a psiquiatria começava a dar maior atenção ao empirismo. Nas primeiras sessões, Dr. Simon tenta resgatar a memória de Grace através de sugestões sobre coisas e sensações que pudessem remeter ao momento do homicídio, mas a paciente não corresponde da maneira como ele espera. É quando ele solicita que ela conte toda sua história desde sua infância até o momento mais recente, acreditando que, dessa forma, a memória perdida possa aos poucos ser recuperada. E dia após dia, durante as tardes na sala de costura da casa do Governador, é onde as sessões ocorrerão em meios a flash-backs sobre as memórias da protagonista conforme sua narração progride.

Atwood tem sido um nome bastante comentado ultimamente por conta da aclamada série The Handmaid's Tale, disponível pelo serviço de streaming Amazon Prime, série igualmente baseada no livro homônimo da autora de 1985. Embora os dois livros e as duas séries tenham temas bem distintos, a alma central de ambas é basicamente a mesma: utilizar um acontecimento específico como gatilho para explorar de maneira abrangente diversas questões sócio-culturais, políticas, espirituais e religiosas.

O roteiro aqui, assinado pela própria Atwood em parceria com Sarah Polley (criadora e produtora da série), tenta manter as mesmas características do gênero gótico no qual o livro se propõe. Essas características incluem a expressão das doenças sociais da época, explicitando a corrupção moral e a hipocrisia aristocrática, adicionando a isso elementos sobrenaturais e a possibilidade de comunicação espiritual com os mortos, o que foi, de fato, uma catarse de interesse científico durante a era vitoriana (por isso que o episódio da sessão de hipnose é assistida por um pequeno grupo formado por religiosos, intelectuais e estudiosos).

O foco do roteiro se mantém fiel ao do livro, que não é questionar a culpabilidade de Grace no duplo homicídio, mas de utilizar a personagem como uma forte ferramenta de expressão e estudo de comportamento. Tanto é assim que a história pisa em ovos para não ser tendenciosa para nenhum dos lados, seja para sua culpa, seja para sua inocência. Mas independente disso, o que vale é a perfeita costura dos fatos com observações sociais que ainda continuam mais atuais do que nunca.

A narrativa da protagonista, que tem início desde sua imigração da Irlanda para os Estados Unidos aos 12 anos, não esconde em nenhum momento as dificuldades que teve com sua família ao saírem de seu país natal em busca do Novo Mundo. Sua história é uma incrível sucessão de desastres e infortúnios. Das desgraças da pobreza às dificuldades sofridas por ela e suas irmãs por conta de um pai alcoólatra e abusivo, sendo obrigada a deixar aquilo que restou de sua família para trabalhar como serviçal em regimes de trabalho semi-escravo, sem qualquer perspectiva de independência ou mobilidade, como qualquer outra pessoa no mesmo patamar social que o dela.

As roteiristas conseguem retratar uma época onde as mulheres eram obrigadas a serem subservientes aos homens, em uma sociedade machista que as impediam de decisões além do espaço doméstico. Ao proletário, a subserviência incondicional aos detentores do dinheiro e do poder.

A ingenuidade de Grace a leva a acreditar que todos os sofrimentos, perdas e desastres de sua vida sejam coisas comuns e naturais por essas terem sido a realidade que sempre viveu, e essa consciência fica explícita na maneira indiferente como ela relata sua trágica história como fatos corriqueiros, partindo do princípio fatalista e conformista de que as coisas assim são porque devem ser e nada há de ser feito para ser mudado, um ponto de vista triste e melancólico para quem observa, mas que foi (e ainda é) a realidade de uma grande maioria. Mesmo assim, as observações simplistas e tácitas da personagem sobre a vida cotidiana e submissa, e de sua função irrelevante e passageira na sociedade, ao mesmo tempo que soam poéticas, narram a crueldade social de maneira cirúrgica e arrebatadora.

Aos poucos a história de diversos acontecimentos trágicos nos revela que ela nada mais é que um produto determinado pelo meio em que vive, mas que de certa forma evolui tal como as mariposas de Darwin, obrigando-a criar escapes psicológicos para conseguir sobreviver às adversidades sociais em que está inserida, oprimindo suas vulnerabilidades e desencadeando mecanismos de defesa inconscientes. Daí o significado do título, pois "alias", numa tradução livre, significa "codinome", já que ela desenvolve personas ao longo de sua vida para conseguir superar os obstáculos e dificuldades, o que é explicado após a já citada sessão de hipnose, sequência que poderá ser facilmente confundida como um elemento sobrenatural na série quando, na verdade, é o mecanismo de defesa da personagem que se manifesta. Um momento em que toda a atenção deve ser dada, pois é ele que irá esclarecer absolutamente muitas das dúvidas semeadas ao longo dos episódios, sem tirar do espectador o seu próprio julgamento.

Se torna óbvio que o maior ponto de toda a trama é escancarar a opressão e a submissão feminina na sociedade, e que tudo o que estamos vendo nos dias atuais nada mais é do que o resultado histórico disso. E Grace Marks, sendo ou não uma metáfora, é igualmente uma consequência.

Se é angustiante ver Grace ser abusada pelo próprio pai e depois escurraçada de casa por não ter sido conivente com o incesto, isso irá parecer até pouca coisa perto de outros momentos bastante chocantes, como quando sua melhor amiga decide realizar um aborto com medo de ser despejada da casa na qual trabalha e evitar viver da prostituição para sustentar um filho indesejado. De igual forma a condição pela qual Nancy Montgomery (Anna Paquin) se submete, obrigada a se manter em uma relação abusiva para não ter o mesmo fim, descontando em Grace suas frustrações e delírios resultantes de dúvidas e incertezas, num terrorismo psicológico cultivado pelo próprio patrão para que sua vulnerabilidade esteja constantemente exposta e ele possa abusar disso sempre que lhe for conveniente. E se existem vilões na história, eles são os próprios homens, independente de sua classe social, pois a ignorância é democrática.

Apesar de toda essa brutalidade, por outro lado existe uma delicadeza, ou uma sobriedade, na forma como tudo é conduzido, justamente para amenizar situações tão indigestas, contrabalanceando momentos que poderiam facilmente se sobrepor à história de fato e saírem do contexto se tivessem seguido para um caminho mais explícito e sensacionalista.

Mérito de uma equipe formada em sua grande maioria por mulheres que compõem os principais núcleos, seja no roteiro, na direção, produção e elenco, fazendo o produto final ter um olhar feminino bastante honesto de mulheres falando sobre mulheres, e não homens falando sobre aquilo que acham ou acreditam ser sobre mulheres.

Para quem já conhece os trabalhos da canadense Sarah Polley, seja como atriz, roteirista ou diretora, sabe que seu engajamento político e feminista é bastante presente naquilo que faz, mas sem ser extremista ou doutrinante, ela apenas explora personagens femininas com o intuito de mostrar lados e situações que, tanto a sociedade, como a indústria do entretenimento, insistem em esconder ou deturpar. E ao juntar forças com Atwood, em uma produção que, segundo a própria Polley, demorou 20 anos para se concretizar, Alias Grace surpreende pelo desenvolvimento lento e detalhado de um drama psicológico que escancara a responsabilidade da sociedade sobre a maneira que ela mesma enxerga e compreende os gêneros, e que o empoderamento feminino e a constante busca pela igualdade que tanto tem ganho força nos últimos anos não é uma necessidade de auto-afirmação ou de promoção sexista, como muitos daqueles que não compreendem a necessidade dessas mudanças costumam contra-argumentar, mas uma dura batalha necessária contra uma herança cultural secular opressora e abusiva, ainda existente porque a História nos mostra que taxar um sexo de frágil, e criar uma cultura conivente a isso, sempre foi benéfico para aqueles que se sustentam disso, e sempre será enquanto essa deturpada consciência existir.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

DIVERSÃO AO QUADRADO...

★★★★★★★★☆
Título: Stranger Things 2
Ano: 2017
Gênero: Ação, Fantasia, Ficção Científica, Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Noah Schnapp, Millie Bob Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughling, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Joe Keery, Sadie Sink, Dacre Montgomery
País: Estados Unidos
Duração: 55 min.

O QUE TENHO A DIZER...
A segunda temporada de Stranger Things vem recheada de pura nostalgia 80tista. O número 2 que agora acompanha o título para caracterizá-lo mais como uma continuação do que como uma segunda temporada, se tivesse sido usado de forma sobrescrita (²), faria muito mais sentido, porque tudo o que o espectador experimentou na primeira temporada, agora é elevado ao quadrado.

Não que esta segunda parte seja melhor que a primeira, mas ela não fica atrás. Tudo aquilo que se esperava foi oferecido com grande estilo. O interessante da primeira temporada foram as surpresas que a série proporcionou, além do fator novidade ao resgatar a infância, o companheirismo e a amizade com uma fidedignidade que havíamos visto apenas no cinema até aquele momento, tão bem representados pelos filmes dirigidos ou produzidos por Spielberg como E.T.Os Goonies. Para quem nasceu nos anos 80, o seriado foi um túnel no tempo de boas memórias e lembranças vividas num período em que a vida conectada só existia por telefone fixo e walk talkies, e a interação pessoal, as ruas, os jogos de tabuleiro, os brinquedos manipuláveis, a bicicleta como principal meio de transporte e o grande símbolo da independência infantil, além da exploração da imaginação e da fantasia eram muitos mais consistentes.

As mesmas referências da temporada anterior são utilizadas aqui, com a soma de outras, mas sempre mantendo Stephen King e Steven Spielberg como grandes inspirações. Para os mais atentos, haverá até algumas boas referências a Indiana Jones e o Templo da Perdição, como quando os personagens Nancy (Natalya Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) se encontram num momento de intensa tensão sexual, cada um em um quarto, tal como Willie e Indy; quando Max dirige o carro; quando Hopper volta correndo para pegar o emblemático chapéu do chão. George Lucas também tem seus momentos de homenagem quando Eleven/Onze aprimora o domínio de seus poderes, tal como com Luke Skywalker em Star Wars - Episódio IV.

É esse o grande trunfo dos irmãos Matt e Ross Duffer, criadores, produtores e roteiristas, de fazer que esse imenso conglomerado de referências diretas ou indiretas atinja o público das mais diversas maneiras, seja compreendendo as fontes de origem, seja apenas apreciando o produto como um entretenimento comum, sem querer perder tempo desmembrando, observando e degustando as centenas referências da cultura de época, das produções cinematográficas e televisivas daquela década e da trilha sonora, que dessa vez vem muito mais pop, rock e nostálgica do que na temporada passada.

A Netflix não poupou esforços para que sua mais famosa, popular e aclamada produção original mantivesse o mesmo nível de qualidade. Não era para menos. A expectativa pela segunda temporada aumentou em proporções geométricas ao longo dos mais de 450 dias que separaram uma temporada da outra.

E é por aí que a segunda parte começa sua história, aproximadamente um ano depois dos acontecimentos do primeiro. E mesmo com apenas um ano de diferença, os atores mirins cresceram. Perderam aquela fisionomia infantil para adquirirem uma mais adolescente e, de igual tamanho, seus comportamentos. O núcleo adolescente formado pelo respeitoso triângulo Nancy-Jonathan-Steve, agora embarcam para o início da vida adulta, com maiores responsabilidades, interesses e planos. Já os adultos, continuam os mesmos, apenas menos perdidos, mais decididos e com menos conflitos porque a temporada anterior já havia oferecido situações o suficiente para colocar nos eixos todos aqueles que estavam com parafusos frouxos, como foi o caso de Joyce (Winona Ryder) e Hopper (David Harbour).

O elenco sofreu um leve aumento com a inclusão dos personagens Bob Newby (Sean Astin, o eterno Samwise Gamgee), o novo namorado bacana de Joyce; Max Mayfield (Sadie Sink), a nova e misteriosa aluna da escola Hawkins; Billy (Dacre Montgomery), o rebelde irmão postiço de Max; e Kali (Linnea Berthelsen), uma vingadora com poderes e intenções anarquistas, com um passado correlacionado com o de Eleven. Personagens novos que, ao contrário do que se imagina, quando analisados dentro do universo estrutural de Stranger Things e das tramas e subtramas já consolidadas desde a primeira temporada, seriam naturalmente irrelevantes. E realmente são. A única função de todos é apenas gerar um maior número de conflitos de um lado (Max, Billy e Kali) e aumento de determinadas situações dramáticas de outro (Bob).

Não são personagens ruins. São bem construídos e com arcos interessantes, mas que entram e saem de cena sem grandes progressões narrativas. Apenas inflam um elenco principal que já começou inflado na primeira temporada. Considerando que cada um desses novos personagens agregam, em média, de 5 a 10 minutos de cada episódio, não é de se espantar que sejam utilizados exatamente na função de tapa-buracos, mas sem parecerem como tais.

A presença de Bob na história é apenas de criar uma breve férias pouco convincente na confusa relação entre Joyce e Hopper, postergando a resolução desse núcleo o máximo possível. Para Bob ter o fim que teve, ficou incoerente sua inclusão na história. Esse fim era óbvio quando se analisa a construção de um roteiro, seus elementos necessários e desnecessários: a relação entre Joyce e Hopper é necessária, e Bob um excesso. Max surge para repetir a tensão que Eleven criou entre os 4 amigos na primeira temporada, dando oportunidade a mais um deles de descobrir seu primeiro amor juvenil tal como aconteceu com Mike, deixando outros frustrados no processo. A Billy sobrou a função de semear a discórdia, não apenas servindo como um antagonista direto de Max, como também uma forma do roteiro abordar de maneira bastante sutil prováveis abusos e violências domésticas que poderiam ter tido um maior foco numa temporada que se absteve de grandes momentos dramáticos como a primeira teve. Kali, que começa tendo destaque logo na introdução do primeiro capítulo, entra tardiamente na história de fato, e sai dela como se não tivesse entrado, em um daqueles comuns momentos que é nítida a mudança da direção da trama pelos roteiristas, que de última hora - e por falta de tempo - devem ter resolvido deixar a personagem ser melhor desenvolvida em temporadas futuras.

A segunda temporada definitivamente foca muito mais na ação e na expressão do suspense e do medo através dos elementos de ficção científica que novamente abusam de referências à franquia Alien do que no drama, antes tão bem desenvolvido por Winona Ryder e na busca frenética de sua personagem pelo seu filho desaparecido, numa linha tênue entre a loucura e sanidade, entre a comédia e a angústia, que renderam à atriz uma justa indicação ao Globo de Ouro. Numa evolução natural em consequência dos acontecimentos anteriores, Joyce agora é uma personagem mais forte e menos emotiva, e para isso acontecer foi sacrificado boa parte de sua cômica excentricidade, mas que de nenhuma forma diminui sua importância que novamente é garantida em um importante momento de decisão.

A personagem de Millie Bob Brown, uma das maiores revelações mirins de 2016, perdeu um pouco daquele charme andrógino e misterioso, e junto com isso boa parte da sua natureza infantil e ingênua. Grande parte disso também se deve ao próprio comportamento precoce da atriz, que na vida real já tem uma postura mais austera e um tanto prodígio que se distancia bastante dos colegas de sua idade. O roteiro também força um amadurecimento precoce de Eleven, uma "adultalização" sentida não apenas nela, mas também nos demais personagens mirins, principalmente ao tentarem dar grande foco nos interesses amorosos entre eles, conflitos e dramas que ainda não eram o momento para serem abordados, impactando no próprio comportamento de cada um deles na ficção e na vida real. Tanto que houve até uma breve polêmica a respeito do beijo entre Max e Lucas, momento que, segundo a própria atriz Sadie Sink, se sentiu obrigada pelos irmãos Duffer a fazê-lo, mesmo recusando por conta do beijo não estar no roteiro. Sadie e Millie também revelaram que as cenas de beijo de cada uma não apenas foram o primeiro beijo técnico de ambas, como também o primeiro beijo delas na vida real. Complicado quando colocamos crianças e adolescentes em situações que não condizem com seu momento de vida ou interesse, contribuindo com a cultura atual que cada vez mais exige e cobra deles comportamentos mais adultos e responsabilidades que não lhes cabem, contrariando a premissa principal da série de abordar essas fases da vida da maneira mais livre, espontânea e fantasiosa possível.

Tirando um ou outro elemento excessivo, ou que, como dito, contradiz com o próprio propósito de Stranger Things, a série conseguiu voltar tão forte quanto esperado, com fôlego suficiente para agradar até os mais exigentes e aqueles que tinham as maiores expectativas. Vale questionar se as próximas temporadas continuarão tendo fontes de inspirações tão consistentes e relevantes como apresentaram até o momento, já que a série foi automaticamente renovada para mais duas temporadas, com promessas para exceder esse número, segundo preveem os produtores.

O direcionamento que terá no futuro é incerto, mas uma coisa é garantida: será muito interessante ver todo esse elenco crescer frente a nossos olhos, tal como foi interessante ver as crianças em Harry Potter crescerem e amadurecerem ao longo dos seis filmes, e o melhor, tendo suas fases respeitadas. Que os irmãos Duffer sigam o mesmo exemplo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

STEPHEN KING OUTRA VEZ...

★★★★★★★★☆
Título: 1922
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Zak Hilditch
Elenco: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Shmid, Neal McDonough
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um fazendeiro arquiteta um plano macabro de assassinar sua mulher, convencendo o próprio filho a fazer parte disso.

O QUE TENHO A DIZER...
Que 2017 é o ano das atuais gerações (re)descobrirem Stephen King, isso já está mais do que claro. E depois da Netflix produzir a (péssima) série O Nevoeiro (The Mist, 2017), mas em contraponto também produzir o interessante Jogo Perigoso (Gerald's Game, 2017), o público foi pego de surpresa com essa nova e fresquinha adaptação, que também leva o selo do serviço.

Stephen King rende bons filmes quando bem adaptado, mas o difícil é encontrar quem o faça com categoria, pois suas obras são cheias de nuances, referências e metáforas embrenhadas em toda sua cabeça fantástica e macabra. Eclético e variado, por mais que alguns temas sejam recorrentes em suas obras, se distanciam umas das outras pelas diferentes abordagens, pela narrativa, pelas referências e analogias distintas. Enfim, é um autor que possui qualidades até mesmo nos menores contos, ou nos livros menos conhecidos.

1922 chega para provar que suas melhores adaptações são aquelas sem pretensões de impressionar ou serem grandes blockbusters. Baseado em uma história publicada na coletânea Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars, 2010), a adaptação é uma produção pequena e contida, dirigida, escrita e produzida pelo desconhecido australiano Zak Hilditch, um filme considerado pelo pelo próprio autor uma das melhores adaptações de suas obras em 2017.

Não é por menos. A produção é recheada de qualidades que faltam em muitos de seus outros títulos já adaptados, extraindo da história todos os elementos e características do autor de uma forma bastante homogênea, linear e densa, diferente, por exemplo, de Jogo Perigoso, que tropeça várias vezes, mas sem cair.

Aqui a história gira em torno de Wilfred (Thomas Jane) e Arlette (Molly Parker), e da dificuldade de ambos em levar adiante uma relação infeliz e indesejada, já que cada um deles possuem objetivos e vontades diferentes, mas continuaram juntos apenas para criarem e educarem o único filho, a verdadeira razão de terem se casado.

Enquanto Arlette quer vender os 100 acres herdados de seu falecido pai e abandonar a vida rural que tanto detesta, Wilfred deseja agregar a herança de sua mulher à fazenda que já possuem, e assim terem um território generoso e produtivo que garantirá o futuro de seu filho e de futuros netos. Arlette recusa a proposta e ameaça seu marido com o divórcio e também em levar seu filho com ela para a cidade caso ele persista na idéia de permanecer na fazenda. Desesperado, Wil quer tanto manter a fazenda como seu filho por perto, o qual também não tem vontades de se mudar para a cidade principalmente porque está apaixonado por sua vizinha. Sem encontrar alternativas, Wil começa a voltar seu filho contra sua própria mãe, e assim cultivar nele o ódio necessário para que ele o ajude em um cruel e diabólico plano de assassiná-la.

A década de 20 nos Estados Unidos foi marcada por um extenso crescimento industrial que avançava com bastante força e rapidez para o oeste e sul do país, ainda consequências da Guerra Civil (Secessão) e da Primeira Guerra Mundial, marcando a ascensão americana como grande potência não apenas bélica, mas política e econômica até a Grande Depressão devastar o país em 29 e perdurar pela década de 30. Na parte central, no interior do estado de Nebraska, onde a história se passa, a chegada de fazendeiros corporativistas e de indústrias alimentícias marcava o fim da vida pacata e autosuficiente dos fazendeiros e da vida rural simples e comum, mostrando a todos que o futuro finalmente havia chegado e, junto com ele, o progressismo comercial e suas consequências.

A princípio, e de maneira bastante superficial, pode parecer que o enredo se trate apenas de um jogo macabro de interesses e oportunismos, porém é aí que a mente brilhante de King começa a tomar forma, porque podemos enxergar nos personagens o conflito que o avanço tecnológico e industrial trouxe para aquela época. Não é à toa que Arlette quer abandonar a vida rural para ir atrás de um futuro promissor, no sonho de ter sua própria boutique, numa época que a moda começava a abandonar sua rigidez e a modestamente mostrar uma personalidade mais ousada e consumista (como no momento em que são citadas as calças jeans, por serem mais confortáveis às mulheres em "longas viagens"), enquanto Wil pretende a todo custo manter sua tradição enraizada no mesmo lugar, longe de coisas que possam corromper seu bucolismo (como no momento que sente ter inveja de seu vizinho pelas coisas que possui). E o filho, no meio de tudo, ligado a meros valores ingênuos que serão interrompidos com a cruel realidade em algum momento, tão rápido e fácil quanto dar a partida em um carro.

A resistência de Wil em migrar para a cidade é de igual intensidade a Arlette em permanecer com ele, algo que, quando visto por essa metáfora, se reflete na brutal cena de seu assassinato, na dificuldade de Wil em matá-la e na resistência dela em morrer, como a querer mostrar que o futuro pode ser postergado, mas é inevitável, e o lado mais forte sempre vence. Tanto que Wil é constantemente obrigado a ceder a necessidades mais cosmopolitas, aos poucos deixando suas origens e cortando (literalmente) suas raízes e ferramentas de trabalho, chegando a um triste fim, preso em um quarto de hotel, refém de suas próprias escolhas.

O diretor e roteirista tem êxito a transpor para a tela essas delicadas referências responsáveis por dar razões subliminares aos conflitos sem parecerem que foram simplesmente jogados na história sem qualquer razão. E a partir dessas sólidas fundações, o horror, o sofrimento psicológico e a punição passam a ser construídos. E Tomas Jane, numa caricatura um tanto similar a de Duke Mantee, imortalizado por Humphrey Bogart no clássico A Floresta Petrificada (1936), embarca numa jornada quase cíclica de consequências e culpas, e como o peso de um homicídio gradativamente retorce a consciência e consome a alma de quem o comete.

Ao contrário de nos depararmos com um protagonista tendo atitudes heróicas, como aconteceu com o próprio Jane na adaptação de Frank Darabont de O Nevoeiro (2007), aqui presenciamos totalmente o inverso: o nascimento de um genuíno vilão concebido pela sua própria ambição, do qual somos incapazes de encontrar qualquer simpatia até mesmo nos momentos de honesto e tardio arrependimento, e dessa forma, toda a atmosfera sombria se desenvolve como delírios de Edgard Alan Poe, autor também bastante referenciado, já que o conto de King também é visto por muitos como uma releitura de O Coração Revelador (The Tell-Tale Heart, 1843), por possuir os mesmos elementos góticos.

Hilditch conduz tão bem a narrativa e seus pormenores que a sensação de assistir a adaptação de um conto é nítida. Não pelo seu tempo ou aparente simplicidade, mas pela forma condensada como é construído, focado em um pequeno número de personagens, em espaços sucintos, sem obviedades desnecessárias ou qualquer outro elemento que desvie a atenção do espectador. E embora a fotografia seja belíssima até mesmo nos momentos mais indigestos, a saturação da imagem não favorece a sensação de época que o longa poderia ter tido. E por alguns momentos o filme se estende demais em situações que poderiam ter sido mais curtas, e assim ter dado oportunidade para os personagens nos darem maiores motivos para entendermos melhor suas intenções.

De qualquer forma, como um todo, é sem dúvida uma das melhores adaptações de King até hoje, que obviamente poderá não agradar aqueles que preferem os filmes baseados em suas histórias de terror mais físicas e óbvias. Não causa medo e nem sustos baratos, mas há material de sobra para ser apreciado como um genuíno conto macabro que progride de maneira bastante correta em sua proposta, além de bastante ousado numa época em que os filmes mais comerciais tem abusado de clichés levianamente para se manterem confortáveis e igualmente sem surpresas.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

TOSQUICE BEM FEITA...

★★★★★★☆
Título: A Babá (The Babysitter)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Terror, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: McG
Elenco: Samara Weaving, Judah Lewis, Bella Thorne, Hana Mae Lee, Robie Amell
País: Estados Unidos
Duração: 85 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto descobre que a babá por quem é perdidamente apaixonado não é exatamente tudo aquilo que imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
Não, este não é um remake do pseudo-clássico fetichista de 95, com Alicia Silverstone. E, ainda bem, está longe disso.

Mas, pra quem ver o título, provavelmente não vai se interessar. Quem ler a sinopse, talvez menos ainda. E se mesmo assim a pessoa insistir, a vontade será parar logo nos primeiros minutos. 

Mas persista. Persista porque haverá um determinado momento que algum diálogo ou alguma situação irá puxar sua atenção como a querer dizer que toda a tosquice presente é atraente.

Entupido de clichés e estereótipos, o propósito é exatamente esse, brincando com um tema sério e transformando o assédio moral (bullying) em argumento para um terror escrachado com final feliz. 

Por incrível que pareça, esse filme um tanto inusitado fez parte da blacklist de 2014, lista sobre os melhores roteiros que não foram produzidos, publicada anualmente. E como já é de tradição produzir aquilo que ninguém quer, coube à Netflix pegá-lo da prateleira empoeirada e colar seu selinho. 

Classificado como uma comédia gore, também tem diversos elementos do terror slasher, gênero de carreira duvidosa, cheia de altos e baixos, muito produzido nos anos 80 até saturar e desaparecer, voltar a virar moda nos anos 90 e decair novamente com sua nova saturação no começo de 2000. 

Hoje em dia este tipo de filme gera mais risadas do que qualquer outra coisa, causando zero espanto ou surpresa, o contrário do que a própria sequência de abertura de Pânico (Scream, 1996) um dia fez, revolucionando a maneira de se introduzir filmes no cinema mais atual. E embora A Babá se inspire em todos os títulos que incansavelmente reproduziram as mesmas fórmulas ao longo das décadas, ao mesmo tempo ele se destaca por não ser apenas uma repetição do mesmo tema. 

Que depois de Pânico nenhum filme do gênero foi levado mais a sério, isso é sabido de frente pra trás, já que o saudoso diretor Wes Craven, junto com o roteirista Kevin Williamson, transformaram a franquia em uma grande bíblia dos clichés com as tais "regras" que doutrinavam o comportamento dos filmes de terror adolescente e sua incrível previsibilidade. Sabiamente eles utilizaram a metainformação a favor do entretenimento e inovaram um estilo que estava estagnado enquanto o desconstruíam sem medo, causando a indignação e o ódio de muitos produtores. Era como Mister M revelar segredos mágicos, revoltando aqueles que viviam do negócio. Logo, quem conhece essa franquia, nunca mais conseguiu assistir um slasher movie da mesma forma, e nem o próprio cinema conseguiu fazê-lo da mesma forma.

Mas aqui a intenção não é fazer algo diferente, mas fazer o mesmo do mesmo. E mesmo SEM qualquer referência direta ao clássico de Wes Craven ou de qualquer outro diretor, o roteiro não tem vergonha alguma de explorar tudo aquilo que Pânico algum dia já satirizou, como o protagonista sempre buscar alternativas muito mais complicadas para se safar de um grupo de adolescentes integrantes de uma seita que sacrifica nerds para superarem suas fraquezas e conquistarem objetivos pessoais através das forças ocultas. 

Aqui a regra não tem metainformação, não tem a vontade de desconstruir gêneros, não tem vontade de inovar ou sequer fazer lago diferente, e esse excessivo uso do óbvio, em uma linguagem fácil e acessível, mas sem ser totalmente estúpida, tem um volume tão alto que se torna engraçado.

Poderia ser um filme péssimo em todos os sentidos porque o aglomerado de coisas que poderiam dar errado é muito grande. Mas ao contrário, ele diverte sem pretensão alguma. Talvez, a grande fórmula aqui seja não ter fórmulas e nem menos pretensão, mas qualidade no pouco necessário, como o do elenco, formado basicamente por novatos aspirantes a novas estrelas de Hollywood, atores que não carregam apenas rostinhos bonitos, mas também possuem talento e conseguem acertar em cheio nas interpretações debochadas, como acontece com Bella Thorne ou Samara Weaving, que hipnotiza com aqueles enormes olhos, maiores até mesmo que os de Emma Stone.

A linguagem dinâmica e às vezes um tanto cartoonizada, cheia de grafismos, efeitos e situações às vezes surreais, são características do diretor McG (lê-se "mékgee"), assim como é na maioria daqueles que começaram a carreira por trás das câmeras fazendo vídeo clipes, como ele. McG foi bastante criticado quando estreou nos cinemas com As Panteras (Charlie's Angels, 2000), sendo taxado de vazio, valorizando excesso visual para esconder falta de talento. A verdade é que não é bem assim. Ele é um diretor competente e diferente, carregado de linguagem pop e atual, o problema é que seu estilo não se encaixa em qualquer tipo de produção, e assim como As Panteras (principalmente sua sequência) se torna um material divertidíssimo para quem quiser apenas se divertir com aquilo que vê sem a necessidade de pensar, aqui ele consegue fazer até melhor porque mesmo sendo um filme cheio de cenas violentas e explícitas, é essa facilidade que o diretor tem de trabalhar com imagens e linguagens populares que faz tudo soar como uma verdadeira zombaria: escrachado, mas sem cair no pastelão. Seu grande acerto é nunca exagerar no tempo de uma cena, ou tentar fazer uma situação chegar ao ponto de ser um extensão de piada. Extensão de piada é aquilo que vem depois do gatilho da risada, geralmente acompanhada de uma moralzinha irritante ou uma explicação para garantir quem não tenha entendido de entender. Aqui isso não acontece, e é por isso que as cenas, por muitas vezes, são hilárias, principalmente durante as cenas de sofrência e agonia da cheerleader Allison (Bella Thorne), das sequencias de mortes bizarras, ou até mesmo da constante insistência do protagonista correr e fugir, mas sempre parar nos mesmos lugares, exatamente como Pânico um dia disse que é assim como acontece em todo filme de terror. E nessa edição bem precisa, o filme crava perfeitos 85 minutos, sem ser curto demais ou longo o bastante.

A Babá não é um filme brilhante e seu final poderia ter sido muito mais interessante se tudo parecesse fruto da imaginação do protagonista, como em vários momentos a evolução da história dá a entender, mas infelizmente acaba em uma mesmice que, mesmo em um filme cheio de mesmices que funcionam, este é um dos poucos que se tivesse saído do trivial, teria dado um melhor sentido para tudo. O que até parece que originalmente poderia ter sido, mas que de última hora resolveram mudar de idéia na velha intenção de vitimizar vilões em momentos de redenção, e assim a bela protagonista não parecer tão feia dentro dos valores morais hollywoodianos.

domingo, 8 de outubro de 2017

TENSO...

★★★★★★★★☆☆
Título: O Convite (The Invitation)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Horror, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Karyn Kusama
Elenco: Logan Marshall-Green, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Emayatzi Corinealdi, Michelle Krusiec, Mike Doyle, Jordi Vilasuso,
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem acredita que sua ex-mulher e seu novo marido tenham outras intenções com seus convidados além de simplesmente celebrar um encontro no qual foi convidado.

O QUE TENHO A DIZER...
Conversando com um amigo, chegamos à óbvia conclusão de como extremistas são perigosos à sociedade, e como o poder de influência deles sobre outras pessoas é preocupante.

Pessoas sofrem de perdas, faltas, dores e ausências. De compreenderem e serem compreendidas. Sofrem de descrença também, e não falo de religião, mas da descrença de si e de suas capacidades.

Sentem sintomas de um vazio que não se sabe onde está e como preenchê-lo, substituindo a racionalidade por coisas mais fáceis e simples, que possam, de alguma forma, darem explicações a seus sofrimentos de maneira instantânea, principalmente numa sociedade moderna e escrava da tecnologia, dos retwites, das curtidas no Facebook, das correntes de Whatsapp, etc. Todas geralmente mal informadas, absolutamente ausentes de fontes seguras. Mas o fato é que, desde que se conecte de imediato com aquilo que é esperado, ou explique banalmente aquilo que desconhecem, não importando a veracidade, o falso se torna verdadeiro em um estalar de dedos para quem quer acreditar em qualquer coisa.

É a constante busca da compensação de frustrações, e são pessoas assim os grandes alvos daqueles que necessitam da fragilidade alheia para fortalecerem idéias distorcidas de um mundo que demanda tempo, paciência e determinação para ser compreendido, elementos há muito abandonados por uma sociedade que tem se construído simplória demais para pensar com sua própria cabeça e andar com suas próprias pernas.

E é exatamente sobre isso que esse filme tenta argumentar dentro de seu roteiro que constrói uma atmosfera densa e difícil desde seu início. A construção dúbia das situações coloca em teste alguns personagens, além de brincar com o psicológico do espectador, que ora se sente desafiado, ora apreensivo, ora aterrorizado, e quando acreditamos que o clímax é atingido, o final aparentemente simples, direcionado propositalmente a uma resolução cliché do gênero, acaba se estendendo um pouquinho mais para concluir todo o filme de maneira inesperada e, quiçá, chocante.

É impossível não associar este filme a outros que fazem uso do mesmo enredo: um jantar como ponto de partida para as tramas se desenvolverem, como no clássico Festim Diabólico (Rope, 1948), de Hitchcock; na releitura do mesmo em Cova Rasa (Shallow Grave, 1994), de Danny Boyle; no cinema mais alternativo do movimento Dogma 95 do Velho Mundo, como Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Vinterberg; ou até mesmo na literatura, no clássico dos clássicos do estilo "jantar infernal" em O Caso dos 10 Negrinhos (And Then There Were None, 1939), de Agatha Christie.

Nota-se que aqui a diretora Karyn Kusama, juntamente com os roteiristas Phil Hay e Matt Manfredi, fazem uma junção inteligente dos diferentes elementos presentes nesses filmes individualmente. Propositalmente ou não, tudo funciona como se deve, e o impacto dos diferentes momentos de tensão, e de momentos emocionalmente densos, consegue atingir em cheio tal qual os títulos mencionados, mas à sua própria maneira.

O drama aqui não chega a ser tão abrangente e realista como em Festa de Família, tampouco tem as boas doses de humor negro do filme de Hitchcock ou de Boyle, mas possui um arco, uma construção, bastante forte, que se torna convincente pela competência dos atores, principalmente de Logan Marshal-Green e seu "quê" Tom Hardy de ser, e Tammy Blanchard, que constrói uma personagem enigmática e fria, bizarra e comedida, propositalmente incômoda em todas as cenas. Um elenco de personagens bem construídos, desde aquele que aparenta ser menos relevante até aqueles que são as verdadeiras engrenagens de todas as desastrosas consequências. Personagens estes que, como dito, tentam preencher seus vazios e compensar suas frustrações através de extremos ditados pelo desespero de não conseguirem lidar com seus fardos particulares, deixando expostas suas vulnerabilidades para aqueles que querem se apropriar delas.

Claro que revelar diretamente qualquer detalhe da história seja como abrir um forno fora de hora. Ela não se aprofunda em detalhes da dor comum dos personagens de Marshal-Green e Blanchard, e nem de como tudo aconteceu de fato. Mas o fato em si já se justifica como um grande motivo para demonstrar que, apesar das dificuldades de superarem o ocorrido, ambos lidam com as situações de maneiras bastante diferentes, e é isso que será explorado ao longo de todo o desenvolvimento.

Kusama, que até este longa não tinha lá um currículo muito interessante, sem dúvida conseguiu se redimir de desastres como Æon Flux (2005) e Garota Infernal (Jennifer's Body, 2009), ambos ruins não por incompetência, mas por roteiros sofríveis, o que não é o caso dessa vez. Pelo contrário, ela consegue fazer desse suspense algo intenso e assustador, tanto em seu tema, como também nas reviravoltas que o filme oferece, pegando o espectador desprevenido até mesmo quando já se espera alguma coisa.

Um filme independente que mostra como o total controle criativo da diretora e dos roteiristas fez absoluta diferença em seu resultado, e mesmo dentro de um gênero um tanto fictício, nos faz pensar que não há ninguém capaz de nos fazer encontrar soluções para nossos dilemas além de nós mesmos.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

COMPETENTE, MAS NÃO MARCANTE...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Jogo Perigoso (Gerald's Game)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Aqueles dias que pareciam ser os momentos ideais para romantismo e realização de fantasias sexuais se transforma em um grande pesadelo de confrontos e sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Realmente Stephen King é como jeans: pode passar despercebido, mas de tempos em tempos volta à moda.

Depois das adaptações de A Torre Negra (The Black Tower, 2017), o remake de It (2017) e da (péssima) adaptação de O Nevoeiro (The Mist, 2017) como uma série para o Netflix, o serviço agora carimba seu selo outra vez em Jogo Perigoso, adaptação do livro homônimo do autor, publicado originalmente em 1992.

E como falei na análise sobre a série O Nevoeiro, King é um autor que faz uso de metáforas sociais e/ou políticas para construir suas obras de horror e fantasia. Aqui não seria diferente, e a obra original constrói sua história em cima de algumas das perversões mais comuns e recorrentes no sexo masculino, como o incesto, a pedofilia e a cultura do estupro, desde o sadismo do fetiche à sua realização (ou a tentativa dele). Etapas que consequentemente levam à concretização da violência e também o feminicídio. Violências que, além de físicas, são psicológicas e perturbadoras às suas vítimas.

Temas recorrentes nas obras de King, direta ou indiretamente, Jogo Perigoso era para ser uma história que acompanhasse o livro Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992), brilhantemente adaptado para o cinema em 1995, e que conta a história de Dolores, uma mulher que planeja o assassinato do marido violento e incestuoso justamente no dia do eclipse solar de 1963. E é o citado eclipse que conectaria a história de Dolores com a história de Jesse, duas mulheres em crise, cujas reviravoltas em suas vidas ocorrem exatamente no momento do espetáculo astronômico. Respectivamente, uma tendo seu momento de resolução e libertação, e a outra, seu momento de negação e aprisionamento. Porém, ambos acabaram sendo lançados separadamente, sobrando apenas o eclipse como uma referência de que as duas histórias ocorrem dentro de um mesmo universo e situação.

Jesse (Carla Gugino), a protagonista da história, é casada com um importante advogado. Ambos resolvem passar alguns dias sós em sua casa de veraneio para tentarem renovar um casamento estagnado e uma vida sexual fria, acomodada com o tempo. Porém, os momentos que eram para ser de perfeito romance e fantasias inofensivas, se torna um verdadeiro pesadelo quando Gerald (Bruce Greenwood) começa a expor um comportamento violento e oprimido, e enquanto Jesse tenta se defender, seu marido sofre um ataque cardíaco e morre. Algemada na cama e sem maneiras de pedir socorro, Jesse embarca em uma situação histérica, desencadeando alucinações conflitantes vindas de diferentes partes de sua personalidade, trazendo à tona traumas passados esquecidos e que justificam todas as dúvidas e questionamentos tanto por parte da personagem quanto por parte do espectador.

Dirigido por Mark Flanagan, diretor que tem construído uma interessante trajetória em filmes como Absentia (2011), O Espelho (Oculus, 2013) e Ouija (2016), aqui o enredo tem tudo aquilo que faz parte de seu estilo, principalmente no conflito entre a realidade e o sobrenatural. E assim como o excelente filme Quarto 1408, de 2007, livremente adaptado de um conto de King por Mikael Håfström, a história também se passa dentro de um quarto, em uma narrativa lenta, igualmente progressiva e que leva a protagonista a confrontar seus mais profundos medos, moral sempre presente nas obras do autor.

A vulnerabilidade de Jesse a obriga tomar decisões radicais que a empoderam como pessoa, como vítima, e como mulher. É então que as metáforas se personificam no filme: o marido tomando a forma da violência; a personalidade da protagonista se fragmentando em dúvidas e respostas; o cachorro que simbolicamente se alimenta vagarosamente das dores da personagem; uma figura misteriosa que representa todas as diversas perversidades oriundas da personalidade masculina dominante; as algemas que mantém Jesse aprisionada a um passado traumatizante; uma corporação que evita o fato se transformar em um escândalo midiático, como a querer novamente calar a personagem e transformar mais um episódio traumatizante de sua vida em algo pueril. Dentre outras...

Infelizmente, apesar de tantas nuances e situações de interpretações livres e mistas, o filme, como um todo, merece atenção, mas sofre por não ter um ritmo coerente, principalmente nos momentos de flashback em que revisitamos o passado de Jesse quando criança. Diferente da maneira extremamente bem construída de Eclipse Total (filme que também se utiliza de flashbacks para desenvolver o arco dramático), aqui a conexão entre o presente e o passado não são feitas da maneira fluida como foi no filme de Taylor Hackford. Os cortes bruscos e a repentina mudança de situações quebra as alucinações e devaneios da personagem junto com toda a atmosfera apreensiva que é muito bem construída em diversas sequências, ao ponto do espectador se encontrar ofegante em várias delas, mas nunca levado a um ápice narrativo de fato. A total ausência de trilha sonora também se torna um tanto incômoda, pois há vários momentos em que ela poderia agir como um excelente elemento para fortalecer os momentos que se enfraquecem sem precisar se sobrepor, e o ritmo oscilar de maneira positiva.

O roteiro também não entra em detalhes sobre a personalidade de Gerald, que no livro tende a ser dominante e agressivo na sua vida profissional, o que justificaria de maneira coerente suas fantasias. E, talvez, para facilitar a narrativa, as alucinações de Jesse e as vozes que ela ouve de uma personalidade que se fragmenta, gira em torno de outras figuras no livro além das diferentes versões dela mesma e de seu marido. Embora no filme haja apenas essas duas figuras, as mesmas acabam atuando como uma junção das demais que foram omitidas. E para aqueles que conhecem as principais obras de King, também é impossível não reparar nas referências diretas existentes a Cujo, Saco de Ossos, ou até Rose Madder.

Na construção, o que mais chama a atenção é o fato dos papéis sexistas se inverterem entre os atores, finalmente. Em um filme qualquer, Carla Gugino dificilmente estaria de camisola, mas sim de lingerie. Mas ao contrário, é Bruce Greenwood quem fica o filme todo de roupa íntima, ator que, aos 61 anos, acabou se tornando o verdadeiro DILF (procure no Google) de muitos comentários por aí. Interessante em uma indústria que tende a sexualizar apenas as mulheres, e algo bastante relevante em um filme cujo tema feminista esteja bastante presente. 

Para um livro que, ao mesmo tempo que é um dos preferidos dos fãs de King, na mesma proporção também é considerado um dos seus livros menos inspirados, o filme tem sido bastante elogiado por aqueles que conhecem a obra original, principalmente porque seus elementos chaves foram mantidos, bem como muitos diálogos. Um roteiro fiel à história, sem mudanças principalmente em sua conclusão, coisas que King sempre reprovou nas adaptações cinematográficas de suas obras. Uma conclusão que, diga-se de passagem, se transforma em uma explicação um pouco mais didática de toda a história para aqueles que provavelmente tiveram dificuldade de compreender suas referências e associações até então, algo que no livro pode vir a calhar depois de 400 páginas, mas que no filme acaba não evitando a sensação de excesso, muito embora a cena final tenha um simbolismo importante ao mostrar que os homens só se sentem poderosos e vitoriosos através da violência e do abuso, e sem isso, se tornam tão pequenos quanto próprio desprezo que esses tipos merecem.

Jogo Perigoso trata de assuntos bastante interessantes que, mesmo se tratando de uma adaptação de uma obra de 1992, por incrível que pareça, estão mais atuais do que nunca. Como um suspense com pitadas de horror, como bem é o estilo de King, consegue ter seus momentos de tensão e até outros bastante indigestos, mas não deixa de ser um filme para os fãs do livro. E para aqueles que não conhecem a obra original, provavelmente ficará difícil compartilharem da mesma opinião. Um filme competente, mas não marcante como poderia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

INTRAGÁVEL...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Desenrolados (Disjointed)
Ano: 2017
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Vários
Elenco: Kathy Bates, Aaron Moten, Tone Bell, Dougie Baldwin, Elizabeth Alderfer, Elizabeth Ho, Nicolle Sullivan
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ruth Feldman (Kathy Bates) é dona de uma loja especializada em Canabis e seus derivados que tem que lidar com as dificuldades de ter contratado um bando de jovens irresponsáveis a tocar seu negócio.

O QUE TENHO A DIZER...
Todos sabemos hoje em dia que, tanto a plantação de maconha, como a comercialização legal já é possível em diversos estados norteamericanos, tanto no seu uso recreativo, como o medicinal. Devido a isso, maconha deixou de ser um assunto tabu para se tornar uma discussão social e comportamental presente. Deixou de ser um mero tema politicamente incorreto e de piadas resultantes de seu proibicionismo para se tornar um estilo de vida presente e possível.

Sabendo-se disso, é de se duvidar que este tema funcione como deveria nessa parceria entre a Netflix e a Warner porque, ultimamente, o serviço tem investido em produções bastante aguadas, sem o mesmo apelo inovador ou ousado de suas primeiras produções originais. Pro lado da Warner, sabemos que é um estúdio muito tradicionalista e conservador quando trata-se de produções para a TV, com grandes investimentos - em sua maioria - a comédias de situações cheias de clichés, estereótipos e saco de risadas (aquelas gargalhadas que ouvimos ao fundo que dita ao espectador a hora de rir de algo, como se burros fossemos nós que não achamos graça). Tudo direcionado para a família, ou para aqueles que facilmente acham graça de piadinhas que adoram zombar de assuntos que ora foram polêmicos na sociedade. A típica irreverência superficial norteamericana.

Por conta de todo o histórico da legalização, e da mesma tendência que muitos países do mundo chegarão a seguir, isso faz o uso da substância hoje em dia ser bastante comum. Junto a isso, temos as derrapadas da Netflix em suas atuais produções, além da já citada tradicional caretice da Warner. Somando-se tudo, fica um tanto óbvio que esta nova comédia de situações está longe de ter situações interessante e mais longe ainda de ser engraçada.

O tema cansado, batido e antigo se tornou antiquado, virando a típica situação da piada desajustada e sem graça. Se o seriado tivesse sido lançado há 10 ou 15 anos atrás, talvez pudesse ser hilário, ao invés de soar tão deslocado em tempo e espaço como hoje.

Obviamente, usando como grande fonte de inspiração e reciclagem o falecido seriado Weeds (2005-2012), a semelhança começa na própria abertura. Mas, enquanto na abertura de Weeds o que víamos era uma crítica à sociedade careta e metódica incapaz de lidar com mudanças, tanto através do vídeo, quanto pela música Little Boxes, de Malvina Reynolds, aqui fazem uma alusão de como a maconha é mais comum na sociedade do que a própria sociedade imagina, utilizando cenas do filme Marijuana (1936), conduzidas pela canção Jack, I'm Mellow, de Trixie Smith, gravada originalmente em 1938.

É, por um bom ponto de vista poderíamos entender que Desenrolados seria aquele tal futuro que Weeds previu ao longo de suas temporadas. Um futuro que chegou de fato, algo que faz as premiadas primeiras temporadas do seriado de Jenji Kohan se tornarem grandes referências sobre o assunto de maneira cômica e crítica. Mas a comparação positiva acaba por aí. Ao contrário disso, Desenrolados não consegue ser mais do que uma enxurrada de situações constrangedoras e vazias, num enredo sem pé nem cabeça tanto quanto os personagens que fazem nenhum sentido de existirem, assim como as desinspiradas gargalhadas gravadas que se ouve. E se Weeds fosse para ser sem graça (assim como foram suas fatídicas duas últimas temporadas), ele seria exatamente assim.

Impressiona o fato de Kathy Bates aceitar um trabalho que soa tão amador quando a atriz sempre foi muito enfática em entrevistas ao afirmar que tem dificuldade de trabalhar com amadores, sentindo que seu potencial não é explorado da mesma forma como quando rodeada por pessoas mais experientes e gabaritadas. Sim, uma afirmação um tanto presunçosa para uma atriz de poucos sucessos, mas respeitada por seu Oscar em Louca Obsessão (Misery, 1990), e alguns pares de outras indicações ao Oscar, Emmy e Globo de Ouro ao longo da carreira.

Me lembro que no seriado The Comeback (2005/2015), no qual Lisa Kudrow interpreta Valerie Cherish, uma atriz que já passou de seus 40 anos e agora faz de tudo para ficar famosa outra vez, há um momento que, por uma obrigação contratual, Valerie é enfiada em uma série de TV onde todos os demais atores tem mais da metade de sua idade. Os roteiristas, para contornar a discrepância, resolvem transformar a personagem em uma tia chata (a tia Sassy), que mora no andar de cima e que nunca consegue se ajustar com o comportamento dos jovens e seus hormônios incontroláveis, gerando uma sucessiva sucessão de situações constrangedoras.

A impressão que tenho assistindo Desenrolados, vendo o esforço hercúleo de Kathy Bates em se adequar a um elenco tão novo e amador, é praticamente a mesma sensação que tinha ao ver Valerie se humilhar para se adequar a algo que ela não se adequava mais. Não por ser mais velha, mas pela experiência e por um estilo de vida completamente oposto dos demais.

E nesse mesmo nível de incoerência, ver um seriado com personagens chapados, com um bagulho entre os dedos em todas as cenas, disparando diálogos sem qualquer efeito, tendo alucinações, comportamentos exagerados e estereotipados, deixou de ser engraçado para se tornar deturpado em uma época em que a maconha anda mais popular do que nunca tanto quanto cerveja de boteco.

Piadas que hoje são fora de hora porque sabemos que ninguém que comercializa legalmente o produto, ou que consome o produto, vive em uma viagem interplanetária constante como se estivesse à beira do retardo mental, exageros que antigamente eram engraçados, e eram engraçados justamente porque sempre é engraçado falar do proibido e rir do desconhecido. Mas hoje, falar de maconha, ou fazer piada sobre ela ou sobre quem usa, já se tornou tão batido e sem qualquer efeito quanto a piada do "elefante caiu na lama".

Nem mesmo Weeds se atrevia a zombar do assunto dessa forma, nem mesmo com personagens tão infames como Doug Wilson (Kevin Nealon) ou Andy Botwin (Justin Kirk), que mesmo chapados não chegavam a ter piadas tão sem graças ou forçar caras de chapado para obrigar o riso fácil.

Desenrolados nada mais é que mais um seriado fraco para cobrir buracos da Netflix sem qualquer conteúdo relevante. Uma perda de tempo tão grande quem nem mesmo para dormir serve. Talvez, pudesse ser interessante se não fosse levado como uma sitcom nos moldes tradicionais e o roteiro desenvolvesse suas histórias de maneira mais linear e não em esquetes. O que não é o caso.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SE PERDE COMO FUMAÇA...

★★★☆
Título: O Nevoeiro (The Mist)
Ano: 2017
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Horror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Frances Conroy
País: Estados Unidos
Duração: 42 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um estranho nevoeiro atinge uma pequena cidade, e com ele, acontecimentos sobrenaturais começam a ocorrer.

O QUE TENHO A DIZER...
Existe uma dificuldade praticamente incompreensível de adaptar as obras de Stephen King para a TV ou cinema. Historicamente sabemos disso.

Raramente uma ou outra produção consegue surpreender, e levar para as telas uma experiência rica e gratificante de um dos maiores escritores norteamericanos da atualidade. Mas acredite... além de um feito raro, também demora.

King é conhecido como o "mestre do horror e da fantasia" porque ele conseguiu o feito de fazer esses gêneros se tornarem relevantes na literatura contemporânea. Mais do que desenvolver histórias tensas, às vezes macabras, violentas ou sobrenaturais, o autor é um grande crítico social e político, que se utiliza desses estilos para criar metáforas que se tornam atemporais com sua literatura.

Mas não apenas de horror e suspense. King também já escreveu dramas bastante densos, como a abordagem da violência doméstica em Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992) e Rose Madder (1995), bem como também já se aventurou em fantasias mais juvenis e leves com a mesma maestria, como em Olhos do Dragão (The Eyes Of The Dragon, 1987).

A riqueza descritiva do autor sempre foi sua marca registrada, por vezes até massante ou cansativa, pois se atenta a pormenores até pouco relevantes. Assim é porque ele quer ter certeza de que a idéia visual e a mensagem daquilo que ele imagina chegue ao leitor de maneira completa. E chega. Porque embora suas obras utilizem constantemente elementos sobrenaturais, no fundo ele está lindando é com sentimentos humanos e suas complexidades. Não é à toa que seus livros comumente ultrapassam 400 ou 500 páginas, daí para mais. Foi o que aconteceu quando terminou de escrever Saco de Ossos (Bag Of Bones, 1998), livro que encontrou um entrave para sua publicação pela sua quantidade de páginas divulgadas na época (mais de mil), mas que na sua versão final acabou sendo bem menos que isso.

Sem dúvida ele é um dos autores mais adaptados. Melhor dizendo, um dos autores cujas produções mais tentam adaptar. Nem mesmo ele, como roteirista, já conseguiu salvar filmes ou seriados do seu próprio desastre, como aconteceu com Sob A Redoma (Under The Dome, 2013-2015), seriado que teve alguns episódios escritos e produzidos por ele, mas morreu na terceira temporada por conta da saraivada de críticas negativas e a desastrosa queda de audiência.

De tempos em tempos King vira moda, e o hype em cima de seus trabalhos voltou ultimamente com a adaptação do recém lançado A Torre Negra (que está mal das pernas nos cinemas) e o remake de um de seus maiores clássicos (e bem adaptado no passado): IT.

Portanto, em uma produção visualmente e tecnicamente parecida com Sob A Redoma (mais nos defeitos que em qualidade), a tentativa de transformar O Nevoeiro em uma nova série parecia calhar.

A série é livremente baseada em um conto homônimo publicado em 1982 como parte de uma antologia de contos de horror do autor. O conto já foi adaptado ao cinema por Frank Darabont em 2007, o mesmo diretor que adaptou os sucessos Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994) e A Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1999), ambos de King. Embora O Nevoeiro não tenha tido sucesso comercial, é considerado uma das melhores adaptações do escritor, além de ter cativado o público (para o bem e para o mal) por conta de seu surpreendente e inesperado final que foi contra qualquer dogma Hollywoodiano de se concluir uma história.

Enquanto em Sob A Redoma o autor trabalha na dificuldade dos personagens lidarem com o confinamento, extraindo de cada um deles o seu melhor e seu pior nesta situação, dessa vez é o nevoeiro do título que irá arrastar o caos por onde passar, trazendo consigo aquilo que irá fazer os personagens entrarem em conflitos com suas crenças, seus valores, suas diferenças, suas dificuldades de comunicação, e a reflexão daquilo que somos como indivíduos, como sociedade e como unidade familiar.

O filme de Darabont conseguiu abordar todas essas nuances de maneira coerente e brilhante, e transformar o nevoeiro da história tanto como a ferramenta de realização dos nossos desejos mais sórdidos e obscuros como também daquilo que mais queremos evitar. Mas a série não consegue ter a mesma delicadeza de abordagem. Aliás, não há abordagem alguma nesse aspecto.

Com um primeiro episódio bastante fraco, que tenta se construir em intermináveis clichés e determinar ao espectador por A+B quem são os mocinhos, os vilões e quais são as intrigas chochas, o roteiro raso não consegue desenvolver a surpresa e o terror dessa metáfora que o nevoeiro significa conforme se aproxima da pequena e pacata cidade de Bridgeville, no interior do Maine.

O defeito é sempre ser muito didático. E aqui há um extremismo ao didatismo em níveis hiperglicêmicos. Mesmo produzido pelos independentes irmãos Weinstein (da The Weinstein Company), e também levar o selo Netflix de "qualidade" carimbado acima do título, a impressão de se assistir uma nova serie da TV aberta para a massa desprovida de intelecto é a mesma. Não há ousadia, não há crueza nas situações como há no filme. Tudo é desperdiçado para o fácil e óbvio ao ponto de uma criança de seis anos conseguir compreender, mesmo que o seriado seja indicado para maiores de 14 anos.

"Temos que fazer", "temos que correr", "temos que fugir"... E temos que incansavelmente acreditar que a polícia vai salvar o mundo, mesmo oito episódios depois. É difícil considerar se diálogos como esses sejam excesso de ingenuidade ou de estupidez. Com roteiro simplório e previsível como uma linha de trem, as situações de tensão, medo e horror nunca decolam porque nunca há construções convincentes para isso. As coisas podiam ser menos óbvias, superficiais ou exageradas, mas Netflix parece que cada vez mais tem facilitado sua linguagem para evitar o máximo a dispersão de seu público, investindo pesado na fácil assimilação, daí a impressão da brusca queda de qualidade de suas últimas produções. Uma pobreza de idéia sem fim, onde todo mundo sempre entrava um episódio porque tem uma história pra contar, mas nenhuma história é interessante o bastante para sustentar seus minutos, dando a sensação de que nada vai a lugar algum.

Os atores também não ajudam. Assim como em Sob A Redoma, que tinha personagens adolescentes e adultos que mais irritavam do que causavam empatia, a situação se repete aqui com a filha do casal protagonista (vivida por Gus Birney), que se martiriza por conta de um abuso sexual mal desenvolvido, e uma mãe protetora (Alyssa Sutherland) que mais parece uma colega de classe emburrada do que uma chefe do lar. O desenvolvimento do pai (Morgan Spector) também está longe de ser o mesmo do construído por Thomas Jane no longa. E sempre que houver oportunidade, o seriado irá pecar ao focar mais em cenas chocantes de morte e dilaceramento ao invés do drama dos personagens e seus respectivos conflitos, os grandes e reais vilões de tudo.

Até mesmo o único peso pesado da série acabou sendo submetido a um personagem retilíneo, aquele para ser usado quando o roteiro não tiver mais argumentos para alguma reviravolta. Frances Conroy, conhecida por Six Feet Under e suas participações em American Horror Story, aqui interpreta uma senhora hippie que presencia o assassinato de seu marido. Sua esquisitice nunca chega ao transtorno pós traumático que deveria, ao contrário disso, beira ao retardo mental, anos luz distante do maquiavélico fanatismo e da inesgotável obsessão de Marcia Gay Harden no longa, já que ambas acabam tendo um desenvolvimento similar na história. Mas a péssima construção da personagem não é um privilégio apenas dela, há também o policial que se deprime porque perdeu sua arma, numa metáfora à perda do poder e do arbítrio de maneira tão emocionalmente ridícula que beira o constrangimento.

Nem divertido o seriado consegue ser. Talvez seja se for para apenas prestar atenção aos defeitos, como os de maquiagem, tão ruins que é possível notar a pincelada de tinta na pele.

Confesso que assisti os 10 episódios, um a um, entediado, só pra garantir que tudo aquilo que imaginei no primeiro episódio se concretizasse. Contava minutos para cada um deles acabar. Para não dizer que nada seja interessante, há um par de reviravolta na história em seus dois últimos episódios que irá justificar algumas coisinhas, mas a gente já está tão cansado de la-la-ris e la-la-rás, que ao invés de surpreender, causa bocejo e zero espanto. Uma pena.

O nevoeiro de King nada mais seja do que o gatilho de todos os medos, temores e conflitos internos e externos de uma sociedade pacata e hipócrita, culturalmente condicionada a um platô confortável, incapaz de sobreviver a mudanças e situações avessas às que estão acostumados. Mas infelizmente toda essa profundidade é perdida num produto cuja única real e rasa metáfora seja se perder como fumaça.
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