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segunda-feira, 15 de junho de 2015

DUAS DÉCADAS DE POUCA EVOLUÇÃO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Comédia, Suspense
Classificação: 12 anos
Direção: Colin Trevorrow
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Judy Greer
País: Estados Unidos, China
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O sonho de John Hammond se concretizou, e o parque agora está aberto ao público.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Jurassic Park foi lançado em 1993, eu tinha apenas 12 anos. Todo o mundo ficou boquiaberto. Não é à toa que Bryce Dallas, a atriz do novo filme, comparou a importância do primeiro filme com a chegada do homem à Lua, porque foi uma revolução naquilo que se conhecia sobre efeitos especiais. Spielberg, juntamente com a Industrial Light & Magic, fizeram um favor à humanidade em recriar os animais pré históricos de forma tão realista e convincente porque foi o mais próximo daquilo que poderíamos chegar dos extintos animais que, com excessão dos fósseis, o resto era muito mais parte do imaginário humano.

Embora haja muita informação incorreta sobre eles, Jurassic Park virou referência até na ciência. Óbvio que uma moldada aqui e alí foi necessária para ficarem mais bonitos na tela, o que é algo natural dentro do cinema, mas depois disso os paleontólogos parecem ter se empenhado muito mais em provar a imprecisão dos detalhes justamente para evitar aquilo que o personagem Alan Grant propõe logo no começo do filme, de que o trabalho dos paleontólogos estaria em extinção com o avanço da tecnologia.

A primeira verdade é que o público pouco se importa com isso, pois preciso ou não, tudo era coerente com a proposta do livro de Michael Crichton.

Foi um filme revolucionário, bonito, assustador e com aquelas pitadas absurdas típicas de Spielberg. Foi feito com esmero nos detalhes, e por isso é emocionante. Uma ode à fantasia e um épico de ação que firmou o diretor como um mestre do gênero (algo que ele infelizmente se distanciou com o tempo).

Lembro que quando me falaram do filme pela primeira vez, a única coisa que perguntei foi se os dinossauros faziam aqueles movimentos "tremidos", em referência à técnica de stop motion. Essa técnica era a única noção que tínhamos sobre dinossauros e efeitos especiais nessa escala naquela época, ainda a mesma utilizada em O Elo Perdido, clássica série dos anos 70.

Como éramos bobinhos.

O significado que a computação gráfica e a tecnologia visual teve no cinema com o filme de Spielberg foi tão importante quanto foi o stop motion no início do século XX com Viagem à Lua, (Le Voyage Dans La Lune, 1902), do francês George Meliès. E eu chorei de emoção quando vi algo tão fantástico. Era como se eu estivesse lá, dentro do parque. Não havia nada mais realista na época do que o ator deitado sobre a barriga do Tricerátopes em animatronic, ou do Tiranossauro em computação gráfica correndo atrás do jipe no meio da mata, arrebentando árvores caídas e dando cabeçadas em tudo que via pela frente numa fúria instintiva que não dava tempo de piscar os olhos. E eu choro até hoje quando assisto porque, embora mais de 20 anos se passaram, esse clássico da fantasia de ação ainda impressiona mais do que muitos filmes atuais, incluindo os demais da própria franquia.

O segundo filme, também dirigido por Spielberg, utilizou os mesmos elementos do primeiro, mas o diretor fez algo mais, e só a sequência inicial já indicava isso, em que uma garotinha é atacada por uma colônia de Compsognathus. E assim foi. O suspense e o horror na luta pela sobrevivência foram intensificados de tal forma que o corpo doía na poltrona do cinema de tanta tensão, como na sequência de mais de 15 minutos de desastres, um seguido do outro, sem tempo pra respirar. Como não ter suado frio com Juliane Moore estabacada inconsciente na janela do caminhão pendurado em um precipício, em que o vidro trincava aos poucos com seu peso?

E eu chorei de novo, porque era o cinema fazendo comigo aquilo que ele deve fazer por excelência: impressionar.

O terceiro filme foi abandonado por Spielberg. Embora ele assinasse a produção, houve rumores de que ele nunca sequer pisou nos sets de filmagem, e o diretor Joe Johnston ficou um tanto perdido, bem como o roteiro. Por isso a existência do filme é quase esquecida. Esquecida, inclusive, neste novo filme.

O quarto filme é uma sequência, mas também pode ser considerado um reboot, não apenas pela mudança simbólica do nome como também pelo grande hiato de 22 anos da série.

O parque finalmente está aberto ao público, e realmente é emocionante ver logo nos primeiros minutos, ao som da clássica trilha sonora de John Williams (mas agora rearranjada por Michael Giacchino), o sonho de John Hammond concretizado com as belíssimas tomadas aéreas da nova Ilha Nublar e nas grandiosas escalas que firmam a idéia de como somos tão pequenos e frágeis que nem sequer os melhores engenheiros de estrutura do mundo são capazes de atestar nossa segurança.

Não é necessário ter assistido os filmes anteriores para entender esse, a não ser para identificar as referências jogadas aleatoriamente o tempo todo sobre eles, como preciosos souvenirs para agradar os fãs mais vorazes.

A história já começa com várias autocríticas (e também metacríticas) que se estendem por todo o filme. A principal delas é de que os dinossauros não impressionam mais. E essa é a segunda verdade.

Em 1993 as pessoas lotaram os cinemas para verem o que nunca haviam visto, e hoje elas lotam o cinema porque são fãs e esperam ver algo a mais. Na história a situação é a mesma, e por essa razão criaram um novo personagem projetado pela engenharia genética, chamado de Indominus Rex, um tipo maior, mais assustador, mais inteligente, mais tudo aquilo que alguém poderia imaginar. Seu nome parece até piada, e de fato vira dentro da metacrítica. Ele é a nova atração no intuito de manter o interesse dos visitantes (e também daqueles que estão no cinema). Justificam também que a tal falta de precisão histórica dos dinossauros é pelas modificações genéticas que eles sofreram em laboratório.

Mas espera... o primeiro filme também falava que as sequências genéticas haviam sido completadas com outra espécie, bem como os filmes seguintes também abordaram a evolução natural que eles tiveram, ou o ecossistema auto suficiente que se desenvolveu na Ilha Sorna. Então essas informações não são novas, são apenas reafirmadas para refrescar a memória de quem não lembra e informar aqueles que não sabem. Assim como também não é novo o fato do Indominus ser maior, mais rápido e até mais esperto que o Tiranossauro, porque no terceiro filme houve o Spinossauro, que nem sequer é citado no filme além de uma breve aparição de seu esqueleto.

Embora pareça, Indominus não é um dinossauro, essa é a terceira verdade. Da mesma forma como o espectador pode pensar isso, essa afirmação é feita diversas vezes durante o filme. É a metacrítica novamente, justificando os erros do filme dentro do próprio filme. Isso até ajuda a história, mas não exonera a produção de defeitos, até porque o estreante não pode ofuscar a estrela principal que é o Tiranossauro.

Se dizem as más linguas que Spielberg abandonou completamente o terceiro episódio da franquia, aqui é evidente sua presença. Basta notar as formas como as cenas tentam gerar impacto. São cenas clássicas de Spielberg. É como se ele tivesse pego a câmera das mãos do diretor Colin Trevorrow e falado: Deixa que eu faço isso!

Não há como negar que a história tenta se embrenhar na atualidade ao mesmo tempo que almeja conquistar um público que não é mais familiarizado com sutilezas. A linguagem do cinema hoje está mais dinâmica, mais bruta e pesada, sem tempo para diálogos de duplo sentido ou uma ironia mais refinada. Se em 1993 era assustador um Tiranossauro devorar um homem que esperava sentado em uma privada para ter um efetivo alívio cômico na brutalidade, hoje isso causa apenas risadas e nada mais. E voltando na idéia de que dinossauros não impressionam mais, é por isso que o tom cômico aqui é maior. E graças a Chris Pratt, encarnando um tipo Indiana Jones de ser, que o humor de todo o filme parece muito mais parte da personalidade descontraída e aventureira do herói que ele interpreta do que um simples pastelão insosso.

E vale ser dito: é nesse filme que descobrimos porque Pratt se tornou o novo astro de ação. Mas não daquela ação bate-e-arrebenta de Dwayne Johnson ou Jason Stathan, mas aquela mais caricata, embutida de humor físico e carismático. É o Harrison Ford da nova geração. Até Bryce Dallas tenta retomar um tipo de heroína atualmente esquecido no cinema, daquela que arregaça as mangas, mas não tira o salto alto por nada, uma Willie Scott atualizada. Aliás, os sapatos da personagem é o que mais se ouvia comentar na sala, e que até rende uma cena rápida e bem feita em câmera lenta enquanto bate os saltos em fuga do Tiranossauro, num estilo meio Brian De Palma em Femme Fatale (2002). É a piada pronta, a sátira e o cliché para que não nos esqueçamos em momento algum que o Mundo dos Dinossauros é unica e exclusivamente um entretenimento.

Por isso, o que vemos ao longo das duas horas são os mesmos clichés e personagens estereotipados de sempre, e que sempre fizeram parte não apenas dos filmes da série como também desse gênero de ação com certo tom satírico que Spielberg definiu tão bem com seus filmes nas décadas de 80 e 90. Há o herói charmoso e engraçado, a mocinha que grita mas é dura na queda, o bandido que quer ficar rico, os pamonhas que morrem fácil e as crianças que dão trabalho. O maniqueísmo é óbvio, e os estereótipos que facilmente geram conflitos no arco dramático para convergirem ao final feliz são clássicos. Sim, igual ao primeiro. Igual ao segundo. E esta é a quarta verdade.

A quinta verdade é que ele vai agradar qualquer tipo de pessoa porque ele foi construído para isso. Não há ousadias. É tudo parte de uma fórmula pronta, repetida diversas vezes, e executada corretamente, como um prato aprovado no MasterChef. Realmente há exageros desnecessários, como a dos animais passarem a se comunicar como se estivessem numa reunião na praça. Mas isso é o cinema blockbuster em sua forma mais óbvia, não há como ser diferente, por mais que pudessem ter sido, já que tiveram 22 anos anos para isso. 

O defeito maior de tudo fica a cargo de tanta informação ao mesmo tempo deixar tudo muito raso, principalmente na relação entre os personagens, ou a presença das crianças também nem causar o mesmo impacto de fragilidade que tinha nos dois primeiros filmes. Não há sequencias que realmente impressionam e tiram o fôlego como já tiveram no passado, com excessão do ataque das aves, algo introduzido no terceiro filme e usado em larga proporção agora. O espectador até se esforça para se sentir impressionado, e os efeitos especiais também, principalmente dos animatronics, que parecem reais.

Ainda acredito que o 3D tem muito a evoluir, e no caso desse filme essa tecnologia mais incomoda do que ajuda. Ela nos dá noção de profunidade, mas diminui muito a qualidade visual do filme. Perde-se muitos detalhes do próprio cenário e suas composições, principalmente quando (como sempre) o dia vira noite no ápice da ação para facilitar o uso da computação gráfica, e tudo com o óculos desconfortável mais parece um filtro mau usado do Instagram do que uma experiência imersiva. Logo, se puder evitar as cópias 3D, evite.

O resultado de tudo é apenas uma leve satisfação. A intenção da franquia sempre foi entreter e nos levar para um mundo até então desconhecido, mas que hoje, depois de ter sua fórmula repetida diversas vezes, virou algo familiar e previsível que ainda diverte, mas muito mais no sentimento nostálgico do que naquele sabor de novidade.

CONCLUSÃO...
22 anos podem ter reacendido o interesse pelas pessoas nos dinossauros de Spielberg, mas não fizeram tão bem assim à franquia, já que a produção ainda se utiliza das mesmas fórmulas de sempre para construir sua narrativa e os personagens rasos, muito embora Chris Pratt e Bryce Dallas conseguiram até fazer milagres com pouco e entregar momentos cômicos sem soarem pastelões ou fora de lugar. Cheio de piadas prontas e referências aos filmes anteriores, diverte muito mais como uma sátira de ação, até porque com tanta metacrítica embutida para justificar seus erros e defeitos, fica difícil não interpretá-lo assim.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

TIREM AS CRIANÇAS DA SALA...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Sense8
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ficção, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Andy e Lana Wachowski (The Wachowskis)
Elenco: Miguel Angel Silvestre, Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Brian J. Smith, Tuppence Middleton, Max Riemelt, Aml Ameen
País: Estados Unidos
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
8 pessoas de diferentes partes do mundo se veem conectadas umas às outras por um evento em comum.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando os irmãos Lana e Andy Wachowski estouraram no cenário cinematográfico em 1999 com Matrix (na época Lana ainda era Larry), os dois automaticamente foram para o topo da lista dos diretores e roteiristas mais cobiçados e promissores de Hollywood, e o esforço hercúleo de se manterem no cenário cult deu a eles um peso de responsabilidade em que a ambição atrapalhou significativamente todo e qualquer processo criativo.

A bagunça organizada de Matrix transformou os Wachowskis em referência da cultura pop, e o exagero se tornou marca registrada da dupla, mas que nunca atingiu o mesmo patamar em suas produções posteriores, inclusive dentro das duas sequências da própria trilogia que os definiram.

Os subsequentes fracassos pós-Matrix culminou no recente O Destino de Jupiter (Jupiter Ascending, 2015), tão mal elaborado e feito quanto seu antecessor, A Viagem (Cloud Atlas, 2012), este ultimo que, de tão exagerado, tinha até mais um par de mãos do diretor Tom Tykwer para ajudá-los, e mesmo assim não conseguiu retirar mais do que bocejos da platéia. Pois é... inacreditável. O orçamento dos dois filmes supera o patamar dos US$250 milhões, e os dois juntos arrecadaram pelo mundo um pouco mais de US$300 milhões. Conseguiram se pagar com dificuldade, mas de longe não valem o custo que tiveram.

A trajetória dos diretores é baseada em épicos visuais, onde utilizam o exagero de personagens, tramas e efeitos para impressionar e dar um teor complexo que desvia a atenção do roteiro oco, com histórias inconsistentes que impressionam apenas aquele grupo de fãs xiitas que nunca enxergam defeitos, por mais evidentes que sejam.

Embora saibam criar imagens deslumbrantes e sequências visuais de tirar o fôlego, os Wachowkskis nunca souberam contar uma boa história (além do já mencionado e único grande sucesso) porque eles mesmos se perdem em tanta complexidade desnecessária.

E Sense8 não poderia ser diferente.

Ao contrário do que se pensa, não é um seriado de ação. É muito mais uma ficção dramática com pitadas de suspense e alguns raros momentos de ação que aumentam gradativamente mais para os últimos episódios. O primeiro episódio apresenta cada um dos oito personagens que vivem em lugares distintos do mundo, mas por alguma razão inexplicável (e que nem vale a pena tentar supor), eles conseguem literalmente sentir e acessar a consciência uns dos outros, pois o "sistema" é uma via de mão dupla. Sentem, ouvem e vivenciam o que cada um passa, bem como também possuem a capacidade de absorver os conhecimentos e habilidades particulares de cada um. O grande problema é que, por trás de heróis, sempre existe um grande vilão, e o vilão aqui se chama Whispers.

Whispers é aquele tipo de vilão que pouco aparece e pouco se sabe, mas já causa medo mesmo assim. A função dele na história é, em resumo, caçar sensates, e basta olhar nos olhos apenas de um deles para descobrir onde estão todos os outros do grupo.

Até parece Matrix, e o Sr. Smith. Sim... o seriado é cheio de referências aos próprio Wachowskis do começo ao fim. E não falo apenas de suas produções, mas da maneira como eles pensam sobre a sociedade como um todo, da liberdade sexual, da igualdade de gêneros e da necessidade que ignoramos de indivíduos trabalharem juntos, como uma unidade, o que sempre fez parte das características narrativas de suas produções.

A narrativa, a princípio, tenta fazer uma mistura entre os diferentes cenários para tentar passar essa sensação de conexão entre os protagonistas. Algumas vezes funciona, outras não. Mas com o passar dos episódios essa transição deixa de ser menos didática para mais sensorial, principalmente no episódio em que a personagem Nomi precisa fugir e pede ajuda, ou quando a maioria deles tem um momento de sincronia sexual e se transforma em uma das cenas mais luxuriosas, prazerosas e visualmente eróticas que algum seriado já ousou fazer. Um momento que definitivamente irá atingir os medos e anseios dos mais conservadores dos homens na Terra.

Aliás, se prepare, porque vai ter muita cena de sexo de tudo que é tipo imaginável, muita nudez, muita mulher pagando peitinho e genitais masculinas balançando por aí. Situações que a gente sabe que são para chocar e atrair atenção, indo para a apelação carnal tanto quanto fazia True Blood, mas a diferença aqui é que, enquanto em True Blood tudo era sujo, meramente apelativo e gratuito, os Watchowskis sabem fazer belas imagens até mesmo das coisas mais banais, e a maneira como essas cenas são montadas e postas nos episódios realmente conseguem ter uma sensualidade bastante particular e coerente no contexto da história. Sensualidade e sensibilidade, diga-se de passagem.

Numa época em que o conservadorismo novamente aflora com força no Brasil pelo crescimento de grupos moralistas, conservadores e hipócritas, esse seriado definitivamente é para essas pessoas que, ou irão entrar na onda do boicote, ou irão assistir trancados no quarto, com a luz apagada e no volume mínimo para ninguém descobrir. E vão gostar. O que é muito mais provável.

O projeto ambicioso foi filmado em oito lugares distintos no mundo, tanto que, no final da produção, a equipe de filmagem já havia acumulado mais de 160.000km de vôo. Capacidade para dar 4 voltas ao mundo. Cada uma das locações teve cenas filmadas por diretores diferentes, incluindo novamente o próprio Tom Tykwer, que também assina a trilha sonora junto com seu amigo e colaborador Johnny Klimek, algo em que, deve-se admitir, são bons nisso por natureza desde o primeiro filme de Tykwer, o clássico Corra Lola, Corra (Run Lola, Run, 1998).

Por essas razões temos a sensação de diferentes estilos em alguns episódios, mas que não atrapalha. Pelo contrário, o estilo particular de cada um deles parece ter encontrado uma linguagem unica que oferece um senso de linearidade, apesar de tudo. Uma simbiose interessante que tem tudo a ver com a proposta do seriado. É o trabalho em conjunto, como os Wachowskis gostam.

Mas será que era necessário tanta coisa junta nessa escala? Acredito que não. Muitos personagens, muitas histórias paralelas, muitos lugares distintos e muitos acontecimentos impressionam, mas não é consistente como seria se tudo acontecesse dentro de um raio menor, ou com um menor número de personagens. Portanto, o senso de qualidade da série que se constrói vem muito mais afogada neste grande leque de deslumbres e exageros do que da própria história. São tantos fatores que dispersam a atenção aos defeitos que muita gente vai bater o pé em dizer que a nova produção dos irmãos é a melhor da temporada. O que não é. Mas também não é de se jogar fora nenhum pouco, valendo até dizer que, depois de Matrix, este talvez tenha sido o único tiro certeiro que os irmãos tiveram em todos esses anos.

As atuações são, em sua maioria, boas, mas as histórias não possuem uma densidade que realmente saia do status quo ou que seja tão revolucionária da forma como a produção foi promovida. Demora para que o interesse pelos personagens cresça e a empatia aconteça, assim como demora muito para eles finalmente interagirem entre si e criar essa gostosa e assustadora sensação de dependência um do outro, como um Friends da ficção científica. A atenção dada a uns personagens é maior do a outros e muitas vezes não há nada de diferente daquilo que qualquer outro seriado envolvendo um grupo de pessoas com habilidades únicas não tenha feito antes. Personagens com dramas pessoais ou familiares paralelos, flashbacks para contar suas histórias particulares, e cenas clichés que abusam do drama e de frases batidas.

Mas se tem uma coisa até muito interessante é essa abordagem pluralista, em tentar desenvolver bem cada um dos personagens a partir de suas culturas, por mais fantasiosas que elas possam ser, como na cena bollywoodiana do segundo episódio, desnecessária, mas ainda bonitinha e inusitada que muito tem a ver com a cultura pop indiana.

Os Wachowskis são bibliotecas ambulantes da cultura pop e eles utilizam esse extenso banco de dados sem vergonha ou medo algum aqui. Cabelos coloridos, roupas personalizadas, personagens com atitudes descoladas, cultura underground e linguagem popular. Por mais defeitos que venha a ter, não há como não se sentir atraído e perceber que Andy e Lana se deram muito melhor no formato televisivo do que nos quase 20 anos de experiência no cinema, porque no formato sequencial eles tem onde encaixar os exageros sem pressa. Também não há como não se sentir atraído pelos dramas dos personagens. Chega um ponto em que parece que eles disputam entre si quem tem a maior trajédia, pois são tão trágicas que Shakespeare teria inveja. Por conta disso o drama é muito bem acentuado nesses momentos, e chega a ser até genuíno de tão bem elaborados dentro da história.

Como um todo, a experiência é gratificante. Sabemos que os personagens são assim e pouco nos interessa o motivo, porque o circo que acontece em volta de cada um deles é muito bem armado. E o melhor de tudo é que o final é satisfatório, nada daquela sensação de ter sido enganado por 12 episódios, podendo ser tanto uma conclusão como uma ponta solta para uma segunda temporada.

A produção deixa clara também que ela pode, sim, ter personagens que fujam de estereótipos comuns, e que histórias não precisam ser feitas de maneira convencional, com personagens convencionais, heterossexualizados e apaixonados para ser um bom entretenimento. O primeiro episódio, que se passa durante uma Parada do Orgulho GLBT, a situação deixa bastante evidente que o seriado não se importará com a relação entre gêneros e suas orientações. Lana e Andy conseguem usar a fantasia a seu favor para levarem essas mensagens sem atingir os ânimos preconceituosos, e isso é sempre válido. Na verdade, dentro do contexto do seriado, e que fica bastante evidente nos episódios seguintes, é que todos os 8 personagens principais deixam de ter uma sexualidade definida por conta da abrangente experiência que todos passam a ter. Como definiu Lana Wachowski, todos eles são "pansexuais".

E dentro de dramas, descobertas, algumas pitadas de humor e últimos episódios bastante eletrizantes, os Wachowski voltaram à forma.

Difícil entender? Então assista. Será mais fácil.

CONCLUSÃO...
Exagerado e exagerado. É a definição. Mas apesar disso tudo, a produção consegue chamar a atenção. Mesmo que demore, os personagens se tornam cativantes no decorrer dos episódios dentro de uma pluralidade social e sexual que vem muito bem a calhar numa época em que o falso moralismo e a hipocrisia estão tomando dimensões assustadoras. É Lana e Andy Wachowski atraindo a atenção em diferentes níveis sensoriais, com imagens deslumbrantes e eróticas que conseguem pular fora da tela. E como sempre, tudo isso chama mais atenção do que a própria história. Poderia ser um defeito no cinema, como é recorrente nos seus filmes, mas na televisão a proposta toda funciona muito bem.

terça-feira, 9 de junho de 2015

SABOREAR COM OS OLHOS...

★★★★★★★★★☆
Título: Chef's Table
Ano: 2015
Gênero: Documentário
Classificação: Livre
Direção: David Gelb
Elenco: Massimo Bottura, Dan Barber, Francis Mallmann, Niki Nakayama, Ben Shewry, Magnus Nilsson
País: Estados Unidos
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Documentário em seis episódios focado, cada um deles, em um renomado Chef da gastronomia contemporânea pelo mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Se existe uma série original da Netflix em 2015, e que seja realmente boa, verdadeira, humana e naturalmente sentimental, Chef's Table é o nome.

Criado e dirigido por David Gelb, o cineasta já tinha feito um trabalho similar em um documentário em longa metragem sobre o sushi master Jiro Ono, em 2011. Ao contrário dos incontáveis reality shows culinários, a aposta do Netflix foi nadar contra a maré e não ir em busca de um novo destaque, mas descobrir o que fez de seis, dentre os mais renomados Chefs do mundo, personagens fundamentais da gastronomia contemporânea.

São eles:
-O italiano Massimo Bottura, dono do Osteria Francescana, cuja inspiração é (obviamente) a culinária italiana, porém relida para que sua arte e seu sabor fossem intensificados, algo que ele acreditava não ser possível na sua forma mais tradicional, decisão que conflituou diretamente com a cultura regionalista.
-O norteamericano Dan Barber, dono do Blue Hill, que se transformou acidentalmente em agricultor por conta de suas pesquisas e trabalhos na intenção de intensificar os sabores naturais de seus ingredientes e, consequentemente, de seus pratos.
-O argentino Francis Mallmann, especializado na cozinha francesa e dono de três restaurantes, que passa a maior parte de seu tempo livre em sua casa de campo na Patagônia, onde cresceu no meio do aroma da comida feita à lenha e da fuligem que as envolvia, situação que definiu totalmente seu estilo culinário.
-A japonesa Niki Nakayama, dona do N/Naka, que além de pratos autorais, monta verdadeiras obras de arte que fazem releitura de conceitos tradicionais japoneses, tendo como meta nunca repetir o mesmo prato para seus clientes.
-O neozeolandes Ben Shewry, dono do restaurante Attica, que se sentiu obrigado a desenvolver (e por assim descobrir) suas habilidades criativas para sobreviver no mercado, que também teve que trazer à tona suas experiências de vida mais marcantes para aflorar sua essência e característica.
-O sueco Magnus Nilsson, dono do Fäviken, que tem como inspiração a cultura viking, mostrando através da inigualável mistura de textura e sabores que existe delicadeza dentro desta cultura nórdica.

Os episódios começam com um relato breve sobre um fato marcante na vida de cada um, e logo em seguida agudos de violinos introduzem o sentimento de suspense e a apreensão que se tem ao entrar em uma cozinha, a meticulosidade na sua preparação ao solo do violoncello e o caos que toda essa organização de repente se transforma para gerar uma experiência única, tudo em perfeita sincronia com as notas de Inverno, das Quatro Estações de Vivaldi.

No decorrer dos seis episódios e na vida individual de cada Chef, há muitas diferenças de estilo. Ao mesmo tempo há incontáveis semelhanças nas experiências de vida e nos interesses de cada um na hora de elaborarem seus suntuosos pratos, sejam eles autorais ou não. O fator mais interessante desta série documentada é que não há sensacionalismo ou elementos tendenciosos. A impecável produção foca exclusivamente na narrativa feita pelos próprios protagonistas das histórias. As belíssimas imagens guiadas pela música clássica reorquestrada são ambas tão meticulosamente escolhidas quanto o menu de cada um deles, e não apenas ilustram as palavras como realmente nos colocam na mesa do Chef, em uma situação bastante íntima e particular, como uma sequência de pratos poderia ser. E através das imagens orquestradas, saboreamos cada um dos pratos através das histórias únicas, e a visualisamos como jóias raras.

Declarações como a de Massimo Bottura, sobre como ele solucionou o problema de uma queijaria em 2012, depois de um desastroso terremoto em Módena, sua terra natal, ou de como um acidente na cozinha que trabalhava se transformou em um dos seus mais famosos pratos; a visão poética de Francis Mallman sobre a vida e a morte e o respeito que ele cultiva em suas relações; o esforço diário e a determinação oriental de Nakayama em sobrepor seus talentos ao machismo latente; a busca pelos ingredientes perfeitos e a maneira mais tradicional e primitiva de produzí-los, como fazem Barber, Shewry ou Nilsson... tudo isso demonstra, acima de tudo, o respeito pelas suas histórias e tradições. Respeito aos ingredientes, aos pratos e da construção da memória palativa no sentido mais alquimista possível. Mostra também que culinária é uma arte, e por mais cliche que esta afirmação possa parecer, é através dessas histórias que temos apenas uma pequena fração da profundidade desta afirmação e das delicadas especialidades de cada um, como, por exemplo, a razão de Mallmann ter como característica em seus pratos superfícies com texturas queimadas, torradas, crocantes e sabores defumados, talvez o exemplo máximo do que significa o resgate da memória através dos sabores, e como nossas experiências de vida mais antigas são as que mais nos definem naquilo que fazemos. Sabores que identificam lembranças, lembranças estas que existem e se manifestam de alguma forma, pois sempre buscamos resgatá-las.

CONCLUSÃO...
Chef's Table não é um reality show e muito menos um documentário sobre comida, mas um material muito bem executado sobre como a culinária pode se tornar uma expressão artística de profunda humanidade e respeito, mostrando que o indivíduo é aquilo que ele come, e o que ele come é aquilo que se cultiva. Também é uma oportunidade de mostrar as diferenças entre o gourmet e o tradicional e que a gastronomia elaborada por essas pessoas são impressões artísticas através do paladar para saciar a vontade por experiências, e não a fome de simplesmente comer.

terça-feira, 2 de junho de 2015

MEXIDO, MAS NÃO BATIDO...

★★★★★★★★☆☆
Título: The Returned
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Mark Pellegrino, Jeremy Sisto, Tandi Wright, India Ennenga, Sophie Lowe, Mary Elizabeth Winstead, Michelle Forbes
País: Estados Unidos
Duração: 43 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma pequena e pacata cidade entra em caos quando vários moradores dados como mortos retornam sem saber que haviam morrido.

O QUE TENHO A DIZER...
O choque já começa logo nos primeiros minutos do primeiro episódio, em um flashback de quatro anos antes, quando um ônibus escolar, lotado de crianças e adolescentes, cai de um penhasco. Ao retomar a narrativa para os dias atuais, vemos as mãos de Camille (India Ennenga) escalando uma grade de segurança, como a sair de sua própria cova rasa. Ela está intacta, com as mesmas roupas de quando embarcou no ônibus que colocaria não um ponto final em sua vida, mas uma grande vírgula, cheia de reticências.

Camille caminha por horas pelas estradas que cortam as Florestas Boreais que apenas o Canadá poderia oferecer, já que Vancouver é o cenário utilizado para retratar a pequena e pacata cidade fictícia chamada Caldwell. Em meio a uma neblina fantasmagórica, ela finalmente chega em sua casa. Ao ouvir barulhos no andar de baixo, sua mãe, Claire (Tandi Wright), desce para verificar. Ela encontra Camille devorando um enorme lanche na cozinha, reclamando da peregrinação que fez. O momento não consegue ser tão impactante como deveria, talvez por que Tandi Wright não tenha conseguido expressar muito bem o misto de espanto, surpresa, felicidade, esperança e uma pitada de horror por uma situação inexplicável que a personagem presenciava, mas o espectador consegue complementar em sua própria imaginação o verdadeiro misto de sensações. Realmente não haveria reação. O catatonismo seria a única resposta para um acontecimento sobrehumano a poucos passos de distância. Camille, surpresa pela afonia de sua mãe, pergunta se está tudo bem, sem ter a mínima noção de que estava morta há tanto tempo e que a poucos minutos antes sua mãe rezava e lamentava sua morte em um altar improvisado.

Sim, é dessa forma um tanto sombria e que vagamente nos remete ao Cemitério Maldito, de Stephen King, que The Returned cumpre o que propõe: ser um seriado dramático de horror e mistério que deixará todos curiosos demais para saber o que realmente aconteceu, no famoso estilo Lost de ser. Troca-se a ilha por uma cidade, e temos Caldwell, tão pacata e comum quanto Chester's Mill, de Under The Dome (também de Stephen King), e com uma população tão interiorana e conservadora como Bon Temps, de True Blood. Até o bar local, chamado DogStar, chega a ser um coadjuvante bastante presente tanto quanto o bar Merlotte's, do falecido seriado vampiresco da HBO. E os personagens ressucitados seriam, digamos, uma versão limpinha, educada e "vegetariana" dos zumbis de George Romero.

Com tantas referências assim, fica difícil saber se são propositais ou não, mas fica bem evidente que o seriado é uma colcha de retalhos de várias fórmulas que deram certo por aí, seja na literatura fantástica, seja na televisão. Até porque, embora ele seja apresentado como uma série original da Netflix, os dez episódios desta primeira temporada são refilmagens do seriado francês Les Revenants, que por sua vez é baseado em um filme de 2004 que leva o mesmo título. O seriado francês foi escrito por Robin Campillo, o próprio roteirista do filme, o qual curiosamente também assina a versão norteamericana. Ou seja, mesmo sem assistir a versão original francesa, supõe-se que o remake não apenas agrade o gosto exigente e preguiçoso dos norteamericanos que detestam legendas, como também consiga ser o mais fiel possível de seu irmão mais velho francês. E é exatamente isso o que se lê na maioria das críticas favoráveis por aí, de que apesar de algumas poucas e sutis mudanças, ambas versões são bastante próximas. Enquanto as críticas mais negativas se limitam a pessoas que provavelmente assistiram apenas o episódio piloto e julgaram ter sido o necessário. E devo dizer: não é.

Dentre erros e acertos das produções que o Netflix tem lançado esse ano, The Returned é uma das poucas agradáveis até o momento dentro deste gênero, ao contrário do infame e desnecessário Between, que também narra um mistério em torno de um grupo de pessoas isoladas em uma pacata cidade, uma cópia descarada e muito mais inferior de Under The Dome.

Mesmo sendo essa mexido de fórmulas já usadas anteriormente, The Returned consegue dar um acabamento final interessante, e ao invés daquela sensação batida de já termos assistido algo parecido antes, as situações semelhantes soam mais como referências muito bem usadas e reformuladas para a proposta da história. É fato que a produção não chega a ter o mesmo valor cinematográfico agregado a Demolidor, mas é muito bem feito mesmo assim. Muito bem filmado, editado e continuado, é mais comum ver acertos do que erros, algo difícil em produções menores como essa. Até porque o grande trunfo de tudo são as atuações, que em sua grande maioria são convincentes, tanto por veteranos pouco conhecidos, como pelos mais novatos que não deixam nada a dever.

A história flui como deve, e aos poucos as tramas e os mistérios se revelam de forma bastante fluida e inesperada. Inesperada não no sentido de surpresa imediata, mas de algo construído gradativamente. Nada daquelas situações manjadas de "hoje será o episódio de tal revelação", pelo contrário, todo episódio revela peças chaves do quebra cabeça, seja através da sutileza da narrativa atual, seja através da objetividade dos flashbacks. E tudo muito bem costurado para descobrirmos as demais camadas e a natureza dos personagens, tanto que cada episódio leva o nome de um deles.

Sem dar explicações óbvias, a história se utiliza de preceitos religiosos e até míticos para fundamentar algumas pontas soltas, fazendo aquilo que poucos seriados conseguem com efetividade: gerar comentários e teorias. Outros seriados, como Arquivo X, ou até o já citado Lost, conseguiram o mesmo, mas aqui a situação tem um tom mais palpável por conta da efetividade do roteiro e de seu desenvolvimento humano dentro de toda essa fantasia. Nada de clichés exagerados, nada de situações muito forçadas. Todos personagens lidam com medos, fraquezas, angustias e tristezas humanas, e todos possuem objetivos definidos. Dessa forma o espectador percebe o cenário se inverter sutilmente, e aqueles personagens que acreditávamos ter razão, deixam de tê-la, enquanto os que pareciam não ter, se fortalecem. Nada maniqueísta demais, nada de vilões ou mocinhos, apenas personagens que acreditam nas suas próprias razões e motivos, e uma construção bem interessante em cima da velha idéia de que devemos ter mais medo dos vivos do que dos mortos.

Não é um seriado perfeito, e nem redondo, porque deixou um final aberto para uma provável segunda temporada (o original francês terá sua segunda temporada ainda este ano), mas é a subida da montanha russa e a visão panorâmica antes da queda, conseguindo ser acima da média e que merece a chance de ser assistido. Resta agora saber se esta versão também terá uma segunda temporada. A única coisa que se sabe é que a primeira temporada seria fiel ao original, mas caso seja renovado para temporadas seguintes, seguirá um direcionamento completamente diferente.

CONCLUSÃO...
Dentre os atuais seriados produzidos pelo Netflix lançados esse ano até o momento, este figura na lista dos que merecem atenção. Sabe-se que Estados Unidos adora produzir remakes desnecessários, que pecam por deturpar as produções originais, resultando em produtos inferiores e esquecíveis. Por um milagre, não é o caso deste seriado. Sendo ou não sendo melhor que o original francês, The Returned cumpre o que promete dentro do gênero. Mas com tantas boas qualidades técnicas, seria difícil dar totalmente errado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

VAMOS JOGAR UM JOGO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um matemático, suposto ser o melhor do mundo, é contratado pela inteligência britânica para integrar uma equipe delegada a descobrir como decodificar as mensagens criptografadas pelos nazistas durante a segunda guerra.

O QUE TENHO A DIZER...
No começo do filme, Alan Turing, interpretado por Benedict Cumberbatch, diz que falamos coisas enquanto pensamos outras na intenção de que os outros adivinhem o que realmente queremos dizer, e que ele simplesmente não consegue entender esta linguagem confusa. Essa idéia se repete na segunda metade do filme, quando Alan observa seu colega de trabalho decifrar os "códigos" e a "linguagem corporal" da garota com quem flerta, enquanto era muito mais fácil algum dos dois se dirigir diretamente ao outro e colocar claramente suas intenções. É o significante e o significado. As dificuldade de Alan em compreender as manobras linguísticas que o ser humano utiliza para driblar a verdade ou a literalidade justificam a grande facilidade e preferência que ele tinha com números e letras, pois a linguagem com estes símbolos é clara e óbvia.

A maneira um tanto filosófica como este pensamento é posto no filme, além de ser uma das poucas em que funciona como uma ação de efeito sem parecer forçada ou cliché, também encaixa-se perfeitamente no contexto lógico do matemático, resumindo perfeitamente a maneira simples e primitiva como as máquinas "pensam", que embora primitiva, ainda é a forma como elas são construídas até hoje. Tanto é assim que um computador não consegue entender um comando caso ele não seja executado com precisão. Até mesmo os complexos códigos binários dos serviços de busca, como o Google, não retornarão informações precisas caso não sejam solicitadas buscas da maneira correta. É assim como Alan se comporta quando seus colegas indiretamente o convidam para lanchar, pois dizer que irão lanchar é diferente de convidar para lanchar e dizer para alguém que está com fome é diferente de perguntar se está com fome.

O título se refere ao famoso Teste de Turing, teste o qual todo o recente filme Ex_Machina (2015) é baseado e brilhantemente executado, comentado no post anterior. Neste teste, um humano deve interagir com uma fonte de inteligência e depois avaliar se era uma máquina ou um humano. Ele é positivo se a pessoa considerar que a interação foi humana quando, na realidade, ela foi artificial.

Apesar do filme tratar desse tema, ele não é tecnológico como o filme de Alex Garland, pelo contrário. Até porque a história se passa na década de 40, época em que a máquina decodificadora projetada por Turing foi o primeiro esboço daquilo que viria a ser os computadores. O fato é que o roteiro de Graham Moore, baseado no livro de Andrew Hodges, irá tratar muito mais da humanidade que se perdeu há muito tempo e deste grande e complexo sistema chamado comunicação.

A dificuldade de Alan de se comunicar e de explicar em palavras suas idéias é o que gera repulsa e desconfiança por parte de seus superiores e demais colegas, mas ninguém tentou compreendê-lo da forma como ele realmente é, com excessão de Joan Clarke, interpretada decentemente por Keira Knightley. É no momento que ela o ensina a ser mais simpático e carismático, como a política social convencional manda, que os demais personagens percebem que Alan não é um monstro arrogante e egocêntrico como acreditavam, mas um ser humano excêntrico, com uma cabeça que se organiza de forma confusa e compreende as coisas de maneira bastante particular, simples e até primitiva, como sua máquina, o que o caracteriza como um ser humano genuinamente ingênuo e fará com que muitas pessoas se aproveitem disso.

Esse "jogo da imitação" terá vários significados no filme, desde a interação entre Alan e as outras pessoas, assim como dele mesmo com a própria máquina que criou. Enquanto a maioria dos demais personagens tratam Alan como uma máquina ou um objeto, ele por sua vez tratará sua máquina como uma pessoa. A máquina se chamará Christopher, em referência ao primeiro grande amor do personagem. Esta construção feita por Moore é um dos pontos mais altos do filme e que, assim como em Ex_Machina, indiretamente nos mostra que o teste inventado por Turing chega a ser positivo até mesmo para ele, o próprio criador.

A fidedignidade do filme com a história real é bastante falha e controversa. Obviamente houve uma dramatização muito maior tanto na esquizitice do personagem quanto de sua relação com Joan. Além dos fatos não terem ocorrido na cronologia histórica correta. Há também erros científicos como a programação da máquina pela busca de palavras chaves ter ocorrido depois que ela já estava em funcionamento. Na realidade, a máquina desenhada por Alan, bem como qualquer processo de decodificação, necessita obrigatoriamente de simbolos chaves comuns para que o processo seja bem sucedido. O filme também mostra um Alan Turing com claros sinais de Asperger, um tipo de autismo, quando fontes próximas ao verdadeiro Alan informaram que, embora ele tenha sido uma pessoa bastante particular, ele era muito sociável e dotado de um excelente humor, algo que pessoas com esta condição não possuem.

De qualquer forma o roteiro desenvolve muito bem a história e seus personagens, pecando apenas nos coadjuvantes que fazem parte do núcleo do protagonista, onde alguns deles não tem suas funções muito definidas na história, aparecendo e saindo de cena apenas para complementar o cenário. Cumberbatch, junto com Michael Keaton, era o mais cotado para o Oscar 2014, mas nenhum dos dois levou o prêmio. A competência do ator é inegável, a sofrida solidão, a ingenuidade inerente e a dificuldade de compreender a linguagem dos homens sensibiliza profundamente, até mesmo em momentos dramáticos um pouco exagerados que já chegamos a ver em alguma telenovela por aí. Isso talvez seja culpa do rosto forte e com traços bastante expressivos do ator, que não precisa de muito para chamar a atenção e ser impactante.

Mas o que mais impressiona, no mau sentido, é a direção do norueguês Morten Tyldum, que havia dirigido antes o excelente e engajado Headhunters (2011). Embora grande parte do filme se mantenha sempre numa zona segura e bastante limitada, há erros de continuidade e até mesmo eixo de ação invertido, o erro mais clássico de todos, no momento em que Alan está à mesa, sendo interrogado pelo delegado. O erro foi tão grosseiro que é nítida a tentativa de conserto ao espelharem a imagem para fingir que ela está no eixo correto, mas a franja muito bem definida de Benedict Cumberbatch condena a evidente confusão.

Apesar de alguns erros até grosseiros e uma dramatização dos fatos muito maior do que deveria, ainda sim consegue ser emocionante por conta do domínio de Cumberbatch em cena e a honestidade com que ele conduz as situações. Excluí-se a ficção e temos uma história bastante impressionante, não apenas por Alan ter sido visionário e pioneiro no desenvolvimento da alma de um computador e a importância que essas máquinas tem em nossas vidas atualmente, mas também pela perseguição que sofreu por ser homossexual, onde ignoraram completamente a importância que ele teve durante a Segunda Guerra simplesmente por um julgamento social infundável que o levou a cometer suicídio em 1954.

O filme termina de forma até brilhante, afirmando que Turing teve uma importante participação no fim da Segunda Guerra e que isso foi tardiamente reconhecido, e que após a queda do nazismo, a Grã Bretanha condenou mais de 49 mil homossexuais por sua sexualidade. Ou seja, lutaram contra o nazismo, mas perpetuaram o crime humano de outras formas.

CONCLUSÃO...
Não chega a ser um filme tipicamente histórico, mas que desenvolve entre boas doses dramáticas e exageros ficcionais algumas idéias sobre como os homens se relacionam entre si, como a comunicação se tornou complexa e como cada vez mais precisamos de máquinas para interceptar e facilitar esta relação. Além da crueldade humana, da indiferença e do completo julgamento aleatório. A manutenção da violência enquanto ela nos engrandece, como bem é dito durante o filme.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO...

★★★★★★★★★☆
Título: Ex_Machina
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Garland
Elenco: Domhnal Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
País: Reino Unido
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz que irá participar de um fascinante e complexo experimento no qual deverá interagir com uma inteligência artificial em forma de uma mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Caleb (Domhnall Gleeson) é um programador que trabalha numa grande empresa chamada Blue Book, a maior e mais importante ferramenta de pesquisa existente, o equivalente ao Google ou Facebook. Ocorre um sorteio interno na empresa, cujo prêmio será passar uma semana com o todo poderoso Nathan (Oscar Isaac), o gênio recluso por trás da criação e do sucesso de toda a companhia.

A mansão subterrânea de Nathan é também seu escritório de trabalho, por onde monitora meticulosamente todas as atividades da empresa e cada um da extensa lista de funcionários. É também seu laboratório particular de experimentos, criação e desenvolvimento de novas tecnologias. Bastante iluminada e automatizada, fria e sem qualquer personalidade, essa atmosfera pálida onde tudo é geometricamente definido muito se assemelha com a fotografia de A Pele Que Habito (La Piel Que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar, cuja artificialidade gera um incômodo constante. É preciso permissão de acesso para qualquer parte do grande complexo que se molda perfeitamente dentro da própria natureza sólida e gélida onde está localizada. É como se Nathan não acreditasse no ser humano de alguma forma, mantendo distância por não saber se relacionar com ele.

Quando Caleb chega, Nathan até tenta tratá-lo com informalidade para "quebrar o gelo" do primeiro contato, mas a austeridade patronal e a frieza de tudo, inclusive dele mesmo, impedem uma aproximação mais calorosa e receptiva. Para piorar as coisas, Caleb é induzido a assinar um contrato de confidencialidade sobre tudo que ver, ouvir, ler ou acessar durante os sete dias que estiver hospedado lá. É então que ele descobre que sua função é participar de um experimento dentro do Teste de Turing, que é interagir com uma máquina e avaliar se ela realmente possui inteligência artificial ou não.

E então nos é apresentado Ava, uma fembot, ou seja, um robô com características e personalidade feminina que fala, ouve, vê, interage, dialoga, pensa e tem sentimentos. Ava é uma mistura de Andrew, de O Homem Bicentenário (1999), com Samantha, o sistema operacional de Ela (2013), de Spike Jonze. E ao mesmo tempo que ela tem a ingenuidade de David, de A.I. (2001), o sentimento de que a qualquer momento ela se volte contra alguém é inevitável, tal qual a atitude de Hal em 2001 (1968), de Kubrick.

Ava possui uma inteligência artificial fluida, responsiva, distinta e adaptável, "como se ela pensasse antes de dizer algo", como diz Caleb em um determinado momento. Isso acontece porque Nathan criou o cérebro artificial reunindo todas as informações de busca realizados na Blue Book, pois as ferramentas de busca são mapas de como as pessoas pensam. É como se Ava tivesse um Google dentro de sua cabeça, agindo de forma às vezes impulsiva, às vezes responsiva, imperfeita, padronizada e caótica, tal qual a forma como as pessoas fazem suas pesquisas. Ou seja, uma justificativa simples sobre a forma de Ava pensar, mas ao mesmo tempo sólida e absolutamente coerente com a nossa realidade.

Caleb fica fascinado com a criação de Nathan, o que é obviamente fascinante por si só tamanha a perfeição. Mesmo visualmente simples, todo o conjunto funciona. Os efeitos especiais que dão o visual tecnológico, mas ainda orgânico, nunca atrapalham essa simplicidade principalmente porque Alicia Vikander não atua com movimentos mecânicos ou clichés, como Schwarzenegger em Exterminador, mas limitadamente, num controle físico e expressivo surpreendente, como que movida a impulsos eletrônicos.

É impossível não se sentir atraído por Ava, tanto pelo que ela é quanto pelo que ela faz. Confinada em um quarto, limitada apenas àquele ambiente como um computador em uma mesa cuja função é estar sempre à disposição de seu usuário, ela tem um rosto, tem expressões faciais, vocais e corporais, e por isso conseguimos enxergá-la como uma pessoa, e nos sensibilizamos com as angustias das quais ela está programada a sentir, sendo a solidão a maior delas. Sim, nos sentirmos sensibilizados por ela nos dar essa sensação de que também fazemos parte do mesmo teste pelo qual Caleb passa, e isso é um dos elementos mais interessantes e também impressionantes do filme.

A trama toma outro rumo quando, durante uma queda de energia do complexo, seguros de que não estavam sendo observados, Ava pede a Caleb que não acredite em tudo que Nathan diz. A partir daí o protagonista deixa de ser uma peça passiva da história para definitivamente agir nela. Ele é tomado por paranóias, que se intensificam na medida que o sentimento de confinamento aumenta e a sensação de ser apenas mais uma peça do experimento fica cada vez mais evidente.

Dirigido e escrito por Alex Garland, o filme segue uma linearidade e uma coerência quase perfeitas. Garland já foi responsável pelo roteiro de três filmes do cineasta Danny Boyle: A Praia (The Beach, 2000), Extermínio (28 Days Later, 2002) e Sunshine (2007). Ex_Machina é o primeiro que dirige em sua carreira, e o faz muito bem, tanto que ele consegue esse raro fenômeno de manipular o espectador e literalmente enfiá-lo dentro da história como um diretor veterano poderia fazer.

Ao contrário da impressão que passa pela forma como foi promovido, como um thriller intenso sobre a relação homem/máquina, o que vemos de fato é um filme bastante equilibrado em todos os quesitos, que ao contrário de simplesmente contar uma história, ele dialoga com seu espectador e o insere na mesma situação que o protagonista se encontra. Garland primeiro nos apresenta os ambientes e os personagens, depois ele nos abraça de forma envolvente com a fluidez da trama, e apesar do final ser até previsível, não é previsível o caminho até ele. Acima de tudo é um filme humano dentro da frieza de seu contexto, que explora as essências mais complexas da solidão e da necessidade de afeto, como isso tem refletido no avanço tecnológico e como cada vez mais tentamos inserir essas necessidades naquilo que podemos utilizar no cotidiano, como uma forma de compensar a falta da proximidade e da relação humana.

É claro que cada um dos personagens irão nos surpreender em seus determinados momentos porque Garland desenvolve com clareza a personalidade de cada um, sendo compreensível o que cada um deles faz, e os motivos que os levam a agir de formas tão diferentes.

Por um lado há Caleb, um jovem extremamente ingênuo, bondoso e solitário. Por todas essas características que ele tem, ele é facilmente manipulável. Depois há Nathan, que tem um pensamento extremamente científico, que analisa e quer dados empíricos sobre aquilo que desenvolve, pouco se importando com os meios utilizados para o fim esperado. Se Ava é um robô ou não, se tem sentimentos ou não, ou se Caleb é um ser humano frágil, ele pouco se importa. O que Nathan quer saber é se o objetivo de transformar Ava no mais humano possível, ao ponto de nem mesmo um humano conseguir distinguir a diferença, foi alcançado. A verdade é que ele consegue atingir esse objetivo porque Caleb responde a Ava como se ela fosse realmente uma humana. Nós, espectadores, respondemos como se ela fosse humana. Até mesmo Nathan, em alguns breves momentos, mostra que isso atingiu ele próprio sem ele mesmo perceber. As breves reações de raiva ou impaciência de Nathan, ou a busca pelo afeto que ele demonstra em algumas partes (e que não cabe dizer em quais circunstâncias para não estragar as surpresas), já demonstram por si só que até mesmo ele se confunde com sua própria criação. E são nesses momentos que o Teste de Turing se comprova definitivamente positivo, já que uma das características para isso é a interação entre o homem e a máquina sem que o homem perceba isso.

Aí temos Ava, cujos sentimentos, sensações, frustrações, desejos, vontades, aspirações e demais sensações aleatórias, existem dentro dela. A forma dela de racioncinar é baseado unicamente como uma barra de pesquisa do Google. Ela raciocina em cima do raciocínio de pesquisa das pessoas. Então ela vive em um conflito constante sendo um robô, mas pensando como um humano; sendo um robô, mas tendo sentimentos; sendo robô, mas com vontades de descobrir o mundo, tal qual o mito da caverna, de Platão.

É necessário compreender que, apesar dos antagonismos levarem a história para um final um tanto óbvio, o importante é que não existem vilões na história. Não existe bem ou mal, porque existem três pessoas e três personalidades agindo não por instinto, mas em cima daquilo que elas acreditam. Caleb tenta proteger Ava a todo instante; para Nathan, Ava é apenas mais um produto em teste; Ava luta para sobreviver, tal qual um humano faria.

O desenvolvimento do filme fecha em um ciclo perfeito. A construção é lenta e prende a atenção porque queremos saber qual será seu fim. As referências, principalmente à mitologia Grega, como o de Prometheus e a mitos, como o já citado de Platão, são sutis, mas presentes de maneira pontuada e proposital. Não empolgará como um filme de ação ou um thriller intenso, mas ele nos leva a uma jornada de conhecimento que mostra que a própria evolução do ser humano é perigosa para ele mesmo.

Claro que não se pode deixar de notar uma certa metáfora existente sobre o controle de informação que a internet gerou e o poder que ela concentrou a algumas corporações. Se começarmos a associar o nível de informações que o Google ou o Facebook tem de todos seus usuários e as mudanças que ocorreram recentemente, como a forma como eles respondem e interagem às pesquisas de seus usuários sobre aquilo que buscam no cotidiano, isso tudo é apenas o princípio daquilo que é Ava propriamente dita. Então, de certa forma, os detentores dessas informações se transformaram nos novos exploradores de petróleo, como diz o próprio Nathan. Eles podem agir da forma que quiserem com você, e você irá interagir, irá acreditar e será manipulado por eles da mesma forma como os personagens neste filme manipulam e são manipulados.

O filme teve um orçamento de US$11 milhões. Por ter uma narrativa incomum ao gosto popular, até que tem se saído bem, arrecadando mais de US$19 milhões em seis semanas de exibição, com média 8 no IMDb baseado na avaliação de mais de 43 mil usuários cadastrados até o momento. Isso significa que a probabilidade de ele ser lembrado nas premiações será grande, porque sem dúvida é o primeiro grande filme do ano e figurará na lista dos melhores.

CONCLUSÃO...
O primeiro grande filme do ano. Com um desenvolvimento que se fecha em um ciclo perfeito. A atenção dada aos mínimos detalhes deste longa o transformaram em uma jornada fascinante e ao mesmo tempo assustadora sobre os avanços tecnológicos e quão longe pode ir o controle da informação, no qual estamos todos vulneráveis.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O MILAGRE DA CRIAÇÃO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Grace And Frankie
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen, Sam Waterston
País: Estados Unidos
Duração: 29 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Grace e Frankie são duas rivais que são obrigadas a aceitar um fato comum entre elas, o anúncio de seus maridos de que eles estão apaixonados um pelo outro.

O QUE TENHO A DIZER...
Jane Fonda, é Grace, repetindo mais uma vez o papel de aristocrata egocêntrica e egoísta. Lily Tomlin é Frankie, repetindo mais uma vez o papel de mulher excêntrica e espiritualizada. A história começa com as duas se encontrando em um restaurante, e a primeira impressão é óbvia: elas se odeiam. Por qual motivo, não sabemos, só sabemos que é assim. Ambas esperam seus maridos chegarem, e acreditam que o jantar tenha a ver com alguma reunião de negócios, já que os dois são amigos há anos e possuem investimentos juntos. Sol e Robert chegam ao restaurante, interpretados respectivamente por Sam Waterston e Martin Sheen. Assim que eles entram em cena não demora muito para que ambos peçam o divórcio. O fato é que eles são amantes há 20 anos, dos 40 anos que estão casados com suas respectivas esposas.

Claro que o choque é inevitável por várias razões. Primeiro porque é inesperado ver Martin Sheen em um papel como esse, ator que interpretou papéis extremamente masculinizados ao longo da carreira. Segundo, e o mais importante deles, é a situação constrangedora em que os dois colocam suas esposas, como que a dizer que metade da vida que passaram juntos foi uma grande farsa.

Não deve ser fácil para ninguém ter de engolir a seco o fato de que a pessoa com quem se viveu por 40 anos dedicou metade desse tempo em uma vida paralela. Independente da sexualidade ou com quem isso foi feito, o sentimento de impotência e de traição é o mesmo. E a traição aqui não é simplesmente aquela situação casual que poderia eventualmente ocorrer em uma relação tão longa como a dos protagonistas, mas da falta de diálogo, da honestidade, da sinceridade e da confiança que deveria existir em uma parceria tão longa. E foi essa a forma e o tom com que a situação foi abordada. Nem Grace, nem Frankie, apontam com discriminação ou preconceito sobre a verdadeira sexualidade de seus esposos, a indignação e a revolta que toma conta de todos é única e exclusivamente sobre nunca terem prestado atenção em suas relações ou nunca terem se aberto o suficiente para que esta notícia não tivesse demorado 20 anos para ser dada. Isso sem dúvida deixará uma sensação um tanto alcalina entre os casais que assistirem ao seriado, pois irão, em algum momento, mesmo que em silêncio, se questionar se eles realmente conhecem um ao outro como acreditam.

Sim, esse teor satírico sobre os rumos que uma relação de longo termo acaba tomando é um dos pontos fortes desse novo original da Netflix.

A princípio não há muito para se julgar, pois as situações e diálogos são sempre momentâneas, nada que se aprofunde em algum passado, com excessão de um ou dois episódios. Para um seriado de comédia, não há risadas genuínas nos primeiros minutos do primeiro episódio, algo que não se espera quando se reune duas atrizes deste calibre em um gênero como esse. Mas até aí tudo bem porque é um produto Netflix, e como tudo é liberados de uma vez, não há necessidade de impressionar e atirar para todos os lados logo nos primeiros episódios. O grande problema surge quando os episódios vão indo embora, mas a sensação de ser sempre o primeiro não acaba. Parece que não desenvolve nunca.

Criado por Marta Kauffman e Howard Morris, essa comédia diferenciada tenta aproveitar um grupo de atores experientes que andavam bastante subaproveitados por já terem passado dos 60 anos e, ao mesmo tempo, ser uma aposta da companhia de agradar o público mais maduro que assina seus serviços e que está carente de produtos equivalentes em todos os lugares.

O problema aqui é que Marta Kauffman, que também assina o roteiro, tem uma bagagem muito diferente. Suas experiências e habilidades como criadora e roteirista de sitcoms renomadas como Friends ou Veronica's Closet por vezes não se encaixam nessa produção justamente porque o formato é completamente diferente do que ela está acostumada.

Sitcoms, embora também gravadas em estúdio, são geralmente feitas ao vivo para uma platéia real responsável por dar o feedback imediato aos atores e roteiristas de que o material funciona ou não. Então, se acontece de haver alguma entrada errada ou piada mal colocada, o roteiro sofre readaptações até de última hora, coisa que não é possível em um roteiro fechado, como é aqui. E Kauffman na verdade passa a impressão de ter escrito este seriado para uma platéia que faltou, e isso a deixa muito tempo perdida no resultado, e no mesmo fica o espectador.

Nos primeiros episódios as piadas ou diálogos engraçados soam arrastados, como que esperando aquele "saco de risadas" das sitcoms que nunca acontece, gerando um vácuo desagradável. Os diálogos por vezes não são fluidos, e a espontaneidade da lugar a situações marcadas, carentes de uma direção dinâmica que condiziria melhor com a experiência que os atores possuem, principalmente Lily Tomlin, que de longe tem a veia mais cômica de todos eles. Para quem conhece os trabalhos da atriz, a princípio pode até acreditar que ela esteja "enferrujada" ou pouco à vontade, mas essa impressão acaba quando Kauffman finalmente relaxa e os personagens começam a ganhar vida própria. É quando acontece o "milagre da criação" e tudo flui como deveria ter sido desde o princípio.

Se por um lado o roteiro acertou deste o princípio na forma até honesta, delicada e moderna com que toda essa bagunça sentimental dos personagens é lidada, por outro não foi tão feliz nesse desenvolvimento lento. Mais que lento, acretido que tenha sido um desenvolvimento perdido, daqueles que os roteiristas não sabem bem que rumo dar à história ou aos personagens, e subitamente, como em um desbloqueio criativo, todo o universo se abre para eles. Tanto é assim que de repente os personagens, tanto principais quanto coadjuvantes, deixaram de ter conflitos aleatórios e rivalidades desnecessárias, mesquinharias dos primeiros episódios que mais incomodavam do que geravam interesse.

O seriado na verdade deveria levar os nomes de Robert e Sol, já que esses personagens são muito mais interessantes juntos do que a pseudo-rivalidade entre Gracie e Frankie parecia ser. Na verdade, eles poderiam muito bem ter um show só deles. A decisão do casal vivido por Sheen e Waterston de finalmente assumirem sua relação e sexualidade na terceira idade é, de longe, o tema melhor desenvolvido, além do conflito de terem escondido isso por tanto tempo ser muito mais interessante pelo ponto de vista deles do que delas. Até as situações e a química entre os dois atores é muito maior e naturalmente cômica quando, por um lado, há o romantismo e a sutileza de Sol, e por outro a natural rispidez e seriedade de Robert, o qual supreende quando extravasa suas liberdades sexuais em alguns breves momentos de espontânea delicadeza.

Mas claro que a relação das protagonistas também é interessante. Embora as duas tenham 70 anos de idade, de muitas coisas da vida elas se esqueçaram nos últimos 40 anos, como, por exemplo, viver fora da bolha familiar que estavam. Tudo agora será uma redescoberta, como voltar à adolescência. Soferão de paixões, redescobrirão o sexo e cometerão erros típicos de uma época que se apagou com o tempo. Trocarão confidências, farão fofocas e machucarão umas às outras sem intenções, ao mesmo tempo que o próprio tempo mostra cada vez mais que definitivamente o que elas precisam é uma da outra.

É evidente que o seriado não foi polido da mesma forma como ocorreu com os outros originais dramáticos da Netflix. Talvez isso tenha acontecido pela falta de produtos originais cômicos no serviço e a pressa de produzi-los agora, o que é normal, só não pode se tornar um hábito.

Esta nova produção definitivamente não é de toda ruim. Consegue ser leve e divertida. Acima de tudo, é agradável. Uma pena que ela demora muito para encontrar seu tom e os personagens finalmente terem suas personalidades exploradas além do superficial. Como dito, é quando o roteiro deixa a pretensão de lado que tudo passa a fluir. Isso é evidente a partir do quinto ou sexto episódio, quando aqueles raros momentos genuinamente engraçados dos primeiros episódios vão dando lugar para um bom humor cotidiano simples e que funciona. Nada de sarcasmos ou exageradas ironias, a impressão que se tem é que Kauffman e Morris finalmente sacaram que a grande virtude do que criaram é a pura simplicidade.

Ainda que não seja um seriado que realmente prenda a atenção e que faça o espectador devorar tudo em uma única tarde, a árdua tarefa de se arrastar pelos primeiros episódios é compensada por uma repentina magia que toma conta de tudo depois. Os ajustes demoraram para aparecer, e agora que apareceram, que sejam mantidos assim para uma provável segunda temporada.

CONCLUSÃO...
A proposta desse mais novo original da Netflix é interessante, mas derrapa e se arrasta nos primeiros episódios por conta de uma falta de identidade. É quando os roteiristas evidentemente relaxam que o texto flui e o "milagre da criação" finalmente acontece, aquele em que os personagens parecem ganhar vida própria, os atores finalmente se interagem como deveriam e o humor genuíno simplesmente brota sem esforço. Então tudo toma uma outra forma, uma outra cor, e uma simplicidade tão deliciosa que, perto de tanta pretenção atualmente no cinema e na televisão, assistir algo simples é mais que bem vindo.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

VIDA IMITANDO ARTE...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Bridegroom
Ano: 2013
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos
Direção: Linda Bloodworth-Thomason
País: Estados Unidos
Duração: 68 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As dificuldades de Shane Bitney Crone em participar do velório de seu namorado e companheiro de seis anos por falta de respaldo legal, já que foi impedido pela família de seu noivo de comparecer por ser gay.

O QUE TENHO A DIZER...
A idéia do documentário surgiu após Shane Bitney publicar um vídeo no YouTube que se tornou viral, até hoje visto por mais de 5 milhões de pessoas, sem contar as repostagens do vídeo por outros usuários. Entitulado It Could Happen To You, a intenção foi homenagear um ano da morte de seu companheiro, Thomas Bridegroom. Foi então que Linda Bloodworth-Thomason propôs realizar um documentário em longa metragem para se aprofundar na história do casal, e a arrecadação teve início no Kickstarter, recebendo mais de US$300 mil em doações, se tornando o documentário que mais arrecadou fundos públicos até hoje.

O longa começa esclarecendo como aconteceu o trágico acidente. O jovem de 29 anos caiu do alto de um prédio de quatro andares por pura desatenção. Fotografando sua amiga durante a noite, às vésperas de anunciar seu noivado com Shane Bitney, ao dar alguns passos para trás, nenhum dos dois percebeu que ele já estava próximo ao parapeito. Então ele caiu.

Foi uma tragédia simples assim. Um acidente cuja probabilidade de acontecer era a mínima possível, mas aconteceu por uma daquelas razões que a vida não consegue explicar, numa ironia da vida que imita a arte que se encaixaria perfeitamente no filme Magnolia (1999), principalmente porque Shane havia pedido alguns momentos antes a Tom, via iMessage, que ele ficasse longe do parapeito. Ouvimos uma inserção do chamado de emergência e logo após Shane aparece em um vídeo pessoal contando sobre as similaridade de ambos. Ele está em prantos, lembrando da música de Garth Brooks que mais gostavam e que se tornou a música "deles". É triste, e a mesma dor sentimos nós que assistismos, claro que não na mesma intensidade. A situação parece cafona e um tanto forçada, mas o sentimento de Shane é genuíno e profundamente sentido, como um buraco sem fundo e nem começo.

Esse início não deixa de ser emocionalmente tendencioso, e já sabemos logo de cara que a função primária do documentário será sensibilizar seu espectador para desarmá-lo o mais breve possível para que a história dos dois seja contada sem a interferência de prováveis preconceitos. E assim tudo é conduzido.

Shane narra cronologicamente diante das câmeras sua infância e adolescência, a dificuldade em aceitar sua sexualidade, o assédio que sofreu na pequena cidade onde morou até o momento em que conheceu Tom. Há declarações de seus pais, amigos e demais pessoas que o amam incondicionalmente e que presenciaram suas crises de pânico, sua profunda depressão e finalmente a sublime felicidade do seu primeiro amor e os seis anos que seguiram.

Realmente, não há como não se sentir impotente diante de uma infância como a vivida por ele e imaginar os prováveis traumas ainda carregados por conta disso. A dimensão se torna muito mais assustadora ao pensarmos que muitas outras pessoas passaram pelo mesmo, e ainda passam. Mas também somos reconfortados por termos a oportunidade de ver que, apesar de breve frente ao tempo de toda uma vida, ele foi recompensado com um amor puro e genuíno, ainda mais nos dias de hoje, em que tudo parece tão efêmero, vazio e esquecível.

Por mais triste que tenha sido sua infância, e por mais dolorosa que tenha sido sua adolescência, a narrativa já havia mostrado logo no início o pior que está por vir. Além da morte de seu noivo, a proibição da família de Tom de que Shane participe dos funerais simplesmente pelo fato dele ser gay é, dentre todas as coisas pelo que ele passou, talvez a mais desrespeitosa delas. A falta de consideração e sensibilidade dos pais do falecido é o que mais choca não apenas o jovem, mas também o espectador, por conta da frieza e calculismo com que fizeram tudo.

Como se nenhum sofrimento fosse o bastante, ele chegou a ser fisicamente ameaçado pelo seu sogro, e para evitar maiores problemas, optou por nada fazer. Sem qualquer respaldo legal, Shane estava à deriva, e presenciou o velório e o enterro por uma distância tão longa que mal pode enxergar o que acontecia. Para concluir seu processo de luto, teve de fazer o seu próprio velório simbólico à parte, com seus amigos. Nada poderia ter sido mais indigno que isso. 

O que torna o documentário algo profundamente verdadeiro e emocionalmente devastador é exatamente os seis anos de relação que Shane e Tom tiveram de constante alegria, sonhos a serem realizados e um amor que muita gente acredita existir apenas no cinema. De repente tudo isso é interrompido precocemente, sem uma causa mais óbvia do que um acidente puramente banal. O sentimento fatalista é inevitável, e embora essa história tenha um teor muito parecido com o filme Direito de Amar (A Single Man, 2009), de Tom Ford, aqui ela não é uma ficção baseada em um livro, mas um fato real contado e documentado por uma pessoa que agora carrega uma profunda cicatriz, juntamente com diversas outras.

Sem dúvida, o excesso de sentimento peca na falta de um conceito mais sólido. O documentário foi promovido tal qual sua sinopse, como uma tentativa de compreender ou minuciar a falta do respaldo legal frente a situação vivida por Shane. Ao invés de uma busca por soluções, o que assistimos de fato não é bem isso. A diretora poderia ter desenvolvido uma discussão paralela sobre quais alternativas Shane poderia ter tido, ou o que ele poderia ter feito mesmo sem apoio legal. Um esclarecimento sobre quais as leis existentes (ou a falta delas) que dificultavam este acesso e quais mudanças deveriam ocorrer seria crucial para que o documentário cumprisse sua função social esclarecedora e modificadora. Relatos de casos similares teriam sido, sem dúvida, importantíssimos para fortalecer dados estatístico que anulasse a idéia de que este é um caso isolado.

Logo, o que vemos são 68 minutos de uma bela história de amor muito bem desenvolvida por conta do vasto acervo pessoal de imagens e vídeos que o casal colecionou ao longo dos anos. Nada que saia da zona de segurança de uma biografia qualquer, ao contrário do vídeo de 11 minutos feito pelo próprio Shane Bitney para o YouTube, que mesmo curto e amador consegue ter um apelo social muito mais forte e condensado do que este longa.

Sensibilizar o espectador é a regra que rege em qualquer documentário dramático, e embora este material celebre a espiritualidade humana e o amor incondicional acima de qualquer coisa, esta celebração também poderia ter sido muito bem aproveitada se circundasse um contexto mais social do que a superfície.

Como a própria bisavó de Shane diz, esta história não é de Romeu e Julieta, mas sim de Romeu e Romeu, e as pessoas devem aceitar isso.

Mas o que fazer ou como fazê-las aceitar deveria ter sido um excelente propósito final do material.

CONCLUSÃO...
Apesar de ser muito mais uma biografia do que um documentário, sim, ainda é muito triste a forma como a sociedade recrimina e discrimina a homossexualidade de forma tão abusiva e chocante. O assédio sofrido por jovens homossexuais traz consequências psicológicas desastrosas, já que a vítima observa a velocidade com que as portas se fecham ao seu redor e não encontra nenhuma outra saída além do seu próprio isolamento. Há a perda de tudo. Da esperança, da juventude, da autoconfiança e, principalmente, da ingenuidade de uma descoberta sexual que não pode ser culpada de existir e acontecer. Muito menos podem ser culpadas as pessoas que passam por isso. É cruel a forma como o ser humano se presta ao trabalho de reduzir a vida alheia na primeira oportunidade possível, ao invés de valorizá-la e parabenizar o próximo por estar vivo, por fazer suas próprias escolhas e buscar a felicidade à sua própria maneira. Ao menos se respeitassem o sentimento mútuo de duas pessoas, algo que nem isso ocorre na maioria das vezes, nem mesmo durante o luto.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A VIDA POR SI SÓ...

★★★★★★★★☆☆
Título: Life Itself - A Vida de Roger Ebert (Life Itself)
Ano: 2014
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos
Direção: Steve James
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A trajetória de Robert Ebert, de um jornalista para um dos mais célebres críticos de cinema do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Todos nós somos críticos. Todos nós criticamos algo a todo instante. Não é necessário articulação para opinar sobre algo, e opiniões sólidas nem sempre precisam de valores técnicos, apenas observação. Há valor na opinião leiga, desde que esta seja sensível o suficiente para notar as nuances, mesmo não sabendo como explicá-las tecnicamente.

Para todo bom amante de filmes que se preze, Robert Ebert pode ser considerado um ícone com bastante folga. O jornalista norteamericano, que com apenas 21 anos já era editor de um jornal em Illinois, se transformou, por acaso, em um dos mais célebres críticos de cinema não apenas dos Estados Unidos, como também do mundo.

Segundo ele mesmo afirma no documentário dirigido por Steve James, esse acaso aconteceu quando o editor Robert Zonka ofereceu-lhe a função depois que Eleanor Keane deixou a redação do Chigago Sun-Times, em 1967. Ebert, com 25 anos, já era um escritor respeitado, autoritário e até arrogante, agia assim justificavelmente para impor seu trabalho acima de sua idade. Aceitou o convite e se dedicou integralmente, largando até a faculdade para concentrar seus esforços no trabalho.

"Eu nasci dentro do filme da minha vida... Não sei como entrei nele, mas ele continua me divertindo".

Esta é a frase que efetivamente abre o documentário sobre sua pessoa, e as reticências usadas talvez seja uma alusão às pedras que cruzam os caminhos durante nossa trajetória de vida. Misturando a difícil e particular realidade com o bom humor, ironias como esta marcam consideravelmente a grande personalidade de um homem que, apesar de sempre ter feito questão de dizer que era vencedor de um prêmio Pulitzer, nunca deixou de ser humano e acessível. E também são ironias como essa na qual todo o trabalho de Ebert se justifica, cujas críticas iam além das minúcias técnicas para baseá-las na própria vida como ela é, e nos sentimentos mais profundos que afloravam em cada cena, sequência, trilha sonora ou demais outros fatores que constróem a estrutura de um filme e a conexão emocional dele com as pessoas. Uma linguagem às vezes simples e sensível, sem deixar de ser observadora e verdadeira.

Suas críticas chamavam a atenção por serem simples e certeiras, que transformavam até os filmes mais comuns em obras de arte, e que mesmo quando devastadoras, conseguiam ser generosas. "Condenavam e ajudavam", como afirmou Scorcese sobre o crítico. Ebert tratava filmes como um padrinho, e repreendia diretores tal qual um sobrinho mal educado. Isso em uma época que escreviam críticas aqueles jornalistas que tinham assistido algum filme naquela semana, tudo feito com distância e sem comprometimento para aquilo apenas para preencher a coluna no jornal, tanto que os textos eram assinados por pseudônimos generalistas, como Mae Tinee, do jornal Tribune, pois sua pronúncia lembrava "matiné", e não porque era alguém de fato.

Esse comprometimento de Ebert foi o que chamou a atenção dos leitores. E o que fez dele um grande crítico foi o fato da facilidade que ele tinha em escrever muito bem e gostar do que fazia. Escrever e assistir filmes podia ser uma profissão, mas acima de tudo era um prazer pessoal ao ponto do insubstituível. Escrever o transportava para um mundo particular que lhe dava prazer pela vida e o ajudava a superar dificuldades. E assim foi até dois dias antes de sua morte, no último post que publicou antes de findar seu ciclo no dia 04 de Abril de 2013, por falência múltipla de órgãos, aos 70 anos.

Barbara Heliodora afirmou em uma entrevista para Ana Paula Conde que, para ser um bom crítico, em primeiro lugar, tem que adorar aquilo que irá criticar. Ela disse que o percentual de espetáculos ruins que via a cada ano era tão alto que, se ela não adorasse aquilo, já teria largado a profissão há muito tempo porque, às vezes, era um sacrifício ficar sentada na cadeira.

Barbara era uma crítica de teatro, mas a observação feita é universal, assim como é universal quando a mesma também disse que não é verdade que crítico gosta de falar mal porque não existe motivo para gostar de assistir coisas ruins. O problema está no desleixo e na falta de comprometimento, o "tanto faz" ou a idéia arrogante que alguns diretores tem de que são experientes o suficiente para sairem ilesos de defeitos. Se para ela isso não cabia no teatro, acredite, isso também não cabe no cinema.

E era exatamente desta forma como Robert Ebert se comportava em suas críticas. Acima de tudo, Ebert sabia distinguir os propósitos. Ele não fazia comparações discrepantes entre filmes e estilos, sabia que existia uma relatividade nisso. Cada um deles era direcionado para um público distinto, com propósitos distintos, e suas observações respeitavam isso.

Sem dúvida ele mudou a forma de se criticar o cinema e citações adjetivadas que hoje vemos frequentemente em cartazes, logo acima dos títulos, como "DELICIOSAMENTE INTELIGENTE", "PROFUNDAMENTE EMOCIONANTE" ou "BRUTALMENTE INCOMUM", são derivações que se tornaram corriqueiras depois dele, pois passaram a expressar poeticamente sentimentos comuns e mistos que os filmes sempre proporcionaram, mas pouca gente soube expor. Foi ele também quem popularizou, juntamente com seu colega Gene Siskel, o hoje tão conhecido "thumbs up", a marca registrada da dupla ao classificar um filme. Se era bom, polegares para cima, se era ruim, polegares para baixo.

A subida de Robert do posto de um crítico respeitável para uma celebridade com uma estrela própria na Calçada da Fama aconteceu quando resolveram juntá-lo com seu rival (e quase arqui-inimigo), Gene Siskel, também crítico do jornal Tribune, para apresentarem um programa semanal sobre cinema na emissora local, o que não demorou muito para ter excelente repercursão.

A união dos dois foi proposital e provocativa, com intenções apelativas já que a rivalidade de ambos era conhecida publicamente. Porém, o que ninguém esperava é que, com o tempo, eles descobriram que tinham muito mais em comum do que imaginavam, e embora a rivalidade sempre existisse, ela passou a ser muito mais uma rotina do amor fraternal e incondicional que nasceu, cresceu e se desenvolveu do que uma mera incompatibilidade geniosa de fato. Foi essa conflituosa relação de amor e ódio que fez tudo dar certo, até mesmo em momentos errados. A irredutibilidade de Siskel e a arrogância de Ebert tiveram um perfeito encontro que durou 24 anos, até a morte do colega e amigo em 1999.

"Para mim, o cinema é como uma máquina que gera empatia. O faz compreender um pouco mais sobre diferentes esperanças, aspirações, sonhos e medos. Ajuda você a se identificar com as pessoas que partilham dessa mesma jornada". É assim como se resume a sensibilidade crítica e artística que transcendiam sua personalidade humana e democrática.

É bem isso que vemos no terço final do documentário, quando o diretor infiltra mais ainda, e com sutileza, na vida pessoal e nas dificuldades que o crítico passou nos últimos anos em consequência a um câncer de tireóide que resultou em diversas cirurgias radicais debilitantes. E apesar de tudo, a positividade e esperança presentes em sua personalidade chegam a ser emocionalmente sinceras e relevantes, capazes de transformar corriqueiras insatisfações do dia a dia em episódios insignificantes que insistimos em deixar que nos atinja gratuitamente e tome um precioso tempo de nossas vidas.

Sem dúvida o material reunido por Steve James é honorável. Intimista sem ser invasivo sobre a vida de um homem que conseguiu mostrar que não é preciso sofisticação e requinte para atrair até mesmo aqueles que pouco se interessam pelo assunto, mas que a linguagem universal do cinema se resume na sensibilidade, no prazer pela vida e na sinceridade e respeito naquilo que se faz e pelas pessoas com quem se convive.

Claro que teria sido interessante se o documentário também tivesse focado um pouco mais nos trabalhos de Ebert, nas repercussões e consequências deles para o cinema atual, já que tanto ele, quanto Siskel, passaram a ser temidos pelos produtores e diretores de Hollywood. Mas talvez isso seja material para outro trabalho. E por que tanto o documentário quanto o livro de Ebert se chama Life Itself, como questiona o próprio diretor ao crítico?

A vida por si só já é a resposta.

CONCLUSÃO...
O cinema e a vida se conectam, e por mais que filmes sejam um reflexo da realidade, isso não significa que eles devam ser brutais. A única coisa que deve espelhar a realidade é a nossa face, em relação ao nosso coração. E essas são palavras baseadas naquelas ditas pelo próprio Robert Ebert.
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