Translate

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

L'AMOUR TOUJOURS L'AMOUR

★★★★★★★★★☆
Título: Amor (Amour)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Michael Haneke
Elenco: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert
País: Áustria, França, Alemanha
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Anne e Georges é um casal idoso feliz, que vivem do amor, companheirismo e cumplicidade, mas que agora terão de lidar com dificuldades que colocarão esta relação de longa data a prova.
O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e escrito por Michael Haneke. Embora seja um diretor alemão bastante ativo, é ultimamente mais lembrado por seu penúltimo filme, A Fita Branca (The White Ribbon, 2009), filme pelo qual concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, além de ter vencido diversos outros importantes prêmios por todo o mundo.
Até agora o filme não apenas tem sido bem recepcionado pela crítica como também pelo público, e foi um dos destaques no festival de Cannes, ganhando a Palma de Ouro.
Conta a história de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), um casal francês de idosos que foram importantes professores de música nos anos 80. Eles vivem uma vida comum e feliz, baseada no amor construído pelas afinidades e no companheirismo de longa data. Porém, numa manhã, Anne sofre um acidente vascular cerebral devido ao entupimento de uma artéria. Por conta disso ela perde os movimentos do lado direito do corpo e ambos vêem suas vidas e decisões mudarem radicalmente. Tentando ultrapassar e romper os obstáculos das novas dificuldades, Georges está disposto a ir até suas últimas consequências dos limites físicos e psicológicos para manter Anne não apenas o mais próximo possível, mas viva, assim como a necessidade e o amor de um pelo outro.
Amor é um filme que, dentro de sua simplicidade, é ao mesmo tempo belo e triste, como o próprio título que carrega. Ele já começa num clima de leve angústia, e dessa forma ele se mantém até o fim reproduzindo as tristes naturezas da vida. O plural é adequado, já que ele é um conto sobre o envelhecer e a morte na forma mais verdadeira possível, cheio de simbolismos discretos e verdadeiros sobre a natural necessidade do ser humano pelo amor e companheirismo e da dependência que desenvolvemos uns aos outros até a triste hora da morte.
De alguma forma o filme me lembra de Baleias de Agosto (The Whales Of August, 1989), com Bette Davis e Lillian Gish, que trata do envelhecer e da vida metódica de duas irmãs que chegaram ao fim de sua tragetória, e nada mais resta para elas do que aguardar o triste momento da partida no companheirismo uma da outra, por maiores que fossem as diferenças entre ambas.
Haneke desenvolve o filme de maneira bastante lenta e pausada, preso dentro de um espaço e tempo, conseguindo transpor efetivamente a realidade de personagens dentro de suas limitações da idade, da força de vontade de viver e manter os laços da cumplicidade. Eles tentam correr contra (ou a favor) de um relógio biológico que não espera, e que inevitavelmente irá parar em um inesperado momento.
Numa ironia da vida, os próprios atores são aquilo que vivem e suas atuações extrapolam o limite entre a pessoa e o personagem. Emmanuelle Riva tem sido ovacionada pela crítica por sua interpretação, tanto que sua vaga para as finalistas ao Oscar é praticamente garantida, e não por menos. Sua atuação ultrapassa o convincente, sendo um retrato fidedigno de pessoas que vivem situações semelhantes numa doença cujas sequelas são extremamente limitantes, tanto para quem sofre, como para quem cuida. Sem dúvida sua atuação viceral é emocionante e sensível em todos os momentos e aspectos, dando um nó na garganta de como o ser humano, sim, é frágil e vulnerável. O mesmo a ser dito sobre Jean-Louis Trintignant, que volta a atuar depois de um hiato de sete anos. Seu personagem é exatamente o que Anne diz em um determinado momento do filme, às vezes um monstro, porém gentil, e ele vaga nessa personalidade contraditória magistralmente. As dificuldades físicas do ator não é uma atuação, mas ele as utiliza como um complemento e uma extensão dos sofrimentos que seu personagem passa, o que torna a experiência muito mais triste e sincera (atenção para a cena entre Georges e o pombo, que demorou dois dias e foi filmada 12 vezes).
O filme é construído de forma até bastante teatral, em um cenário que nunca sai dos limites do apartamento onde os protagonistas vivem, mostrando o dia a dia e a lenta degradação pela qual a situação de ambos os leva, dando pouco enfoque a momentos nostálgicos, já que eles causariam mais sofrimento além do sofrimento pelo qual já estão vivendo. Isso também alivia o espectador de cargas dramáticas desnecessárias e do melodrama cliché, sendo delicado nas abordagens e verdadeiro sem ser apelativo.
Enfim, um retrato triste, porém real, de um destino inevitável que todos nós estamos fadados, em menor ou maior grau.
CONCLUSÃO...
Um dos poucos filmes que mostram de forma bastante explícita e fidedigna a vida como de fato é no fim de sua tragetória, além da necessidade que temos do companheirismo e da dificuldade de aceitar o fim inesperado e inevitável. Por um momento o filme tenta surpreender em uma situação um tanto desnecessária ao chegar no seu ápice, podendo quebrar um pouco toda a delicadeza construída, transformando uma situação comum em um ato desesperado, mas mesmo assim ainda mantendo seu lado simbólico relevante. Lento e sem pressa, para que toda a situação seja sentida e absorvida, para que a vida tenha tempo de ser revista e repensada.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A CORRIDA MALUCA DO OSCAR 2013...

Quando a temporada de verão dos Estados Unidos acaba, começa a de premiações. Os filmes que entrarão nesse seleto grupo são sempre bastante previsíveis porque premiações comerciais são assim. Todo ano filmes são escolhidos como favoritos sem uma razão muito específica. Geralmente são selecionados mais por qualidades que mantenham os padrões de exportação da ilusão hollywoodiana. Por isso que raramente entram na lista comédias mais sarcásticas, filmes independentes, chocantes ou politicamente incorretos, justamente para dar lugar àquilo que eles julgam como os mais perfeitos exemplos do que de melhor deve ser mostrado sobre a cultura norte-americana.
 
Esse ano houve algumas mudanças nas regras da Academia, uma delas é a data de divulgação dos indicados que foi novamente alterada (ela já havia sido em 2004), antecipando o anúncio para o começo de Janeiro. Isso acaba aumentando um pouco mais as expectativas de uma festa que não surpreende mais, já que os indicados serão apresentados antes da entrega (ou na mesma data) de outros prêmios também importantes como Critics Choice, Independent Spirit, BAFTAs, SAGs e Globo de Ouro.
 
Com a temporada de premiações 2013 oficialmente aberta, já é possível prever o que vai entrar ou não na corrida do Oscar por conta da previsibilidade não apenas da crítica, mas também pelas listas de outros prêmios, já que alguns dos filmes ainda estão inéditos para o público no Brasil. Como sempre, nada vai fugir da zona de conforto, sendo mais um ano fraco, chato e familiar.
 
MELHOR FILME
Numa época em que Estados Unidos passa por um período de descrença, esse ano a tendência é para os filmes com temáticas cheias de sonhos e esperança porque é isso que eles fazem em períodos como esse. Portanto, a chance é maior para filmes como: Indomável Sonhadora (Beasts Of The Southern Wild, 2012), A Vida de Pi (Life Of Pi, 2012), Moonrise Kingdom (2012) e Os Miseráveis (Les Miserables, 2012), além da tentativa de resgatar heróis do passado na falta de exemplos atuais, como Lincoln (2012).
 
Entram também alguns "cults" na intenção apenas de aumentar as perspectivas. O mais forte talvez seja a busca implacável por Bin Laden em A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), já que a Academia também adora consagrar aquilo que enalteça a cultura local. A lista segue com The Master (2012) e Django Livre (Django, 2012), que poderão ser substituídos por algum outro título como a comédia romântica O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) ou da persistência em promover o sucesso inesperado de Argo (2012).
 
Mesmo que a campanha seja grande para esses blockbusters, O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), Os Vingadores (The Avengers, 2012) e o atual e elogiadíssimo 007: Operação Skyfall (Skyfall, 2012) poderão ficar de fora já que desde o absurdo de Titanic (1997) a Academia tem dado preferência aos mais consagrados pela crítica ao invés dos mais consagrados pelo público, como uma forma de "compensar" os títulos e promover os menos populares, já que é sabido que o interesse do público por títulos pouco conhecidos aumenta depois que entram na lista do Oscar.

MELHOR DIRETOR
Aposto que o trofeuzinho será disputado pelo trio principal:
 
1) Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura/Zero Dark Thirty), que volta ao tema de guerra e terrorismo que a colocou na história da Academia por ter sido a primeira mulher a receber o prêmio de Melhor Diretor em 2008 por Guerra Ao Terror (The Hurt Locker).

2) Ang Lee (A Vida de Pi/Life Of Pi), que depois de O Tigre e o Dragão (Crouching Tigger, Hidden Dragon, 2000) amargou com altos e baixos, mas é daqueles diretores que a Academia adora e sempre que possível vai colocar ele lá porque é o exemplo mais forte que liga a cultura ocidental e oriental da forma mais acessível possível, e o cara realmente merece.
 
3) Steven Spielberg (Lincoln) é a Meryl Streep dos diretores. Grande produções biográficas tem sempre sua vez, ainda mais quando é sobre um dos heróis patriotas mais influentes da cultura norte-americana dirigido por um grande nome. Pronto, fórmula da predileção feita.
 
Pode ser que uma surpresa aconteça com Ben Affleck (Argo), já que também adoram consagrar bons mocinhos que saibam fazer corretamente a lição de casa, como ele vem fazendo. Até porque faz tempo que Hollywood procura transformar algum jovem diretor em um grande ícone à sua imagem e semelhança.
 
Fora isso a lista pode ser completada por Tom Hooper (Os Miseráveis/Les Miserables), David Russel (O Lado Bom Da Vida/Silver Linings Playbook) ou Quentin Tarantino (Django Livre/Django), se ele tiver muita sorte.
 
Há possibilidades também para Wes Anderson (Moonrise Kingdom), que há muito já deveria ser figura carimbada na lista, ou Paul Thomas Anderson (The Master).
 
Não vai ter espaço para Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas Ressurge/Dark Knight Rises), nem Sam Mendes (007: Operação Skyfall/Skyfall)  e muito menos para o sempre-independente Todd Solondz (Dark Horse), ou o meu preferido do ano, William Friedkin (Matador de Aluguel/Killer Joe), já que ele não se encaixa nos padrões de Hollywood.

MELHOR ATOR
Também com um triozinho matador liderado por Bradley Cooper, que agora oficialmente consagra sua ascenção como astro de Hollywood. O cara saiu de um seriado de televisão de sucesso (Alias, 2001-2006) para astro em Se Beber Não Case (The Hangover, 2009) e se arriscar como produtor no sucesso Sem Limites (Limitless, 2011) e O Lado Bom da Vida, filme pelo qual ele com certeza será indicado este ano. Só por ele já sair dessa zona de conforto, já é admirável.
 
Daniel Day-Lewis (Lincoln) e Joaquin Phoenix (The Master) vira e mexe aparecem na lista, mas nunca ganham. O primeiro por talvez já ter vencido duas vezes, e o segundo por talvez ser problemático, o que não preenche muito os requisitos dos bons moços. Mas por interpretar uma figura bastante popular e eles adorarem caracterizações e atuações sob boas maquiagens, Day-Lewis pode levar sua terceira estatátua pra casa assim.
 
Ainda podem entrar na lista, mas sem grandes chances de ganhar: John Hawkes (The Sessions), Hugh Jackman (Os Miseráveis/Les Miserables), Denzel Washington (Flight) e Matthew McConaughey (Matador de Aluguel/Killer Joe), o que seria muito merecido numa fase que está sendo, sem dúvidas, a melhor do ator.

Jean-Louis Trintignant não poderia ficar de fora por sua belíssima atuação em Amor (Amour), e tão grandiosa quanto de sua companheira de cena, Emmanuelle Riva, mas talvez fique. Torcemos que não.
 
Antes do filme ser lançado muita gente já cogitava Anthony Hopkins em Hitchcock, mas além da campanha do filme estar bastante fraca, Anthony costuma ter seus repentes de homem inglês e esnobar a Academia. Logo... é improvável.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Confesso que sei pouco sobre eles, mas entre os mais cotados estão Alan Arkin (Argo), Philip Seymour Hoffman (The Master), Javier Bardem (007: Operação Skyfall), Tommy Lee Jones (Lincoln) e Robert De Niro (O Lado Bom da Vida).
 
Talvez há chances novamente para Chistopher Waltz na sua segunda parceria com Tarantino em Django Livre (lembrando que ele venceu em 2010 na mesma categoria por Bastardos Inglórios, primeira parceria dos dois),  Matthew McConaughey por Magic Mike e Bruce Willis (Moonrise Kingdom). Eu facilmente encaixaria Guy Pierce e seu personagem perverso em Os Infiltrados (Lawless, 2012), mas ele ficará de fora absolutamente, já que darão preferência a Javier Barden, e ambos personagens possuem características similares.

MELHOR ATRIZ
Não, esse ano não teremos Meryl Streep, muito embora ela concorra ao Globo de Ouro por Um Divã Para Dois (Hope Springs), mas estou certo de que esse ano ela não entre na lista, pois a disputa já está acirrada sem ela.
 
Esse ano foi o ano das revelações do ano passado, Jessica Chastain (A Hora Mais Escura) e Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida), por conta disso elas poderão disputar a tapas o prêmio já que a Academia adora favorecer atrizes jovens, bonitas, boas e que finalmente se destacam por algum papel inusitado, como a dar "boas vindas" ao sucesso e ao reconhecimento.
 
A garotinha Quvenzhané Wallis, de apenas 9 anos, tem grandes chances de entrar na lista por sua estréia em Indomável Sonhadora. Não é do feitio da Academia nomear e muito menos premiar crianças, mas pode ser que esse ano seja uma surpresa, já que definitivamente o papel desempenhado pela atriz mirim é equivalente ao de uma atriz adulta e experiente.
 
Dependendo do bom humor do juri, pode ter espaço para as francesas Marion Cotillard (Ferrugem e Osso) e Emanuele Riva (Amor). Helen Mirren pode e não pode entrar, já que a campanha do filme Hitchcock tem sido bem fraca.

Helen Hunt poderia entrar na lista por The Sessions, mas o juri provavelmente irá jogá-la para a categoria de Atriz Coadjuvante porque é isso que eles fazem quando querem dar algum prêmio de consolação.

Ainda há a possibilidade para Naomi Wats (O Impossível/Lo Imposible) e menos para Maggie Smith (O Quarteto/The Quartet) e Rachel Weisz (The Deep Blue Sea).

Gostei muito do desempenho de Zoe Kazan em A Namorada Perfeita (Ruby Sparks), mas foi um filme que chegou, passou e se foi sem ninguém perceber. Mas talvez a atriz consiga alguma indicação na categoria de Melhor Roteiro Original, já que o roteiro também é dela e o juri adora temáticas que misturam fantasia e realidade.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (The Master), Anne Hathaway (Os Miseráveis) e Helen Hunt (The Sessions) serão figuras um tanto obrigatórias.
 
Talvez Ann Dowd (Compliance) ou Maggie Smith (O Exótico Hotel Marigold/The Best Exotic Marigold Hotel) também entrem, e pouco provável que Nicole Kidman (The Paperboy) ou Lorraine Toussaint (Middle Of Nowhere) completem a lista.
 
Agora, se levarem em conta o histórico da atriz Sally Field, já que ela venceu duas vezes como Melhor Atriz nas únicas duas vezes que foi indicada, talvez ela leve uma terceira estatueta por Lincoln, o que acho bastante justo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ANIMAIS DO SELVAGEM EXTREMO SUL...

★★★★★★★★★☆
Título: Indomável Sonhadora (Beasts Of The Southern Wild)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Benh Zeitlin
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Gina Montana
País: Estados Unidos
Duração: 93 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Hushpuppy é uma garotinha de seis anos de idade que vive numa região pantaneira no sul de Louisiana chamada Bathtub, seu pai está bastante doente, ao mesmo tempo que a aldeia sofre com as ameaças de enchentes e a relocação dos habitantes para um abrigo.

O QUE TENHO A DIZER...
É filme de estréia de Benh Zeitlin, o qual também assina o roteiro juntamente com sua amiga pessoal, Lucy Alibar, autora da peça "Juicy And Delicious", obra na qual o filme foi baseado. É também o primeiro longa metragem da produtora Court 13, também do diretor, que tem como filosofia realizar grandes histórias sobre pequenos grupos, revivendo seus extremos ao invés de apenas contá-las, produzindo filmes de baixo orçamento dotados de grande sentimento e desafios, mas acima de tudo, feitos para o grande público.

Sem dúvida é um dos filmes mais poéticos, belos e sensíveis de 2012, além de ser uma grande surpresa, já que, nos Estados Unidos, dificilmente são produzidos filmes com essa estrutura narrativa diferente e qualidades à parte. Ou seja, não chega a ser ousado o bastante para ter aquele apelo alternativo, ou precário o suficiente das produções independentes (embora ele seja um), mas também não fica muito distante do emocionalismo Hollywoodiano, estacionando em um meio termo que sabe se apropriar de todas essas qualidades nos momentos exatos.

Indomável Sonhadora é um drama sulista e que mostra a realidade de uma cultura e de uma sociedade aberta e receptiva, porém bastante tradicionalista. Conta a história de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma criança de seis anos abandonada pela mãe e que vive com seu pai Wink (Dwight Henry) em uma pequena comunidade pantaneira no sul da Louisiana, esquecida e isolada do resto do mundo por conta das barragens ao redor do território. A aldeia é chamada de Bathtub (banheira), por conta das constantes ameaças de enchentes por chuvas ou, no futuro, pelo derretimento das calotas polares, como diz sua professora em uma das aulas. Mas uma tempestade se aproxima e a aldeia é inundada pela água do mar. Pessoas morreram e o sal está acabando com a mata, as árvores e os animais de fome. Wink decide fazer algo a respeito disso, e com o auxílio de amigos ele destrói uma parte da barragem com dinamites para que a água escoe da aldeia. Após esse incidente, os moradores são despejados do território e enviados a um abrigo. Enquanto isso a relação entre Hushpuppy e seu pai está em crise, já que ele está gravemente doente e esconde isso dela, que descobre por conta do seu próprio senso de observação, mas acredita na sua ingenuidade que essa doença seja por conta de um coração que ficou machucado quando sua mãe os abandonou, mulher que ele referia ser tão bela que quando passava conseguia colocar água em ebulição.

O filme começa com uma observação sensível da relação da personagem com os animais, e de como ela gosta de observá-los para saber o que pensam e como agem. Ela diz que o coração de todos batem igual, porém a linguagem desses órgãos é diferente, e que a única coisa em comum a todos é a fome e as demais necessidades básicas. Portanto, descobrindo isso ela acaba por descobrir a natureza de todo animal, além de sua própria realidade.

A história é narrada pelo ponto de vista da personagem principal, que intervém frequentemente na história com suas constantes observações do mundo que a rodeia, das lições aprendidas, ensinamentos adquiridos, anseios, frustrações e desejos. Claro que imagina-se como é possível uma garota de seis anos ser tão poética e coerente enquanto narradora, mas ingenuamente infantil e sensível enquanto personagem. Mas a narrativa funciona como uma tradução de tudo que é visto e absorvido por ela. Benh Zeitlin teve um cuidado bastante delicado ao utilizar duas linguagens de filmagem, fazendo com que todas as imagens mostradas representassem a visão subjetiva da personagem, ao mesmo tempo que ele soube direcionar diversas sequencias, bem como as atuações, de forma tão natural e local que o filme também soa como um documentário, facilitando a compreensão de como todas essas informações são processadas na cabeça da personagem e dentro de sua realidade infantil e fantástica.

Embora a aldeia no filme seja fictícia elas são referências a aldeias que realmente existem em um território chamado Terrebonne Parish e Montegut, também no sul de Luisiana, lugares onde as filmagens foram realizadas. E a tempestade é uma referência ao furação Katrina que atingiu os EUA em 2005 e matou mais de 1.800 pessoas. Portanto, embora o filme seja um drama fantasioso, ele é baseado em situações reais de uma pequena população que luta para manter suas tradições e raízes, e que por mais miserável que a vida possa ser, eles possuem liberdade e riquezas dentro de uma natureza selvagem que faz parte de suas vidas e culturas que não seriam encontradas em qualquer outro lugar, sendo como tirar um peixe da água.

Por isso que nesse selvagem extremo sul as pessoas devem agir de forma igualmente selvagem, pois só assim para sobreviverem a condições tão difíceis e ao mesmo tempo encontrar prazer e a imensa razão de manter a vida nessas condições. Isso é observado na forma pedagógica pouco convencional na qual o pai de Hushpuppy a condiciona, tanto que cada um vive em uma casa, para que ela aprenda a viver de forma independente o mais cedo possível. A brutalidade rústica com que ele ensina e mostra a realidade são para prepará-la para ter forças e condições suficientes para sobreviver, bem como conquistar os prazeres de tudo isso e se conectar diretamente com sua natureza.

Hushpuppy, em paralelo com os acontecimentos ao seu redor, vive em sua fantasia um crescente confronto com os Auroques, animais selvagens ancestrais do gado doméstico, difíceis de serem domados e que são apresentados pela professora como animais tão ferozes que conseguiam se alimentar de bebês e matar os homens das cavernas por eles serem pequenos e fracos. No momento em que a relação entre ela e seu pai começa a ficar conflituosa, em sua cabeça tudo está ruindo como as calotas polares, liberando os Auroques, numa metáfora ao amadurecimento precoce e a conquista de força e coragem pela qual terá que passar. Ela também descobre no decorrer de seu amadurecimento que os animais selvagens conseguem sentir o cheiro de corações fracos, dos quais eles se alimentam. Mas sua personagem se torna tão forte e grandiosa no decorrer do filme que uma das sequências finais, quando em sua imaginação ela fica frente a frente com um Auroque, toda essa condição poética que se desenvolve durante o filme se concluí numa cena belíssima e emocionante, intensificados por uma trilha sonora simples, inocente e motivadora, tal qual a personagem.

A atriz mirim estreante, Quvenzhané Wallis, que por sinal é uma moradora local de Montegut (bem como a maioria do elenco), é o destaque de todo o filme, não apenas pelo fato de ser a atriz principal, mas pela seriedade com que ela desempenha o papel com apenas cinco anos de idade, numa sensibilidade incomum e tão realista que é impossível não se sensibilizar.

Muito bem recebido pela crítica e pelo público, ele foi um dos grandes destaques em premiações como Cannes e Sundance. Tem se tornado um dos favoritos para a temporada de premiações 2013, que começou com as indicações ao Independent Spirit Awards, no qual o filme está concorrendo nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Fotografia e, obviamente, Melhor Atriz. Há uma grande campanha para que ele seja lembrado em premiações mais comerciais como Globo de Ouro e Oscar, e talvez seja bem sucedido, já que que o filme teve um orçamento de apenas US$1.8 milhões (fundos dos quais, segundo o diretor, foram de grande dificuldade conseguir) e uma estréia bastante limitada em Julho (apenas 4 cinemas), mas já arrecadou até o momento mais de US$11 milhões, além de estar emocionando muita gente.

CONCLUSÃO...
Muito poético e sensível, um dos grandes filmes independentes do ano. Emocionante e motivador através de uma cultura sulista norte-americana que não é vista com frequência. Atuações fantásticas, com destaque para a atriz mirim estreiante, além de roteiro e direção que souberam manter um realismo em um equilíbrio entre o ponto de vista observador e o ativo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A FÓRMULA BOURNE...

★★★★★★★
Título: O Legado Bourne (The Bourne Legacy)
Ano: 2012
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Tony Gilroy
Elenco: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton, Donna Murphy, Stacy Keach
País: Estados Unidos
Duração: 135 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jason Bourne ainda vive, mas enquanto isso o agente Aaron Cross descobre que é mais uma peça de uma trama conspiratória e ele também está na mira da queima de arquivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Baseado nos livros do escritor norte-americando Robert Ludlun, a Trilogia Bourne foi um grande sucesso tanto de crítica quando de público. Após a morte de Ludlun, em 2001, o escritor Eric Van Lustbader conseguiu permissão para dar continuidade à vida do personagem, publicando mais sete livros entre 2004 e 2012.

O primeiro filme da série, A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002) foi dirigido por Doug Liman e roteiro de Tony Gilroy. O filme estrelava Matt Damon no papel do agente secreto em busca da sua identidade e Franka Potente como sua companheira Mary. Foi uma das maiores surpresas daquele ano, arrecadando mais de US$210 milhões no mundo, o que foi o suficiente para o estúdio dar sinal verde para a segunda parte.

A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004) deu continuidade na tragetória do ex-agente. Doug Liman saiu da direção para a produção executiva, dando lugar para o competente Paul Greengrass, o qual foi responsável por intensificar a linguagem dinâmica do filme, dando uma identidade mais forte e expressiva que no filme anterior. Tony Gilroy assinou novamente o roteiro, e o filme arrecadou mais de US$280 milhões no mundo.

A terceira e última parte, O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007) fechou a trilogia com chave de ouro. Paul Greengrass continuou na direção, Doug Liman se manteve como produtor executivo e Tony Gilroy foi auxiliado por Scott Z. Burns e George Nolfi no roteiro. A última parte é considerada por muitos como o melhor filme da série. Embora os dois primeiros tenham feito muito sucesso nos cinemas, eles posteriormente viraram febre nas video locadoras, o que levou a última parte a arrecadar mais de US$440 milhões no mundo.

Negar que a Trilogia Bourne é excepcional chega a ser leviano. Foi uma das raras ocasiões no cinema comercial Hollywoodiano em que a qualidade da produção é inquestionável, bem como uma série coesa, sólida e coerente que, ao contrário de muitas outras franquias, não foi apenas ação pela ação.

Os personagens e a trama se desenvolveram em fatos e sequências que superavam seus próprios limites numa sucessão crescente e em um dinamismo de tirar o fôlego graças a edição em total sintonia com o estilo de filme que se propunha. Sem dúvida alguma o trio Greengrass, Liman e Gilroy conseguiram fazer da trilogia um dos melhores filmes de ação do cinema atual. Dizer isso não é exagero, já que houve uma mudança radical na forma como os filmes de ação posteriores a eles passaram a ser produzidos. Ou seja, a trilogia se tornou uma referência sólida numa época em que o cinema comercial perece de qualidade e boas idéias.

Na tentativa de retomar a série graças a onda de reboots que dominaram a indústria nos últimos anos, Tony Gilroy resolveu continuar o legado. O questionamento a princípio foi: como dar continuidade a uma trilogia que superou seus próprios limites?

A idéia parecia tão absurda que, ao ser questionado sobre isso, o diretor Paul Greengrass até brincou dizendo que o título do quarto filme deveria ser "A REDUNDÂNCIA BOURNE".

A princípio Gilroy queria manter Matt Damon, já que o autor Eric Van Lustbader deu continuidade à saga do personagem após a morte de Ludlun, rendendo até agora mais 7 livros. Damon achou melhor não voltar para a franquia, e por sua atuação ter sido bastante elogiada e a resistência dos fãs a sua substituição, o roteirista resolveu expandir o universo Bourne e, embora o titulo se refira ao primeiro livro de Eric Van Lustbader, o filme nada tem a ver com ele. Ao contrário disso, ele conta uma história paralela aos eventos do último filme.

O personagem principal agora é Aaron Cross, um agente da Operação Outcome, programa secreto científico de defesa que está fazendo testes bioquímicos em seus agentes para aumentar suas capacidades físicas e mentais. Porém, durante seu treinamento no Alaska, vem a tona os escândalos envolvendo os programas Blackbriar e Treadstone, revelados por Jason Bourne na última parte da Trilogia. Juntamente a isso, um vídeo comprometedor envolvendo uma relação próxima entre os chefes de pesquisa do programa Treadstone e Outcome vaza na internet. Com medo das pesquisas do programa Outcome serem descobertas durante as investigações sobre a Tredstone, o coronel da CIA Eric Byer (Edward Norton) decide apagar todas as evidências, começando pela eliminação de todos os agentes em treinamento. Aaron sobrevive a várias tentativas de assassinato, e no interesse de sobreviver, ele descobre que entrou de gaiato nos fatos conspiratórios envolvendo Jason Bourne.

A nova trama apresentada no roteiro de Gilroy (que agora também assina a direção) foi uma guinada interessante, já que os três primeiros filmes naturalmente deram gancho para que isso pudesse acontecer, já que Jason Bourne não era o único agente que participou de um programa secreto, bem como a Treadstone também não era o único programa existente. Bourne não aparece em nenhum momento, mas o personagem é citado diversas vezes.

A história se amarra bem com os filmes anteriores. Ao mesmo tempo que é uma continuação, consegue realmente ser um filme novo, mas não diferente. Jeremy Renner é competente ao dar essa continuidade ao legado de Bourne, mas a posição do seu personagem na história não tem uma conexão muito bem fundamentada entre sua situação e os acontecimentos revelados por Jason, o que faz sua fuga constante parecer meio superficial. Como o roteiro apresenta uma nova história, o desenvolvimento é mais lento tal qual o primeiro filme, dando mais atenção aos fatos do que em sequencias de ação bem arquitetadas, pra dar profundidade nos fatos e justificar as razões de tudo.

Claro que algumas cenas típicas de Jason Bourne são repetidas aqui, como as perseguições e o jeitão truculento de fugir pulando muro, arrebentando portas e pulando de janelas, exigindo ao máximo dos atores num dinamismo constante e bem editado feito por Greengrass no segundo e terceiro filme, mas não de maneira igualmente mirabolante. O interessante é que Aaron também tem uma forma diferente de lutar. Enquanto Jason tem um semblante mais fechado e era mais adestrado na hora de improvisar armas de luta (como usar livros, revistas e o que tivesse por perto, numa técnica de luta que realmente existe, o que deixava algumas cenas até mais empolgantes e engraçadas), Aaron é de um semblante mais sereno, mas que bate no oponente pra cair, sem muitos rodeios.

Jeremy Renner pode não ser um galã como Matt Damon, mas é um bom ator, e mais, competente quando se trata de um personagem que utiliza todas suas capacidades físicas tanto quanto Damon fez.

Quem já assistiu seus outros filmes de ação, como sua pequena porém relevante participação em Os Vingadores (The Avengers, 2012), ou até mesmo em Missão Impossível: Protocolo Fantasma (Mission: Impossible - Ghost Protocol, 2011), sabe que ele está muito bem preparado pra encabeçar a franquia. Sem contar que já está prometido que sua participação em Os Vingadores 2 será maior, além de Tom Cruise estar bastante motivado em passar a franquia de Missão Impossível para o ator, que também terá uma participação muito maior no quinto filme da série, ainda em planejamento.

Rachel Weisz também é igualmente boa e todo mundo já sabe disso, mas assim como no primeiro filme, temos uma personagem feminina apenas para o personagem ter com quem dividir suas cenas e criar inevitáveis clichés heroicos e sentimentais porque no fim das contas ela não é lá tão importante na história, entrando meio de sopetão e ajudando em coisas que o personagem tinha condições de encontrar outras maneiras pra se dar bem.

Sem dúvida Gilroy retoma uma fórmula que funciona e consegue fazer do filme um novo início mais discreto e menos esbanjador que os anteriores, mas que tem condições de evoluir pra algo bem interessante e tão grandioso quanto porque as possibilidades que foram abertas agora são infinitas, basta saber aproveitá-las.

Há uma grande expectativa de que as histórias de Aaron e Jason se cruzem no futuro ao ponto de os dois personagens trabalharem juntos, mas isso é incerto. Tão incerto quanto saber se a franquia realmente continuará nas mãos de Tony Gilroy.

CONCLUSÃO...
É uma expansão bem introduzida do universo Bourne, um filme menor e mais discreto que os anteriores, a princípio mais focado na história e no desenvolvimento, como que dar tempo pro expectador conhecer o novo herói e se acostumar com ele, o que funciona, mas deixar a desejar para os que assistirem esperando a metralhadora de cenas de ação que foram os dois últimos filmes dirigidos por Paul Greengrass. Para quem chegou até o Ultimato, não custa nada dar uma olhada no Legado. Uma história e personagens que tem possibilidades de crescer, como também poder se interagir com os acontecimentos dos filmes anteriores. Basta saber se a franquia vai realmente continuar.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

SULISMO GÓTICO EM SEU MELHOR EXEMPLO...

★★★★★★★★
Título: Matador de Aluguel (Killer Joe)
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Crime, Ação, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: William Friedkin
Elenco: Emile Hirsch, Juno Temple, Matthew McConaughey, Thomas Haden Church, Gina Gershon
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um jovem endividado que resolve contratar um profissional para matar a mãe odiada por todos da família e finalmente salvar seu pescoço de uma dívida com o seguro de vida na qual a beneficiada será sua irmã.
O QUE TENHO A DIZER...
Filme dirigido por William Friedkin, o mesmo de O Exorcista (The Exorcist, 1973), diretor que não lança filmes com muita regularidade, mas que conseguiu o importante feito de, com o passar dos anos, se desvincular do seu filme de maior sucesso porque senão soaria como se ele tivesse feito apenas um filme relevante em toda a carreira, o que não é verdade. Friedkin sempre foi um grande diretor excêntrico, que adora temas malucos e bem estruturados, e nunca se importou em fazer filmes que fogem do público comum. E particularmente, ultimamente tenho admirado muito seus últimos filmes.
Desta vez ele trabalha novamente com o roteirista Tracy Letts, com o qual ele havia trabalhado no seu filme anterior, Possuídos (Bug, 2006), e ambos são baseados em peças teatrais homônimas do próprio autor.
Conta a história de Joe Cooper (Matthew McConaughey), um detetive que também trabalha como assassino particular. Ele é contratado por Chris Smith (Emile Hirsch), que está devendo uma grande quantia a traficantes por conta de sua mãe maluca que todos odeiam, a qual ele descobre ter uma apólice de seguros no valor de US$50 mil dólares. Ele convence seu pai, Ansel (Thomas Haden Church) a contratar Joe, que recusa a proposta porque só realiza o trabalho com pagamento antecipado, dinheiro que nenhum deles possui. Joe, então, resolve fazer um trato, realizar o serviço desde que Dottie (Juno Temple), irmã de Chris, seja uma garantia que ele possa usufruir até o seguro ser liberado e o pagamento feito. Mas as coisas não dão os resultados que eles esperavam, e muito menos saem da meneira como eles queriam.
Saber que o filme é baseado numa peça teatral é algo relevante porque raramente uma adaptação consegue oferecer um resultado satisfatório, já que os diretores geralmente ou tentam manter a mesma estrutura teatral ou tentam modificar tudo para que se encaixe melhor na película. Mas nesse filme os resultados são muito bons, e embora não pareça muitas vezes, a construção do roteiro e das cenas realmente mantém as estruturas de uma peça teatral com cada personagem tendo seu momento em diálogos bem pausados, cada ator entrando e saindo das cenas em seu tempo correto, e tudo funcionando de forma muito organizada e fluida. Friedkin já havia experimentado isso em Possuídos, o que funcionou de forma bastante impressionante. Se não fosse seu pulso firme e o pleno conhecimento do que fazer e como fazer as coisas, o filme teria sido uma bagunça.
Além de um roteiro matador, as atuações são excepcionais. É empolgante ver Gina Gershon de volta em um filme relevante, num tipo vulgar do qual ela nunca se desvinculou porque sempre conseguiu imprimir uma característica única, e que nesse filme vale até usar uma peruca pubiana. Thomas Haden Church, sempre em um humor sério e recalcado que consegue tirar risada até mesmo em momentos inoportunos. Juno Temple está bem diferente dos papéis anteriores e provando mais uma vez que é capaz de se tornar uma das grandes estrelas atuais. Claro que, querendo ou não, quem rouba a cena é Matthew McConaughey, com toda a sua panca de galã numa sexualidade rústica que não surpreenderia caso ele não desse o tom perverso e sacana a um personagem que apenas cresce, ao ponto de se torna assustador. Tanto é que o ator já recebeu sua primeira indicação como Melhor Ator ao Independent Spirit Awards na temporada 2013 de premiações (ao mesmo tempo também foi indicado na categoria Coadjuvante por Magic Mike).
Aliás, tirar risada em momentos inoportunos não é um privilégio só de Haden Church, mas de muitas partes desse filme que, ao mesmo tempo que é chocante, tem um tempo cômico incomum, pois é de um humor cruel que excede o sarcasmo e a ironia, sendo de uma brutalidade primitiva, absurda e espontânea por demais. E embora muitas comparações acabam sendo feitas,  não há nada a ser comparado com o estilo de Tarantino. Enquanto Tarantino se utiliza do extremo sarcasmo e ironia, para não dizer muitas vezes do cinismo e do constante uso do absurdo, a construção de toda a história de Killer Joe é baseada nas caracterísitcas de um subgênero específico da literatura norte-americana conhecido como Sulismo Gótico, ou Gótico Sulista.

Neste estilo as histórias devem se passar exclusivamente no Sul do País, incluindo sempre personagens estranhos, confusos ou desorientados, em locais abandonados ou decadentes, situações grotescas e qualquer outro evento sinistro relacionado ou vindo da pobreza, alienação, racismo, crime ou violência. Enquanto o estilo Gótico se utiliza de todas essas ferramentas para intensificar o suspense e o medo, o Gótico Sulista se utiliza delas para explorar problemas sociais e revelar o caráter cultural dos sulistas norte-americanos numa realidade distorcida e cômica. Por isso que quanto mais os personagens estão sujos, machucados e desorientados, e quanto mais as situações se tornam violentas, estúpidas e pervertidas, mais o tom dessa comédia absurda se acentua. Um grande exemplo de todo o contexto desse humor gótico é a cena entre Matthew McConaughey e Gina Gershon. Sem dúvida uma das mais estranhas, absurdas e engraçadas cenas que  lembro de ter visto.
Tudo só me faz concluir que a parceria entre William Friedkin e Tracy Letts resultou novamente em um filme fantástico, recheado de referências sólidas, que foge do padrão fantasioso para se tornar obra de um conteúdo psicológico e sociocultural fortíssimos, sendo melhor apreciado depois de estudado e compreendida as referências utilizadas para a construção da história e de personagens fortes, extremamente bem desenvolvidos e caracterizados.
Com um atraso de quase um ano para seu lançamento por conta de divergências entre a censura norte-americana e sua distribuidora, parece que o filme sofreu várias edições até chegar ao seu formato final. A outra parte infeliz de tudo isso é que novamente o diretor e os atores, tanto quanto o roteirista e o filme em si, poderão não ser tão ignorados na temporada 2013 de premiações tal qual aconteceu com Possuídos e a interpretação viceral de Ashley Judd em 2007, mas também não chegarão a receber os merecidos reconhecimentos.
CONCLUSÃO...
A parceria entre Friedkin e Letts repetiu o mesmo resultado surpreendente de Possuídos. Mas ao contrário do filme anterior, Killer Joe pode soar confuso a princípio, mas o roteiro, juntamente com todas as qualidades citadas, chega a ser até extremamente didático no seu clímax, tão didático que seria vergonhoso esclarecer qualquer detalhe. O fato é que Friedkin novamente não fez um filme se importando com o público comum, mas para um público mais sofisticado, que gosta de sair de sua zona de conforto e que vai fundo, onde quer que seja, para compreender toda sua concepção. Violento, sangrento e chocante, não agradará muita gente, mas a quem agradar irá se divertir com esse misto de sensações e absurdez.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A VIDA É UMA SUCESSÃO DE SUCESSÕES...

★★★★★★★★
Título: Bullhead (Rundskop)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Michael Roskan
Elenco: Matthias Schoenaerts, Jeroen Perceval, Jeanne Dandoy, Barbara Sarafian, Robin Valvekens
País: Bélgica
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um criador de gado de corte é abordado por um veterinário para que ele entre em um negócio circular bastante lucrativo com um negociador de carnes. O problema é que durante essas negociações uma parte importante de seu passado volta a tona, sendo a primeira peça de um efeito dominó que afetará não apenas ele, mas todos que estiverem relacionados a ele, direta ou indiretamente.

O QUE TENHO A DIZER...
Bullhead é um filme belga escrito e dirigido por Michael Roskam, sendo este seu primeiro longa metragem. O filme foi uma das surpresas do Oscar 2012 ao concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo para o iraniano A Separação (Jodaeiye Nader Az Simin, 2011).

Conta a história do criador de gado de corte Jacky Vanmarsenille (Matthias Schoenaerts) que é abordado por um veterinário que tenta convencê-lo a fechar um negócio circular e lucrativo com um grande negociador de carne. Porém, durante as negociações, Jacky se reencontra com uma peça fundamental de seu perturbado passado, o qual ele não vê há 20 anos. Seu amigo, Diederik (Jeroen Perceval), trabalha para o importante negociador, mas o que ninguém sabe é que ele na realidade é um informante da polícia infiltrado para tentar descobrir quem é o grande chefe do tráfico de hormônios, utilizados ilegalmente para acelerar o crescimento de rebanhos. Nesse meio tempo, um policial é morto durante uma operação, e Jacky acaba se tornando um dos suspeitos. O grande problema é que Diederik tenta tirar Jacky das suspeitas da polícia, afirmando que tudo é uma mera coincidência, mas para a polícia nada é fato do acaso. Ao mesmo tempo, o passado misterioso e intocável de Jacky acaba vindo à tona, numa sequência interminável de situações que levam a um inevitável final trágico.

A frase: "a vida é uma sucessão de sucessões que se sucedem sucessivamente sem suceder ao sucesso" nunca foi tão clara após assitir esse filme. O niilismo presente nele é o grande destaque, já que o efeito dominó interminável sobre os fatos acaba levando todas as situações a uma resolução trágica, sacudindo todos os pedaços que sobraram de verdades, sonhos e conquistas perdidas, traçando um caminho tortuoso e determinado a nunca encontrar uma saída, não apenas para o personagem principal, mas a todos aqueles que direta ou indiretamente estão relacionados a ele.

Esse ponto de vista trágico e negativista do filme se assemelha bastante a um outro filme puramente negativista dos irmãos Cohen, Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Man, 2007), no qual o personagem principal traça uma mesma tragetória desastrosa não apenas a ele mesmo como a todos que cruzam seu caminho. Talvez seja por isso que sua presença no Oscar tenha causado surpresa, já que a Academia também adora filmes com abordagens filosóficas como esse.

Não apenas filosóficas, como também psicológicas, o filme é de uma carga dramática forte e pesada. Jacky não apenas cria o gado como também se assemelha muito a esses animais em seu porte, comportamento, atitudes e até no tratamento hormonal pelo qual ele se submete. Tudo isso por conta de uma violência brutal sofrida quando era criança e que lhe trouxe consequências trágicas, físicas e psicológicas, e que ele carregará para o resto da vida. Portanto, o ambiente de trabalho de Jacky é uma alusão de que o personagem também é parte daquilo que vive, numa filosofia similar a de Lord Byron de que "não vivo em mim, torno-me parte daquilo que me rodeia".

O ator Matthias Schoenaerts desenvolve um papel brilhante. O seu olhar sempre cabisbaixo flameja em dor e angústia, além de conter todos os seus demais sofrimentos, tal qual como um boi quando olha para seu abatedor, na certeza de saber qual o seu fim. O seu jeito truculento e desajeitado, sua falta de delicadeza e destreza, são apenas reflexos de uma vida não vivida, sem experiências, buscando apenas algo que desafie sua força e novamente bloqueie seu caminho para que ele derrube com a própria cabeça. A fotografia do filme, o excesso de tomadas fechadas focalizando apenas a face do personagem ou seu isolamento, deixa mais explícito ainda o sentimento de prisão em que ele vive, de um homem sem futuro, introspectivo, de pouca fala e que reage sempre em atitudes brutas e estúpidas, preso em um passado que o atormenta todos os dias, arisco e esquivo a tudo. O excesso de angulos que acentuam a silhueta do ator em semelhança com um boi deixa clara que sua situação no filme é exatamente como o do gado em um curral, e quanto mais o filme se aproxima ao fim, mais acuado e irracional ele fica, como um bicho, como é dito a ele em um determinado momento. O grande problema é que ele não é um bicho, ele é uma pessoa incompreendida. E mesmo que alguém passe pelo mesmo que ele, ela nunca saberá como é andar sobre seus pés. As pessoas passam a ser somente aquilo que absorvemos facilmente, e ignoramos diariamente e a todo momento de que elas são consequência da história que vivem.

O filme também aborda sutilmente sobre alguns outros assuntos conforme os personagens se desenvolvem de maneira bastante eficiente e que coloca cada um em sua condição de sofrimento particular, tal qual a do protagonista. Também aproveita o paralelo sobre o tráfico de hormônios para também fazer uma crítica ao abuso dessa substância e as consequências desastrosas e imprevisíveis dela.

Não é um filme de fácil absorção e que pode decepcionar alguns que esperam um desfecho comum e redentor. Mas pensando bem, sim, ele também pode ser redentor caso tenhamos um ponto de vista positivo que se sobressaia sobre todas essas situações negativas. E é essa a intenção do filme, aprimorar nossa capacidade de visão positiva e negativa sobre as coisas.

CONCLUSÃO...
Como sempre, os filmes do norte europeu surpreendem em narrativas desconstruídas que se desenvolvem aos poucos. Bullhead não será o filme que muita gente espera. É pesado, negativo e drástico, mas que nos mostra algo que nós bastante ignoramos, de que o comportamento das pessoas é consequência de sua própria história.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ONDE AS ROSAS SELVAGENS DE NICK CAVE NASCEM...

★★★★★★★
Título: Os Infratores (Lawless)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Suspense, Policial
Classificação: 16 anos
Direção: John Hillcoat
Elenco: Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jason Clarke, Guy Pearce, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Dane DeHaan, Gary Oldman
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na terceira década do século 20, durante a "Lei Seca" nos Estados Unidos, uma cidade no sul da Virgínia se transformou em um dos maiores centros de produção e comercialização ilegal de bebida alcólica, onde a lei deixou de existir para dar lugar à máfia do álcool. Nessa cidade vive a família Bondurant, conhecida por sua austeridade, pela qualidade de seu whisk branco, e outras lendas urbanas que os rodeiam. Tudo era um caos controlado, até a chegada de um Agente Especial enviado pelo Promotor do Estado, que irá a todo custo ignorar a falta das leis para impor as suas próprias e derrubar a qualquer custo a família mais dura da cidade, os Bondurant.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por John Hillcoat, o mesmo dos ótimos A Estrada (The Road, 2009) e A Proposta (The Proposition, 2005). Ele ficou conhecido dirigindo vídeos de música para importantes artistas do rock como Nick Cave, Siouxie & The Banshees, Deepeche Mode, Manic Street Preachers, Placebo, Muse, dentre outros, antes do reconhecimento ganho com filmes bem recepcionados pela crítica. Amigo pessoal de Nick Cave, a amizade rendeu bons trabalhos ao longo de sua carreira como diretor de longas metragens, sendo este filme o terceiro na parceria do diretor com o multitalentoso artista australiano que assina o roteiro.
Cantor, músico, compositor, escritor, roteirista e eventualmente ator, Nick Cave é mais conhecido por trabalhos às vezes obscuros, densos ou cruéis, mas sempre mantendo uma linha poética e refinada que aliviam essas características em seus trabalhos.
Por isso este é um daqueles poucos filmes que conseguem realmente surpreender e impressionar não apenas por ter qualidades ímpares e que funcionam com coerência, mas também por ser, de certa forma, baseado em um material histórico que pouca gente tem conhecimento a respeito: a máfia do álcool que tomou conta dos Estados Unidos durante praticamente uma década (1919-1933) com a Lei Seca instaurada em todos os estados do país.
A Lei Seca foi uma ação apoiada fortemente por Protestantes e mulheres, instaurada ainda durante a Primeira Guerra. Dentre as razões dos movimento sociais a favor da proibição da venda de bebidas alcólicas (não podiam ser vendidas bebidas com mais de 2,5% de álcool) estavam: destruir a corrupção existente nos Saloons; acabar com a política dominante de indústria cervejeira alemã; a diminuição da violência doméstica; e aumentar a estocagem de grãos e cereais para o consumo na guerra. Não adiantou muito, já que o consumo do álcool aumentou significantemente em alguns locais específicos, assim como a criminalidade relacionada à sua produção e distribuição, principalmente nos estados da Califórnia e Virgínia.
Por ter se tornado um produto ilegal, obviamente houve o surgimento e crescimento da máfia e guerra entre gangues produtoras e distribuidoras para o domínio do comércio ilegal. Por mais de dez anos os Estados Unidos viveu sob a sombra da emenda proibitiva, e com o passar dos anos, principalmente durante a Grande Depressão, a Lei Seca se tornou impopular, criticada e um exemplo da hipocrisia e da destruição do país e de suas liberdades.

A anti-proibição foi liderada por uma das mulheres que, a princípio, apoiavam a Proibição. Pauline Sabin passou a discursar contra e apoiar uma grande reforma, afirmando que a derrubada da Lei não apenas poderia favorecer o governo com a cobrança de taxas e impostos às produtoras, que seriam muito importantes para o país, como também diminuiria consideravelmente a violência e a "terra de ninguém" que alguns lugares haviam se transformado. O discurso coerente de Pauline foi apoiado principalmente por Franklin Roosevelt, que ao se tornar presidente dos EUA em 1933, assinou a derrocada da proibição no país, deixando a cargo dos estados decidirem suas leis sobre isso.
No meio desse "breve" e pouco conhecido quiprocó (ao menos por aqui) na história norte-americana estava a família dos irmãos John, Howard e Forrest Bondurant, destiladores clandestinos que moravam no Condado de Franklin, no sul da Virgínia, conhecida como "a capital mundial do whisk branco", ou moonshine, como a bebida é popularmente conhecida por lá. Esse termo deriva de sua forma de produção ilegal, já que as destilarias clandestinas funcionavam durante a noite e madrugada (sob a "moon shine", ou seja, o "brilho da lua"). Esses destiladores utilizavam um processo usando radiadores de carro para a condensação do produto. O chumbo, bem como a ferrugem, presente nos ligamentos tubulares, e também o metanol, por conta da fermentação dos grãos ou cereais utilizados na produção, comumente estavam presentes. Embora não em quantidades letais, com excessão de destiladores inescrupulosos que aumentavam a quantidade de metanol barato para enganosamente fortificar o produto, as substâncias tóxicas ainda eram presentes devido a precariedade de algumas produções.
Havia um teste popular feito para descobrir a pureza e a procedência, ao encher uma colher e atear fogo. O destilado confiável deveria queimar uma chama azul, enquanto o adulterado queimaria amarelo. Se houvesse a presença de óleos tóxicos dos radiadores, a chama queimaria em um tom avermelhado, sendo então descartado por sua alta toxidade. Era um método popular seguro, mas que não evitava descobrir a presença do metanol, já que sua chama é invisível.
E assim a família Bondurant sobrevivia e, de certa forma, comandava o condado, alimentando a sede da população com destilados de qualidade ao mesmo tempo que a austeridade, dureza e frieza dos irmãos Forrest e Howard se transformaram em lenda, dando a eles a fama de "invencíveis" não apenas no condado, como nos arredores, o que evitava a aproximação de homens da lei e intimidava inimigos que evitavam inimizades ou confrontos a qualquer custo.
Tudo muda quando, no auge da Lei Seca, o promotor do estado envia para o Condado o agente especial Charlie Rakes (Guy Pearce), com a finalidade de por fim ao tráfico de bebida e destruir todas as destilarias clandestinas existentes, bem como qualquer gangue que dominasse o local. Rakes invade o território dos Bondurant e não apenas os ameaça diretamente como espanca o irmão mais novo, Jack (Shia LaBeouf), como um aviso a Forrest e Howard de que desistam da tentativa de obstruir a lei. O episódio não apenas revolta os irmãos como também é o ponto de partida para uma guerra que dividirá o condado entre aqueles que acreditam em um país livre e aqueles que acreditam nas incoerentes punições da lei.
Sem dúvida o roteiro de Nick Cave e a direção de  John Hillcoat se sobressaem não apenas por estabelecer sucintamente todos os fatos históricos descritos acima, como também pincela as biografias do trio de irmãos baseadas no livro The Wettest County In The World (2008), de Matt Bondurant, decendente direto da família, já que ele é neto de Jack Bondurant, o mais novo dos irmãos. Violento do início ao fim, foi geralmente bem recebido pela crítica especializada e em grande maioria pela leiga, mas muita gente tem saído do cinema um tanto chocada com a crueldade de algumas cenas, que de fato são extremamente impactantes pelo diretor não esconder a brutalidade e o medo coletivo pelo qual aquela população passou. É também de um suspense angustiante, mesmo quando alivia. O psicológico de quem assiste está tão afetado que continua em estado de alerta, apreensivo por alguma coisa que possa acontecer, mesmo que não aconteça.
O elenco sem dúvida alguma é estelar. Shia LeBeouf finalmente perdeu aquela cara de garoto atrapalhado e consegue convencer como o caçula que se sente inferior por não ter o sangue frio e a determinação dos outros irmãos, numa evolução de garoto frágil e apaixonado que deve passar pelos tortuosos caminhos que seus irmãos já passaram para finalmente encontrar em si aquilo que ele acreditava não existir. Jessica Chastain, que ficou reconhecida e roubou a cena com uma interpretação pra lá de cativante em Vidas Cruzadas (The Help, 2011), impressiona mais uma vez como uma ex-dançarina de cabaré que foge para o interior da Virgínia para tentar escapar da brutalidade machista de Chicago. Tom Hardy, que agora está conseguindo alguma ascenção e reconhecimento em Hollywood graças a sua participação como o vilão Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), pode ser muito expressivo em toda sua truculência, mas tal qual o vilão Bane, parece que ele está deixando de lado a sutileza que ele tinha antes da fama e entrando numa atuação caricata e viciada, num misto exagerado de Dirty Harry e Duke Mantee, rosnando com uma frequência irritante e desencessária para construir um personagem que naturalmente dispensa exageros. Uma pena, já que esses exageros são os únicos pontos que, quando acontecem, estragam o filme como um arranhado na vitrola durante um tango. Mas quem rouba a cena é Guy Pearce, como o agente de sexualidade duvidosa, em um vilanismo e crueldade fria, cheia de um sórdido requinte tal qual o nazista interpretado por Christopher Waltz em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009).

Outro grande defeito do filme é não ter aproveitado mais o ator Gary Oldman. Sua participação é bastante pequena e seu personagem era interessante e podia ter tido um maior desenvolvimento na história do que algo tão breve, frente à grande apresentação que o personagem teve e que, posteriormente, parece ter sido esquecido.
Não dá pra ignorar o fato de que é um dos filmes mais expressivos do ano, uma história forte e duplamente real, tanto pelos fatos históricos quanto pelas biografias envolvidas. Segundo o próprio roteirista, Nick Cave, muitas das cenas mais violentas do livro tiveram que ficar de fora, mas que ele tentou ao máximo manter a atmosfera um tanto lírica do livro e que repentinamente é desconstruída numa violência brutal como um tapa na cara. E é exatamente dessa forma como o diretor faz o espectador se sentir. É também sobre uma máfia diferente, de gangues poderosas e de um mundo corrupto e sem leis, numa ironia estranha, mas verdadeira. Diferente de outros filmes e do certo niilismo presente nesse gênero, como os filmes de Scorcese e sua constante pregação determinista de que gângsters devem pagar pelos seus pecados ou serem punidos duramente por seus crimes, aqui a situação é inversa, e mostra que definitivamente muitas vezes os fins justificam os meios para a esperança ser mantida. 
Nick Cave também assina a trilha sonora juntamente com Warren Ellis, acrescentando sua identidade ao estilo bluegrass, deixando de lado a raiz norte-americana de realizá-lo e fazendo-o soar moderno e ousado, ao mesmo tempo que mantém as características básicas do estilo, em um poder sonoro com letras densas e poéticas, em total coerência com as cenas. Um trabalho tipicamente Nick Cave.

Também acredito que o fim poderia ter sido menos corrido, e perto de tanta perversidade mostrada, deveria ter sido algo mais elaborado e construído para a satisfazer a sede de vingança que o público alimenta por duas horas.
CONCLUSÃO...
Impressionante e tenso, ao mesmo tempo que pode surpreender em sequências inusitadamente delicadas e cômicas no meio de tanta violência brutal que sutilmente inspira uma esperança difícil, mas alcançável. Uma produção caprichada, cheia de atenção a pequenos detalhes historicos e biográficos. Uma pena que, embora uma história tipicamente norte-americana, o filme não foi feito da forma norte-americana esperada, e provavelmente será esquecido na temporada de premiações. Pra mim, os únicos defeitos que se destacam no filme é a atuação caricata e viciada de Tom Hardy, bem como não ter aproveitado melhor um elenco de apoio que podia ter sido melhor explorado. De qualquer forma, suas qualidades ofuscam os poucos defeitos, e o resultado é satisfatório e surpreendente. Uma história típica para um diretor como Scorcese, mas que Scorcese mesmo não teria dado uma identidade tão peculiar, mesmo com os defeitos que ele com certeza teria um cuidado fundamental.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PATÉTICO...

Título: Quatro Amigas E Um Casamento (Bachelorette)
Ano: 2012
Gênero: Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: Leslye Headland
Elenco: Kirsten Dunst, Isla Fisher, Lizzy Caplan, Rebel Wilson.
País: Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota desajustada vai se casar com um homem bonito e bem sucedido, e convida três de suas amigas para serem as madrinhas de casamento. O problema é que as três sempre zombaram dela na infância, e agora ela está casando primeiro do que todas.

O QUE TENHO A DIZER...
Quatro Amigas E Um Casamento tenta ser uma mistura e seguir a mesma fórmula de Se Beber Não Case (The Hangover, 2009) com Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) e abocanhar aquele público que ultimamente tem adorado esses filmes de celebração cheio de desastres cômicos.

Mas a grande má notícia é que o filme não dá certo em momento algum, se transformando apenas em um irmão bastardo e renegado dos outros dois. Um genérico descartado por tanto defeito de fabricação.

Para quem olha para o elenco com Kirsten Dunst, Isla Fisher, Lizzy Caplan e Rebel Wilson, pode até julgar que "tudo bem se o roteiro for ruim, o elenco é bom", mas ao contrário de Missão Madrinha de Casamento, cuja grande parte de seu sucesso se deve pela experiência das atrizes principais e dos diálogos improvisados na maior parte do tempo, aqui o roteiro é fraco, forçado, com diálogos que beiram ao ridículo e promovem situações patéticas ao citar em excesso palavrões, sexo, genitálias e desperdiçar o tempo forçando em piadas sujas e sem graças. Além do que não há o princípal: a química entre as protagonistas.

Tudo é regado a muita cocaína, como se cheirar pó fosse algo super legal. E essa mania de filmes de comédia enfiarem cocaína como uma piada interna e uma referência aos anos 80 de que "tudo era bacana quando tinha pó", já ficou sem graça e decadente tanto quanto usá-la nos dias de hoje.
Além disso as atrizes re-interpretam papéis que já fizeram no passado: Kirsten Dunst sendo novamente a bem sucedida e mal amada de O Sorriso de Monalisa (Monalisa Smile, 2003); Isla Fisher a mesma avoada que representou no fraco Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions Of A Shopaholic, 2009) - tanto que há uma leve referência a isso quando sua personagem afirma que "estourou 5 cartões de crédito"; Rebel Wilson no mesmo jeitão esquisito de Missão Madrinha de Casamento; Lizzy Caplan sendo, bom... a mesma personagem apática e sem carisma que ela interpreta em todo filme.

O filme peca absurdamente na falta de simpatia, pois não há um personagem carismático. Isso realmente não seria um defeito se o roteiro fugisse do óbvio e não quisesse terminar feliz, de forma previsível e anti-natural como acontece. Mas a direção e o roteiro da novata Leslye Headland soam tão amadores e disconexos que dá até pena. Tanto que o filme passou despercebido, custando US$3 milhões e não arrecadando nem US$500 mil nos EUA.

CONCLUSÃO...
Enfim, uma perda de tempo, elenco e dinheiro. É esquecível, patético e nem sei porque assisti até o fim.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ESPECIAL: HUNTED

★★★★★★
Título: Hunted
Ano: 2012
Gênero: Espionagem, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Melissa George, Adam Rayner, Adewale Akinnouye-Agbaje, Lex Shrapnel, Morven Christie, Stephen Campbell Moore, Patrick Malahide
País: Reino Unido
Duração: 55 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma agente secreta de uma companhia de segurança privada é traída e quase morta durante uma missão. Um ano depois, em refúgio e recuperação, resolve voltar ao posto de trabalho com a finalidade de descobrir quem é o traidor e as razões que levaram a isso.
O QUE TENHO A DIZER...
Espionagem sempre foi um excelente prato para abocanhar a audiência porque todo mundo adora suspenses e mistérios, seja em filmes ou séries de televisão, mas existe uma grande diferença entre as produções de um para outro.
Em filmes há a possibilidade de se desenvolver uma história um pouco mais elaborada, já que eles costumam ter entre 90 a 120 minutos de duração, tempo suficiente para o espectador assimilar a idéia do início, a trama do meio e a resolução da reta final, deixando as aspas abertas ou não para continuações. Podem ter uma linearidade na história, como a excelente Trilogia Bourne (The Bourne Trilogy, 2002/2004/2007), ou uma série de filmes sem qualquer relação um com o outro, como o mediano Missão Impossível (Mission: Impossible, 1996/2000/2006/2011) e os 23 filmes do espião mais famoso do mundo, James Bond. O resultado nos filmes é imediato e não há espaço para qualidades desconexas, deve sempre haver uma simbiose entre a direção, o roteiro, uma edição apropriada e, lógico, atuações boas o bastante para serem convincentes.
Na televisão o assunto é mais complexo, pois os seriados britânicos ou norte-americanos costumam tratar de um mesmo tema por uma temporada completa (de 23 a 24 episódios, durando aproximadamente 6 meses), ou meia temporada (de 8 a 14 episódios, durando aproximadamente 3 meses). Para isso é necessário muita perspicácia e, sem dúvida, o quesito principal de qualidade deve estar no roteiro, que não precisa ser original, mas deve ter ganchos interessantes o suficiente que prenda a atenção do espectador em uma trama bem feita, que não seja simples o bastante para ser desinteressante e nem complexa demais para que o público se perca. E hoje em dia não há mais muito espaço para elucubrações e situações fantasiosas demais, o público atual prefere um fundo realista.
Pensando nisso, o criador e roteirista Frank Spotnitz (que no passado criou o cultuado Arquivo X) conseguiu levar ao ar Hunted, um seriado produzido pela BBC1 (promovido nos EUA pelo canal pago Cinemax) que contaria a história de Sam Hunter (Melissa George), uma agente secreta de uma companhia de segurança privada que sofreu uma tentativa de execução durante uma de suas missões. Sam levou um tiro mortal, mas conseguiu sobreviver e se refugiou até sua total recuperação. Por um ano foi dada como morta. Certa de que foi traída por algum de seus companheiros da equipe, ela retorna ao seu posto preparada até os dentes para descobrir quem foi o traidor, e quais foram as razões para isso.
Até então a sinopse e o enredo, embora interessantes, não pareciam muito originais, mas o diferencial que Spotnitz promoveu foi de que o seriado tentaria resgatar os tempos áureos do sujo reduto da espionagem política e empresarial de forma realista, sem aparatos tecnológicos ou absurdos já vistos em outros seriados e filmes de sucesso, e que tudo giraria em torno dos mistérios que levaram a personagem principal a ser traída e sua tentativa constante de sobreviver no meio de inimigos que querem sua cabeça a todo custo. Haveria foco em cenas de ação bem elaboradas, clima de tensão constante e locações reais.
O material promocional do seriado chamou a atenção da mídia principalmente porque Melissa George já havia tido experiência no mundo da espionagem interpretando a elogiada vilã Lauren Reed na terceira temporada de Alias (2001-2006), de J.J. Abrams (o mesmo que criou Lost), o que levou Hunted a até algumas comparações construtivas por isso e a empolgação da atriz de poder retomar um mundo que a interessa e que poderia exigir fisicamente tudo que ela gostaria de fazer.
Os primeiros 3 episódios levaram mais de 4,5 milhões de pessoas a sintonizarem no canal britânico, o que não é um grande número, mas o esperado para um seriado novo e pequeno (apenas 8 episódios), mas conforme os episódios foram chegando à sua reta final, ao invés da audiência ser mantida, ela caiu por mais da metadade, um desastre para um dos canais britânicos mais assistidos.
Descobriram então que o público não estava conseguindo acompanhar a complexa história de Sam Hunter, e o que a princípio aparentava ser um seriado de intensa perseguição e espionagem (como o próprio título propõe), a personagem principal se encontrou presa em uma mansão, disfarçada de tutora de um garoto, perdida numa trama que não faz sentido e que tenta a todo custo criar um mistério sobre um mistério que não existe em momento algum, e raramente uma cena ou outra de perseguição ou luta entre ela e alguém desconhecido acontece de forma aleatória, apenas para prender o pouco da atenção que ainda resta de quem assiste.
Alias pode ter ficado insosso em suas temporadas subsequentes, mas ficou no ar por 5 anos. Veronica Mars e até mesmo a sátira absurda She Spies tinham diferenciais da mesma forma como os atuais Burn Notice e Covert Affairs. O diferencial de Hunted foi desperdiçado. A atuação fria e calculista de Melissa George é o único ponto forte. Seu rosto de traços grosseiros e fora dos padrões, sua voz levemente grave e sua postura áustera e atlética sempre deram a ela versatilidade para aparentar ser uma moça romântica e ingênua ao mesmo tempo que pode se transformar em uma caçadora enraivecida pelo ódio e revolta. Para quem a conhece de outros papéis como nos filme Triângulo (Triangle, 2009) e o remake de Horror em Amityville (The Amityville Horror, 2005), ou até mesmo no já citado Alias e Em Terapia (In Treatment, 2008) - pelo qual ela recebeu uma merecida indicação ao Globo de Ouro - sabe que ela é uma atriz bastante competente e que há tempos merece um maior reconhecimento. Mas um seriado para a televisão com esta temática não sobrevive apenas de uma boa atuação, o roteiro ainda manda, e a falta de um foco principal na história levou a BBC1 a cancelar sem antes mesmo chegar ao seu fim.
De qualquer forma Hunted tem uma finesse britânica interessante, mesmo tendo uma história confusa e massante ele é bonito, bem filmado, dirigido e com uma edição pontual, que realmente tenta desenvolver as coisas sem pressa e criar tensão em situações simples e cotidianas, mas faltou de uma trama melhor construída e de fácil digestão. A trama principal é simples, mas sumiu devido às paralelas terem se tornado mais interessantes e Spotnitz não conseguir manter foco e linearidade.
CONCLUSÃO...
Uma pena que Hunted não vingou assim como Missing (2012), dois seriados que foram lançados esse ano e sem renovação, mas que teriam grandes oportunidades de crescer. A diferença entre os dois é que enquanto Missing tinha um bom roteiro em uma produção pobre e formatada, Hunted tem uma produção caprichada, mas um roteiro falho e complexo demais dentro de sua simplicidade. Ainda não vai ser dessa vez que Melissa George terá o sucesso que merece.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"AS LOIRAS SÃO AS MELHORES VÍTIMAS"

★★★★★
Título: The Girl
Ano: 2012
Gênero: Biografia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Julian Jarrold
Elenco: Toby Jones, Sienna Miller, Imelda Staunton, Penelope Wilton
País: Reino Unido
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Conta a história da relação obsessiva que Hitchcock desenvolveu com e a atriz Tippi Hedren, sua última garota loira.
O QUE TENHO A DIZER...
Por alguma razão 2012 é o ano de Alfred Hitchcock, já que dois filmes sobre o famoso mestre do suspense foram produzidos: The Girl e Hitchcock.

The Girl conta a história da relação obsessiva que Hitchcock desenvolveu com Tippi Hedren, protagonista de Os Pássaros (The Birds, 1963) e Marnie, Confissões de Uma Ladra (Marnie, 1964).

Hitchcock será lançado em dezembro nos cinemas e contará a história dos bastidores de um de seus maiores e mais relembrados clássicos, Psicose (Psycho, 1960).
Mas The Girl é um daqueles filmes que perdem uma grande oportunidade de ter um roteiro melhor desenvolvido e uma produção mais caprichada para ser lançado nos cinemas e, por isso, são lançados diretamente para a TV, pois a excentricidade de Hitchcock deixou de ser uma grande lenda para se tornar um fato real que ainda espera oportunidade para ser dignamente adaptada.
A história do filme é baseada no livro Spellbound by Beauty: Alfred Hitchcock and His Leading Ladies (2008), do biógrafo Donald Spoto, em que o autor conta a importância das mulheres loiras nos filmes do diretor e suas relações com ela ao longo de sua carreira. Atrizes que desempenharam muito mais do que papéis de protagonistas de seus filmes, mas de heroínas complexas e fatais que se tornaram musas do cinema em suas mãos, tal qual foram Ingrid Berman, Grace Kelly, Kim Novak, Janet Leigh e Tippi Hedren, apenas para citar algumas, e que Hitchcock nunca escondeu sua paixão por elas e de que foi ele o responsável pelo ícone que elas se tornaram.
Para quem conhece apenas as obras desse grande diretor e pouco (ou nada) sobre sua vida, ficará um tanto surpreso ao ver nesse filme que por trás daquela imagem icônica podia existir um homem perturbado em suas obsessões sádicas e misóginas, segundo os relatos de Tippi. "Um gênio incomum, mal e desviante, quase ao ponto perigoso por causa do efeito que ele poderia ter sobre as pessoas", como ela mesma afirmou esse ano em uma entrevista, e que, mesmo aos 82 anos, ainda acusa o falecido diretor de assédio sexual (algo que ela veio a fazer apenas há alguns anos, depois que qualquer provável testemunha já havia falecido).
O filme começa com a frase clássica de Hitch: "As loiras são as melhores vítimas. Elas são como pegadas de sangue reveladas na neve virgem", e logo na cena seguinte percebe-se que o filme será salvo de qualquer desgraça pela interpretação de Toby Jones. E infelizmente o ator mais uma vez perde a oportunidade de ter seu talento reconhecido como se deve. Em 2006 sua performance no filme Confidencial (Infamous) no papel do escritor Trumpan Capote foi praticamente ignorada por conta do filme ter sido lançado posteriormente ao ovacionado Capote (2005), produção que tratava do mesmo tema e pelo qual Philip Seymour Hoffman ganhou o Oscar de Melhor Ator, além de inúmeros outros prêmios, enquanto Toby nem ao menos fora citado em resenhas (eu, particularmente, considero Confidencial muito mais interessante). Novamente Toby Jones cai na mesma armadilha, interpretando brilhantemente Hitchcock, mas que será ignorado por ser um filme barato e feito para a televisão, enquanto Anthony Hopkins com certeza colherá os louros por sua interpretação no filme a ser lançado em dezembro nos cinemas.
Irreconhecível por conta de uma maquiagem forçada, mas compensada por uma caracterização sólida, Jones não apenas convence ao ponto de esquecermos que é uma atuação, mas também transpõe de forma bastante eficiente todos os maneirismos e excentricidades da figura manipuladora, pequena e forte de Hitchcock e que posteriormente se transformou na caricatura que hoje conhecemos. Tudo é válido, já que Toby é uma figura pequena, franzina e frágil na vida real. Sienna Miller também desempenha um papel importante na qualidade do filme, já que a biografia da atriz também se assemelha bastante com a de Tippi Hedren, da modelo que se tornou atriz e conseguiu provar o contrário do que o esteriótipo pré concede. Não que ambas sejam excelentes, mas funcionam quando bem dirigidas. O fato aqui é que não houve boa direção, e o pouco que funciona é por responsabilidade dos próprios atores.

Mesmo reproduzindo algumas cenas clássicas de Os Pássaros e Marnie por um ponto de vista de bastidores, o filme peca na falta de uma fotografia ou uma produção de arte caprichada e que nos transportasse realmente para a década de 60, em um excesso de tomadas internas e que limitam os cenários para poupar o filme de detalhes. Ele também não entra muito em questões que justifiquem o comportamento obsessivo de Hitch além de justificá-lo subliminarmente como um amor mal correspondido ou uma tentativa de sutilmente vitimizá-lo como um homem inteligente, mas não atraente.
Esse lado mais obscuro do diretor inglês é um assunto recente bastante contraditório e polêmico. Muita gente tem dificuldade em aceitar pela falta de testemunhos e por conta de inúmeros documentários que apenas o retrataram como um homem de humor negro e um gênio do cinema esnobado pela Academia de Hollywood, e por isso os defeitos do filme surgem quando a história adentra na obsessão psicológica e sexual do diretor por Tippi. Se há verossimilhança ou não, a pequena polêmica que esse filme gerou foi de comentários que expressam o fato de que Tippi nunca perdoou Hitchcock por ter "destruído" sua carreira de atriz como retaliação por ela recusar seus assédios, já que o diretor era bastante influente na indústria e, posteriormente a Marnie, Tippi foi praticamente esquecida. No filme há um momento em que o diálogo de Hitchcock a ela é exatamente sobre o fato de que ele foi o responsável pelo sucesso e reconhecimento que ela alcançou, e  por isso ela deveria ser conivente com qualquer situação. O que acho perverso é que, nos comentários leigos sobre o filme, as pessoas têm usado isso como justificativa, como se isso desse razão a qualquer abuso que ela tenha ou não sofrido, o que pra mim é um verdadeiro absurdo tal qual tentar convencer que uma mulher consente um estupro.
Portanto, certamente o filme falta de uma pesquisa mais sólida, já que a própria atriz Tippi Hedren afirmou que em nenhum momento foi consultada pelo diretor Julian Jarrold durante a produção do filme, e que toda a pesquisa sobre sua pessoa foi feita espontanemanete pela atriz Sienna Miller. Além disso também há a relação pouco explorada entre Hitch e sua mulher, Alma, que foi uma figura bastante importante na carreira do diretor. Inclusive, a participação das excelentes atrizes Imelda Staunton e Penelope Wilton é completamente ignorada em personagens que nem deveriam ter existido se fossem pra ser mal colocadas como nesse roteiro bastante esburacado.

A questão é que não há uma pessoa viva para contestar ou afirmar que a história de Tippi seja verdadeira, e o filme se transforma em um boato mal feito, o que é uma pena, já que ele conta com excelentes atuações, mas é vago e bastante superficial perto de situações complexas pelas quais Hitchcock aparentava submeter ou manipular as pessoas ao seu redor.
CONCLUSÃO...
Se não fosse pelas atuações, além de um filme para a televisão, também seria esquecível. Mesmo assim é um material interessante como uma introdução à complexidade de idéias e sensações que era Alfred Hitchcock, surpreendendo sem chocar, sendo talvez essa a inteção, mas que resulta em tom superficial e subaproveitado que ao invés de convencer soa como uma mentira mal contada.
Add to Flipboard Magazine.