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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PRAZER, SOU UM EXCELENTE FILME NORUEGUÊS...

★★★★★★★★
Título: Headhunters (Hodejegerne)
Ano: 2011
Gênero: Crime, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Aksel Hennie, Synnove Macody Lund, Nikolaj Coster-Waldau, Eivind Sander, Julie Olgaard
País: Alemanha, Noruega
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um poderoso chefe de uma empresa especializada em recrutamentos de alto escalão esconde um segredo bastante incomum para complementar a renda familiar, ele também é um meticuloso ladrão de obras de arte. Mas tudo dá errado quando ele descobre que sua próxima vítima também é o amante de sua mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Obviamente que todos os envolvidos nesse filme são desconhecidos por esses lados de cá do mundo, o que não é de se espantar, já que são poucas as produções de países como Holanda, Bélgica, Alemanha, Noruega e Suécia que conseguem chegar por aqui sem se perder no meio do caminho. E isso não significa que o cinema desses países seja ruim, muito pelo contrário, o cenário é bastante expressivo, mas apenas no continente europeu. Alguma atenção é dada quando alguma produção recebe alguma indicação na categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, ou quando, mais raramente, é baseado em alguma coleção que se transforma numa febre mundial, como aconteceu com a trilogia Millennium, de Stieg Larsson.

Não é à toa que esse filme é produzido pela mesma produtora das adaptações cinematográficas suecas da trilogia Millennium, a Yellow Bird, o que deu liberdade para que várias cenas aéreas utilizadas anteriormente na trilogia fossem reaproveitadas nessa produção (com apenas algumas alterações digitais), além de outras referências diretas à trilogia baseada nas obras de Larsson.

O filme é baseado no livro homônimo do autor norueguês Jo Nesbo e que teve sua primeira publicação em 2008. Mas o autor de 52 anos já possuia vários títulos de sucesso anteriormente, incluindo uma série de (até o moment0) 9 livros de investigação centrados sempre no mesmo personagem, o policial Harry Hole. Headhunters teve excelente receptividade, e no mesmo ano de sua publicação o autor também inaugurou uma organização filantrópica que tem como objetivo diminuir o analfabetismo infantil em países de terceiro mundo, levando o nome do personagem de sua famosa série de livros, a Harry Hole Foundation. Jo Nesbo fez questão que todos os lucros gerados pelos livros, independente da edição ou dos formatos, fossem revertidos para sua organização. A mesma exigência foi feita aos lucros gerados pelo filme. Essa atitude chamou a atenção da mídia e de muitas pessoas, fazendo do livro um sucesso e o filme ter se transformado no segundo de maior bilheteria da Noruega e o primeiro filme mais bem sucedido do país, pois até o seu dia de estréia, os direitos de exibição já havia sido vendido para mais de 15 países. O livro ganhou o prêmio de melhor publicação do ano em 2008 e atualmente há uma adaptação Hollywoodiana sendo escrita.

Curiosidades à parte, o filme viaja no argumento policial e no suspense, naquele estilo de enganar quem assiste o tempo todo, surpreendendo e dando reviravoltas na história que ninguém esperaria. Portanto, falar muito sobre o filme é estragar a experiência, por mais que em alguns momentos essas reviravoltas possam parecer um pouco forçadas. Mas essa é a graça do estilo policial moderno, fazendo de um gênero que antigamente era o clássico e batido polícia-ladrão atingir outros níveis ao ser mesclado com outros gêneros, como o suspense e o drama, criando um subgenero simpeslmente chamado de CRIME, pois nele já sabemos que envolve o gênero policial, a investigação e todas as surpresas que obviamente surgirão no decorrer da história.

Nessa história o roteiro começa nos mostrando a elite financeira e industrial, seguindo para o submundo dos caçadores de recompensa, dos jogos de trapaça e assassinatos. É aí que somos apresentados ao charmoso vilão, Roger Brown (Aksel Hennie), que de um poderoso, bem sucedido e respeitado empresário, se transforma em um fugitivo. Daí o título do filme ter duplo sentido, já que ele se refere tanto aos headhunters que procuram talentos e profissionais únicos, como também aos assassinos profissionais e caçadores de recompensa. E naquele velho ditado de "ladrão que rouba ladrão, sete anos de perdão", a trama se desenvolve.

É um filme com uma narrativa diferente da que costumamos ver em produções hollywoodianas do gênero. Não há perseguições mirabolantes, não há atiradores de elite, não há cenas de luta, explosões e nem um plano definido. Muito pelo contrário, são pessoas comuns que seguiram caminhos errados, atolaram o pé na lama e agora devem viver ou se deixar render. Tudo corre naturalmente, havendo espaço até para as burrices dos personagens, mas no geral nada é além daquilo que um cérebro inteligente e pensante não faria, claro, dentro das proporções de um filme, já que estamos falando de ficção.

Chega a ser até um filme engraçado em alguns momentos, pois as situações só parecem piorar a cada instante, dando outro elemento de interesse, suspense e surpresa para quem assiste e, sem dúvida, termina tirando uma deliciosa satisfação de que o tempo foi bem gasto.

CONCLUSÃO...
Bem construído, é mais uma produção para podermos dizer que o cinema de ação do norte europeu deve ser respeitado, bem como os materiais pelos quais eles são baseados. É uma história intrigante e que chama atenção por ser feito de forma simples e que segura a atenção apenas pela sua história e personagens bem construídos. Uma excelente surpresa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

UMA TERRÍVEL BOBAGEM...

★★★
Título: O Segredo da Cabana (The Cabin In The Woods)
Ano: 2011
Gênero: Horror, Comédia, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Drew Goddard
Elenco: Kristen Conlly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins, Bradley Whitford
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Cinco amigos vão passar um final de semana em uma cabana no meio da floresta, ao chegarem lá descobrem que a cabana esconde coisas sobre um passado misterioso e que poderão acordar seres que apenas trarão destruição.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro filme dirigido por Drew Goddard, que anteriormente havia trabalhado como roteirista e produtor de seriados como Buffy e Angel (ambos criados por Joss Wedon), Alias e Lost (ambos criados por J.J. Abrams). Ele também foi roteirista do inesperado sucesso Cloverfield (2008), e tem mais dois roteiros prontos e já em fase de pré-produção: o próximo filme do lendário Steven Spielberg, Robopocalypse, e a também há-muito-tempo-anunciada seqüência de Cloverfield.

Só por este breve currículo do roteirista e diretor já é possível perceber que o cara é bem influenciado na indústria, tendo braços fortes como Joss Wedon (que também assina o roteiro e é atualmente responsável pela terceira maior bilheteria do mundo por Os Vingadores), J.J. Abrams (famoso criador de séries que agora se tornou um poderoso diretor e produtor de Hollywood), e também caiu nas graças de ninguém mais que Steven Spielberg (que "por acaso", junto com Abrams, também foi produtor de Cloverfield e Super 8). Ou seja, Drew Goddard pode não ser excelente, mas está bem engrenado e cheio de oportunidades.

Confesso que tentei gostar de O Segredo da Cabana porque, apesar dos defeitos, ele tem elementos e idéias boas, mas os defeitos são ruins mesmo. O filme é uma baderna e uma bagunça que eu não me lembro de ter visto anteriormente em nenhuma época.

Imagine todos os filmes de horror, terror adolescente, fantasia e ficção científica que você já assistiu, bata tudo no liquidificador. Aquilo que você jogar no copo é o filme. E se você não quiser saber mais, então pare de ler aqui, porque eu não vou falar do filme em metáforas só pra não "estragar" surpresas, porque isso não vai amenizar o fato do filme ser desagradável.

Usa como referência direta o filme de Clive Barker, Hellraiser (1987) (tanto que o cartaz do filme é uma referência ao cubo do filme de Barker), e também os filmes da trilogia de Sam Raimi, Uma Noite Alucinante (The Evil Dead, 1981/1987/1992). Com essas referências básicas ele tenta ser um horror diferenciado, misturando os sustos e a direção clássica de Raimi com os seres bizarros e o medo maniqueísta de Barker, de que tudo que é do mal vem do inferno, é esquisito, causa dor, sofrimento e angústia. Pavores natos do ser humano.

Ele tenta dar uma explicação boba para a existência de todos os fenômenos e seres paranormais, místicos, surreais, infernais, lendários, bizarros e fantasiosos sem foco algum, para dar a falsa sensação a quem assiste de que essa confusão toda é algo muito original, pois é isso que fazia os filmes de horror clássico terem se tornado cults no gênero. Infelizmente o público acreditou nisso, e o filme atingiu um pico de 7.8 no IMDb e 79% de aceitação no Rotten Tomatoes. Mas naquela época pouco ainda havia sido explorado e tudo realmente parecia novidade, e o público adolescente atual pouco conhece as referências que movimentavam legiões na década de 80, com reuniões nerds e cosplayers para assistirem e discutirem sobre nada.

Chris Hemsworth ainda nem pensava em virar Thor quando o filme foi filmado, ainda em 2009. O filme foi lançado apenas este ano, e esse atraso de quase 3 anos quase o engavetou. Depois do lançamento de Thor, o estúdio achou que seria uma boa repensar no lançamento do filme, e através de uma campanha maciça de uma "revolução no gênero", como tentaram promover, o boca a boca atingiu proporções mundiais. O filme foi lançado e resultou numa bilheteria favorável por conta dessa expectativa, arrecadando (até o momento) mais de US$65 milhões no mundo, um pouco mais do dobro do que custou. Ainda continua inédito no Brasil, mas é fácil assistí-lo.

Diferente de Hellraiser (onde um cubo místico seria capaz de abrir as portas do inferno e a história giraria em torno do imaginário comum do ser humano de que o mundo das trevas é habitado por seres bizarros e mutilados cuja única função é torturar a carne e transformar a vida numa eterna dor), ou até mesmo de Uma Noite Alucinante (que um livro de ocultimo seria capaz de abrir um portal capaz de trazer os demônios para a terra), O Segredo da Cabana tenta usar uma fajuta justificativa de que os seres humanos são marionetes comandadas por uma "organização secreta" existente para saciar a vontade de "deuses" sádicos (chamados de anciãos). Esses tais "anciões" assistem televisão e gostam de reality shows, e para deixarem o mundo continuar rodando como deve, eles precisam constantemente se alimentar do sofrimento humano, sendo obrigação dessas organizações manter uma gigantesca estrutura tecnológica e virtual para esta finalidade. Essa estrutura ainda conta com uma coleção de todas as criaturas sobrenaturais já vistas ou imaginadas em caixas que se organizam automaticamente numa ordem infinita, como no cult de ficção e horror de Vincenzo Natali, Cubo (Cube, 1997). Se esses deuses não forem agradados como devem, eles ficam nervosinhos e resolvem destruir tudo e fazer tudo de novo. Uma bobagem sem tamanho.

Li muita gente considerando o filme uma sátira bem feita do gênero, mesclando horror moderno com clássico. Mas não é. Sátiras já foram feitas aos montes, e geralmente elas sempre caem no ridículo, ao invés de ser inteligente. O grande defeito é sempre a prepotência de fazer um filme ser bom em mais de um gênero e, no fim, não conseguir ser nem uma coisa, nem outra. Os personagens são clichés logo de cara, em situações clichés, para depois repetir o que outros filmes já fizeram dentro desse argumento absurdo de um ritual pra lá de tecnológico que vira e mexe entra em pane. Essa absurdez não convence nem dentro do argumento do filme. Não é nada agradável ver esses personagens tentarem convencer que a situação é assustadora e depois tirarem sarro disso. Isso é chamar a audiência de imbecil.

Se tudo é pra ser uma piada, então porque inventar tanto? Essa é a pergunta.

A idéia básica do filme é muito boa, mas apenas se a história tivesse sido levada para um caminho mais sobrenatural, ocultista e sério, sem esses elementos futurísticos que não acrescentam em nada. Mas se isso tivesse acontecido o público ignorante não teria apreciado.

CONCLUSÃO...
Uma grande besteira. Uma hora e meia de pura bobagem. Nem mesmo os monstros que aparecem chegam a convencer. Mais um filme para os adolescentes do fundamental que querem fazer um programinha "pra galera" no final de semana ou para aqueles sem um pingo de senso crítico e que adoram tudo que vira moda. E só esse público pra gostar mesmo. Quem gosta de filme de horror de verdade, ou de uma sátira bem feita, ou de uma comédia realmente engraçada, ou de uma ficção científica bem construída, não vai achar nesse filme nada, mesmo ele tentando ser tudo isso.

sábado, 11 de agosto de 2012

LÁ VEM ELE COM SEU PANDEIRO...

★★★★★★
Título: Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sydow, Viola Davis,
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto de nove anos que sofre de um transtorno autista e com fortes inclinações políticas e sociais, encontra uma chave que pertencia ao seu pai, uma das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Acreditando que esta chave pode ter um sentido maior, ele desesperadamente sai em busca da fechadura que ela possa abrir e, talvez, manter a memória e a presença de seu pai.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor Jonathan Safran Foer, escritor que com apenas 35 anos já tem dois títulos de grande sucesso. Seu outro livro, Uma Vida Iluminada (Everything Is Illuminated), também ganhou uma excelente adaptação em 2005 e que infelizmente passou despercebido pelos cinemas (é fácil encontrá-lo em home video), filme que foi escrito, dirigido e produzido pelo ator Liev Schreiber, que se identificou com a história e a tragetória do personagem principal (que é até bastante similiar com a do personagem de Tão Forte e Tão Perto, mas em uma situação e em um conflito bastante diferente).

Dirigo por Stephen Daldry, mais conhecido por dramas como o delicado Billy Elliot (2000), por ter dado o papel que premiou Nicole Kidman por As Horas (The Hours, 2002), e por ter feito o mesmo com Kate Winslet por O Leitor (The Reader, 2008). Daldry chegou a concorrer na categoria de Melhor Direção por todos esses mesmos filmes, o que o faz encabeçar a lista não de melhores diretores atuais, mas dos respeitáveis, pois seus filmes costumam ser conduzidos com uma sutileza que poucos diretores conseguem em um gênero que é muito fácil pesar a mão e transformar em um dramalhão comum. Óbvio que, assim como Tão Perto e Tão Forte, todos seus filmes possuem seqüencias que chegam a ser apelativas às lágrimas, principalmente porque ele gosta de escolher mártirs, focalizando suas dores, ou isolando-os no cenário para transpor o sentimento de sofrimento e incompreensão. Tudo sempre muito regado a uma trilha sonora simples, com notas chorosas de piano e/ou violino. Apesar de tudo são cenas que funcionam no propósito e poderiam ser um desastre em mãos mais pesadas.

Demorei muito tempo para assistir o filme por puro preconceito mesmo, pois sendo uma adaptação de um livro que foi muito bem aceito pelo público, principalmente o norte-americano, o filme teve recepção muito mista tanto pela crítica especializada quanto pela leiga. Eu não li o livro, então não poderia traçar um paralelo bom entre ambos, mas por diversos materiais que li, cheguei à conclusão de que o grande defeito que encontrei no filme também é a grande insatisfação da maioria dos que leram o livro. Os críticos (especializados e leigos), em sua maioria alegam que, embora o filme tenha sequências bastante emocionantes, é difícil se sentir completamente conectado a elas, como se ouvesse um obstáculo o tempo todo.

O grande obstáculo entre a mensagem e o sentimento é, sem dúvida, o ator Thomas Horn, que interpreta o personagem principal de 9 anos e que sofre de um transtorno autista conhecido como Síndrome de Asperger. Por isso a dificuldade de socialização e comunicação, que são descritos logo no começo do filme, do comportamento ora atencioso e carinhoso, ora nervoso e agressivo, e da obsessão por tarefas metódicas e repetitivas até sua conclusão e o auto-flagelamento quando ele não consegue atingir seus objetivos da forma esperada.

O filme desmonstra os transtornos do personagem muito bem, mas pouco explica sobre isso (porque obviamente não é o tema central da história). Para quem não conhece a doença ou pouco deu atenção nos raros momentos em que ela foi citada no filme, acabarão encontrando em Oskar um personagem chato, mimado e irritante, mas por demérito do próprio ator. Ele não consegue atingir um ponto de transição convincente entre o comportamento infantil e os repentes do transtorno que o personagem sofre, simplesmente tentando imitar uma atuação adulta conforme o roteiro indicava. Isso é justificável pelo fato de Thomas ser um ator novato e o filme ter sido seu primeiro trabalho em atuação. Portanto, sua interpretação é crua e baseada naquilo que ele acreditava ser uma atuação e não no que ele acreditava que o personagem estivesse passando e sentindo, oferecendo uma presença petulante e inconveniente em várias situações, chamando mais a atenção de quem assiste pelo tom arrogante que ele impõe do que pela tragetória de adaptação e superação de traumas que o personagem está passando. Para piorar, o personagem anda o filme todo com um pandeiro barulhento e irritante, que ajuda mais ainda na antipatia pelo ator, que poderia ter usado o instrumento apenas em situações simbólicas e não durante as duas horas de filme.

De qualquer forma, o filme tenta ser sutil na abordagem dos atentados de 11/09 para não usar os fatos de forma abusiva e apelativa, já que ainda é um assunto delicado para muitos norte-americanos e sempre impactante para muitas pessoas. Os curtos momentos em que há a relação direta dos personagens com o fato são suficientes para ter apenas um traço do sentimento de impotência, desespero e fragilidade das pessoas que vivenciaram isso. A condição traumática de Oskar e de sua mãe, e a relação difícil que ambos desenvolveram após o incidente, são apenas um exemplo da confusão e reação psicológica que inflingiu milhares de famílias.

As demais atuações são brilhantes. Sandra Bullock se mantém em um nível seguro e comedido, e sua presença é sempre forte o bastante com pouco. Para quem não assistiu seu filme anterior pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), ou até mesmo seus outros poucos papéis dramáticos como em Confidencial (Infamous, 2006) ou Crash (2004), pode ficar um pouco surpreso caso esteja acostumado com as comédias românticas pelas quais ela ficou estereotipada, mas quem já assistiu sabe que sua atuação dramática é sutil, e nesse filme, mesmo se escondendo em uma cabeleira mal cuidada ou com as mãos no medo da personagem expressar suas fraquezas, confesso que o filme encontra o tom exato que buscou o tempo todo apenas próximo ao fim, quando sua personagem entra efetivamente na história e conta a sua perspectiva sobre o que estava acontecendo. Max Von Sydow, que faz um velho mudo e rabugento, tem presença bastante coadjuvante e todas suas cenas juntas não somam 20 minutos, mas ele é genial e com certeza subutilizado em uma adaptação em que ele poderia ter tido uma participação maior. Mas nem por isso isso o diminui e suas poucas cenas são gratificantes e emocionantes, naquele balanço entre a sutileza, o drama e a sinceridade típicos de experientes atores como ele. O mesmo pode ser dito sobre Viola Davis, que em apenas 10 minutos de cena eleva o filme de maneira que o ator principal nunca consegue. E o show do filme são mesmo os coadjuvantes e suas histórias paralelas, algumas poucas surpresas e o desfecho que parece decepcionante no propósito egoísta do personagem, mas que agrada com a excelente moral.

CONCLUSÃO...
É um filme que mostra uma jornada que poderia ter sido muito mais gratificante se o personagem principal tivesse sido interpretado de forma mais delicada e complacente. Mas quem não prestar atenção nisso vai conseguir ver uma história emocionante, simples e com muitos significados numa perspectiva dentro de um tema delicado como é os atentados de 11/09 em Nova York. A maioria dos comentários por aí de pessoas que leram o livro dizem que a experiência literária é melhor, mas como disse antes, os atores coadjuvantes e suas pequenas participações elevam o nível de um filme que por muitas vezes é difícil de encontrar uma conexão por conta da falta de simpatia não do personagem principal, mas da forma como ele é interpretado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"NOBODY LIKES A DIRTY GIRL!"

★★★★★★★★
Título: Dirty Girl
Ano: 2010
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Abe Sylvia
Elenco: Juno Temple, Jeremy Dozier, Milla Jovovich, Mary Steenburgen
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma adolescente rebelde que, junto com seu mais novo amigo gay que fugiu de casa por seus pais terem descoberto sua orientação sexual, resolve ir atrás de seu pai que ela não conhece.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro e (por enquanto) único longa metragem escrito e dirigido pelo promissor Abe Sylvia, que demorou sete anos para tirar o projeto do papel. O roteiro já estava pronto, mas ele não conseguia financiamento até que uma produtora independente, a Killer Film, aceitou financiar o projeto. Com ele pronto, o filme foi lançado no Festival de Toronto em 2010, e alguns dias depois a Weinstein Company, dos famosos irmãos Weinstein (fundadores da antiga Miramax), adquiriram os direitos, e apenas em 2011 ele foi lançado em pequeno circuito nos cinemas. Segundo Abe, o roteiro foi escrito na sala de aula, quando ele ainda cursava Cinema, sendo a personagem de Daniele (Juno Temple) baseada numa colega de sala que ele teve ainda no ensino médio, e o personagem Clark (Jeremy Dozier), baseado nele mesmo.

Além dos méritos já existentes Dirty Girl também conta com o figurino assinado por Mary Claire Hannan, a mesma dos filmes de Tarantino, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), Pulp Fiction (1994) e Jackie Brown (1997). O figurino, junto com a direção de arte e a fotografia reproduzem com bastante similaridade o final dos anos 80 sem dar a sensação, em momento algum, de que o filme é uma produção pequena e independente. Mas a nostalgia também atinge a trilha sonora, importantíssima em filmes que retratam épocas como os anos 80 justamente pelo cenário musical ter sido tão influente na moda e na vida das pessoas de maneira tão distinta e característica. Quando falamos dessa época automaticamente lembramos de Cyndi Lauper, Madonna e Michael Jackson, os nomes top of mind da época. Tentando manter essa obviedade de lado, Abe Sylvia escolheu a dedo as canções. Fugindo do cliché, o repertório se baseia em músicas que provavelmente muita gente já vai ter esquecido, mas no momento que ouvir será imediatamente transportado para algum momento daquela época em que a música estava tocando.

Felizmente, vez ou outra somos agraciados com filmes adultos sobre adolescentes, traumas de infância ou disputas de sala, como o humor negro e depressivo de Bem-Vindo À Casa de Bonecas (Welcome To The Dollhouse, 1995), o inesquecível O Casamento de Muriel (Muriel's Weddin, 1994), o escrachado e oitentista Romy & Michele (1997), ou até mesmo o moderno e inteligente Meninas Malvadas (Mean Girls, 2007). Dirty Girl com certeza complementa esta pequena lista de bons filmes sobre a adolescência rebelde com causa(s) justificada(s).

Juno Temple, considerada umas das novas estrelas em ascenção da atualidade, ainda era uma jovem atriz britânica pouco conhecida quando fez esse filme. Independente disso, o talento dela é inegável. Ela consegue dar a personagem Danielle um misto de rebeldia punk e futilidade adolescente de maneira impressionante. Ela não é uma aluna qualquer do colégio e muito menos uma adolescente que se importa em ser a rainha do baile, ela quer é ser notada e demonstrar poder e independência a todo custo. Inteligente, afiada, boca suja e sarcástica, cria inimizades e é falada por onde passa por extravasar ao invés agir como a maioria das outras garotas de sua idade: conter. Tudo isso por conta da ausência de um pai que ela não conheceu e por uma mãe submissa que outrora também era transviada e motivo de fofoca da boca pequena, mas agora, adulta e solitária, é preocupada com a imagem social e vive sob a sombra do medo de não encontrar um marido e constituir uma família que ela, nem sua filha, tiveram. Com isso Danielle constrói uma imagem e postura impositora e provocativa como forma de se proteger da hostilidade alheia.

Como antagonista temos o adolescente tímido, incompreendido e que, por ser gay, sofre constantemente abusos físicos tanto na escola quanto do pai que não aceita a orientação do filho. Mas ao contrário de Danielle, ele é introspectivo e tímido, pois tem medo de expressar seus gostos e vontades no medo de ser julgado pelos outros e principalmente por seu pai, que o ameaça e constantemente o coage a ser algo que ele nunca será. E ao contrário de Danielle, a presença paterna em sua família é forte, mas ignorante, e o que falta é a materna, já que a mãe é igualmente submissa e teme as repreensões e a personalidade estúpida do marido. A interpretação de Jeremy Dozier é bastante delicada, transpondo dramas e dúvidas típicos e bastante comuns em jovens que se encontram na mesma situação que ele.

É o típico Complexo de Édipo: por um lado Danielle maltrata e despreza a mãe na ilusão de que é com o pai que ela ficará assim que encontrá-lo. Do outro lado Clark gostaria que o pai não existisse para que ele possa ser feliz apenas com sua mãe. Durante a tragetória desses dois exemplos do cotidiano, eles acabam descobrindo que nem sempre as coisas são como imaginadas e que a realidade muitas vezes é mais dura do que poderia parecer.

Danielle e Clark, aos trancos e barrancos, se tornam amigos por identificarem um no outro suas próprias dores e angústias, além de completarem suas faltas. A química dos dois atores é um dos outros raros momentos que esquecemos que estamos assistindo a um filme e somos convencidos de que aquela amizade e conexão são reais, e não uma interpretação. Por também ser um road movie, a dupla facilmente seria Thelma & Louise aos 17 anos.

A construção dos personagens e de suas personalidades é bastante definida com todos e não há deslizes em nenhum momento, dando espaço para os acontecimentos e uma história que a cada minuto que passa apenas cresce e se desenvolve com momentos muito engraçados e outros que é impossível não chorar, chegando a um final óbvio e intencionalmente cafona, mas motivante e sincero. É impossível não se identificar e comover não apenas com a dupla principal, mas com os demais personagens que sofrem, como as mães interpretadas por Mary Steenburgen (fantástica como sempre) e Milla Jovovich, que me pegou de surpresa (eu não sabia que ela estava no filme) e que pela primeira vez a vejo sendo bem dirigida e atuando decentemente, o que já demonstra bastante que, para conseguir isso, o filme é realmente bom.

CONCLUSÃO...
Sincero e delicado, acho que são as duas palavras mais honestas pra descrever esse pequeno filme, porém grandioso nas qualidades.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A LENDA TENTA SER EXPLICADA...

★★★★★
Título: O Homem das Sombras (The Tall Man)
Ano: 2012
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Pascal Laugier
Elenco: Jessica Biel, Jodelle Ferland, Stephen McHattie, Samantha Ferris
País: Estados Unidos, Canadá
Duração: 105 min

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma pequena cidade é atormentada pelo desaparecimento de crianças que, segundo alguns moradores, são levadas pelo Homem Alto. Essas crianças nunca mais são encontradas, e os esforços de uma mãe em descobrir o paradeiro de seu filho levam-na de encontro a lenda.

O QUE TENHO A DIZER...
Escrito e dirigo pelo francês Pascal Laugier, que dirigiu dois títulos de terror anteriormente, os desconhecidos Saint Ange (2004) e Martyrs (2008), mas que teve seu nome no topo dos trend topics dos fóruns de filmes de horror quando a responsabilidade do remake de Hellraiser caiu sobre suas costas. Mas por diferenças criativas (desculpa que sempre é dada em casos onde o barraco com certeza quebrou), ele largou o projeto.

Ao invés de Hellraiser, ele embarcou no projeto deste filme, que ainda é inédito no Brasil, mas provavelmente passará despercebido ou será lançado diretamente em home video por razões óbvias. É um filme construído em cima da lenda que é por nós conhecida como a lenda do Homem do Saco, que sequestra criancinhas que nunca mais aparecem. Isso fará com que ele certamente seja promovido como um filme de terror para ser vendido mais fácil, mas na verdade é um suspense que chega a ser tenso em vários momentos, mas o conflito principal, e a linha guia, é o drama. Além disso, ele possui uma temática difícil de ser digerida para muita gente, e que provavelmente não encontrarão moral definida e sairão atirando para todos os lados que o filme é ruim.

O filme não é uma obra de arte, mas também não é ruim. Ele só é diferente e confuso por ter uma mistura brusca de gêneros, e Pascal se utiliza de todos os recursos do suspense sem medo de errar, tanto na direção quanto no desenvolvimento de roteiro, para prender a atenção e contar de maneira incomum uma história com um ponto de vista diferente e, talvez, uma grande realidade, com surpresas e reviravoltas que me impedem de ser mais claro a respeito para a experiência não ser quebrada.

Encabeçado por Jessica Biel, que oferece uma atuação pra lá de convincente, a história vai surpreender bastante principalmente nos primeiros 40 minutos, perderá o fôlego próximo ao fim, mas vai deixar uma sementinha plantada na cabeça. As surpresas surgem não por pistas falsas, mas por detalhes que são revelados apenas nos momentos certos, ora pelos acontecimentos, ora pela narração feita pela personagem de Jodelle Ferlan, a mesma atriz mirim que fez a encarnação do demônio no filme de Renée Zellweger, Caso 39 (Case 39, 2008). Esses elementos oferecem seqüências bastantes tensas, e as dúvidas e os mistérios ficam no ar até o último momento.

O final poderá ser um pouco decepcionante para aqueles que esperarem algum cliché do gênero, pois a conclusão é tipicamente dramática e dará a impressão de que a situação não se encaixa muito em todo o contexto misterioso, mas aí vai depender da absorção e percepção de cada um. A idéia do filme é interessante, mas a argumentação dada é fantasiosa demais para um assunto delicado, sendo o grande atrativo apenas a forma como ela é contada e desenvolvida.

No fim das contas deve ser assistido por um ponto de vista infantil e os desejos que as crianças acabam alimentando na infância por dificuldades familiares e sociais, as lendas que esses desejos criam e a ilusão de que tudo poderia ser melhor se fosse diferente. Também é uma crítica, e uma forma de colocar os pais a pensarem sobre o rumo e as proporções que a relação pais/filhos tem tomado, e também imaginarem o pesadelo que poderia ser se as coisas não chegassem a ser diferentes, mas dessem errado.

CONCLUSÃO...
Com uma idéia bastante interessante e incomum, essa diferença entre o clima pesado de suspense e o tema dramático pode acabar sendo um choque que deixará muita gente com uma carinha de "acho que não gostei". Mas vale ser assistido pelas atuações, pela maneira como o clima é construído e pelo sentimento, mesmo que breve, de como é bom ser bem enganado.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BATMAN E SEUS AMIGOS...

★★★★★★★★
Título: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway, Gary Oldman, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Morgan Freeman, Matthew Modine
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 164 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois da morte de Harvey Dent no segundo filme, Batman assumiu todas as culpas do político corrupto, e posteriormente vilão, para que a Gothan visse em um cidadão comum um herói de verdade. Alguns anos se passaram e os tempos de guerra também, até uma nova ameaça ultrapassar os limites da cidade e os tempos de paz acabarem novamente, colocando em xeque não apenas sua resistência física, mas também psicológica.

O QUE TENHO A DIZER...
De todas as trilogias lançadas ultimamente, nenhuma chegou no nível alcançado por Batman. O Senhor dos Anéis (The Lord Of The Rings, 2001/2002/2003) consegue ser um exemplo único de excelência, mas nenhuma adaptação de quadrinhos conseguiu os méritos que Nolan conseguiu com Batman.

Tim Burton tentou fazer de Batman uma trilogia nos anos 90. Apesar do estrondoso sucesso do primeiro filme (arrecadou mais de US$400 milhões no mundo na época), o estúdio reprovou o clima sombrio e fantasioso que estavam muito mais fortes no segundo filme e que assustou um pouco a audiência, não repetindo o mesmo sucesso do primeiro filme. Pesadas críticas caíram sobre ele na época e os chefões exigiriam que o terceiro filme fosse mais leve e colorido. Burton, fiel ao seu estilo, recusou e gerou conflitos, se afastando do projeto para nunca mais voltar. Ele alegou que sua visão artística sobre as coisas é diferente da maioria das pessoas e que sua adaptação nada mais foi do que a forma como ele via o personagem. Na intenção de não ferir a visão comum novamente, além das pressões por todos os lados serem exaustantes, Burton prometeu nunca mais adaptar qualquer história em quadrinhos que fosse (ele havia recebido inúmeras propostas depois de Batman). E assim o fez e vem cumprindo.

Nolan conseguiu colocar as adaptações de quadrinhos em outro nível, justamente em um nível que Tim Burton havia tentado lá atrás. E é bastante irônico Burton ter sido duramente criticado quando, na verdade, ele foi um dos grandes responsáveis por ter traduzido o personagem numa linguagem mais popular e oferecido mudanças significativas que o herói teve tanto em caracterização, como em personalidade, aderidas em todas as mídias nos anos posteriores. Quem não se lembra da febre que foi os brinquedos do "Batman preto", como era chamado. O Batman do uniforme cinza e azul havia morrido, dando lugar a figura moderna e atualizada de Burton. Christopher Nolan aderiu muito da interpretação de Burton. A figura retraída, deprimida e soturna do personagem e o uniforme são bastante similares ao proposto por Burton no passado. Com excessão da arquitetura monocromática e biomecânica, a Gothan City de Nolan não é diferente da de Burton, já que a atmosfera gótica, fria e distante é a mesma. O foco de Nolan foi manter a fantasia dos quadrinhos e a realidade numa proximidade tangível, abordando fatos e personagens de maneira mais humana e menos extraordinária, dando explicações realistas para aquilo que antes era apenas justificativas fantasiosas e exageradas. Dessa forma, hoje podemos compreender melhor e de maneira mais verossímil porque Espantalho é um dos vilões mais assustadores, ou Coringa é o mais insano, ou Bane ser o mais forte e resistente. Até mesmo as "orelhas" da Mulher-Gato tem um fundamento e uma razão de existir na visão de Nolan.

O terceiro filme fecha um ciclo de história e de expectativa para aqueles que queriam um verdadeiro grand finale. Ele é grandioso nos seus 160 minutos praticamente imperceptíveis, com locações e cenários caóticos, muitos efeitos especiais e, principalmente, muita trama e conspiração que se enlaça perfeitamente com os filmes anteriores. Portanto, ter conhecimento dos dois primeiros filmes não é imprecindível, mas quem tiver terá uma experiência muito mais interessante.

Como foi dito em algum dos filmes anteriores e que não me lembro qual: "isso nunca tem fim". Essa frase é reafirmada de maneira diferente, mas o entendimento é o mesmo. O que não tem fim é o caos, e a proporção do crime, da corrupção e da passividade da população são ampliados como em uma lupa ao ponto de, em determinados momentos, entendermos de maneira clara as razões dos vilões fazerem o que fazem, pois essa ampliação nos deixa evidente os defeitos e as virtudes de seus atos. As justificativas dadas por eles também nos colocam em um muro sobre as atitudes do herói, nos levando a questionar se Batman existe para manter a ordem ou para manter o caos. Ele é um herói ou mais um perturbado que acredita estar fazendo o bem? Se ele é herói, por que ele sempre ajuda a manter a sociedade dentro de um platô de ignorância, ou dentro de uma mentira, como a de que Harvey Dent era um herói? Essas questões são levantadas em momentos chaves pelo mordomo Alfred, pelo detetive Blake e até mesmo por Bane e Selina.

Todos nós sabemos que o grande atrativo de Batman não é o personagem em si, que é sempre o mesmo depressivo, mimado e calculista que deixou de surpreender. A maioria das pessoas gostam do herói por causa de seus vilões que fogem dos padrões da insanidade, mas que sempre tem suas ações justificadas e até mesmo com fundos filosóficos e existencialistas. Outro ponto muito importante na franquia de Nolan é que ele soube não apenas escolher os vilões como desenvolvê-los nos filmes, dando espaço para apenas um de cada vez, ao invés de dois ou três como em outras adaptações de super heróis.

Dessa vez o sorteado foi Bane. Esse vilão surgiu nos quadrinhos em 1993. Para um herói que tem mais de 70 anos de história, Bane é um vilão relativamente novo a estar na lista dos mais grandiosos, poderosos e difíceis. Sua aceitação foi tão grande que o vilão ganhou preferência entre os fãs de forma quase que imediata nos quadrinhos. Ele chegou a aparecer pela primeira vez no filme Batman & Robin (1997), mas embora sua caracterização fosse bastante fiel à dos quadrinhos, sua personalidade era ridiculamente diferente. Nos quadrinhos Bane é um dos vilões mais inteligentes e cultos do mundo Batman, além de um exímio estrategista dependente de Venom, uma droga anabolizante que dá a ele naõ apenas a força e o tamanho que tem, mas também as alterações sensoriais e de comportamento. Mas no filme de Joel Schumacher ele foi retratado como um bombado paspalho de mentalidade limitada, o que revoltou por completo os fãs. A caracterização de Bane no filme de Nolan é forte porque Tom Hardy consegue fazer muito com pouco, mas não chega a ser impressionante e assustadora como deveria. Fisicamente concordo que Tom Hardy não tenha sido uma boa escolha para um papel que exigia um ator com largura e estatura verdadeiramente impressionantes, coisa que ele não tem, e por isso tentam a todo momento disfarçar a baixa estatura do ator com truques de câmera e angulações, mas isso pouco ajuda. Nem mesmo sua voz, que tenta ser uma releitura da cavernosa voz de Darth Vader, consegue causar um grande impacto. Em um filme com tanto cuidado técnico, deixaram passar um detalhe tão importante como esse. Logo na primeira fala do personagem o som destoa de todos os demais de maneira nítida. Não houve uma edição de som boa o suficiente para que, ao invés de colar a voz do personagem no filme, a inserisse dentro dele. A impressão que se tem é que a voz do personagem é uma gravação à parte. E realmente é. A voz do ator foi gravada, alterada digitalmente e inserida na pós-produção. Pra mim, foi um grande erro, porque quebra muito a proximidade entre o que está na tela e quem assiste.

Mas obviamente que a personagem mais aguardada pela maioria foi, sem dúvida, Selina Kyle, dessa vez interpretada por Anne Hathaway. Selina Kyle é a Mulher-Gato, mas neste filme ela não é chamada pelo nome de guerra em momento algum. São feitas apenas referências à figura da personagem, como as orelhas que ela usa durante o baile de máscaras (e seus óculos que, quando não usados, também parecem orelhas), seu uniforme que se assemelha bastante ao utilizado por Julie Newmar no sériado dos anos 60, e a forma como ela luta, que é bastante similar à de Michelle Pfeiffer em Batman, O Retorno (Batman Returns, 1992). Mulher-Gato é uma das personagens mais misteriosas e provocantes não apenas da DC Comics, mas da história dos quadrinhos. Ela não é uma heroína e nem uma vilã, ela é uma personagem solitária, feminista e contra o sistema, que rouba apenas para deixar os ricos com menos e não para proveito próprio. Tanto no filme de Tim Burton como agora, no filme de Nolan, essas características essenciais da personagem são mantidas, mas a abordagem tanto de Michelle Peiffer quanto de Anne Hathaway são bastante diferentes dentro de cada contexto. Fiquei um pouco desapontado e também concordo com quem não gostou da mudança de personalidade e direcionamento que ela sofre no decorrer do filme. Remorso, compaixão e companheirismo estão longe de ser adjetivos da personagem, e são qualidades que ela se aproxima bastante no filme de Nolan. De qualquer forma, mesmo sua personagem começando muito forte e perdendo a força no decorrer do filme, Anne Hathaway surpreende diversas vezes e conseguiu superar as expectativas, não tentando copiar ou disputar com nenhuma das anteriores, mas criando uma Mulher-Gato própria. Certamente ela já se tornou uma referência tanto quanto é Michelle Pfeiffer ou Julie Newmar. Corre a boca pequena que, entre Batman e Bane, Mulher-Gato é a personagem com maior índice de popularidade no filme, o que tem deixado o estúdio uriçado para tocar um novo projeto apenas dela e apagar o fiasco de Hale Barry da memória de todos.

Nolan já havia se consagrado um grande diretor com O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), mas neste filme sua qualidade é impecável. Em nenhum momento ele tenta fazer dessa terceira parte algo melhor que os anteriores, da mesma forma que em nenhum momento também podemos dizer que é inferior. Com a última parte da trilogia ele definitivamente conseguiu criar uma história única dividida em três partes, o que não o livra de críticas, mas que dá o mérito que pouquíssimos diretores conseguem: manter o nível de uma série. É a noção exata do que ter em mente, saber como passar para o papel e conseguir traduzir em imagens. O domínio do processo criativo.

O filme começa com a frase: "eu acreditava em Harvey Dent". E por toda e ignorante Gothan City acreditar em Harvey Dent, Batman preferiu que assim fosse ao invés de desmentir o homem de duas caras. E a partir disso o filme se desenvolve, e também ajuda a mostrar a outra face de cada um, trazendo à tona importantes revelações que chegam até a surpreender algumas vezes. Há até algumas referências e brincadeiras que ninguém esperaria. O baile de máscaras e a abordagem de Bruce Wayne e Selina Kylie oferece um leve e interessante deja vu de uma cena similar em Batman, O Retorno, ou a participação de Cillian Murphy como o Juíz, após a explosão do presídio, que também é um episódio presente nos quadrinhos.

Particularmente eu esperava uma resolução mais trágica ou uma grande batalha de fato, tanto quanto foi nos quadrinhos, mas isso só teria acontecido se não fosse o fim de uma trilogia. De qualquer forma, não posso dizer muito mais sobre o filme porque ele consegue surpreender bastante, e apesar de algumas coisas que considerei desagradáveis, saí do cinema bastante satisfeito e nenhum pouco enganado. Embora a trilogia seja baseada fortemente na série de Frank Miller, O Cavaleiros das Trevas Ressurge (1986), este último filme também tem grandes referências de um período nos quadrinhos entitulado A Queda do Morcego (Kinightfall). Logo, quem conhece ao menos o básico desses dois períodos não só vai prever muito do que acontece no filme como também vai encontrar várias outras similaridades e referências que eu poderia contar, mas seria estragar as surpresas que não apenas Nolan, mas como todos os atores conseguiram guardar tão bem.

CONCLUSÃO...
Um dos raros momentos em que é possível sair do cinema satisfeito com o fim de uma trilogia. Há uma linearidade e coerência entre os três filmes que só é compreendida depois de terminar de assistir esta terceira e última parte. Não chega a ser perfeito, mas os defeitos ficam facilmente debaixo da sombra das qualidades que aparecem porque, depois dos dois primeiros filmes, não estamos mais interessados muito no que há para mostrar, mas no que há para ser contado e como tudo vai terminar. Há o fato de podermos ter a oportunidade de interpretar outras facetas do herói frente a seus constantes erros.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

ESQUECÍVEL...

★★★★
Título: 360
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Lucia Siposova, Gabriela Marcinkova, Johannes Krisch, Rachel Weisz, Jude Law, Juliano Cazarre, Maria Flor, Anthony Hopkins, Ben Foster
País: Áustria, Brasil, França, Reino Unido
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre várias pessoas, de várias nacionalidades, espalhadas por aí, que não se conhecem, mas partilham de uma coisa em comum: da dificuldade de fazer a melhor escolha em suas vidas.

O QUE TENHO A DIZER...
Fernando Meirelles é aquele diretor que ficou famoso e internacionalmente conhecido por Cidade de Deus (2002) e que se tornou um diretor renomado e requisitado ao novamente levar para o Oscar seu filme seguinte, O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, 2005). Depois disso ele adaptou Ensaio Sobre a Cegueira (2008), que pouca gente gostou e foi mal interpretado por muitos, mas nada disso importa quando o próprio autor da obra, José Saramago em pessoa, aprovou a adaptação.

Por ter se despontado internacionalmente, Meirelles virou uma figura poderosa no Brasil, um au concour, daquelas que as pessoas admiram o trabalho mesmo muitas vezes sem saber do que se trata ou entendendo nada, numa atitude falsamente cult e venerável, coisa que brasileiro sabe fazer muito bem. Não que ele não tenha motivos para isso, porque ele tem, mas sabemos que isso abstrai as pessoas de senso crítico.

Bom, não é o que acontece comigo.

360 está sendo promovido enganosamente por aí como um suspense ou algo do tipo, colocando o nome de Meirelles em letras garrafais juntamente com alguns nomes importantes do elenco como Rachel Weisz, Jude Law e Anthony Hopkins. Isso é observado pelo próprio poster, com fotos do elenco em surpresa e apreensão. Mas a verdade é que o filme é um drama chato, o pior dos filmes de Meirelles, e os atores famosos são, na realidade, elenco de apoio, pois o filme mesmo é carregado nas costas pela outra parte do elenco desconhecido e que nem ao menos leva os créditos. Talvez a distribuidora saiba o péssimo filme que tem em mãos, e agora vão tentar fazer das tripas coração para vendê-lo de alguma forma, já que o fracasso é iminente.

O roteiro é assinado por Peter Morgan, roteirista bastante competente e que já assinou outros filmes interessantes com temáticas que a Academia de Hollywood sempre adora como: O Último Rei da Escócia (The Last King Of Scotland, 2006), A Rainha (The Queen, 2006), A Outra (The Other Boleyn Girl, 2008), Frost/Nixon (2008) e Outra Vida (Hereafter, 2010).

No meio de tantas pérolas que Morgan escreveu provavelmente estava 360, de escanteio, acumulando pó e ficando com as páginas amarelas de velhice, que só não foi filmado antes OU porque todos os diretores anteriores acharam que este filme seria só mais um OU porque realmente era a última opção. Qualquer que seja a razão, o fato é que ele é mais um e também seria a última opção, pois a história segue a mesma e velha premissa da ultra-conexão puxada por Robert Altman e seu Short Cuts - Cenas da Vida (Short Cuts, 1993), ou seja, aquela narrativa onde vários personagens com histórias distintas se interconectam no final. Esse estilo narrativo foi utilizado incansavel e exaustivamente como em Magnolia (1999) e Crash (2004), só pra citar os mais conhecidos porque a lista é interminável, filmes os quais 360 se identifica o tempo todo, mas que é aquele irmão bastardo, renegado e desprezado pela madrasta má.

Essa narrativa, mesmo exausta, ainda consegue surpreender e envolver de alguma forma, por isso que as pessoas gostam tanto. Mas não é o caso desse filme que é exatamente como o título se refere, uma volta inútil para a chegada ser o ponto de partida, tanto que ele termina do jeito como começa, e isso não é estragar a surpresa porque logo no começo do filme já é possível prever tudo isso.

O roteiro parte da metáfora de que em uma estrada devemos sempre ir onde a bifurcação está,, mas cabe a nós e a mais ninguém escolher qual lado dela seguir. Sabemos muito bem que essa decisão é difícil quando nos deparamos em situações como essa, e Meirelles tenta dar tantos exemplos que ele se perde no caminho, não conseguindo se aprofundar em nenhum. Ao invés de nos dar pontos de vista relevantes e seguros sobre a vida e suas decisões, acaba virando mais um filme sobre dramas amorosos e traição, quando estes são os temas que menos esperaríamos de um filme assim, deixando de lado assuntos mais relevantes e exemplos menos óbvios.

Só pra ter uma idéia, três casais na história estão em uma relação amorosa falida, ou seja, seria seis pontos de vista distintos sobre a mesma história. O grande problema é que esses pontos de vista não mudam muito de um personagem para o outro, dando a impressão que estamos vendo sempre a mesma coisa e que esse grande número de personagens é, na verdade, desnecessário, quando era muito mais simples fazer apenas uma história bem feita.

É um filme entediante que só é salvo do completo fracasso por alguns pequenos detalhes como: a edição bem feita e que consegue vagar entre os episódios com certa naturalidade, sem mudanças muito bruscas ou rápidas demais com conexões entre cenas que chegam a ser até interessantes; as atuações que, embora desperdiçadas, funcionam dentro dos esquetes; a direção de Meirelles, embora esteja comum e simples nesse filme, é efetiva e vale ser observada pelo cuidado que ele tem por pouco, como os ângulos de câmera, posicionamentos e até pela ousadia de ter lidado com um elenco de mais de 12 atores principais.

Mas falta profundidade porque nunca uma história é observada de perto o bastante, nunca sabemos o motivo de algo, como se um livro tivesse sido vendido só com a metade final, virando muito mais uma união de crônicas semelhantes e pobres de argumento do que exemplos relevantes. Tudo é muito superficial e o filme nunca nos mergulha em alguma das histórias ou realmente nos dá alguma importante filosofia ou conclusão. É fato que quando algo acontece nunca sabemos as razões de imediato, talvez essa tenha sido a intenção do filme, mas essa distância entre quem age e quem sofre, mas nesse caso entre quem age e quem assiste, não funcionou dessa vez.

CONCLUSÃO...
É esquecível. Qualquer outro filme com narrativa similar consegue ser melhor, até mesmo o mais recente O Exótico Hotel Marigold (The Exotic Marigold Hotel, 2011), que também parte da idéia da ultra-conexão, consegue ser melhor em vários aspectos. É uma pena, já que Meirelles é um homem de poucos e bons filmes, mas errou a mão e a dose dessa vez.

sábado, 21 de julho de 2012

"NÃO É ASSIM QUE AS COISAS FUNCIONAM..."

★★★★★★★★
Título: O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida (The Lorax)
Ano: 2012
Gênero: Animação, Fantasia, Comédia
Classificação: Livre
Direção: Chris Renaud e Kyle Balda
Dublagem original: Zac Effron, Taylor Swift, Danny DeVito, Ed Helms, Betty White, Rob Riggle, Jenny Slate
País: Estados Unidos
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um guardião da floresta, a voz das árvores, que aparece quando a natureza está ameaçada na tentativa de defendê-la através do diálogo e da mudança de consciência, ou seja, a batalha e o caminho mais difícil.

O QUE TENHO A DIZER...
Para quem não sabe (assim como eu também não sabia até pesquisar), O Lorax é um personagem bastante antigo criado nos anos 70 por Dr. Seuss, ou Theodor Seuss Geisel, um escritor, poeta e cartunista mais conhecido pelos seus livros e personagens infatis como O Grinch e O Gato, personagens e histórias que também já viraram filmes, sendo o primeiro interpretado por Jim Carrey em 2000 e que fez muito sucesso, e o segundo por Mike Myers em 2003 e que foi um fracasso em todos os sentidos. Por isso que demorou alguns anos até suas histórias voltarem a ser produzidas, mas agora, definitivamente como animações, como Horton e o Mundo dos Quem! (Horton Hears a Who!, 2008) e O Lorax.

Os livros infantis de Dr. Seuss eram fábulas escritas especificamente para orientar, educar e conscientizar crianças durante a fase de desenvolvimento e aprendizagem, tanto é que a linguagem que o autor utilizava era sempre muito fácil e acessível com vocabulário limitado e distinto para cada determinada fase infantil, tanto que os livros continham palavras básicas e comuns e eram estritamente limitados a elas. Houve livro que ele se limitou a utilizar apenas 50 palavras e em outro apenas 250 palavras porque a intenção dele não era fazer do livro um instrumento da língua, mas como uma comunicação eficiente de educação.

É dessa forma O Lorax surgiu, com a intenção de educar de maneira eficiente, bem humorada e fantasiosa de que o meio ambiente deve ser conservado e sustentado, e não destruído, pois é ele que nos oferece tudo o que precisamos para consumo imediato ou como matéria-prima, não havendo necessidade de destruí-lo para ter o que queremos, porque caso isso aconteça, perdemos tudo, como o filme mostra.

E é assim como o filme desenvolve, chamando a atenção das crianças pelas cores, pelos personagens carismáticos e alguns números musicais que não são jogados à toa, mas para complementar a história e sua moral que gira em torno da busca de uma árvore de verdade, chamada de Trúfula, que foi extinta devido à sua exploração desenfreada.

Tem como diretores Chris Renaud, cujo primeiro longa de animação foi o bonitinho Meu Vilão Favorito (Despicable Me, 2010), e Kyle Balda, mais experiente com curtas de animação. Os roteiristas Ken Daurio e Cinco Paul também são os mesmos de Meu Vilão Favorito. De certa forma lembra um pouco Wall-E (2008), já que as críticas e a moral são praticamente as mesas. Mas enquanto no filme do robô simpático e expressivo havia pouquíssimos diálogos e fez dele instantaneamente um clássico moderno da animação, neste filme há diálogos demais e muito rápidos, o que talvez não dê tempo para o público infantil absorver tanto as idéias como deveria e dar valor às belas coisas mostradas nele. Não será tão relembrado como Wall-E, mas com certeza será um dos favoritos nas premiações do ano que vem.

O público adulto também vai gostar e se divertir, até porque tudo que é posto em discussão no filme de maneira emblemática, serve para todos. Mesmo não sendo o personagem principal, o Lorax é naturalmente, sem dúvida, o mais expressivo pela maneira como ele batalha na defesa da natureza usando apenas o diálogo e o bom senso para promover a consciência e não a força bruta, já que "não é assim que as coisas funcionam", como ele diz. Isso já é o suficiente para podermos nos espelhar em um personagem quando temos poucos exemplos humanos para isso.

CONCLUSÃO...
Bela animação com seqüencias até deslumbrantes de tanta cor e personagens e uma excelente aula infantil de conscientização e sustentabilidade, assuntos tão atuais hoje em dia. Mas não apenas para as crianças, é também um tapa na cara de muitos adultos que não se importam muito com o assunto.

DRAMINHA FAMILIAR À MODA ANTIGA...

★★★★★★★
Título: Crimes do Coração (Crimes Of The Heart)
Ano: 1986
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Bruce Baresford
Elenco: Diane Keaton, Jessica Lange, Sissy Spacek, Tess Harper, Sam Shepard
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma jovem tenta matar o próprio marido e está respondendo em liberdade por um crime que ela insiste em não revelar as razões até mesmo para suas duas irmãs que se unem a ela para apoiá-la neste momento difícil. Mas o momento difícil não é apenas para uma delas, mas para todas, e assim os atritos irão surgir, mas a união ficará mais forte.

O QUE TENHO A DIZER...
Como eu nasci nos anos 80, tem muita coisa dessa época para trás que perdi, e resgatar, reviver ou relembrar esses filmes é às vezes difícil porque se eu mal consigo acompanhar os atuais, imagina os antigos? Assisto o que posso e consigo, e às vezes fico curioso por algum título e esse foi um deles.

Este filme é uma adaptação da peça homônima de Beth Henley, que embora tenha sido escrita em 1978, só foi fazer tremendo sucesso na Broadway em 1981, totalizando mais de 530 apresentações. O roteiro do filme também é assinado inteiramente pela própria autora, a qual concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado daquele ano, juntamente com o de Melhor Atriz para Sissy Spacek e Melhor Atriz Coadjuvante para Tess Harper, que faz a prima espetaculosa das irmãs Magrath.

Eu gosto dos draminhas familiares norte-americanos, principalmente os da década de 80, porque foi uma época em que filmes do estilo "comédia trágica" e os de ação absurdos faziam muito sucesso. As mulheres iam ao cinema para assistir filmes como esse, Laços de Ternura (1983) ou Flores de Aço (Steel Magnolias, 1989), enquanto os homens iam ao cinema para assistir Indiana Jones, Rambo ou Chuck Norris.

Esses gêneros são melodramáticos demais. Há sempre um momento apelativo que nos obriga às lágrimas e é inevitável, mas o mais importante é que esses momentos ainda eram méritos dos próprios atores. Não era como agora é o cinema mais atual (lá pela metade dos anos 90 em diante), em que a tecnologia favoreceu demais a produção mais barata e de massa sem deixar de ser classuda, e sempre há alguma trucagem por trás de uma interpretação como uma iluminação mais condensada, uma maquiagem mais apelativa, ou uma trilha sonora invasiva que abusa do choroso violino, mexendo de forma subliminar com nossas sensações ao invés de nos convencer de que aquilo é uma verdade. Antigamente as coisas não eram tão elaboradas assim pra uma produção simples, e para um ator ou uma atriz ser a estrela principal de um filme ele(a) até podia ser bonito(a), simpático(a) e único(a), mas principalmente tinha que ter talento suficiente pra carregar uma história toda nas costas e fazer aquilo ser bom, mesmo se não fosse. O mesmo quando havia reunião de grandes atores, como é o caso deste título. Esta também era a apelação da época, fazer com que as pessoas entrassem no cinema e saíssem discutindo quem ofereceu a melhor atuação.

A história, um tanto quanto simplista perto dos dramas atuais, acaba não convencendo muito para quem está mais acostumado com o formato dramático de hoje, mas o roteiro de Beth Henley desenvolve a história sem se perder, dando espaço suficiente para cada personagem sem favorecer mais uma do que outra, revelando e conectando os acontecimentos nos momentos certos e sem pressa. Além disso, há também as discussões bastante rápidas, discretas e implícitas sobre posicionamentos políticos, ou questões sociais a respeito da tolerância ao racismo e infidelidade. Há até pequenas introduções ao feminismo, no sentido do crescimento da independência feminina e do controle de suas próprias decisões, e também da pedofilia, numa época em que abordar o sexo com menores de idade era tratado como algo comum, já que nunca era discutido pelo ponto de vista polêmico, pois era um grande tabu, por isso sempre mostrado como uma relação arranjada ou como um sentimento puro e inocente.

As irmãs Magrath são vividas por Diane Keaton (Lenny), Jessica Lange (Meg) e Sissy Spacek (Babe). Lenny é a irmã do meio, mas age como se fosse a mais velha. Eu, particularmente, nunca gostei de Diane Keaton. Tem gente que a considera uma grande estrela e atriz. Pode até ser. Mas ela tem uns vícios de interpretação e uma mania de sempre enfiar um ataque histérico e caricato nas personagens de forma irritante. Sempre a vi como uma atriz velha, até mesmo nos filmes de quando era bem nova, como se ela tivesse feito questão de ser uma anti-estrela com sua imagem de mulher deslocada, ora com suas gravatas, ora com as roupas de vovó, como se quisesse competir, chamando atenção igual criança, e no meio de interpretações muitas vezes sutis como as de Jessica Lange e Sissy Spacek, óbvio que Diane tenderia ao bizarro vestindo seus cardigans e atuando com os costumeiros chiliques e chacoalhadas de cabelo de sempre, beirando a insanidade chata e caricata de uma personagem atormentada por ter perdido boa parte da vida cuidando de um avô doente e nunca ter tido um grande amor. Mas felizmente temos Meg, a irmã mais velha e ousada, independente, livre, sexy e espontânea, atormentada com os excessos do avô machista no passado. A própria figura de Jessica Lange já é um atrativo, ela é naturalmente imponente, um rosto belíssimo e de traços fortes, elegante, uma estrela de fato, atuando com uma ironia perfeita. Por outro lado há Babe, a irmã caçula que ficou bastante perturbada com o suicídio da mãe, com atitudes um tanto tolas e infantis por conta disso e que vem a prejudicar não apenas ela mesma, mas todas as irmãs.

Embora tenha a tendência de ser um filme apelativo com a história de uma família tão perturbada e cheia de problemas, o uso de todos esses elementos acaba não pecando pelo excesso. Há sempre uma coerência sincera e um equilíbrio agradável que coloca a relação familiar, o apoio e a necessidade desses laços acima de qualquer coisa, e que os crimes do coração são as nossas próprias anulações.

CONCLUSÃO...
Um bom melodrama familiar típico dos anos 80 que, ao invés de ser apelativo, é sincero e equilibrado com grandes interpretações e seqüencias memoráveis.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

VIDA DE EMPREGUETE...

★★★★★★★
Título: As Mulheres do Sexto Andar (Les Femmes Du 6ème Étage)
Ano: 2010
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 12 anos
Direção: Philippe Le Guay
Elenco: Fabrice Luchini, Sandrine Kiberlain, Natalia Verbeke, Carmem Maura, Lola Dueñas, Berta Ojea, Nuria Solé, Concha Galán
País: França
Duração: 104 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Durante a década de 60, enquanto Espanha ainda atravessava o período diatorial de Francisco Franco, milhares de imigrantes atravessaram a fronteira Francesa para trabalhar, dentre eles mulheres que foram viver em condições precárias para trabalhar de empregadas domésticas e ajudarem suas famílias na Espanha durante a crise. Em um prédio mora o dono do condomínio e sua mulher no quinto andar, e no sexto andar seis domésticas espanholas que irão transformar a vida deste homem completamente, abrindo o seus olhos para a vida e os pequenos prazeres que fazem dela algo tão valioso.

O QUE TENHO A DIZER...
Como é bom assistir um filme europeu, seja comédia, drama ou romance. Dificilmente caem nos clichés comuns, são pouco óbvios e gostam sempre de tratar de assuntos pouco rotineiros e de forma inteligente, construindo boas histórias sobre temas simples, recheados de bons argumentos. Mas até mesmo quando caem no cliché, como acontece algumas vezes nesse filme, pouca atenção é dada, pois o que importa é o que está sendo construído em volta dele, fazendo do cliché um coadjuvante de pouca relevância. Isso acontece graças ao diretor Philippe Le Guay, que também assina o roteiro um tanto autobiográfico, já que ele também era filho de um investidor e foi criado por uma empregada espanhola. Não recebeu atenção devida, chegando no Brasil até com bastante atraso.

Fui pego de surpesa pois nunca tinha ouvido falar dele antes, e o filme mais me interessou porque gosto desses temas que costumam juntar um grande elenco feminino. Não sei, acredito que as mulheres sempre tem muitas excelentes histórias pra contar, e não seria diferente em um filme em que a predominância é de atrizes espanholas (dentre elas, a querida de Almodóvar, Carmem Maura).

Obviamente o contraste é gritante entre o exagero espanhol e a panca do conservadorismo francês, e isso já é percebido logo no começo quando a faxineira do condomínio (que também faz as vezes de uma síndica), a Sra. Triboulet (Annie Mercier), comenta ao Sr. Joubert (Fabrice Luchini), o dono, que não aguenta mais tanta festa feita pelas espanholas. Porque os espanhóis são assim mesmo, enquanto os franceses são virados, enjoados e sempre num exagerado requinte. E sobre esse mote o filme se desenvolve junto com a contratação da bela espanhola Maria (Natalia Verbeke). Jean-Luis Joubert se encanta por Maria logo no primeiro dia, pois ela sabe fazer ovos quentes, algo que sua antiga empregada que trabalhou com sua família por vinte anos, nunca soube acertar o ponto.

Este é o cliché básico, a linha mestre de uma história que será tricotada entre uma ou outra citação importante e que tem íntima relação com todos os choques culturais e sociais entre esses dois grupos, como as crises econômicas na Espanha por conta da ditadura que levou Francisco Franco ao reinado; a segregação social francesa; o desconforto entre franceses e espanhóis, talvez pela falta de apoio francesa durante o periodo Franco (que boicotou a venda de produtos para os espanhóis durante a ditadura) e/ou pelo inchaço populacional por conta da imigração espanhola (e que posteriormente foi feita pela população portuguesa); e da falta de um sindicato de empregadas domésticas, o que as obrigavam a aceitar condições de assédio e maus tratos. Há também a exploração da mão de obra imigrante, como as péssimas condições de trabalho, habitacionais e de saneamento em que viviam aqueles que moravam no último andar, ou seja, os empregados. No filme tudo é representado de forma um pouco mais sutil, mas real.

Tudo isso é discutido de forma leve e com bom humor, principalmente nas poucas vezes em que a queixo-duro da espanhola Carmem (Lola Dueñas) solta frases revolucionárias ou tenta alertar as demais com suas desconfianças exageradas.

Unido a tudo isso há o casamento falido entre o Sr. e a Sra. Joubert, regado a uma rotina desinteressante em que o marido sabe de cor os deveres de cada dia de sua mulher. Sem outros grandes interesses na vida, ele passa a prestar mais atenção nas empregadas do andar de cima, despertando interesse por suas histórias e se sentindo útil e querido por ajudar cada uma delas, algo que não sentia há muito tempo com sua própria esposa. Claro que tudo isso fora despertado pelo sentimento que constantemente cresce entre ele e Maria, mas que se torna bastante relevante em sua vida quando a união das espanholas se mostra receptiva e amigável de uma forma que ele nunca imaginou, ou melhor, nunca se preocupou em imaginar.

Há dois acontecimentos no filme que não ajudam muito, como a compra de ações na Bolsa de Valores realizada pelas empregadas (nada mais sobre isso é dito) e a noite de amor entre Maria e Jean-Louis, que poderia ter sido dispensada e substituída por qualquer outra coisa. Mas não atrapalha em nada o resultado agradável que ele proporciona.

CONCLUSÃO...
É um filme extremamente prazeroso de se assistir e de certa forma ingênuo dentro de tantos fatos e acontecimentos turbulentos, sem contar que a década de 60 é representada com figurinos e cenários simples mas estilosos, dando muito mais densidade na história contada. Claro que o filme termina em um final feliz e esperado de Cinderela, mas no cinema europeu o filme geralmente acaba antes do açúcar derreter.

terça-feira, 17 de julho de 2012

DELICADO...

★★★★★★★★
Título: Tomboy (Tomboy)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Céline Sciamma
Elenco: Zoé Heran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy
País: França
Duração: 82 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma menina de 10 anos de idade que, pouco tempo depois de mudar para uma nova vizinhança, passa a se apresentar como um menino e a partir daí uma decisão é feita e que poderá afetar toda sua vida.

O QUE TENHO A DIZER...
Este é o segundo filme dirigido pela diretora e roteirista Céline Sciamma e, assim como o seu filme anterior, o pouco conhecido Lírios D'Agua (Naissance des Pieuvres, 2007), a temática fica num período que é bastante definitivo em muitas coisas na vida do ser humano, a adolescência.

Tomboy é o termo que se refere a meninas que agem, se vestem, praticam atividades e possuem características de meninos e, embora exista uma relação com o lesbianismo, nem sempre uma característica leva à orientação sexual e/ou vice-versa.

Como anualmente é de praxe, sempre surge um filme para ser a referência desse gênero naquele ano, e esse foi o principal deles em 2011, também encabeçando a lista dos filmes importantes nas temáticas de discussões sexuais envolvendo a trangeneridade e as orientações. Um prato cheio pra quem é militante de causas ou simplesmente gosta de discutir a complexidade sexual. Não é à toa que foi um filme elogiadíssimo em todos festivais da diversidade em que foi apresentado, recebendo também alguns prêmios importantes não pelo gênero, mas como obra cinematográfica.

Eu particularmente não gosto muito dessa coisa de pegar uma obra e datá-la, taxá-la ou rotulá-la como um exemplo da comunidade sexualmente diversa. Arte é arte, ela não tem nome, não tem sexo, não tem idade e é absorvida de maneira diferente para cada um, em maior ou menor intensidade.

É um filme delicadíssimo, mas que possui uma carga psicológica muito maior do que aparenta, principalmente para as pessoas que conseguem identificar e compreender as dificuldades, os temores e se colocar inteiramente no lugar da personagem principal, Laurie (Zoé Héran), uma pré-adolescente de dez anos de idade que naturalmente apresenta características trangêneras, ou seja, embora seja do sexo feminino, apresenta características que não se enquadram nas atribuições de gênero dadas pela sociedade. Juntamente da mesma forma como sua orientação sexual passa a ser descoberta juntamente a isso.

Essa atribuição de gênero é demonstrada logo no começo do filme quando, na rua, ela é confundida com um menino. Essa cena é extremamente importante para todo o filme porque tem um impacto muito grande ao colocar a personagem em dúvida com ela mesma, acendendo os questionamentos sexuais inerentes de seu período de vida, época em que não existem muitas diferenças físicas entre meninos e meninas além do sexo. Essa dificuldade de diferenciar um do outro é constantemente abordada, deixando claro que todo pré-adolescente está enquadrado em uma transgeneridade natural, e o que os diferem na sociedade são seus comportamentos sociais.

O comportamento social de gênero impõe que os meninos ajam como meninos: joguem bola, andem sem camisa, cuspam na rua, briguem. Enquanto as meninas devem agir como meninas: serem delicadas, comportadas e brincarem de boneca. Laurie não se enquadra nesse comportamento dividido, ela prefere muito mais sair para jogar bola do que brincadeiras mais caseiras com sua irmã mais nova, que no filme é o exemplo da menina social; prefere os cabelos curtos, porque são mais práticos; prefere as bermudas e regatas porque são mais confortáveis; não gosta de maquiagem porque não está acostumada.

Pelo receio de ser rejeitada entre os meninos, ela resgata a idéia de poder ser confundida com um, se apresentando a todos do bairro como Mickael, e como o aspecto visual a caracteriza como um, ela então é aceita.

O filme se transforma numa montanha russa a partir do momento que Mickael se envolve em uma briga com outro garoto e sua mãe descobre que Mickael, na verdade, é sua filha. A partir daí o conflito social e psicológico se chocam frente a frente, num drama real entre como se posicionar socialmente e como solucionar sem ser traumatizante o suficiente para trazer consequencias desastrozas durante o amadurecimento físico e psicológico da personagem.

A partir daí é possível traçar várias discussões, desde o posicionamento da mãe, se teria sido melhor ou pior agir justificavelmente como ela fez, até o posicionamento das outras pessoas e do assédio que Laurie sofre depois que é revelado o segredo que ela escondia. Também é possível discutir se a orientação sexual da personagem simplesmente se aflorou com as decisões ou foi direcionado por conta das decisões. Para mim, o fato da personagem ser uma pré-adolescente facilita a absorção do sofrimento e das angústias que ela passa por partilharmos da inocência e da naturalidade que a idade carrega, o que seria diferente se fosse um filme tratando da mesma abordagem com personagens adultos, o que é mais um ponto positivo para a roteirista e diretora em como carregar o público com leveza em cima de um assunto bastante polêmico.

A direção e o roteiro são bastante sutis e respeitam os limites de todos os personagens. Um filme lento, mas que nos insere na vida de Laurie, que é apenas uma mero exemplo de experiências e fatos comuns entre muitos, sejam homens ou mulheres. O elenco juvenil é outro ponto forte e em nenhum momento sentimos que estamos no meio de atores amadores, embora muitos deles sejam.

CONCLUSÃO...
Mesmo sendo delicado, há momentos difíceis e angustiantes, pois mostra os limites da tolerância e os constrangimentos que as pessoas tem que passar, muitas vezes ainda na infância, simplesmente para justificar para a sociedade comportamentos que fogem das regras que ela mesma impõe na dicotomia homem/mulher e nada mais, como se o ser humano fosse simples dessa forma.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

NÃO É DESSA VEZ, IRMÃOS FARRELLY...

★★★
Título: Os Três Patetas (The Three Stooges)
Ano: 2012
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Peter & Bobby Farrelly
Elenco: Sean Hayes, Will Sasso, Chris Diamantopoulus, Jane Lynch, Sophia Vergara, Jennifer Hudson
País: Estados Unidos
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Vamos dizer que o filme conta o início de tudo. Os três recém nascidos são deixados na porta de um orfanato que, depois que crescem, está ameaçado de fechar por conta de dívidas. Intecionados a resgatar aquilo que para eles é uma grande memória de infância, eles acabam se envolvendo em um crime enquanto se transformam em estrelas de um reality show.

O QUE TENHO A DIZER...
Não há muito o que se esperar de mais um filme dirigido, escrito e produzido pelos irmãos Farrelly, que ficaram famosos no passado ao trazer de volta o estilo "comédia pastelão", mas com pitadas mais grosseiras, como nos filmes Debi & Lóide (Dumb & Dumber, 1994) e Quem Vai Ficar Com Mary? (There's Something About Mary, 1998). Mas a grosseria dos irmãos Farrelly nunca gerou antipatia porque as situações eram sempre muito ingênuas como as pataquadas dos irmãos mentalmente limitados Debi e Lóide, ou até mesmo o "gel de cabelo" de Mary. Mas com o passar dos anos parece que os diretores perderam um pouco o ritmo e tentaram se superar cada vez mais nas piadas prontas e em personagens cada vez mais estranhos, investindo em tipos esquisitos que se tornaram muito mais em figuras bizarras do que simplesmente excêntricas, como o personagem com múltiplas personalidades de Jim Carrey em Eu, Eu Mesmo e Irene (Me, Myself & Irene, 2000), a obesa mórbida de Gwyneth Paltrow em O Amor É Cego (Shallow Hall, 2001), ou os gêmeos siameses de Matt Damon e Gregg Kinear em Grudado Em Você (Stuck On You, 2003), filmes que não tiravam mais do que algumas risada às vezes forçada do público e que foi distanciando as pessoas cada vez mais. E eles nunca mais repetiram o mesmo sucesso que foram os seus dois primeiros filmes, e as pessoas hoje em dia raramente lembram quem são os irmãos Farrelly. Isso é irônico, porque eles caíram exatamente no clichê de quem faz humor, e em um dia faz muito sucesso e todos gargalham, e no outro há poucas pessoas dando algumas risadas.

Faz tempo que os irmãos Farrelly estão tentando reconquistar um público perdido, e encontaram em Os Três Patetas tudo aquilo que, em uma época passada, tinha muito a ver com eles: a comédia pastelão e absurda. O filme não rendeu muita coisa e embora tenha custado US$17 milhões, não arrecadou mais do que US$44 milhões, até porque ele ainda não foi lançado em muitos países. É uma quantidade decepcionante para um filme que projetaram para ser sucesso e o grande retorno desses diretores, mas parece que não agradou muita gente.

Também, pudera, não é mesmo? Para quem já chegou a assistir Os Três Patetas original, sabe que o timing de comédia desses grandes humoristas e comediantes norte-americanos era de uma pontualidade e um sincronismo incomum, incomparável e irreprodutível. Atores que ficaram por mais de três décadas arrancando gargalhadas e se transformaram em ícones e referências ao gênero e a tudo que seja considerado escrachado juntamente a demais grandiosos atores como Charles Chaplin ou Jerry Lewis.

Nessa história dos irmãos Farrelly, há uma tentativa de trazer para a atualidade os três personagens que surgiram em 1934 (reparem que na porta do orfanato há uma inscrição dizendo "FOUNDED 1934") naquele sempre erro hollywoodiano de buscar a conexão rápida e fácil com o público. Então colocaram os três patetas em um ambiente mais atual, e assim o público se sente mais agradado e confortável do que se tivessem situado a história nos anos 40 ou 50 e filmado em preto e branco.

Os três atores se esforçam bastante na caracterização e até rendem algumas risadas em momentos onde é nítido que a interação entre eles está melhor do que em outras partes que, talvez, foram as primeiras a serem filmadas. Uma outra coisa bastante interessante é que os três atores realizaram a maioria de seus trabalhos anteriores na televisão e não no cinema, e essa linguagem que eles também conhecem muito bem talvez é o que tenha facilitado o processo. A única coisa que tenta se manter um pouco fiel é realmente a caracterização, o sincronismo entre eles e algumas outras situações notoriamente forçadas e que não conseguem de forma alguma reproduzir o mesmo tempo de comédia e a mágica que fazia os originais serem tão naturalmente engraçados.

O filme termina com dois atores se passando pelos irmãos Farrelly em uma seqüência explicativa para o público infantil, já que na época em que o seriado original passava, muitas crianças imitavam os chamados pokes (como as dedadas no olho) que os personagens faziam, o que gerou muito problema na época. Então, numa época em que tudo nos Estados Unidos é motivo para aumentar a faixa etária da censura, essa explicação soou mais do que obrigatória. A única coisa que não compreendi é a razão de terem colocado dois atores que mais parecem galãs de filme pornô para fazerem isso.

CONCLUSÃO...
Vai agradar muita gente, talvez pelo público infantil que adora uma comédia pastel ou o público mais velho que não assiste muitos filmes. Poderia ser uma excelente homenagem caso não tivesse havido essa grande intenção de fazer tudo meticulosamente perfeito para ser um sucesso, e o resultado é simplesmente mais um produto descartável e esquecível dos irmãos Farrelly, e para o público mais nostálgico e saudosista esse filme soará mais como uma aberração.

sábado, 14 de julho de 2012

BOM E BARATO...

★★★★★★
Título: Sequestro no Espaço (Lockout)
Ano: 2012
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: James Mather e Stephen St. Leger
Elenco: Guy Pierce, Maggie Grace
País: França
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um agente de segurança que se encontra no meio de uma conspiração, é preso e condenado a passar sua sentença em um coma induzido, mas tem a oportunidade de reverter a situação ao receber a missão de resgatar a filha do Presidente dos EUA que virou refém de uma rebelião de uma prisão de segurança máxima no espaço.

O QUE TENHO A DIZER...
É filme de estréia dos diretores James Mather e Stephen Saint Leger e tem alguns fatos interessantes como ser um filme Francês, falado inteiramente em inglês e feito com um orçamento de aproximadamente US$20 milhões, o que é uma quantidade risória para um filme de ação/ficção futurista e espacial. Usa como referência os filmes de ação/ficção futuristas dos anos 80 e 90, como os de James Cameron ou Paul Verhoven e estrelados por Arnold Schwarzenegger, em que o herói é politicamente incorreto, com personalidade muitas vezes irredutível (até o último instante) e que adora soltar frases irônicas e de efeito, recheado de seqüencias de ação absurdas e vilões caricaturados. Em resumo: o uso de muitos clichés, sem vergonha alguma.

Isso é feito com tanto entusiasmo que chega a ser um pouco irritante. A história começa sem muitos problemas, e a sequencia inicial com o interrogatório do personagem chega a ser engraçada e suficiente para sabermos como é a personalidade dele e como costuma reagir às situações. Depois disso o filme segue nos clichés já citados, desenvolvendo a história num presídio de segurança máxima no espaço. É ação do começo ao fim, não tem tempo pra muito diálogo, então quem gosta disso, vai se divertir bastante. O fim acaba fazendo revelações em uma seqüencia já vista em outros filmes, mas que foi construida de maneira bem legal e que acaba elevando um pouco o nível.

Por ter tido um orçamento tão baixo, chega a ser vergonhoso algumas seqüencias com efeitos visuais bem precários, principalmente no início, mas que vai melhorando no decorrer dos minutos e, realmente, o mérito dos diretores foi ter feito muito com tão pouco, o que não faz do filme um grande exemplo além de ser bom e barato. Mais vale ser visto pelo sempre ótimo Guy Pearce, no auge dos seus 45 anos, que deveria ser mais aproveitado em filmes de ação e de melhor qualidade (ele vai estar em Homem de Ferro 3), mas que acaba perdendo o tom toda vez que a chatinha, aguada e sem postura Maggie Grace entra (aquela que fazia Lost). O filme não é ruim, mas não foge do roteiro batido e perde um pouco o ritmo quando a personagem de Maggie começa a ter maior participação.

CONCLUSÃO...
Não tem muito o que se falar sobre ele, pra quem gosta de filme de ação vai encontrar aqui um prato cheio. E vou dizer que é melhor que muito filme de ação com orçamentos exorbitantes.
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