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segunda-feira, 5 de junho de 2017

ATÉ QUE ENFIM...

★★★★★★★★☆
Título: Mulher Maravilha (Wonder Woman)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya
País: Estados Unidos, China
Duração: 141 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Diana (Gal Gadot), a princesa das amazonas, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), foi treinada como uma guerreira por sua tia Antiope (Robin Wright). Ao descobrir os conflitos da Primeira Guerra Mundial, trazidos pelo espião Steve (Chris Pine), cujo avião caiu nas proximidades da ilha onde ela e demais amazonas vivem em reclusão ofertada por Zeus, ela decide deixar sua terra para servir aos humanos na busca pela paz e justiça, ao mesmo tempo que a jornada a fará descobrir seus poderes e conflitos.

O QUE TENHO A DIZER...
Foi quando o filme começou que percebi há quantos e quantos anos espero por ele da mesma forma como esperei pelo primeiro filme dos X-Men. E quando pensamos que Mulher Maravilha é o primeiro filme de uma heroína dos quadrinhos como protagonista em doze anos, é possível notar que ainda existe uma dificuldade de aceitação pública a respeito disso e, principalmente, da indústria.

Há doze anos o que mais tem surgido nos cinemas são filmes de super-heróis. Heroínas ou vilãs aparecem, mas sempre coadjuvantes, como no caso das personagens de X-Men, Vingadores e até mesmo Esquadrão Suicida. Elektra, de 2005, foi a última a ser protagonista de seu próprio filme, e se também considerarmos adaptações de desenhos animados, também tivemos Aeon Flux, lançado naquele mesmo ano.

Trazer Mulher Maravilha para as telas tem sido uma conversa de mais de duas décadas, onde nomes para a protagonista surgiram desde Sandra Bullock até Angelina Jolie. Os anos se passaram, essas atrizes envelheceram, e quem acabou com o papel foi uma israelense desconhecida e ex-soldado, chamada Gal Gadot. Sim, para quem não sabe, Gal se alistou como combatente aos 20 anos, servindo o exército israelense por dois, posteriormente seguindo carreira de modelo (foi Miss Israel) e finalmente atriz. Um histórico bastante diferente e que coincidiu em alguns pontos com o da própria personagem de maneira quase astrológica.

Que o Universo Expandido da DC (assim chamado seus atuais filmes) tem sido complicado, com mais baixos que altos, isso não há dúvida. Fãs podem dizer que seja um "complô" da crítica para desmoralizar os filmes da DC e favorecer os da Marvel, um absurdo que não se justifica. Quem entende do assunto sabe que as coisas não são assim, e que a pressa e a falta de planejamento, por chegarem bastante atrasados numa proposta de expansão similar ao da Marvel, fez o estúdio trocar os pés pelas mãos. Roteiros mal trabalhados e más escolhas na direção tem sido problemas evidentes, fazendo os críticos esperarem desde de sempre por um filme do selo que realmente faça por merecer e que fuja das perenes adaptações de Batman. Pois a verdade é que, embora Batman seja uma marca forte, estamos um tanto exaustos de ver apenas este personagem ser adaptado enquanto a companhia igualmente detém uma vasta carta de personagens memoráveis e adaptáveis.

Quando Batman vs. Superman chegou aos cinemas, era possível sentir mais um desapontamento pesar no cinema em um silêncio desconfortável de quem realmente não estava sequer se divertindo. Mas me lembro que, quando Mulher Maravilha apareceu trajada de fato, defendendo Batman de um ataque do vilão Doomsday em uma entrada triunfal, foi o único momento em que as pessoas no cinema até se inclinaram na poltrona para prestarem mais atenção, tamanha a reação de surpresa e empolgação. Pena que sua aparição durou apenas 15 minutos, mas foi o suficiente para não vermos a hora dela voltar o mais rápido possível em um filme próprio, até porque a expectativa dela salvar o Universo DC no cinema apenas aumentou depois de Esquadrão Suicida (2016) não ter sido exatamente aquilo que se esperava.

Sem dúvida Gal é para Mulher Maravilha aquilo que Hugh Jackman foi para Wolverine, o australiano desconhecido que todo mundo duvidou que seria capaz de carregar o peso do personagem, e no fim das contas deixou essas mesmas pessoas órfãs com sua aposentadoria do papel. De igual tamanho, Gal também foi imensamente criticada quando escolhida para usar a tiara da heroína em Batman vs. Superman. De críticas sexistas a respeito da sua falta de volúpia, ao puro preconceito de ser uma desconhecida qualquer, essas mesmas pessoas agora não conseguem imaginar outra melhor personificação da personagem.

Não é à toa que, mais que depressa, o filme entrou em produção, e quase um ano depois chega aos cinemas em tempo recorde.

Depois do projeto ter passado pelas mãos de diversos diretores desde 1996, a partir de 2013 houve uma forte campanha para que um possível filme solo da heroína fosse dirigido por uma mulher, principalmente depois de um expressivo movimento de igualdade de gêneros que vem ocorrendo em Hollywood nos últimos anos, no qual atrizes e diretoras se uniram revindicando maior participação no cenário, seja na direção, seja no protagonismo de filmes. Dirigido por Patty Jenkins, a direção foi oferecida a algumas outras mulheres antes dela, incluindo a própria Angelina Jolie. Recusado por todas, em sua maioria por divergências criativas, sobrou a Jenkins a missão.

Na História do Cinema, são raras as diretoras que tiveram oportunidade de trabalhar em produções de grande orçamento, ou que tivessem experiência com o extenso uso de efeitos especiais. Para se ter uma idéia, a última (e talvez única) a ter trabalhado em um filme de grande orçamento e com uso exacerbado de CGI, foi Mimi Leder, responsável por Impacto Profundo, de 1998, diretora também cogitada para o filme. Devido a isso, a lista de opções era escassa, e a escolha de Jenkins talvez tenha sido mais por conta de uma falta de opção do que por experiência neste gênero de filme, algo que ela não tinha.

Não que isso afete negativamente o filme, ao contrário disso, essa oportunidade é válida e necessária, e talvez isso abra portas no futuro para a inclusão de outras diretoras neste gênero da indústria.

Jenkins faz um trabalho decente e que abole o sexismo comumente visto, como acontece exageradamente com Harley Quinn em Esquadrão. A direção é comedida e sem demasiadas ousadias até mesmo quando abusa das cenas de ação perfeitamente coreografadas, como nas belíssimas sequências da batalha entre amazonas e o exército alemão na costa da fictícia ilha de Themyscira. Um balé visual deslumbrante que se repete várias vezes nas incursões solo de Diana durante sua ambiciosa busca pela justiça ao longo do filme, cenas de batalhas precisas e brutas, onde é possível sentir na poltrona do cinema a resistência das balas no escudo, justamente porque a intenção da heroína é paralisar por definitivo os conflitos, e não de perpetuá-los.

Sua ganância pela paz leva a personagem a gradualmente descobrir a extensão de seus poderes, sua verdadeira origem, a natureza humana e, principalmente, o peso de sua justiça naquilo que sempre vem a ser o grande dilema de todo herói: matar ou não matar. Uma dúvida que tem sido o enredo principal do Universo DC nos jogos eletrônicos, algo que no filme não é desenvolvido com a mesma ênfase, embora seja possível sentir na heroína uma ponta desse conflito sobre uma decisão que contraria seus princípios morais.

A história consegue oferecer tudo isso, mas o roteiro não desenvolve essas nuances de forma muito clara e concisa, ou que cause realmente uma sensação consistente de amadurecimento de Diana ao longo da primeira grande missão a qual se propõe, e esses defeitos são resultados óbvios da pressa na produção, algo que felizmente não se tornou um grande desastre. Tem que estar muito atento para perceber, já que essas densidades dramáticas acabam tropeçando em pormenores, momentos onde é possível sentir que, embora seja um filme dirigido por uma mulher, o controle dos homens do estúdio ainda é grande. Há uma forte insistência de querer trazer à tona a tal "fragilidade feminina", o sentimentalismo exagerado e um romance impossível com direito a uma cena inspirada em Casablanca (1942), quando Steve diz a Diana antes de embarcar: "Eu posso salvar o dia, enquanto você pode salvar o mundo", tão piegas quanto Bette Davis a Paul Henreid em A Estranha Passageira (1942), na clássica frase de encerramento: "Para que precisamos da lua se temos as estrelas?"

Momentos açucarados que, da mesma forma que poderiam ter ficado de fora, também trazem um certo charme a um filme de ação que, embora pareça andar sobre rodas de madeira e não tenha o mesmo ritmo acelerado e megalomaníaco das atuais produções, não chega a ter o tom pesado e artificial de Homem de Aço ou Batman vs. Superman para os brutos, mas também não tem aquele humor pastel da Marvel para os infantes e adolescentes. Uma certa delicadeza condensada para atrair a atenção daquele público feminino mais acostumado a ir ao cinema para assistir filmes familiares e comédias românticas, e não para um filme de ação também feito para elas. Uma forma de abraçar aos poucos um público que por décadas foi condicionado a gêneros restritos.

E funcionou. Nunca havia visto tantas mulheres em um sessão de ação como vi. Ao mesmo tempo que nunca vi tantas mulheres se divertirem com os bem dosados momentos de humor que por vezes brincam e criticam estereótipos e regras sociais, ou entusiamo nas cenas de puro bate e arrebenta ao som da estridente guitarra da trilha sonoroa que por vezes remete a uma releitura de Immigrant Song, de Led Zeppelin.

O humor aqui é sutil, principalmente quando usa saudavelmente essa rivalidade de gêneros, como no momento em que Diana flagra Steve (Chris Pine) pelado e o questiona sobre o estranho objeto que ele tem. Steve explica ser um relógio, um objeto que o ajuda a acordar, comer e fazer outras coisas, e então Diana pergunta: "Você deixa essa coisinha pequena dizer o que deve fazer?". Acho que apenas eu gargalhei nesse momento, pois a analogia é óbvia, mas tão subliminar que só com o rápido olhar envergonhado de Chris Pine para deixar isso evidente.

Mesmo tendo uma protagonista feminina e um elenco que a princípio é predominantemente feminino (mas que depois se torna predominantemente masculino), Mulher Maravilha não é uma ode ao feminismo como muito se imaginou antes de sua estréia. Ele tem, sim, sua relevância na questão, já que mulheres também podem ser protagonistas de filmes de ação, fãs de filmes de ação e capazes de se desvincularem da imagem do "sexo frágil" e da pregação de que homens sejam necessários para tarefas árduas. Mas ele não ergue bandeiras, muito menos tem discursos moralistas. Tudo está implícito no pacote, e desfruta-se disso quem quiser. Até porque não podemos esquecer que falamos de um filme estritamente comercial, onde o público alvo é um só: o mais abrangente possível.

Definitivamente o filme não faz feio até quando se esquece de dar maior atenção a personagens interessantes, como Dra. Maru (Elena Anaya, que volta a usar uma máscara parecida com a que usou em A Pele Que Habito), personagem que entra e sai do filme sem uma história ou um desenvolvimento plausível para sua existência, enquanto esta foi usada no trailer como elemento indispensável no enredo. Frustrante para quem esperava uma resolução mais grandiosa para ela.

Como todo primeiro filme de um super-herói, é basicamente sobre sua origem, mas com uma narrativa diferenciada, onde a personagem se descobre conforme os eventos acontecem, e não de maneira separada como no costumeiro jeito Super-Homem-de-ser. Um filme que diverte como imagina-se, que consegue ser engraçado de maneira discreta, romântico, sentimental e pregador da paz mundial para não perder a tendência a que ele se predispõe, mas que acima de tudo abre novos horizontes de possibilidades no gênero.

E, sim, nem Batman e nem Superman, mas Mulher Maravilha quem se tornou a maior evidência da Liga da Justiça nos cinemas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

APRECIE COM EXAGERO...

★★★★★★★★
Título: Star Trek: Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, Benedict Cumberbatch, Bruce Greewood, Peter Weller
País: Estados Unidos
Duração: 132 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Capitão Kirk agora terá a missão de combater uma ameaça espacial que colocará à prova suas capacidades de comando e decisão que poderão colocar em risco não apenas sua carreira e a tripulação da Entreprise, mas sua relação de confiança e amizade com todos eles.

O QUE TENHO A DIZER...
Star Trek: Além da Escuridão é dirigido por J.J. Abrams. Para quem não conhece esse diretor, aqui vai um resumo em 5 passos:

1) Começou uma carreira de sucesso como produtor de seriados famosos como Felicity (1998-2002); Alias (2001-2006); Lost (2004-2010) e Fringe (2008-2013).
2) Arriscava como diretor e roteirista em seus próprios seriados, mas no cinema foi chamar atenção com Missão Impossível 3 (Mission: Impossible 3), considerado o melhor da série. Depois disso veio o sucesso do reboot de Star Trek (2009) e Super 8 (2011).
3) Sua produtora, a Bad Robot, se transformou em uma das maiores e mais importantes da atualidade por conta dos sucessos dos seriados, dos filmes que ele dirigiu e demais outros que ele apenas produziu como: Cloverfield (2008) e Missão Impossível - Protocolo Fantasma (Ghost Protocol, 2011). 
4) É o mais novo queridinho dos diretores de Hollywood, amigo e um grande admirador de Spielberg, diretor o qual o estilo ele se apropriou e segue fielmente as mesmas fórmulas (basta assistir Super 8 para saber do que falo).
5) Foi jogada em suas costas a gigante responsabilidade em produzir, dirigir e escrever a retomada da série Star Wars no Episódio VII da franquia.

Após essa breve apresentação, já sabemos que Abrams não é mais um maluco qualquer que criou seriados sem pé nem cabeça que abraçou milhões de fãs no mundo. Ele virou um homem poderoso e respeitado porque tudo que ele faz é comercial e hollywodiano demais, mas a qualidade é inegável. Seus filmes cumprem a proposta de entreter sem serem banais e descartáveis, e os títulos produzidos ou dirigidos por ele não são esquecidos facilmente com o tempo. Por essa razão que ele é bastante comparado a seu amigo Spielberg, pois todos seus filmes, até hoje, são sucessos de público e crítica, até mesmo na bobagem nostálgica chamada Super 8.

Quando o reboot de Star Trek foi anunciado, a preocupação dos fãs foi geral. Como retomar uma série antológica e icônica tanto da TV quanto do cinema, dentro de padrões atuais e modernos, sem perder as características? Com atores jovens e desconhecidos, ele recontou a história dos exploradores espaciais e conseguiu ser inovador e fiel o suficiente para agradar os fãs, os não fãs, e os que pouco sabiam ou desconheciam.

Quatro anos separaram o primeiro filme de sua continuação. Absurdos de lado, Abrams conseguiu fazer desta sequencia algo tão bom quanto o primeiro, mesmo esquecendo-se completamente de quaisquer leis da física. Na linguagem do cinema atual, absurdos ainda são possíveis, mas a facilidade pela busca de informações hoje em dia é tão grande que ninguém mais se convence com qualquer coisa, e a exigência dos espectadores por algo mais próximo possível de uma realidade hipotética é grande, ainda mais depois de reboots de filmes de ação que agoram puxam para o maior realismo possível (e que outrora tinham teores surreais intragáveis atualmente). O diretor conseguiu driblar tudo isso magicamente, fazendo a história e as sequencias de ação serem tão mais importantes que os absurdos se tornam irrelevantes e imperceptíveis tal qual eram os filmes de ação dos anos 80/90 (principalmente aqueles dirigidos por ninguém mais que Spielberg) e, obviamente, o seriado e os filmes da própria série Star Trek.

Por mais fantásticos que pudessem ser, a série Star Trek sempre teve como característica principal criar mundos e dimensões tão ilógicas e cativantes que, mesmo assim, convencia de que todo aquele esquisito desconhecido pudesse existir em uma realidade qualquer. Tudo isso é mantido no filme, bem como a dimensão e a profundidade dada aos personagens foi muito maior, principalmente na relação conflituosa de precisa racionalidade de Spock, com o exagero intuitivo e emocional de Kirk. O roteiro, muito bem trabalhado principalmente em cima dos diálogos que expõem cada vez mais com exatidão a personalidade de cada um, faz os personagens serem convincentes, grandiosos em seus determinados momentos e não tendo oportunidades para pieguices até mesmo em momentos de extremo cliché, como quando Spock e Kirk tocam as mãos através de um vidro que os separam. Este momento em específico é muito óbvio, mas só não se tornou ridículo por conta de um tom dramático preciso tanto dos diálogos, quanto dos atores, que é utilizado por todo o filme em doses realmente muito bem medidas.

E sem dúvida também há os momentos cômicos que fazem parte da fórmula de qualquer filme do gênero, mas que igualmente fogem de situações óbvias e de riso fácil e pastelão, indo para um humor mais debochado e irônico, como o constantemente estressado Scotty (brilhantemente interpretado pelo britânico Simon Pegg), o mau humor caricato de Magro/Bones (Karl Urban) e até mesmo o pragmatismo exagerado de Spock (Zachary Quinto). E tudo funcionando com fluidez, como manda a cartilha Star Trek de ser.

Não é à toa que o filme está na lista dos melhores filmes de ação do ano (igualmente ocorreu com o primeiro), arrecadando mais de US$460 milhões e prometendo novamente uma vida longa para a nova franquia de uma velha guarda (o terceiro filme já foi anunciado, mas provavelmente não será dirigido por Abrams).

CONCLUSÃO...
Abrams segue à risca todas as características e a fórmula do universo Star Trek nesse novo filme, dando ênfase na construção dos personagens e suas relações num roteiro caprichado que consegue fazer o absurdo e ilógico serem capazes de entreter sem ofender, como antigamente.

domingo, 23 de setembro de 2012

DRAMA DE NOVELA...

★★★★
Título: People Like Us
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Michelle Pfeiffer
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sam (Chris Pine) recebe a notícia de sua namorada, Hannah (Olivia Wilde), que seu pai ausente e irresponsável morreu. Mesmo relutante, ele vai para a casa de sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Lá descobre, por intermédio de um testamenteiro, que ele tem uma irmã e um sobrinho, do qual nunca ouviu falar, e agora ele terá que lidar com esses dois lados da família e suas escolhas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é a estréia do roteirista e produtor Alex Kurtzman na direção, que teve êxito ao produzir alguns episódios de seriados como Xena - A Princesa Guerreira (1995-2001), Alias (2001-2006) e Fringe (2008), além de dois filmes que foram de enorme sucesso comercial para seu currículo como o reboot de Jornada Nas Estrelas (Star Trek, 2009) e a comédia romântica A Proposta (The Proposal, 2009). O roteiro é assinado por ele em colaboração com mais dois autores, Roberto Orci e Jody Lambert. Roberto Orci parece ser colaborador de longa data, já que ambos possuem vários trabalhos em comum, enquanto o outro roteirista deve ter sido um tipo de estagiário, já que não possui algo muito relevante.

Esse drama, ainda inédito no país, atraiu minha curiosidade por ter um elenco bastante forte que é encabeçado por Chris Pine, ator atualmente em ascenção. O filme começa com Sam, um negociador corporativo egoísta, ambicioso e mentiroso, tendo problemas em sua empresa depois de uma das suas negociações violar leis federais de troca de produtos. Seu chefe o obriga a contornar a situação subornando os agentes responsáveis pela investigação com seu próprio dinheiro, ou ele será responsabilizado por todas as irregularidades. Ao mesmo tempo, Sam volta para casa e recebe a notícia da morte de seu pai. Relutante, acaba voando para Los Angeles para visitar sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Por intermédio de um testamenteiro, descobre que seu pai deixou uma quantia de US$150 mil para um garoto chamado Josh, de 11 anos. Determinado a ficar com o dinheiro e resolver os seus atuais problemas, ele acaba descobrindo que Josh é, na verdade, seu sobrinho, filho de uma meia-irmã paterna, Frankie (Elizabeth Banks), da qual ele nunca ouviu falar. Sam se aproxima de Frankie, mas não consegue contar a verdade em momento algum.

O enredo do filme é do típico drama que norte-americano adora, envolvendo a difícil relação familiar e da dificuldade de aceitação dos erros dos pais pelos filhos depois que eles já estão adultos. Começa com a redundante e desnecessária informação de que é baseado em fatos reais, talvez para aumentar o vínculo entre o público e o drama. A verdade é que o que o protagonista vive com sua família, mesmo não sendo comum, é bastante recorrente não apenas no cinema como também na vida real, pois sabemos que acontece e existe por aí. Ao mesmo tempo isso também não significa que o filme seja carregado desse apelo pessoal que nos identifique a todo o tempo com a realidade, pois embora o título do filme tenha essa intenção, a história não fala de pessoas como nós, nem no sentido de conexão com os personagens e nem no sentido de que os protagonistas do filme sejam pessoas tão comuns quanto a gente, e os roteiristas não conseguem em momento algum criar esse vínculo.

Há um momento no filme que Frankie diz que você identifica uma mentira quando a pessoa carrega os fatos em detalhes desnecessários. O exagero do filme em "carregar" a história com paralelos inúteis é o que transforma tudo em um drama fictício e inverossímel, contradizendo a informação dada no começo. Os problemas profissionais que Sam está passando não tem nenhuma finalidade no filme além de tentar dar profundidade à sua personalidade egocêntrica e covarde que já são exploradas bastante nas suas relações familiares, deixando essa trama paralela suspensa e sem resolução, aparecendo aleatoriamente durante o filme para criar momentos de indecisão forçadas e que não levam a nada. Demora para os personagens e a história encontrar seu tom, e isso só vai acontecer depois de uma hora de filme.

Esse desenvolvimento confuso do roteiro é o que estraga uma história que poderia ter sido mais sincera e realista se tivesse mantido o foco apenas na relação familiar e nas dificuldades de administrar descobertas que levam a escolhas importantes e definitivas para todos. As tramas e complexidades dispersas não dão oportunidade a personagens e atores crescerem, como acontece com Michelle Pfeiffer, que faz o papel da mãe, se tornando uma personagem esquecida tanto quanto a personagem de Olivia Wilde.

A cena de reencontro entre Lillian e Sam mostra que ambos tem uma relação de um passado aparentemente conturbado e difícil, mas que nunca é desenvolvido ou explicado, envolvendo até um tapa no rosto de Sam, sem muita lógica ou nexo. A própria atriz insistiu que essa cena fosse deletada, alegando que que seria difícil para o espectador compreender o motivo e posteriormente ter compaixão por ela. E realmente fica difícil compreender essa sequência, porque a relação entre ambos segue como se nada disso tivesse acontecido, ignorando um passado turbulento que exista entre eles.

O foco fica sempre na relação entre Sam e Frankie, sua meia-irmã, uma alcólatra em reabilitação que também tem dificuldades com seu filho adolescente e rebelde, personagem que só tem a intenção de acentuar o apelo dramático e de como sua personagem é uma mãe esforçada e trabalhadora, que além de ter tido uma infância traumática e uma adolescencia problemática, também tem que lidar com o filho que não se adapta na escola por conta da ausência de uma figura paterna. A relação construída nesse núcleo é um tanto forçada, já que Sam invade a vida de ambos sem pedir licença e Frankie aceita de bom grado sem nem ao menos questionar em qualquer momento suas origens ou intenções, como se nenhuma experiência de vida a tivesse ensinado alguma coisa, se extendendo até a uma tensão sexual desnecessária que ocorre no ápice da relação dos dois, momento que, aí sim, ela resolve questioná-lo sobre tudo.

A inexperiência do diretor e o roteiro vago esquecem que a inteção do filme é mostrar como é difícil para todos lidar com as diferenças da instituição familiar e como as escolhas são importantes para que esses laços sejam mantidos independente dos graus de proximidade e de diferenças, além da posição que devemos tomar para a manutenção desses vínculos. Por conta disso o filme nunca atinge esse vínculo pessoal com o espectador, que vai absorver muito pouco ou achar pouca coisa relevante para ser interpretada como uma grande moral ou lição a ser aprendida.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida é um filme sofrível de ser assistido por conta do péssimo desenvolvimento e de uma direção perdida. O pouco êxito se dá por conta da experiência dos atores, que nem precisaram ser dirigidos pelo visto, e a grande intenção que tiveram de fazer tudo funcionar como deve. Mas o produto final não agrada, virando um filme com uma traminha aguada de novela.
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