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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

ALIEN NUNCA MAIS VOLTARÁ A SER ALIEN...

★★★★☆
Título: Alien: Covenant
Ano: 2017
Gênero: Ação, Horror
Classificação: 14 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demian Bechir
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 122 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
11 anos depois da expedição Prometheus, a nave colonizadora Covenant está com destino ao planeta Origae-6. Mas um acidente no percurso faz a tripulação optar por investigar um sinal recebido em um planeta habitável que está muito mais próximo, e que poderia oferecer as mesmas condições de vida.

O QUE TENHO A DIZER...
Se existe uma coisa que Ridley Scott nunca deveria ter feito é revivido a franquia Alien. Tudo bem que podemos concordar que os louros se iniciaram com ele, no primeiro filme de 1979; depois foram firmados com a sequência de James Cameron, em 1986; entre gostos e desgostos mantido por David Fincher em 1992; e uma tentativa fracassada de um reboot/continuação de Jean Pierre Jeunet em 1997. Diretores distintos que imprimiram, cada um à sua forma, características únicas em seus filmes, gerando preferências variadas. E poderia ter parado por aí.

O projeto de darem continuidade à série depois do filme de Jeunet havia quase morrido, e a idéia retornou no começo de 2000. Avançando no tempo, quando os boatos de Scott retornar com a franquia pipocaram pela rede em meados de 2010, os fãs entraram em polvorosa acreditando que seria a volta do horror espacial de maneira triunfal, afinal, foi o próprio Scott que o criou com tanta efetividade. O diretor então veio com uma historinha pra lá de esquisita, dizendo que no decorrer da produção os rumos do filme mudaram, e ele não seria mais nenhum tipo de continuação ou pré-continuação, mas uma história particular que se passaria no mesmo universo de Alien. A idéia parecia interessante, e o primeiro trailer forneceu a mesma ficção científica aterrorizante que a série Alien sempre soube usar tão bem.

O problema é que fomos enganados desde o princípio. Além de um roteiro cheio de personagens inúteis, buracos e falhas ditadas pela reciclagem mal feita de mitos e lendas espalhadas pelo mundo em diferentes culturas ocidentais e orientais, Scott tentou transformar uma história simples da ficção em algo desnecessariamente complexo e existencialista demais ao ponto da mais pura mediocridade.

Ele tentou, com muito esforço e sem sucesso, criar um novo clássico, mas nunca conseguiu, sequer, sair da sombra de si mesmo. E no fim, Prometheus é, na realidade, assim como sempre foi desde o princípio, uma pré-continuação tão inferior ao ponto de ser esquecível. E embora tenha arrecadado o suficiente no mundo para garantir uma continuação, a verdade é que ele foi um fiasco no Estados Unidos, e a crítica especializada e leiga simplesmente o massacrou sem medo algum. E com exceção dos fãs extremistas e sem senso crítico, o resultado geral foi igualmente um desastre na opinião pública.

E Prometheus ser esquecido é o que Scott também tenta. Correr para resgatar a marca "Alien" neste novo título pareceu providencial para o processo. Claro que há algumas referências aqui e ali do filme anterior, e o roteiro nos faz lembrar a todo instante que, sim, existiu um filme pior antes dele. E só por isso o longa já se torna intragável por si só.

A intenção de Scott aqui é consertar seus erros. Enfiou o título novamente em seu devido lugar para que as pessoas associassem de fato que, dessa vez, é uma pré-continuação, e não uma enganação, e na história em si ele avançou no tempo para não ter que dar mais vida à personagem Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), reprovada pelos fãs e de uma boçalidade sem tamanho no universo dos bichões cabeçudos.

Agora ele tenta contar a história que, desde o princípio, Sigourney Weaver sempre quis que acontecesse enquanto sua personagem ainda existia: visitarem o planeta de origem da espécie. A pena é que não temos mais Weaver e nem Tenente Riplay, mas uma personagem tão chata e igualmente dispensável quando Dra. Shaw. A malquista da vez é Katherine Waterston, no papel de Daniels, que já começa o filme em crise, chorando muitas pitangas porque seu marido morreu durante uma falha na capsula de hibernação, que ao invés de liberá-lo, o incinerou. Um personagem que, para a história tanto do filme, quanto da franquia, não faz o menor sentido além de criar conflitos e mal estares de maneira ágil logo no princípio do filme, aumentando a tensão entre os personagens e os isolando, tudo aquilo que os bichões adoram pra fazer a festa da carnificina.

Daniels nada mais é que uma reprise de Ripley, ou uma tentativa fajuta disso. A masculinização de Ripley ao longo da série, com seu ápice nos episódios dois e três, aconteceu por motivos que tem coerência com o mundo e os diferentes tempos que a personagem viveu, uma jornada maravilhosamente analisada por Eliane Brum em sua coluna no jornal El País. Aqui essa masculinização é deliberada, sem qualquer coerência além de lembrar ao espectador que, para ser uma heroína, é necessário se comportar como um homem, e parecer um homem, mas lembrar a todo instante que ainda é uma mulher porque está sempre com a cara inchada de tanto chorar.

Também criaram uma nova forma de inoculação, através de esporos que penetram pelos orifícios dos humanos e alguns minutos depois já temos um Alien bebê crocante e novinho em folha saindo pelas costas de seu hospedeiro, igualzinho em Manitou, O Espírito do Mal, de 1978.

Já não bastasse as diversas formas deles se reproduzirem, ainda inventaram mais essa, porque a franquia precisa se renovar, os perigos e obstáculos também, e é necessário criar um novo produto que possa oferecer medo ao espectador, o que falha de maneira abundante aqui.

Não é convincente, e foge completamente da proposta de HR Giger quando este criou o conceito do xenomorfo, que era unicamente despertar os medos natos do ser humano. Com tantas referências fálicas, da cabeça à cauda do animal; o medo pela penetração forçada; da violação e do estupro, os alienígenas criados pelo artista plástico despertaram o senso de medo mais profundo e erótico de seus espectadores.

Mas a incansável exploração de suas imagens, além da gradual substituição dos efeitos práticos pelos digitais ao longo da franquia, tiraram deles esse poder de ebulir o mais assustador sentimento de cada um. E isso é sentido a todo instante em Covenant, que até oferece uma boa sensação de isolamento em meio à ambientação obscura, fria e claustrofóbica em alguns momentos e que são, em essência, marcas registradas da série, mas estão longe de ter a mesma efetividade porque Scott aposta novamente mais nos exageros do que na técnica e na simplificação.

Cheio de conflitos internos sem sentido entre os personagens, discordâncias irrelevantes e uma total falta de interação entre eles, fica difícil acreditar que a tripulação escolhida teve treinamento suficiente para sobreviver a situações adversas, resultando em mortes estúpidas, como a de Karine (Carmen Ejogo) e Maggie (Amy Seimetz), que obviamente acontece justamente para ter uma razão específica para todo o grupo ser obrigado a permanecer no planeta e viver em uma constante dúvida de personalidade entre David e Walter, ambos interpretados por Michal Fassbender.

Mas no geral, o que o filme mais peca é a necessidade que Scott de repente sentiu de que, para dar continuação à franquia, seria necessário justificar a natureza dos aliens. É fato no cinema que todo vilão, inimigo ou antagonista cuja história pregressa, ou origem nunca contada, se torna um desastre quando é feito. A curiosidade do espectador em saber existe, mas ao mesmo tempo a liberdade que é dada a eles de imaginar é muito mais consistente, sendo isso que faz aquele personagem, aquela lenda ou mito, ou aquele medo sobreviver. Contar a origem de um mal é como retirar dele todo o mal que existe, e da mesma forma foi o que Scott fez ao tentar contar a origem de um dos seres mais assustadores que o cinema já criou. O significado do medo, criado pelo próprio diretor no primeiro filme, foi simplesmente destruído por ele mesmo neste último porque foi retirado dos espectadores o direito de escolha que a franquia sempre permitiu.

Acredito que, em sua fundação, a explicação que o roteiro desenvolve até chega a ser interessante em certo ponto ao concluir que, no fim de tudo, o maior medo dos homens foi criação dele mesmo. Mas esse arco criado em cima da metáfora do homem brincando de deus foi tão largamente explorado na ficção científica, e igualmente explorado na franquia em Prometheus e no seu massacre filosófico-existencialista que se tornou algo redundante e sem qualquer impacto nesta sequência.

Covenant não foge do processo de ser apenas mais uma tentativa de Scott tentar sustentar uma fama e uma franquia que não possuem mais o mesmo peso de antigamente.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

MacGYVER MARCIANO...

★★★★★★★
Título: Perdido em Marte (The Martian)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ação, Ficção
Classificação: 12 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kate Mara, Sean Bean, Jeff Daniels, Michael Peña, Kristen Wig
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 144 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma tripulação em Marte aborta uma missão por conta de uma tempestade, e durante a evacuação um deles desaparece do raio de alcance e é dado como morto, quando na verdade ele não está.

O QUE TENHO A DIZER...
Ridley Scott andou errando feio. Tanto que seu último filme memorável foi Gladiador (Gladiator, 2000). Nem mesmo Prometheus (2012), que parecia ser o seu retorno à forma, conseguiu salvá-lo da ladeira. Sim, ele pode ter sido um dos mais influentes diretores dos anos 80 e 90, mas isso não o absteve de tantos erros sucessivos como nos últimos 15 anos e que, finalmente, são redimidos agora.

O que vale ser dito logo de cara é que, depois do estrondoso e até inesperado sucesso de Gravidade (Gravity, 2013), era um pouco óbvio que filmes com temática self survivor (sobrevivência solitária) seria o foco aberto para propostas. E se for no espaço, então... Melhor ainda! Porque o filme de Cuarón foi responsável por novamente atrair a audiência para ficções científicas espaciais. Tanto que logo em seguida Interstellar (2014) se fez presente, fazendo tanto sucesso quanto. O que pra mim é estranho é ninguém ter comentado sobre isso. Ao menos eu não vi.

Desta vez a investida é em solo marciano, já que nenhuma das tentativas anteriores deram certo com Planeta Vermelho (Red Planet, 2000) e Missão Marte (Mission Mars, 2000) porque realmente foram bem ruins (a curiosidade é que esses filmes também foram filmados em Wadi Rum, território na Jordânia pertencente à UNESCO).

Aqui a abordagem realista permanece. Não há alienígenas, nem fugas mirabolantes, nem uma inteligência artificial psicopata, nem mesmo algum alucinado para sabotar qualquer missão. O filme todo é unica e simplesmente sobre um homem esquecido em Marte e que deverá quebrar a cabeça para sobreviver por, no mínimo, quatro anos com os recursos que permaneceram após a tempestada e com aqueles deixados para trás pelos seus demais colegas (incluindo uma coletânea de músicas Disco, a piada funcional da história).

Logo, não é surpresa encontrar grandes semelhanças entre o filme de Scott com o de Cuarón. A diferença é que o personagem não está no espaço, mas no solo.

Embora Gravidade não tenha realmente um grande enredo além de uma astronauta a deriva que deverá encontrar uma maneira de voltar para a Terra, ele consegue ser um grandioso filme com metáforas interessantes sobre o renascimento, além de outras numeráveis razões. Havia suspense crescente, interesse, coerência, desenvolvimento, seriedade e embasamento. No filme de Ridley Scott, que é baseado no livro homônimo de Andy Weir, ele tenta manter as mesmas características, além do enredo ser um pouco mais consistente, porque enquanto Watney sobrevive em Marte, a vida na Terra continua e o seu caso, de comoção pública, se transforma em um reality show da NASA, onde os acontecimentos são transmitidos globalmente ao vivo.

Mas tirando isso, o desenvolvimento não apenas é quase o mesmo como algumas sequências chegam a ser muito semelhantes. Até mesmo a trilha sonora original é tão parecida que até parece ser do mesmo compositor (não é).

E falando em deriva... se pegarmos o filme Náufrago (Cast Away, 2000) e secar o mar, teremos o solo de Marte e Mark Watney seguindo os mesmos passos de Chuck Noland para não morrer de inanição. Felizmente não há cenas apelativamente dramáticas ou algo que remeta à bola Wilson na solidão marciana, mas as dificuldades para a sobrevivência são as mesmas, e só o árduo trabalho do personagem e a constante possibilidade de algo dar errado já são situações tensas e naturalmente dramáticas. Damon realmente desenvolve um papel tão importante quanto o que Bullock desenvolveu em Gravidade, mas aqui há mais espaço para tanto o personagem, quanto o espectador, relaxarem em devidos momentos e curtirem a jornada. O espectador torce por ele e suas tentativas, se emociona quando algo dá certo, da mesma forma como também se entristece ou se frustra quando algo dá errado, por mais esperada que seja uma situação assim.

O desesperador é que só assistindo ao filme para novamente termos aquela terrível sensação de que nós, meros indivíduos tão acostumados com as facilidades do dia a dia, não estamos preparados para qualquer situação de sobrevivência extrema. Se nos jogarem em um deserto com uma garrafa vazia, não teremos idéia do que fazer, mas se fizerem isso com o personagem de Damon, ele conseguirá fazer chover. Não é à toa que ele é o MacGyver do espaço, porque não existe o que ele não consiga resolver com uma manta de plástico e um pedaço de silver tape (que por sinal, só no cinema mesmo para silver tape ser tão funcional e fácil de se cortar).

Óbvio que existem momentos que chega a ser um tanto forçado imaginar que um especialista em botânica saberia fazer tanta coisa sozinho e tivesse tanto conhecimento sobre tudo, porque se fosse assim não haveria necessidade de uma equipe de seis pessoas com especialidades únicas serem enviadas ao espaço. Mas a gente pode acreditar que o treinamento dele foi tão bom, mas tão bom, que ele conseguiria reestabelecer sistemas eletrônicos com tanta facilidade ou recriar um sistema de comunicação bastante arcaico para se comunicar com a Terra da mesma forma como ele tem habilidade para plantar batatas com excremento humano.

E nada deixa de ser intrigante mesmo assim porque, apesar de tudo, é interessante ouvir as explicações do personagem enquanto faz seu registro de bordo sobre os procedimentos que deverá seguir para que obtenha sucesso, das quais algumas são verdadeiras, incluindo a produção de água que é um sistema que a NASA vem aprimorando. Claro que, em outras situações, uma ou outra mudança da realidade é feita para se adequar melhor na ficção, como o fato dos equipamentos e da tecnologia utilizada serem muito mais avançados que na realidade (mas que existe possibilidade de atingir esse avanço), da gravidade em Marte ser menor que na Terra, mas não no filme, e, assim como em Gravidade, o personagem improvisar um propulsor no espaço, o que seria impraticável por não haver outros sistemas estabilizadores. Segundo a NASA, fazer isso em gravidade zero seria como soltar uma bexiga em uma sala sem amarrar sua ponta.

Um pouco exagerado nos longos 144 minutos que não chegam a ter um ritmo tão dinâmico ao ponto do tempo não ser sentido. A história definitivamente poderia ter acabado alguns minutos antes da mesma forma sucinta como Cuarón encerrou seu filme. Talvez se o personagem tivesse reestabelecido o sistema de comunicação primeiro para posteriormente receber instruções da Terra de como progredir com demais procedimentos, isso talvez teria sido mais verossímil, e assim o personagem seria um homem que sobrevive em Marte, e não um super gênio. De qualquer forma, não deixa de ser interessante, até porque não há antagonismos muito resistentes na história, não há vilões, e o único conflito de fato é a preocupação da NASA com sua imagem pública, o que realmente aconteceria e acontece.

Também não chega a ser um deslumbre visual como foram Gravidade e Interstellar. Por mais que as locações áridas de Wadi Rum sejam atrativas, dificilmente sai daquilo. Nem mesmo os efeitos especiais impressionam tanto, principalmente na tentativa de forjar gravidade zero.

Poderia ser algo mais sério, mas também foi diferenciada a abordagem mais leve. Só acho engraçado tanto o filme quanto Matt Damon estarem concorrendo ao Globo de Ouro na categoria Comédia. Embora tenha alívios cômicos (alguns até exagerados e fora de hora), definitivamente não é um filme desta categoria. É essencialmente um drama espacial e uma ficção científica, não uma paródia. Talvez a Associação tenha resolvido incluir o filme entre os finalistas sem perceber que não havia mais espaço nas categorias dramáticas. Não faz muito sentido, mas enfim...

CONCLUSÃO...
Ridley Scott finalmente se redime neste filme que, apesar de seu desenvolvimento e outras coisas terem grandes semelhanças com o filme Gravidade, de Alfonso Cuarón, ele consegue ser interessante à sua forma, um outro ponto de vista de como sobreviver em um lugar inóspito e ameaçador. Os acontecimentos paralelos surgem para quebrar a monotonia e aumentar a duração do longa que poderia ter poupado alguns minutos, assim como se alguns acontecimentos tivessem ocorrido em ordem diferente as situações teriam sido um pouco menos exageradas. Entretém e emociona da mesma forma. Mérito de Damon e acerto de Scott.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

PSEUDO-FILOSOFIA...

★★★★★★
Título: Prometheus
Ano: 2012
Gênero: Ficção Científica, Drama, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A tripulação da nave Prometheus finalmente chega a um planeta desconhecido depois de 2 anos e meio de viagem para uma exploração intencionada a descobrir as origens da raça humana.

O QUE TENHO A DIZER...
Não é novidade para quem gosta de cinema que Ridley Scott não é mais o mesmo de antigamente. Por ser dono de três importantes títulos como Alien (1979), Blade Runner (1982) e Thelma & Louise (1991), a impressão que tenho é que o mito ficou maior do que a verdade, e esse tão falado "visionarismo" do diretor nada mais foi do que uma mera "ousadia" no tempo certo. Alien, o cult classic favorito dos amantes da ficção científica, foi um sucesso. Teve um custo de US$11 milhões na época, e arrecadou mais de US$185 milhões no mundo, sem falar de seus relançamentos em DVD e versões extendidas, remasterizadas e em alta definição no cinema ao longo dos anos e que contribuiram para o aumento desses números.

Agora, uma curiosidade é que, ao contrário do que parece, Blade Runner não foi o sucesso que a mídia reporta. Foi um filme praticamente fadado ao fracasso, que ficou conhecido apenas no circuito alternativo e demorou anos para ser assimilado pelo público mais popular, tanto que o filme original sofreu várias mudanças até chegar no formato que conhecemos. Com um custo de aproximadamente US$28 milhões, arrecadou suados US$32 milhões só nos EUA. Ou seja, o sucesso de Blade Runner é mais boato do que fato. Seu sucesso comercial foi acontecer apenas ao longo dos anos e da insistência com os constantes relançamentos em home vídeo e diferentes versões no cinema. Óbvio que isso não diminui a qualidade do filme e do seu poder de referência, mas quebra bastante o paradigma de que Ridley Scott é dono de dezenas de sucessos. Alguns poucos sucessos subsequentes, incluindo o de Thelma & Louise, só foram conquistados em cima desse falso marketing.

A última grande investida do diretor foi em Gladiador (Gladiator, 2000), novamente muito mais uma aposta de sorte do que de visionarismo, e que trouxe de volta um estilo que não deu muito certo nas mãos de outros diretores, incluindo dele mesmo, quando tentou repetir esse sucesso com Cruzada (Kingdom Of Heaven, 2005), um grande fracasso comercial.

A história de um quinto filme da série Alien surgiu como um boato ainda no começo de 2000, quando Ridley Scott e James Cameron, juntamente com Sigourney Weaver, demonstraram interesse em voltar para mais um filme da franquia. Mas enquanto o roteiro estava sendo desenvolvido, o estúdio deu sinal verde para o lançamento do terrível crossover Alien Vs. Predador (2004). Alegando que este lançamento teria repercurssão negativa para a série, James Cameron desistiu do projeto e ninguém mais voltou a falar sobre o assunto.

Em 2009, a nova onda dos reboots por conta do sucesso da série Batman, de Christopher Nolan, trouxe novas possibilidades e a Fox resolveu fazer o mesmo com a série Alien e uma pré-sequencia havia sido confirmada desde que Ridley Scott retornasse para a direção. A pré-produção sofreu diversas mudanças criativas e de desenvolvimento e no fim das contas Ridley Scott afirmou que, embora a idéia do filme tenha sido inspirada na série Alien e que a história se passe no mesmo universo, o processo criativo desenvolveu uma nova idéia, em um filme completamente diferente que se basearia na mitologia e na criação do universo.

De fato, a história até puxa algumas referências que explicam - dentre várias coisas que explicam ou deixam sem explicar - a origem da espécie humana e alienígena, mas o filme parte de um princípio completamente diferente da série Alien, e que realmente o classifica como uma história única, e não uma pré-continuação.

Prometeus é o nome de um titã da Mitologia Grega que roubou o fogo dos deuses para que os homens pudessem usar para seu progresso e civilização. Por conta disso ele foi condenado ao sofrimento, sendo amarrado em uma rocha onde todas as manhãs uma águia comeria o seu fígado, que regeneraria para ser novamente devorado no dia seguinte, e assim por toda a eternidade.

A história e a moral desenvolvida no filme segue particularmente a linha mais romântica de Prometeus, a do herói titã que se transformou em símbolo da bravura humana e do conhecimento, mas que também significou o risco de ultrapassar os limites até suas últimas consequências, já que seus esforços em incentivar o progresso e a melhoria dos homens também resultou na sua própria tragédia. Em resumo significaria o homem brincar de deus, e ao criar algo que possa favorecê-lo, também cria algo que volta-se contra ele mesmo.

Ao contrário do que parece ser, Prometeus não é um filme de horror científico tal qual é a série Alien. É muito mais um drama científico do que qualquer outra coisa. Lento e com basicamente apenas três grandes sequências de ação durante suas mais de duas horas, pode fazer muitas pessoas ficarem um pouco desapontadas ou frustradas.

A verdade é que Ridley Scott, juntamente com os roteiristas Jon Spaihts e Damon Lindelof, tentaram fazer desse filme uma obra pós-moderna de ficção científica tal qual Alien ou Blade Runner significaram em seu tempo. O uso da mitologia grega ou suméria (e até de outras culturas similares na sua construção) para justificar a busca pela origem humana, é bastante evidente, o que não caracterizaria o material como algo original, embora ele também apresente alguns poucos elementos próprios. A história também tenta afirmar que a religião que é baseada na ciência, e não o contrário, como muita gente acredita. Mas a aproximação dessas duas linhas de pensamento tão distintas e de como isso é feito chega a ser muitas vezes até subliminar, talvez para evitar polêmicas ou conflitos desnecessários. Tanto é assim que a personagem principal, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), se mostra uma cristã devota principalmente em uma das sequencias finais, quando ela pede perdão por ter ido tão longe, convergindo para o princípio religioso do abuso do poder dado aos homens e as duras consequências colhidas por seus atos de grandeza.

Obviamente que a grande característica do filme, e que o encaixa como um material dentro do universo proposto (ou "DNA Alien", como disse Ridley Scott), é o visual obscuro, metalizado e biomecânico resgatado do primeiro Alien, legado do diretor de arte Roger Christian e do artista plástico surrealista H. R. Giger. Os cenários grandiosos e o uso do 3D para ampliar a sensação de profundidade é o que mais tem chamado a atenção, mais do que a própria história. Isso acontece porque ela em si se mostra um tanto redundante, andando em círculos e esclarecendo quase nada. O espectador não consegue respostas para muitas das situações que são jogadas na sua frente sem qualquer relevância. Não dá pra entender muito bem qual a função de algumas determinadas coisas, como a da substância negra, que ao mesmo tempo que destrói também desenvolve (ou muta). Além disso, há um número desnecessário de atores no elenco. Muitos deles estão lá apenas para desvirtuarem propósitos ou darem falsas pistas gratuitamente, novamente sem relevância alguma para o desenvolvimento da história.

Achei essa inutilidade de personagens talvez o mais revoltante de todo o filme, pois não há como o espectador evitar de prestar atenção nesses detalhes e no fim se sentirem enganados para nada. São elementos que foram utilizados até a exaustão na série Alien e demais filmes de ação espacial, mas que hoje em dia se transformaram em clichés previsíveis e que não funcionam, gerando mais revolta do que expectativa. Não dá para entender, por exemplo, o motivo de Guy Pearce atuar como o velho Peter Weyland e aquela tenebrosa maquiagem visivelmente falsa, ou qual é exatamente a função de Charlize Theron como Meredith Vickers além de uma revelação tipicamente Guerra-Nas-Estrelas-de-ser.

A verdade é que muita gente não vai conseguir engolir muito bem essa pseudo-filosofia existencialista que o filme tenta propor. É um filme confuso, pois mesmo sua moral sendo bastante interessante e baseada em alguns fundamentos religiosos e míticos fortes, a ficção e o exagero de elementos desnecessários para forçar um clima de suspense e medo acabam não tendo a eficiência que deveriam justamente pelo excesso de intenção. Ridley Scott definitivamente tem se mostrado um diretor comum, que carrega em si apenas o peso do nome e da importância de alguns poucos títulos na história do cinema.

CONCLUSÃO...
Prometheus poderia ter sido um grande retorno e um filme tão grandioso quanto seus cenários, mas resultou num produto banal, inconclusivo, com um elenco grandioso e que muitos deles estão lá apenas para atrair público, não acrescentando qualquer coisa que seja, tanto para aqueles que esperavam algo original, quanto àqueles que assistiram como uma pré-continuação da série Alien. Uma continuação já foi anunciada, e se for seguir a tradição da série Alien, em que Aliens (continuação de 1986, dirigido por James Cameron) é considerado melhor que o original de Ridley Scott, então talvez isso não soe tão mal assim.

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