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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

INTRAGÁVEL...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Desenrolados (Disjointed)
Ano: 2017
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Vários
Elenco: Kathy Bates, Aaron Moten, Tone Bell, Dougie Baldwin, Elizabeth Alderfer, Elizabeth Ho, Nicolle Sullivan
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ruth Feldman (Kathy Bates) é dona de uma loja especializada em Canabis e seus derivados que tem que lidar com as dificuldades de ter contratado um bando de jovens irresponsáveis a tocar seu negócio.

O QUE TENHO A DIZER...
Todos sabemos hoje em dia que, tanto a plantação de maconha, como a comercialização legal já é possível em diversos estados norteamericanos, tanto no seu uso recreativo, como o medicinal. Devido a isso, maconha deixou de ser um assunto tabu para se tornar uma discussão social e comportamental presente. Deixou de ser um mero tema politicamente incorreto e de piadas resultantes de seu proibicionismo para se tornar um estilo de vida presente e possível.

Sabendo-se disso, é de se duvidar que este tema funcione como deveria nessa parceria entre a Netflix e a Warner porque, ultimamente, o serviço tem investido em produções bastante aguadas, sem o mesmo apelo inovador ou ousado de suas primeiras produções originais. Pro lado da Warner, sabemos que é um estúdio muito tradicionalista e conservador quando trata-se de produções para a TV, com grandes investimentos - em sua maioria - a comédias de situações cheias de clichés, estereótipos e saco de risadas (aquelas gargalhadas que ouvimos ao fundo que dita ao espectador a hora de rir de algo, como se burros fossemos nós que não achamos graça). Tudo direcionado para a família, ou para aqueles que facilmente acham graça de piadinhas que adoram zombar de assuntos que ora foram polêmicos na sociedade. A típica irreverência superficial norteamericana.

Por conta de todo o histórico da legalização, e da mesma tendência que muitos países do mundo chegarão a seguir, isso faz o uso da substância hoje em dia ser bastante comum. Junto a isso, temos as derrapadas da Netflix em suas atuais produções, além da já citada tradicional caretice da Warner. Somando-se tudo, fica um tanto óbvio que esta nova comédia de situações está longe de ter situações interessante e mais longe ainda de ser engraçada.

O tema cansado, batido e antigo se tornou antiquado, virando a típica situação da piada desajustada e sem graça. Se o seriado tivesse sido lançado há 10 ou 15 anos atrás, talvez pudesse ser hilário, ao invés de soar tão deslocado em tempo e espaço como hoje.

Obviamente, usando como grande fonte de inspiração e reciclagem o falecido seriado Weeds (2005-2012), a semelhança começa na própria abertura. Mas, enquanto na abertura de Weeds o que víamos era uma crítica à sociedade careta e metódica incapaz de lidar com mudanças, tanto através do vídeo, quanto pela música Little Boxes, de Malvina Reynolds, aqui fazem uma alusão de como a maconha é mais comum na sociedade do que a própria sociedade imagina, utilizando cenas do filme Marijuana (1936), conduzidas pela canção Jack, I'm Mellow, de Trixie Smith, gravada originalmente em 1938.

É, por um bom ponto de vista poderíamos entender que Desenrolados seria aquele tal futuro que Weeds previu ao longo de suas temporadas. Um futuro que chegou de fato, algo que faz as premiadas primeiras temporadas do seriado de Jenji Kohan se tornarem grandes referências sobre o assunto de maneira cômica e crítica. Mas a comparação positiva acaba por aí. Ao contrário disso, Desenrolados não consegue ser mais do que uma enxurrada de situações constrangedoras e vazias, num enredo sem pé nem cabeça tanto quanto os personagens que fazem nenhum sentido de existirem, assim como as desinspiradas gargalhadas gravadas que se ouve. E se Weeds fosse para ser sem graça (assim como foram suas fatídicas duas últimas temporadas), ele seria exatamente assim.

Impressiona o fato de Kathy Bates aceitar um trabalho que soa tão amador quando a atriz sempre foi muito enfática em entrevistas ao afirmar que tem dificuldade de trabalhar com amadores, sentindo que seu potencial não é explorado da mesma forma como quando rodeada por pessoas mais experientes e gabaritadas. Sim, uma afirmação um tanto presunçosa para uma atriz de poucos sucessos, mas respeitada por seu Oscar em Louca Obsessão (Misery, 1990), e alguns pares de outras indicações ao Oscar, Emmy e Globo de Ouro ao longo da carreira.

Me lembro que no seriado The Comeback (2005/2015), no qual Lisa Kudrow interpreta Valerie Cherish, uma atriz que já passou de seus 40 anos e agora faz de tudo para ficar famosa outra vez, há um momento que, por uma obrigação contratual, Valerie é enfiada em uma série de TV onde todos os demais atores tem mais da metade de sua idade. Os roteiristas, para contornar a discrepância, resolvem transformar a personagem em uma tia chata (a tia Sassy), que mora no andar de cima e que nunca consegue se ajustar com o comportamento dos jovens e seus hormônios incontroláveis, gerando uma sucessiva sucessão de situações constrangedoras.

A impressão que tenho assistindo Desenrolados, vendo o esforço hercúleo de Kathy Bates em se adequar a um elenco tão novo e amador, é praticamente a mesma sensação que tinha ao ver Valerie se humilhar para se adequar a algo que ela não se adequava mais. Não por ser mais velha, mas pela experiência e por um estilo de vida completamente oposto dos demais.

E nesse mesmo nível de incoerência, ver um seriado com personagens chapados, com um bagulho entre os dedos em todas as cenas, disparando diálogos sem qualquer efeito, tendo alucinações, comportamentos exagerados e estereotipados, deixou de ser engraçado para se tornar deturpado em uma época em que a maconha anda mais popular do que nunca tanto quanto cerveja de boteco.

Piadas que hoje são fora de hora porque sabemos que ninguém que comercializa legalmente o produto, ou que consome o produto, vive em uma viagem interplanetária constante como se estivesse à beira do retardo mental, exageros que antigamente eram engraçados, e eram engraçados justamente porque sempre é engraçado falar do proibido e rir do desconhecido. Mas hoje, falar de maconha, ou fazer piada sobre ela ou sobre quem usa, já se tornou tão batido e sem qualquer efeito quanto a piada do "elefante caiu na lama".

Nem mesmo Weeds se atrevia a zombar do assunto dessa forma, nem mesmo com personagens tão infames como Doug Wilson (Kevin Nealon) ou Andy Botwin (Justin Kirk), que mesmo chapados não chegavam a ter piadas tão sem graças ou forçar caras de chapado para obrigar o riso fácil.

Desenrolados nada mais é que mais um seriado fraco para cobrir buracos da Netflix sem qualquer conteúdo relevante. Uma perda de tempo tão grande quem nem mesmo para dormir serve. Talvez, pudesse ser interessante se não fosse levado como uma sitcom nos moldes tradicionais e o roteiro desenvolvesse suas histórias de maneira mais linear e não em esquetes. O que não é o caso.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SE PERDE COMO FUMAÇA...

★★★☆
Título: O Nevoeiro (The Mist)
Ano: 2017
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Horror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Frances Conroy
País: Estados Unidos
Duração: 42 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um estranho nevoeiro atinge uma pequena cidade, e com ele, acontecimentos sobrenaturais começam a ocorrer.

O QUE TENHO A DIZER...
Existe uma dificuldade praticamente incompreensível de adaptar as obras de Stephen King para a TV ou cinema. Historicamente sabemos disso.

Raramente uma ou outra produção consegue surpreender, e levar para as telas uma experiência rica e gratificante de um dos maiores escritores norteamericanos da atualidade. Mas acredite... além de um feito raro, também demora.

King é conhecido como o "mestre do horror e da fantasia" porque ele conseguiu o feito de fazer esses gêneros se tornarem relevantes na literatura contemporânea. Mais do que desenvolver histórias tensas, às vezes macabras, violentas ou sobrenaturais, o autor é um grande crítico social e político, que se utiliza desses estilos para criar metáforas que se tornam atemporais com sua literatura.

Mas não apenas de horror e suspense. King também já escreveu dramas bastante densos, como a abordagem da violência doméstica em Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992) e Rose Madder (1995), bem como também já se aventurou em fantasias mais juvenis e leves com a mesma maestria, como em Olhos do Dragão (The Eyes Of The Dragon, 1987).

A riqueza descritiva do autor sempre foi sua marca registrada, por vezes até massante ou cansativa, pois se atenta a pormenores até pouco relevantes. Assim é porque ele quer ter certeza de que a idéia visual e a mensagem daquilo que ele imagina chegue ao leitor de maneira completa. E chega. Porque embora suas obras utilizem constantemente elementos sobrenaturais, no fundo ele está lindando é com sentimentos humanos e suas complexidades. Não é à toa que seus livros comumente ultrapassam 400 ou 500 páginas, daí para mais. Foi o que aconteceu quando terminou de escrever Saco de Ossos (Bag Of Bones, 1998), livro que encontrou um entrave para sua publicação pela sua quantidade de páginas divulgadas na época (mais de mil), mas que na sua versão final acabou sendo bem menos que isso.

Sem dúvida ele é um dos autores mais adaptados. Melhor dizendo, um dos autores cujas produções mais tentam adaptar. Nem mesmo ele, como roteirista, já conseguiu salvar filmes ou seriados do seu próprio desastre, como aconteceu com Sob A Redoma (Under The Dome, 2013-2015), seriado que teve alguns episódios escritos e produzidos por ele, mas morreu na terceira temporada por conta da saraivada de críticas negativas e a desastrosa queda de audiência.

De tempos em tempos King vira moda, e o hype em cima de seus trabalhos voltou ultimamente com a adaptação do recém lançado A Torre Negra (que está mal das pernas nos cinemas) e o remake de um de seus maiores clássicos (e bem adaptado no passado): IT.

Portanto, em uma produção visualmente e tecnicamente parecida com Sob A Redoma (mais nos defeitos que em qualidade), a tentativa de transformar O Nevoeiro em uma nova série parecia calhar.

A série é livremente baseada em um conto homônimo publicado em 1982 como parte de uma antologia de contos de horror do autor. O conto já foi adaptado ao cinema por Frank Darabont em 2007, o mesmo diretor que adaptou os sucessos Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994) e A Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1999), ambos de King. Embora O Nevoeiro não tenha tido sucesso comercial, é considerado uma das melhores adaptações do escritor, além de ter cativado o público (para o bem e para o mal) por conta de seu surpreendente e inesperado final que foi contra qualquer dogma Hollywoodiano de se concluir uma história.

Enquanto em Sob A Redoma o autor trabalha na dificuldade dos personagens lidarem com o confinamento, extraindo de cada um deles o seu melhor e seu pior nesta situação, dessa vez é o nevoeiro do título que irá arrastar o caos por onde passar, trazendo consigo aquilo que irá fazer os personagens entrarem em conflitos com suas crenças, seus valores, suas diferenças, suas dificuldades de comunicação, e a reflexão daquilo que somos como indivíduos, como sociedade e como unidade familiar.

O filme de Darabont conseguiu abordar todas essas nuances de maneira coerente e brilhante, e transformar o nevoeiro da história tanto como a ferramenta de realização dos nossos desejos mais sórdidos e obscuros como também daquilo que mais queremos evitar. Mas a série não consegue ter a mesma delicadeza de abordagem. Aliás, não há abordagem alguma nesse aspecto.

Com um primeiro episódio bastante fraco, que tenta se construir em intermináveis clichés e determinar ao espectador por A+B quem são os mocinhos, os vilões e quais são as intrigas chochas, o roteiro raso não consegue desenvolver a surpresa e o terror dessa metáfora que o nevoeiro significa conforme se aproxima da pequena e pacata cidade de Bridgeville, no interior do Maine.

O defeito é sempre ser muito didático. E aqui há um extremismo ao didatismo em níveis hiperglicêmicos. Mesmo produzido pelos independentes irmãos Weinstein (da The Weinstein Company), e também levar o selo Netflix de "qualidade" carimbado acima do título, a impressão de se assistir uma nova serie da TV aberta para a massa desprovida de intelecto é a mesma. Não há ousadia, não há crueza nas situações como há no filme. Tudo é desperdiçado para o fácil e óbvio ao ponto de uma criança de seis anos conseguir compreender, mesmo que o seriado seja indicado para maiores de 14 anos.

"Temos que fazer", "temos que correr", "temos que fugir"... E temos que incansavelmente acreditar que a polícia vai salvar o mundo, mesmo oito episódios depois. É difícil considerar se diálogos como esses sejam excesso de ingenuidade ou de estupidez. Com roteiro simplório e previsível como uma linha de trem, as situações de tensão, medo e horror nunca decolam porque nunca há construções convincentes para isso. As coisas podiam ser menos óbvias, superficiais ou exageradas, mas Netflix parece que cada vez mais tem facilitado sua linguagem para evitar o máximo a dispersão de seu público, investindo pesado na fácil assimilação, daí a impressão da brusca queda de qualidade de suas últimas produções. Uma pobreza de idéia sem fim, onde todo mundo sempre entrava um episódio porque tem uma história pra contar, mas nenhuma história é interessante o bastante para sustentar seus minutos, dando a sensação de que nada vai a lugar algum.

Os atores também não ajudam. Assim como em Sob A Redoma, que tinha personagens adolescentes e adultos que mais irritavam do que causavam empatia, a situação se repete aqui com a filha do casal protagonista (vivida por Gus Birney), que se martiriza por conta de um abuso sexual mal desenvolvido, e uma mãe protetora (Alyssa Sutherland) que mais parece uma colega de classe emburrada do que uma chefe do lar. O desenvolvimento do pai (Morgan Spector) também está longe de ser o mesmo do construído por Thomas Jane no longa. E sempre que houver oportunidade, o seriado irá pecar ao focar mais em cenas chocantes de morte e dilaceramento ao invés do drama dos personagens e seus respectivos conflitos, os grandes e reais vilões de tudo.

Até mesmo o único peso pesado da série acabou sendo submetido a um personagem retilíneo, aquele para ser usado quando o roteiro não tiver mais argumentos para alguma reviravolta. Frances Conroy, conhecida por Six Feet Under e suas participações em American Horror Story, aqui interpreta uma senhora hippie que presencia o assassinato de seu marido. Sua esquisitice nunca chega ao transtorno pós traumático que deveria, ao contrário disso, beira ao retardo mental, anos luz distante do maquiavélico fanatismo e da inesgotável obsessão de Marcia Gay Harden no longa, já que ambas acabam tendo um desenvolvimento similar na história. Mas a péssima construção da personagem não é um privilégio apenas dela, há também o policial que se deprime porque perdeu sua arma, numa metáfora à perda do poder e do arbítrio de maneira tão emocionalmente ridícula que beira o constrangimento.

Nem divertido o seriado consegue ser. Talvez seja se for para apenas prestar atenção aos defeitos, como os de maquiagem, tão ruins que é possível notar a pincelada de tinta na pele.

Confesso que assisti os 10 episódios, um a um, entediado, só pra garantir que tudo aquilo que imaginei no primeiro episódio se concretizasse. Contava minutos para cada um deles acabar. Para não dizer que nada seja interessante, há um par de reviravolta na história em seus dois últimos episódios que irá justificar algumas coisinhas, mas a gente já está tão cansado de la-la-ris e la-la-rás, que ao invés de surpreender, causa bocejo e zero espanto. Uma pena.

O nevoeiro de King nada mais seja do que o gatilho de todos os medos, temores e conflitos internos e externos de uma sociedade pacata e hipócrita, culturalmente condicionada a um platô confortável, incapaz de sobreviver a mudanças e situações avessas às que estão acostumados. Mas infelizmente toda essa profundidade é perdida num produto cuja única real e rasa metáfora seja se perder como fumaça.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PARA O PÚBLICO EXAGERADO...

★★★★☆☆☆☆☆
Título: Onde Está Segunda? (What Happened To Monday?)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Ficção Científica, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Tommy Wirkola
Elenco: Noomi Rapace, Gleen Close, Willen Dafoe, Marwan Kenzari
País: Reino Unido, França, Bélgica, Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sete irmãs gêmeas deverão sambar sobre tamancas para sobreviver em um mundo superpopulado e sem recursos, onde apenas filhos únicos são permitidos,

O QUE TENHO A DIZER...
Com o fim do seriado Orphan Black, onde Tatyana Maslany interpretou, ao longo de cinco temporadas, cinco personagens fixas distintas (fora outras não fixas), o lançamento do novo longa também assinado pela Netflix, Onde Está Segunda?, pareceu bastante estratégico, já que Noomi Rapace igualmente oferece multiplas interpretações em o número absurdo de sete personagens. Absurdo porque o que Maslany fez em 50 episódios, Rapace fará em apenas 2 horas. Capiche?

Em Orphan Black, o tema era a clonagem humana, o que justificou a ousadia de tantas personagens interpretadas pela mesma atriz. Neste filme, o tema soa um pouco mais interessante e original dentro da fantasia científica que se propõe. Em um mundo superpopulado e com falta de recursos, domina uma lei de controle de natalidade, onde todos devem ser filhos únicos. Mas para as famílias que tinham uni ou bivitelinos, os governos optaram pela criogenia dos excedentes, os quais seriam trazidos de volta em um futuro onde a população já estivesse controlada e abaixo dos níveis de emergência.

Dirigido pelo noruegues Tommy Wirkola, conhecido pelos divertidos Zumbis Na Neve 1 e 2 (Dead Snow, 2009/2014), a trama começa quando vemos Terrence (Willem Dafoe) em um berçário, recebendo a notícia de que sua filha, a grávida de Taubaté do filme, não havia resistido ao parto de sétuplos. De maneira muito prática, ele resolve dar às suas netas órfãs o nome de cada dia da semana. Muito inteligente e esperto para seus planos futuros, que não demoram para serem revelados ao espectador.

Não há dúvida de que a idéia do filme seja interessante, já que embarca numa onda parecida não apenas com o seriado protagonizado por Maslany, mas também por outro longa aclamado no passado do diretor Alfonso Cuarón, Filhos da Esperança (Child Of Men, 2006). Enquanto no filme de Cuarón a infertilidade da população levou ao colapso, aqui é o inverso.

Mesmo sendo um avô, a imagem do "pai herói" que Dafoe constrói, naquela linha tênue entre o cândido e o carrasco, onde todas ações se justificam para salvar a vida de suas netas em um mundo cruel e injusto, consegue ter uma construção interessante, e a idéia de que todas adotem uma identidade única também. Mas quando a segunda parte do filme começa, com as irmãs já adultas, em um cena pra lá de batida, onde interagem em uma mesa de jantar para serem apresentadas individualmente de maneira bastante didática ao espectador a partir de suas distintas personalidades e caracterizações, já é possível perceber que a produção tenta usar, a todo custo, um cafona exagero como atrativo.

E no clássico erro do cinema comercial, esse exagero se sobrepõe a uma idéia interessante, ofuscada pelo excesso de personagens que estão lá não para desenvolver a história de maneira consistente, mas para impressionar desnecessariamente, cobrindo buracos e pulando saliências.

Quando Nicolette Cayman (Gleen Close) é apresentada como a grande vilã, não dá para evitar lembrar da atriz em Mulheres Perfeitas (Stepford Wives, 2004), refilmagem de um clássico de 1975 que se tornou uma referência do cult trash moderno, já que é tão ruim, mas tão ruim, que se torna divertido por isso.

E realmente, Nicolette tem muito de Claire Wellington. O perfeccionismo da personalidade maníaca se destacam novamente, não porque Gleen Close se repete, mas porque o estigma que a atriz carrega de "eterna vilã" faz papéis parecidos e rasos sempre caírem em suas mãos e ela aceitá-los pela falta de algo melhor.

Noomi Rapace também não consegue ter uma articulação convincente como Maslany. Não que eu queira comparar ambas, que são extremamente diferentes, mas porque o trabalho exercido por elas é bastante similar. A atriz sueca, revelada em 2009 na trilogia original Millennium, baseada nos livros de Stieg Larson (que tentou ser adaptada por Hollywood com o ridículo Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de David Fincher), pode ser talentonsa e expressiva, mas deixa a caracterização prática (figurino, maquiagem e cabelo) ser mais importante que a caracterização física. Quando um ator se rende a isso, o resultado deixa de ser convincente e se tornar caricato. É evidente.

Culpas do exagero.

Se o roteiro tivesse reduzido o número de personagens na trama a apenas um par de gêmeos, Rapace certamente teria oferecido um trabalho mais consistente, menos estereotipado, e o filme teria tido oportunidade de explorar com maior efetividade o suspense de sua ficção-científica e usado as cenas de ação como complemento eficiente e não como um espetáculo pirotécnico para tirar a atenção dos inúmeros defeitos que ele se permite sem vergonha alguma.

O resultado de tudo isso é um filme esquisito e um tanto bizarro. Os péssimos enquadramentos, as composições caóticas das cenas, uma edição igualmente confusa que se limita a mostrar a expressão de uma, depois de outra e de outra em um loop infinito em diversas sequências cansativas e sem qualquer propósito, faz dele algo esteticamente feio, rendendo umas boas gargalhadas pelos clichés, defeitos, exageros cênicos e figurantes esquisitos para aqueles que prestarem atenção. Sem falar da história em si, que começa na interessante idéia de explorar como as sétuplas sobreviveriam nessa distopia, mas (SPOILER) com o roteiro matando uma a uma sem misericórdia, não apenas acaba contradizendo e emplodindo toda a narrativa inicial, como também se torna uma grande bobagem que nos faz finalmente questionar a redundância: para que tantas personagens, então?

Sem dúvida é um filme perdido, cheio de técnicas manjadas para impressionar o espectador de maneira forçada, como dar maior atenção à ação do que ao resto. Trash ele consegue ser, mas é um produto irrelevante por nem visualmente agradável ou divertido conseguir ser. Para aquele público que adora um exagero e que sempre acha que "quanto mais melhor", este filme tem de monte, menos qualidade, algo que definitivamente esse público pouco se importa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A ÚLTIMA TEMPORADA DE ORPHAN BLACK...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Orphan Black (Última Temporada)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Ação, Ficção Científica, Policial, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Tatyana Maslany, Jordan Gavaris, Maria Doyle Kennedy, Kristian Bruun, Kevin Hanchard, Dylan Bruce, Evelyne Brochu
País: Canadá
Duração: 44 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ao ver uma sósia idêntica se suicidar em sua frente, uma mulher rouba sua identidade para fugir da polícia e dar a ela e sua filha uma nova vida, mas isso foi apenas o gatilho de uma grande conspiração no qual será o grande pivô.

O QUE TENHO A DIZER...
Orphan Black nunca foi um fenômeno, mas teve uma base sólida de fãs. Por isso conseguiu ter seu começo, meio e fim ao longo de cinco temporadas.

Cinco temporadas que, segundo seus criadores, já estavam no cronograma para contar a épica e contemporânea batalha entre a protagonista e uma grande corporação que comercializa experimentos biogenéticos, da qual ela descobre ter sido vítima. O seriado começou com um enredo que envolvia exageros desumanos a respeito da clonagem humana, e posteriormente a trama se desenvolveu para revelar que as explorações científicas em cima disso - envolvendo alguns milhares de inocentes - era a base para aquele fascínio que sempre existiu tanto na ficção científica, como também na realidade: a busca da fonte da juventude eterna.

Já fiz uma análise sobre a série AQUI, e embora toda a trama tenha se desenvolvido de maneira respeitável e empolgante, é impossível negar que o grande atrativo de tudo era muito mais pela versatilidade de Tatiana Maslany do que pelo roteiro em si. Maslany interpretou, ao longo de toda a série, outras três personagens principais além da protagonista. Sem contar outras que apareciam entre uma episódio e outro apenas para dar maior densidade nas situações ou uma maior consistência momentânea, ora dramática, ora cômica.

Em uma entrevista dada a Chelsea Handler em 2016, Maslani afirmou ser um trabalho exaustivo representar tantos papéis, tanto para ela quanto para a equipe técnica, mas um desafio que vale a pena, e talvez uma experiência única a qualquer ator. Tanto valeu a pena que a atriz, finalmente, conseguiu o tão aguardado Emmy. Aguardado não por ela, mas pelos fãs e pela crítica, rendendo até uma piada (com fundo de verdade) de Jimmy Fallon a respeito disso, dizendo que se Maslani concorria por ter interpretado 5 personagens, a categoria deveria ter sido apenas dela.

De fato, a dedicação e o talento de Maslani são inquestionáveis, ultrapassando os poderes da maquiagem e cabelo na hora da caracterização, oferecendo uma interpretação física, vocal e comportamental tão convincentes que conseguimos diferenciar cada uma das personagens só de olhar para elas. Tanto que os momentos mais interessantes são quando alguma das personagens finge ser alguma das outras personagens, algo que acontece diversas vezes ao longo das cinco temporadas.

Era de se esperar que a quinta e última temporada não pudesse ser tão grandiosa quanto as anteriores, já que a história obviamente focaria na revelação de fatos ainda abertos e na conclusão de pontas soltas.

Infelizmente os 10 episódios pareceram curtos para tanta coisa, caindo em clichés um tanto óbvios e soluções "práticas" para surpreender o espectador e dar conclusões repentinas. A redenção de personagens que desenvolveram sua vilania ao longo de toda a série, ou a perda de outros que se tornaram imprescindíveis na história, são alguns desses exemplos, não causando tanto impacto como deveria, deixando no ar aquela estranha sensação de que certas coisas poderiam ter sido diferentes, mas foram como foi por serem mais fáceis.

O desenvolvimento da última temporada não foi tão bem pensado ou articulado como deveria. Definitivamente não causou a impressão de que tudo já estava tão bem resolvido na cabeça dos criadores como eles afirmaram ao longo dos últimos dois anos. Muitas pontas soltas permaneceram, bem como outros personagens continuaram de lado e só apareceram em momentos oportunos para afirmarem aos espectadores que eles ainda existiam e não haviam sido esquecidos, mas que voltaram a ser dispensados depois de suas participações.

A situação de evitar que as personagens interpretadas por Maslany se encontrassem com frequência também era evidente para evitar complicações técnicas, principalmente com a repentina "saída de cena" de algumas delas, com uma se enclausurando em um convento (e lá ficou esquecida), bem como outra que foi atrás de um certo "retiro espiritual" (e lá ficou esquecida também). Artifícios utilizados com frequência na televisão quando há excesso de personagens e ausência de eficiência deles nas tramas e subtramas.

Uma última temporada simples, que permaneceu numa zona de conforto que não superasse expectativas, mas que também não desagradasse os fãs. Há um momento em que Cosima reage com bastante emoção à perda de outra personagem, mas pra mim foi inevitável interpretar a situação como um choro de alívio da atriz de que todo o trabalho e esforço foram válidos, e que o peso de carregar todo um seriado em cima das próprias costas finalmente chegou ao fim. Isso não é um ponto de vista negativo, pelo contrário, tudo na vida há prazo de validade, e Orphan Black encerrou sua trajetória de maneira respeitável, sem precisar mofar ou apodrecer na prateleira para que isso acontecesse.

domingo, 9 de julho de 2017

NOVELÃO DA PORRADA...

★★★★★★★★☆☆
Título: GLOW
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Marc Maron, Chris Lowell
País: Estados Unidos
Duração: 35 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Os bastidores das vidas pessoais e profissionais da primeira liga de Luta-Livre feminina de Los Angeles.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de Stranger Things e sua incrível homenagem aos anos 80, a filmes clássicos e estilos que marcaram essa época, a Netflix dá continuidade a essa "sessão nostalgia" com GLOW, um acrônimo de Gorgeous Ladies On Wrestling, algo como "lindas mulheres na luta-livre".

A série se baseia livremente no documentário GLOW: A História das Lindas Mulheres na Luta-Livre (GLOW: The Story Of Gorgeous Ladies On Wrestling, 2012), e na série televisiva original, que foi ao ar entre 1986 e 1989. Mas ao contrário dos materiais originais, aqui narra de maneira mais fictícia e cômica o início da modalidade feminina de Luta-Livre em Los Angeles, um esporte encenado para o puro entretenimento da platéia e que já fazia muito sucesso na modalidade masculina. Não é à toa que, por conta disso, todas as personagens da série, embora levem nomes distintos, sejam referências diretas às personagens da verdadeira liga de luta-livre, inclusive o próprio personagem Sam Sylvia, baseado em Matt Cimber, o diretor original da equipe. 

Marcando a estréia de Liz Fahive e Carly Mensch como criadoras, ambas foram produtoras de sucesso de seriados como Homeland e Weeds, respectivamente. Elas também assinam a produção e o roteiro, e trazem junto Jenji Kohan como produtora executiva, a mesma criadora de Orange Is The New Black e Weeds.

Claro que, com uma equipe dessas, não tinha como a produção dar errado, e tudo funciona como deve, mostrando de maneira convincente os bastidores e as dificuldades que as mulheres encontraram em uma modalidade esportiva dominada pelos homens e pelo público masculino. Assim como Flahive chegou a afirmar em uma entrevista a Rolling Stone, sem dúvida a história pega carona no movimento de liberação feminina que ocorreu nos anos 70, questionando as consequências e os resultados disso nos anos posteriores, e até que ponto o surgimento de ligas femininas explorava ou empoderava as mulheres.

Esse questionamento emerge o tempo todo principalmente por conta do personagem Sam Sylvia (Mark Maron), um tipo que muito se assemelha aos personagens canastrões de Robert De Niro ao longo de sua carreira. Um diretor excêntrico e mal compreendido, com sérios distúrbios de humor, dotado de uma pungente ironia e arrogância para encobrir a auto-confiança abalada por uma carreira decadente, fadada ao fracasso.

Sylvia aceita a proposta de um jovem rico de dirigir uma série de luta-livre apenas com mulheres, e desde o processo de seleção do elenco, ele não esconde que sua principal intenção é explorá-las através de estereótipos sexistas para atrair o público e a audiência televisiva. O comportamento primariamente um tanto machista do diretor são os pontos altos da série, pois é através dele que o roteiro caminha na linha entre a exploração e o empoderamento. Elementos usados principalmente para o desenvolvimento das demais personagens, que mesmo aceitando se submeterem a essa exploração visual e sexual, também se empoderam ao tomar as rédeas criativas do processo e moldarem o produto final em um formato onde elas utilizam essa exploração como uma ferramenta de fortalecimento feminista em cima dos estereótipos, seja em suas vidas pessoais, seja na vida profissional.

A história começa apresentando Ruth Wilder (Alison Brie), a heroína da história, uma atriz determinada "que só faz pontinhas", igualmente abalada por nunca ser escolhida nos diversos processos de seleção de elenco nas quais se inscreve, ou nunca conseguir papéis realmente interessantes, ou que explorem sua capacidade artística além de papéis de dona de casa ou de secretária. Falida e sem dinheiro para sequer comprar comida, é assim que acaba entrando para o elenco de GLOW. Tal como ela, as demais personagens também não se encaixam em perfis profissionais esperados, incluindo sua melhor amiga (que também virá a se tornar uma inimiga), que largou a profissão de atriz para casar com uma homem bem sucedido e assim garantir seu sustento, mas que tem o benefício de ser loira, o que facilita seu protagonismo, como é dito em um determinado episódio.

Assim como Sylvia deixa evidente logo no começo, a série se aproveita de auto-referências para igualmente construir cada personagem em cima de estereótipos sociais, e Ruth se torna a metáfora da dificuldade feminina de sobreviver à independência e ao mercado de trabalho numa época em que o sexo feminino era taxado como frágil. Não é à toa que a grande força motriz é a união de tipos socialmente excluídos, assim com também acontece com os personagem de Stranger Things, resultando em conclusões épicas e engrandecedoras para provar que, assim como a personagem Sheila (Gayle Rankin) diz sobre ela mesma - mas que pode ser interpretado de maneira geral - todas elas são humanas e capazes, mas precisam encontrar artifícios extras para se sobreporem em uma sociedade preconceituosa e segregadora.

Infelimente Ruth não parece ser bem desenvolvida como poderia ser, ou como a princípio parecia ser. Seu excesso de determinação, confiança e indulgência acabam prejudicando seus momentos ora cômicos, ora dramáticos, se tornando uma personagem cansativa, perdida entre no limbo entre o humor e a tragédia, sendo sempre vítima dela mesma em diversos momentos que ao invés de serem cômicos, se tornam humilhantes. Seus momentos de humilhação e vergonha alheia se assemelham em número e grau com a personagem Valerie Cherish, vivida por Lisa Kudrow em The Comeback. Há até mesmo momentos para suas persononificações tal qual a personagem de Kudrow constantemente faz, como no momento em que está em seu quarto e mostra a Sheila sua mais "nova" personagem, que nada mais é do que uma imitação de Katherine Hepburn, atriz a qual tanto admira que possui até um poster em sua parede, seu único objeto de valor. Não é à toa que este poster está estrategicamente atrás dela nesta cena. Mas ao contrário de Valerie, cuja proposta desde o princípio é mostrar os constantes esforços de uma atriz decadente a retomar o sucesso em um arco dramático coeso, Ruth não tem uma razão muito clara para ser como é pois ela não tem um passado ou um futuro já exposto, seu pedantismo excessivo dificulta atrair a simpatia do espectador. É quando a personagem é aliviada desses excessos que ela finalmente se torna relevante, mesmo explorando com exagero igualmente cansativo seu alter ego russo, igual aquelas pessoas que não param de contar piadas, e no fim todo mundo já está dando risada mais por educação do que por ser engraçado.

Talvez a intenção tenha sido proposital para que, a princípio, a atenção seja voltada às demais personagens, que mesmo em participações menores, conseguem ser muito mais interessantes e consistentes. Há até um momento em que Sylvia ameaça demitir algumas atrizes, dizendo que seria até bom, já que há excesso de personagens. Isso poderia ser visto como uma auto-crítica dos próprios roteiristas, mas que felizmente é contornado porque há espaço para todas, mesmo que alguma delas às vezes sejam um pouco esquecidas, subutilizadas, ou estejam lá apenas para cobrir buracos, como é o caso de Cherry (Sydelle Noel) e da dupla Stacey e Dawn (Kimmy Gatewood e Rebekka Johnson).

O comprometimento das atrizes é notório. Todas elas foram realmente treinadas durante as filmagens pelo lutador Sam Guerrero, sobrinho de Armando Guerrero, treinador da equipe original, e mesmo com muitos truques de câmera e algumas situações onde evidentemente se usam dublês, muitas das cenas foram feitas pelas próprias atrizes. Com excessão de Kia Stevens, que faz a personagem Welfare Queen, a única lutadora na vida real.

No geral é uma série que se constrói de maneira interessante, que gradualmente mostra sua consistência em uma trama principal simples, empolgante e convincente, com diálogos inteligentes, personagens cativantes (como não se apaixonar por Melrose, Rhonda, Tammé, Carmem ou Arthie?), abraçando referências a filmes do gênero e a uma trilha sonora igualmente nostálgica, escolhida a dedo. Como não associar o intensivo treinamento de Ruth e Debbie (Betty Gilpin) à clássica cena de ensaio em Dirty Dancing entre Baby e Johnny (Jennifer Grey e Patrick Swayze)? Há até igual similiaridade ao mesmo filme quando Debbie desiste de realizar o movimento mais marcante, tal como Baby quando desiste de ser erguida por Johnny quando se apresentam juntos pela primeira vez. Pode-se dizer o mesmo, em igual consistência, às sub-tramas, havendo até um momento bastante dramático entre Sylvia e Justine (Britt Baron), que é tão bem desenvolvido ao longo dos episódios que pegará qualque um de surpresa.

GLOW é exagerado na sua produção como foi os anos 80. Não chega a ter o mesmo nível de fidedignidade como nos filmes Cegueira Histérica (Hysterical Blindness, 2002) ou 200 Cigarros (200 Cigarettes, 1999), mas ainda  consegue ser um produto essencial para os mais saudosistas, e principalmente para aqueles que pouco (ou tudo) desconhecem sobre o ingresso das mulheres nesta modalidade esportiva, e porque, ao mesmo tempo, ele é considerado um "novelão da porrada".


segunda-feira, 3 de julho de 2017

ABRA SEUS OLHOS, NETFLIX!

Era esperado que a hegemonia da Netflix algum dia chegasse ao fim. A empresa, responsável por popularizar o novo segmento streaming como um abre alas da independência daqueles insatisfeitos com os canais a cabo nos últimos anos, além de oferecer maior liberdade de escolha à sua audiência por um preço baixo e justo, chegou a ser ponto de polêmicas e alvo de ataque da indústria do entretenimento e também debate nas escalas políticas, como aconteceu no Brasil, sobre a taxação tributária específica de um serviço não legislado por não ter categoria específica, e assim haver aumento do preço do serviço para restringir consumidores. Até mesmo as empresas de telefonia resolveram voltar a restringir o uso de dados, cuja uma das principais alegações foi o grande tráfego - e consequente congestionamento - que o excesso de streaming causava, impactando na qualidade do serviço móvel.

E no fundo, o que se viu foi diferentes setores que se beneficiam entre si se unirem para tentar reduzir o impacto da democrática escolha que o serviço causou. Em resumo, ao invés desses setores resolverem concorrer de maneira honesta, melhorando seus conteúdos e serviços, preferiram encontrar a via mais fácil da sabotagem para permanecerem nas suas zonas confortáveis. 

Não há como negar que o serviço conseguiu pisar em calos alheios, mesmo que essa nunca tenha sido a real intenção. Mas sempre que algo bom surge em qualquer área que seja, os incomodados se armam até os dentes para guerrear pela manutenção do seu espaço e domínio.

Polêmicas à parte, pelo menos no Brasil, o serviço ainda se mantém da mesma forma como veio. Os humores exaltados se normalizaram e felizmente as coisas ainda correm bem.

A história da Netflix começou de maneira modesta em 1997, como uma empresa desenvolvedora de conteúdo digital, ganhando popularidade a partir do momento que começou a oferecer vídeos por demanda, em 2007, serviço que atualmente conhecemos e consumimos. Com o passar dos anos, o número de assinantes pelo mundo só veio a crescer, gerando lucro suficiente para, em 2013, começar a produzir seu próprio conteúdo, ou pagar para que o conteúdo seja exclusivo e leve seu carimbo.

Só que, da mesma forma que novidades incomodam alguns, também abrem novas oportunidades no mercado para outros, e o que se vê é um crescente número de concorrentes, como a Amazon, a HBO Go, Crackle (recentemente comprado pela Fox para esse fim), dentre outros. E junto a tudo isso, a Netflix agora tem que também evitar de se tornar ameaça dela mesma.

Nos últimos quatro anos, houve um crescimento absurdo de novas produções. Longas metragens aclamados, e outros nem tanto; seriados que apostavam em conteúdos diversos, mas nem sempre tão bons. Uma enxurrada de produtos que deixaram no ar se ela seria capaz de mantê-los conforme outros lançamentos chegassem e integrassem a vasta videoteca que só crescia, mas que nunca soube ao certo para que rumo ir.

A ousadia sempre fez parte da proposta do serviço, o que é admirável. O que não é tão admirável assim é a sensação de que a direção de conteúdo apenas "rapeava" aquilo que outras produtoras e estúdios pretendiam jogar no lixo, dando aval a produções pensando mais no incremento de conteúdo do que pela qualidade, atirando para todos os lados na pressa de ter produtos originais e aos poucos trocar os produtos da prateleira virtual.

É desnecessário citar seriados e filmes que deram certo ou não. Cada um de seus assinantes consegue ter uma noção, mesmo que bastante superficial, daqueles que funcionam e daqueles que não fazem qualquer diferença, como acontece, como exemplo, na maioria do conteúdo de comédia, que muitas vezes sequer arranca um sorriso genuíno do espectador.

Em um relatório recentemente divulgado pela 7Park Data, observa-se que, dentre os 10 conteúdos mais assistidos entre 2016/17, apenas Orange Is The New Black e Stranger Things levam a marca Netflix, respectivamente em 6º e 10º lugar. Isso veio à tona como uma bomba. Afinal, de que vale gastar dinheiro com conteúdo original se as pessoas não tem interesse por ele? É a pergunta que surge após a entrevista concedida pelo Diretor Executivo, Reed Hastings, à CNBC, canal por assinatura sobre finanças e negócios.

A solução que a empresa agora encontrou foi de fazer aquilo que os canais de televisão mais fazem: cancelar suas produções sem qualquer aviso, o que impacta diretamente na produção de séries. Isso prejudica o conteúdo, que é interrompido sem conclusão, o que historicamente desagrada e revolta a audiência, que aos poucos tende a perder a confiança. E independente de ser um conteúdo recente ou já consagrado na casa, qualquer um deles se tornou alvo, gerando muita apreensão por parte dos assinantes.

É o que aconteceu recentemente com o inesperado cancelamento de Sense8, série bastante popular no Brasil, cujo fim foi anunciado logo após o lançamento de sua segunda temporada, a qual não possui um final conclusivo. A revolta de fãs e assinantes chegou no escritório de conteúdo, que resolveu dar um passo atrás e anunciar, na última semana de Julho, que a produção de um especial de duas horas foi encomendada para encerrar a trama como se deve.

Sense8 foi apenas um dos escolhidos de Ted Sarandos, Diretor de Conteúdo, a cancelamento pelo seu alto custo. Marco Polo é outra, e The Get Down também não chegará a ver a luz de uma segunda temporada pelas mesmas razões. A baixa repercussão de Girlboss também levou ao seu precoce cancelamento, e o cancelamento de Hemlock Grove não foi uma grande surpresa, mas gerou certo buzz entre a base de fãs. E como dito, todos os outros títulos já estão na berlinda, salvo algumas excessões consagradas, ou que são interessantes serem mantidas para o marketing positivo da marca ao levantar disscussões de relevâncias sociopolíticas, com no caso de House Of Cards, ou o recente Dear White People.

O inchaço de produções foi o grande problema, principalmente com o excesso de stand-up comedies, formato muito mais popular nos Estados Unidos do que em outros países. A ousadia se sobrepôs ao planejamento de longa data, a atenção a excessos com megaproduções para chamar a atenção (como o caso de Sense8 ou Marco Polo) se sobrepuseram ao planejamento financeiro. E agora a Netflix passa por uma reformulação forçada.

A atenção a isso agora é primordial, ao mesmo tempo que o cuidado nas decisões e um maior foco ao planejamento se tornaram quesitos fundamentais à sua sobrevivência. E a empresa irá sambar na corda bamba, pois deverá encontrar alternativas para manter o interesse de seus assinantes mesmo com conteúdos indo embora, e novos outros serviços de streaming aparecendo com conteúdos até mais interessantes.

Inchar o carrossel do aplicativo com produções baratas e de qualidade duvidosa apenas para levar o selo de LANÇAMENTO ou NOVOS EPISÓDIOS não segura ninguém. Ela deveria ter se atentado a isso desde o princípio. O mérito da existência da Netflix é poder ousar, mas isso não significa fechar os olhos para a qualidade. A direção de conteúdo de Sarandos não parece ser uma das melhores, já que poderia ser mais peneirada, evitando produções como o horroroso The Farm, ou até mesmo na insistência em parcerias milhonárias como a de Adam Sandler, que trazem pouco retorno. De igual medida, apenas investir na hospedagem de produções não inéditas também não atrai mais pessoas da mesma forma como atraiu no começo do serviço em demanda, quando era novidade ter temporadas disponíveis para usuários fazerem suas maratonas sem terem que esperar a boa vontade dos canais abertos.

A Netflix não precisa ter o mesmo punho de ferro comercial e industrial de estúdios. Ela deve continuar sendo ousada na escolha de seus produtos, pois esse sempre foi seu diferencial. Mas deve ter uma equipe de análise de conteúdo mais competente, onde seja avaliado a qualidade de sinopses e roteiros antes de serem aprovados. E mesmo em produções tercerizadas, o acompanhamento deveria ser mais rígido para o controle de qualidade. E principalmente, na dúvida de não saberem se um novo lançamento chegará a ter uma nova temporada ou não, exigir que os últimos capítulos tenham mais conclusões do que pontas soltas para não desagradar a audiência e perder a sua confiança. E para as produções já existentes, o planejamento a longo prazo deve ser primoridal, como aconteceu com Orphan Black, cujo fim foi anunciado com bastante antecedência, dando tempo para a construção de sua conclusão para a quinta temporada.

Qual seriado deve ser mantido mesmo que não gere muito lucro? Qual conteúdo deve ter oportunidade para os próximos dois anos? Qual produção deve ser cancelada para a próxima temporada sem afetar o público? Há necessidade de determinado conteúdo ter mais do que um número X de episódios? Qual a relevância de um longa metragem, independente de seu gênero?

Planejamento, Netflix! Puro planejamento e respeito a seus assinantes.

Agora basta esperar para saber se o serviço terá a vida longa que tão de início parecia ter, mas que agora se tornou algo de futuro nebuloso.

terça-feira, 20 de junho de 2017

HÁ HANNAH BAKER EM TODO LUGAR...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Por 13 Razões (13 Reasons Why)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Katherine Langford, Dylan Minnette, Alisa Boe, Christian Navarro, Brandon Flynn, Justin Prentice, Miles Heizer, Kate Walsh
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um jovem se mobiliza a descobrir a história por trás do suicídio de sua colega pela qual era apaixonado, e os motivos que a levaram a isso.

O QUE TENHO A DIZER...
Tal qual Brás Cubas, porém obviamente sem o mesmo sarcasmo e a mesma profundidade realista/impressionista de Machado de Assis, a série, baseada no livro homônimo de de Jay Asher, é postumamente - e parcialmente - narrada pela protagonista da história, que se suicidou depois de uma sequência de eventos desmoralizantes nos seus últimos anos no Ensino Médio. E isso soaria um spoiler caso nada disso fosse revelado logo no primeiro capítulo. 

O que nota-se desde o princípio é que a história de Hannah Baker tem embutida críticas comportamentais da cultura adolescente e à mentalidade coletiva, e flertam nos relato bastante descritivos, porém incertos, plantando a dúvida de sua veracidade tanto nos personagens, quanto no espectador, tudo para o bem da narrativa e de um suspense empurrado mais pelo atraso das revelações, do que pelos fatos em si, daí a interminável sensação de que cada episódio tem o dobro de sua duração.

Os episódios se desenvolvem e se aprofundam nos motivos, razões e circunstâncias de Hannah (Katherine Langford) chegar à conclusão que se matar seria a solução de seu futuro nebuloso, e o ponto de partida da trama é quando Clay Jensen (Dylan Minnette) recebe uma cópia de cassetes com gravações feitas por ela mesma, relatando os pormenores que levaram à sua decisão suicida. Clay se impõe como um agente revelador, aquele que irá confrontar e ao mesmo tempo se sensibilizar com os constantes infortúnios da anti-heroína da história. Ao mesmo tempo, ele também se transforma em um objeto visado por aqueles que passam a se incomodar com suas atitudes, já que quanto mais fundo ele chega nas suas investigações pessoais para descobrir até que ponto os relatos são verdadeiros, mais ele é oprimido pelos demais igualmente envolvidos, pois como ele mesmo chega a dizer: as pessoas não conseguem lidar com a verdade.

Cada episódio é referente a um lado das sete fitas numeradas recebidas por Clay alguns dias depois de Hannah cometer suicídio, em uma corrente que segue a sequência das pessoas citadas por ela nas gravações, numa ordem pessoal de importância e gravidade. Caberá a Clay dar ou não continuidade a essa corrente pois, mesmo morta, Hannah deixa de ser uma assediada para se tornar a assediadora, ameaçando revelar as fitas publicamente através de uma pessoa de sua confiança caso determinadas tarefas exigidas não sejam cumpridas.

Apesar de toda essa situação superficialmente parecer, aos olhos do espectador, uma mórbida vingança ou uma simples maneira da protagonista chamar a atenção, a proposta do autor, assim como do roteiro de Brian Yorker, é criar uma situação onde houvesse possibilidades para hiperbolizar uma das maiores preocupações da sociedade jovem norteamericana, e que tem se difundido em outras culturas nas últimas décadas como um câncer: o assédio (bullying). Uma maneira desesperada e ofensiva de chamar a atenção sobre o tema, criticando esse comportamento abusivo que ocorre em todas as camadas sociais, abrindo os olhos da sociedade à atitudes que perpetuam esses crimes ocultos, que arrastam e disseminam a crueldade de maneira lenta e soturna, criando uma cultura dominante do medo, onde quem rege as regras são os assediadores, os quais gradulamente enfraquecem e vulnerabilizam outros por motivos vazios e egoístas. Um tema recorrente também no cinema, seja em comédias como Romy & Michele (1997) e O Casamento de Muriel (1994), em dramas como Bem-Vindo À Casa de Bonecas (1997) e As Vantagens de Ser Invisível (2012), ou até mesmo no recente documentário Audrie & Daisy (2016), para citar alguns exemplos.

Apesar da densidade do tema, os episódios tentam não ser carregados com o mesmo peso. Há uma série de vastos elementos narrativos que dão valor a uma construção lenta e não muito sensacionalista, não chegando a ser convincente como deveria justamente por vagar por diversos gêneros além do drama propriamente dito. Principalmente porque a grande manivela de tudo, que é a engasgada e mal comunicada relação entre Hannah e Clay, ser condensada de um romantismo até piegas no proposital intuito de aliviar o peso da tragédia quase grega da personagem.

E isso não é de todo ruim, porque não se pode esquecer que o público jovem é o alvo principal, e mesmo não tendo sido uma série feita unicamente para ele, o apelo é evidente a todo momento, seja na excelente e constante trilha sonora pop; nos diálogos forçadamente "engraçadinhos", com aquela típica sagacidade rasa adolescente do gênero; ou na considerável (e importante) tentativa de mostrar como o comportamento jovem atualmente tem se tornado mais adulto, numa implícita crítica de como a sociedade tem transferido cada vez mais responsabilidades às crianças e adolescentes, se esquecendo que há um caminho natural a ser seguido para a maturidade e formação da moral, sendo a falta deles os maiores agentes motivadores das relações abusivas que observamos na série e também na realidade.

Outras temáticas recorrentes dessa fase da vida também entram e saem dos episódios como molho de macarronada para dar continuidade àquele rendimento barato no conteúdo, como na forçada nostalgia romântica contemporânea de valorizar objetos não mais valorizados, como K7's e jaquetas jeans. Mas o elemento interessante de tudo é que, na mesma medida que toda a série possa soar exageradamente forçada ao tentar reproduzir o comportamento adolescente usando e abusando de clichés e estereótipos, são nos momentos onde o roteiro é sério que ele consegue ser genuinamente emotivo e verdadeiro. Momentos nos quais os temas relevantes se destacam e todos os excessos narrativos são esquecidos.

Mesmo uma obra de ficção repleta de exageros cênicos e diálogos sempre inconclusivos para prorrogar a solução das tramas e criar uma falsa sensação de apreensão, sendo bastante irritante a frequência com que personagens repentinamente saem de cena toda vez que são questionados sobre algo, ou da mãe controladora que sempre surge no pé da escada só para surpreender o filho de maneira inesperada, ou do pai que está sempre à mesa com um jornal ou um talher na mão, a produção acerta em cheio quando aborda assuntos com consistência verídica, deixando de lado o creme de leite e focando na estrela do prato: a cultura jovem carente da presença familiar, da informação e compreensão, pressionada a decisões sem qualquer estrutura, pulando fases e etapas importantes, sofrendo com antecedência de problemas comuns da sociedade moderna que vitimizam pessoas cada vez mais jovens, como a depressão, a intolerância, o estresse, abuso de drogas e desvirtuação de valores.

Hannah é a representação de uma boa parte disso, além de também representar centenas de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que já foram vítimas de assédio moral, psicológico e/ou sexual, sejam eles real ou virtual, das quais muitas cometeram suicídio por consequência disso, tamanho o sentimento de vazio e impotência que domina.

A protagonista não tem a intenção de responsabilizar as pessoas pelo seu suicídio, mas de fazê-los compreender como suas atitudes e comportamentos são nocivos uns aos outros, e como a falta de maturidade e o distanciamento cada vez maior da sociedade os pressionam a ignorar suas responsabilidades uns com os outros, agindo muitas vezes por benefícios próprios e egoístas, como quando uma das colegas de Hannah atropela completamente sua relação de amizade ao inventar uma grande mentira para que sua própria verdade não fosse revelada, empurrando Hannah na linha de frente da desmoralização. Algo recorrente entre as pessoas que circundam a pesada atmosfera na qual a protagonista vive.

O assediador só se sente vitorioso quando sua vítima é desmoralizada, e a maneira como Hannah expõe seus frequentes traumas como razões para seu próprio suicídio pode parecer cruel, mas julgá-la dessa forma é, ao mesmo tempo, ignorar seu sofrimento e ser complacente às atitudes de seus assediadores. Esse tipo de julgamento é o que constantemente recebe aqueles que já passaram por situações semelhantes e encontraram no suicídio - ou outras alternativas drásticas - a única maneira de se sentirem livres de um pesadelo que parece não ter fim. Pessoas que não souberam como se defender, ou a quem recorrer ou procurar ajuda.

O suicídio e o pensamento suicida, apesar de uma decisão pessoal, é de uma complexidade psicológica que envolve diversos fatores. Muita dessa complexidade agravada por fatores externos e sociais. Ninguém pode ser culpado pelo ato do suicídio além do próprio suicida, mas o que Hannah pretende com seus áudios é aproximar os demais à sensação de impotência na qual todos a condicionaram e que ninguém, além deles mesmos, são os responsáveis por seus próprios erros. Ela revela a todos os motivos para seu suicídio, mas a ela nunca foram revelados os motivos por ter sido tratada com diferença.

Isso não significa que Hannah seja isenta de erros. Ao longo dos episódios há uma construção martirizadora da personagem, mas aos poucos o roteiro também revela seus defeitos, como ela mesma relata ao se culpar por um determinado acontecimento que ela podia ter evitado.

Ao mesmo tempo que Hannah procura ajuda, ela a repele, negligencia aproximações e sabota suas próprias decisões, assim como também direciona propositalmente a última pessoa de sua lista (e a última das fitas) ao erro, para dar a si mesma uma justificativa à sua decisão fatal e, assim, poder culpar diretamente alguém. Assim como dito no último episódio, não existe o que salve um suicida além dele mesmo, mas não é por isso que os trágicos acontecimentos deixam de ter suas suas parcelas de agravamento da situação.

Claro que, volto a dizer, em algumas situações as motivações parecem vagas, como que apenas para incrementar a história e completar o cronograma de episódios, além da falta de uma caracterização da personagem que caminhasse de maneira mais coerente com a crescente desmoralização e depressão na qual se afunda. Fica um pouco difícil aceitar que uma garota prestes a cometer suicídio esteja bem vestida e maquiada, ao invés de pálida, com olheiras profundas, indiferente a qualquer vaidade, sinais comuns de quem se encontra nessas condições, como acontece de maneira muito mais convincente com outros personagens, como Jessica, Alex, Justin e até mesmo Clay. Mas em outras situações, como nos momentos de objetificação da personagem, da vulgarização de imagens, da violação, da já citada ausência de responsabilidade nas relações que criamos, até mesmo quando ela presencia um estupro ou quando ela mesma é violentada, é que conseguimos chegar um pouco mais próximos da incompreensão que a protagonista aos poucos vivencia. As gravações acabam engatilhando um efeito dominó que toma proporções insustentáveis, e quanto mais os envolvidos tentam esconder, mais grave o teor dos fatos se torna, e outras situações de assédio se desencadeiam, revelando a verdadeira personalidade de cada um e o respectivo autoconhecimento.

Independente de quais sejam os motivos, não cabe a nenhuma pessoa julgar a dor e o sofrimento do outro. O comportamento de Hannah pode parecer inadequado, mas apenas dessa forma para, dentro da ficção, a discussão sobre o tema se tornar válida e real. Acima de tudo, fazê-la de maneira relevante, expondo um assunto que a sociedade insiste em ignorar por pura conveniência, pois não quer aceitar o fato de que a base familiar tem se deteriorado com o passar dos anos, e quanto mais precoce for a educaçao e conscientização sobre o tema, mais próximos os jovens estarão das comunidades aos quais estão inseridos, e melhor preparados estarão para evitar a repetição e reprodução desses abusos no futuro, pois o tema é igualmente real na sociedade adulta nos diferentes ambientes sociais e profissionais.

Infelizmente a série foi vulgarmente associada ao hoax da Baleia Azul, naquela velha e sistemática situação de se confundir a ficção com a realidade, tanto que a Netflix de sentiu obrigada a incluir uma mensagem de aviso e esclarecimento de conteúdo à audiência em todos os episódios da série para satisfazer os conservadores, fortalecendo a ausência dos mesmos na participação familiar, isentando a sí próprios da responsabilidade à informação e ao controle do acesso, algo que cabe muito mais a eles do que ao veículo de transmissão. Uma contradição explícita à proposta principal da série: transformar o material em oportunidade de abertura ao diálogo e ao debate sobre o assunto.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ATÉ QUE ENFIM...

★★★★★★★★☆
Título: Mulher Maravilha (Wonder Woman)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya
País: Estados Unidos, China
Duração: 141 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Diana (Gal Gadot), a princesa das amazonas, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), foi treinada como uma guerreira por sua tia Antiope (Robin Wright). Ao descobrir os conflitos da Primeira Guerra Mundial, trazidos pelo espião Steve (Chris Pine), cujo avião caiu nas proximidades da ilha onde ela e demais amazonas vivem em reclusão ofertada por Zeus, ela decide deixar sua terra para servir aos humanos na busca pela paz e justiça, ao mesmo tempo que a jornada a fará descobrir seus poderes e conflitos.

O QUE TENHO A DIZER...
Foi quando o filme começou que percebi há quantos e quantos anos espero por ele da mesma forma como esperei pelo primeiro filme dos X-Men. E quando pensamos que Mulher Maravilha é o primeiro filme de uma heroína dos quadrinhos como protagonista em doze anos, é possível notar que ainda existe uma dificuldade de aceitação pública a respeito disso e, principalmente, da indústria.

Há doze anos o que mais tem surgido nos cinemas são filmes de super-heróis. Heroínas ou vilãs aparecem, mas sempre coadjuvantes, como no caso das personagens de X-Men, Vingadores e até mesmo Esquadrão Suicida. Elektra, de 2005, foi a última a ser protagonista de seu próprio filme, e se também considerarmos adaptações de desenhos animados, também tivemos Aeon Flux, lançado naquele mesmo ano.

Trazer Mulher Maravilha para as telas tem sido uma conversa de mais de duas décadas, onde nomes para a protagonista surgiram desde Sandra Bullock até Angelina Jolie. Os anos se passaram, essas atrizes envelheceram, e quem acabou com o papel foi uma israelense desconhecida e ex-soldado, chamada Gal Gadot. Sim, para quem não sabe, Gal se alistou como combatente aos 20 anos, servindo o exército israelense por dois, posteriormente seguindo carreira de modelo (foi Miss Israel) e finalmente atriz. Um histórico bastante diferente e que coincidiu em alguns pontos com o da própria personagem de maneira quase astrológica.

Que o Universo Expandido da DC (assim chamado seus atuais filmes) tem sido complicado, com mais baixos que altos, isso não há dúvida. Fãs podem dizer que seja um "complô" da crítica para desmoralizar os filmes da DC e favorecer os da Marvel, um absurdo que não se justifica. Quem entende do assunto sabe que as coisas não são assim, e que a pressa e a falta de planejamento, por chegarem bastante atrasados numa proposta de expansão similar ao da Marvel, fez o estúdio trocar os pés pelas mãos. Roteiros mal trabalhados e más escolhas na direção tem sido problemas evidentes, fazendo os críticos esperarem desde de sempre por um filme do selo que realmente faça por merecer e que fuja das perenes adaptações de Batman. Pois a verdade é que, embora Batman seja uma marca forte, estamos um tanto exaustos de ver apenas este personagem ser adaptado enquanto a companhia igualmente detém uma vasta carta de personagens memoráveis e adaptáveis.

Quando Batman vs. Superman chegou aos cinemas, era possível sentir mais um desapontamento pesar no cinema em um silêncio desconfortável de quem realmente não estava sequer se divertindo. Mas me lembro que, quando Mulher Maravilha apareceu trajada de fato, defendendo Batman de um ataque do vilão Doomsday em uma entrada triunfal, foi o único momento em que as pessoas no cinema até se inclinaram na poltrona para prestarem mais atenção, tamanha a reação de surpresa e empolgação. Pena que sua aparição durou apenas 15 minutos, mas foi o suficiente para não vermos a hora dela voltar o mais rápido possível em um filme próprio, até porque a expectativa dela salvar o Universo DC no cinema apenas aumentou depois de Esquadrão Suicida (2016) não ter sido exatamente aquilo que se esperava.

Sem dúvida Gal é para Mulher Maravilha aquilo que Hugh Jackman foi para Wolverine, o australiano desconhecido que todo mundo duvidou que seria capaz de carregar o peso do personagem, e no fim das contas deixou essas mesmas pessoas órfãs com sua aposentadoria do papel. De igual tamanho, Gal também foi imensamente criticada quando escolhida para usar a tiara da heroína em Batman vs. Superman. De críticas sexistas a respeito da sua falta de volúpia, ao puro preconceito de ser uma desconhecida qualquer, essas mesmas pessoas agora não conseguem imaginar outra melhor personificação da personagem.

Não é à toa que, mais que depressa, o filme entrou em produção, e quase um ano depois chega aos cinemas em tempo recorde.

Depois do projeto ter passado pelas mãos de diversos diretores desde 1996, a partir de 2013 houve uma forte campanha para que um possível filme solo da heroína fosse dirigido por uma mulher, principalmente depois de um expressivo movimento de igualdade de gêneros que vem ocorrendo em Hollywood nos últimos anos, no qual atrizes e diretoras se uniram revindicando maior participação no cenário, seja na direção, seja no protagonismo de filmes. Dirigido por Patty Jenkins, a direção foi oferecida a algumas outras mulheres antes dela, incluindo a própria Angelina Jolie. Recusado por todas, em sua maioria por divergências criativas, sobrou a Jenkins a missão.

Na História do Cinema, são raras as diretoras que tiveram oportunidade de trabalhar em produções de grande orçamento, ou que tivessem experiência com o extenso uso de efeitos especiais. Para se ter uma idéia, a última (e talvez única) a ter trabalhado em um filme de grande orçamento e com uso exacerbado de CGI, foi Mimi Leder, responsável por Impacto Profundo, de 1998, diretora também cogitada para o filme. Devido a isso, a lista de opções era escassa, e a escolha de Jenkins talvez tenha sido mais por conta de uma falta de opção do que por experiência neste gênero de filme, algo que ela não tinha.

Não que isso afete negativamente o filme, ao contrário disso, essa oportunidade é válida e necessária, e talvez isso abra portas no futuro para a inclusão de outras diretoras neste gênero da indústria.

Jenkins faz um trabalho decente e que abole o sexismo comumente visto, como acontece exageradamente com Harley Quinn em Esquadrão. A direção é comedida e sem demasiadas ousadias até mesmo quando abusa das cenas de ação perfeitamente coreografadas, como nas belíssimas sequências da batalha entre amazonas e o exército alemão na costa da fictícia ilha de Themyscira. Um balé visual deslumbrante que se repete várias vezes nas incursões solo de Diana durante sua ambiciosa busca pela justiça ao longo do filme, cenas de batalhas precisas e brutas, onde é possível sentir na poltrona do cinema a resistência das balas no escudo, justamente porque a intenção da heroína é paralisar por definitivo os conflitos, e não de perpetuá-los.

Sua ganância pela paz leva a personagem a gradualmente descobrir a extensão de seus poderes, sua verdadeira origem, a natureza humana e, principalmente, o peso de sua justiça naquilo que sempre vem a ser o grande dilema de todo herói: matar ou não matar. Uma dúvida que tem sido o enredo principal do Universo DC nos jogos eletrônicos, algo que no filme não é desenvolvido com a mesma ênfase, embora seja possível sentir na heroína uma ponta desse conflito sobre uma decisão que contraria seus princípios morais.

A história consegue oferecer tudo isso, mas o roteiro não desenvolve essas nuances de forma muito clara e concisa, ou que cause realmente uma sensação consistente de amadurecimento de Diana ao longo da primeira grande missão a qual se propõe, e esses defeitos são resultados óbvios da pressa na produção, algo que felizmente não se tornou um grande desastre. Tem que estar muito atento para perceber, já que essas densidades dramáticas acabam tropeçando em pormenores, momentos onde é possível sentir que, embora seja um filme dirigido por uma mulher, o controle dos homens do estúdio ainda é grande. Há uma forte insistência de querer trazer à tona a tal "fragilidade feminina", o sentimentalismo exagerado e um romance impossível com direito a uma cena inspirada em Casablanca (1942), quando Steve diz a Diana antes de embarcar: "Eu posso salvar o dia, enquanto você pode salvar o mundo", tão piegas quanto Bette Davis a Paul Henreid em A Estranha Passageira (1942), na clássica frase de encerramento: "Para que precisamos da lua se temos as estrelas?"

Momentos açucarados que, da mesma forma que poderiam ter ficado de fora, também trazem um certo charme a um filme de ação que, embora pareça andar sobre rodas de madeira e não tenha o mesmo ritmo acelerado e megalomaníaco das atuais produções, não chega a ter o tom pesado e artificial de Homem de Aço ou Batman vs. Superman para os brutos, mas também não tem aquele humor pastel da Marvel para os infantes e adolescentes. Uma certa delicadeza condensada para atrair a atenção daquele público feminino mais acostumado a ir ao cinema para assistir filmes familiares e comédias românticas, e não para um filme de ação também feito para elas. Uma forma de abraçar aos poucos um público que por décadas foi condicionado a gêneros restritos.

E funcionou. Nunca havia visto tantas mulheres em um sessão de ação como vi. Ao mesmo tempo que nunca vi tantas mulheres se divertirem com os bem dosados momentos de humor que por vezes brincam e criticam estereótipos e regras sociais, ou entusiamo nas cenas de puro bate e arrebenta ao som da estridente guitarra da trilha sonoroa que por vezes remete a uma releitura de Immigrant Song, de Led Zeppelin.

O humor aqui é sutil, principalmente quando usa saudavelmente essa rivalidade de gêneros, como no momento em que Diana flagra Steve (Chris Pine) pelado e o questiona sobre o estranho objeto que ele tem. Steve explica ser um relógio, um objeto que o ajuda a acordar, comer e fazer outras coisas, e então Diana pergunta: "Você deixa essa coisinha pequena dizer o que deve fazer?". Acho que apenas eu gargalhei nesse momento, pois a analogia é óbvia, mas tão subliminar que só com o rápido olhar envergonhado de Chris Pine para deixar isso evidente.

Mesmo tendo uma protagonista feminina e um elenco que a princípio é predominantemente feminino (mas que depois se torna predominantemente masculino), Mulher Maravilha não é uma ode ao feminismo como muito se imaginou antes de sua estréia. Ele tem, sim, sua relevância na questão, já que mulheres também podem ser protagonistas de filmes de ação, fãs de filmes de ação e capazes de se desvincularem da imagem do "sexo frágil" e da pregação de que homens sejam necessários para tarefas árduas. Mas ele não ergue bandeiras, muito menos tem discursos moralistas. Tudo está implícito no pacote, e desfruta-se disso quem quiser. Até porque não podemos esquecer que falamos de um filme estritamente comercial, onde o público alvo é um só: o mais abrangente possível.

Definitivamente o filme não faz feio até quando se esquece de dar maior atenção a personagens interessantes, como Dra. Maru (Elena Anaya, que volta a usar uma máscara parecida com a que usou em A Pele Que Habito), personagem que entra e sai do filme sem uma história ou um desenvolvimento plausível para sua existência, enquanto esta foi usada no trailer como elemento indispensável no enredo. Frustrante para quem esperava uma resolução mais grandiosa para ela.

Como todo primeiro filme de um super-herói, é basicamente sobre sua origem, mas com uma narrativa diferenciada, onde a personagem se descobre conforme os eventos acontecem, e não de maneira separada como no costumeiro jeito Super-Homem-de-ser. Um filme que diverte como imagina-se, que consegue ser engraçado de maneira discreta, romântico, sentimental e pregador da paz mundial para não perder a tendência a que ele se predispõe, mas que acima de tudo abre novos horizontes de possibilidades no gênero.

E, sim, nem Batman e nem Superman, mas Mulher Maravilha quem se tornou a maior evidência da Liga da Justiça nos cinemas.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

HUMOR DE TRÁGICAS METÁFORAS...

★★★★★★★☆
Título: Catfight
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama, Humor Negro
Classificação: 14 anos
Direção: Onur Tukel
Elenco: Sandra Oh, Anne Heche, Alicia Silverstone
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O reencontro de duas ex-amigas desencadeia uma guerra de egos, vinganças, importâncias, interesses e poder.

O QUE TENHO A DIZER...
Para Veronica (Sandra Oh), nada podia estar mais perfeito. Rica e influente, mora em um bairro nobre de Nova York com seu filho e seu marido, Stanley (Damian Young), o qual comemora com seus sócios um contrato milhonário de prestação de serviço ao Governo durante a guerra com o Oriente Médio.

Enquanto isso, Ashley (Anne Heche) está em crise conjugal com sua mulher, Lisa (Alicia Silverstone). O motivo: dificuldades financeiras. Ashley é uma artista plástica que há muito tempo não consegue vender um trabalho porque expressam sua visão caótica do mundo, "sangrentos" e explícitos demais para atrair a atenção de galerias, e Lisa não está conseguindo mais arcar sozinha com as despesas pois a crise econômica no país só tem oferecido subempregos.

Trabalhando na festa de comemoração de Stanley, Ashley só vai descobrir que o grande empresário é o marido de sua ex-amiga quando esta aparece na cozinha e deseja ser servida com mais bebida, vomitando impropérios sobre a vida afortunada que tem.

Ashley e Veronica pararam de se falar ainda na faculdade. Ashley alega que revelar sua homossexualidade foi o motivo de Veronica se distanciar, enquanto Veronica alega que Ashley se distanciou depois que conheceu Lisa. E em uma conversa nada amigável, ambas trocam farpas sobre suas vidas pessoais, sendo assim que o filme dirigido e escrito pelo turco-americano Onur Tukel começa, sem qualquer rodeio ou cerimônia para colocar as duas em uma briga desencadeada por motivos que pouco sabemos, mas na verdade pouco importam nesta comédia de humor negro que seria um drama trágico por excelência caso não usasse a ironia como um fator que nos dificulta entender o que é realmente engraçado do que não é. 

Tudo pareceria um filme comum sobre a rivalidade entre duas mulheres e as trivialidades que justificariam trocas de tapas caso o roteiro de Tukel não transformasse a conturbada relação de Ashley e Veronica em uma interessante metáfora das tragédias sociopolíticas que refletem o cenário norteamericano e mundial e da perversidade humana a favor de suas ambições. E não é à toa que, por isso, troca-se tapas por brigas dignas de ringues de luta livre.

O feudo basicamente representa o lado conservadorista da elite e o lado liberalista oprimido da classe média, assim como a secular rivalidade entre Democratas e Republicanos. Enquanto uma sofre com a crise econômica, a falta de oportunidades e a desigualdade, a outra se enriquece junto a um Governo manipulador que declara uma Guerra infundada apenas para movimentar sua economia exploratória. Mas as analogias não param por aí, e o roteiro também cria arquétipos para aqueles que vivem às bordas, como os ambientalistas, oportunistas e extremistas. Não chega nem a faltar um deboche direto a Hilary Clinton e Donald Trump.

Há um momento no filme em que Veronica diz a seu filho que se alguém maior e melhor mandá-lo fazer algo, ele deve fazê-lo. É em cima dessa frase que toda a moral do filme é construída, uma referência direta ao imperialismo norteamericano e sua inequívoca intenção de controlar eventos em todo o mundo, favorecendo seus próprios interesses econômicos, políticos e estratégicos, sujeitando outros países à subserviência para manter o status superioris.

Quando o roteiro imputa em cada personagem uma função conflituosa como em um campo de batalha, o caos se forma, e o ambiente se torna instrumento decisivo de influência em cada um deles. Tukel não poupa nem a sociedade e sua perniciosa ignorância, ao ponto de uma "Máquina Flatulenta" ser a principal atração engraçada na TV porque a alienação impede a compreensão de piadas críticas e políticas.

Pouquíssimas pessoas conseguiram compreender essa essência crítica e satírica do filme porque ele consegue ser discreto, e só se torna perceptível quando opiniões políticas são lançadas em momentos oportunos pelo roteiro caprichoso, que em um determinado ponto inverte os papéis das personagens e seus respectivos níveis de percepção quando Veronica entra em coma e acorda dois anos depois, pobre e sem teto por conta das mudanças econômicas e demais tragédias resultantes da guerra, e Ashley fica rica e influente porque a violência agora é um tema popular, tema o qual ela sempre explorou em seus trabalhos, mas só agora ganhou proeminência. E frente a essas diferentes situações, uma passa a ver o mundo sobre os olhos da outra sem sequer perceber, e cada uma em um comportamento relativo às suas novas realidades e interesses,

É quando os papéis se invertem novamente - e exatamente da mesma forma - que o filme parece abusar da paciência do espectador ao passar uma proposital sensação de deja vu. Embora aparente um exagero, é apenas uma continuidade dessa metáfora trágica e suas não-razões para esta repetição cíclica da violência, da retaliação e de suas consequências catastróficas. Uma busca sem fim de algo que não se sabe o que é, só mudando os interesses e tendências, onde tudo se destrói e não se reconstrói. E no fim (como no fim do filme) todos perdem, independente de quem seja a culpa, enquanto assistimos a tudo sem nada fazer.
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