Translate

domingo, 9 de julho de 2017

NOVELÃO DA PORRADA...

★★★★★★★★☆☆
Título: GLOW
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Marc Maron, Chris Lowell
País: Estados Unidos
Duração: 35 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Os bastidores das vidas pessoais e profissionais da primeira liga de Luta-Livre feminina de Los Angeles.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de Stranger Things e sua incrível homenagem aos anos 80, a filmes clássicos e estilos que marcaram essa época, a Netflix dá continuidade a essa "sessão nostalgia" com GLOW, um acrônimo de Gorgeous Ladies On Wrestling, algo como "lindas mulheres na luta-livre".

A série se baseia livremente no documentário GLOW: A História das Lindas Mulheres na Luta-Livre (GLOW: The Story Of Gorgeous Ladies On Wrestling, 2012), e na série televisiva original, que foi ao ar entre 1986 e 1989. Mas ao contrário dos materiais originais, aqui narra de maneira mais fictícia e cômica o início da modalidade feminina de Luta-Livre em Los Angeles, um esporte encenado para o puro entretenimento da platéia e que já fazia muito sucesso na modalidade masculina. Não é à toa que, por conta disso, todas as personagens da série, embora levem nomes distintos, sejam referências diretas às personagens da verdadeira liga de luta-livre, inclusive o próprio personagem Sam Sylvia, baseado em Matt Cimber, o diretor original da equipe. 

Marcando a estréia de Liz Fahive e Carly Mensch como criadoras, ambas foram produtoras de sucesso de seriados como Homeland e Weeds, respectivamente. Elas também assinam a produção e o roteiro, e trazem junto Jenji Kohan como produtora executiva, a mesma criadora de Orange Is The New Black e Weeds.

Claro que, com uma equipe dessas, não tinha como a produção dar errado, e tudo funciona como deve, mostrando de maneira convincente os bastidores e as dificuldades que as mulheres encontraram em uma modalidade esportiva dominada pelos homens e pelo público masculino. Assim como Flahive chegou a afirmar em uma entrevista a Rolling Stone, sem dúvida a história pega carona no movimento de liberação feminina que ocorreu nos anos 70, questionando as consequências e os resultados disso nos anos posteriores, e até que ponto o surgimento de ligas femininas explorava ou empoderava as mulheres.

Esse questionamento emerge o tempo todo principalmente por conta do personagem Sam Sylvia (Mark Maron), um tipo que muito se assemelha aos personagens canastrões de Robert De Niro ao longo de sua carreira. Um diretor excêntrico e mal compreendido, com sérios distúrbios de humor, dotado de uma pungente ironia e arrogância para encobrir a auto-confiança abalada por uma carreira decadente, fadada ao fracasso.

Sylvia aceita a proposta de um jovem rico de dirigir uma série de luta-livre apenas com mulheres, e desde o processo de seleção do elenco, ele não esconde que sua principal intenção é explorá-las através de estereótipos sexistas para atrair o público e a audiência televisiva. O comportamento primariamente um tanto machista do diretor são os pontos altos da série, pois é através dele que o roteiro caminha na linha entre a exploração e o empoderamento. Elementos usados principalmente para o desenvolvimento das demais personagens, que mesmo aceitando se submeterem a essa exploração visual e sexual, também se empoderam ao tomar as rédeas criativas do processo e moldarem o produto final em um formato onde elas utilizam essa exploração como uma ferramenta de fortalecimento feminista em cima dos estereótipos, seja em suas vidas pessoais, seja na vida profissional.

A história começa apresentando Ruth Wilder (Alison Brie), a heroína da história, uma atriz determinada "que só faz pontinhas", igualmente abalada por nunca ser escolhida nos diversos processos de seleção de elenco nas quais se inscreve, ou nunca conseguir papéis realmente interessantes, ou que explorem sua capacidade artística além de papéis de dona de casa ou de secretária. Falida e sem dinheiro para sequer comprar comida, é assim que acaba entrando para o elenco de GLOW. Tal como ela, as demais personagens também não se encaixam em perfis profissionais esperados, incluindo sua melhor amiga (que também virá a se tornar uma inimiga), que largou a profissão de atriz para casar com uma homem bem sucedido e assim garantir seu sustento, mas que tem o benefício de ser loira, o que facilita seu protagonismo, como é dito em um determinado episódio.

Assim como Sylvia deixa evidente logo no começo, a série se aproveita de auto-referências para igualmente construir cada personagem em cima de estereótipos sociais, e Ruth se torna a metáfora da dificuldade feminina de sobreviver à independência e ao mercado de trabalho numa época em que o sexo feminino era taxado como frágil. Não é à toa que a grande força motriz é a união de tipos socialmente excluídos, assim com também acontece com os personagem de Stranger Things, resultando em conclusões épicas e engrandecedoras para provar que, assim como a personagem Sheila (Gayle Rankin) diz sobre ela mesma - mas que pode ser interpretado de maneira geral - todas elas são humanas e capazes, mas precisam encontrar artifícios extras para se sobreporem em uma sociedade preconceituosa e segregadora.

Infelimente Ruth não parece ser bem desenvolvida como poderia ser, ou como a princípio parecia ser. Seu excesso de determinação, confiança e indulgência acabam prejudicando seus momentos ora cômicos, ora dramáticos, se tornando uma personagem cansativa, perdida entre no limbo entre o humor e a tragédia, sendo sempre vítima dela mesma em diversos momentos que ao invés de serem cômicos, se tornam humilhantes. Seus momentos de humilhação e vergonha alheia se assemelham em número e grau com a personagem Valerie Cherish, vivida por Lisa Kudrow em The Comeback. Há até mesmo momentos para suas persononificações tal qual a personagem de Kudrow constantemente faz, como no momento em que está em seu quarto e mostra a Sheila sua mais "nova" personagem, que nada mais é do que uma imitação de Katherine Hepburn, atriz a qual tanto admira que possui até um poster em sua parede, seu único objeto de valor. Não é à toa que este poster está estrategicamente atrás dela nesta cena. Mas ao contrário de Valerie, cuja proposta desde o princípio é mostrar os constantes esforços de uma atriz decadente a retomar o sucesso em um arco dramático coeso, Ruth não tem uma razão muito clara para ser como é pois ela não tem um passado ou um futuro já exposto, seu pedantismo excessivo dificulta atrair a simpatia do espectador. É quando a personagem é aliviada desses excessos que ela finalmente se torna relevante, mesmo explorando com exagero igualmente cansativo seu alter ego russo, igual aquelas pessoas que não param de contar piadas, e no fim todo mundo já está dando risada mais por educação do que por ser engraçado.

Talvez a intenção tenha sido proposital para que, a princípio, a atenção seja voltada às demais personagens, que mesmo em participações menores, conseguem ser muito mais interessantes e consistentes. Há até um momento em que Sylvia ameaça demitir algumas atrizes, dizendo que seria até bom, já que há excesso de personagens. Isso poderia ser visto como uma auto-crítica dos próprios roteiristas, mas que felizmente é contornado porque há espaço para todas, mesmo que alguma delas às vezes sejam um pouco esquecidas, subutilizadas, ou estejam lá apenas para cobrir buracos, como é o caso de Cherry (Sydelle Noel) e da dupla Stacey e Dawn (Kimmy Gatewood e Rebekka Johnson).

O comprometimento das atrizes é notório. Todas elas foram realmente treinadas durante as filmagens pelo lutador Sam Guerrero, sobrinho de Armando Guerrero, treinador da equipe original, e mesmo com muitos truques de câmera e algumas situações onde evidentemente se usam dublês, muitas das cenas foram feitas pelas próprias atrizes. Com excessão de Kia Stevens, que faz a personagem Welfare Queen, a única lutadora na vida real.

No geral é uma série que se constrói de maneira interessante, que gradualmente mostra sua consistência em uma trama principal simples, empolgante e convincente, com diálogos inteligentes, personagens cativantes (como não se apaixonar por Melrose, Rhonda, Tammé, Carmem ou Arthie?), abraçando referências a filmes do gênero e a uma trilha sonora igualmente nostálgica, escolhida a dedo. Como não associar o intensivo treinamento de Ruth e Debbie (Betty Gilpin) à clássica cena de ensaio em Dirty Dancing entre Baby e Johnny (Jennifer Grey e Patrick Swayze)? Há até igual similiaridade ao mesmo filme quando Debbie desiste de realizar o movimento mais marcante, tal como Baby quando desiste de ser erguida por Johnny quando se apresentam juntos pela primeira vez. Pode-se dizer o mesmo, em igual consistência, às sub-tramas, havendo até um momento bastante dramático entre Sylvia e Justine (Britt Baron), que é tão bem desenvolvido ao longo dos episódios que pegará qualque um de surpresa.

GLOW é exagerado na sua produção como foi os anos 80. Não chega a ter o mesmo nível de fidedignidade como nos filmes Cegueira Histérica (Hysterical Blindness, 2002) ou 200 Cigarros (200 Cigarettes, 1999), mas ainda  consegue ser um produto essencial para os mais saudosistas, e principalmente para aqueles que pouco (ou tudo) desconhecem sobre o ingresso das mulheres nesta modalidade esportiva, e porque, ao mesmo tempo, ele é considerado um "novelão da porrada".


segunda-feira, 3 de julho de 2017

ABRA SEUS OLHOS, NETFLIX!

Era esperado que a hegemonia da Netflix algum dia chegasse ao fim. A empresa, responsável por popularizar o novo segmento streaming como um abre alas da independência daqueles insatisfeitos com os canais a cabo nos últimos anos, além de oferecer maior liberdade de escolha à sua audiência por um preço baixo e justo, chegou a ser ponto de polêmicas e alvo de ataque da indústria do entretenimento e também debate nas escalas políticas, como aconteceu no Brasil, sobre a taxação tributária específica de um serviço não legislado por não ter categoria específica, e assim haver aumento do preço do serviço para restringir consumidores. Até mesmo as empresas de telefonia resolveram voltar a restringir o uso de dados, cuja uma das principais alegações foi o grande tráfego - e consequente congestionamento - que o excesso de streaming causava, impactando na qualidade do serviço móvel.

E no fundo, o que se viu foi diferentes setores que se beneficiam entre si se unirem para tentar reduzir o impacto da democrática escolha que o serviço causou. Em resumo, ao invés desses setores resolverem concorrer de maneira honesta, melhorando seus conteúdos e serviços, preferiram encontrar a via mais fácil da sabotagem para permanecerem nas suas zonas confortáveis. 

Não há como negar que o serviço conseguiu pisar em calos alheios, mesmo que essa nunca tenha sido a real intenção. Mas sempre que algo bom surge em qualquer área que seja, os incomodados se armam até os dentes para guerrear pela manutenção do seu espaço e domínio.

Polêmicas à parte, pelo menos no Brasil, o serviço ainda se mantém da mesma forma como veio. Os humores exaltados se normalizaram e felizmente as coisas ainda correm bem.

A história da Netflix começou de maneira modesta em 1997, como uma empresa desenvolvedora de conteúdo digital, ganhando popularidade a partir do momento que começou a oferecer vídeos por demanda, em 2007, serviço que atualmente conhecemos e consumimos. Com o passar dos anos, o número de assinantes pelo mundo só veio a crescer, gerando lucro suficiente para, em 2013, começar a produzir seu próprio conteúdo, ou pagar para que o conteúdo seja exclusivo e leve seu carimbo.

Só que, da mesma forma que novidades incomodam alguns, também abrem novas oportunidades no mercado para outros, e o que se vê é um crescente número de concorrentes, como a Amazon, a HBO Go, Crackle (recentemente comprado pela Fox para esse fim), dentre outros. E junto a tudo isso, a Netflix agora tem que também evitar de se tornar ameaça dela mesma.

Nos últimos quatro anos, houve um crescimento absurdo de novas produções. Longas metragens aclamados, e outros nem tanto; seriados que apostavam em conteúdos diversos, mas nem sempre tão bons. Uma enxurrada de produtos que deixaram no ar se ela seria capaz de mantê-los conforme outros lançamentos chegassem e integrassem a vasta videoteca que só crescia, mas que nunca soube ao certo para que rumo ir.

A ousadia sempre fez parte da proposta do serviço, o que é admirável. O que não é tão admirável assim é a sensação de que a direção de conteúdo apenas "rapeava" aquilo que outras produtoras e estúdios pretendiam jogar no lixo, dando aval a produções pensando mais no incremento de conteúdo do que pela qualidade, atirando para todos os lados na pressa de ter produtos originais e aos poucos trocar os produtos da prateleira virtual.

É desnecessário citar seriados e filmes que deram certo ou não. Cada um de seus assinantes consegue ter uma noção, mesmo que bastante superficial, daqueles que funcionam e daqueles que não fazem qualquer diferença, como acontece, como exemplo, na maioria do conteúdo de comédia, que muitas vezes sequer arranca um sorriso genuíno do espectador.

Em um relatório recentemente divulgado pela 7Park Data, observa-se que, dentre os 10 conteúdos mais assistidos entre 2016/17, apenas Orange Is The New Black e Stranger Things levam a marca Netflix, respectivamente em 6º e 10º lugar. Isso veio à tona como uma bomba. Afinal, de que vale gastar dinheiro com conteúdo original se as pessoas não tem interesse por ele? É a pergunta que surge após a entrevista concedida pelo Diretor Executivo, Reed Hastings, à CNBC, canal por assinatura sobre finanças e negócios.

A solução que a empresa agora encontrou foi de fazer aquilo que os canais de televisão mais fazem: cancelar suas produções sem qualquer aviso, o que impacta diretamente na produção de séries. Isso prejudica o conteúdo, que é interrompido sem conclusão, o que historicamente desagrada e revolta a audiência, que aos poucos tende a perder a confiança. E independente de ser um conteúdo recente ou já consagrado na casa, qualquer um deles se tornou alvo, gerando muita apreensão por parte dos assinantes.

É o que aconteceu recentemente com o inesperado cancelamento de Sense8, série bastante popular no Brasil, cujo fim foi anunciado logo após o lançamento de sua segunda temporada, a qual não possui um final conclusivo. A revolta de fãs e assinantes chegou no escritório de conteúdo, que resolveu dar um passo atrás e anunciar, na última semana de Julho, que a produção de um especial de duas horas foi encomendada para encerrar a trama como se deve.

Sense8 foi apenas um dos escolhidos de Ted Sarandos, Diretor de Conteúdo, a cancelamento pelo seu alto custo. Marco Polo é outra, e The Get Down também não chegará a ver a luz de uma segunda temporada pelas mesmas razões. A baixa repercussão de Girlboss também levou ao seu precoce cancelamento, e o cancelamento de Hemlock Grove não foi uma grande surpresa, mas gerou certo buzz entre a base de fãs. E como dito, todos os outros títulos já estão na berlinda, salvo algumas excessões consagradas, ou que são interessantes serem mantidas para o marketing positivo da marca ao levantar disscussões de relevâncias sociopolíticas, com no caso de House Of Cards, ou o recente Dear White People.

O inchaço de produções foi o grande problema, principalmente com o excesso de stand-up comedies, formato muito mais popular nos Estados Unidos do que em outros países. A ousadia se sobrepôs ao planejamento de longa data, a atenção a excessos com megaproduções para chamar a atenção (como o caso de Sense8 ou Marco Polo) se sobrepuseram ao planejamento financeiro. E agora a Netflix passa por uma reformulação forçada.

A atenção a isso agora é primordial, ao mesmo tempo que o cuidado nas decisões e um maior foco ao planejamento se tornaram quesitos fundamentais à sua sobrevivência. E a empresa irá sambar na corda bamba, pois deverá encontrar alternativas para manter o interesse de seus assinantes mesmo com conteúdos indo embora, e novos outros serviços de streaming aparecendo com conteúdos até mais interessantes.

Inchar o carrossel do aplicativo com produções baratas e de qualidade duvidosa apenas para levar o selo de LANÇAMENTO ou NOVOS EPISÓDIOS não segura ninguém. Ela deveria ter se atentado a isso desde o princípio. O mérito da existência da Netflix é poder ousar, mas isso não significa fechar os olhos para a qualidade. A direção de conteúdo de Sarandos não parece ser uma das melhores, já que poderia ser mais peneirada, evitando produções como o horroroso The Farm, ou até mesmo na insistência em parcerias milhonárias como a de Adam Sandler, que trazem pouco retorno. De igual medida, apenas investir na hospedagem de produções não inéditas também não atrai mais pessoas da mesma forma como atraiu no começo do serviço em demanda, quando era novidade ter temporadas disponíveis para usuários fazerem suas maratonas sem terem que esperar a boa vontade dos canais abertos.

A Netflix não precisa ter o mesmo punho de ferro comercial e industrial de estúdios. Ela deve continuar sendo ousada na escolha de seus produtos, pois esse sempre foi seu diferencial. Mas deve ter uma equipe de análise de conteúdo mais competente, onde seja avaliado a qualidade de sinopses e roteiros antes de serem aprovados. E mesmo em produções tercerizadas, o acompanhamento deveria ser mais rígido para o controle de qualidade. E principalmente, na dúvida de não saberem se um novo lançamento chegará a ter uma nova temporada ou não, exigir que os últimos capítulos tenham mais conclusões do que pontas soltas para não desagradar a audiência e perder a sua confiança. E para as produções já existentes, o planejamento a longo prazo deve ser primoridal, como aconteceu com Orphan Black, cujo fim foi anunciado com bastante antecedência, dando tempo para a construção de sua conclusão para a quinta temporada.

Qual seriado deve ser mantido mesmo que não gere muito lucro? Qual conteúdo deve ter oportunidade para os próximos dois anos? Qual produção deve ser cancelada para a próxima temporada sem afetar o público? Há necessidade de determinado conteúdo ter mais do que um número X de episódios? Qual a relevância de um longa metragem, independente de seu gênero?

Planejamento, Netflix! Puro planejamento e respeito a seus assinantes.

Agora basta esperar para saber se o serviço terá a vida longa que tão de início parecia ter, mas que agora se tornou algo de futuro nebuloso.

terça-feira, 20 de junho de 2017

HÁ HANNAH BAKER EM TODO LUGAR...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Por 13 Razões (13 Reasons Why)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Katherine Langford, Dylan Minnette, Alisa Boe, Christian Navarro, Brandon Flynn, Justin Prentice, Miles Heizer, Kate Walsh
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um jovem se mobiliza a descobrir a história por trás do suicídio de sua colega pela qual era apaixonado, e os motivos que a levaram a isso.

O QUE TENHO A DIZER...
Tal qual Brás Cubas, porém obviamente sem o mesmo sarcasmo e a mesma profundidade realista/impressionista de Machado de Assis, a série, baseada no livro homônimo de de Jay Asher, é postumamente - e parcialmente - narrada pela protagonista da história, que se suicidou depois de uma sequência de eventos desmoralizantes nos seus últimos anos no Ensino Médio. E isso soaria um spoiler caso nada disso fosse revelado logo no primeiro capítulo. 

O que nota-se desde o princípio é que a história de Hannah Baker tem embutida críticas comportamentais da cultura adolescente e à mentalidade coletiva, e flertam nos relato bastante descritivos, porém incertos, plantando a dúvida de sua veracidade tanto nos personagens, quanto no espectador, tudo para o bem da narrativa e de um suspense empurrado mais pelo atraso das revelações, do que pelos fatos em si, daí a interminável sensação de que cada episódio tem o dobro de sua duração.

Os episódios se desenvolvem e se aprofundam nos motivos, razões e circunstâncias de Hannah (Katherine Langford) chegar à conclusão que se matar seria a solução de seu futuro nebuloso, e o ponto de partida da trama é quando Clay Jensen (Dylan Minnette) recebe uma cópia de cassetes com gravações feitas por ela mesma, relatando os pormenores que levaram à sua decisão suicida. Clay se impõe como um agente revelador, aquele que irá confrontar e ao mesmo tempo se sensibilizar com os constantes infortúnios da anti-heroína da história. Ao mesmo tempo, ele também se transforma em um objeto visado por aqueles que passam a se incomodar com suas atitudes, já que quanto mais fundo ele chega nas suas investigações pessoais para descobrir até que ponto os relatos são verdadeiros, mais ele é oprimido pelos demais igualmente envolvidos, pois como ele mesmo chega a dizer: as pessoas não conseguem lidar com a verdade.

Cada episódio é referente a um lado das sete fitas numeradas recebidas por Clay alguns dias depois de Hannah cometer suicídio, em uma corrente que segue a sequência das pessoas citadas por ela nas gravações, numa ordem pessoal de importância e gravidade. Caberá a Clay dar ou não continuidade a essa corrente pois, mesmo morta, Hannah deixa de ser uma assediada para se tornar a assediadora, ameaçando revelar as fitas publicamente através de uma pessoa de sua confiança caso determinadas tarefas exigidas não sejam cumpridas.

Apesar de toda essa situação superficialmente parecer, aos olhos do espectador, uma mórbida vingança ou uma simples maneira da protagonista chamar a atenção, a proposta do autor, assim como do roteiro de Brian Yorker, é criar uma situação onde houvesse possibilidades para hiperbolizar uma das maiores preocupações da sociedade jovem norteamericana, e que tem se difundido em outras culturas nas últimas décadas como um câncer: o assédio (bullying). Uma maneira desesperada e ofensiva de chamar a atenção sobre o tema, criticando esse comportamento abusivo que ocorre em todas as camadas sociais, abrindo os olhos da sociedade à atitudes que perpetuam esses crimes ocultos, que arrastam e disseminam a crueldade de maneira lenta e soturna, criando uma cultura dominante do medo, onde quem rege as regras são os assediadores, os quais gradulamente enfraquecem e vulnerabilizam outros por motivos vazios e egoístas. Um tema recorrente também no cinema, seja em comédias como Romy & Michele (1997) e O Casamento de Muriel (1994), em dramas como Bem-Vindo À Casa de Bonecas (1997) e As Vantagens de Ser Invisível (2012), ou até mesmo no recente documentário Audrie & Daisy (2016), para citar alguns exemplos.

Apesar da densidade do tema, os episódios tentam não ser carregados com o mesmo peso. Há uma série de vastos elementos narrativos que dão valor a uma construção lenta e não muito sensacionalista, não chegando a ser convincente como deveria justamente por vagar por diversos gêneros além do drama propriamente dito. Principalmente porque a grande manivela de tudo, que é a engasgada e mal comunicada relação entre Hannah e Clay, ser condensada de um romantismo até piegas no proposital intuito de aliviar o peso da tragédia quase grega da personagem.

E isso não é de todo ruim, porque não se pode esquecer que o público jovem é o alvo principal, e mesmo não tendo sido uma série feita unicamente para ele, o apelo é evidente a todo momento, seja na excelente e constante trilha sonora pop; nos diálogos forçadamente "engraçadinhos", com aquela típica sagacidade rasa adolescente do gênero; ou na considerável (e importante) tentativa de mostrar como o comportamento jovem atualmente tem se tornado mais adulto, numa implícita crítica de como a sociedade tem transferido cada vez mais responsabilidades às crianças e adolescentes, se esquecendo que há um caminho natural a ser seguido para a maturidade e formação da moral, sendo a falta deles os maiores agentes motivadores das relações abusivas que observamos na série e também na realidade.

Outras temáticas recorrentes dessa fase da vida também entram e saem dos episódios como molho de macarronada para dar continuidade àquele rendimento barato no conteúdo, como na forçada nostalgia romântica contemporânea de valorizar objetos não mais valorizados, como K7's e jaquetas jeans. Mas o elemento interessante de tudo é que, na mesma medida que toda a série possa soar exageradamente forçada ao tentar reproduzir o comportamento adolescente usando e abusando de clichés e estereótipos, são nos momentos onde o roteiro é sério que ele consegue ser genuinamente emotivo e verdadeiro. Momentos nos quais os temas relevantes se destacam e todos os excessos narrativos são esquecidos.

Mesmo uma obra de ficção repleta de exageros cênicos e diálogos sempre inconclusivos para prorrogar a solução das tramas e criar uma falsa sensação de apreensão, sendo bastante irritante a frequência com que personagens repentinamente saem de cena toda vez que são questionados sobre algo, ou da mãe controladora que sempre surge no pé da escada só para surpreender o filho de maneira inesperada, ou do pai que está sempre à mesa com um jornal ou um talher na mão, a produção acerta em cheio quando aborda assuntos com consistência verídica, deixando de lado o creme de leite e focando na estrela do prato: a cultura jovem carente da presença familiar, da informação e compreensão, pressionada a decisões sem qualquer estrutura, pulando fases e etapas importantes, sofrendo com antecedência de problemas comuns da sociedade moderna que vitimizam pessoas cada vez mais jovens, como a depressão, a intolerância, o estresse, abuso de drogas e desvirtuação de valores.

Hannah é a representação de uma boa parte disso, além de também representar centenas de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que já foram vítimas de assédio moral, psicológico e/ou sexual, sejam eles real ou virtual, das quais muitas cometeram suicídio por consequência disso, tamanho o sentimento de vazio e impotência que domina.

A protagonista não tem a intenção de responsabilizar as pessoas pelo seu suicídio, mas de fazê-los compreender como suas atitudes e comportamentos são nocivos uns aos outros, e como a falta de maturidade e o distanciamento cada vez maior da sociedade os pressionam a ignorar suas responsabilidades uns com os outros, agindo muitas vezes por benefícios próprios e egoístas, como quando uma das colegas de Hannah atropela completamente sua relação de amizade ao inventar uma grande mentira para que sua própria verdade não fosse revelada, empurrando Hannah na linha de frente da desmoralização. Algo recorrente entre as pessoas que circundam a pesada atmosfera na qual a protagonista vive.

O assediador só se sente vitorioso quando sua vítima é desmoralizada, e a maneira como Hannah expõe seus frequentes traumas como razões para seu próprio suicídio pode parecer cruel, mas julgá-la dessa forma é, ao mesmo tempo, ignorar seu sofrimento e ser complacente às atitudes de seus assediadores. Esse tipo de julgamento é o que constantemente recebe aqueles que já passaram por situações semelhantes e encontraram no suicídio - ou outras alternativas drásticas - a única maneira de se sentirem livres de um pesadelo que parece não ter fim. Pessoas que não souberam como se defender, ou a quem recorrer ou procurar ajuda.

O suicídio e o pensamento suicida, apesar de uma decisão pessoal, é de uma complexidade psicológica que envolve diversos fatores. Muita dessa complexidade agravada por fatores externos e sociais. Ninguém pode ser culpado pelo ato do suicídio além do próprio suicida, mas o que Hannah pretende com seus áudios é aproximar os demais à sensação de impotência na qual todos a condicionaram e que ninguém, além deles mesmos, são os responsáveis por seus próprios erros. Ela revela a todos os motivos para seu suicídio, mas a ela nunca foram revelados os motivos por ter sido tratada com diferença.

Isso não significa que Hannah seja isenta de erros. Ao longo dos episódios há uma construção martirizadora da personagem, mas aos poucos o roteiro também revela seus defeitos, como ela mesma relata ao se culpar por um determinado acontecimento que ela podia ter evitado.

Ao mesmo tempo que Hannah procura ajuda, ela a repele, negligencia aproximações e sabota suas próprias decisões, assim como também direciona propositalmente a última pessoa de sua lista (e a última das fitas) ao erro, para dar a si mesma uma justificativa à sua decisão fatal e, assim, poder culpar diretamente alguém. Assim como dito no último episódio, não existe o que salve um suicida além dele mesmo, mas não é por isso que os trágicos acontecimentos deixam de ter suas suas parcelas de agravamento da situação.

Claro que, volto a dizer, em algumas situações as motivações parecem vagas, como que apenas para incrementar a história e completar o cronograma de episódios, além da falta de uma caracterização da personagem que caminhasse de maneira mais coerente com a crescente desmoralização e depressão na qual se afunda. Fica um pouco difícil aceitar que uma garota prestes a cometer suicídio esteja bem vestida e maquiada, ao invés de pálida, com olheiras profundas, indiferente a qualquer vaidade, sinais comuns de quem se encontra nessas condições, como acontece de maneira muito mais convincente com outros personagens, como Jessica, Alex, Justin e até mesmo Clay. Mas em outras situações, como nos momentos de objetificação da personagem, da vulgarização de imagens, da violação, da já citada ausência de responsabilidade nas relações que criamos, até mesmo quando ela presencia um estupro ou quando ela mesma é violentada, é que conseguimos chegar um pouco mais próximos da incompreensão que a protagonista aos poucos vivencia. As gravações acabam engatilhando um efeito dominó que toma proporções insustentáveis, e quanto mais os envolvidos tentam esconder, mais grave o teor dos fatos se torna, e outras situações de assédio se desencadeiam, revelando a verdadeira personalidade de cada um e o respectivo autoconhecimento.

Independente de quais sejam os motivos, não cabe a nenhuma pessoa julgar a dor e o sofrimento do outro. O comportamento de Hannah pode parecer inadequado, mas apenas dessa forma para, dentro da ficção, a discussão sobre o tema se tornar válida e real. Acima de tudo, fazê-la de maneira relevante, expondo um assunto que a sociedade insiste em ignorar por pura conveniência, pois não quer aceitar o fato de que a base familiar tem se deteriorado com o passar dos anos, e quanto mais precoce for a educaçao e conscientização sobre o tema, mais próximos os jovens estarão das comunidades aos quais estão inseridos, e melhor preparados estarão para evitar a repetição e reprodução desses abusos no futuro, pois o tema é igualmente real na sociedade adulta nos diferentes ambientes sociais e profissionais.

Infelizmente a série foi vulgarmente associada ao hoax da Baleia Azul, naquela velha e sistemática situação de se confundir a ficção com a realidade, tanto que a Netflix de sentiu obrigada a incluir uma mensagem de aviso e esclarecimento de conteúdo à audiência em todos os episódios da série para satisfazer os conservadores, fortalecendo a ausência dos mesmos na participação familiar, isentando a sí próprios da responsabilidade à informação e ao controle do acesso, algo que cabe muito mais a eles do que ao veículo de transmissão. Uma contradição explícita à proposta principal da série: transformar o material em oportunidade de abertura ao diálogo e ao debate sobre o assunto.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ATÉ QUE ENFIM...

★★★★★★★★☆
Título: Mulher Maravilha (Wonder Woman)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, Elena Anaya
País: Estados Unidos, China
Duração: 141 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Diana (Gal Gadot), a princesa das amazonas, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), foi treinada como uma guerreira por sua tia Antiope (Robin Wright). Ao descobrir os conflitos da Primeira Guerra Mundial, trazidos pelo espião Steve (Chris Pine), cujo avião caiu nas proximidades da ilha onde ela e demais amazonas vivem em reclusão ofertada por Zeus, ela decide deixar sua terra para servir aos humanos na busca pela paz e justiça, ao mesmo tempo que a jornada a fará descobrir seus poderes e conflitos.

O QUE TENHO A DIZER...
Foi quando o filme começou que percebi há quantos e quantos anos espero por ele da mesma forma como esperei pelo primeiro filme dos X-Men. E quando pensamos que Mulher Maravilha é o primeiro filme de uma heroína dos quadrinhos como protagonista em doze anos, é possível notar que ainda existe uma dificuldade de aceitação pública a respeito disso e, principalmente, da indústria.

Há doze anos o que mais tem surgido nos cinemas são filmes de super-heróis. Heroínas ou vilãs aparecem, mas sempre coadjuvantes, como no caso das personagens de X-Men, Vingadores e até mesmo Esquadrão Suicida. Elektra, de 2005, foi a última a ser protagonista de seu próprio filme, e se também considerarmos adaptações de desenhos animados, também tivemos Aeon Flux, lançado naquele mesmo ano.

Trazer Mulher Maravilha para as telas tem sido uma conversa de mais de duas décadas, onde nomes para a protagonista surgiram desde Sandra Bullock até Angelina Jolie. Os anos se passaram, essas atrizes envelheceram, e quem acabou com o papel foi uma israelense desconhecida e ex-soldado, chamada Gal Gadot. Sim, para quem não sabe, Gal se alistou como combatente aos 20 anos, servindo o exército israelense por dois, posteriormente seguindo carreira de modelo (foi Miss Israel) e finalmente atriz. Um histórico bastante diferente e que coincidiu em alguns pontos com o da própria personagem de maneira quase astrológica.

Que o Universo Expandido da DC (assim chamado seus atuais filmes) tem sido complicado, com mais baixos que altos, isso não há dúvida. Fãs podem dizer que seja um "complô" da crítica para desmoralizar os filmes da DC e favorecer os da Marvel, um absurdo que não se justifica. Quem entende do assunto sabe que as coisas não são assim, e que a pressa e a falta de planejamento, por chegarem bastante atrasados numa proposta de expansão similar ao da Marvel, fez o estúdio trocar os pés pelas mãos. Roteiros mal trabalhados e más escolhas na direção tem sido problemas evidentes, fazendo os críticos esperarem desde de sempre por um filme do selo que realmente faça por merecer e que fuja das perenes adaptações de Batman. Pois a verdade é que, embora Batman seja uma marca forte, estamos um tanto exaustos de ver apenas este personagem ser adaptado enquanto a companhia igualmente detém uma vasta carta de personagens memoráveis e adaptáveis.

Quando Batman vs. Superman chegou aos cinemas, era possível sentir mais um desapontamento pesar no cinema em um silêncio desconfortável de quem realmente não estava sequer se divertindo. Mas me lembro que, quando Mulher Maravilha apareceu trajada de fato, defendendo Batman de um ataque do vilão Doomsday em uma entrada triunfal, foi o único momento em que as pessoas no cinema até se inclinaram na poltrona para prestarem mais atenção, tamanha a reação de surpresa e empolgação. Pena que sua aparição durou apenas 15 minutos, mas foi o suficiente para não vermos a hora dela voltar o mais rápido possível em um filme próprio, até porque a expectativa dela salvar o Universo DC no cinema apenas aumentou depois de Esquadrão Suicida (2016) não ter sido exatamente aquilo que se esperava.

Sem dúvida Gal é para Mulher Maravilha aquilo que Hugh Jackman foi para Wolverine, o australiano desconhecido que todo mundo duvidou que seria capaz de carregar o peso do personagem, e no fim das contas deixou essas mesmas pessoas órfãs com sua aposentadoria do papel. De igual tamanho, Gal também foi imensamente criticada quando escolhida para usar a tiara da heroína em Batman vs. Superman. De críticas sexistas a respeito da sua falta de volúpia, ao puro preconceito de ser uma desconhecida qualquer, essas mesmas pessoas agora não conseguem imaginar outra melhor personificação da personagem.

Não é à toa que, mais que depressa, o filme entrou em produção, e quase um ano depois chega aos cinemas em tempo recorde.

Depois do projeto ter passado pelas mãos de diversos diretores desde 1996, a partir de 2013 houve uma forte campanha para que um possível filme solo da heroína fosse dirigido por uma mulher, principalmente depois de um expressivo movimento de igualdade de gêneros que vem ocorrendo em Hollywood nos últimos anos, no qual atrizes e diretoras se uniram revindicando maior participação no cenário, seja na direção, seja no protagonismo de filmes. Dirigido por Patty Jenkins, a direção foi oferecida a algumas outras mulheres antes dela, incluindo a própria Angelina Jolie. Recusado por todas, em sua maioria por divergências criativas, sobrou a Jenkins a missão.

Na História do Cinema, são raras as diretoras que tiveram oportunidade de trabalhar em produções de grande orçamento, ou que tivessem experiência com o extenso uso de efeitos especiais. Para se ter uma idéia, a última (e talvez única) a ter trabalhado em um filme de grande orçamento e com uso exacerbado de CGI, foi Mimi Leder, responsável por Impacto Profundo, de 1998, diretora também cogitada para o filme. Devido a isso, a lista de opções era escassa, e a escolha de Jenkins talvez tenha sido mais por conta de uma falta de opção do que por experiência neste gênero de filme, algo que ela não tinha.

Não que isso afete negativamente o filme, ao contrário disso, essa oportunidade é válida e necessária, e talvez isso abra portas no futuro para a inclusão de outras diretoras neste gênero da indústria.

Jenkins faz um trabalho decente e que abole o sexismo comumente visto, como acontece exageradamente com Harley Quinn em Esquadrão. A direção é comedida e sem demasiadas ousadias até mesmo quando abusa das cenas de ação perfeitamente coreografadas, como nas belíssimas sequências da batalha entre amazonas e o exército alemão na costa da fictícia ilha de Themyscira. Um balé visual deslumbrante que se repete várias vezes nas incursões solo de Diana durante sua ambiciosa busca pela justiça ao longo do filme, cenas de batalhas precisas e brutas, onde é possível sentir na poltrona do cinema a resistência das balas no escudo, justamente porque a intenção da heroína é paralisar por definitivo os conflitos, e não de perpetuá-los.

Sua ganância pela paz leva a personagem a gradualmente descobrir a extensão de seus poderes, sua verdadeira origem, a natureza humana e, principalmente, o peso de sua justiça naquilo que sempre vem a ser o grande dilema de todo herói: matar ou não matar. Uma dúvida que tem sido o enredo principal do Universo DC nos jogos eletrônicos, algo que no filme não é desenvolvido com a mesma ênfase, embora seja possível sentir na heroína uma ponta desse conflito sobre uma decisão que contraria seus princípios morais.

A história consegue oferecer tudo isso, mas o roteiro não desenvolve essas nuances de forma muito clara e concisa, ou que cause realmente uma sensação consistente de amadurecimento de Diana ao longo da primeira grande missão a qual se propõe, e esses defeitos são resultados óbvios da pressa na produção, algo que felizmente não se tornou um grande desastre. Tem que estar muito atento para perceber, já que essas densidades dramáticas acabam tropeçando em pormenores, momentos onde é possível sentir que, embora seja um filme dirigido por uma mulher, o controle dos homens do estúdio ainda é grande. Há uma forte insistência de querer trazer à tona a tal "fragilidade feminina", o sentimentalismo exagerado e um romance impossível com direito a uma cena inspirada em Casablanca (1942), quando Steve diz a Diana antes de embarcar: "Eu posso salvar o dia, enquanto você pode salvar o mundo", tão piegas quanto Bette Davis a Paul Henreid em A Estranha Passageira (1942), na clássica frase de encerramento: "Para que precisamos da lua se temos as estrelas?"

Momentos açucarados que, da mesma forma que poderiam ter ficado de fora, também trazem um certo charme a um filme de ação que, embora pareça andar sobre rodas de madeira e não tenha o mesmo ritmo acelerado e megalomaníaco das atuais produções, não chega a ter o tom pesado e artificial de Homem de Aço ou Batman vs. Superman para os brutos, mas também não tem aquele humor pastel da Marvel para os infantes e adolescentes. Uma certa delicadeza condensada para atrair a atenção daquele público feminino mais acostumado a ir ao cinema para assistir filmes familiares e comédias românticas, e não para um filme de ação também feito para elas. Uma forma de abraçar aos poucos um público que por décadas foi condicionado a gêneros restritos.

E funcionou. Nunca havia visto tantas mulheres em um sessão de ação como vi. Ao mesmo tempo que nunca vi tantas mulheres se divertirem com os bem dosados momentos de humor que por vezes brincam e criticam estereótipos e regras sociais, ou entusiamo nas cenas de puro bate e arrebenta ao som da estridente guitarra da trilha sonoroa que por vezes remete a uma releitura de Immigrant Song, de Led Zeppelin.

O humor aqui é sutil, principalmente quando usa saudavelmente essa rivalidade de gêneros, como no momento em que Diana flagra Steve (Chris Pine) pelado e o questiona sobre o estranho objeto que ele tem. Steve explica ser um relógio, um objeto que o ajuda a acordar, comer e fazer outras coisas, e então Diana pergunta: "Você deixa essa coisinha pequena dizer o que deve fazer?". Acho que apenas eu gargalhei nesse momento, pois a analogia é óbvia, mas tão subliminar que só com o rápido olhar envergonhado de Chris Pine para deixar isso evidente.

Mesmo tendo uma protagonista feminina e um elenco que a princípio é predominantemente feminino (mas que depois se torna predominantemente masculino), Mulher Maravilha não é uma ode ao feminismo como muito se imaginou antes de sua estréia. Ele tem, sim, sua relevância na questão, já que mulheres também podem ser protagonistas de filmes de ação, fãs de filmes de ação e capazes de se desvincularem da imagem do "sexo frágil" e da pregação de que homens sejam necessários para tarefas árduas. Mas ele não ergue bandeiras, muito menos tem discursos moralistas. Tudo está implícito no pacote, e desfruta-se disso quem quiser. Até porque não podemos esquecer que falamos de um filme estritamente comercial, onde o público alvo é um só: o mais abrangente possível.

Definitivamente o filme não faz feio até quando se esquece de dar maior atenção a personagens interessantes, como Dra. Maru (Elena Anaya, que volta a usar uma máscara parecida com a que usou em A Pele Que Habito), personagem que entra e sai do filme sem uma história ou um desenvolvimento plausível para sua existência, enquanto esta foi usada no trailer como elemento indispensável no enredo. Frustrante para quem esperava uma resolução mais grandiosa para ela.

Como todo primeiro filme de um super-herói, é basicamente sobre sua origem, mas com uma narrativa diferenciada, onde a personagem se descobre conforme os eventos acontecem, e não de maneira separada como no costumeiro jeito Super-Homem-de-ser. Um filme que diverte como imagina-se, que consegue ser engraçado de maneira discreta, romântico, sentimental e pregador da paz mundial para não perder a tendência a que ele se predispõe, mas que acima de tudo abre novos horizontes de possibilidades no gênero.

E, sim, nem Batman e nem Superman, mas Mulher Maravilha quem se tornou a maior evidência da Liga da Justiça nos cinemas.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

HUMOR DE TRÁGICAS METÁFORAS...

★★★★★★★☆
Título: Catfight
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama, Humor Negro
Classificação: 14 anos
Direção: Onur Tukel
Elenco: Sandra Oh, Anne Heche, Alicia Silverstone
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O reencontro de duas ex-amigas desencadeia uma guerra de egos, vinganças, importâncias, interesses e poder.

O QUE TENHO A DIZER...
Para Veronica (Sandra Oh), nada podia estar mais perfeito. Rica e influente, mora em um bairro nobre de Nova York com seu filho e seu marido, Stanley (Damian Young), o qual comemora com seus sócios um contrato milhonário de prestação de serviço ao Governo durante a guerra com o Oriente Médio.

Enquanto isso, Ashley (Anne Heche) está em crise conjugal com sua mulher, Lisa (Alicia Silverstone). O motivo: dificuldades financeiras. Ashley é uma artista plástica que há muito tempo não consegue vender um trabalho porque expressam sua visão caótica do mundo, "sangrentos" e explícitos demais para atrair a atenção de galerias, e Lisa não está conseguindo mais arcar sozinha com as despesas pois a crise econômica no país só tem oferecido subempregos.

Trabalhando na festa de comemoração de Stanley, Ashley só vai descobrir que o grande empresário é o marido de sua ex-amiga quando esta aparece na cozinha e deseja ser servida com mais bebida, vomitando impropérios sobre a vida afortunada que tem.

Ashley e Veronica pararam de se falar ainda na faculdade. Ashley alega que revelar sua homossexualidade foi o motivo de Veronica se distanciar, enquanto Veronica alega que Ashley se distanciou depois que conheceu Lisa. E em uma conversa nada amigável, ambas trocam farpas sobre suas vidas pessoais, sendo assim que o filme dirigido e escrito pelo turco-americano Onur Tukel começa, sem qualquer rodeio ou cerimônia para colocar as duas em uma briga desencadeada por motivos que pouco sabemos, mas na verdade pouco importam nesta comédia de humor negro que seria um drama trágico por excelência caso não usasse a ironia como um fator que nos dificulta entender o que é realmente engraçado do que não é. 

Tudo pareceria um filme comum sobre a rivalidade entre duas mulheres e as trivialidades que justificariam trocas de tapas caso o roteiro de Tukel não transformasse a conturbada relação de Ashley e Veronica em uma interessante metáfora das tragédias sociopolíticas que refletem o cenário norteamericano e mundial e da perversidade humana a favor de suas ambições. E não é à toa que, por isso, troca-se tapas por brigas dignas de ringues de luta livre.

O feudo basicamente representa o lado conservadorista da elite e o lado liberalista oprimido da classe média, assim como a secular rivalidade entre Democratas e Republicanos. Enquanto uma sofre com a crise econômica, a falta de oportunidades e a desigualdade, a outra se enriquece junto a um Governo manipulador que declara uma Guerra infundada apenas para movimentar sua economia exploratória. Mas as analogias não param por aí, e o roteiro também cria arquétipos para aqueles que vivem às bordas, como os ambientalistas, oportunistas e extremistas. Não chega nem a faltar um deboche direto a Hilary Clinton e Donald Trump.

Há um momento no filme em que Veronica diz a seu filho que se alguém maior e melhor mandá-lo fazer algo, ele deve fazê-lo. É em cima dessa frase que toda a moral do filme é construída, uma referência direta ao imperialismo norteamericano e sua inequívoca intenção de controlar eventos em todo o mundo, favorecendo seus próprios interesses econômicos, políticos e estratégicos, sujeitando outros países à subserviência para manter o status superioris.

Quando o roteiro imputa em cada personagem uma função conflituosa como em um campo de batalha, o caos se forma, e o ambiente se torna instrumento decisivo de influência em cada um deles. Tukel não poupa nem a sociedade e sua perniciosa ignorância, ao ponto de uma "Máquina Flatulenta" ser a principal atração engraçada na TV porque a alienação impede a compreensão de piadas críticas e políticas.

Pouquíssimas pessoas conseguiram compreender essa essência crítica e satírica do filme porque ele consegue ser discreto, e só se torna perceptível quando opiniões políticas são lançadas em momentos oportunos pelo roteiro caprichoso, que em um determinado ponto inverte os papéis das personagens e seus respectivos níveis de percepção quando Veronica entra em coma e acorda dois anos depois, pobre e sem teto por conta das mudanças econômicas e demais tragédias resultantes da guerra, e Ashley fica rica e influente porque a violência agora é um tema popular, tema o qual ela sempre explorou em seus trabalhos, mas só agora ganhou proeminência. E frente a essas diferentes situações, uma passa a ver o mundo sobre os olhos da outra sem sequer perceber, e cada uma em um comportamento relativo às suas novas realidades e interesses,

É quando os papéis se invertem novamente - e exatamente da mesma forma - que o filme parece abusar da paciência do espectador ao passar uma proposital sensação de deja vu. Embora aparente um exagero, é apenas uma continuidade dessa metáfora trágica e suas não-razões para esta repetição cíclica da violência, da retaliação e de suas consequências catastróficas. Uma busca sem fim de algo que não se sabe o que é, só mudando os interesses e tendências, onde tudo se destrói e não se reconstrói. E no fim (como no fim do filme) todos perdem, independente de quem seja a culpa, enquanto assistimos a tudo sem nada fazer.

terça-feira, 23 de maio de 2017

PODERIA SER... MAS NÃO É...

★★★★★☆
Título: Mesa 19 (Table 19)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jeffrey Blitz
Elenco: Anna Kendrick, Lisa Kudrow, Craig Robinson, Tony Revolori, June Squibb, Setephen Merchant
País: Finlândia, Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após recusar o convite de Dama de Honra do casamento de sua velha amiga, uma garota resolve aparecer na festa mesmo assim e completar uma mesa formada por pessoas que não se conhecem.

O QUE TENHO A DIZER...
Casamentos e situações inusitadas sempre foram temas para comédias ou dramas, como bem acontece em O Casamento de Muriel (1994) ou O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997), coincidentemente, ambos do diretor P.J. Hogan. Claro que existem outros, mas foi esses que me lembrei de imediato quando comecei a assití-lo.

Neste filme o roteiro é assinado pelos irmãos Duplass (Jay e Mark), e tudo começa em uma confusão interessante a partir do momento que a protagonista, Eloise (Anna Kendrick), decide se aceita ou não um convite de Dama de Honra. Rapidamente os demais cinco personagens são apresentados de maneira breve e em situações cômicas, até o filme ser introduzido de fato mostrando um esquema de salão de festas, a disposição das mesas e a maneira como elas estão organizadas para receber os diferentes convidados, agrupando-os de acordo com afinidades bastante intencionais. Finalmente chega-se à mesa 19, a última do salão, aquela onde dá para sentir o cheiro do banheiro, como diz Jerry (Craig Robinson) à sua mulher, Bina (Lisa Kudrow).

Formada por pessoas sem qualquer afinidade com nenhum outro convidado, além de conhecerem de alguma forma a família dos noivos, a mesa 19 é aquela para cobrir o buraco do salão. Com excessão de Vovó Jo (June Squibb), todos os demais sabem que estão lá para isso, mas cada um presente por um motivo pessoal próprio.

Esses motivos aos poucos se revelam, e nenhum deles é muito surpreendente ou extremamente cômico. São motivos comuns, mas levados a sério por cada um deles. O problema é que essa seriedade não ultrapassa a tela, e tudo deixa uma sensação muito vaga e pouco explorada, como acontece com o personagem Walter (Stephen Merchant), que faz uma revelação um tanto chocante, que poderia ter rendido maiores interações e conflitos entre ele e outros personagens que aparecem apenas por aparecer, acrescentando nada à narrativa.

Tudo se desenvolve bem até o roteiro dar apenas atenção ao drama da protagonista, e os demais se tornarem tão coadjuvantes ao ponto do esquecimento. A festa e seus demais convidados, que poderiam ser grandes objetos para excelentes situações, até chegam a demonstrar alguma coisa, como no caso da personagem Freda (Margot Martindale, excelente e irreconhecível), e quando a gente finalmente acha que algo acontecerá para dar uma movimentada na história e tirar aquela sensação tediosa de festa movida a status e aparências, como o filme constrói, nada acontece além de um corre corre pra lá e pra cá, um entra e sai do salão, recheadas de lições de moral de uma vovó moderna com a única finalidade de dar um final feliz à mocinha da história numa confusão típica de Sessão da Tarde.

Anna Kendrick sempre à vontade em personagens desajustadas por uma razão óbvia, seus personagens são sempre assim. Já se tornou sua marca registrada, o que é um tanto ruim pelo estigma que acaba se sobrepondo a seu talento. E chega a ser incômodo ver Lisa Kudrow muitas vezes presente apenas para compor cenas de situação e nada mais, porque, como em todos os poucos filmes que fez até hoje, ela sempre consegue fazer da personagem mais coadjuvante a mais interessante, e aqui não é diferente.

Se os Duplass tivessem se importado em desenvolver melhor os personagens mais do que suas histórias um tanto vagas, interagido melhor todos dentro da situação e criado ocasiões mais convincentes entre eles próprios, talvez o filme tivesse sido mais feliz em sua intenção. Havia toda uma atmosfera propícia para ter como referência principal O Clube dos Cinco (1985), mas desperdiçou todo seu potencial para, no fim, entregar nada além de uma comédia romântica água com açúcar que até rende algumas risadas e olhos marejados, mais pela simplicidade cliché do que pelo conteúdo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

MUITO MAIS ALÉM DA COR...

★★★★★★★★☆
Título: Cara Gente Branca (Dear White People)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Logan Browning, Brandon Bell, DeRon Horton, Marque Richardson, Antoinette Robertson, John Patrick Amedori
País: Estados Unidos
Duração: 31 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Em uma Universidade da Ivy League predominantemente branca, um grupo diverso de estudantes questionam e tentam reverter através da conscientização diversas formas de discriminação e preconceito.

O QUE TENHO A DIZER...
Três anos depois do lançamento do filme homônimo, a Netflix, junto com a Lionsgate, resolveram transformar em série aquele que foi um dos filmes com temas raciais mais injustiçados dos últimos tempos. Injustiçado no sentido de pouca gente o conhecer e de nenhum grande e popular festival ou premiação, como Globo de Ouro ou Oscar, lembrar de sua existência, mesmo quando havia qualidades de sobra nele para isso, como a excelente recepção que teve pela crítica.

Das pessoas que o assistiram, muitos não conseguiram entender do que o filme se tratava de fato, se era sobre política escolar ou sobre racismo. Oras, era dos dois! Um está atrelado ao outro, pois o racismo está diretamente relacionado à sociedade e à sua política. Não tem como separar uma coisa da outra. O que o diretor, roteirista e produtor Justin Simien fez foi simplesmente reduzir, comprimir, condensar as situações em um ambiente menor e mais controlado, como uma amostra populacional, e baseado nas suas próprias experiências enquanto estava na Universidade, discutir de maneira bastante contemporânea como a sociedade se comporta a esse tema nos dias atuais.

Definitivamente a má compreensão do filme e de seu teor crítico vem de pessoas que pouca atenção dão a esse problema, ou que persistem em seguir o senso comum de que discutir o racismo no século XXI seja desnecessário, ou sempre resgatarem a escravidão como argumento seja vitimismo, ou taxarem produtos como esse de "racismo reverso", como aconteceu quando o trailer da série foi lançado no YouTube.

Me lembro de uma frase chave do filme, quando a protagonista é questionada sobre o que ela acharia de um programa chamado "Cara Gente Negra". Sem titubear, ela responde: "Os meios de comunicação, de Fox News até os reality shows do VH1, deixam claro o que os brancos pensam de nós". E, assim como no filme, essa resposta também define toda a série e responde todas as pessoas que seguem o pensamento comum, mesmo que a série tenha diversas outras frases que a definem ao longo dos episódios.

Cara Gente Branca (o filme) consegue ser um pouco confuso pela quantidade de temas abordados e discussões a serem relevadas, mas há uma linearidade de pensamento que é coerente se bem acompanhada. Portanto, além de um belo exercício de argumentação, também é uma comédia séria (sim), com doses dramáticas honestas, excelentes interpretações e personagens estereotipados para expandir o contexto, além de um design de produção belíssimo que valoriza a diversidade de maneira igualitária raramente vista.

Seguindo a mesma premissa de que o título seja em referência ao nome do programa de rádio universitário comandado pela militante social e estudante de cinema, Sam White (no filme, interpretado por Tessa Thompson), a série terá o mesmo ponto de partida do filme: a polêmica festa a fantasia cujos convidados deveriam ir fantasiados de negros. E aquilo que a princípio parecia uma "festa inofensiva", resultou em um ato de rebeldia e violência daqueles que, por razões óbvias, se sentiram ofendidos.

Foi uma excelente escolha começar a série novamente por aí, pois justifica logo de cara sua própria existência e maximiza o tal conceito do que é racismo hoje em dia para as caras pessoas que ainda não conseguem enxergar isso. Além disso, Justin Simien, que se mantém como roteirista e diretor de alguns episódios, também se aprofunda em discussões interraciais quando descobrem que a protagonista (agora interpretada por Logan Browning) tem um relacionamento escondido com um branco, algo que no filme também acontece, mas não tinha espaço para um desenvolvimento tão amplo como agora tem.

Uma das coisas que mais fez o filme funcionar (além da consistência do próprio roteiro), eram os atores. Na série da Netflix, do elenco original, apenas Brandon Bell e Marque Richardson foram mantidos no papeis de Troy Fairbanks e Reggie Green, respectivamente. Não que essa troca tenha impactado no resultado, mas alguns personagens acabaram perdendo um pouco do brilho que o filme apresentou, como também alguns deles sofreram drásticas mudanças, como é o caso de Coco Conners (Antoinette Robertson) e do próprio Troy.

No filme, a personagem de Coco (interpretada por Teyonah Parris), talvez fosse a que mais pudesse deixar o espectador confuso, já que ela é uma negra que finge ser branca, negando qualquer ato ou comportamento que caracterize sua raça, incluindo envolvimento com pessoas da mesma cor. Sua alienação e futilidade pareciam descabidas, mas sua construção é tão bem feita que a justificativa de seu comportamento não apenas é entristecedora e desmoralizante, como compreensível. Da mesma forma Troy, que no filme era um personagem condicionado pelo seu pai a agir favoravelmente aos brancos para, assim, garantir um brilhante futuro.

Na série essa complexidade toda foi amenizada. Coco se tornou uma garota ambiciosa que apenas diverge de algumas opiniões e comportamentos, sempre pendendo para aqueles que sejam menos conflituosos e que lhe traga maiores benefícios pessoais. O mesmo acontece com Troy, mas esse, sempre em conflito com as pressões sociais, familiares e políticas vindas de todos os lados ao ponto de igualmente perder sua identidade.

Uma pena Simien ter dado essa guinada de 180 graus na personalidade de ambos, que se no filme foram extremamente bem desenvolvidos, na série poderiam ter sido muito mais. O nível de complexidade dos diálogos, das referências, analogias e metáforas também foi bastante amenizado, e até os discursos de Sam White também perderam alguns pontos daquele humor ácido e perspicaz que fazem do filme um produto não apenas consistente nos seus temas, mas solidamente embasado em suas justificativas. Tudo isso a favorecer uma linguagem mais acessível ao público comum, o que é compreensível, mas não muito necessário.

De qualquer maneira, nada disso altera consideravelmente o resultado final, e novamente o roteiro sai vitorioso ao dar voz aos diferentes pontos de vista, e todos eles sempre convergendo a uma questão comum. Como acontece no quinto episódio, quando Reggie reprime um amigo branco por cantar junto com uma música um termo socialmente impróprio, e então a opinião se divide, tanto para os personagens, como também irá se dividir para o espectador. A conclusão disso é que, independente de quem tenha a razão, nada justifica a abordagem policial que o personagem recebe, numa cena bastante chocante, com referências sociais óbvias e muito mais comuns do que se pode imaginar, colocando todos em um mesmo lado e em um mesmo questionamento, inclusive o próprio espectador.

E ao contrário do que pode parecer, assim como o filme, Cara Gente Branca não é uma série militante ou que tenha intenções de ser polêmica, mas essencialmente questionadora, tanto para o segregado, quanto para o agente segregador, nos fazendo compreender como é ser um negro dentro de uma sociedade branca, e como é ser um branco em uma sociedade racialmente intolerante, e a partir daí encontrar nossa própria essência e identidade como seres humanos.

sábado, 6 de maio de 2017

NENHUM ELOGIO É BOM O BASTANTE...

★★★★★★★★★☆
Título: Feudo: Bette e Joan (Feud: Bette And Joan)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Susan Sarandon, Jessica Lange, Alfred Molina, Judy Davis, Stanley Tucci, Catherine Zeta-Jones, Kathy Bates
País: Estados Unidos
Duração: 45 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A histórica rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford revelam mais do que simplesmente uma disputa de egos.

O QUE TENHO A DIZER...
Rivalidade existe em todo lugar, mas nunca foi tão saborosa quanto entre Bette Davis e Joan Crawford. Saborosa para quem tinha partido nesse embate (ou pra quem agora tem, assistindo a série). Mas não se pode negar a tristeza bastante desmoralizante pela forma como a mídia inflamou essa fogueira, e como a situação foi explorada.

E com uma abertura bastante similar à animação vetorial de A Favorita, já fica bem evidente que o sucesso, fama, títulos, prêmios e inveja serão os grandes motivadores de uma problemática relação que influenciou toda uma indústria e seus fins trágicos por consequência.

Mas para entender melhor o que a série pretende mostrar, nada melhor do que conhecer um pouco mais da realidade em que ela é baseada.

Então senta, que lá vem história...


Não se sabe ao certo o início de tudo. Acredita-se que a situação tenha começado na década de 30, quando Joan Crawford se casou com Franchot Tone em 1935, ator com quem Bette Davis trabalhou no mesmo ano no filme Perigosa (Dangerous), por quem ficou apaixonada, sofrendo uma terrível derrota amorosa com o casamento.

Joan Crawford já tinha seu lugar profissional estabelecido e respeitado, já que vinha do cinema mudo, principalmente porque, ao contrário de muitas outras atrizes que vieram da mesma época, ela tinha talento e voz (sim, muitas atrizes perderam o emprego pois a voz era terrível). Enquanto isso, Bette Davis concorria ao seu primeiro Oscar por Servidão Humana/Escravos do Desejo (Of Human Bondage, 1934), de uma maneira muito peculiar. A princípio ela não estava entre as três finalistas, mas como sua interpretação foi elogiada pela crítica e pelo público de maneira quase unânime, aconteceu uma forte campanha para a Academia incluí-la, e assim foi feito, sendo esse filme considerado sua grande estréia em Hollywood.

Nos anos seguintes, a situação ficou um pouco mais séria quando os papéis começaram a se inverter: enquanto Davis estava em ascenção constante na carreira, Crawford foi posta de lado, sendo dispensada pela MGM em 1943, enquanto Bette se tornou um dos nomes mais importantes de Hollywood e a principal estrela da Warner. Aceitando um salário reduzido, Crawford foi contratada pela Warner. Davis, incomodada, não gostou da contratação, encarando como uma provocação do estúdio, e a presença da rival na mesma casa como uma ameaça, o que acabou exaltando o humor de todos.

Dentro da Warner, Crawford também demonstrou seu incômodo ao se esforçar de todas as maneiras para tentar conseguir papéis importantes antes deles pararem nas mãos de Davis, mas foi em vão. E ao contrário do que esperava, os papéis que chegavam eram exatamente aqueles que Davis recusava.

Essa situação de "atriz substituta" não foi de todo ruim. De três indicações ao Oscar que Crawford recebeu nos anos de 46, 48 e 53, as duas primeiras foram de papéis recusados por Davis, vencendo apenas em 46 pelo seu papel em Mildred Pierce. Como curiosidade, ela não compareceu à premiação alegando problemas de saúde. Na verdade ela fingiu estar com pneumonia para criar um espetáculo dramático e conquistar a atenção da mídia. Essa curiosidade é importante porque, além de ser um fato presente na cinebiografia Mamãezinha Querida (Mommie Dearest, 1981) e também citado em alguns episódios de Feud, é uma encenação que ela voltou a repetir para prejudicar as filmagens de Com A Maldade Na Alma (Hush, Hust, Sweet Charlotte, 1964), fato que o seriado desenvolve com profundidade lá pelo sexto espisódio.

A intenção de reunir as duas atrizes surgiu primeiramente em 1950 para o filme À Margem da Vida (Caged), mas a recusa de Bette Davis pelo papel não apenas impediu isso de acontecer como também interferiu na contratação de Crawford, que também não foi escalada para ele.

O que se imagina é que, o fato de Davis não gostar de Crawford se tornar algo público, acabou despertando em Crawford uma necessidade de resposta, e a rivalidade entre elas foi plantada. Mais do que isso, esse embate público também criou discussões comparativas dentro da indústria sobre quem era mais talentosa, quem era mais bonita, quem era mais interessante ou inteligente. Isso influenciou negativamente no comportamento de ambas, preparando o terreno para uma guerra criada e alimentada mais pelos outros do que por elas mesmas.

Em seu silêncio, Crawford aparentava sustentar uma grande admiração por Davis, mesmo sendo constantemnte minada pelas pelos comentários ácidos da colega. Ao mesmo tempo invejava seu sucesso e popularidade, e para driblar as comparações inferiores que recebia - inclusive dos próprios chefes da Warner - se esforçava herculeamente para provar ser tão (ou mais) capaz e competente. Por outro lado, quanto mais Davis percebia os esforços de Crawford, mais ela a esnobava, atacando sua moral e inferiorizando suas qualidades como atriz para desestruturá-la psicologicamente, pois Davis sabia que falar do talento de Crawford era atingir seu tendão de Aquiles, e assim continuaria por cima.

Sabe-se que reuní-las para o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened To Baby Jane?, 1962) acabou se tornando uma guerra de egos e interesses que quase enlouqueceu o diretor Albert Aldrich, e o estopim da situação foi durante a promoção do filme. Davis viajou por todo o país promovendo o filme praticamente sozinha enquanto Crawford se escondeu em sua mansão em Los Angeles. Durante a promoção, em momento algum Davis elogiou a performance de sua colega de elenco. Este é tido como, talvez, o maior rancor de Crawford depois de ter sido ignorada pelo Oscar em 1964, situações também presentes no seriado.

Crawford chegou a afirmar que teria sido louvável e profissional se Davis tivesse lhe dado um pequeno crédito nas coletivas que precederam o lançamento ao invés de agir como se o filme fosse apenas dela. Um ressentimento compreensível até, independente do difícil convívio nos bastidores.

Bette Davis sempre levou muito a sério a bagagem profissional de atores com quem trabalhou, sendo até um tanto preconceituosa a respeito disso. Ela, que começou sua carreira na Broadway, desdenhava o background profissional de Crawford, que começou a carreira como dançarina de boates antes de estrear no cinema mudo. Em contraponto, Crawford admirava a bagagem teatral de Davis, mas acreditava que essa experiência não era útil no cinema, já que as câmeras demandavam outro tipo de técnica, afirmando que Bette sabia interpretar, mas não sabia entregar personagens (fala também presente na série).

Na tentativa de construir uma imagem popular mais diplomática, Crawford nunca respondia diretamente os ataques recebidos por Davis, ou pela imprensa de fofocas. Ao invés disso, preferia agir de maneira mais indireta e ardilosa pelos bastidores, o que sempre demonstrou uma certa fraqueza emocional e covardia, coisas que Davis repudiava, pois era conhecida por ser bastante direta e desbocada. Daí o fatídico episódios do Oscar em 1963, pelo qual Davis nunca a perdoou, culminando na insustentável situação no início da produção de Com A Maldade na Alma.

Por essas e outras que, enquanto Crawford era conhecida como "a rainha do drama", Davis era conhecida como a "grande megera" de Hollywood. Davis chegou a afirmar que o maior talento de Crawford era chorar demais, como se urinasse pelos olhos, além de dormir com todos os homens de Hollywood, só faltando o cachorro Lassie. Crawford, por sua vez, vestia o papel da dama indiferente e fingia não se incomodar, respondendo que se tirassem os olhos saltados, o cigarro e os maneirismos de Davis, não sobraria talento algum. Farpas públicas recorrentes, e que para a imprensa de fofoca era sempre bastante lucrativo.

Naquela época, a opressão e o abuso da imagem feminina eram grandes. Mulheres eram poderosas nas telas, mas nos bastidores a situação era inversa. Se hoje a discussão de assédio nos bastidores é algo recorrente, na época ninguém tocava no assunto, pois era corriqueiro e dominante entre os homens e os negócios. As atrizes eram assediadas moral e sexualmente, usadas como objetos e mercadorias. Sabe-se, por exemplo, que os grandes chefes de estúdios como MGM, Warner e Fox, trocavam farpas durante o dia, mas a noite se reuniam para carteados e apostas, sendo Bette Davis uma dessas apostas quando Jack Warner aceitou empresta-la à RKO para o filme Pérfida (The Little Foxes, 1941), e assim quitar uma dívida de US$300 mil.

A rivalidade entre as duas era uma coisa natural até um certo ponto, mas a partir do momento que isso se tornou algo vendável, o oportunismo em cima disso forjou situações para piorar a inimizade e gerar essa atmosfera de constantes ataques e aprovações.

É óbvio que grande parte disso tudo era catalisado pela imprensa sensacionalista, encabeçada pela frustrada atriz e colunista de fofocas, Hedda Hooper. Sua coluna no jornal Los Angeles Times era bastante influente na opinião pública, ao mesmo tempo que Hedda era considerada persona non grata nos grupos mais intelectuais. A título de interesse, Hopper foi uma das responsáveis por denunciar possíveis comunistas ligados à indústria cinematográfica durante a era McCartista, entre as décadas de 40 e 50, prejudicando e desempregando dezenas de diretores, atores, roteiristas e demais ligados à indústria, naquilo que veio a ser chamado de "lista negra" de Hollywood.

Até hoje existe uma grande discussão mundial sobre rivalidades que a mídia cria para diminuir a capacidade das mulheres, como uma maneira de controlá-las e transformá-las em indivíduos manípuláveis, fazendo delas estereótipos e rótulos fúteis, vendendo-as pelas polêmicas, e não pelo talento, como bem aconteceu com ambas.

Davis e Crawford podiam ter seus problemas, mas uma coisa elas tinham em comum, o comprometimento com o trabalho. Ambas eram extremamente profissionais e exigiam bons papéis aos donos de Hollywood, além de detestarem serem passadas para trás. Foram, juntamente com poucas outras atrizes, como Katherine Hapburn e Olivia De Haviland, as precursoras de um comportamento femininsta em Hollywood que incomodava os grupos machistas dominantes. Davis chegou a processar a Warner na década de 30 por ter se negado a fazer um filme e estar presa a um contrato que a impedia de escolher seus trabalhos, ou até mesmo trabalhar fora dos EUA por conta própria. A Warner era "dona" dela. Obviamente ela perdeu, sua imagem ficou manchada, mas nunca abaixou a cabeça. De Haviland chegou a mover um processo similar, mas ao contrário de sua amiga, se bem sucedeu, conseguindo uma certa "emancipação" da indústria.

Embora fosse evidente para ambas que a mídia era uma grande responsável por manipular essa rivalidade, Bette nunca escondeu seu desapreço, enquanto Crawford nunca afirmou odiá-la, mas também não deixava barato. Apesar de tudo, Davis nunca negou admirar o profissionalismo e a pontualidade de Crawford, também dizendo que grande parte dos problemas que Crawford teve na indústria foram basicamente os mesmos que também teve, justamente por serem extremamente exigentes e críticas.

Hoje em dia há muitas idéias de que a mídia tenha criado esse campo de batalha para evitar que Davis e Crawford unissem forças para combater o sistema dominante da época. Era certo que, se as duas se tornassem aliadas contra os esquemas que reduziam as mulheres como carnes de açougue, isso pudesse dar margem a um movimento que seria desmoralizante para a indústria e obrigaria Hollywood a grandes mudanças. Mudanças as quais - algumas - aconteceram com o passar dos anos, como os estúdios hoje em dia não serem mais "donos" de artistas ou diretores, e proibidos de exigirem contratos restritos ou que se extendam por mais de 7 anos.

A imprensa da época era movida a "frases de impacto", tal como acontece no primeiro episódio, quando Hedda Hopper (Judy Davis) diz a Crawford (Jessica Lange) que ela só precisa de um "catch phrase" sobre Marilyn Monroe, ou seja, aquela frase de efeito pronta para ser publicada na primeira página, que se propagasse facilmente. Tanto é assim que existem diversas frases memoráveis (e verdadeiras) tanto de Joan quanto de Bette, aproveitadas no seriado em meio aos diálogos, como as mais conhecidas de Davis sobre Crawford: "Não mijaria em Crawford nem se ela estivesse pegando fogo", ou a mais polêmica delas: "Não devemos falar mal dos mortos, apenas coisas boas. Crawford está morta, isso é coisa boa".

Alfinetadas irônicas e perniciosas como Twittes nos dias atuais, nada que ultrapassasse 140 caracteres nas manchetes de fofocas. Enfim, todo o ringue era planejado e montado por aqueles que tinham interesse.

Portanto, é basicamente em cima dessas idéias e acontecimentos que Ryan Murphy irá desenvolver a primeira temporada de sua nova série de antologias, assim como é seu filho pródigo, American Horror History, onde cada temporada tem uma história única.

É por essa razão que a série irá abordar dois momentos importantes: os batidores de Baby Jane, e os bastidores de Com A Maldade Na Alma, pois são capítulos que marcam o início e o fim de uma era de rivalidade.

A idéia de Feud começou há seis anos atrás. Murphy sempre foi um grande fã de Davis, e após ler a biografia de Shaun Considine, narrando o complicado bastidor de O Que Terá Acontecido A Baby Jane?, quis fazer um filme sobre o assunto. Afirmou sempre ter tido em mente Susan Sarandon e Jessica Lange nos papéis, mas as dificuldades de transformar o projeto em filme acabaram levando-o a optar por um projeto para a televisão, algo que Sarandon chegou a afirmar em entrevistas recentes ter sido a opção mais interessante, pois haveria tempo para explorar assuntos em oito episódios que em um longa metragem não seria possível.

A biografia de Considine é um dos materiais principais de todo o roteiro, mas não apenas isso... relatos, boatos, fofocas, informações de bastidores... tudo isso igualmente incrementa e traz à tona uma rivalidade que permeou o imaginário das pessoas, alimentadas por todo o espetáculo midiático que se criou em torno disso. Claro que algumas informações distorcidas aparecem, como a série afirmar no primeiro episódio que Baby Jane teve seu roteiro escrito pelo próprio Albert Aldrich, e não por Lukas Heller (que também foi o responsável pelo roteiro de Com A Maldade Na Alma). Há também algumas controversas, como o polêmico anúncio que Bette Davis publicou em 1963 procurando emprego. A publicação, na realidade, foi uma piada criada por ela mesma para criticar o etarismo da indústria ao ignorar atrizes depois de uma certa idade, e acredita-se que foi depois de vê-lo que o diretor Robert Aldrich contatou a atriz para o papel principal em Baby Jane, e não muito bem da forma como o seriado mostra. 

Independente disso, Murphy faz uma construção muito sólida de tudo. A pesquisa realizada, o material coletado de diversas fontes videográficas (a maioria delas encontradas no próprio YouTube) reproduzem tudo com tanta atenção a detalhes que é surpreendente (há diversos vídeos comparando as reproduções da série com os materiais reais). O mais impressionante é a forma como ele conseguiu encaixar tudo dentro de uma cronologia possível e ainda criar uma história consistente em meio a tantas referências e informações dispersas.

O roteiro se utiliza basicamente de duas narrativas principais: A narrativa mais objetiva, mostrando o cotidiano das atrizes e seus conflitos pessoais, dando justificativas e arco dramático necessários para sustentar a conflituosa relação entre elas e suas respectivas vidas privadas cheias de altos e baixos, bem como a narrativa mais documental, com relatos de Olivia De Haviland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates), amigas íntimas de Davis, para dar consistência aos fatos por pontos de vistas externos e mais pessoais.

O resultado - e não tem como dizer outra coisa - é brilhante.

De forma alguma seria desmerecer ou diminuir o talento de Jessica Lange, mas o trabalho desenvolvido por Sarandon é arrebatador. Ela consegue incorporar a essência de Davis em todos os aspectos, do modo de falar ao modo de agir. Ao ver sua performance, é como se a víssemos pensando como Davis. Segundo a atriz, sua maior preocupação foi fugir o máximo que pudesse da caricatura, já que a própria Davis era uma pessoa bastante caricata, como no momento em que ela se apresenta como Baby Jane pela primeira vez, conseguindo ser tão engrandecedor e chocante como é relatado ter sido na realidade.

Assim como o primeiro episódio mostra, Davis decidiu fazer sua própria maquiagem, recusando profissionais. A idéia que ela teve para Baby Jane é que ela era uma pessoa que aparentava ser como uma boneca velha, maquiada em cima da maquiagem do dia anterior. Quando ela se apresentou daquela forma a Bob Aldrich, ela não apenas arrancou o choque da equipe, como também de sua própria filha e igualmente de Joan Crawford, ao mesmo tempo que, por outro lado, foi parabenizada pelo próprio autor do livro, que afirmou que ela estava exatamente como ele imaginava Baby Jane enquanto escrevia. Essa relação de Davis com a maquiagem já rendeu outras situações, como no filme Pérfida, quando o diretor William Wyler disse que sua maquiagem parecia de um Kabuki, e que ele não a filmaria daquele jeito. E, no fim, Pérfida é igualmente uma de suas maiores performances de sua carreira.

Embora a performance de Sarandon tenha grandes virtudes, principalmente porque seus diálogos sarcásticos e de objetividade cirúrgica reproduzem com assustadora fidedignidade a irônica rispidez, o humor sarcástico e a afiada eloquência de Davis, Lange não é ofuscada, mas também não se destaca como se espera, ficando a todo momento sob as sombras.

Mas isso não é demérito do roteiro e muito menos um erro, mas algo que se mostra proposital pela própria personalidade da atriz referenciada. Crawford, assim como publicamente taxada, era sempre dramática demais. Uma mulher que tinha diversos problemas pessoais e psicológicos, como inferioridade, baixa auto-estima, depressão, mania e alcoolismo. Não é à toa que seus móveis encapados era uma das coisas mais bizarras de sua persona, já que tinha obsessão por limpeza. Dita como uma pessoa difícil de se conviver, era inteligente e determinada, mas não tinha a mesma sagacidade de Davis. Por ter dado tanta atenção a comentários e comparações de terceiros, seu único objetivo, por muito tempo, foi se sobrepor à sua rival, e a consequência disso foi ter se tornado uma coadjuvante de sua própria história. Isso é o que é realmente entristecedor de toda essa rincha, e esse lado dramático pode até ter o melodrama sempre característico de Crawford empersonado por Lange, mas não deixa de ser verdadeiro e sofrido. A forma como Crawford absorveu a situação e transformou tudo isso em um objetivo vazio, é uma batalha que ela trava com ela mesma sem qualquer trégua, resultando em uma vida solitária, um final de carreira decadente e uma morte anunciada. 

A manipulação existente em volta das duas atrizes, até mesmo na de Aldrich sobre elas, alguém que se mostrou presente e amigo, considerado por elas como alguém de confiança e um mediador necessário, é desmoralizante. Mas assim como a série constrói, Aldrich também foi uma vítima dessa manipulação, sendo igualmente inferiorizado e um objeto/ferramenta de concretização dessa novela, tamanha a gigante proporção do domínio da indústria sobre eles, já que os estúdios passaram a depender de toda essa má publicidade para garantir o sucesso de bilheteria dos filmes numa fase que lançou o estilo "hag movies" (ou hagsploitation), ou seja, filmes que exploravam a imagem de "bruxas velhas", em referência ao gênero de suspense/horror com atrizes acima dos 50 anos interpretando vilãs caricatas.

Numa época em que fala-se muito da igualdade das mulheres e de seu empoderamento, a série ergue discussões fundamentais sobre isso sem soar doutrinadora ou didática, como no momento em que Pauline Jameson (Alison Wright) expressa suas intenções em dirigir um filme que ela mesma escreveu pensando em Crawford no papel principal, mas é desmotivada pela forte presença masculina em um período em que não havia mulheres diretoras em Hollywood. Claro que o cenário hoje é um pouco diferente, mas ainda existe um grande desfalque feminino nesta categoria, e uma das grandes razões da maioria dos episódios terem sido dirigido por mulheres.

Embora superficialmente a série aparente sustentar a rivalidade apenas em cima da inveja sobre a beleza de uma e o talento de outra, é possível perceber que havia muito mais por trás de tudo. Murphy conseguiu criar um material respeitoso, além de uma grandiosa homenagem às duas atrizes, entregando ao público um final esperado, mesmo que diferente da realidade, mas desenvolvido de maneira tão delicada, expressiva, e justificada de forma tão simples e honesta que encerrou satisfatoriamente a temporada, servindo como um possível pedido de desculpas póstumas uma à outra. Um final emotivo e nostálgico, uma fantasia poética possível caso tudo tivesse sido diferente, além de mostrar que ambas tinham muito mais em comum do que elas próprias imaginavam.

Como um todo, Feud se mostrou mais que uma série, mas um resumo histórico de uma fatia da História do Cinema e de Hollywood, além de ser, até o momento, a melhor temporada de séries de 2017. Curta, expressiva, relevante e emotiva.

Nenhum elogio é bom o bastante.
Add to Flipboard Magazine.