Translate

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

NEM TÃO EXEMPLAR ASSIM...

★★★★★★
Título: Garota Exemplar (Gone Girl)
Ano: 2014
Gênero: Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: David Fincher
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Con, Neil Patrick Harris, Tyler Perry
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
No dia do 5º aniversário de casamento, Amy desaparece deixando várias pistas, mas nenhuma que leve diretamente a ela. Ao mesmo tempo que a polícia investiga os fatos, tudo indica que Nick, seu marido, não é tão inocente quanto parece.

O QUE TENHO A DIZER...
Percebe-se que David Fincher tenta a todo custo emplacar algum novo thriller tal qual ele fez no passado com Se7en (1995), Clube da Luta (Fight Club, 1999) e O Quarto do Pânico (Panic Room, 2002). Ele não foi muito feliz no gênero com Zodíaco (Zodiac, 2007) e se deu um intervalo para investir em dramas como o cansativo O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case Of Benjamin Button, 2008) e o aclamado A Rede Social (The Social Network, 2010). Voltou ao gênero um ano depois com sua hedionda adaptação norteamericana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011). Hediondo e desnecessário, diga-se de passagem, já que as adaptações suecas das obras de Stieg Larsson são muito melhores em todos os aspectos.

Garota Exemplar é baseado no livro de Gillian Flynn, lançado em 2012, que se transformou instantaneamente em um best seller, vendendo mais de 8 milhões de cópias no mundo. Foi bastante aclamado por narrar as consequências obscuras de um casamento decadente, bem como o circo manipulativo criado pela mídia em cima das situações trágicas que envolvem os mistérios da trama. É produzido pela atriz Reese Witherspoon e sua produtora Pacific Standard junto com a Regency. Parece que a princípio era pra ela ter sido a protagonista, mas por conta da sua gravidez teve que abrir mão do papel. A autora também é a roteirista, por conta disso, vale-se dizer, o filme é 90% fiel ao livro, desde o desenvolvimento narrativo até mesmo nos diálogos, muitos dos quais foram tirados da própria obra original, algo sempre muito interessante de se observar. Se quiser ler o resto por sua conta e risco, selecione o texto para aparecer: Foi divulgado que a autora havia mudado o final do filme para que aqueles que já leram o livro não perdessem o interesse. Realmente há algumas diferenças mínimas, mas nada significativo, e tudo foi apenas um boato. Para os que não leram, essa informação não faz qualquer diferença.

Fincher novamente abusa do tempo nas mais de duas horas e meia de um filme que visualmente cansa pelo excesso de edição e diálogos cortados, perdendo a fluidez e a grande expectativa viciante que o livro tem. Quem desconhece a obra original poderá achar a história um pouco inconsistente porque Flynn se limitou muito no desenvolvimento da história para mantê-la a mais fiel possível ao livro, mas não soube desenvolver a personalidade dos personagens principais da maneira como é brilhantemente feita no original e indispensáveis para a imersão na trama. Este é de cara o problema mais notável para aqueles que leram a obra, pois embora a história como um todo possa cair numa sequência interminável de absurdos um tanto difíceis de engolir até mesmo dentro da própria ficção, o grande atrativo é a construção dos personagens e suas consistentes personalidades.

Ben Affleck pode ser bonito e ter um sorriso camarada, mas ele é um ator tão medíocre quanto seu personagem. Felizmente ele provou nos últimos anos que consegue ser um bom diretor e roteirista, qualidades que salvaram sua carreira do fracasso, porque sua falta de talento cênico é devastadora. Para sua sorte, sua incapacidade de atuar e a fisionomia sempre apática caem como uma luva no personagem. Nick Dunne é perfeitamente descrito pela escritora como uma pessoa introvertida, mecânica e inexpressiva, havendo momentos que sua rigidez emocional chega a ser constrangedora até mesmo para o leitor, mas o personagem traz embutido um sarcasmo e uma autodepreciação que rende momentos de humor negro e sutil. Affleck evidentemente é um ator que seria uma das últimas opções de Fincher para qualquer trabalho, mas assim como Cronemberg conseguiu se beneficiar da mesma incompetência do ator Robert Pattinson para caracterizar o personagem arrogante, egocêntrico e narcisista de Cosmopolis (2012), percebe-se que Fincher tenta fazer o mesmo com as inabilidades do ator em prol do inábil personagem. O resultado só não tem muito sucesso porque nem Gillian Flynn, nem o próprio Fincher, conseguiram deixar claro no filme que o que vemos naturalmente de Affleck na tela é exatamente o que o seu personagem é no livro. Para o espectador leigo a interpretação do ator pode não parecer convincente, o que de fato não é, mas é coerente com o personagem, isso só não ficou claro. E o tal sarcasmo e autodepreciação, grandes atrativos do personagem, passam despercebidos.

O mesmo pode ser dito sobre a personagem Amy, mas ao contrário de seu colega, Rosamund Pike atua de verdade e faz um excelente trabalho. Mas o filme em nenhum momento se beneficia ou argumenta sobre a inteligência acima do normal da personagem e a máquina manipuladora que ela é descrita no livro. Os leitores perceberão que a atuação da atriz é extremamente sutil e calculada principalmente nos momentos mais dramáticos entre ela e Affleck, onde é possível notar subliminarmente toda sua perspicácia e dissimulação. Quando o roteiro finalmente tenta expor essa genialidade de Amy de maneira mais óbvia, é tarde demais e pouco convence.

De maneira até curiosa, os demais coadjuvantes acabam roubando as cenas, como a irmã Margo (Carrie Con) e a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens). Considero infeliz a escolha de Tyler Perry para o advogado Tanner Bolt, um personagem que na verdade nada acrescenta tanto no livro quanto no filme porque ele não tem nenhuma conclusão importante na história, e o ator entrega um tom cômico e despretencioso que soa incoerente, talvez para compensar essa desimportância, mas ainda sim continua esquecível.

Fincher tinha um grande material nas mãos para fazer mais um grande suspense quando parte-se do princípio de que o livro se bem sucede no gênero por conta da narrativa um tanto folhetinesca que intercala o ponto de vista de Nick e o ponto de vista de Amy sobre a relação de ambos como se fossem capítulos, cada um deles interrompidos em momentos chaves que prendem a atenção do leitor para descobrir como cada um desses momentos se esclarecerão. Essa proposta foi mantida no filme, mas não funciona tão bem quanto no papel. Quando a história atinge seu climax, um momento extremamente importante que pega o leitor de surpresa pela maneira abrupta como a reviravolta acontece, esse grande impacto é desperdiçado numa cena tola com um tempo narrativo totalmente errado, novamente por conta de uma edição falha e de uma revelação que poderia ter sido construída de forma mais lenta e elaborada. Quando comparamos com Clube da Luta e a maneira chocante como o diretor revela ao espectador algo que estava evidente aos seus olhos o tempo todo, percebe-se que Fincher poderia ter trabalhado melhor nos impactos da trama.

Trent Reznor e Atticus Ross novamente colaboram com o diretor na trilha sonora, talvez para tentar repetir o sucesso da parceria que rendeu um Oscar aos dois pela composição de A Rede Social. A trilha sonora, cheia de instrumentais e ruídos eletrônicos desconexos, tem um papel fundamental para diferenciar os tempos narrativos. Como dito pelo próprio diretor, embora relaxante e vaga, ainda instila um senso de pavor. Mesmo assim ela soa invasiva em alguns momentos, e seu mau uso, seja pelo excesso ou pela má sincronia, deixa a desejar em situações que poderia causar esse impacto surpreendente esperado.

No geral o filme pode agradar principalmente por conseguir reproduzir fielmente os personagens e a cenografia narrada pela autora no livro. Mesmo em uma narração em primeira pessoa, o detalhamento que Flynn dá na descrição dos ambientes e da fisionomia de seus personagens é tão rico que para muitos que leram a obra ficarão surpresos e terão aquela sensação de "era assim que eu imaginava quando li", e esse é um dos grandes pontos positivos. Uma pena que ele falha na sua construção, fazendo todo o clima sombrio, misterioso e dúbio do livro serem perdidos ou pouco aproveitados tanto quanto a rica personalidade dos personagens principais. Muito disso, com certeza, pela inexperiência quase amadora da escritora como roteirista, já que é seu primeiro trabalho para o cinema.

CONCLUSÃO...
Muito fiel ao livro, porém erra em não ter explorado como devia a personalidade dos personagens principais e na edição que nunca oferece o suspense esperado, além da chocante surpresa do clímax que é desperdiçada. Evidente também a falta de forma do diretor em conduzir mais um suspense sem a vontade demonstrada em seus primeiros grandes sucessos, talvez porque aqueles filmes ele tenha feito por vontade, e não por contrato, como acontece aqui ou como aconteceu com Os Homens Que Não Amavam As Mulheres.

sábado, 18 de outubro de 2014

INUSITADO...

★★★★★★★
Título: Terra Para Echo (Earth To Echo)
Ano: 2014
Gênero: Aventura, Ficção, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Dave Green
Elenco: Astro, Teo Halm, Reese Hartwig, Ella Wahlestedt
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois que os celulares dos moradores de uma pequena cidade no interior de Nevada entram em pane, três amigos resolvem pesquisar o que pode ter ocorrido e descobrem que a pane na verdade mostra um mapa que leva ao meio do deserto. Como um deles está para se mudar para Nova York, o trio resolve se aventurar na última noite que passarão juntos.

O QUE TENHO A DIZER...
É o filme de estréia dos amigos Dave Green na direção e Henry Gayden no roteiro. Foi originalmente desenvolvido e produzido pela Disney enquanto Rich Ross era o presidente da companhia, mas ele acabou se demitindo devido ao mau estar gerado entre ele e os executivos da Pixar por conta do homérico fracasso de John Carter (2012). Ross deixou a Disney em Abril de 2012 e Alan Horn foi nomeado para o cargo. Assim que Horn assistiu a versão final do filme ele resolveu colocá-lo em turnaround, um termo utilizado na indústria cinematográfica que significa um acordo de transferência de direitos de uma obra já finalizada por uma produtora para outra. Em outras palavras, é vender o filme pronto no valor dos custos da produção somados a outros interesses variáveis. Dentre os motivos mais comuns, este tipo de acordo visa cobrir os gastos e ao mesmo tempo oferecer um lucro simbólico de um filme que uma companhia tenha desistido de comercializá-lo. Os direitos de distribuição, então, acabaram sendo vendidos para a Relativity Media, que mesmo sendo uma das maiores empresas do mundo neste segmento, não conseguiu promovê-lo da forma efetiva como a Disney conseguiria com a força de sua marca.

A narrativa do filme é novamente no já velho estilo de filmagens em primeira pessoa, como no acontecimento extraterrestre de Cloverfield (2008), mas dentro uma construção mais pessoal e fantasiosa similar a de Poder Sem Limites (Chronicle, 2012). Tudo começa quando os três curiosos amigos, Tuck (Astro), Alex (Teo Halm) e Munch (Reese Hartwig) resolvem investigar o que significa a pane gerada nos celulares das pessoas de onde moram. Ao descobrirem que a imagem que aparece nos aparelhos é um mapa, assim como os Goonies, os três decidem se aventurar a segui-lo. Tuck, por ser dono de um canal pouco assistido no YouTube, resolve filmar toda a jornada na esperança de que algo muito interessante aconteça e que dê a ele e seus amigos notoriedade. De bicicleta, a localização os leva até o meio do deserto de Nevada, onde encontram um artefato de metal que posteriormente se revelará uma fonte de energia essencial para a sobrevivência de um alienígena bioeletromecânico que possui forças magnéticas para controlar qualquer objeto desta natureza. A pequena criatura precisa encontrar partes para reconstruir seu equipamento danificado pelos terráqueos que atacaram sua nave quando viajava sozinho pelo espaço, e agora pessoas do governo estão atrás da criatura que quer apenas voltar para seu planeta. Os jovens, comovidos pela descoberta e por também se sentirem isolados do mundo tanto quanto o novo amigo extraterrestre, resolvem ajudá-lo.

Não dá pra negar que os clássicos infanto-juvenis, como E.T. (1982) e Goonies (1985), sejam referências primordiais nesta aventura. A história também se assemelha bastante com a ficção extraterrestre e juvenil Super 8 (2011), de J.J. Abrams, já que o filme de Abrams não apenas bebeu das mesmas fontes como também seguiu a mesma estrutura técnica de direção de Spielberg. A diferença é que, neste pequeno filme, as catástrofes, os exagerados absurdos e os grandiosos efeitos especiais dão lugar para um desenvolvimento mais humano, lúdico e carregado de sentimentos simples e sinceros.

As comparações com o filme de Abrams foram inevitáveis e pipocaram nos fóruns de cinema, o que acabou diminuindo a expectativa de muitos. Mas a verdade é que Terra Para Echo custou menos da metade de Super 8 e consegue contar a jornada aventuresca similar de forma muito mais empolgante, nostálgica e convincente dentro de sua fantasia e sem transformar o alienígena em uma ameaça assustadora, naquela impressão que raramente temos de que não é necessário orçamentos milhonários para bons filmes serem feitos, o que também é bastante notado com Poder Sem Limites quando comparado com grandes blockbusters de super heróis.

Por ser filmado em primeira pessoa, um estilo que hoje em dia se tornou batido mas que ainda rende boas idéias, tanto o diretor quanto o roteirista quiseram se aprofundar mais ainda no apelo pessoal e na cumplicidade dos personagens ao desenvolverem a idéia de fazer o espectador acreditar que o filme realmente foi feito por eles. Tanto que assim que o filme começa com a narração de Tuck, é notado que todo o processo de filmagem e edição foi feito por ele. O filme que assistimos, dentro da história, seria o grande material que Tuck acredita que será suficiente para ter sucesso assim que publicá-lo em seu canal no YouTube. Essa metalinguagem oferece um apelo muito mais convincente por ser atual, que muito simpatiza e se assemelha com a realidade de muitos, sejam adolescentes ou não.

Além disso, a relação de amizade exposta pelos personagens e os valores que cada um tem sobre isso são bastante verdadeiros e até emocionantes sem cairem nos exagerados abraços coletivos como é costumeiro nos filmes direcionados a essa faixa etária, há até um momento para uma briga bastante séria entre eles. Aliás, esse é outro ponto interessante:.mesmo um filme infanto-juvenil, em momento algum ele subestima este público, vagando muito bem entre a realidade e a fantasia de maneira bastante óbvia para que fique claro que tudo é uma ficção, mas ao mesmo tempo uma fantástica e empolgante jornada com uma merecida moral final.

Claro que, por ser um filme de baixo orçamento e feito por novatos, são muitos os erros técnicos existentes e por vezes explícitos, mas ironicamente os filmes em primeira pessoa dão liberdade para isso. Nem mesmo o amadorismo dos atores mirins atrapalha, o que na verdade dá até um certo charme porque, apesar de tudo, conseguem convencer que a relação existente entre eles é verdadeira. O diretor e roteirista quiseram chegar tão próximos desta experiência amadora e adolescente para que o filme fosse convicente que eles fizeram questão dos atores serem fundamentais durante o processo de desenvolvimento do filme. Até mesmo o design do alienígena foi feito por um rapaz chamado Ross Tran, um ilustrador que, na época de produção, tinha apenas 19 anos de idade. Dave e Henry tinham em mente a personalidade que o extraterrestre deveria ter. No primeiro esboço feito por Ross, a idéia foi aprovada de imediato, uma experiência que eles consideraram incrível dentro de todo o contexto e da idéia de trabalharem com o amadorismo e com pessoas novas. A ingenuidade da história e dos personagens, principalmente sobre a figura frágil e bastante expressiva do pequeno alienígena que por muitas vezes remete a uma personalidade solitária e incompreendida similar ao de Wall-E, e a abordagem de temas tão simples como amizade, respeito e confiança, faz qualquer defeito ser facilmente ignorado e o filme ser apreciado por qualquer tipo de público: às crianças e adolescentes por se identificarem com os personagens e os anseios da idade, e os mais velhos pela gratificante nostalgia e uma oportunidade de voltarem no tempo.

Pode ser algo simples demais para muitos, mas é difícil não sorrir com ele, ou se emocionar, justamente por ter um apelo intencionalmente honesto de conquistar públicos que estão carentes da despretenção de aventuras inusitadas e ingênuas como acontece nesse filme. E é evidente que a Disney desperdiçou uma grande oportunidade de se beneficiar com um outro personagem tão cativante quanto Wall-E, o que infelizmente faz do filme uma das grandes e mais injustiçadas surpresas do ano. Talvez tenha o reconhecimento merecido em home video. Ainda há tempo.

CONCLUSÃO...
Infelizmente não foi um grande sucesso, mas também não foi um fracasso. Teve um custo de aproximadamente US$15 milhões e arrecadou em torno de US$40 milhões em todo o mundo. Uma quantia razoável que conseguiu pagá-lo, mas o deixou longe do reconhecimento público que, acredito, ele merecia. Cheio de referências aos clássicos infanto-juvenis da década de 80, a produção consegue ser bastante fiel na proposta despretenciosa e fantástica de uma grande aventura inusitada, e até ousada por utilizar as referências que utiliza e mesmo assim conseguir dar uma identidade original a ela.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

NÃO COMO UM TODO...

★★★★★
Título: Mapa Para As Estrelas (Maps To The Stars)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: David Chronemberg
Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Evan Bird, Robert Pattinson
País: Canadá, Estados Unidos, Alemanha, França
Duração: 111 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre indivíduos que buscam a fama, o sucesso e o perdão, ligados um ao outro através dos fantasmas de seus passados.

O QUE TENHO A DIZER...
David Cronemberg não se cansa de realizar filmes confusos e controversos, sempre chegando no limite do bizarro e colocar seus personagens como cobaias de experimentos frente a diferentes níveis de perversão no mais profundo sentido sexual e patológico. E Mapa Para As Estrelas não seria diferente.

É a segunda colaboração do diretor com o ator Robert Pattinson, mas desta vez em um papel bem coadjuvante, para o alívio de muitos. Ao contrário do que ocorreu em Cosmopolis (2012), onde propositalmente ou não Cronemberg abusou da superficialidade, das limitações e da arrogância do ator tal qual o produto Hollywoodiano que ele representa, nesse filme, por incrível que pareça, Pattinson pela primeira vez consegue deixar sua figura de estrela-por-acaso de lado e conseguir atuar sem ser inconveniente. As comedidas vezes em que aparece não são desconfortáveis como foi no filme anterior, e isso já é bastante surpreendente.

Também é a primeira vez que Cronemberg filma nos Estados Unidos, algo que ele nunca havia feito em sua carreira, nem mesmo com Cosmopolis, filme em que a história é ambientada totalmente em Nova York.

Dissecar este filme não é uma tarefa fácil, mas como um todo é uma sátira moderna e dramática sobre o show business e do entretenimento ocidental em sua amplitude.

O filme começa com uma breve apresentação dos personagens e nada muito esclarecido. A impressão que se tem é que será um filme sobre histórias paralelas e as diferentes impressões que cada um deles tem sobre a fama, o sucesso e dinheiro. Mas conforme a relação dramática entre eles aflora - e não demora muito pra isso acontecer - fica cada vez mais claro o lado psicológico mais obscuro que estava escondido em cada um, desde a relação incestuosa de um casal de irmãos até a relação incestuosa entre mãe e filha. E pode se preparar porque o filme todo vai girar em cima disso e sobre a teoria dos filhos perpetuarem os erros e defeitos dos pais como uma herança genética.

Ao contrário de seus filmes anteriores, Cronemberg deixa um pouco a palidez de lado em cenografias ainda geometricamente bem estruturadas, mas agora mais contemporâneas e condizentes com a realidade mostrada, abolindo a figura da tecnologia como uma extensão humana, algo muito presente em seus filmes e parte de seu estilo único. Os atores também deixaram de ser marionetes automáticas do diretor para serem mais humanos. Talvez essa mudança venha a calhar muito bem para amenizar temas tão delicados e perturbadores, deixando o choque mais evidente para momentos específicos e inesperados nos confrontos físicos e psicológicos que gradualmente desenvolve e desconstrói os personagens. Não é sempre que vemos filmes abordarem o incesto na naturalidade que somente Cronemberg seria capaz de fazer, e o roteiro de Bruce Wagner consegue até fazer isso de forma bastante sutil e nada abusiva, diferente do que se espera.

O grande problema do filme é que as histórias particulares são muito mais expressivas do que o filme como uma unidade, e a repetitividade dos problemas abordados acabam enfraquecendo o filme como um todo. O drama da atriz Havana (Julianne Moore) e a tentativa de manter a fama e seu status na indústria cinematográfica por si só já é tão chocante quanto a precoce fama de Benjie (Evan Bird), que com apenas 13 anos já caminha para sua autodestruição. O arco dramático dessas duas histórias já possuiam forças para manter toda a estrutura do filme, mas ao contrário de se fortalecerem na concatenação dos fatos, infelizmente se ofuscam no meio de toda a elucubração do roteirista e da obsessão do diretor em querer aprofundar cada vez mais no bizarro. Isso deixa as tramas paralelas de Agatha (Mia Wasikowska) e do casal Stafford e Christina (John Cusack e Olivia Williams) ficarem um tanto obsoletos, como um drama familiar à parte inserido para dar uma consistência que nunca atinge o ponto que conseguiria sozinho.

As atuações também são os pontos fortes tanto quanto as histórias individuais, e Julianne Moore oferece uma performance muito interessante e diferenciada entre a razão e a insanidade que, ao invés de cair no drama fácil, segue para um humor negro e propositalmente piegas que contextualiza muito bem o tom satírico da fama e do sucesso abordados na trama.

CONCLUSÃO...
Um filme que, como bem dito pelo próprio Cronemberg, é difícil de ser digerido, que é muito mais interessante e melhor compreendido em suas histórias individuais do que como uma unidade. A complexidade e excentricidade características do diretor sempre fazem seus filmes fugirem da compreensão convencional, mas ainda sim não deixa de ser interessante, justamente por ser Chronemberg.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

BRILHANTE COTILLARD...

★★★★★★★★★☆
Título: Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Elenco: Marion Coutillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée, Christelle Cornil
País: Bélgica, França, Itália
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher que, após se recuperar de uma crise nervosa sofrida no trabalho, recebe a notícia de que para continuar empregada ela deverá convencer seus 16 colegas a abrirem mão de um bônus que receberão pelo desempenho alcançado no período em que estava afastada.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme Belga foi dirigido, escrito e produzido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas populares em seu país e presenças constantes em importantes festivais de cinema como o de Cannes, no qual já ganharam duas Palmas de Ouro, um prêmio do Juri Especial e três prêmios do Juri Ecumênico recebidos por diferentes títulos. Eles também foram responsáveis por co-produzir outro grandioso filme também estrelado por Marion Cotillard, o emocionante drama Ferrugem e Osso (De Rouille Et D'os, 2012), mas é a primeira vez que trabalham diretamente com ela, que também é a única artista famosa e não Belga com quem eles já trabalharam, já que sempre optam por artistas locais não famosos mundialmente.

É inegável que a francesa Cotillard deve ser considerada uma das melhores atrizes do cinema mundial da atualidade e também de sua geração. Esqueça do uso que Hollywood faz de sua imagem para engrandecer suas produções, pois é particularmente em filmes pequenos, independentes e locais que ela consegue demonstrar o seu imenso talento por fazer seus personagens crescerem de tal forma que esquecemos do filme para mergulharmos efetivamente no drama humano representado.

Neste filme isso não seria diferente, e assim como em Ferrugem e Osso ou em Piaf (La Môme, 2007) sua técnica novamente sobressalta tanto nos momentos mais sutis como também naqueles em que ela não hesita em se despir e se desconstruir emocionalmente, pedaço a pedaço, aos olhos do espectador. E o melhor de tudo, nunca ofuscando o filme como um todo.

A história é baseada em um fato parecido que os irmãos Dardenne leram a respeito em 2000 de um caso ocorrido na França, e posteriormente a isso descobriram mais três casos similares que ocorreram na Bélgica, Itália e Estados Unidos. Mas como um todo explora situações comuns e sempre atuais que envolvem as diferentes prioridades no cruel sistema convencional de trabalho, colocando os valores morais no patamar mais baixo e menos importante deles. Agregado a isso estão os fatores psicossociais aos quais os personagens se submetem por conta de seus subempregos, como: a desvalorização profissional e pessoal resultante da baixa remuneração e estagnação, a falta de perspectivas pessoais pelo medo do desemprego, e o assédio, que por si só já define o mais alto grau de leviandade do sistema.

A personagem de Cotillard passa por todas essas dificuldades e cada um dos seus 16 colegas representam uma qualidade ou um defeito resultante dessa relação trabalhista sub-humana construída pelo próprio sistema em que todos estão dispostos.

O filme já começa com o coice que Sandra (Marion Coutillard) leva com a notícia de que a maioria de seus colegas de trabalho votaram por receber um bonus de mil euros em troca de sua demissão, já que seus superiores justificaram que alguém deveria ser demitido para que as horas extras trabalhadas por cada um deles possam ser pagas por conta de dificuldades financeiras que a empresa passa, quando na verdade isso foi apenas uma mentira para demitirem sem justa causa uma colaboradora pouco produtiva e que se tornou um peso morto por ter sido afastada por problemas de saúde relacionados ao próprio trabalho.

Não é esclarecido se seu problema de saúde é resultante da pressão produtiva, se ela já sofria algum tipo de abuso moral ou se ela já era emocionalmente instável, mas devido ao descaso da maioria pela sua situação, incluindo de uma colega muito próxima, toda a situação assediosa se esclarece em definitivo durante o duro processo que ela terá de passar para convencê-los a mudarem suas opiniões em uma nova votação concedida pelo chefe da empresa.

Independente das razões prévias que culminaram a toda essa situação degradante, o fato é que nada justifica as atitudes cruéis e covardes em que é submetida.

O assédio ocorre tanto verticalmente, por conta da situação ameaçadora em que seus superiores colocam ela e os demais, como também horizontalmente, quando seus próprios colegas optam por negligenciá-la na ilusão de serem beneficiados com isso.

Durante sua penosa peregrinação ela consegue despertar o arrependimento e a solidariedade de alguns e até mesmo a mudança de comportamento de outros, além de agora poder distinguir quais as pessoas em quem ela poderá confiar daquelas que um dia acreditou poder confiar. Por conta disso os diferentes interesses entram em choque, gerando uma desconfortável situação entre todos. Conforme o medo gera dúvidas futuras e alguns receios sejam inevitáveis, a personagem adentra em todas as fases que classicamente caracterizam o assédio moral propriamente dito, que são: a desmoralização pessoal, a incompreensão do estado/situação e o sentimento de impotência que culmina na total desvalorização da vida. Há ainda um momento em uma das cenas finais onde o principal assediador tenta convencê-la de que ela foi a causa de todo o caos, pois a vitória do assediador é convencer a vítima da culpa.

Portanto, mesmo sendo um drama bruto, em nenhum momento ele é explícito nessas abordagens. Os irmão Dardenne são tão sutis na condução desses temas e o roteiro é tão contundente e verossímel que é impossível não se sentir convencido de que isso é um exemplo de uma realidade que ignoramos. A filmagem com câmera a todo tempo em mãos, como um estilo documentado (mas sem aquela sensação nauseante), é bastante intimista, e junto com os planos sequencia (cenas sem cortes), que chegam a durar até impressionantes 7 minutos, conseguem aproximar muito mais o espectador aos ápices da acentuada curva dramática. Portanto, a progressão destrutiva e os constrangimentos sofridos pela personagem chegam a ser estarrecedoras.

É difícil abordar esses temas sem cair no cliché como acontece, por exemplo, em Terra Fria (North Country, 2005) título que me veio a memória agora por também tratar do trabalho exploratório e do assédio (moral e sexual) sofrido pela personagem central, mas que cai em um melodrama típico para induzir o espectador à comoção fácil muito mais do que pela condução elaborada das situações, como acontece brilhantemente aqui.

A perfeição de Cotillard é impressionante desde pequenos momentos que apenas o seu olhar expõe a felicidade das poucas vitórias que ela amargamente conquista, até naqueles em que sua postura desvanecida e cansada refletem a decepção da negação e da total descrença humana. A atriz chegou a fazer algumas cenas mais de 50 vezes, sendo 82 vezes o recorde em uma delas, nesse caso não significa incompetência, mas a busca dessa perfeição que vemos.

Por determinados pontos o tema abordado indiretamente se refere ao mesmo do longa O Reencontro (Återträffen), da artista sueca Anna Odell, que por coincidência falei a respeito em alguns posts atrás. Compreendendo-se que os dois filmes são ambientados em diferentes situações e pontos de vista, eles se complementam por mostrar a perversidade injustificável de um grupo sobre uma minoria que, além de não conseguirem se defender, passam a acreditar que são incapazes de fazê-lo. Felizmente ambos mostram que existem alternativas para a superação dessas dificuldades, e que ninguém é obrigado a guerrilhar contra elas, basta fazer novas escolhas.

Dois Dias, Uma Noite tem sido ovacionado pela crítica por onde passa, especialmente à interpretação de Marion. O filme foi a escolha oficial da Bélgica para a seleção de finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por já ter sido lançado em território norteamericano e ser presença de festivais importantes como os de Telluride, Nova York, Chicago, dentre outros, haverá grandes possibilidades de também figurar nas demais principais categorias da temporada de premiações. É esperar para ver.

CONCLUSÃO...
Um dos melhores filmes do ano tanto pela brilhante perfomance de Marion Coutillard quanto pela abordagem de temas complexos serem desenvolvidos de maneira tão sutil que emocionam pela elaborada condução das situações ao mesmo tempo que criticam os sistemas de trabalho e fatores psicossociais agregados a eles.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O MUNDO NÃO ACABA, MAS FELIZMENTE O FILME SIM...

★★
Título: Lucy
Ano: 2014
Gênero: Ação, Ficção, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: Luc Besson
Elenco: Scarlett Johanson, Morgan Freeman
País: França
Duração: 89min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma norteamericana que transportava em seu abdomem 1kg de uma droga sintética que aumenta as capacidades cerebrais do ser humano sofre uma overdose quando a bolsa se rompe e mais da metade da droga é absorvida pelo seu organismo, dando a ela 100% da capacidade cerebral e poderes para controlar o espaço, tempo e matéria.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido, escrito, produzido e editado por Luc Besson, diretor responsável por criar o exemplo máximo da femme fatale em Nikita (1990). Depois foi o responsável por dar o primeiro papel a Natalie Portman em O Profissional (Léon, 1994), conseguiu também transformar a modelo Milla Jovovich naquilo chamado de "atriz" no que também virou uma referência da ficça-ação científica em O Quinto Elemento (The 5th Element, 1997), e repaginou a carreira de Liam Neeson como um senhor de ação em Busca Implacável (Taken, 2008/2012), franquia que terá sua terceira parte em 2015 (embora Besson não tenha dirigido nenhum deles, apenas criou os personagens e escreveu o roteiro).

O seu sucesso como diretor o transformou mais em um grande produtor do que um grande cineasta (são 16 longas como diretor, contra mais de 100 como produtor). A fama não faz tanto jus ao talento. A maior força de Besson sempre esteve nos poucos e memoráveis personagens que ele criou, mais do que na sua capacidade como diretor ou roteirista. Isso fez dele um importante nome no cinema comercial francês e até reconhecido no mundo, mas depois de O Quinto Elemento não houve nada mais relevante ou digno de nota em sua carreira, e Lucy é a mais nova prova disso.

Colocando Scarlett Johanson de lado, pois nem sua tentativa em levar o filme a sério eleva essa ficção científica absurda, sem sentido, boba e muitas vezes pastelona, Besson nem sequer evita referências a filmes como The Matrix (1999), Sem Limite (Limitless, 2011) e 2001 (1968). Além de serem óbvias, as referências são feitas de maneira tão inferior que chega a ser ultrajante.

O diretor afirmou que o filme demorou 10 anos para ser produzido e que a idéia surgiu quando ele ficou intrigado com os 400g do cérebro da ancestral australopiteca Lucy em comparação com os 1.5kg do cérebro humano. A partir daí ele se engajou a estudar as capacidades celulares e a evolução humana e ao invés de fazer um documentário ele resolveu utilizar todo esse conhecimento para algo que ele classifica como "um filme de ação com propósito". Sabendo disso e comparando com o resultado final, não dá pra deixar o espanto de lado e acreditar que o que Besson fez é o mesmo que uma criança faz quando tenta justificar na base da fantasia algo que ela desconhece completamente, ou seja... inventa! O problema é que ele brincou com isso por 10 anos e nunca maturou a idéia.

Nada contra a fantasia e muito menos contra a ficção científica, mas Besson novamente desperdiça um material que não é de todo ruim, só que se perde por falta de um conceito mais claro e plausível como foi em Sem Limite, filme que também questionou a capacidade cerebral humana e a possibilidade de aumentá-la dentro de uma abordagem similar a de Besson, mas muito mais aceitável, e nem por isso deixou de ser uma ficção com ação e fantasia.

Para aqueles que acham que confusão é explicação, ou que a falta de explicação também já seja uma explicação, o filme tem material de sobra pra qualquer tipo de masturbação mental para perguntas com respostas sem sentido, muito diferente do que aconteceu com Matrix, em que toda a fantasia desenvolvida dá margens para perguntas lógicas que levam a algum lugar, independente de serem verdade ou não, mas coerentes. Não há nem sequer cenas de ação interessantes além de uma gangue em tiroteio, e Lucy só não para as balas no ar porque senão a cópia seria bem descarada, muito embora a impressão que temos é que isso vai acontecer a qualquer momento. O que na verdade acontece é que o próprio roteiro anula a história de construir alguma cena que valha a pena já que a personagem principal tem tanto poder, mas tanto poder que a presença de coadjuvantes é desnecessária, tanto que um deles até diz isso em um momento. Se ela quiser desintegrar o universo e criá-lo novamente ela consegue. É literalmente deus no céu e Lucy na Terra, só que ao invés de recriar o mundo em 7 minutos, ela resolve atirar pra todo lado numa violência armada tão desnecessária quanto em A Origem (Inception, 2010), aparecer em toda tela de LCD possível, salvar o mundo do mal, contribuir para a ciência (o que lhe renderia um Nobel) e transformar o mundo em um tablet gigante. E o melhor de tudo: fazer esse monte de coisa sem causar um suspiro de espanto em Morgan Freeman. Sem falar do final que é simplesmente tão ridículo quanto aquele pendrive cuspido (para não dizer outra coisa).

Arrecadou mais de US$400 milhões no mundo e isso com certeza se deve ao marketing que o vendeu como um monstruoso filme de ação, que poderia até ter todas as qualidades negativas que já tem, mas ao menos o espectador sairia feliz do cinema com cenas de tirar o fôlego. O que, claro, não acontece. A crítica em geral o favoreceu dizendo que o filme funciona graças ao talento de Besson em lidar com tanta bobagem. Eu não consigo visualizar tanta bobagem reunida como algo bom e muito menos considerar esse feito um talento. Mas concordo que é algo em que ele é bastante especialista.

CONCLUSÃO...
Acreditar que Lucy é um filme que poderá genuinamente inspirar a pensar profundamente sobre a evolução, a natureza humana e a vida é concordar que, segundo o filme, realmente mais de 90% do cérebro é inútil.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DESPERDÍCIO DE TALENTO...

★★★
Título: The Calling
Ano: 2014
Gênero: Suspense, Drama, Policial, Crime
Classificação: 14 anos
Direção: Jason Stone
Elenco: Susan Sarandon, Ellen Burstyn, Gil Bellows, Topher Grace, Christopher Heyerdahl, Donald Sutherland
País: Estados Unidos
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma detetive de uma pequena cidade de Ontario, no Canadá, se vê envolvida em uma série de assassinatos cometidos com base em uma oração católica perdida a séculos baseada na ressurreição.

O QUE TENHO A DIZER...
É a estréia do produtor Jason Stone na direção e também estréia do roteirista Scott Abramovitch no cinema, e é baseado no livro homônimo de Inger Ash Wolfe, que na verdade é o pseudônimo do escritor Michael Redhill. É o primeiro de três livros de uma série de suspense policial que o escritor publicou sob este nome, todos envolvendo a detetive Hazel Micallef como personagem principal. O quarto livro está programado para ser lançado em 2015.

A produção pequena e a história que envolve um serial killer não chega lá a ser algo muito interessante além de  bastante batida no cinema. Obviamente o grande elenco chama a atenção com Susan Sarandon no papel principal novamente fazendo uma detetive, novamente fazendo uma alcólatra, novamente fazendo uma viciada em analgésicos e que novamente tem um passado com uma dolorosa perda. quatro tipos muito recorrentes em sua carreira só pra citar apenas algumas das características de uma personagem que, na verdade, não tem nada de diferente de nenhuma que ela já interpretou no passado. Claro que ela sempre faz tudo muito bem, mas aquela sensação de talento desperdiçado realmente é inevitável. Chega a dar até pena. Ellen Burstyn faz o papel de sua mãe, uma juíza aposentada e que é de pouco para nada relevante em toda história além de jantar sozinha, dormir no sofá e criar um conflito dramático desnecessário e pouco esclarecido com a personagem de Susan.

O filme é bastante fraco até mesmo no suspense, e nem é por falta de talento do elenco ou da direção, mas porque a história realmente é muito rala, nem mesmo um roteiro com maior intensidade conseguiria melhorar o resultado desse thriller policial que, além de tudo, insiste em misturar os crimes com misticismo, religião e crenças, beirando a idiotice clichê. Uma bobagem que poderia até ter impressionado uma meia dúzia lá na década de 90, mas hoje em dia não serve nem pra filme de televisão.

CONCLUSÃO...
Infelizmente não há o que dizer. Tudo é muito fraco, previsível e decepcionante. Um total desperdício de talento dos atores, e do tempo e da paciência do espectador. Esquecível, e vai passar batido no cinema. Com certeza no Brasil sairá diretamente para home video, se sair.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

BRILHANTE CONCEITO...

★★★★★★★★★☆
Título: O Reencontro (Återträffen)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Anna Odell
Elenco: Anna Odelle, Rikard Svensson
País: Suécia
Duração: 88 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
No reencontro do grupo escolar 20 anos após de formados, Anna não foi convidada. Ela faz um filme simulando o que poderia ter acontecido caso tivesse ido, e qual teria sido as reações de seus ex-colegas ao discursar sobre as impressões que tinha sobre aquela época e convida todos, individualmente, para assistirem.

O QUE TENHO A DIZER...
O Reencontro é a estréia da controversa artista sueca Anna Odell como diretora, roteirista e atriz. Artista que incialmente chamou a atenção em 2009 quando um dos seis vídeos do ousado projeto Mulher Desconhecida 2009-349701 se tornou uma grande polêmica no seu país depois que fingiu ser uma psicótica que tenta cometer suicídio na ponte Lijeholmsbron, em Estocolmo. Ela foi interceptada e internada na ala psiquiátrica, mas no dia seguinte revelou que era saudável e que tudo foi parte de uma encenação de um projeto artístico. O trabalho foi um importante material para Anna analisar o comportamento das diversas estruturas de poder na saúde, da visão e das pessoas frente os mentalmente perturbados, além do papel de vítima impingido ao doente e o papel da imprensa, já que ela foi acusada de ter resistido violentamente à prisão e agredido membros do corpo de saúde, o que posteriormente foi provado ter sido especulação midiática. Isso não impediu que, mesmo assim, Anna fosse condenada a pagar 50 dias de multa por falsidade comportamental e atentado à ordem.

A biografia da artista mostra uma infância não muito fácil de assédio moral e físico em uma época em que o termo bullying não era moda. Hoje, adulta e com todos os traumas já superados, utiliza essa bagagem como conceito artístico de observação do comportamento e relações. Portanto, a idéia original de seu novo projeto surgiu quando ela teve conhecimento de que haveria um reencontro de 20 anos do seu grupo escolar. Ela intencionava levar um discurso pronto para realizar durante o encontro e falar sobre o tratamento diferenciado e abusivo que sofreu de todos eles por 9 anos e registrar as reações comportamentais de seus ex-colegas após serem confrontados com este passado. Porém, alguns dias depois recebeu uma notícia de uma amiga informando que a reunião já havia acontecido, que todos haviam sido convidados, menos ela.

A princípio ela ficou chateada por seus planos não terem dado certo para aquela situação específica, mas foi então que resolveu iniciar um processo de seleção de atores para filmar uma simulação deste jantar vislumbrando o que poderia ter acontecido caso tivesse sido convidada e discursado como pretendia. O discurso utilizado na simulação é, segundo ela, o mesmo que ela teria usado na realidade, e o roteiro, bem como o comportamento de cada ator em cena, foi desenvolvido durante o processo de filmagem em conjunto com cada um deles. Segundo Anna, os atores relataram suas próprias experiências na época de colégio e muitos deles se enquadravam perfeitamente em algum patamar da hierarquia comportamental existente nesses grupos. A partir dessas experiências particulares e a visão que a artista criou sobre como deveria ser o comportamento de cada um deles enquanto adolescentes, os personagens foram criados.

Depois de especificado os atores e seus respectivos personagens, o arco dramático da narrativa foi desenvolvido e os ensaios começaram. Ao contrário do que comumente é feito, nenhum ensaio foi baseado nas cenas da simulação do reencontro porque a artista não queria que os atores se estabelecessem em uma zona de conforto. Então eles se reuniam, conversavam, se relacionavam e criaram vínculos dentro dos personagens para que a sensação de interação e amizade entre eles fosse o mais legítimo possível. Por ser também a diretora do filme, ela achou importante distanciá-los dessa imagem dominadora que ela pudesse passar, logo, nesses encontros, todos foram orientados a tratá-la com diferença e inferioridade, para que pudesse ser estabelecido o domínio que eles deveriam ter sobre Anna Odell enquanto atriz e personagem, o que ela faz muito bem em sua estréia, diga-se de passagem. Este excelente trabalho preparatório sem dúvida resultou em um nível de "genuinidade" evidente e o curso dramático se torna muito mais intenso e chocante por isso e também pelo alto nível do elenco.

Esta primeira parte do filme que segue na simulação deste reencontro, impressiona por erguer grandes questões sobre o assédio e também sobre a hierarquização que se estabelece nos grupos envolvidos, bem como na falta de atenção, despreparo e muitas vezes cumplicidade de terceiros sobre a opressão e discriminação daqueles que não se enquadram em um padrão pré-determinado e aleatório. A maneira inconveniente que a artista escolhe para confrontar tudo isso neste material fictício a coloca em constantes situações autodestrutivas, desconfortáveis e constrangedoras que em um primeiro momento sensibiliza o espectador, mas quando ela insiste no ataque e causa a revolta dos demais, ela deixa de ser uma vítima para se tornar a causadora de suas próprias consequências. Isso inverte a situação e, sem perceber, o espectador também se volta contra ela e se sente em uma posição assediadora tanto quanto os outros. Quando o espectador percebe isso (se percebe), ele se constrange por compactuar com essa covarde brutalidade. É aí que o grau de gravidade e da falta de indulgência se escancara aos olhos, ficando nítido que, embora hoje já adultos, as atitudes ofensivas incoerentes, infantis e gratuitas ainda permanecem as mesmas quando não há consciência dos atos.

A segunda parte do filme é quando Anna se mostra como mulher e artista segura, já reconhecida pelos seus trabalhos anteriores e, como diz um de seus colegas, ela agora está acima desta hierarquia, e mesmo que alguns deles não percebam isso, quem está na posição de dominação agora é ela. Ela entra em contato individualmente com cada um de seus ex-colegas propondo um encontro para a exibição da simulação do reencontro, que ela apresenta apenas como sendo "um filme sobre a época de colégio". Odell afirmou em uma entrevista que muitas vezes não teve sucesso no contato com seus ex-colegas. Muitos apresentavam interesse, mas nunca retornavam as ligações ou não atendiam os contatos seguintes. Outros simplesmente negaram ou inventavam demais desculpas como indisponibilidade, viagens ou até mesmo que iam mudar de cidade. A artista insistiu com todos até as últimas consequências, ou até ter a inevitável negação verbal, já que esta já era uma resposta e condizia com o objetivo do trabalho. Com aqueles que ela conseguiu se encontrar, o vídeo foi apresentado. As reações, comentários e opiniões de cada um foram registradas por ela. Por não ter interesse em expor as pessoas, já que este nunca foi seu foco e muito menos objetivo, o que vemos na segunda parte do filme é uma reencenação de atores sobre o que realmente ocorreu em alguns dos encontros, mas curiosamente os atores da segunda parte são diferentes daqueles que os representaram na simulação justamente para deixar mais clara a metalinguagem utilizada.

É interessante observar como a maioria daqueles que foram abordados pela artista não se lembram de detalhes tanto quanto ela, ou não tinham sequer consciência da posição hierárquica que eles naturalmente estavam posicionados, o que é assustador, pois demonstra que eram comportamentos corriqueiros, irrelevantes e automáticos. Ao mesmo tempo, muitos dos mesmos tentavam convencê-la de que ela estava enganada e que tudo nada mais era do que uma impressão distorcida dela sobre as coisas, o que evidentemente não era, pois o assediador só é vitorioso quando consegue convencer o assediado de que ele quem está errado.

A psicologia historicamente compreende a maldade inerente na fase infantil por falta da consciência do certo e errado, e que, conforme o amadurecimento e aprendizagem frente a educação e limites, essas diferenças de comportamento tendem a diminuir caso não haja a negligência dos adultos educadores envolvidos nessa criação e formação, como pais e professores, por exemplo. Outros filmes que tratam sobre assédios morais nesta fase já retrataram com bastante riqueza as consequências psicológicas dos indivíduos que sofreram esses abusos e o filme de Anna Odell firma mais uma vez como esses processos são comuns e as sensações de impotência são universais.

Até o momento o filme ganhou diversos prêmios como o Festival Europeu de Bruxelas, Festival Internacional de Dublin, Festival de Estocolmo e Festival de Veneza. Há grandes possibilidades do filme ainda concorrer a outros prêmios na temporada 2014/2015 de premiações, já que ele ainda não teve lançamento nas américas.

CONCLUSÃO...
O filme como um todo merece ser visto não apenas pela metalinguagem desenvolvida com extrema cautela e coesão dentro das diferente formas narrativas que a artista utiliza como também por mostrar através das reencenações as diferentes impressões que cada um de seus ex-colegas tinham sobre a época, além do total desconhecimento de atitudes tão perversas.

sábado, 20 de setembro de 2014

FILME... SERÁ?!

★★★★★★
Título: Garota Exemplar (Gone Girl)
Ano de publicação: 2012
Gênero: Suspense, Policial, Drama
Classificação: 14 anos
Páginas: 426

SOBRE O QUE É O LIVRO?
Nick e Amy é um casal de escritores tentando superar as dificuldades depois de uma dura fase desastrosa na qual ambos perderam o emprego por conta da recessão e se sentiram obrigados a mudar de um grande apartamento em Nova York para a cidade natal no interior de Missouri, em um bairro de mansões abandonadas que sofreram com a crise imobiliária e agora são alugadas pelo governo a preços muito inferiores. Nick abre um bar, que também é administrado por sua irmã gêmea, Margot. Eles já estão acostumados com a rotina do dia a dia de casados, mas a readaptação na pequena cidade é difícil, principalmente para Amy, que adorava sua vida em Nova York. Para Nick, tudo é indiferente, inclusive nos esforços de Amy na sua constante tentativa de reerguer a relação. No dia do 5º aniversário de casamento, Amy desaparece deixando várias pistas, mas nenhuma que leve diretamente a ela. Ao mesmo tempo que a polícia investiga os fatos, a mídia cria um grande espetáculo em cima do desaparecimento, e tudo passa a indicar que Nick não é tão inocente quanto parece.

O QUE TENHO A DIZER...
Hoje resolvi fazer algo diferente e falar sobre o livro de Gillian Flynn, publicado originalmente em 2012 e que em apenas três semanas entrou para a lista de best sellers. Vendeu mais de 3 milhões de cópias pelo mundo, é considerado um fenômeno e elogiado pela crítica. Não é ainda muito conhecido no Brasil, mas a tendência é que isso mude nos próximos meses porque, claro, ele ganhará uma adaptação cinematográfica. A adaptação do diretor David Fincher terá estréia dia 26 de Setembro nos Estados Unidos e no dia 02 de Outubro no Brasil. O filme marca também a estréia da própria autora como roteirista.

Os motivos que me levam a escrever sobre ele é justamente por isso, e me antecipei na leitura para me preparar e verificar se Fincher novamente fará um trabalho tão horroroso e desnecessário quanto foi a adaptação norteamericana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011).

À primeira vista o tema não é tão complexo assim, e nem parece ser o livro. A narrativa em primeira pessoa a princípio apenas reafirma ser o estilo mais apreciado entre os best sellers populares nos Estados Unidos, mas não me pergunte por quê. Se não for bem cuidada, esse tipo de narrativa tende a cair em uma simplicidade desastrosa caso a descrição subjetiva seja pobre e limitada apenas em ações mal detalhadas como é, por exemplo, com a série juvenil Jogos Vorazes de Suzanne Collins. Felizmente não é o que acontece, e a autora não apenas utiliza este tipo de narrativa com muita densidade como também o divide em dois pontos de vista. O primeiro é o de Nick, que descreve a história a partir do dia do desaparecimento de sua mulher, enquanto o segundo ponto de vista lemos trechos do diário de Amy até o dia anterior de seu desaparecimento. Óbvio que os sete anos de anotações do diário são resumidos, e o enfoque acaba indo para os últimos dias que antecedem o acontecimento.

Gillian consegue a difícil arte de dar riqueza descritiva mesmo em primeira pessoa, além de prender a atenção do leitor quando a narrativa de um personagem é interrompinda em um momento crucial para dar continuidade a narrativa do outro, igualmente interrompida em um momento crucial antes. E dessa forma as duas narrativas se intercalam em pontuais interrupções que agem efetivamente como término de capítulos, dando uma boa sensação folhetinesca dentro de uma estrutura policial clássica de entreter o leitor e apreendê-lo para conclusões dramáticas. Portanto, não é uma novidade, mas a forma como ela desenvolve os dois pontos de vista e a atmosfera misteriosa criada por conta da estrutura paralela que se intercala é feita de maneira bastante inteligente.

A linguagem é igualmente rica e moderna, explícita, sem muitos floreios ou demasiada informalidade, e por conta do personagem principal ter sido jornalista de uma revista de cultura pop (a própria autora também foi), há muitas citações espalhadas no livro, tanto sobre música, quanto cinema, oferecendo uma experiência mais interativa caso o leitor esteja perto de um computador e vá atrás dessas referências assim que elas surgirem, algo bastante agradável e imersivo. Por muito momentos o livro embarca em um estilo sombrio, e mesmo o personagem principal sendo um cara sem graça e apático, a ironia da autora transforma sua constante autodepreciação em um humor bem único de grande auxílio na fluidez da leitura.

Mas é quando o livro atinge o seu meio, um meio quase exato tanto quanto no número de páginas, que o leitor se deparará com uma mudança muito repentina e brusca na história. Eu mesmo reli a primeira frase dessa segunda parte duas vezes para ter certeza de que aquilo estava certo ou se era erro da tradução. Chacolhei a cabeça, cocei o olho pra me certificar de que não estava com sono ou vista embassada e até soltei um "ahn?!" de quem não entendeu muito bem a idéia. Foi algo inesperado porque até este ponto o leitor está tão imerso nas tramas e pensando em tantas possibilidades que definitivamente ele é surpreendido. Mas a surpresa só não foi tão agradável porque ao mesmo tempo uma sensação tola de ter sido gratuitamente enganado por 200 páginas toma conta. A partir daí entramos para uma segunda parte que foge da imprecisão de antes e tenta esclarecer melhor todos os fatos. Confesso que a segunda parte infelizmente se torna previsível, e conforme o número de páginas está prestes a acabar o leitor fica se perguntando onde é que o fim vai caber em tão pouco espaço. E então ele aparece tão repentinamente que decepciona.

É difícil não ser claro nos pontos negativos sem revelar partes muito importantes da trama, por isso ele vai ser aquele tipo de livro que intrigará na primeira parte, segregará seu público na segunda parte, mas todos lerão até o fim por pura curiosidade. As reviravoltas são tão mirabolantes e surreais que, mesmo dentro da ficção, há um ponto em que fica muito, mas muito difícil aceitar, e todas as justificativas mais parecem improvisos da autora para dar logo um fim a tudo do que uma atitude realmente inteligente e pensada para os personagens, sejam eles principais, coadjuvantes, ou aqueles introduzidos na história como grandes peças chaves, mas que se tornam inúteis ou descartados para a conclusão da trama, como Bill Dune, Andie ou Tanner Bolt, este último sem qualquer relevância em toda a trama, entrando e saindo sem muitos propósitos. Ou seja, há excesso dos chamados red herrings, termo utilizado para as pistas falsas utilizadas para enganar ou desviar a atenção do leitor (ou espectador) sem motivos claros e que, vale dizer, geralmente não são muito bem vistos por conta da proeminência vazia e que empobrece a obra, seja literária ou cinematográfica.

Mas pensando por outro lado, é como se toda a psicotico-fantasia absurda inventada pela autora também pudesse significar os pensamentos e as idéias mais cabulosas que surgem em períodos de crise insustentável nas relações longas e estáveis junto com as infames competições de ego, os conflitos entre dominação e submissão, e recorrência de situações deterioriantes por conta de conveniências sociais. Tudo isso é abordado com bastante frequência na conflituosa, esquisita e doentia relação dos personagens.

Gillian também se utiliza de outros elementos sociais para incrementar todas as atmosferas hostis. Na primeira parte temos as citações dos períodos de recessão e crise imobiliária norteamericana como um dos grandes agravantes para a decadência da relação do casal, e na segunda parte temos a intensiva manipulação da mídia e sua violenta e poderosa influencia social no direcionamento de decisões.

Mesmo com uma grande reviravolta que a princípio surpreende, mas se desenvolve de maneira muito absurda e decepciona na sua conclusão, há grandes méritos que não devem ser ignorados que, de qualquer forma, fazem do livro um excelente entretenimento e uma literatura popular muito mais interessante e relevante do que os 50 Tons de Cinza por aí, até porque a narrativa de Gillian possui um ponto de vista feminino muito mais prepotente e digno de nota.

CONCLUSÃO...
Todas as reviravoltas e os arsenais misterioso e duvidosos utilizados, em sua mais pura essência, nada mais são do que uma tática comumente usada no cinema de ludibriar o espectador e que a autora soube muito bem utilizar no gênero literário para fazer o mesmo com os leitores. Toda a bagagem cinematográfica adquirida por Gillian Flynn enquanto jornalista pop foi muito bem aproveitada em palavras e composições bastante visuais em sua narrativa em uma obra que, por conta desses aspectos, poderá ser melhor aproveitada no cinema e com um final que não seja tão decepcionante, já que a autora terá oportunidade de melhorá-lo, pois ela também é a roteirista da adaptação e já foi informado que o final do filme será diferente para atrair a atenção dos que já leram e não tirar o interesse daqueles que ainda não conhecem o livro. Basta saber agora se Fincher aprendeu com a decepção de sua adaptação anterior.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

REBU MERECIDO...

★★★★★★★★
Título: O Rebu
Ano: 2014
Gênero: Suspense, Drama, Policial
Classificação: 14 anos
Direção: José Luiz Villamarim
Elenco: Patricia Pillar, Cassia Kis Magro, Tony Ramos, Marcos Palmeira, Dira Paes, José de Abreu,  Lima, Vera Holtz, Camila Morgado, Jesuíta Barbosa
País: Brasil
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É A TELENOVELA?
Um crime ocorreu na mansão carioca de Angela Mahler, o corpo bóia na piscina enquanto uma festa para a alta sociedade acontece. Os motivos para a vítima morrer são muitos, e muitas também são as razões que cada um da festa tinha para poder matá-lo.

O QUE TENHO A DIZER...
O Rebu foi uma readaptação de George Moura e Sérgio Goldenberg da novela original de Bráulio Pedroso, originalmente transmitida pela Rede Globo entre 1974 e 1975. A dupla de autores tem se destacado na teledramaturgia brasileira por adaptar histórias de diferentes fontes e desenvolver tramas policiais com suspense, intrigas e elementos dramáticos dentro de uma sofisticação narrativa que até então parecia algo muito distante para a televisão brasileira, como foi o caso das minisséries O Canto da Sereia (2013), adaptação do livro homônimo de Nelson Motta, e de Amores Roubados (2014), livremente adaptado de um folhetim de sucesso de Carneiro Vilela publicado em um jornal recifense entre os anos de 1909 e 1912. Por isso, não é à toa que O Rebu é a terceira colaboração consecutiva dos autores em menos de dois anos para a emissora.

A novela original foi um grande sucesso na época e a 20ª a ser exibida na faixa das 22h/23h, horário reservado para produções mais ousadas e polêmicas, proposta supostamente retomada pela Globo em 2011 com o remake de O Astro (2011). A produção causou uma revolução na televisão brasileira ao ir completamente contra a maré narrativa tradicional por situar sua trama em apenas 24 horas. O grande desafio na época foi manter a atenção do público por 112 capítulos dentro de um espaço temporal tão limitado, que entre tropeços e erros gravíssimos de continuidade conseguiu sobreviver no meio da audiência já entediada. Algo parecido já havia sido feito antes, como no filme Festim Diabólico (Rope, 1948), de Hitchcock, sobre um assassinato cometido durante um jantar e que também se passa em um período de 24 horas, mas fazer algo equivalente em um folhetim fez da versão original ser considerada um clássico da televisão brasileira, mas seu formato ousado e inovador na época nunca mais foi repetido em nenhuma produção nacional posterior.

Como excessão da trama principal, os próprios autores não a consideram um remake, já que todo o desenvolvimento, os personagens e as subtramas são diferentes, atualizados para os dias atuais em enxugados 36 capítulos. As subtramas e os acontecimentos da festa são mostrados em flashbacks, mas em nenhum momento definidos detalhadamente.

É considerada uma telenovela por manter a forte linguagem do formato com a incessante recapitulação de fatos junto com a constante nominação dos personagens durante diálogos ou acontecimentos para a todo momento situar a audiência flutuante dentro da história, mas ao mesmo tempo é uma evolução, ou aquilo que deveria ser o futuro das telenovelas. Isso se deve pelo roteiro enxuto proporcionado pelo menor número de capítulos, a alta qualidade da produção e valores cinematográficos agregados a ela, um feito raro e que definitivamente se absteve de fórmulas baratas comumente usadas nas produções da emissora, o que tirou muito do ranso de material reciclado e filmado em escala industrial para consumo em massa, como acontece com regularidade nas demais apresentadas entre as 19 e 22h (salvo raras excessões, como a última e belíssima Meu Pedacinho de Chão ou Cordel Encantado, apenas para citar).

As qualidades excedem o esmero do design de produção que se atentou a mínimos detalhes; da cenografia deslumbrante da locação argentina reestilizada para simular uma mansão carioca; ou da trilha sonora que presenteou a audiência com diversas pérolas nacionais e internacionais de Caetano, Gal, Nação Zumbi, Nina Simone, New Order, Amy Winehouse e até Bjork, uma variedade já vista nas duas parcerias anteriores dos autores. Ainda sobre a trilha sonora, vale destacar a trilha original composta por Felipe Alexandre, Eduardo Queiroz e Guilherme Rios, muito bem inspirada pela trilha original de Requiem Para Um Sonho (Requiem For A Dream, 2000), de Clint Mansel. Uma pena que essa trilha sonora original não seja encontrada além do tema de abertura, pois as demais inserções utilizadas mantiveram uma melancolia e precisão fundamentais para diversas sequências dramáticas.

Tudo vai muito mais além nos quesitos técnicos quando observados com atenção mais detalhada. O diretor José Luiz Villamarim, que também dirigiu as outras adaptações da dupla, mantém aqui o estilo que o tem destacado dos demais no cenário televisivo, novamente optando por algo mais fluido e aberto como também repete algumas outras tentativas que tiveram sucesso no passado.

Os enquadramentos mais amplos deram mais liberdade cênica aos atores que crescem em seus personagens por mérito e não por conta de truques de câmera ou edição. E claro que, dentro disso, não há como deixar de comentar sobre os planos sequência (ou contínuos), longas tomadas que seguem o eixo de ação dos personagens sem cortes. A técnica já foi utilizada anteriormente de maneira sutil em Amores Roubados, mas agora ele realmente explora o estilo com mais afinco e valor para a história. Esse artifício cinematográfico usado com gratificante excesso no formato folhetinesco é o que expôs a essência e o cuidado de toda a produção, já que cenas assim são consideradas como um "balé" por conta de sua natureza complexa que demanda ensaios e precisão. A sincronia perfeita entre a câmera, os personagens, coadjuvantes, figurantes e cenografia é obrigatória e o resultado disso são dezenas de situações sem cortes, com duração de 2 minutos para mais, espalhados nos capítulos. Não há como negar a importância que essa técnica teve para a densidade narrativa, de substancial impacto durante o confronto entre os personagens com diálogos contínuos e verossímeis, sem o cansativo ping pong habitual entre duas câmeras que claramente indicam a completa ausência de ensaio e domínio de cena, típica linguagem didática visual das novelas industriais. E ao invés de termos uma cena de ação e reação editadas e atores presos apenas nas expressões faciais por conta do limitado enquadramento superior, vemos mais que isso, vemos os personagens realmente ganharem vida com os atores usando todo o corpo como um objeto de linguagem numa fluidez quase teatral. Assim tivemos grandes e memoráveis cenas de Cássia Kis, ou da formal rivalidade contida pela conveniência, desempenhadas com atenção ao mínimo erguer de sobrancelhas de Patricia Pillar e Tony Ramos. Foi um prazer aos olhos e às sensações, inesquecível para quem aguardava há tanto tempo algo tão sofisticado em uma emissora aberta nacional.

O elenco grandioso e eclético formado excepcionalmente pela nata subaproveitada da emissora também mostra que não há idade para atores terem excelentes papéis e que telenovelas podem chegar a um patamar de qualidade que não subestime sua audiência. O que falta mesmo são grandes autores e textos mais nobres. E que texto! Diálogos retos, sem muitos floreios e tão espontâneos que muitas vezes parecem improvisos. Com excessão de uns ou outros, que nunca se limitaram a um único tipo de papel durante a carreira, foi uma grande quebra de preconceitos ver Tony Ramos interpretar o inescrupuloso Carlos Braga e sair de sua zona de conforto e da imagem de bom moço que a emissora sempre cultivou. O impacto foi tal como foi ver Regina Duarte interpretar a histérica e impulsiva Clo Hayalla no remake de O Astro, papel que também a deixou anos luz da mesmice enlatada na qual sempre foi condicionada. Bom também foi ver Mariana Lima reaparecer com destaque, ou o humor nato de Vera Holtz ter espaço pra se espalhar sem censura junto com a faceta cômica de Camila Morgado, significantes para aliviar o clima pesado da trama, tudo sem vulgaridade ou piadinha pronta pra sorriso amarelo.

A trama desenvolvida em três eixos temporais (presente: com a investigação; passado recente: a festa; passado distante e aleatório: as histórias individuais dos personagens) chegou em um ponto onde o significado do título teve total coerência com o emaranhado de casos e consequências que se desenvolveram, e os autores conseguiram compensar a previsibilidade de algumas resoluções com a imprevisibilidade de como eles ocorreram. Uma sacada interessante e que ficou longe da mesmice já vista antes em tramas similares. Houve críticas sociais e políticas espalhadas em todos os lugares, algumas explícitas e até aborrecedoras de tão didáticas, enquanto outras mais sutis condensaram melhor a história. A festa, que na obra original foi um acontecimento de destaque, infelizmente foi posta em segundo plano aqui, um tanto frustrante para aqueles que aguardaram tanto glamour boêmio. As atuações não foram de todas felizes também, como Dira Paes, que tem seu talento reconhecido, mas infelizmente caiu em uma atuação cliché quase que amadora, ou da voz monotônica de Jesuíta Pedroso, talvez para disfarçar seu sotaque pernambucano. Sophie Charlotte pode ter exagerado na mão na testa e mão na cintura, mas conseguiu surpreender em grandes cenas. O final também poderia ter tido uma resolução diferente, mas sua construção foi admirável e igualmente satisfatória, e nem o delegado conseguiu escapar do mau caratismo ao correr para o rabo de saia da investigadora Rosa quando o fogo da palha com Angela Mahler apagou. O mau caratismo e o interesse, defeitos inerentes do ser humano.

Mas infelizmente tanta qualidade e repercussão não foram suficientes para segurar o público. A audiência reduziu consideravelmente quando sua estréia é comparada com o fim. Mesmo com 36 capítulos e uma média de 25 minutos cada um, O Rebu teria sido melhor aproveitado se tivesse sido feito como uma mini série de 8 ou 10 capítulos. Os episódios curtos, editados para se encaixar no buraco da grade da emissora, desvalorizaram substancialmente o suspense progressivo da trama, passando a falsa impressão de monotonia ou de trama desinteressante para a audiência que viaja de um canal para o outro.

Além da audiência flutuante que não foi conquistada, os mais exigentes acabaram perdendo o interesse pela trama logo no primeiro capítulo, muito pela já instalada aversão pelo formato folhetinesco e a resistência de aceitarem uma proposta diferenciada por acreditarem que isso não é possível. Foi muito comum ler e ouvir negatividades daqueles que nunca assistiram mais de um episódio ou até mesmo mais de 5 minutos. Esse preconceito enraizado é culpa da própria emissora que nunca se preocupou com a qualidade mais do que com os números, que ao longo das décadas condicionou sua audiência para isso com produções que beiram a ignorância, responsáveis por atrofiar o senso crítico da massa.

O Rebu foi sem dúvida como uma macarronada em um jantar refinado. Um prato comum, mas valorizado nos ingredientes e na sua apresentação. Uma grande excessão que infelizmente foi subjulgada por muitos que acreditaram ser apenas mais uma novela qualquer como todas as outras. É claro que já vimos trama policial parecida, já vimos produções luxuosas assim, já assistimos um elenco formidável junto e o uso do plano sequencia não é novidade para ninguém. Sim, concordo. Mas nunca vimos tudo funcionar em conjunto e com tanta precisão na televisão brasileira porque isso nunca foi feito antes. Não aqui.

CONCLUSÃO...
Telenovela faz parte da cultura nacional, e O Rebu demonstrou que, sim, a televisão brasileira tem talento e capacidade para elevar esses níveis, mas não tem uma audiência pronta para isso, ou enquanto continuarem condicionando-a para isso.

domingo, 7 de setembro de 2014

NÃO É DESTA VEZ, MINGHELLA...

★★★★
Título: As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces Of January)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Suspense, Crime
Classificação: 14 anos
Direção: Hossein Amini
Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac
País: Reino Unido, Franca, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal norteamericano que está há alguns dias em Atenas é ajudado por um guia turístico que se sujeita a fazer parte de uma perigosa trama que ele não imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
Estréia do iraniano Hossein Amini na direção, com roteiro também escrito por ele. Hossein tem maior experiência como roteirista, cuja carreira é um tanto esquisita. Ele foi responsável pelo roteiro de filmes excelentes como Asas do Amor (The Wings Of Dove, 1999) e Drive (2011), mas ao mesmo tempo contribuiu com os péssimos Branca de Neve e o Caçador (Snow White and The Huntsman, 2012) e 47 Ronins (2013). Levando-se isso em consideração, as possibilidades dessa produção ser boa eram um tanto incertas, mesmo contendo grandes nomes para os personagens principais e por ser baseada no livro homônimo de Patrícia Highsmith, a mesma da obra que rendeu a excelente adaptação cinematográfica O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley, 1999), de Anthony Minghella.

Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst) é um casal norteamericano que está passando alguns dias em Atenas. Entre um passeio turístico e outro, Chester percebe que um estranho o observa. Colette consegue se aproximar de Rydal (Oscar Isaac) e descobre que ele é um americano que mora em Atenas e trabalha como guia turístico, pois ainda não decidiu o que fazer de sua vida pessoal e profissional. O casal contrata o guia e algumas semelhanças levam Rydal a uma fascinação por ambos que o sujeitará a ajudá-los quando Chester é perseguido pela polícia por motivos que para não são claros, mas que colocarão Rydal dentro de uma trama perigosa que ele não imaginava.

Depois que Anthony Minghella realizou o deslumbrande O Talentoso Ripley, elogiado pelo mundo todo pelas excepcionais qualidades visuais, técnicas e pela habilidade que ele teve em desenvolver a história com um cativante suspense progressivo e dramático, até mesmo ao incluir uma personagem que não existia no livro e aumentar sua participação apenas para dar mais destaque ao desempenho de Cate Blanchett, que ao invés de adulterar os rumos da história apenas incrementou ainda mais o tom hitchcockiano que ele deu à trama, o cinema ficou novamente carente de suspenses psicológicos sofisticados como aqueles entre as décadas de 40 e 60 referenciados e homenageados por Minghella.

Ao assistir o trailer de As Duas Faces de Janeiro a fotografia clássica juntamente com o estilo literário já conhecido da autora Highsmith, gerou uma grande expectativa pela estréia de Hossein, e referências à obra de Minghella foram inevitáveis. A tentativa de repetir a fórmula de sucesso da adaptação de O Talentoso Ripley são tão evidentes que um dos produtores executivos é Max Minghella, filho do falecido diretor.

Realmente não dá para evitar comparações, mas ao invés delas se tornarem referências nostálgicas e até uma excelente oportunidade para homenagear Minghella e os méritos alcançados por ele em um dos seus últimos grandes filmes, tudo se transforma numa experiência bastante frustrante em muitos aspectos.

A narrativa condensada, o suspense envolvendo o passado desconhecido dos personagens e acontecimentos chaves que ocorrem em momentos exatos logo na primeira meia hora conduzidos pela trilha sonora de Alberto Iglesias com grandes referências a Bernard Herrmann em Psicose (Psycho, 1960) claramente conduzem e preparam o espectador à atmosfera esperada. Mas infelizmente a robustez desse início perde a força quando o roteiro entra em um platô superficial que não ousa em momento algum abusar do passado e dos conflitos psicológicos individuais dos personagens que justifiquem de fato suas atitudes e os posicionem na trama como acontece no livro, principalmente a respeito de Rydal, o ângulo reto do triângulo que se forma.

O título do filme se refere ao deus romano de duas faces, Jano (ou Janus), guardião das transições, das portas, das decisões e do início, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro. Essa figura romana representa o ajuste de contas que Rydal fará com seu passado ao enfrentar as decisões perigosas do presente, além da história ocorrer no início de Janeiro, que também simboliza a oportunidade do grande recomeço na cultura popular. Na obra de Highsmith, essa associação do título com a trama se revela quando Rydal encontra uma estranha e penosa semelhança de Chester com seu falecido pai, e de Colette com uma garota por quem ele foi perdidamente apaixonado na adolescência. A transferência dessas duas fortes figuras de sua vida no casal é o que leva Rydal se manter próximo a eles na inconsciente busca pela resolução de sua traumática relação com seu detestável pai, e no romance interrompido com a garota na adolescência.

Motivos tão importantes como esses e as verdadeiras fundações de toda a trama não são exploradas da forma devida. Há apenas breves referências a respeito da semelhança física de Chester com o falecido pai de Rydal, sem maiores desenvolvimentos que esclareçam ao espectador o motivo dessa transferência de personas tão forte e a relação de amor e ódio que cresce entre eles. Os principais macroacontecimentos no filme seguem a mesma cronologia do livro, com algumas alterações que até beneficiariam a adaptação dentro do gênero proposto caso a atenção devida aos problemas já mencionados tivessem sido dados, mas ao contrário do suspense psicológico bem orquestrado do livro, tudo se transforma em uma história de crimes passionais comum no filme, com perseguição policial tola e um triangulo amoroso formado da maneira mais simples possível que explora uma ingenuidade de Colette inexistente, já que no livro sua infidelidade era recorrente. O resultado é um filme vazio, com um final banal que torna toda a trama redundante ao invés de significar o ápice dramático, a definitiva e esperada grande libertação de Rydal de seus conflitos, sua final jornada pela simbólica absolvição tão buscada.

Mesmo desenvolvendo um excelente trabalho, Viggo Mortensen tem seu talento deseperdiçado aqui por conta do filme esquecível que impressionantemente é. Kirsten Dunst ainda não aprendeu a ter uma postura sofisticada sem parecer estudante universitária, e como sempre suas melhores partes são quando as personagens sofrem maiores pressões. Desperdiçadas também são as locações na Grécia e Turquia, ao contrário do que foi feito por Minghella ao transformar a exuberância das paisagens italianas um grande adendo no misto de beleza e delicada crueldade contidas em O Talentoso Ripley. Oscar Isaac tem impressionantes momentos, talvez por conhecer a obra original e saber que seu personagem é muito mais complexo do que o roteiro apresenta, mas que para o espectador que é mal esclarecido por todos os 96 minutos, as atitudes de seu personagem soarão apenas como uma fixação vazia e romanticamente descabida, sem pretexto coerente algum.

CONCLUSÃO...
Uma adaptação banal e redundante para o espectador que foi muito mal introduzido e situado em todo o contexto, ao contrário da obra literária que conduz a história para um suspense psicológico baseado em um simbolo mitológico que justifica todo o ciclo dramático do personagem principal.
Add to Flipboard Magazine.