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segunda-feira, 29 de julho de 2013

TRANSE BANAL...

★★★★
Título: Em Transe (Trance)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Danny Boyle
Elenco: James McAvoy, Vincent Cassel, Rosario Dawson
País: Reino Unido
Duração: 101 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um auxiliar de leilões se vê envolvido em uma trama onde é utilizada a hipnose para descobrir o paradeiro de uma obra de arte a qual sumiu sem vestígios de suas próprias mãos.

O QUE TENHO A DIZER...
Em Transe é dirigido pelo britânico Danny Boyle. Para quem já conhece sua tragetória e seus filmes, poderia dispensar comentários, mas para quem não conhece ou conhece pouco, vale a pena saber.

Não é à toa que Boyle é por mérito um dos melhores diretores contemporâneos, sua carreira e trajetória por si só demonstram isso. A principal razão é, sem dúvida, a linguagem visual que ele constrói, principalmente nas composições criadas para demonstrar situações bastante subjetivas como a psicose que gradualmente toma conta dos personagens no tardiamente reconhecido Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) - um thriller independente que chamou atenção de muitos só quando foi cair nas prateleiras das locadoras, quando tudo ainda era VHS; ou a letargia psicotrópica no cult lisérgico e uma referência de uma geração chamada Trainspotting (1996) - o qual marcou tanto uma década que é difícil encontrar alguma pessoa que não faça referência a ele ou não tenha assistido; ou o horror realista e desesperador de uma guerra pandêmica incontrolável em Extermínio (28 Days Later, 2002); e a atenção dos pequenos aos mínimos detalhes em Quem Quer Ser Um Milhonário? (Slumdog Millionaire, 2008).

Teve filmes pouco expressivos ou lembrados, como o megaproduzido A Praia (The Beach, 2000), que não fez o sucesso esperado e recebeu críticas de mistas a negativas; ou o limite entre a ingenuidade e a corrupção moral do metafórico Caiu do Céu (Millions, 2004); além da brilhante e injustiçada ficção científica Sunshine (2007), uma das únicas homenagens ao clássico espacial de Kubrick que deu certo.

Os pontos altos da carreira do diretor ocorreram em dois momentos:

1) Extermínio, quando ele acertou em cheio ao alavancar o renascimento de um gênero basicamente esquecido, o "survivor horror" classicamente conhecido pela "Trilogia dos Mortos", de George Romero produzido entre as décadas de 70 e 80. Querendo ou não, este filme se tornou uma referência nos que foram lançados posteriormente - incluindo o atual Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) - tanto que ganhou uma continuação em 2007 (dirigido pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo), além de uma campanha mundial de fãs que anseiam por um terceiro episódio que Boyle sempre cogitou a vontade de dirigir, mas que pelo excesso de produções e a falta de uma idéia inovadora sejam motivos para ele não realizá-lo.

2) Quem Quer Ser Um Milhonário?, talvez o auge de sua consagração até o momento, além de um dos seus filmes mais redondos e perfeccionistas no sentido narrativo e técnico. O filme concorreu a 10 Oscars, levando 8, incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme, dando oportunidade para, dois anos depois, ele novamente acertar com 127 Horas (127 Hours, 2010), novamente utilizando o jogo de imagens para reproduzir a angústia e o sofrimento da solidão e do desespero. Outra vez concorreu a 6 Oscars, incluindo Melhor Filme.

E assim é a carreira de Boyle. Entre altos e baixos e filmes que se bem sucedem ou não, ele é um diretor relevante que conseguiu reestilizar as maneiras de se contar histórias através do apelo visual, em edições ágeis e cortes precisos que exigem atenção do espectador e, inclusive, uma atividade cerebral de leitura dinâmica de imagens, despertanto associações automáticas e uma certa noção semiótica de forma bastante natural e até mesmo didática, dispensando a necessidade de conhecimentos técnicos de tudo isso para haver a compreensão.

Mas claro que uma carreira não é brilhante integralmente, e Boyle já errou em filmes como Por Uma Vida Menos Ordinária (A Life Less Ordinary, 1997) e, agora, com Em Transe.

Em Transe é novamente Boyle brincando com imagens. O filme vem erroneamente sendo associado a Trainspotting (embora Boyle já tenha cogitado a idéia de dirigir uma continuação deste título), e muito do que ele realizou no seu primeiro grande cult está aqui nas edições, nos cortes, o uso do subliminar e também da omissão de informações. Com essas táticas chaves, algumas utilizadas mais, outras menos, ele constrói uma história que engana o espectador a todo momento com cenas confusas e - por poucas vezes - surreais que levam o espectador a se surpreender através da falsa dedução criada pelas ferramentas que Boyle oferece para isso. Isso seria brilhante, caso o filme não tivesse caído em fadados clichés que não costumam ser característicos do diretor.

O filme conta a história de Simon (James McAvoy), um auxiliar de leilões treinado para salvar os objetos valiosos em situações de risco. Obviamente que, durante um leilão, ele seria vítima de um assalto. Agindo de forma ágil para salvar a obra de arte, durante o procedimento de segurança ele é abordado pelo assaltante Franck (Vincent Cassel), que o golpeia na cabeça deixando-o em coma. O problema é que quando Franck abre a bolsa, descobre que dentro dela há apenas a moldura sem a tela. Ao se recuperar, Simon é novamente capturado por Franck, que quer saber onde ele escondeu a obra de arte, mas Simon não sabe dizer, já que agora sofre de uma amnésia que não se sabe se é temporária ou não. Franck busca alternativas e descobre que a hipnose pode ajudar Simon a descobrir o paradeiro da tela. É quando entra em cena a terapeuta Elizabeth (Rosario Dawson), que será uma peça chave para todo o desfecho da trama.

Assim como todos seus filmes anteriores, Em Transe é visualmente interessante, e poderia ter sido excelente se não fosse tão confuso e obsoleto. Assim como dito por Rubens Ewald, o filme até poderia ter funcionado em outra época, quando o uso de uma tática/justificativa tão boba como a hipnose para buscar a solução de fatos insolucionáveis ainda não era banalizado, ou numa época em que filmes de ação com situações absurdas não causavam constrangimento.

A verdade é que, para um diretor tão preciso e atento a detalhes sérios e realistas até mesmo quando fictícios, este filme soa como um grande acidente de percurso. O roteirista Joe Ahearne apresentou o roteiro do filme pela primeira vez a Boyle em meados de 1994, o qual foi recusado pelo diretor que alegou que o filme poderia ser bastante difícil para um roteirista iniciante. Em 2001 o roteirista conseguiu transformar a história em um filme para a televisão, e apenas em 2011 Boyle teve o interesse de dirigí-lo para o cinema com auxílio do roteirista e amigo John Hodge. Mas devido aos preparativos das Olimpíadas em Londres (a qual Boyle foi responsável pela direção da abertura e encerramento), o filme teve um atraso na sua finalização, e a pós produção ocorreu apenas no final de 2012.

A qualidade da produção é indiscutível. As características de Boyle estão explícitas a todo momento. A câmera ágil que busca ângulos inusitados, o jogo de imagens que Boyle faz para criar a atmosfera confusa, a atenção a detalhes e a fluidez. A habilidade do diretor em lidar com tudo isso de forma sublime é inegável, mas o roteiro, mesmo tendo quase duas décadas para ser maturado, não conseguiu deixar de lado o ranso do tempo, sofrendo de absurdos que não cabem mais no século XXI, ainda mais com a facilidade de se encontrar informações sobre qualquer coisa e em qualquer lugar. Chega a ser até constrangedor um erro como o do momento em que estão todos os persnagens em um carro com um cadáver apodrecido no porta mala há semanas e ninguém nem ao menos ter percebido. Só esta pequena situação já coloca o filme com um dos piores desenvolvimentos que assisti nos últimos anos.

Querendo ou não querendo o filme explora a atitude do sonho inconsciente e consciente, além da possibilidade da implantação de idéias, tal qual ocorreu na tentativa frustrada do filme A Origem (Inception, 2010). A diferença é que, visualmente, o contexto de Boyle é muito mais verossímel e sinestésico do que no filme de Chritopher Nolan, justamente pela experiência de Boyle em brincar com imagens e sensações ser maior e a grande característica e trunfo de seus filmes. Mas o roteiro mal desenvolvido não evitou sair da essência interessante para cair no grande cliché romântico. Também não se atentou por construções mais simples, e o resultado de tudo isso é um filme que, tal qual como o filme de Brian De Palma que recentemente assisti, Passion (2012), ele pode até ter uma grande coerência dentro da idéia do próprio diretor, mas para o público em geral - até mesmo para seus fãs - tudo vai soar como algo sem sentido ou fundamento, pois a tentativa de compreendê-lo se torna fútil e frustrante por conta de uma linguagem extremamente complicada para uma resolução simples. Ou seja, pra mim, é aquilo que chamo de redundância cinematográfica, algo que soma absolutamente nada, embora tente demonstrar e fazer o espectador acreditar no contrário a todo momento.

CONCLUSÃO...
Um erro no percurso brilhante na carreira de Boyle. Em Transe pode até ser visualmente interessante e até se bem suceder ao conseguir enganar o espectador utilizando truques de edição e omissão, mas sua resolução se torna boba conforme as peças se encaixam e o espectador conclui a trama. Uma pena e um desperdício que pode até ser salvo pelo ótimo elenco e as habilidades natas de Boyle, mas o roteiro furado se destaca pelo excesso de exageros desnecessários.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A MAIOR HISTÓRIA DE AMOR DE TODAS...

★★★★★★★★★☆
Título: Antes da Meia Noite (Before Midnight)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy
País: Estados Unidos
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Nove anos novamente se passaram. Celine e Jesse agora não são mais jovens como há 18 anos atrás, e nem estão na crise dos 30 anos como nove anos antes. Eles agora passaram dos 40, e junto com a idade chegaram outras responsabilidades e outra forma de enxergar um futuro não diferente, mas mais concreto e definido do que aquele que viam quando se conheceram.

O QUE TENHO A DIZER...
Em 1995 Richard Linklater teve uma idéia simples e que sem querer mudou a linguagem do que significa uma comédia romântica e nos maravilhou ao apresentar a francesa Celine (Julie Delpy) e norte-americano Jesse (Ethan Hawke), duas pessoas que se conheceram no vagão de um trem para Viena, ambos no auge da juventude e de sonhos a serem realizados e concretizados numa mistura entre a linguagem francesa e americana de se contar uma história de amor genuína.

A narrativa intimista de um filme simplesmente baseado no diálogo entre apenas dois personagens teria soado entediante, mas a forma como Linklater conduziu tudo, juntamente com a naturalidade e a química entre os dois atores e os diálogos inteligentes que vagavam aleatoriamente entre assuntos políticos, ironias, divagações e um certo cinismo romântico foram a porta de entrada para uma intimidade que nascia naturalmente aos olhos de quem os via, e o melhor, nos fez acreditar que aquilo era verdade.

Poderia soar como um conto de fadas moderno, onde duas pessoas se encontram por um puro acidente de percurso e sem querer descobrem o grande sentido da vida e do amor em sua forma mais plena, natural e espontânea. Tudo era perfeito, com excessão do tempo, que a cada minuto que passava encurtava as esperanças e aumentava as expectativas. E ao amanhecer o filme acabou com um ponto de interrogação que marcou o gênero naquela década. Jesse voltou para os Estados Unidos, e Celine voltou para Paris, e quem os conheceu ficou na dúvida se eles realmente se encontraram um ano depois como eles combinaram e descombinaram até finalmente entrarem em um acordo de se reencontrarem no mesmo lugar exatamente um ano depois a partir daquele dia.

O final não foi feliz, mas também não significou o contrário. Linklater deixou a situação aberta para todos terem a liberdade de construírem a própria continuação para ambos. Mas Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) foi uma surpresa tão grande para os amantes de cinema que a dúvida se transformou em um grande eco e deixou um gosto de querer mais tão forte que, em 2004, ele, bem como os atores, voltaram a se reunir para filmar uma inesperada continuação. E assim Antes do Pôr do Sol (Before Sunset) marcou o segundo capítulo de uma história que teve um brilhante início, e que foi digno de uma continuação tão boa quanto.

No segundo filme o diretor e roteirista agora contava com o apoio dos atores no roteiro, que improvisaram nos diálogos a maior parte do tempo, rendendo mais um episódio baseado em diálogos que agora voltavam ao passado para justificarem o presente. Agora Jesse era um escritor famoso, que transpôs para as páginas um romance vivido por ele mesmo nove anos antes e que agora se tornara um Best Seller, e durante o período de promoção em Paris, Celine o encontra por acaso em uma tarde de autógrafos. O filme novamente foi uma surpresa agradável no gênero, por ter sido uma continuação e por ter mantido (e muitas vezes elevado) as características e qualidades do primeiro, matando uma sede deixada com gosto. O estilo narrativo foi o mesmo, mas os pontos de vista começaram a apresentar mudanças até culminarem em um final novamente dúbio e livre para qualquer adaptação pessoal.

Em 2012 a notícia de que a possibilidade de uma terceira parte estava no plano deste triângulo vazou nas páginas de notícias de cinema de todo o mundo, e os fãs aguardaram avidamente, discutindo e imaginando que rumos os personagens principais tomariam, e que rumos o filme teria em uma idéia que já parecia limitada.

Eis que, finalmente, Antes da Meia Noite (Before Midnight, 2013) foi lançado no Festival de Sundance 2013 sob forte expectativa. E ele não fez feio. Para aqueles que acompanharam a tragetória daquilo que se transformou na maior história do verdadeiro amor no cinema, não houve um momento sequer no qual não pudéssemos nos identificar com ambos em alguma mínima parte da história.

A narrativa mudou drasticamente, e a situação intimista deu espaço para uma narrativa mais objetiva e distante, e de apenas um simples observador oculto, o espectador se transformou em um personagem indeterminado e presente num constante clima de intensa intimidade e tensão, como uma parte viva do dia a dia dos personagens, como velhos amigos, já que agora eles já estão com suas vidas contruídas e definidas da mesma forma como a nossa vida também continuou. Essa mudança drástica a princípio desaponta, mas pouco a pouco ela se justifica e se sustenta.

Nos dois primeiros filmes víamos Celine e Jesse juntos a todo o tempo, como duas pessoas realmente feitas uma para a outra em uma constante esperança de viverem felizes para sempre. Agora que o "felizes para sempre" se tornou uma realidade, o cenário mudou e vemos ambos como um casal que se ama, mas pouco a pouco se distanciou pela constante rotina inevitável de qualquer relação. Jesse no seu constante mundo fantástico de escritor que abadonou toda sua vida americana, e Celine no seu mundo real que pouco a pouco a transformou em uma mulher dedicada a seus filhos e a sua própria família, e ambos chegaram a um ponto de terem deixado de lado seus próprios desejos e vontades que conflitam constantemente com a decisão de terem resolvido ficar juntos tal qual o destino havia previsto.

Os momentos desconfortáveis e que refletem essas crises e a natural acomodação de uma relação são vários, mas há também os momentos onde a nostalgia ressurge, dando espaço para ambos terem momentos que os levam a reviver um passado que nunca é esquecido, mas se tornou arbitrário ora para um, ora para outro, e aquela progressão narrativa e retilínea que existiu entre ambos no passado agora se transformou em uma variação de altos e baixos inevitável do convívio e do casamento.

Por vários momentos o filme toma o rumo semelhante e cômico - mas sem deixar de ser realista - ao criado por July Delpy no seu projeto paralelo e independente de 2007, 2 Dias Em Paris (2 Days In Paris), mas obviamente que o tom de seriedade criado por Linklater não apenas são expostos na construção narrativa como também na forma como ele constrói as cenas e os obstáculos que se interpõem entre os dois personagens, que se aproximam e se repelem conforme a mudança de seus polos. Nos dois primeiros filmes, enquanto a câmera era um objeto que os unia, agora a câmera é um objeto que os separa, incomoda e constrange.

Como dito, a nostalgia é presente e uma constante logo após os primeiros 10 minutos de filme, e para quem acompanhou toda a trajetória de Jesse e Celine, chega a brotar lágrimas de satisfação quando os créditos iniciais aparecem, e vemos Jesse caminhando em direção a Celine pela primeira vez. Ou no momento em que, em uma cena bastante simbólica, ambos assistem o pôr do sol no horizonte da península grega do Peloponeso.

CONCLUSÃO...
Nostálgico, por vezes desconfortável e uma grande guinada narrativa em comparação aos anteriores, Antes da Meia Noite é uma terceira parte coerente e cheia de simbolismos em uma grande história construída em 18 anos. E como li em algum lugar, passaria a vida inteira assistindo a história de ambos a cada 9 anos até Linklater, Hawke e Delpy resolverem fazer a sua própria versão de Amor (Amour, 2012).

sábado, 13 de julho de 2013

O QUE RICHARD É?

★★★★★★★★
Título: O Que Richard Fez (What Richard Did)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Lenny Abramhanson
Elenco: Jack Reynor, Roisin Murphy, Sam Keeley, Fionn Walton, Lars Mikkelsen
País: Irlanda
Duração: 88 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Richard é um jovem bonito, educado, inteligente e popular, que usufrui seu tempo em reuniões saudáveis com seus amigos, em festas particulares, na casa de praia e defendendo seu time de rugby no colégio. Mas em uma noite ele, assim como todos que se relacionam com ele, descobrirão que há uma grande diferença entre aquilo que acreditavam ser, com aquilo que realmente são.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é uma pequena pérola irlandesa levemente baseada no livro Bad Day In Blackrock (2008), de Kevin Power. O livro, por sua vez, também é levemente baseado em uma história real ocorrida no ano de 2000 em Dublin, quando um jovem estudante chamado Brian Murphy morreu após um violento assalto ao sair de uma casa noturna. Em 2012 ganhou o prêmio de Melhor Filme Irlandês, além de ter sido o filme de maior sucesso comercial do país. Também fez parte da seleção de filmes do Festival de Tribeca 2013, um dos festivais contemporâneos de grande importância e atuação nos EUA quando o assunto é sobre festivais internacionais.

Embora seja irlandês, o filme é em inglês e o cenário de Dublin não parece ser por acaso, já que é uma das capitais mais culturalmente movimentadas, ecléticas e de vida noturna ativa não apenas do país, mas também da Europa, sendo considerada uma das capitais mais jovens do continente, com aproximadamente 50% da população com menos de 25 anos. Logo, o filme começa mostrando a vida de Richard (Jack Reynor), um jovem estudante de classe média alta, bonito, inteligente, educado e rodeado de amigos interessantes e bastante informados cultural e socialmente. Eles se respeitam e interagem sem problemas ou abusos, e assim seguem suas vidas estudando, defendendo o time de rugby do colégio e curtindo a vida em festas privadas ou na casa de praia. O estilo de vida livre e ponderado não poderia ser mais perfeito para ele, que acredita que tudo é possível e atingível. Além de todas as qualidades, Richard também é um garoto apaixonado por Lara Hogan (Roisin Murphy - não confundir com a também cantora irlandesa de mesmo nome), que depois de algumas tentativas felizes consegue conquistar a jovem que tem uma relação indefinida com Cian (Fionn Walton). Tudo flui bem até que em uma fatídica noite tudo é jogado ao chão, quando não apenas ele, mas todos que se relacionam com Richard, descobrem que existe uma grande diferença entre aquilo que imaginamos ser e aquilo que realmente somos.

Não há nada de surpreendente, e o desenvolvimento da história é até bastante previsível a começar por conta do próprio título. Mas o que Richard fez extrapola apenas o que foi feito de fato e segue para o caminho mais substancial que nos faz perguntar "o que Richard é?". E assim o personagem deixa de ser algo, para se transformar em uma referência de nós mesmos e da nossa própria natureza: pessoas capazes de ignorar os limites e de não imaginar que pequenos atos irracionais serão responsáveis por mudanças muitas vezes irremediáveis nas nossas vidas.

Aquilo que somos está em nossa essência, que muitas vezes escondemos ou ocultamos, pois são capazes de comprometer nossa moral e caráter, e fazemos isso em um controle consciente. Todo o ser vivo é dotado da reação de fuga e proteção, reações primitivas de sobrevivência e manutenção da vida. Quando este gatilho é disparado perdemos nosso controle consciente, agindo e reagindo de forma instintiva e impensável. É neste momento que o ser humano, em específico, deixa transparecer sua verdadeira essência, pois o instinto de sobrevivência anula os controles que temos sobre a moral e o caráter. 

A tragetória do personagem é pintada dessa forma, como a de um grande e promissor jovem (a imagem montada pela moral e caráter) para um "monstro" manipulador e mentiroso (a essência instintiva), e o mesmo acontece com todos os demais personagens que passam do controle para o ato instintivo conforme o filme progride e as situações exigem. Porém, entre essas atitudes há outra condição inerente do ser humano chamada culpa. A culpa traz o conflito, que nos faz buscar constantemente a redenção e o perdão, independente de qual ele seja.

A solução para o espectador, que toma o papel de observador, álibi e também de julgador, parece bastante simples, mas o interessante é que a narrativa precisa consegue nos colocar dentro dos conflitos vividos por eles e principalmente por Richard. Conseguimos ter a nítida sensação de como seria estar em seu lugar. Há também o peso da culpa e o sofrimento trazidos pela perda da razão. Talvez a cena que mais deixa explícita essa nuance do controle do consciente/instintivo e o conflito entre eles, é quando Richard confessa a seu pai o que realmente aconteceu. Sentimos o instinto do personagem em tentar controlar seus conflitos e manipular tudo de alguma forma para se abster da culpa, até que em um impulso inconsciente, a verdade sai como um desabafo. É doloroso, mas um alívio até mesmo para o espectador, que até o momento estava com a respiração presa por conta da angústia que o filme constrói com naturalidade.

Aliás, naturalidade é o que mais existe aqui. Abrahamson consegue mostar uma história sobre adolescentes de maneira verdadeira, onde vemos os personagens falando, agindo e se relacionando dentro de linguagens e maneirismos da idade, fugindo de clichés e estereótipos sem alterar sua natureza. Ele faz questão de não fazer de tudo algo simplesmente regado a festas, drogas e sexo, como é costumeiro em filmes do gênero. Há muito mais do que isso. O diretor mostra como a adolescência é a melhor fase da vida, bem como suas transformações até a maturidade. Tudo isso é observado na primeira parte do filme, a relação e o respeito mostrado por eles chega a ser até utópico, mas bonito, motivador e realmente exemplos daquilo que realmente deveria ser. Mas infelizmente a segunda parte do filme é nos jogar na cara como tudo realmente é, e como ainda temos (ou tivemos) muito a aparender, mas foi ignorado por pequenas atitudes engatilhadas pela perda da razão.

O único cliché que o diretor não fez questão de se desvincular para o bem da narrativa foi o romance entre Richard e Lara, e ter transformado a relação entre eles a fonte da redenção e do perdão do personagem, mas da mesma forma mostrando isso de forma simbólica, que significa as pequenas coisas às quais nos apegamos nos momentos de conflito e culpa e que somente eles bastam para tocarmos a vida para frente e ignorar até mesmo as grandes dores e sofrimentos, como a colocar um pano quente sobre tudo, o que pode ser um pouco frustrante para aqueles que esperavam uma atitude mais coerente do personagem. Mas aí é o personagem agindo novamente em sua essência.

CONCLUSÃO...
O Que Richard Fez é uma análise sucinta da própria natureza do homem, e como uma simples atitude pode colocar nossas atitudes conscientes e inconscientes em conflito, dando abertura para as mínimas coisas responsáveis por corromper nosso caráter.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

FRIO, FRUSTRANTE E SUPERFICIAL...

★★★★
Título: Passion
Ano: 2012
Gênero: Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Brian De Palma
Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson
País: França, Alemanha
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a rivalidade entre uma chefe manipuladora de uma agência de publicidade e sua mais competente ajudante, passando pelo roubo de idéia, da humilhação pública até o crime.

O QUE TENHO A DIZER...
Passion é dirigido pelo já antológico Brian De Palma, mas não é uma obra original, sendo um remake do filme francês Crime D'amour (2010), estrelando Ludivine Sagnier e Kristin Scott Thomas. De Palma, há quatro décadas na indústria, ficou famoso por títulos realmente muito bons no passado e até originais, o que faz esse remake soar um tanto desnecessário, ainda mais em um intervalo de apenas 2 anos entre o original e essa nova versão.

No começo da carreira De Palma foi taxado como o "mestre do macabro", por causa do estrondoso sucesso e ícone do terror chamado Carrie (1976) e também de alguns títulos anteriores a ele, pouco conhecidos. Isso foi uma certa alusão ao título de "mestre do suspense" que acompanhava o nome de Hitchcock, diretor o qual De Palma nunca escondeu ser extremamente influenciado e um grande admirador, referenciando e se apropriando do estilo hitchcockiano de maneira óbvia, trazendo muita revolta por parte de uns e admiração por parte de outros, levando a crítica a julgar suas obras como plágios (um absurdo) e De Palma ser duramente taxado como um subdiretor de subprodutos (outro absurdo). A verdade é que ele foi um dos únicos diretores populares de Hollywood a se atrever a isso e, de uma forma ou de outra, se bem suceder, já que essas apropriações acabavam tendo coerência nos contextos e acabaram indo além do que Hitchcock propunha. Hitch só não foi adiante pois sua época não permitia, mas na época de De Palma isso foi possível, e foi o que ele fez. As constantes referências a outro diretores e obras se estenderam durante toda sua carreira e virou uma parte fixa de seu estilo, mas a verdade é que o diretor é eclético. Obviamente seu estilo preferido é o suspense psicológico recheado de erotismo (eu falei erotismo e não sexo), mas ele já fez drama, tentou arriscar na comédia, fez filmes de ação, ficção científica e por aí vai. Ele nunca sequer concorreu a um Oscar, e seus melhores títulos como Scarface (1983) ou Os Intocáveis (The Untouchables, 1987), foram esnobados sem piedade. Por isso ele também figura na gigante lista dos injustiçados.

Além disso, De Palma também criou, dentro de tantas referências, usos e abusos, uma maneira própria de dirigir e compor suas cenas, como as filmagens anguladas, os takes longos e sem cortes, o excesso da câmera lenta, os travellings em 360 graus e, talvez o mais marcante deles, a divisão de tela, mostrando duas (ou mais) diferentes ações em um única cena.

Mas do meio da década de 90 pra cá, De Palma parece não acertar uma. Seu último grande sucesso foi Missão Impossível por ter sido comercial, e os filmes que o sucederam foram grandes naufrágios. Todos os títulos não são ao todo de uma qualidade inegável como a que ele já chegou a ter um dia, embora vale-se dizer que devem ser assistidos por qualidades ímpares e detalhes que apenas De Palma tem certa ousadia em realizar, como a sequencia incial sem cortes de Olhos de Serpente (Snake Eyes, 1998), onde tudo é feito numa sincronia em um deleite para os amantes de takes contínuos; ou o exagero do glamur perigoso e sua tentativa de personificar os tipos femininos que sempre foram presentes no seu estilo em Femme Fatale (2002); ou até mesmo o noir de Dália Negra (Black Dahlia, 2006), baseado na tetralogia de James Elroy - a mesma série de livros que inclui a adaptação Los Angeles - Cidade Proibida (L.A. Confidential, 1997), um grande título que passou despercebido.

Em Passion, De Palma não foge daquilo que mais gosta: do glamour, das femme fatales, do suspense progressivo e do desenvolver lento das histórias até atingir o ápice. Aqui ele reune duas atrizes: a canadense Rachel McAdams e a sueca Noomi Rapace, em uma trama de ambição, obsessão e traição que a princípio foi promovida como um grande thriller erótico e um retorno do diretor à forma, mas que se transforma mais em um grande golpe de marketing do que uma realidade.

O filme já começa como se já estivesse no meio, onde as personagens Christine (Rachel McAdams) e Isabelle (Noomi Rapace) estão em uma sala discutindo o futuro de um grande projeto publicitário que está fadado ao fracasso e poderá colocar o pescoço de ambas pra rolar. Logo no começo é possível perceber uma certa ironia ou um tom de deboche do diretor, pois a começar pelo projeto publicitário das personagens, há uma cafonice enlatada, exagerada e risível no ar, algo do tipo: "não é possível que uma agência tão importante chamaria isso de genial". O senso de humor de De Palma sempre esteve presente, mas aqui é dúbio e não sabemos se podemos confiar no diretor em levar o filme a sério porque esse absurdo causa desconforto.

Christine é a chefe de uma importante agência publicitária, e Isabelle é sua ambiciosa pupila, que vislumbra em sua chefe - com ar de recatada inveja - o futuro que gostaria de alcançar. Christine é a típica chefe mandona e manipuladora que tenta fazer de Isabelle a sua grande marionete e o aeroporto para seus voos mais altos, o estereótipo que a gente cansou de ver por Meryl Streep em O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006), ou numa relação até bastante similar entre Glenn Close e Rose Byrne no seriado Damages (2007-2012), ou até mesmo por Sandra Bullock em A Proposta (The Proposal, 2009). Até o tom de Rachel McAdams a dizer "isso é tudo" (that's all), a frase que marcou a personagem de Meryl Streep, soa uma "cópia". Tudo isso já é visto e todo esse tom estranho é logo previsto apenas nos 15 minutos iniciais, além de sabermos que o desenrolar da história não será nada agradável para ambas personagens.

Posteriormente o filme muda o tom, caindo para uma rivalidade empresarial que culmina no abuso do poder e em humilhações constantes, desenvolvendo um assédio moral (bulling) bastante evidente e que, por incrível que pareça, é real em diversos ambientes corporativos. É um assunto sério, ignorado, que só é sentido por aqueles que já sofreram, e isso é transposto para a tela de forma bastante convincente e um dos raros momentos onde De Palma não parece zombar.

A impressão que se tem é que o filme finalmente engatou. Ele até referencia Hitchcock novamente na sequencia do crime. É uma cena rápida, com um violino de Pino Donaggio bastante semelhante ao de Bernard Herrmann em Psicose (Psycho, 1960), uma cópia feia, mal feita e desafinada, mas que combina com a cena violenta e impactante e que é assim justamente por durar apenas 5 segundos. Não há como negar que essa agilidade é uma das melhores de todo o filme e poderia ter caído facilmente numa desgraça qualquer. Mas é quando entramos para uma terceira parte que sentimos o diretor degolando cada um dos espectadores, adentrando em um território psicológico confuso que tenta explorar as ilusões do inconsciente, e até que ponto ele se torna consciente e real. Tudo é explorado por imagens e cenografia. É a partir do uso das sombras, das angulações, dos travellings e edição que o diretor vai mostrar as diferentes condições da personagem e não explorando seus comportamentos, chega até a ser algo experimental, mas  De Palma já experimentou tudo isso antes, o que dá uma sensação superficial e de que o desenvolvimento podia ter sido melhor para um diretor tão experiente e cheio de truques.

Óbvio que todo o estilo e as características clássicas do diretor são jogadas na tela nos momentos típicos e previsíveis, e o que De Palma mais gosta de fazer é enganar o público com imagens, como em uma hipnose. Tudo está claro e evidente durante todo o filme, mas a forma como ele encaixa as peças nos coloca na dúvida até mesmo nos momentos de certeza, enganando o espectador com sua marca registrada da tela dividida ao trabalhar com a mudança do foco. Seu estilo pode até soar datado em certos momentos, mas é nostálgico revê-los outra vez e outra vez, filme após filme, e embora o diretor já tenha quatro décadas de trabalho, ainda consegue se manter atual e um símbolo nato do que é criar uma atmosfera adequada a cada história. Mas nesse filme em especial há muito mais erros do que acertos.

O grande problema de Passion é que ele demonstra a todo instante que não foi levado a sério como deveria, e sua narrativa nunca explode para uma conclusão que ofereça um grande êxtase final depois de tantos enquadramentos perfeitos, fotografias deslumbrantes e a exploração de imagens. Pelo contrário, o que é feio passa a se destacar em demasia até cair em uma cachoeira de defeitos (talvez) propositais, o que podem até fazer muito sentido para todo o contexto e para a idéia pessoal do diretor, mas a dificuldade toda é que não vale a pena se esforçar tanto para (tentar) compreender tudo isso em um roteiro que começa com uma grande força, mas depois soa pobre e ultrajado em si mesmo.

A química entre as atrizes é boa e talvez até convincente, mas McAdams, que despontou como uma estrela há poucos anos e ainda se mantém numa crescente ascenção que nunca explode, não é uma atriz de muitos filmes, mas seus constantes investimentos em papéis tolos de comédias românticas simplórias tiraram dela aquilo que ela mostrava ser no começo da carreira: uma menina delicada de voz meiga, mas de presença, que sabia escolher pequenos e bons filmes. O papel representado por ela aqui não foge muito de uma versão adulta do ícone teen, pop e moderno da maldade que ela construiu no passado chamada Regina George, de Meninas Malvadas (Mean Girls, 2004), a diferença é que seu desempenho no filme adolescente é muito mais marcante do que aqui, onde sua postura de mulher bem sucedida e requintada beira ao inadequado cliché, mas não deixa de ter seus momentos marcantes por conta das habilidades do diretor.

O mesmo pode ser dito sobre Noomi Rapace, que virou um grande nome a partir do momento que Hollywood resolveu importá-la e se apropriar do sucesso que a trilogia original da adaptação da série Millenium estava fazendo pelo mundo. Noomi não é uma atriz delicada e carismática, seu jeito matrão e seus traços fortes não condizem com certa delicadeza e ingenuidade que a personagem por vezes tenta demonstrar, mas ela consegue transparecer as emoções nos tons exatos em alguns momentos, o que é interessante.

Mas como um todo, embora seja interessante visualmente, é um desperdício de trabalho em uma carreira tão brilhante quanto a de De Palma. Passion não recebeu críticas positivas, não foi bem recepcionado pelo público e vai ter uma reestréia comercial em Agosto nos Estados Unidos, talvez numa tentativa já falida de pegar carona em algum público que com certeza irá assistir esperando um grande thriller erótico lésbico, mas que sairá absolutamente decepcionado, pois não irá encontrar nada além de frustração, principalmente seus fãs.

CONCLUSÃO...
De Palma ainda continua sendo um grande diretor e ilusionista, sua tentativa em explorar mais as imagens do que os personagens é sempre válida, mas nesse filme chega a soar superficial, parecendo mais uma perda de tempo do que uma grande experiência. Uma pena, para um diretor com um imenso talento.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

ZUMBIS PARA GENTE GRANDE...

★★★★★★★★
Título: Guerra Mundial Z (World War Z)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Marc Forster
Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Daniella Kertesz, Fana Mokoena
País: Estados Unidos, Malta
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um ex-investigador federal norte-americano é obrigado pelo governo a auxiliar uma equipe que está atrás do Paciente 0 ou de uma possibilidade de cura para um provável vírus que está transformando a população mundial em mortos-vivos.

O QUE TENHO A DIZER...
Não me espanta que Guerra Mundial Z tem sido bem recebido. Em 3 semanas de exibição ele já arrecadou mais de US$366 milhões no mundo. O filme é baseado no livro de Max Brooks (que curiosamente é filho do diretor de comédias Mel Brooks), chamado World War Z: An Oral Story About The Zombie War. O livro foi lançado em 2006, e imediatamente a Paramount Pictures, juntamente com a produtora de Brad Pitt, Plan B, compraram os direitos, algo um tanto óbvio numa década que os mortos-vivos ressurgiram com grande força.

Por isso que, ao contrário do que a Rolling Stones publicou - e além do que muita gente pode achar agora - zumbis não estão na moda. Salvo este título, estão novamente bem decadentes tal qual ficaram no começo da década de 90.

Depois de tantas produções ruins, como a interminável e desnecessária série Resident Evil (que terá uma sexta continuação ano que vem), além do seriado The Walking Dead, que resolveu sugar tudo que foi feito até hoje desde os filmes de Romero, bater no liquidificador e utilizar tudo sem vergonha alguma, o gênero novamente voltou a ficar cansado de boas idéias e se GMZ surgiu muito tarde ou não é uma dúvida real.

A função de diferenciar e a necessidade de alguém hora ou outra surgir com algo inusitado se vale pela ousadia de alguns diretores que sairam um pouco da obviedade em um passado curto. Tudo começou inesperadamente com o britânico Danny Boyle ao aparecer com o genial e tenso Extermínio (28 Days Later, 2002). Posteriormente surgiu Zack Snyder e o remake de um dos clássico da primeira trilogia de Romero, Madrugada dos Mortos (Dawn Of The Dead, 2004), isso numa época que ele ainda nem era famoso por 300 (2006) ou ter feito Superman novamente vingar com O Homem de Aço (Man Of Steel, 2013). Danny Boyle saiu da direção e só assinou a produção de Extermínio 2 (28 Weeks Later), dirigido firmemente pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo. Posteriormente teve o espanhol REC (2007), que poderia perfeitamente ter dado continuidade na franquia que Danny Boyle tentou criar, mas que jogou fora uma grande idéia em mais duas continuações inferiores (uma terceira está a caminho). Isso tudo sem contar que George Romero conseguiu concluir sua segunda trilogia com Terra Dos Mortos (Land Of The Dead, 2005), Diário dos Mortos (Diary Of The Dead, 2007) e Ilha Dos Mortos (Survival Of The Dead, 2009). Na boa tentativa de cair na comédia ou no besteirol, também tivemos o abre alas britânico e hilário Todo Mundo Quase Morto (Shaun Of The Dead, 2004), Zumbilândia (Zombieland, 2009) e a surpresa Meu Namorado é Um Zumbi (Warm Bodies, 2013).

GMZ, tinha tudo pra ser um desastre. Para começar o roteiro teve nada mais, nada menos, que cinco pessoas envolvidas, além do prório autor que prestou consultas para o desenvolvimento da história; Brad Pitt também não é mais um grande nome no cinema e o tema perdeu o fôlego. Felizmente isso não aconteceu, e o que a gente vê na tela é um filme que funciona do começo ao fim, abraçando o espectador e o enfiando dentro da tela em mais de duas horas imperceptíveis com sequências que não economizam na tensão, nos efeitos especiais e na ação, numa história cujo grande diferencial foi ter explorado detalhes simples e sacais que apenas Romero chegou a esboçar na segunda parte de sua Hexologia dos Mortos e que ninguém deu grande atenção até então.

Outro fator muito importante é a direção de Marc Forster, responsável por filmes como Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004), Mais Estranho Que A Ficção (Stranger Than Fiction, 2006) ou 007 - Quantum Of Solace (Quantum Of Solace, 2008). Ele se tornou respeitável em Hollywood, e embora seus filmes geralmente não sejam grandes sucessos de bilheteria, sua direção é amarrada e firme, um dos raros diretores atuais que conseguem conduzir a história de maneira linear, sem grandes quebras de narrativa. Esse estilo é muito definido no filme, que não deixa a bola cair em nenhum momento.

Marc Forster parece também não fazer questão de esconder que a grande referência utilizada por ele foi a franquia Extermínio. Se não foi, há motivos importantes para achar tudo uma excelente coincidência. Embora Extermínio não trate de zumbis (o filme explica que o surto ocorre por um tipo de raiva humana), em GMZ o tipo de narrativa mais subjetivo sobre o drama sofrido pelo personagem principal é o mesmo, além de também mostrar a situação como uma verdadeira guerra de nível global tal qual Boyle imaginou para uma provável terceira sequência de Extermínio, que nunca saiu do papel, mas sua vontade sempre foi latente e divulgada. Mesmo o pai de família sendo Brad Pitt e seu personagem um ex-investigador federal, Pitt não é mais um galã e seu personagem também não é nenhum cientista ou algum herói invencível metido a engraçadinho, ele é apenas um homem comum, prático e observador, tal qual os personagens dos filmes de Boyle e Fresnadillo.

Os 116 minutos de filme são feitos explicitamente para impressionar evitando cair nos clichés, finalmente deixando de explorar a batida idéia de que zumbis são burros e lentos, e tal qual como Romero fez em Terra dos Mortos (Land Of The Dead, 2005), os zumbis podem se comunicar e agir em grupo. O roteiro também se vale fortemente da idéia de que o que já está morto não morre, mas pode ser impedido. Por isso, tanto Forster, como os roteiristas, não tratam a audiência com ignorância e os personagens fazem o que deve ser feito e sem rodeios, porque não há tempo para pensar, assim como não há tempo para melodramas baratos para sentimentalizar o público e quebrar a experiência caótica, ou cair no mesmo besteirol da ação por ação. É por isso que o ritmo é rápido e em uma ação non-stop, porque é uma fuga constante. Tudo se justifica, até mesmo algumas piadas discretas soltas aleatoriamente para aliviar a tensão, os sustos bem planejados de maneira orquestrada mas não óbvia, e alguns momentos que podem soar absurdos (como a sequência da queda do avião), mas tudo é tão bem feito que isso se torna um mínimo defeito que ninguém nem dá atenção.

Embora o filme comece nos Estados Unidos, ele se desenvolve por outras partes do mundo, indo para a Coréia do Sul, Israel e Reino Unido, além do Paciente 0 ser indefinido. Talvez por ser alemão, Forster tem o cuidado principal de não fazer este filme uma grande ode ao poder nacionalista norte-americano bem como não responsabilizar ninguém pela situação, o que é um grande alívio.

Nada como um filme dirigido e produzido por pessoas crescidas, que sabiam exatamente o que queriam, o resultado que queriam e público específico que queriam, diferente de outros títulos que pecam em querer abranger todos os diferentes tipos de público e no fim agrada ninguém.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida Guerra Mundial Z entra para a rara lista de filmes do gênero que não apenas valem a pena ser assistidos como fazem parte de um diferencial que não aparece com frequência, além de uma maneira indireta ser uma evolução e se encaixar perfeitamente dentro do realismo que Boyle e Fresnadillo criaram em Extermínio 1 e 2.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

FE-FI-FO-FLOP!

★★★★★★
Título: Jack, O Caçador de Gigantes (Jack, The Giant Slayer)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Brian Synger
Elenco:
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jack é um jovem plebeu que cresceu ouvindo história de gigantes que devoravam humanos e foram expulsos para um território entre o céu e a terra. Um dia o destino lhe coloca nas mãos um punhado de feijões que podem mudar o curso de toda a humanidade caso germinem. E acreditem, um deles germina.

O QUE TENHO A DIZER...
Jack, O Caçador de Gigantes é dirigido pelo ganacioso e orgulhoso Bryan Singer. O filme é baseado no conto inglês por aqui conhecido como João e o Pé de Feijão e foi um dos maiores imediatos fracassos de bilheteria do ano, entrou para um dos maiores da história e é o grande primeiro fracasso da vida do diretor. O filme custou aproximadamente US$195 milhões, e arrecadou "apenas", e com muito sacrifício, um pouco mais de US$ 65 milhões só nos EUA. Ou seja, nem ao menos a metade. Isso para um diretor qualquer seria um suicídio na carreira, bem como já aconteceu com tantos outros, porém Singer tem a sorte de estar ligado a uma franquia que pode ressucitar sua carreira quando ele quiser, a dos X-Men. Isto é... se tudo correr bem.

Aliás, foi a partir dessa franquia que o diretor ficou famoso, mas chegou a esnobá-la ao abandonar a FOX e migrar para a concorrente Warner para dirigir o esquecível Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006), no interesse grandioso de transformá-lo em uma grande nova referência dos filmes de super-heróis. Com um sucesso mediano e bastante aquém do que a Warner esperava, o diretor foi posto na geladeira por um tempo. Ao mesmo tempo, X-Men - O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), a terceira parte da franquia que Singer desistiu de dirigir, também não foi lá grandes coisas e recebeu um jorro de críticas negativas principalmente pelos fãs.

Foi por conta disso que, em 2008, o diretor foi convidado para dirigir o reboot dos mutantes, X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). Singer diz para a mídia que negou o convite por conflitos de agenda, pois estava "mergulhado" na produção de João, um projeto pessoal que há muito ele queria fazer, porém a impressão que se tem vai além disso, e aparenta que a concorrente Warner não aceitou dispensá-lo para voltar a FOX sem antes lhe render mais um produto descartável para uma leva de filmes baseados em contos de fada (tanto que após a conclusão de João, Singer retomou as rédeas dos mutantes e dirigirá o próximo capítulo do reboot, Dias De Um Passado Esquecido).

Ok, João não desaponta, e dentre os filmes baseados em contos de fada, ele é de longe o mais considerável. O personagem principal é interpretado por Nicholas Hoult, o zumbi simpático de Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies, 2013), ele não precisa de muito para convencer, mas tem um bom desempenho mesmo assim. O filme já começa grandioso, do jeito que Singer aprendeu a gostar, espetaculoso, com uma narrativa de abertura semalhante a de O Senhor Dos Anéis, cheio de efeitos e trilha sonora orquestrada recheada de rompantes sonoros estridentes para motivar e chamar a atenção logo no começo até mesmo os pouco interessados.

A história parte do princípio de que a história dos gigantes é uma história. Entenderam? Essa história era lida por duas pessoas muito distintas: uma rainha, que contava a história para sua filha, e um plebeu, que contava a história para seu filho. Isso já deixa claro que, em algum momento do filme o destino os unirá, e isso acontece quando o feijão germina e leva para a terra de gigantes a casa de João com a princesa dentro, e João fica na terra dos pequenos, inconsciente depois de ter caído do pé enquanto ele crescia. O rei, apavorado, envia uma leva de pessoas para resgatar a princesa, e João se voluntaria porque está apaixonado (óbvio).

O enredo é infantil, mas não há como negar que Singer sabe conduzir uma história, por mais banal que seja, dando um dinamismo e uma versatilidade que deixa tudo muito interessante mesmo nas situações mais banais. Os efeitos especiais são deslumbrantes, e ficam mais interessantes por não terem a intenção de ser perfeito, já que os gigantes são desformes de forma caricata, e com uma postura assustadora apenas para deixar criancinhas de olhos esbugalhados, vidrados no filme. Enfim, a gente vê na tela de forma explícita onde os US$195 milhões foram usados.

Mas é aquela coisa... conto de fada é conto de fada e essas histórias já fazem parte de um consciente coletivo que já demonstrou que não estã interessado em visões particulares sobre ela. Uma coisa é você ouvir ou ler uma delas, outra coisa é você tentar engolir uma imaginação já pronta. É a mesma coisa que a vida toda você acreditar que Chapeuzinho Vermelho tem os cabelos castanhos escuros, e de repente aparece Amanda Seyfried mais loura que palha de milho. É difícil.

CONCLUSÃO...
Por melhores que tenham sido as intenções de Singer, o filme é grandioso e não chega a ser uma perda de tempo, mas é um fracasso considerável e que nos faz questionar se adaptações de contos de fadas são realmente necessárias em um mundo onde novos contos podem surgir.

domingo, 23 de junho de 2013

INCÔMODO, PORÉM CORAJOSO...

★★★★★★★
Título: Segredos de Sangue
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Chan-wook Park
Elenco: Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode, Dermont Mulroney, Jacki Weaver
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 99 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
India Stoker fez 18 anos e perdeu o seu pai. Ela viveria apenas com sua mãe caso não chegasse Charles Stoker, irmão do seu pai e o qual ela nunca soube que existia, nascendo uma relação de distanciamento e afinidades que culminarão em segredos que definirão sua nova fase de vida.

O QUE TENHO A DIZER...
Segredos de Sangue é dirigido pelo sul coreano Chan-wook Park. É seu primeiro filme em inglês, cujo roteiro é curiosamente assinado pelo ator Wentworth Miller, conhecido pelo seu papel principal em Prision Break. O roteiro fez parte da Black List de 2010, uma lista feita todos os anos contendo os melhores roteiros que ainda não foram produzidos.

Basicamente conta a história de India Stoker (Mia Wasikowska), uma garota inteligente e de classe média alta, que vive em um mundo particular de observação, de constante desconfiança, avessa a determinadas regras sociais e que tem a forte tendência de contrariar ordens, principalmente quando partem de sua mãe. India gosta de observar e ouvir pequenas coisas, ler e explorar o mundo que a rodeia por um ponto de vista por vezes estranho e obscuro, como uma foto em negativo. Ela não tem amigos, nunca namorou e as únicas relações próximas eram com seu pai, Richard Stoker (Dermont Mulroney), e seu piano. Sua relação com sua mãe, Evelyn Stoker (Nicole Kidman), é conturbada, em um misto de distância, mágoa e um afeto que existe, mas nunca ultrapassa um determinado limite. A vida de India e Evelyn mudam completamente quando Charles Stoker (Mathew Goode) aparece no velório de seu irmão. India trata seu tio com estranheza como a um intruso por nunca ter tido conhecimento de sua existência, e Evelyn se encanta com as constantes gentilezas do cunhado, do bom gosto e da beleza jovial que ela há muito não conhecia.

Falar muito sobre o filme é como estragar determinadas surpresas, pois não há como negar que, mesmo entre uns tropeços e outros, Segredos de Sangue é um filme corajoso e, de certa forma, audacioso em Hollywood, pois é um daqueles raros filmes que é desconfortável e que em nenhum momento cria uma conexão de afinidade com o espectador, seja na história ou com qualquer um dos personagens. O filme cresce numa tensão e em uma sucessão de erros que se tornam coerentes dentro da natureza que vive cada um dos arquétipos retratados pelos personagens.

O suspense traçado muitas vezes é bastante similar com o hitchcockiano. Obviamente que não chega a ter o mesmo peso sutil e a classe do mestre, mas essa tentativa existe e é válida o tempo todo numa fotografia caprichada, limpa e que evita os excessos para evidenciar as personas e as situações construídas entre eles. O diretor também se atenta na câmera estática, enfatizando a calma e o sossego rotineiro do território bucólico que India vive e que no decorrer do filme se torna assustador por ser belo e esconder segredos muitas vezes mórbidos.

Uma das características hitchicockianas mais fortes no filme são as interpretações friamente calculadas e milimetricamente detalhadas. Todas as ações dos personagens, um gesto, um olhar, um caminhar, uma forma de parar frente a câmera... tudo parece ensaiado e calculado diversas vezes para causar sempre a melhor impressão e ter um sentido sublime para aquela situação específica. E funciona, pois não é mecânico, mas é frio e bonito. Algo raro de se ver.

O tema, para ser mais explícito e didático, sem ser um fator que estrague as surpresas do filme, é mais um daqueles que tenta transpor de forma mais humana determinadas psicopatologias como a sociopatia psicótica, mostrando que uma doença psiquiatrica estabelecida desde a infância culmina em atitudes imprudentes que podem ser compreendidas, embora difíceis de serem aceitas por uma sociedade comum. A especialista em criminologia Ilana Casoy, autora do livro Serial Killer - Louco ou Cruel?, deu uma entrevista há alguns anos explicando que é muito fácil para a população leiga condenar um assassino, mas o que essas mesmas pessoas desconhecem e não fazem questão de ter conhecimentosão das razões e dos fatores psicossociais que levaram essa pessoa a cometer um crime. Não que isso justifique o ato, mas coloca a pensar que, para os conflitos internos e existentes na psiquê dessa pessoa, isso é algo coerente. Uma doença de fato que deve ser tratada como tal, e não simplesmente posta para um julgamento qualquer. Mas para isso ser feito é necessário, a princípio, a compreensão de seu mundo particular.

O elenco caiu como uma luva. Mia Wasikowska sem dúvida está entrando para a mesma lista de grandes e jovens atrizes de sua geração, no mesmo patamar que a popular e querida Jennifer Lawrence, Juno Temple ou a um pouco mais nova Saoirse Ronan, naquela versatilidade de poder ser uma atriz menina a uma jovem adulta apenas numa mudança de postura ou em um olhar. Nicole Kidman realmente se sai melhor em filmes pequenos e ousados, conseguindo oferecer curtos momentos de uma interpretação que chega ao sublime por atingir o sofrimento emocional e demonstrá-lo com pouco. Sutil e contida, impressionando até mesmo eu, que nunca fui seu fã. Matthew Goode não só impressiona como seu semblante carregado no cinismo e na perversão é bastante assustador, um personagem que realmente marca, daqueles que mesmo assistindo outros filmes com o ator, com outros personagens, será difícil desassociar.

Há muitas resenhas e sinopses do filme que informam erroneamente que India sofre maus tratos da mãe, ou que sua mãe sofre de instabilidade emocional crônica. Isso tudo é mentira, ou ao menos o filme nunca deixa qualquer uma dessas duas alternativas explícitas. A instabilidade emocional de Evelyn existe tal qual a de India justamente pelo filme se passar logo após a morte de Richard, o que é bastante compreensivo.

Os grandes problemas do desenvolvimento surgem quando a história não esclarece determinadas situações, como a razão da relação entre India e sua mãe serem tão distantes. Seria isso uma referência batida ao Complexo de Édipo? Os breves conflitos entre a governanta ou da tia Gwendolyn Stoker (Jacki Weaver, sempre muito boa) com Charles também aparentam serem fúteis e desnecessários, além da indiferença e do consentimento de India com várias situações soar forçado, por mais que tudo aparente familiar e natural para ela.

CONCLUSÃO...
De qualquer forma, Segredos de Sangue é um filme para poucos, que explora bastante o psicológico de seus personagens principais que crescem gradualmente em uma sucessão de fatos distorcidos, surpreendendo o espectador por não fugir de sua idéia principal em nenhum momento, além de nunca ter a intenção de incrementar a história com elementos que possam atenuar o que incomoda para o bem de um público que sempre espera um final feliz ou satisfatório.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE?

★★★★★★
Título: Celeste e Jesse Para Sempre (Celeste & Jesse Forever)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 14 anos.
Direção: Lee Toland Krieger
Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Will McCormack, Ari Graynor
País: Estados Unidos
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Celeste e Jesse não estão mais casados, mas são amigos, se amam, mas não querem ficar juntos por terem objetivos diferentes na vida. Celeste quer uma pessoa estabilizada e madura o suficiente, e Jesse quer alguém para viver do amor e ter filhos. E aí?

O QUE TENHO A DIZER...
Celeste e Jesse Para Sempre é um filme pequeno e, digamos, um tanto independente. O roteiro é assinado por Rashida Jones e Will McCormack, ambos também atuam no filme: ela como a atriz principal e ele como um coadjuvante que tenta ser engraçado, aqueles que só aparecem nos filmes de comédia romântica pra tentar fazer uma piada que funcione frente a tantas que não funcionaram. Isso não resolve, como em toda formuleta de comédia romântica, mas também não chega a incomodar. E o filme é bem isso... não chega nunca a lugar algum, mas também não incomoda.

Ele tenta seguir uma narrativa parecida com a de De Repente É Amor (A Lot Like Love, 2005) ou Entre O Amor E A Paixão (Take This Waltz, 2011), mostrando as dificuldades, encontros e desencontros de uma vida juntos e de uma dúvida sobre se tudo o que o casal passou significa amor ou não.

O roteiro de Rashida e Will tenta colocar alguns estereótipos às avessas, e brincar com a condição de um casal jovem em um mundo moderno, onde quem é bem sucedido e workaholic é a mulher e a pessoa da casa, sensível e que deseja casar e ter filhos é o homem. A tentativa de fazer disso situações engraçadas é por vezes forçado e um tanto inadequado numa direção que não sabe pra que rumo levar tudo isso, mas, voltando a repetir, não incomoda, e acaba sendo o típico filme perfeito para ser assistido no fim da tarde ou no começo de uma madrugada, porque se você der uma cochilada no meio, não vai ter perdido muita coisa, e quando acordar vai ter a impressão de continuar exatamente onde parou.

Rashida Jones é uma atriz de filmes pequenos, que mais se destacou como atriz de comédias, isso é um pouco notável nas horas que o filme exige um pouco do seu drama. É pouco convincente e por vezes exagerado, mas ela é carismática mesmo dentro de seu estilo sarcástico de atuar. Andy Samberg é outro ator vindo da comédia e mais um daqueles que sairam da escola Saturday Night Live, mas o cara manda bem e consegue variar conforme a dança.

O filme fica o tempo todo na dúvida se Celeste e Jesse ficarão ou não juntos, e o final, embora não seja surpreendente, acaba sendo (digamos) diferente no contexto e um tanto gratificante por não ser de todo previsível.

Também não há como tentar deixar de lado comparações com o já clássico (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009), justamente por tratar da relação e do amor de forma um pouco mais realista e como ele realmente é na vida de verdade, sem jogar muito açúcar ou tentar provar para o espectador que tudo pode ser diferente quando sabemos que não é.

CONCLUSÃO...
Celeste e Jesse Para Sempre tenta ser um filme sensível, mas se perde em tantas tentativas de ser sério, engraçado, despretencioso, adulto e diferente, aparentando ser mais longo do que ele não é. O que embala a história é a vontade de saber o que é que vai acontecer e como tudo vai terminar. Não é nada muito genial, mas chega até a resultar numa moral honesta e verdadeira.

ZUMBIS TAMBÉM AMAM...

★★★★★★★
Título: Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies)
Ano: 2013
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Jonathan Levine
Elenco: Nicolas Hoult, Tereza Palmer, Analeigh Tipton, Rob Corddy
País: Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
R. é um zumbi diferente dos outros, que pensa, coleciona objetos alheios, ouve clássicos do rock e tenta descobrir qual é o seu lugar em um mundo de mortos e vivos, até o dia que ele come o cérebro de um humano e se apaixona pelas memórias do rapaz que remetem a uma jovem chamada Julie. A partir daí R. se apaixona pela humana e, na sua dificuldade zumbi de ser humano, tenta conquistá-la e mostrar que o seu coração morto pode voltar a bater.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é escrito e dirigido por Jonathan Levine, diretor que já tem alguns filmes no currículo, sendo o mais conhecido deles o comediodramático e forçado 50/50 (50%, 2011), que até fez sucesso, mas não o suficiente para ser relevante. Neste título fantasioso e satírico ele consegue se dar melhor do que no seu filme anterior, e isso de deve principalmente ao fato da total despretenção de colocá-lo forçadamente em algum lugar, como ele tentou com 50/50. Meu Namorado É Um Zumbi foi lançado discretamente e caiu no gosto do público, arrecadando mais de US$60 milhões só nos EUA.

É um daqueles poucos títulos que surgem uma vez ou outra, pegando um tema que está na moda e correndo contra a maré ao fazer disso a base de uma história inusitada e que tenta ser tão absurda quanto o mundo em que ela se passa, e que, por isso, acaba sendo coerente. Assim como aconteceu com o inesperado Distrito 9 (District 9, 2009), quando o diretor e roteirista Neill Blomkamp metaforizou o Aparteid ao transformar alienígenas em seres excluídos e demonizados pela sociedade, Meu Namorado também pega o mote de contar a história de personagens sistematicamente tidos como vilões e mostrar um ponto de vista mais humano e nunca imaginado. E assim ele constrói um mundo de mortos-vivos que podem pensar, amar e se recuperar dessa doença desde que eles sejam constantemente alimentados por uma fonte de vida chamada "amor". Parece banal e bobo, inusitado e também tão absurdo quanto, mas é por isso que funciona.

Levine usa o absurdo a seu favor para satirizar e brincar com um estilo que se tornou batido, e consegue dar um ar fresco para aquilo que parecia não ter mais conserto depois do exagero de filmes B que resolveram ressucitar os mortos-vivos nos últimos anos, além do seriado The Walking Dead, que pegou tudo que foi feito até hoje sobre o assunto e jogou em um liquidificador, chegando a fazer o diretor Danny Boyle a manter segredo absoluto sobre sua provavel idéia de dirigir/produzir uma terceira continução da excelente franquia Extermínio (28 Days Later/28 Weeks Later, 2002/2007) dizendo: "se eu disser qual é a idéia, eles irão usar em The Walking Dead".

Levine também pega uma leve carona e tenta criar uma atmosfera engraçada em cima de situações banais de produções acéfalas atuais e de gosto duvidoso, que colocam como plano principal casais adolescentes que sofrem por serem e viverem em naturezas distintas, como acontece com o casal Bella e Edward na Saga Crepúsculo. A referência a estes tipos insossos é tão forte que os atores principais são até parecidos com o da série citada, a grande diferença é que nada aqui é feito para ser levado a sério, e mesmo nada sendo levado a sério, os atores atuam melhor do que naquelas produções que tentam levar um absurdo a sério, como a saga mencionada.

Guiado por uma narrativa um tanto Braz Cubas de ser por conta de suas memórias póstumas e seus pensamentos sobre como seria a vida se ele ainda estivesse vivo, o zumbi R. não chega a ser cativante, mas o seu isolamento no mundo, a incompreensão de ser o que é e a tentativa de ser uma criatura melhor, conseguem ser. Talvez eu tenha achado tudo muito bonito depois de meia garrafa de vinho. Vai saber?!

Claro e óbvio que o filme não poderia deixar de abusar do desnecessário, inventando conflitos na regra de que para todo protagonista deve-se existir um antagonista, assim como para todo herói deve existir um anti-herói, pois os filmes comerciais obrigatoriamente necessitam dessas características para ser compreendido pelo público mediano. O que é uma pena, pois poderia facilmente ter abolido o desnecessário e mantido apenas o nível interessante, e que por muitas vezes ele tem.

De qualquer forma, nos momentos em que o diretor e roteirista esquece de se manter dentro de fórmuletas prontas, a história simples até consegue ser sensível sem ser piegas, e absurda sem ser forçada.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida o filme é uma grande surpresa nessa leva de produções do gênero, conseguindo ser um diferencial exatamente por ir contra a corrente. Mesmo contra a corrente ele ainda se mantém fiel a determinadas regras e manuais de como se fazer um filme, mas os prós são diferenciais suficientes para, aquilo que parecia ser uma idéia naufragada, emergir com algo que sacia aqueles que buscam por algo diferente, nem que seja pouco.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

DEL TORO E SUA FORMULETA JÁ CANSADA...

★★
Título: Mama
Ano: 2013
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Andrés Muschietti
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau
País: Espanha, Canadá
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Duas irmãs ficam órfãs em uma cabana no meio de uma floresta. Alguns anos depois elas são encontradas agindo de forma selvagem pelo tempo que ficaram fora da vida civilizada. Elas são levadas de volta para seu tio, o único membro da família que restou e que procurou incansavelmente por elas durante esses anos. Em uma fase de readaptação social e familiar, as duas irmãs demonstram melhoras, mas ainda há algum segredo guardado por elas e que foi trazido junto da floresta.

O QUE TENHO A DIZER...
Mama foi escrito e dirigido por Andrés Muschietti, um diretor argentino que tem mais experiência como produtor de televisão no seu país. O filme é baseado em um curta metragem dele mesmo, chamado Mamá, de 2008. O filme tentou pegar carona no sucesso de Jessica Chastain e sua segunda indicação consecutiva ao Oscar, o que funcionou muito bem, arrecadando mais de US$71 milhões só nos EUA, quantia relevante para um filme que custou US$15 milhões. Esperava-se que ele tivesse um sucesso maior no resto do mundo, o que não aconteceu. No Brasil, por exemplo, ele foi ofuscado pelo lançamento de Homem de Ferro 3, e passou despercebido, quase esquecido.

O elemento chave pelo sucesso modesto foi por ter levado em seu cartaz o nome do também todo-poderoso-mexicano Guilhermo Del Toro, que ficou famoso pelo fantasioso e metafórico O Labirito do Fauno (Pan's Labirith, 2006). Depois desse filme Guilhermo se dedicou mais nas produções do que na direção. Foi dessa safra de homem produtor que saiu uma pequena pérola chamada O Orfanato (El Orfanato, 2007), que chamou atenção pela sua mistura homogênea de diferentes sensações e caracterizou um estilo de filme que o Sr. Del Toro vem incansavelmente repetindo em títulos como Os Olhos de Julia (Los Ojos de Julia, 2010), Não Tenha Medo do Escuro (Don't Be Affraid Of The Dark, 2010) e agora, Mama.

Para quem já assistiu todos esses filmes anteriores produzidos por ele, não vai se impressionar nenhum pouco com essa história. Pelo contrário, ficará bastante decepcionado porque ele é apenas mais um filme que repete tudo o que já foi contado nos demais e mantém aquele suspense dramático que Guilhermo conseguiu reinventar, mas não conseguiu manter. Junto a isso tudo há as pitadas dos japoneses enlatados como O Grito (The Grudge, 2002), O Chamado (Ringu, 1998) e todos aqueles filmes de terror obcecados pelo excesso de cabelo. E a trama também não foje muito do também recente A Mulher de Preto (The Woman In Black, 2012), um filme muito mais modesto, também cheio de fórmulas repetidas, porém muito melhor construído e mais coerente dentro de sua simplicidade.

Embora Muschietti exagere bastante na construção de tomadas dinâmicas e enquadramentos perfeitos que tentam flambar um lirismo que não se encaixa, o filme pode até ser visualmente bem feito, mas não sai daquela sensação barata de que já vimos isso tudo antes em algum lugar... e o "algum lugar" são todos os filmes que citei anteriormente. Soma-se a isso a incansável insistência de exagerarem nos (d)efeitos especiais, que mais causam constrangimento do que a tentativa de susto, ou personagens com uma construção sem nexo, como o fato da personagem de Jessica Chastain ser roqueira e toda tatuada, o que não traz acréscimo algum a qualquer ponto do filme.

Não é de hoje que o cinema vem mostrando cansaço nos filmes de horror, um cansaço que está levando o gênero para sua auto-destruição. Seria muito mais simples se levassem a produção desses filmes a sério ao invés de quererem tansformá-los em previsíveis blockbusters, o que não vem acontecendo há muito tempo, e mesmo assim a insistência persiste.


CONCLUSÃO...
Situações sem nexo e mal explicadas, além de demais defeitos recorrentes da repetitividade do estilo fazem de Mama um grande alarde para algo bem insignificante. Mais um daqueles que o público adolescente pode adorar, mas vai ser um pé no saco principalmente para aqueles que já devoraram todos os outros filmes produzidos por Del Toro, imaginando que pudessem ser igualmente surpreendentes, e não foram tanto quanto esse novamente não é.

sábado, 27 de abril de 2013

IMPRESSIONA OS NOVOS, MAS NÃO OS MACACOS VELHOS...

★★★★★
Título: Oblivion
Ano: 2013
Gênero: Ação, Ficção Científica
Classificação: 12 anos
Direção: Joseph Kosinski
Elenco: Tom Cruise, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough, Morgan Freeman
País: Estados Unidos
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem enviado a Terra para ajudar a explorar os últimos recursos existentes para a humanidade que agora habita um novo planeta após vencerem uma guerra contra alienígenas, começa a levantar questões fundamentais sobre sua missão e sua existência.

O QUE TENHO A DIZER...
Oblivion foi escrito e dirigido por Joseph Kosinski, o mesmo da continuação-tardia-mas-um-pouco-decepcionante-porém-boa-mesmo-assim de Tron: O Legado (Tron: Legacy, 2010). Ele não é um diretor de muitos trabalhos, não. Oblivion é seu segundo filme, e para quem assistiu o primeiro longa, vai notar muitas semelhanças nesta nova empreitada do diretor na ficção científica.

O filme conseguiu estrear em primeiro lugar nos EUA, mas não foi lá grandes coisas, arrecadando um pouco mais de US$35 milhões no primeiro final de semana. De qualquer forma é algo a se relevar, já que demonstra que, apesar dos pesares, Tom Cruise ainda continua sendo um forte nome no cinema.

Um nome forte no cinema, porém um ator já cansado. Cruise se esforça em se mostrar jovial e até consegue aparentar ter uns 15 anos a menos dos 51 que vai completar, mas sua atuação é a mesma desde de Top Gun (1986), fazendo as mesmas caras nas mesmas situações. Enfim, não há mais novidade para ele apresentar. Cruise ainda atrai público porque seu nome está sempre ligado a grandes produções que ele faz questão de pessoalmente interferir para garantir um selo de qualidade, seja como produtor ou não. As qualidades existem, mas nem por isso faz de seus filmes algo bom.

Fiquei bastante interessado no título ainda no ano passado, quando comentários sobre ele surgiram e os boatos pipocavam em torno de todo o visual futurista. Certamente, assim como Tron: O Legado, Kosinski exagera no deslumbre dos cenários grandiosos e inóspitos. Dessa vez estamos em um mundo pós-apocaliptico que, mesmo trazendo certa angústia, não deixa de ser belo. Junto a isso, novamente a trilha sonora é o grande destaque, pois outra vez segue os mesmos elementos do filme anterior do diretor. Claro que logo quando o filme começa, percebemos que muitas referências a Van Halen e sua icônica trilha sonora de Blade Runner nunca será o bastante, incrementando um clima sombrio mesmo sob o ardente Sol.

O suspense é sempre o ponto alto do filme. O diretor faz malabarismos com a câmera para dar agilidade e dinamismo nos momentos que o filme pede, mas boa parte do filme tudo é muito contidos, e a câmera geralmente está sempre de frente do protagonista solitário, que se interage apenas com o meio e a tecnologia, nos impedindo de saber o que está pela frente e ao seu redor, criando aquela expectativa de que a qualquer momento algo pode acontecer, numa tensão natural.

Mas assim como na trilha sonora, Oblivion também exagera em referências como um todo sobre clássicos desde Star Wars, 2001 e Jornada Nas Estrelas até os mais modernos como Matrix e o excelente, ignorado e raramente visto Lunar (Moon, 2009). Mesmo tentando dar um certo ar inovador, não é possível ignorar ou fingir que não existem semelhanças. O grande erro do filme é acabar entrando nos clichés comuns das ficções científicas que querem abranger um grande público, o mesmo erro cometido pelo fracassado Prometheus (2012), por exemplo. Tudo começa muito bem, mas depois de uns 40 minutos o espectador já manjado passa a simplesmente ver pratos repetidos de ficções científicas anteriores, numa miscelânia bastante identificável, além de se tornar previsível e, dizendo o bem da verdade, cansativo. Sem comentar que o momento em que Morgan Freeman aparece não poderia ter sido mais exagerado. Nos últimos 10 anos o ator parece que deixou de trabalhar por bons papéis e passou a trabalhar por uma necessidade, sua credibilidade só não caiu porque a popularidade que ele tem sempre foi alta, e eu não entendo o por quê. Morgan tem exagerado no cinismo e feito questão de aceitar os papeis sempre com aquele ar de que está zombando da cara do espectador, e eu não gosto de ter essa sensação.

Oblivion tenta ser ousado na medida do que é possível em Hollywood, mas não decola e muito menos convence. A falta de explicações de certas coisas importantes e o exagero de explicações para coisas menos relevantes deixam o filme com um um ar sonso, coisa de quem não tinha a mínima idéia do que estava fazendo ou para onde queria levar a história.

CONCLUSÃO...
Infelizmente é mais um filme que irá enganar bastante uma nova geração que pouco conhece a tragetória da ficção científica no cinema, ou o público que pouco saiba identificar as referências (ou genéricos) utilizadas(os), ou até mesmo aqueles que pouco ligam pra isso ou nada sabem. Bonito, sim. Visualmente deslumbrante, também. Mas só, pois a verdade é que ele não impressiona os macacos velhos. 
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