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segunda-feira, 24 de junho de 2013

FE-FI-FO-FLOP!

★★★★★★
Título: Jack, O Caçador de Gigantes (Jack, The Giant Slayer)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 10 anos
Direção: Brian Synger
Elenco:
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Jack é um jovem plebeu que cresceu ouvindo história de gigantes que devoravam humanos e foram expulsos para um território entre o céu e a terra. Um dia o destino lhe coloca nas mãos um punhado de feijões que podem mudar o curso de toda a humanidade caso germinem. E acreditem, um deles germina.

O QUE TENHO A DIZER...
Jack, O Caçador de Gigantes é dirigido pelo ganacioso e orgulhoso Bryan Singer. O filme é baseado no conto inglês por aqui conhecido como João e o Pé de Feijão e foi um dos maiores imediatos fracassos de bilheteria do ano, entrou para um dos maiores da história e é o grande primeiro fracasso da vida do diretor. O filme custou aproximadamente US$195 milhões, e arrecadou "apenas", e com muito sacrifício, um pouco mais de US$ 65 milhões só nos EUA. Ou seja, nem ao menos a metade. Isso para um diretor qualquer seria um suicídio na carreira, bem como já aconteceu com tantos outros, porém Singer tem a sorte de estar ligado a uma franquia que pode ressucitar sua carreira quando ele quiser, a dos X-Men. Isto é... se tudo correr bem.

Aliás, foi a partir dessa franquia que o diretor ficou famoso, mas chegou a esnobá-la ao abandonar a FOX e migrar para a concorrente Warner para dirigir o esquecível Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006), no interesse grandioso de transformá-lo em uma grande nova referência dos filmes de super-heróis. Com um sucesso mediano e bastante aquém do que a Warner esperava, o diretor foi posto na geladeira por um tempo. Ao mesmo tempo, X-Men - O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006), a terceira parte da franquia que Singer desistiu de dirigir, também não foi lá grandes coisas e recebeu um jorro de críticas negativas principalmente pelos fãs.

Foi por conta disso que, em 2008, o diretor foi convidado para dirigir o reboot dos mutantes, X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). Singer diz para a mídia que negou o convite por conflitos de agenda, pois estava "mergulhado" na produção de João, um projeto pessoal que há muito ele queria fazer, porém a impressão que se tem vai além disso, e aparenta que a concorrente Warner não aceitou dispensá-lo para voltar a FOX sem antes lhe render mais um produto descartável para uma leva de filmes baseados em contos de fada (tanto que após a conclusão de João, Singer retomou as rédeas dos mutantes e dirigirá o próximo capítulo do reboot, Dias De Um Passado Esquecido).

Ok, João não desaponta, e dentre os filmes baseados em contos de fada, ele é de longe o mais considerável. O personagem principal é interpretado por Nicholas Hoult, o zumbi simpático de Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies, 2013), ele não precisa de muito para convencer, mas tem um bom desempenho mesmo assim. O filme já começa grandioso, do jeito que Singer aprendeu a gostar, espetaculoso, com uma narrativa de abertura semalhante a de O Senhor Dos Anéis, cheio de efeitos e trilha sonora orquestrada recheada de rompantes sonoros estridentes para motivar e chamar a atenção logo no começo até mesmo os pouco interessados.

A história parte do princípio de que a história dos gigantes é uma história. Entenderam? Essa história era lida por duas pessoas muito distintas: uma rainha, que contava a história para sua filha, e um plebeu, que contava a história para seu filho. Isso já deixa claro que, em algum momento do filme o destino os unirá, e isso acontece quando o feijão germina e leva para a terra de gigantes a casa de João com a princesa dentro, e João fica na terra dos pequenos, inconsciente depois de ter caído do pé enquanto ele crescia. O rei, apavorado, envia uma leva de pessoas para resgatar a princesa, e João se voluntaria porque está apaixonado (óbvio).

O enredo é infantil, mas não há como negar que Singer sabe conduzir uma história, por mais banal que seja, dando um dinamismo e uma versatilidade que deixa tudo muito interessante mesmo nas situações mais banais. Os efeitos especiais são deslumbrantes, e ficam mais interessantes por não terem a intenção de ser perfeito, já que os gigantes são desformes de forma caricata, e com uma postura assustadora apenas para deixar criancinhas de olhos esbugalhados, vidrados no filme. Enfim, a gente vê na tela de forma explícita onde os US$195 milhões foram usados.

Mas é aquela coisa... conto de fada é conto de fada e essas histórias já fazem parte de um consciente coletivo que já demonstrou que não estã interessado em visões particulares sobre ela. Uma coisa é você ouvir ou ler uma delas, outra coisa é você tentar engolir uma imaginação já pronta. É a mesma coisa que a vida toda você acreditar que Chapeuzinho Vermelho tem os cabelos castanhos escuros, e de repente aparece Amanda Seyfried mais loura que palha de milho. É difícil.

CONCLUSÃO...
Por melhores que tenham sido as intenções de Singer, o filme é grandioso e não chega a ser uma perda de tempo, mas é um fracasso considerável e que nos faz questionar se adaptações de contos de fadas são realmente necessárias em um mundo onde novos contos podem surgir.

domingo, 23 de junho de 2013

INCÔMODO, PORÉM CORAJOSO...

★★★★★★★
Título: Segredos de Sangue
Ano: 2013
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Chan-wook Park
Elenco: Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode, Dermont Mulroney, Jacki Weaver
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 99 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
India Stoker fez 18 anos e perdeu o seu pai. Ela viveria apenas com sua mãe caso não chegasse Charles Stoker, irmão do seu pai e o qual ela nunca soube que existia, nascendo uma relação de distanciamento e afinidades que culminarão em segredos que definirão sua nova fase de vida.

O QUE TENHO A DIZER...
Segredos de Sangue é dirigido pelo sul coreano Chan-wook Park. É seu primeiro filme em inglês, cujo roteiro é curiosamente assinado pelo ator Wentworth Miller, conhecido pelo seu papel principal em Prision Break. O roteiro fez parte da Black List de 2010, uma lista feita todos os anos contendo os melhores roteiros que ainda não foram produzidos.

Basicamente conta a história de India Stoker (Mia Wasikowska), uma garota inteligente e de classe média alta, que vive em um mundo particular de observação, de constante desconfiança, avessa a determinadas regras sociais e que tem a forte tendência de contrariar ordens, principalmente quando partem de sua mãe. India gosta de observar e ouvir pequenas coisas, ler e explorar o mundo que a rodeia por um ponto de vista por vezes estranho e obscuro, como uma foto em negativo. Ela não tem amigos, nunca namorou e as únicas relações próximas eram com seu pai, Richard Stoker (Dermont Mulroney), e seu piano. Sua relação com sua mãe, Evelyn Stoker (Nicole Kidman), é conturbada, em um misto de distância, mágoa e um afeto que existe, mas nunca ultrapassa um determinado limite. A vida de India e Evelyn mudam completamente quando Charles Stoker (Mathew Goode) aparece no velório de seu irmão. India trata seu tio com estranheza como a um intruso por nunca ter tido conhecimento de sua existência, e Evelyn se encanta com as constantes gentilezas do cunhado, do bom gosto e da beleza jovial que ela há muito não conhecia.

Falar muito sobre o filme é como estragar determinadas surpresas, pois não há como negar que, mesmo entre uns tropeços e outros, Segredos de Sangue é um filme corajoso e, de certa forma, audacioso em Hollywood, pois é um daqueles raros filmes que é desconfortável e que em nenhum momento cria uma conexão de afinidade com o espectador, seja na história ou com qualquer um dos personagens. O filme cresce numa tensão e em uma sucessão de erros que se tornam coerentes dentro da natureza que vive cada um dos arquétipos retratados pelos personagens.

O suspense traçado muitas vezes é bastante similar com o hitchcockiano. Obviamente que não chega a ter o mesmo peso sutil e a classe do mestre, mas essa tentativa existe e é válida o tempo todo numa fotografia caprichada, limpa e que evita os excessos para evidenciar as personas e as situações construídas entre eles. O diretor também se atenta na câmera estática, enfatizando a calma e o sossego rotineiro do território bucólico que India vive e que no decorrer do filme se torna assustador por ser belo e esconder segredos muitas vezes mórbidos.

Uma das características hitchicockianas mais fortes no filme são as interpretações friamente calculadas e milimetricamente detalhadas. Todas as ações dos personagens, um gesto, um olhar, um caminhar, uma forma de parar frente a câmera... tudo parece ensaiado e calculado diversas vezes para causar sempre a melhor impressão e ter um sentido sublime para aquela situação específica. E funciona, pois não é mecânico, mas é frio e bonito. Algo raro de se ver.

O tema, para ser mais explícito e didático, sem ser um fator que estrague as surpresas do filme, é mais um daqueles que tenta transpor de forma mais humana determinadas psicopatologias como a sociopatia psicótica, mostrando que uma doença psiquiatrica estabelecida desde a infância culmina em atitudes imprudentes que podem ser compreendidas, embora difíceis de serem aceitas por uma sociedade comum. A especialista em criminologia Ilana Casoy, autora do livro Serial Killer - Louco ou Cruel?, deu uma entrevista há alguns anos explicando que é muito fácil para a população leiga condenar um assassino, mas o que essas mesmas pessoas desconhecem e não fazem questão de ter conhecimentosão das razões e dos fatores psicossociais que levaram essa pessoa a cometer um crime. Não que isso justifique o ato, mas coloca a pensar que, para os conflitos internos e existentes na psiquê dessa pessoa, isso é algo coerente. Uma doença de fato que deve ser tratada como tal, e não simplesmente posta para um julgamento qualquer. Mas para isso ser feito é necessário, a princípio, a compreensão de seu mundo particular.

O elenco caiu como uma luva. Mia Wasikowska sem dúvida está entrando para a mesma lista de grandes e jovens atrizes de sua geração, no mesmo patamar que a popular e querida Jennifer Lawrence, Juno Temple ou a um pouco mais nova Saoirse Ronan, naquela versatilidade de poder ser uma atriz menina a uma jovem adulta apenas numa mudança de postura ou em um olhar. Nicole Kidman realmente se sai melhor em filmes pequenos e ousados, conseguindo oferecer curtos momentos de uma interpretação que chega ao sublime por atingir o sofrimento emocional e demonstrá-lo com pouco. Sutil e contida, impressionando até mesmo eu, que nunca fui seu fã. Matthew Goode não só impressiona como seu semblante carregado no cinismo e na perversão é bastante assustador, um personagem que realmente marca, daqueles que mesmo assistindo outros filmes com o ator, com outros personagens, será difícil desassociar.

Há muitas resenhas e sinopses do filme que informam erroneamente que India sofre maus tratos da mãe, ou que sua mãe sofre de instabilidade emocional crônica. Isso tudo é mentira, ou ao menos o filme nunca deixa qualquer uma dessas duas alternativas explícitas. A instabilidade emocional de Evelyn existe tal qual a de India justamente pelo filme se passar logo após a morte de Richard, o que é bastante compreensivo.

Os grandes problemas do desenvolvimento surgem quando a história não esclarece determinadas situações, como a razão da relação entre India e sua mãe serem tão distantes. Seria isso uma referência batida ao Complexo de Édipo? Os breves conflitos entre a governanta ou da tia Gwendolyn Stoker (Jacki Weaver, sempre muito boa) com Charles também aparentam serem fúteis e desnecessários, além da indiferença e do consentimento de India com várias situações soar forçado, por mais que tudo aparente familiar e natural para ela.

CONCLUSÃO...
De qualquer forma, Segredos de Sangue é um filme para poucos, que explora bastante o psicológico de seus personagens principais que crescem gradualmente em uma sucessão de fatos distorcidos, surpreendendo o espectador por não fugir de sua idéia principal em nenhum momento, além de nunca ter a intenção de incrementar a história com elementos que possam atenuar o que incomoda para o bem de um público que sempre espera um final feliz ou satisfatório.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE?

★★★★★★
Título: Celeste e Jesse Para Sempre (Celeste & Jesse Forever)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 14 anos.
Direção: Lee Toland Krieger
Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Will McCormack, Ari Graynor
País: Estados Unidos
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Celeste e Jesse não estão mais casados, mas são amigos, se amam, mas não querem ficar juntos por terem objetivos diferentes na vida. Celeste quer uma pessoa estabilizada e madura o suficiente, e Jesse quer alguém para viver do amor e ter filhos. E aí?

O QUE TENHO A DIZER...
Celeste e Jesse Para Sempre é um filme pequeno e, digamos, um tanto independente. O roteiro é assinado por Rashida Jones e Will McCormack, ambos também atuam no filme: ela como a atriz principal e ele como um coadjuvante que tenta ser engraçado, aqueles que só aparecem nos filmes de comédia romântica pra tentar fazer uma piada que funcione frente a tantas que não funcionaram. Isso não resolve, como em toda formuleta de comédia romântica, mas também não chega a incomodar. E o filme é bem isso... não chega nunca a lugar algum, mas também não incomoda.

Ele tenta seguir uma narrativa parecida com a de De Repente É Amor (A Lot Like Love, 2005) ou Entre O Amor E A Paixão (Take This Waltz, 2011), mostrando as dificuldades, encontros e desencontros de uma vida juntos e de uma dúvida sobre se tudo o que o casal passou significa amor ou não.

O roteiro de Rashida e Will tenta colocar alguns estereótipos às avessas, e brincar com a condição de um casal jovem em um mundo moderno, onde quem é bem sucedido e workaholic é a mulher e a pessoa da casa, sensível e que deseja casar e ter filhos é o homem. A tentativa de fazer disso situações engraçadas é por vezes forçado e um tanto inadequado numa direção que não sabe pra que rumo levar tudo isso, mas, voltando a repetir, não incomoda, e acaba sendo o típico filme perfeito para ser assistido no fim da tarde ou no começo de uma madrugada, porque se você der uma cochilada no meio, não vai ter perdido muita coisa, e quando acordar vai ter a impressão de continuar exatamente onde parou.

Rashida Jones é uma atriz de filmes pequenos, que mais se destacou como atriz de comédias, isso é um pouco notável nas horas que o filme exige um pouco do seu drama. É pouco convincente e por vezes exagerado, mas ela é carismática mesmo dentro de seu estilo sarcástico de atuar. Andy Samberg é outro ator vindo da comédia e mais um daqueles que sairam da escola Saturday Night Live, mas o cara manda bem e consegue variar conforme a dança.

O filme fica o tempo todo na dúvida se Celeste e Jesse ficarão ou não juntos, e o final, embora não seja surpreendente, acaba sendo (digamos) diferente no contexto e um tanto gratificante por não ser de todo previsível.

Também não há como tentar deixar de lado comparações com o já clássico (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009), justamente por tratar da relação e do amor de forma um pouco mais realista e como ele realmente é na vida de verdade, sem jogar muito açúcar ou tentar provar para o espectador que tudo pode ser diferente quando sabemos que não é.

CONCLUSÃO...
Celeste e Jesse Para Sempre tenta ser um filme sensível, mas se perde em tantas tentativas de ser sério, engraçado, despretencioso, adulto e diferente, aparentando ser mais longo do que ele não é. O que embala a história é a vontade de saber o que é que vai acontecer e como tudo vai terminar. Não é nada muito genial, mas chega até a resultar numa moral honesta e verdadeira.

ZUMBIS TAMBÉM AMAM...

★★★★★★★
Título: Meu Namorado É Um Zumbi (Warm Bodies)
Ano: 2013
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Jonathan Levine
Elenco: Nicolas Hoult, Tereza Palmer, Analeigh Tipton, Rob Corddy
País: Estados Unidos
Duração: 98 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
R. é um zumbi diferente dos outros, que pensa, coleciona objetos alheios, ouve clássicos do rock e tenta descobrir qual é o seu lugar em um mundo de mortos e vivos, até o dia que ele come o cérebro de um humano e se apaixona pelas memórias do rapaz que remetem a uma jovem chamada Julie. A partir daí R. se apaixona pela humana e, na sua dificuldade zumbi de ser humano, tenta conquistá-la e mostrar que o seu coração morto pode voltar a bater.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é escrito e dirigido por Jonathan Levine, diretor que já tem alguns filmes no currículo, sendo o mais conhecido deles o comediodramático e forçado 50/50 (50%, 2011), que até fez sucesso, mas não o suficiente para ser relevante. Neste título fantasioso e satírico ele consegue se dar melhor do que no seu filme anterior, e isso de deve principalmente ao fato da total despretenção de colocá-lo forçadamente em algum lugar, como ele tentou com 50/50. Meu Namorado É Um Zumbi foi lançado discretamente e caiu no gosto do público, arrecadando mais de US$60 milhões só nos EUA.

É um daqueles poucos títulos que surgem uma vez ou outra, pegando um tema que está na moda e correndo contra a maré ao fazer disso a base de uma história inusitada e que tenta ser tão absurda quanto o mundo em que ela se passa, e que, por isso, acaba sendo coerente. Assim como aconteceu com o inesperado Distrito 9 (District 9, 2009), quando o diretor e roteirista Neill Blomkamp metaforizou o Aparteid ao transformar alienígenas em seres excluídos e demonizados pela sociedade, Meu Namorado também pega o mote de contar a história de personagens sistematicamente tidos como vilões e mostrar um ponto de vista mais humano e nunca imaginado. E assim ele constrói um mundo de mortos-vivos que podem pensar, amar e se recuperar dessa doença desde que eles sejam constantemente alimentados por uma fonte de vida chamada "amor". Parece banal e bobo, inusitado e também tão absurdo quanto, mas é por isso que funciona.

Levine usa o absurdo a seu favor para satirizar e brincar com um estilo que se tornou batido, e consegue dar um ar fresco para aquilo que parecia não ter mais conserto depois do exagero de filmes B que resolveram ressucitar os mortos-vivos nos últimos anos, além do seriado The Walking Dead, que pegou tudo que foi feito até hoje sobre o assunto e jogou em um liquidificador, chegando a fazer o diretor Danny Boyle a manter segredo absoluto sobre sua provavel idéia de dirigir/produzir uma terceira continução da excelente franquia Extermínio (28 Days Later/28 Weeks Later, 2002/2007) dizendo: "se eu disser qual é a idéia, eles irão usar em The Walking Dead".

Levine também pega uma leve carona e tenta criar uma atmosfera engraçada em cima de situações banais de produções acéfalas atuais e de gosto duvidoso, que colocam como plano principal casais adolescentes que sofrem por serem e viverem em naturezas distintas, como acontece com o casal Bella e Edward na Saga Crepúsculo. A referência a estes tipos insossos é tão forte que os atores principais são até parecidos com o da série citada, a grande diferença é que nada aqui é feito para ser levado a sério, e mesmo nada sendo levado a sério, os atores atuam melhor do que naquelas produções que tentam levar um absurdo a sério, como a saga mencionada.

Guiado por uma narrativa um tanto Braz Cubas de ser por conta de suas memórias póstumas e seus pensamentos sobre como seria a vida se ele ainda estivesse vivo, o zumbi R. não chega a ser cativante, mas o seu isolamento no mundo, a incompreensão de ser o que é e a tentativa de ser uma criatura melhor, conseguem ser. Talvez eu tenha achado tudo muito bonito depois de meia garrafa de vinho. Vai saber?!

Claro e óbvio que o filme não poderia deixar de abusar do desnecessário, inventando conflitos na regra de que para todo protagonista deve-se existir um antagonista, assim como para todo herói deve existir um anti-herói, pois os filmes comerciais obrigatoriamente necessitam dessas características para ser compreendido pelo público mediano. O que é uma pena, pois poderia facilmente ter abolido o desnecessário e mantido apenas o nível interessante, e que por muitas vezes ele tem.

De qualquer forma, nos momentos em que o diretor e roteirista esquece de se manter dentro de fórmuletas prontas, a história simples até consegue ser sensível sem ser piegas, e absurda sem ser forçada.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida o filme é uma grande surpresa nessa leva de produções do gênero, conseguindo ser um diferencial exatamente por ir contra a corrente. Mesmo contra a corrente ele ainda se mantém fiel a determinadas regras e manuais de como se fazer um filme, mas os prós são diferenciais suficientes para, aquilo que parecia ser uma idéia naufragada, emergir com algo que sacia aqueles que buscam por algo diferente, nem que seja pouco.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

DEL TORO E SUA FORMULETA JÁ CANSADA...

★★
Título: Mama
Ano: 2013
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Andrés Muschietti
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau
País: Espanha, Canadá
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Duas irmãs ficam órfãs em uma cabana no meio de uma floresta. Alguns anos depois elas são encontradas agindo de forma selvagem pelo tempo que ficaram fora da vida civilizada. Elas são levadas de volta para seu tio, o único membro da família que restou e que procurou incansavelmente por elas durante esses anos. Em uma fase de readaptação social e familiar, as duas irmãs demonstram melhoras, mas ainda há algum segredo guardado por elas e que foi trazido junto da floresta.

O QUE TENHO A DIZER...
Mama foi escrito e dirigido por Andrés Muschietti, um diretor argentino que tem mais experiência como produtor de televisão no seu país. O filme é baseado em um curta metragem dele mesmo, chamado Mamá, de 2008. O filme tentou pegar carona no sucesso de Jessica Chastain e sua segunda indicação consecutiva ao Oscar, o que funcionou muito bem, arrecadando mais de US$71 milhões só nos EUA, quantia relevante para um filme que custou US$15 milhões. Esperava-se que ele tivesse um sucesso maior no resto do mundo, o que não aconteceu. No Brasil, por exemplo, ele foi ofuscado pelo lançamento de Homem de Ferro 3, e passou despercebido, quase esquecido.

O elemento chave pelo sucesso modesto foi por ter levado em seu cartaz o nome do também todo-poderoso-mexicano Guilhermo Del Toro, que ficou famoso pelo fantasioso e metafórico O Labirito do Fauno (Pan's Labirith, 2006). Depois desse filme Guilhermo se dedicou mais nas produções do que na direção. Foi dessa safra de homem produtor que saiu uma pequena pérola chamada O Orfanato (El Orfanato, 2007), que chamou atenção pela sua mistura homogênea de diferentes sensações e caracterizou um estilo de filme que o Sr. Del Toro vem incansavelmente repetindo em títulos como Os Olhos de Julia (Los Ojos de Julia, 2010), Não Tenha Medo do Escuro (Don't Be Affraid Of The Dark, 2010) e agora, Mama.

Para quem já assistiu todos esses filmes anteriores produzidos por ele, não vai se impressionar nenhum pouco com essa história. Pelo contrário, ficará bastante decepcionado porque ele é apenas mais um filme que repete tudo o que já foi contado nos demais e mantém aquele suspense dramático que Guilhermo conseguiu reinventar, mas não conseguiu manter. Junto a isso tudo há as pitadas dos japoneses enlatados como O Grito (The Grudge, 2002), O Chamado (Ringu, 1998) e todos aqueles filmes de terror obcecados pelo excesso de cabelo. E a trama também não foje muito do também recente A Mulher de Preto (The Woman In Black, 2012), um filme muito mais modesto, também cheio de fórmulas repetidas, porém muito melhor construído e mais coerente dentro de sua simplicidade.

Embora Muschietti exagere bastante na construção de tomadas dinâmicas e enquadramentos perfeitos que tentam flambar um lirismo que não se encaixa, o filme pode até ser visualmente bem feito, mas não sai daquela sensação barata de que já vimos isso tudo antes em algum lugar... e o "algum lugar" são todos os filmes que citei anteriormente. Soma-se a isso a incansável insistência de exagerarem nos (d)efeitos especiais, que mais causam constrangimento do que a tentativa de susto, ou personagens com uma construção sem nexo, como o fato da personagem de Jessica Chastain ser roqueira e toda tatuada, o que não traz acréscimo algum a qualquer ponto do filme.

Não é de hoje que o cinema vem mostrando cansaço nos filmes de horror, um cansaço que está levando o gênero para sua auto-destruição. Seria muito mais simples se levassem a produção desses filmes a sério ao invés de quererem tansformá-los em previsíveis blockbusters, o que não vem acontecendo há muito tempo, e mesmo assim a insistência persiste.


CONCLUSÃO...
Situações sem nexo e mal explicadas, além de demais defeitos recorrentes da repetitividade do estilo fazem de Mama um grande alarde para algo bem insignificante. Mais um daqueles que o público adolescente pode adorar, mas vai ser um pé no saco principalmente para aqueles que já devoraram todos os outros filmes produzidos por Del Toro, imaginando que pudessem ser igualmente surpreendentes, e não foram tanto quanto esse novamente não é.

sábado, 27 de abril de 2013

IMPRESSIONA OS NOVOS, MAS NÃO OS MACACOS VELHOS...

★★★★★
Título: Oblivion
Ano: 2013
Gênero: Ação, Ficção Científica
Classificação: 12 anos
Direção: Joseph Kosinski
Elenco: Tom Cruise, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough, Morgan Freeman
País: Estados Unidos
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem enviado a Terra para ajudar a explorar os últimos recursos existentes para a humanidade que agora habita um novo planeta após vencerem uma guerra contra alienígenas, começa a levantar questões fundamentais sobre sua missão e sua existência.

O QUE TENHO A DIZER...
Oblivion foi escrito e dirigido por Joseph Kosinski, o mesmo da continuação-tardia-mas-um-pouco-decepcionante-porém-boa-mesmo-assim de Tron: O Legado (Tron: Legacy, 2010). Ele não é um diretor de muitos trabalhos, não. Oblivion é seu segundo filme, e para quem assistiu o primeiro longa, vai notar muitas semelhanças nesta nova empreitada do diretor na ficção científica.

O filme conseguiu estrear em primeiro lugar nos EUA, mas não foi lá grandes coisas, arrecadando um pouco mais de US$35 milhões no primeiro final de semana. De qualquer forma é algo a se relevar, já que demonstra que, apesar dos pesares, Tom Cruise ainda continua sendo um forte nome no cinema.

Um nome forte no cinema, porém um ator já cansado. Cruise se esforça em se mostrar jovial e até consegue aparentar ter uns 15 anos a menos dos 51 que vai completar, mas sua atuação é a mesma desde de Top Gun (1986), fazendo as mesmas caras nas mesmas situações. Enfim, não há mais novidade para ele apresentar. Cruise ainda atrai público porque seu nome está sempre ligado a grandes produções que ele faz questão de pessoalmente interferir para garantir um selo de qualidade, seja como produtor ou não. As qualidades existem, mas nem por isso faz de seus filmes algo bom.

Fiquei bastante interessado no título ainda no ano passado, quando comentários sobre ele surgiram e os boatos pipocavam em torno de todo o visual futurista. Certamente, assim como Tron: O Legado, Kosinski exagera no deslumbre dos cenários grandiosos e inóspitos. Dessa vez estamos em um mundo pós-apocaliptico que, mesmo trazendo certa angústia, não deixa de ser belo. Junto a isso, novamente a trilha sonora é o grande destaque, pois outra vez segue os mesmos elementos do filme anterior do diretor. Claro que logo quando o filme começa, percebemos que muitas referências a Van Halen e sua icônica trilha sonora de Blade Runner nunca será o bastante, incrementando um clima sombrio mesmo sob o ardente Sol.

O suspense é sempre o ponto alto do filme. O diretor faz malabarismos com a câmera para dar agilidade e dinamismo nos momentos que o filme pede, mas boa parte do filme tudo é muito contidos, e a câmera geralmente está sempre de frente do protagonista solitário, que se interage apenas com o meio e a tecnologia, nos impedindo de saber o que está pela frente e ao seu redor, criando aquela expectativa de que a qualquer momento algo pode acontecer, numa tensão natural.

Mas assim como na trilha sonora, Oblivion também exagera em referências como um todo sobre clássicos desde Star Wars, 2001 e Jornada Nas Estrelas até os mais modernos como Matrix e o excelente, ignorado e raramente visto Lunar (Moon, 2009). Mesmo tentando dar um certo ar inovador, não é possível ignorar ou fingir que não existem semelhanças. O grande erro do filme é acabar entrando nos clichés comuns das ficções científicas que querem abranger um grande público, o mesmo erro cometido pelo fracassado Prometheus (2012), por exemplo. Tudo começa muito bem, mas depois de uns 40 minutos o espectador já manjado passa a simplesmente ver pratos repetidos de ficções científicas anteriores, numa miscelânia bastante identificável, além de se tornar previsível e, dizendo o bem da verdade, cansativo. Sem comentar que o momento em que Morgan Freeman aparece não poderia ter sido mais exagerado. Nos últimos 10 anos o ator parece que deixou de trabalhar por bons papéis e passou a trabalhar por uma necessidade, sua credibilidade só não caiu porque a popularidade que ele tem sempre foi alta, e eu não entendo o por quê. Morgan tem exagerado no cinismo e feito questão de aceitar os papeis sempre com aquele ar de que está zombando da cara do espectador, e eu não gosto de ter essa sensação.

Oblivion tenta ser ousado na medida do que é possível em Hollywood, mas não decola e muito menos convence. A falta de explicações de certas coisas importantes e o exagero de explicações para coisas menos relevantes deixam o filme com um um ar sonso, coisa de quem não tinha a mínima idéia do que estava fazendo ou para onde queria levar a história.

CONCLUSÃO...
Infelizmente é mais um filme que irá enganar bastante uma nova geração que pouco conhece a tragetória da ficção científica no cinema, ou o público que pouco saiba identificar as referências (ou genéricos) utilizadas(os), ou até mesmo aqueles que pouco ligam pra isso ou nada sabem. Bonito, sim. Visualmente deslumbrante, também. Mas só, pois a verdade é que ele não impressiona os macacos velhos. 

sábado, 2 de março de 2013

SUTILEZA E DISCRIÇÃO QUE CHAMAM ATENÇÃO...

★★★★★★★
Título: As Sessões (The Sessions)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ben Lewin
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um poeta que vive em um pulmão de aço e resolve contratar uma terapeuta sexual para perder a sua virgindade. 
O QUE TENHO A DIZER...
As Sessões é um filme que vaga entre a comédia e o drama de forma muito natural e sem exageros de nenhuma forma. Na verdade o filme não tem pretensões alguma de ser qualquer coisa, apenas uma forma de mostrar um ponto de vista humano e motivador mesmo dentro de uma vida limitada como a do poeta, jornalista e advogado Mark O'Brian, que contraiu poliomielite aos seis anos de idade. A doença fez com que todos os músculos do seu corpo deixassem de funcionar corretamente, o que o deixou em uma condição paralisada e extremamente limitada, com excessão do pescoço e cabeça, o que o obriga a viver dentro de um pulmão de aço, já que ele não tem força suficiente para respirar sozinho por um longo período de tempo.
A história contada no filme é baseada em fatos reais, em um artigo publicado por ele mesmo em 1990 a respeito de seus encontros com a terapeuta sexual Cheryl Cohen-Greene, com quem ele ficou amigo até sua morte, em 1999. A razão dele tê-la contratado é que, mesmo tendo uma relação muito próxima com diversas mulheres que o adoravam pela sua simpatia e genuíno senso de humor, aos 38 anos nunca conseguira ter uma relação sexual com nenhuma delas. Além disso ele sofria de ejaculação precoce, o que muitas vezes o deixava constrangido perto das pessoas, pois as faziam ter idéias erradas sobre o que acontecia, principalmente das que cuidavam dele, já que um simples toque era o suficiente para acontecer algo no qual ele não tinha controle e não sabia como fazê-lo. E então é com a ajuda de seu amigo padre, de sua terapeuta e de uma amiga igualmente deficiente que ele resolve entrar em contato com Cheryl, e as sessões serão justamente o limite de seis sessões de terapia que ela oferece aos pacientes.
Nos EUA a profissão de Cheryl é conhecida como "sex surrogate", ou seja, uma pessoa que "aluga" o sexo por algum motivo específico e terapêutico, o que as diferem de prostitutas, que vendem o sexo apenas pelo dinheiro, sem uma razão específica. O termo é traduzido como "terapeuta sexual", o que não é uma forma muito correta de tradução já que no Brasil os terapeutas sexuais são profissionais que lidam apenas com a psiquê e não com o físico, o que pode gerar uma certa confusão.
Mark é interpretado brilhantemente por John Hawkes, em um daqueles papéis que é quando temos certeza que um ator é bom frente a tantas limitações e obstáculos. Cheryl é interpretada por Helen Hunt, que não tem nenhum momento ou cena específica que destaque sua personagem para chamar a atenção de premiações, mas oferece uma atuação bastante sincera e emocionalmente contida, sendo até mesmo uma surpresa, já que a atriz dificilmente encontrou bons papéis depois de ter ganho o Oscar em 1998 por Melhor É Impossível (As Good As It Gets, 1997). Ambos atores conseguiram chamar a atenção com tanta sutileza e discrição, concorrendo a todos os principais prêmios da temporada como Screen Actors Guild, Golden Globes e o Oscar. Infelizmente levaram poucos dos prêmios que concorreram por ter sido um ano realmente bastante competitivo, mas deixaram evidente em como bons atores necessitam de pouco para transformar algo simples em grandioso.
CONCLUSÃO...
Um filme leve, delicado e bastante motivador, que até mesmo nos momentos dramáticos consegue ser sutil e natural. A relação construída entre Mark e Cheryl é bastante interessante e o ponto alto do filme. Há também as relações paralelas entre Mark e suas cuidadoras Amanda e Vera, que não apenas o compreendiam como também foram seus braços, pernas e a extensão para o mundo exterior que ele não tinha.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

COMO O OSCAR CONSEGUE SER CONSTRANGEDOR...

Nas previsões que realizei nas categorias principais, só errei no prêmio de Melhor Diretor. Ao invés de ter ido para Spielberg, o prêmio foi com grande surpresa a Ang Lee. Foi um choque, pois a predileção era Spielberg na falta de Ben Affleck na categoria.
 
Mas o que falar do show do Oscar?
 
A cada ano que passa ela se torna uma festa mais degradante. O último grande sopro de novidade aconteceu em 2007, seis anos atrás, quando Ellen Degeneres foi convidada para ser apresentadora do evento. Tentando sair do óbvio e fazer da festa algo interessante e glamuroso sem precisar ser quadrado, ela ousou dentro dos limites, conseguindo ser engraçada, delicada e genuína, deixando de lado a grosseira ou o excesso de sarcasmo, da autodepreciação e do constrangimento alheio, coisas demasiadamente absurdas que viraram marcas registrada daquilo que eles consideram "o maior evento do cinema mundial".
 
2008 tentou ser interessante com Jon Stewart, que foi um pouco mais político, alfinetando aquilo que deveria, mas dentro de seu senso de humor ácido. Hugh Jackman, em 2009, foi um verdadeiro host, um lord, mas os exageros da Academia deixaram a festa mais cafona do que já ousou um dia ser ao extrapolarem na medida de provar que Jackman é um homem multitalentoso. Depois tivemos Alec Baldwin com Steve Martin (ahn?!), James Franco e Anne Hathaway (o pior dos piores anos), Billy Crystal (chato e cansativo como sempre), e quando achamos que nada poderia ficar pior, tivemos Seth MacFarlane.
 
MacFarlane, um desconhecido comediante pra grande maioria, ficou famoso por ter escrito e dirigido o filme mais politicamente incorreto dos últimos anos, Ted (2012). E foi com essa presunção em mente que ele achou que iria conquistar o público de igual forma. A diferença é que ele não imaginou que quem é engraçado é o personagem de boca suja que bebe, fuma, arrota e fala palavrão, e não ele.
 
A cerimônia já começou constrangedora. MacFarlane atirou para todos os lados e não poupou esforços em ser desagradável com piadas desnecessárias, que ultrapassavam o politicamente incorreto no humor americano mais baixo, gratuito, vazio e grosseiro que pudesse existir. Pintou um personagem de si próprio que precisaria descobrir a fórmula perfeita para receber a aprovação do público, ironizando o tempo todo. Se autocriticou incansavelmente, minou ele mesmo e reverteu qualquer futura crítica negativa em piada, uma boa jogada para ter liberdade de fazer tudo que é ruim sem ser apedreijado, como até mesmo cantar uma música chamada "We Saw Your Boobs" (Nós Vimos Seus Peitos) em altos brados, numa das esquetes musicais mais vergonhosas de todos os 85 anos da premiação. Na música o (dito) "comediante" dizia que todos nós já vimos os peitos de diversas atrizes, citando várias delas que estavam na platéia, bem como os filmes em que isso acontece. Eles fizeram uma montagem que fingia o constrangimento de Naomi Watts e Charlize Theron, mas isso não deve ter sido mentira com as demais, frente a recepção fria que a platéia teve.
 
Suas piadas foram um fiasco, apenas uma meia dúzia de gargalhadas forçadas eram ouvidas e as palmas da platéia vinham justamente de um meio centro apropriadamente ensaiado para enganar o espectador caseiro. Tudo isso para posteriormente ele vestir uma imagem de apresentador comum e que não conseguiu nem ao menos ser carismático. Ou seja, parece não existir mais um grande entertainer para a festa como um dia já existiu, ou textos inteligentes o bastante para serem engraçados, ou até mesmo situações irônicas sem a necessidade de pisar nos dedos de ninguém ou chamar o espectador de imbecil, porque é essa a impressão que eu tenho nos últimos 10 anos que venho assistindo. Uma sucessão de erros que todos enxergam, mas não fazem questão de mudar.
Uma das maiores reclamações da cerimônia sempre (e SEMPRE) foi sua interminável duração, tanto que há aproximadamante 10 anos (ou um pouco mais) as apresentações musicais foram gradualmente cortadas, pois eram exaustivas, principalmente na época em que Disney enchia seus desenhos de canções e dominava o gênero. Esse ano resolveram esquecer de tudo isso, e sem uma razão muito óbvia resolveram homenagear e enaltecer os musicais modernos (apenas os poucos três mais relevantes dos últimos 10 anos), com direito a reapresentação de alguma cenas memoráveis nos palcos pelos atores que as fizeram nas telas, incluindo o repeteco desnecessário de Catherine Zeta-Jones no seu já esgotado All That Jazz, de Chicago (2002). Ao todo foram umas 10 apresentações musicais, e o Oscar, que agora mais parece um MTV Awards de gala, resolveu vestir uma fantasia Grammy, tentando explorar a popularidade de Adele e o sucesso de um tema de James Bond que não se tinha desde... nem eu sei quando! E o mais engraçado é que, tudo isso, numa época em que ninguém mais se interessa por musicais no cinema. Então... qual o motivo de tudo isso? Falta de idéias? Onde está a coerência?
 
Uma lástima.
 
Mas, se por um lado foi um show mais uma vez cansativo, longo, chato e constrangedor, por outro tivemos grandes surpresas como a apresentação arrebatadora de Shirley Bassey, que aos 73 anos ofereceu uma performance aplaudida em pé, colocando Adele no seu devido lugar, que mesmo ganhando o prêmio de Melhor Canção da noite por Skyfall (e que nem merecia tanto assim) não recebeu mais do que medianos aplausos em um misto de lágrimas e desdém. Ela nem sequer ousou agradecer as demais divas que ocuparam o mesmo lugar nesses 50 anos de existência do espião, e que, como Rubens Ewald disse, se tornou uma marca da série e um estilo de música próprio: "as músicas de James Bond". Também tivemos outras coisas boas como Barbra Streisand e um discurso breve e emocionante de Christopher Plummer às atrizes coadjuvantes.
 
Foi um ano competitivo como há muito não se via, onde não houve favoritismo a ninguém e os prêmios foram muito bem divididos entre os filmes. Também não houve grandes injustiças como em anos anteriores, com excessão da predileção de Jennifer Lawrence ao invés da francesa Emmanuele Riva. Não que a jovem atriz não merecesse, mas o histórico e o grande desempenho da atriz francesa merecia uma melhor consideração, uma consideração que ela mesma pareceu não conseguir entender em não ter tido.
 
No mais tudo seguiu como planejado tal qual Anne Hatthaway receber o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, ou a Primeira Dama Michelle Obama participar da entrega do prêmio de Melhor Filme naquilo que eu já havia dito e de certa forma previsto em posts anteriores sobre a atual necessidade da cultura norte-americana se enaltecer com pouco, numa época em que essa nação está às mínguas, e em um ano em que o cinema e os interesses políticos nunca estiveram numa polêmica tão forte. De um lado tinhamos A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), que colocou em risco a imagem e a dignidade do serviço de inteligência do governo dos EUA. Por outro lado tinhamos Argo (2012), que pintava uma imagem excitante e patriotista do mesmo país. Houve também a surpresa da premiação de Ang Lee receber como Melhor Diretor, quando ele era o menos cotado a receber o prêmio em um ano que tinha tudo para ser de Spielberg se não fosse de Ben Affleck.
 
Novamente não foi um ano em que foi possível dizer que passar 4 horas assistindo uma premiação foi a melhor programação da noite de um domingo, mas foi um ano competitivo e de certa forma um dos mais ecléticos pelo ponto de vista da premiação, a grande pena é que nada disso caminhou com coerência em um espetáculo mais uma vez constrangedor e que mais irritou do que entreteve.
 
Para ver a lista completa de vencedores, clique AQUI.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

ÚLTIMAS APOSTAS PARA O OSCAR 2013!

Vou ser bem direto nas minhas apostas desse ano. Vamos lá...

MELHOR FILME
Definitivamente será Argo porque de fato ele é o grande diferencial de 2013, um filme de ação incomum fundamentado em uma história verídica e que consegue ser ao mesmo tempo empolgante, divertido e dramático, sendo fictício em doses exatas apenas para o bem da narrativa. Também será a forma da Academia tentar se redimir pelos erro que cometeu de não ter colocado Ben Affleck entre os finalistas de Melhor Direção. É difícil pra mim ter que aceitar esse fato, porque tenho lá meus preconceitos com o roteirista que virou ator, e de ator agora é diretor e produtor... mas fazer o quê? O rapaz vem fazendo tudo certinho e provando que tem mais charme atrás das câmeras do que na frente delas.

Mas minha escolha pessoal seria Indomável Sonhadora. É um filme belíssimo, delicado e lúdico, que também tem lá seus fundamentos verídicos sobre as dificuldades que a população miserável sulista nos EUA passa e não faz questão de mudar para manter sua integridade cultural. Filme emocionante sem cair na pieguice e convincente por todos os lados.

MELHOR DIRETOR
Na falta de Ben Affleck, o prêmio irá para Steven Spielberg, que provavelmente fará algum discurso nobre sobre a ausência do colega na categoria. Esse ano ele poderá ganhar por W.O., já que não há outro candidato mais forte, e minha escolha pessoal também seria ele, mesmo se Ben Affleck estivesse presente.

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, não há mais dúvida alguma sobre isso.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aposto em novamente ser Christopher Waltz, o que também bate com minha escolha pessoal.

MELHOR ATRIZ
Tudo indica que será Jennifer Lawrence. Ela vem abocanhando todas, incluindo o Screen Actors Guild, mas perdeu o BAFTA, o último grande prêmio antes do Oscar. Mas não vejo nada brilhante na sua atuação, apenas algo bem feito e que gerou uma boa química com o ator Bradley Cooper.

Mas tomara que eu esteja bastante errado e o prêmio vá para minha escolha pessoal, Emmanuelle Riva. O desempenho desta atriz no filme Amor é arrebatador. Ela foi esquecida no SAG, mas venceu o BAFTA, o que ainda oferece uma grande esperança de que ela vença, e se isso acontecer, não conseguirei segurar minhas lágrimas, pois será emocionante com certeza. Corre um leve boato de que agora ela tem muitas chances, além de uma campanha não oficial que anda pairando pela internet já há um bom tempo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anne Hathaway é a favorita, e nem é porque é seu melhor papel, mas por ser aquele em que ela se destacou o necessário para isso, e levará o prêmio mais pelo seu conjunto de obras simpáticas e pela sua popularidade do que pelo desempenho. Isso é comum na história da Academia e todo ano isso acontece.

Confesso que minha escolha pessoal fica dividida entre Helen Hunt e Jacki Weaver.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Tarantino poderá levar por Django Livre. O filme foi polêmico e Tarantino é uma máquina de criar roteiros bem feitos, e meu favoritismo pessoal também é pra ele.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ben Affleck tem grandes chances de levar para novamente compensar sua falta na categoria de Melhor Direção.

Tony Kushner mereceria por Lincoln, mas confesso que o roteiro de Ben Affleck realmente tem um "quê" a mais de originalidade e que fez o filme ser uma das coisas mais pitorescas e divertidas do gênero nos últimos anos. É, admito... fico com Ben novamente.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PRECONCEITOS DE LADO: É BOM MESMO!

★★★★★★★★★☆
Título: Argo
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Kyle Chandler, Victor Garber
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Baseado na missão verídica Canadian Caper durante a Crise de Reféns do Irã em 1979, em que um agente da CIA se infiltra no país para resgatar seis diplomatas norte-americanos sem que o governo iraniano perceba. 
O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido, escrito, produzido e atuado por Ben Affleck, a produção também é assinada por George Clooney, que é outro ator que vem desempenhando um forte papel como diretor nos últimos anos, e que talvez tenha sido uma grande mão na roda desse filme, já que sua experiência com longas é bem maior.
Tenho que finalmente torcer minha lingua e concordar que é um bom filme, e realmente tem razão de figurar entre os melhores de 2012. É o terceiro longa metragem do ator que se destacou como roteirista ao ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (juntamente com seu então amigo Matt Damon) pelo filme Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997) e agora se tornou uma figura poderosa em Hollywood ao se consolidar como um dos novos e bons diretores dessa geração, e Hollywood tem feito de tudo para promovê-lo assim.
O histórico da carreira de Ben Affleck é cheio de altos e baixos. Da noite para o dia ele se tornou um galã, e do dia para a noite sua fama despencou por conta das constantes perseguições da mídia e do frequente esculacho sofrido a respeito da sua limitada capacidade de interpretação e de sua vida pessoal. Demorou para ele voltar a se resguardar, ser esquecido pela mídia sensacionalista e aos poucos se reestabelecer pessoal e profissionalmente. É o novo patinho feio, e agora Hollywood se aproveita disso para pintá-lo dessa forma e, talvez, de também pedir desculpas por tanto escárnio ao longo de boa parte de sua carreira.
Sr. Affleck vem causando surpresa por ter feito arrastões na temporada de premiações de 2013, já recebendo prêmios de Melhor Diretor e/ou Melhor filme em eventos importantes como o Critics Choice, Globo de Ouro, Screen Actors Guild e Directors Guild. O filme também recebeu sete indicações ao Oscar, mas isso não impediu de que ele fosse esnobado pela Academia que não o incluiu na lista de finalistas de Melhor Direção, embora figure na lista de Melhor Filme. Esse fato tem causado bastante polêmica e levado os membros da Academia a sofrerem fortes críticas por isso frente a tanto favoritismo que Argo vem tendo. Há duas grandes fortes razões para isso ter acontecido. A primeira delas pode ter sido pela mudança da data de votação dos finalistas ao Oscar já que foi feito em um período de férias e festas de final de ano, sendo dito por aí que muitos membros do comitê para a categoria de Melhor Direção não tenham tido tempo suficiente para enviar os votos e que, ao mesmo tempo, muitos outros tenham feito suas votações sem ao menos ter assistido os filmes, dando votos cegos. A segunda razão, e talvez a mais plausível, é pelo comitê não engolir a ascenção de Ben Affleck por puro preconceito mesmo. O próprio ator/diretor/roteirista/produtor já desmonstrou seu descontentamento a cerca disso e não vem evitando situações para sutilmente alfinetar a Academia a cada novo prêmio conquistado.
O filme é baseado no fato verídico do plano Canadian Caper, em que o agente da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck), liderou o resgate de seis diplomatas norte-americanos que conseguiram escapar da Embaixada Americana do Irã após a invasão de militantes e estudantes islamitas, levando à Crise de Reféns do Irã, que durou entre 1979 e 1981, envolveu o sequestro de 52 norte-americanos que se encontravam na Embaixada e que foram mantidos em cativeiro por 444 dias. Após várias missões de resgate falharem, Tony Mendez surge com a idéia absurda de se infiltrar no país disfarçado de produtor de cinema canadense que trabalha em Hollywood e que está procurando locações no país para a filmagem de um novo longa de ficção científica chamado Argo. O plano principal era encontrar o grupo foragido e igualmente disfarçá-los de cidadãos canadenses que fazem parte da equipe de filmagem para poder extraí-los do país sem que o governo iraniano percebesse.
Embora Argo seja o título do filme e o título do roteiro utilizado no plano que o filme narra, na missão real de extração o título do roteiro utilizado foi de um filme que nunca foi filmado chamado O Senhor da Luz (Lord Of Light), baseado na obra de Roger Zelazny, e aquilo que parecia absurdo, no fim se tornou um sucesso e um exemplo de parceria e cooperação diplomática entre diferentes nações. Foi isso que chamou a atenção de Ben Affleck para adaptar a história originalmente publicada como um artigo em 2007, mas que já havia se tornado pública durante o governo de Clinton.

Sem dúvida é um filme que acaba enaltecendo os Estados Unidos em um período difícil que o país passa de descrença entre seus próprios cidadãos e do constante declínio de sua hegemonia e imagem no resto do mundo. Também acaba sendo sem querer um ponto de vista mais bonito, humanitário e contraditório do filme A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), em que a diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal não mediram esforços para mostrar o lado mais desumano e anti-diplomático dos Estados Unidos quando o assunto envolve a guerra de interesses. Talvez seja por essa razão que o filme de Affleck esteja sendo ovacionado pela crítica e pelo público, pois é um filme que acaba por promover uma imagem que os EUA agora carece.
Enquanto Argo mostra o lado patriótico e pacífico da CIA, A Hora Mais Escura mostra o lado negro da força da agência de inteligência secreta do país, suas influências perigosas e o abuso de força e poder. Por isso, mesmo os dois filmes se passando em épocas e situações distintas, se tornaram importantes títulos que são interessantes de serem assistidos para essa observação ser feita, pois juntos erguem questões fundamentais que o grande público até então tinha pouco acesso.
Enquanto Bigelow deu um ar mais histórico ao seu filme evitando transformar fatos em cenas de ação comuns do gênero, Affleck oferece um tom mais fictício transformando os fatos em um grande entretenimento, e não há como negar os méritos disso. O filme se destaca exatamente por ser igualmente baseado em pesquisas sólidas para retratar e caracterizar tudo da forma mais histórica possível (como é mostrado durante os créditos finais) e ainda recebe as dosagens exatas de humor, ação convencional e suspense. Por conta dessa união feliz de diferentes fatores que poderiam facilmente cair em um grande besteirol, Argo é um filme de ação incomum e inteiramente verídico, porém dentro de um tom teatral útil que entretém e nunca deixa o espectador entediado.
Obviamente que Affleck usa e abusa de clichés para manter um clima de tensão constante, repetindo aquela mesma tática de segurar as situações e enganar o espectador, fazendo-o acreditar que tudo vai dar errado até o clímax ser atingido e todo mundo finalmente poder dizer "ufa". Essa fórmula é repetida não com frequência, mas seguidamente, o que acaba sendo um pouco cansativo e previsível porque depois da primeira vez que isso acontece a tensão continua existindo, mas não há surpresas. Independente disso, para a proposta do filme, a tática funciona bem até o último minuto.
Grandes pontos positivos também para os atores, que também receberam o prêmio SAG de Melhor Elenco de longa metragem, uma das categorias mais importantes do evento e da temporada de premiações, já que é avaliado as atuações como um todo e sua química em cena. Isso deve ser por conta da maioria do elenco ser formado por atores experientes e gabaritados, mais conhecidos por trabalharem em seriados de televisão como: Bryan Cranston, de Breaking Bad; Victor Garber de Alias, Clea DuVall, de American Horror History; Kyle Chandler de Friday Night Lights; e Tate Donovan, Chris Messina e Zeljko Ivanek, de Damages. Atores que já estão acostumados a trabalhar com grandes equipes e tem uma capacidade maior de interação entre si. O grande defeito de elenco é o próprio Ben Affleck, que ainda insiste em atuar (ou finge atuar) em seus próprios filmes. Mas aqui sua incapacidade nem é tão notada, tudo fica bem camuflado no meio de tanta barba, cabelo e demais atores que conseguem roubar as cenas.
O filme ainda concorre ao Oscar de Melhor Edição, que é bastante pontual e funcional, nunca deixando o clima cair ou desandar. A produção de arte e o figurino também são excelentes, retratando bastante os anos 70, inclusive no tipo de filmagem, já que Ben Affleck fez questão de que a imagem tivesse o mesmo aspecto envelhecido de documentos da época, realizando um processo de filmagem convencional, porém em um tamanho menor de imagem, e depois duplicando seu tamanho na hora da revelação para que essa granulação ficasse mais nítida.
Buscando a história real e os fatos verídicos, há alguns anacronismos e desvios que Affleck fez questão de dizer que foram feitos simplesmente para amarrar o roteiro e manter os climas de tensão, desde as coisas mais supérfluas (como as letras de Hollywood em ruínas, que foram restauradas antes da época em que o filme se passa) até as mais sérias, como o fato do filme afirmar que apenas a Embaixada Canadense ofereceu refúgio aos seis americanos, quando na realidade tanto a Embaixada Britânica quanto a Neozelandesa também ofereceram ajuda.

Enfim, como ator Ben Affleck tem se provado um grande diretor e roteirista. Por um lado confesso que meu preconceito me impede de aceitar que Argo realmente tenha a melhor direção, o melhor roteiro e, por fim, acabe sendo o melhor filme de 2012, mas por outro também tenho que concordar que ele realmente não desaponta em nenhum aspecto, além de ter conseguido fazer uma coisa que nenhum dos filmes que figuram na lista dos melhores das premiações conseguiram até o momento, me deixar empolgado e em nenhum momento me entediar ou querer que acabasse logo.
CONCLUSÃO...
É um filme feito sob medida. Tudo nele funciona como deve e em nenhum momento peca por excessos ou faltas, e mesmo sendo um filme baseado fortemente em fatos verídicos, ele é construído em cima de um clima de ação e tensão que o deixa com um aspecto incomum. Interessante quando assistido junto com A Hora Mais Escura, já que é outro título de 2012 também fortemente baseado em fatos verídicos envolvendo ações da CIA e com uma narrativa completamente diferente, mas que ajuda a erguer questões fundamentais que não devem ser ignoradas. É Affleck sabendo escolher bons trabalhos e excelentes parcerias, como a de Clooney na produção e todo o elenco envolvido. O orgulho e preconceito de alguns pode dificultar, mas realmente ele merece estar entre o Top 5 de 2012.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

HORROR À MODA ANTIGA...

★★★★★★
Título: Terror Em Silent Hill: Revelação (Silent Hill: Revelation)
Ano: 2012
Gênero: Horror
Classificação: 16 anos
Direção: Michael J. Bassett
Elenco: Adelaide Clemens, Kit Harrigton, Sean Bean, Carrie-Anne Moss
País: França, Estados Unidos, Canadá
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Heather, agora adolescente, morde a isca e volta a Silent Hill para resgatar seu pai que foi sequestrado pela Ordem e descobrir suas verdadeiras origens e quem ela realmente é.

O QUE TENHO A DIZER...
Terror Em Silent Hill: Revelação, é dirigido e escrito pelo inglês Michael J. Bassett, e realmente desconheço qualquer outro trabalho que ele tenha feito. A princípio o filme era pra ser escrito e dirigido por Roger Avary, o mesmo roteirista do primeiro filme, mas aí o cara foi preso porque sofreu um acidente grave de carro com vítimas enquanto estava embriagado, e a produção foi suspensa. Por essas e outras razões a produção demorou seis anos para ter início, o que é um intervalo bem grande de tempo para a continuação de um filme que, embora tenha feito um relativo sucesso, não ficou na memória de muita gente.
Para quem não sabe (será?), o filme é baseado numa série de jogos de horror com o mesmo nome (ao todo são 9 jogos oficiais até o momento). Os produtores Don Carmody e Samuel Hadida sempre quiseram levar um segundo filme para as telas, para concluir o final estranho deixado pelo primeiro, além de também sempre acreditaram que Silent Hill oferecia um grande material para um filme de terror, o que sempre foi verdade, desde quando o primeiro jogo da série surgiu, lá em 1999.
O primeiro filme, Terror Em Silent Hill (Silent Hill, 2006) recebeu críticas positivas no geral, mas foi mais elogiado pelo seu clima sombrio e uma produção de horror caprichada que há muito tempo não se via no gênero, resgatando um estilo de filme que incita o medo sem a necessidade de sustos orquestrados, mas apenas sendo sombrio, que usou e abusou de todas as características dos jogos e sua atmosfera, o que foi impressionante. Tanto que o filme é considerado, de longe, a melhor adaptação de um jogo de video game (talvez a única), por se manter fiel a todos os elementos e ainda ser um filme igualmente assustador.
O segundo filme sofreu diversas modificações na produção. Embora ele ainda mantenha uma classificação de idade alta (16 anos no Brasil, 17 nos EUA), o que é raro, pois o retorno financeiro não é garantido já que limita bastante o público principalmente nos EUA, muitos cortes foram realizados. A produção do primeiro filme teve um orçamento de US$50 milhões, a do segundo caiu para "apenas" US$20 milhões. O primeiro filme teve um pouco mais de 120 minutos, a duração do segundo filme caiu para 94 minutos. Ao mesmo tempo teve a exigência de ser um filme em 3D, o que aumentou os custos e exigiu que a produção tivesse que pisar em ovos, mais do que já estava. O surpreendente é que, apesar de tudo isso, o resultado final ainda é impressionante. Salvo algumas cenas, é praticamente impossível notar qualquer diferença entre essa produção modesta com qualquer outra mais cara. Sem dúvida os produtores tiveram que sambar legal para conseguir manter um nível de qualidade dentro de tantas restrições, o que é outro fator admirável. Como esperado, não fez tanto sucesso quanto o primeiro, mas ao menos conseguiu se pagar com o total US$50 milhões arrecadados no mundo e agradar os fãs em geral.
A história dá continuidade ao primeiro filme e seis anos depois a garotinha Sharon/Alessa agora se chama Heather (Adelaide Clemens) e está bem crescida. Essa confusão com os nomes é explicada no filme, e nem é tão confusa assim, então ninguém precisa se preocupar com esse detalhe. Heather tem constantes sonhos bizarros envolvendo uma estranha cidade chamada Silent Hill, mas seu pai, Christopher (Sean Bean), esconde a verdade de sua origem para defendê-la e evitar que ela volte para lá. O problema surge quando A Ordem captura Christopher para usá-lo como isca. Prevendo que isso poderia acontecer algum dia, ele deixa uma carta a Heather contando suas origens e sendo enfático ao dizer que, custe o que custar ou aconteça o que acontecer, não é para ela ir a Silent Hill. Claro que ela volta para todas as revelações do título acontecerem.
É meio estranho falar do filme porque ele tem coisas ótimas e tem coisas péssimas que se equilibram bem e deixam o gosto dentro de um meio termo, que não dá pra classificá-lo como bom e nem como ruim.
A atriz principal é ótima e caracteriza muito bem a personagem do terceiro jogo, além de todos os demais elementos sombrios como os personagens bizarros, o clima macabro, sujo e até mesmo a trilha sonora característica, estarem lá. Há referências sobre os jogos o tempo todo, e isso para os fãs é como entrar numa loja de doces e poder comer de graça por uma hora. A produção de arte é caprichadíssima, favorecendo uma fotografia caótica e assustadora que mesmo bastante escura consegue ser distinguida facilmente.
Os monstros, que são os maiores inimigos e atrativos dos jogos (porque mais bizarros que eles é impossível), também são a grande atração do filme, como as Enfermeiras, o Manequim Monstro (que é fantástico!) e o retorno do Cabeça de Pirâmide, dentre outros. Seres bizarros que, nos jogos, representam a força da cidade agindo sobre os pensamentos caóticos dos personagens, e que o filme até tenta reproduzir isso quando mistura as visões da personagem com a realidade. Apenas uma cabeça brilhantemente insana para criar essas figuras que conseguiram causar o mesmo impacto dos jogos no filme. Elas são assustadoras sem precisar de muito, pois distorcem a imagem daquilo que é inofensivo, e fazem do simples se transformar em um verdadeiro pesadelo. Acho isso fantástico quando bem usados (e no filme são) porque assustar é fácil, já que qualquer ação inesperada faz isso, mas causar o medo e o assombro é difícil porque a imagem está lá o tempo todo, mas é a forma como ela é mostrada que é o verdadeiro fator impressionante.
Há sequências perturbadoras como quando os cavalos do carrossel viram pessoas, ou quando Heather entra em uma cozinha em que o cozinheiro retira um filé que não é mignon, ou o chão de cabeças. Não há como deixar de lembrar de filmes como Hellraiser, pois essa imagem criada pro Clive Barker de que o infernal e perturbador é povoado por figuras de natureza masoquista, que vivem da dor e flagelação, sempre dilaceradas, disformes, costuradas e presas em materiais enferrujados cortantes ou pontiagudos, são seguidas a risca aqui e sem parecerem cópias.
Outro detalhe MUITO importante é que tudo foi feito à moda antiga, com maquiagens reais e cenários de verdade. Com excessão do Manequim Monstro, dos efeitos em cena, e de trabalho de pós produção para dar acabamento a alguns dos seres bizarros, o uso do CG foi limitadíssimo, o que é interessante pro nível de realismo e detalhes. A certa originalidade criada nos jogos e sua forma simples de ser perturbadora são mantidas nesses dois filmes, e esse é o grande show de elementos que realmente fazem desse filme ser mais um grande diferencial nos últimos anos quando o assunto é imagens perturbadoras.
Mas nem tudo é "flores". Assim como nos jogos, a história é boa, mas o roteiro é apressado e desenvolve de forma rápida e sem passagens de tempo, fazendo tudo soar forçado. Com excessão da atriz principal, os demais atores parecem amadores, isso inclui Sean Bean, inexpressivo, caricato e extremamente desinspirado, chega a ser constrangedor. E isso é resultado da carência de uma  direção mais efetiva. Os monstros poderiam ter tido maiores participações, e não aparecido apenas em sequências bastante definidas como se fossem fases de um jogo, o que fez o filme perder o gás conforme se aproximava do fim, como se o repertório de grandes idéias tivesse acabando, exagerando até para uma ceninha de luta pra lá de desnecessária. E o pecado de sempre: personagens e acontecimentos que não trazem acrescimo algum na história ou para o mérito do filme.
As coisas boas são boas mesmo, e as péssimas infelizmente fazem o filme deixar a desejar. Também não é um filme para quem não assistiu ao primeiro ou não conhece os jogos, o que pode deixar muita gente meio perdida e achando que poderia ser melhor. Realmente ele poderia ser melhor, mas não dá pra exigir muito frente a tantas limitações.
Não assisti o filme em 3D, o que me arrependo, já que mas tem muitas pessoas por aí que assistiram e, mesmo não tendo gostado, afirmaram que realmente são bons e impressionavam, pois ele foi filmado com câmeras especiais para isso, e não adicionado em pós-produção, como vem acontecendo com vários títulos atualmente. Mas acredito que isso não era necessário, e para um orçamento tão limitado essa tecnologia podia ter sido evitada para aproveitadar o dinheiro com outas coisas. Só a sequência final de créditos já deve ter ido uns bons milhões. E quem é que vai se importar com créditos finais de filme?

CONCLUSÃO...
É literalmente uma continuação do primeiro filme e uma boa coletânea de todos os elementos que fazem da série de jogos ser aterrorizante, não no sentido de sustos, mas do espectador ficar impressionado e com medo do bizarro como raramente conseguimos com filmes de horror modernos. Junto com o primeiro filme da série, talvez seja o único a ousar esse estilo no circuito comercial, o que é uma grande pena, já que esse gênero carece de boas produções como essa tentou ser, e até consegue. Grande ponto positivo para o uso limitado de CGs, provando que o bom e velho trabalho manual de maquiadores e cenógrafos ainda é insubstituível, principalmente para filmes como esse. Para quem gosta, é um prato generoso, podia ser um prato cheio, mas não podemos reclamar muito, pois o que é que temos melhor que isso atualmente nesse estilo? Nada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

POLÊMICAS E BIN LADEN NA HORA MAIS ESCURA...

★★★★★★★
Título: A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Guerra
Classificação: 14 anos
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Jennifer Ehle
País: Estados Unidos
Duração: 157 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os dez anos de busca e finalmente captura e assassinato de Bin Laden.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é dirigido por Kathryn Bigelow, aquela que em 2010 surgiu do "nada" com o filme Guerra Ao Terror (The Hurt Locker, 2008) e abocanhou o Oscar de Melhor Filme e Direção, entrando para a história da premiação como a primeira mulher a receber o prêmio nas duas categorias. Eu felizmente tive a oportunidade de assistí-lo pouco tempo depois de seu lançamento, ainda no começo de 2009, e sempre o considerei um filme bom e um grande concorrente antes mesmo da sua fama. Na época fiquei bastante surpreso e feliz com sua presença no Oscar 2010, já que ele só foi entrar na premiação quase um ano e meio depois do seu lançamento.

Muita gente não se conforma com isso, já que ela derrubou o favoritismo de Avatar (2009) que, por sinal, é do seu todo-poderoso-ex-marido-James-Cameron, o qual também foi responsável até mesmo por convencê-la a realizar aquele filme. Hoje em dia críticos alegam que os prêmios dados a ela foi a oportunidade que tiveram para esnobar a arrogância de James Cameron e também para dizer que a Academia não é machista, misógina ou preconceituosa, e que mesmo o filme tendo sido, a princípio, um grande fracasso de bilheteria (ele foi conseguir se recuperar apenas 1 ano depois por conta da publicidade adquirida no Oscar), ele tinha suas qualidades. E ele realmente tem.

Por isso que vale dizer que Guerra Ao Terror é um excelente filme. Ele não deve ser diminuído (como foi na época) por não ser uma grande produção (custou apenas US$15 milhões, o filme mais barato a receber o prêmio da Academia de Melhor Filme). Tecnicamente é um filme complexo, que sofreu grandes problemas de produção por conta das dificuldades de filmagem no Iraque, do perigo por toda a equipe ter trabalhado em um território hostil, além de seu orçamento limitadíssimo ao ponto de várias pessoas, tanto da equipe técnica quanto de atores, terem desistido no meio das filmagens. Mas ao mesmo tempo vários atores importantes acreditaram no projeto e fizeram questão de participar, como Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse, sem contar que o filme revelou Jeremy Renner.

O prêmio de direção recebido por Kathryn foi merecido, ela soube unir diferentes estilos de filmagem para construir um filme de poucos diálogos e cenas de ação, mas tenso, carregado de um terrorismo psicológico realista ao mostrar a vida difícil de soldados do esquadrão antibombas. Tem gente por aí que diz que ela só se tornou alguma coisa por causa de James Cameron. Que seja. Se foi com ele que ela aprendeu algo, ela soube fazer direitinho as lições de casa, e isso deve ser levado como um mérito, assim como vários outros bons e atuais diretores também tiveram grandes mentores dentro da própria família, como Sophia Coppola e Jason Reitman. E sozinha ela conseguiu fazer sua história e um currículo de filmes que a crítica diz serem "tipicamente masculinos", o que também é um grande diferencial de seu estilo.


Em A Hora Mais Escura, ela dá uma certa continuidade ao filme anterior, voltando para os territórios hostis do Oriente Médio, trabalhando novamente com o jornalista e roteirista Mark Boal, o mesmo de Guerra Ao Terror.

As polêmicas começaram logo na fase de pré-produção e a possibilidade de uma parceria partidária, já que o filme estava agendado para ser lançado um mês antes das eleições norte-americanas, o que poderia favorecer a re-eleição de Barack Obama. Isso foi negado pela distribuidora Sony, que afirmou que a data de lançamento foi escolhida porque era a época mais favorável para o gênero do filme, e até mesmo o roteirista foi a público negar qualquer parceria. Por conta dessa polêmica o filme acabou tendo lançamento limitado para críticos e para a consideração de premiações, e o lançamento público e oficial foi reagendado para Dezembro de 2012.

O filme recebeu críticas positivas e o favoritismo para a temporada de premiações foi imediato, mas outras polêmicas envolvendo o desenvolvimento do roteiro acabaram denegrindo tudo isso. O roteirista e a diretora sempre foram claros ao dizer que o filme é baseado em fatos reais e que as cenas de tortura foram feitas em cima de fontes primárias. Isso ajudou o Senado a acusar a CIA e a adminsistração de Obama de ter oferecido informações confidenciais à diretora e ao roteirista, o que colocou a própria CIA e o Departamento de Segurança a investigar se isso realmente aconteceu.


Tanto o roteirista quanto a diretora negaram a participação do governo, mas a veracidade pela qual o tema é tratado no filme convence o serviço de inteligência secreta norte-americano de que houve vazamento de informações secretas e classificadas como altamente confidenciais, o que acabou sendo bombástico para sua reputação. A CIA inclusive chegou a se reportar em público, contradizendo veementemente ao negar, sem qualquer escrúpulo, de que ela não utiliza métodos violentos de interrogatório para obter informações de seus inimigos (podemos rir dessa piada?). Há inclusive um momento no filme em que aparece uma reportagem com Obama na televisão fazendo a mesma afirmação, o que é um tanto irônico e o grande ponto de mudança do filme.

O governo agora realiza uma caça às bruxas para abafar isso, e Kathryn Bigelow e Mark Boal passam por maus bocados, já que o Governo agora exige a retratação dos fatos e a verdadeira fonte dessas informações confidenciais, o que é proibido nos EUA até mesmo sob leis de liberdade de expressão, pesquisa jornalística, ou coisas desse tipo. Parece que todos os envolvidos na produção ainda correm o risco de serem julgados e até mesmo presos se nada disso for contornado. Ou seja, é uma situação complicada e que fez com que a mídia virasse a casaca e passasse a atacar o filme. Tanto foi assim que foi uma surpresa a diretora não estar entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Diretor no Oscar 2013, o que aparenta ter sido uma medida tomada de última hora pelos membros da Academia para se absterem de qualquer partido nisso que se tornou uma guerra pública e política.


Também não é mais segredo para ninguém que o filme narra a histórica caça a Osama Bin Laden, que durou 10 anos. Mark Boal já tinha um roteiro pronto para o filme, que narraria os anos de uma busca infeliz e frustrada, que matou milhares de inocentes, colocou a economia americana e mundial em risco e que não teve sucesso algum. Mas pouco antes da pré-produção do filme ter início, Osama foi encontrado e assassinado pela CIA, e o roteirista teve que mudar toda a história. O filme também mostra a obsessão de uma agente da CIA em chegar até as últimas consequências em descobrir seu paradeiro, já que ela dedicou toda sua carreira nisso. Mostrada no filme pelo nome fictício de Maya, ela é real, mas ainda permanece disfarçada e é proibida de dar entrevistas a jornalistas por motivos de segurança. Alguns colegas que realmente trabalharam com ela afirmam que a caracterização dada pela atriz Jessica Chastain é bem próximo da realidade, principalmente a respeito da sua dedicação e temperamento.

Sem dúvida é um filme bem feito, e ao contrário do que a crítica aponta, ele não favorece a tortura. Ele apenas mostra que a tortura foi uma das atitudes tomadas pelos agentes, uma atitude desesperada até, já que a pressão sobre eles era constante e se tornou cada vez maior e mais pesada com o passar dos anos. Também não são cenas tão chocantes quanto a mídia pinta. Eu realmente assisti preparado para ver o pior, e o pior não é nem tão chocante assim, não com imagens. O choque é muito mais psicológico, porque a situação é lidada de forma bem crua, ao ponto de dar a impressão de poder sentir até o cheiro do ambiente. Não vemos chicotamento, laceração, queimaduras, nada disso... é apenas o confronto entre uma pessoa que se fortifica com a constante fragilização do outro. Em nenhum momento o filme se posiciona sobre o uso da tortura, mas ele deixa a situação duvidosa por vários momentos.


O crítico Rubens Ewald Filho acredita que se a personagem Maya tivesse verbalizado uma opinião que desaprovasse as situações, por mais curta que fosse, teria diminuído o peso sobre o filme. Mas isso não é necessário, a própria postura da personagem e seu semblante já demonstram isso a todo instante, incluindo uma sequencia em que ela mesma incita a tortura, mas logo em seguida se martiriza sozinha no banheiro pela ação extrema tomada. Portanto, sobre isso, é o que a própria diretora afirmou, o filme é duvidoso quando a própria história é duvidosa - como o uso da tortura, e acertivo quando a própria história é acertiva - como o assassinato de Bin Laden.

Na verdade o filme pode ser macro-dividido em duas partes, a primeira que mostra o uso da tortura e nenhum avanço nas buscas, e a segunda parte em que é usado a pesquisa e investigação, o que leva diretamente a Bin Laden. Por causa disso Michael Moore chegou a até ironizar, dizendo como é engraçado oito anos de tortura não levarem a nada e dois anos de investigação levar diretamente ao terrorista. Essa "mudança de planos" que ocorre no filme é outra questão que fundamenta que ele não deve ser taxado como pró-tortura. Enfim... essa questão é muito mais sensacionalismo da mídia e de críticos que assistem filmes igual fazem leitura dinâmica, apenas cinco minutos do começo, do meio e do fim, apenas para dar um parecer.

É mais um daqueles filmes lentos, que demoram pra desenvolver, além de longo. Muito longo. São 157 minutos que parecem durar o dobro pela falta de cenas mais dinâmicas e algo que realmente prenda a atenção. Mas é um filme histórico, não é um filme intencionado a descarregar adrenalina. Apesar disso, Bigelow consegue manter um clima de perigo constante ao soltar em momentos imprevisíveis os diversos atentados terroristas que ocorreram durante os 10 anos, e nisso ela tem muito êxito, pois ficamos paranóicos tanto quanto os personagens, acreditando que a qualquer momento algo pode acontecer. É ela novamente trabalhando com o terrorismo psicológico, tal qual feito em Guerra Ao Terror, em um clima que já é tenso logo quando a apresentação silenciosa do filme termina e algumas das gravações feitas entre vítimas do atentado de 11/09 são ouvidas em uma tela preta.


Embora Maya seja baseada em uma figura real e cuja participação na busca tenha sido crucial, achei a personagem bastante comum e sem uma grande participação no filme, o que é estranho. A figura na qual a personagem é baseada é tida como uma mulher determinada, chamada de "a assassina de Washington". Mas não vemos muito disso, aliás, quase nada. Pelo contrário, grande parte do filme a vemos como uma pessoa frágil, submissa, perdida, de poucas palavras. Há apenas uma cena e outra em que ela se impõe um pouco mais numa histeria desesperada, mas em definitivo não é nada que verdadeiramente justifique o favoritismo de Jessica Chastain ao Oscar, estando longe de ser um grande papel cativante como o que ela desempenhou em Vidas Cruzadas (The Help, 2011).

O filme poderia ter salvo um pouco de tempo para abordar outras situações que não foram sequer citadas como, por exemplo, o treinamento tático que os agentes tiveram em uma réplica da fortaleza de Bin Laden construída na Carolina do Norte, nos EUA, para justificar como é que o ataque foi realizado com tanta precisão, como é mostrado no final do filme, sendo uma das melhores sequências. Filmado de forma documentada, é a sequência que justifica o título original do filme, que se refere ao termo dado ao horário mais escuro da noite, às 0h30, horário no qual ocorreu o ataque (o relógio marcando esse horário pode ser visto logo no início dessa sequencia). É a única parte em que o filme é realmente escuro e que usa com excesso câmeras noturnas, mas é de uma tensão e de um tempo de filmagem preciso, em uma edição perfeitamente sincronizada, tanto que o filme tem concorrido nesta categoria em várias premiações, incluindo o Oscar. Bigelow fez questão de que essa cena fosse a mais realista possível, tanto que o tempo de ataque no filme dura 25 minutos, um pouco menos do que durou na realidade.

Em nenhum momento Bigelow apela para o sentimentalismo ou o excesso de drama. O tiro é dado na cabeça. Pronto! Não há dramatização em cima, não há trilha sonora, não há floreios. É ela agindo de forma certeira e fazendo seus personagens agirem de forma mais humana e realista possível. A bomba explodiu, tudo vai pelos ares. O foco muda e o filme continua. Até mesmo no assassinato de Bin Laden, uma cena que poderia ter sido o uso e abuso do cliché em mãos de diretores como Spielberg ou Terrence Malick, mas em nenhum momento ela faz disso um espetáculo ou um grande mérito da nação norteamericana, como é esperado. É um filme que tenta evitar partidos e posicionamentos.

Polêmicas à parte, vale ser visto por fazer um bom apanhado dos 10 anos e revelar importantes situações que são desconhecidas publicamente. A trama e os acontecimentos históricos são bem costurados ao ponto de transformar o espectador em uma parte daquilo tudo e fazê-lo pensar várias vezes "eu lembro de quando isso aconteceu" ou "eu lembro de ter lido algo a respeito disso", um espectador ativo e vivo dentro da história. O que é sempre muito interessante.

CONCLUSÃO...
Bigelow acerta mais uma vez em um filme mais tático do que de guerra, tal qual seu filme anterior Guerra Ao Terror. Aqui os grandes pontos positivos são o desenvolvimento da história, que amarra bem os fatos reais com os (possivelmente) fictícios, e o tom humano e verdadeiro da direção precisa e direta de Bigelow, sem dramatizar ou sentimentalizar demais situações em que outros diretores poderiam facilmente ter exagerado para o bem do drama. Também é um filme que coloca em discussão a polêmica do uso da força versus inteligência, e deve ser visto assim, e não como um filme que favoreça a tortura, como a mídia e críticos tem esboçado sobre ele.
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