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quarta-feira, 24 de maio de 2017

HUMOR DE TRÁGICAS METÁFORAS...

★★★★★★★☆
Título: Catfight
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama, Humor Negro
Classificação: 14 anos
Direção: Onur Tukel
Elenco: Sandra Oh, Anne Heche, Alicia Silverstone
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O reencontro de duas ex-amigas desencadeia uma guerra de egos, vinganças, importâncias, interesses e poder.

O QUE TENHO A DIZER...
Para Veronica (Sandra Oh), nada podia estar mais perfeito. Rica e influente, mora em um bairro nobre de Nova York com seu filho e seu marido, Stanley (Damian Young), o qual comemora com seus sócios um contrato milhonário de prestação de serviço ao Governo durante a guerra com o Oriente Médio.

Enquanto isso, Ashley (Anne Heche) está em crise conjugal com sua mulher, Lisa (Alicia Silverstone). O motivo: dificuldades financeiras. Ashley é uma artista plástica que há muito tempo não consegue vender um trabalho porque expressam sua visão caótica do mundo, "sangrentos" e explícitos demais para atrair a atenção de galerias, e Lisa não está conseguindo mais arcar sozinha com as despesas pois a crise econômica no país só tem oferecido subempregos.

Trabalhando na festa de comemoração de Stanley, Ashley só vai descobrir que o grande empresário é o marido de sua ex-amiga quando esta aparece na cozinha e deseja ser servida com mais bebida, vomitando impropérios sobre a vida afortunada que tem.

Ashley e Veronica pararam de se falar ainda na faculdade. Ashley alega que revelar sua homossexualidade foi o motivo de Veronica se distanciar, enquanto Veronica alega que Ashley se distanciou depois que conheceu Lisa. E em uma conversa nada amigável, ambas trocam farpas sobre suas vidas pessoais, sendo assim que o filme dirigido e escrito pelo turco-americano Onur Tukel começa, sem qualquer rodeio ou cerimônia para colocar as duas em uma briga desencadeada por motivos que pouco sabemos, mas na verdade pouco importam nesta comédia de humor negro que seria um drama trágico por excelência caso não usasse a ironia como um fator que nos dificulta entender o que é realmente engraçado do que não é. 

Tudo pareceria um filme comum sobre a rivalidade entre duas mulheres e as trivialidades que justificariam trocas de tapas caso o roteiro de Tukel não transformasse a conturbada relação de Ashley e Veronica em uma interessante metáfora das tragédias sociopolíticas que refletem o cenário norteamericano e mundial e da perversidade humana a favor de suas ambições. E não é à toa que, por isso, troca-se tapas por brigas dignas de ringues de luta livre.

O feudo basicamente representa o lado conservadorista da elite e o lado liberalista oprimido da classe média, assim como a secular rivalidade entre Democratas e Republicanos. Enquanto uma sofre com a crise econômica, a falta de oportunidades e a desigualdade, a outra se enriquece junto a um Governo manipulador que declara uma Guerra infundada apenas para movimentar sua economia exploratória. Mas as analogias não param por aí, e o roteiro também cria arquétipos para aqueles que vivem às bordas, como os ambientalistas, oportunistas e extremistas. Não chega nem a faltar um deboche direto a Hilary Clinton e Donald Trump.

Há um momento no filme em que Veronica diz a seu filho que se alguém maior e melhor mandá-lo fazer algo, ele deve fazê-lo. É em cima dessa frase que toda a moral do filme é construída, uma referência direta ao imperialismo norteamericano e sua inequívoca intenção de controlar eventos em todo o mundo, favorecendo seus próprios interesses econômicos, políticos e estratégicos, sujeitando outros países à subserviência para manter o status superioris.

Quando o roteiro imputa em cada personagem uma função conflituosa como em um campo de batalha, o caos se forma, e o ambiente se torna instrumento decisivo de influência em cada um deles. Tukel não poupa nem a sociedade e sua perniciosa ignorância, ao ponto de uma "Máquina Flatulenta" ser a principal atração engraçada na TV porque a alienação impede a compreensão de piadas críticas e políticas.

Pouquíssimas pessoas conseguiram compreender essa essência crítica e satírica do filme porque ele consegue ser discreto, e só se torna perceptível quando opiniões políticas são lançadas em momentos oportunos pelo roteiro caprichoso, que em um determinado ponto inverte os papéis das personagens e seus respectivos níveis de percepção quando Veronica entra em coma e acorda dois anos depois, pobre e sem teto por conta das mudanças econômicas e demais tragédias resultantes da guerra, e Ashley fica rica e influente porque a violência agora é um tema popular, tema o qual ela sempre explorou em seus trabalhos, mas só agora ganhou proeminência. E frente a essas diferentes situações, uma passa a ver o mundo sobre os olhos da outra sem sequer perceber, e cada uma em um comportamento relativo às suas novas realidades e interesses,

É quando os papéis se invertem novamente - e exatamente da mesma forma - que o filme parece abusar da paciência do espectador ao passar uma proposital sensação de deja vu. Embora aparente um exagero, é apenas uma continuidade dessa metáfora trágica e suas não-razões para esta repetição cíclica da violência, da retaliação e de suas consequências catastróficas. Uma busca sem fim de algo que não se sabe o que é, só mudando os interesses e tendências, onde tudo se destrói e não se reconstrói. E no fim (como no fim do filme) todos perdem, independente de quem seja a culpa, enquanto assistimos a tudo sem nada fazer.

terça-feira, 23 de maio de 2017

PODERIA SER... MAS NÃO É...

★★★★★☆
Título: Mesa 19 (Table 19)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jeffrey Blitz
Elenco: Anna Kendrick, Lisa Kudrow, Craig Robinson, Tony Revolori, June Squibb, Setephen Merchant
País: Finlândia, Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após recusar o convite de Dama de Honra do casamento de sua velha amiga, uma garota resolve aparecer na festa mesmo assim e completar uma mesa formada por pessoas que não se conhecem.

O QUE TENHO A DIZER...
Casamentos e situações inusitadas sempre foram temas para comédias ou dramas, como bem acontece em O Casamento de Muriel (1994) ou O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997), coincidentemente, ambos do diretor P.J. Hogan. Claro que existem outros, mas foi esses que me lembrei de imediato quando comecei a assití-lo.

Neste filme o roteiro é assinado pelos irmãos Duplass (Jay e Mark), e tudo começa em uma confusão interessante a partir do momento que a protagonista, Eloise (Anna Kendrick), decide se aceita ou não um convite de Dama de Honra. Rapidamente os demais cinco personagens são apresentados de maneira breve e em situações cômicas, até o filme ser introduzido de fato mostrando um esquema de salão de festas, a disposição das mesas e a maneira como elas estão organizadas para receber os diferentes convidados, agrupando-os de acordo com afinidades bastante intencionais. Finalmente chega-se à mesa 19, a última do salão, aquela onde dá para sentir o cheiro do banheiro, como diz Jerry (Craig Robinson) à sua mulher, Bina (Lisa Kudrow).

Formada por pessoas sem qualquer afinidade com nenhum outro convidado, além de conhecerem de alguma forma a família dos noivos, a mesa 19 é aquela para cobrir o buraco do salão. Com excessão de Vovó Jo (June Squibb), todos os demais sabem que estão lá para isso, mas cada um presente por um motivo pessoal próprio.

Esses motivos aos poucos se revelam, e nenhum deles é muito surpreendente ou extremamente cômico. São motivos comuns, mas levados a sério por cada um deles. O problema é que essa seriedade não ultrapassa a tela, e tudo deixa uma sensação muito vaga e pouco explorada, como acontece com o personagem Walter (Stephen Merchant), que faz uma revelação um tanto chocante, que poderia ter rendido maiores interações e conflitos entre ele e outros personagens que aparecem apenas por aparecer, acrescentando nada à narrativa.

Tudo se desenvolve bem até o roteiro dar apenas atenção ao drama da protagonista, e os demais se tornarem tão coadjuvantes ao ponto do esquecimento. A festa e seus demais convidados, que poderiam ser grandes objetos para excelentes situações, até chegam a demonstrar alguma coisa, como no caso da personagem Freda (Margot Martindale, excelente e irreconhecível), e quando a gente finalmente acha que algo acontecerá para dar uma movimentada na história e tirar aquela sensação tediosa de festa movida a status e aparências, como o filme constrói, nada acontece além de um corre corre pra lá e pra cá, um entra e sai do salão, recheadas de lições de moral de uma vovó moderna com a única finalidade de dar um final feliz à mocinha da história numa confusão típica de Sessão da Tarde.

Anna Kendrick sempre à vontade em personagens desajustadas por uma razão óbvia, seus personagens são sempre assim. Já se tornou sua marca registrada, o que é um tanto ruim pelo estigma que acaba se sobrepondo a seu talento. E chega a ser incômodo ver Lisa Kudrow muitas vezes presente apenas para compor cenas de situação e nada mais, porque, como em todos os poucos filmes que fez até hoje, ela sempre consegue fazer da personagem mais coadjuvante a mais interessante, e aqui não é diferente.

Se os Duplass tivessem se importado em desenvolver melhor os personagens mais do que suas histórias um tanto vagas, interagido melhor todos dentro da situação e criado ocasiões mais convincentes entre eles próprios, talvez o filme tivesse sido mais feliz em sua intenção. Havia toda uma atmosfera propícia para ter como referência principal O Clube dos Cinco (1985), mas desperdiçou todo seu potencial para, no fim, entregar nada além de uma comédia romântica água com açúcar que até rende algumas risadas e olhos marejados, mais pela simplicidade cliché do que pelo conteúdo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

MUITO MAIS ALÉM DA COR...

★★★★★★★★☆
Título: Cara Gente Branca (Dear White People)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Logan Browning, Brandon Bell, DeRon Horton, Marque Richardson, Antoinette Robertson, John Patrick Amedori
País: Estados Unidos
Duração: 31 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Em uma Universidade da Ivy League predominantemente branca, um grupo diverso de estudantes questionam e tentam reverter através da conscientização diversas formas de discriminação e preconceito.

O QUE TENHO A DIZER...
Três anos depois do lançamento do filme homônimo, a Netflix, junto com a Lionsgate, resolveram transformar em série aquele que foi um dos filmes com temas raciais mais injustiçados dos últimos tempos. Injustiçado no sentido de pouca gente o conhecer e de nenhum grande e popular festival ou premiação, como Globo de Ouro ou Oscar, lembrar de sua existência, mesmo quando havia qualidades de sobra nele para isso, como a excelente recepção que teve pela crítica.

Das pessoas que o assistiram, muitos não conseguiram entender do que o filme se tratava de fato, se era sobre política escolar ou sobre racismo. Oras, era dos dois! Um está atrelado ao outro, pois o racismo está diretamente relacionado à sociedade e à sua política. Não tem como separar uma coisa da outra. O que o diretor, roteirista e produtor Justin Simien fez foi simplesmente reduzir, comprimir, condensar as situações em um ambiente menor e mais controlado, como uma amostra populacional, e baseado nas suas próprias experiências enquanto estava na Universidade, discutir de maneira bastante contemporânea como a sociedade se comporta a esse tema nos dias atuais.

Definitivamente a má compreensão do filme e de seu teor crítico vem de pessoas que pouca atenção dão a esse problema, ou que persistem em seguir o senso comum de que discutir o racismo no século XXI seja desnecessário, ou sempre resgatarem a escravidão como argumento seja vitimismo, ou taxarem produtos como esse de "racismo reverso", como aconteceu quando o trailer da série foi lançado no YouTube.

Me lembro de uma frase chave do filme, quando a protagonista é questionada sobre o que ela acharia de um programa chamado "Cara Gente Negra". Sem titubear, ela responde: "Os meios de comunicação, de Fox News até os reality shows do VH1, deixam claro o que os brancos pensam de nós". E, assim como no filme, essa resposta também define toda a série e responde todas as pessoas que seguem o pensamento comum, mesmo que a série tenha diversas outras frases que a definem ao longo dos episódios.

Cara Gente Branca (o filme) consegue ser um pouco confuso pela quantidade de temas abordados e discussões a serem relevadas, mas há uma linearidade de pensamento que é coerente se bem acompanhada. Portanto, além de um belo exercício de argumentação, também é uma comédia séria (sim), com doses dramáticas honestas, excelentes interpretações e personagens estereotipados para expandir o contexto, além de um design de produção belíssimo que valoriza a diversidade de maneira igualitária raramente vista.

Seguindo a mesma premissa de que o título seja em referência ao nome do programa de rádio universitário comandado pela militante social e estudante de cinema, Sam White (no filme, interpretado por Tessa Thompson), a série terá o mesmo ponto de partida do filme: a polêmica festa a fantasia cujos convidados deveriam ir fantasiados de negros. E aquilo que a princípio parecia uma "festa inofensiva", resultou em um ato de rebeldia e violência daqueles que, por razões óbvias, se sentiram ofendidos.

Foi uma excelente escolha começar a série novamente por aí, pois justifica logo de cara sua própria existência e maximiza o tal conceito do que é racismo hoje em dia para as caras pessoas que ainda não conseguem enxergar isso. Além disso, Justin Simien, que se mantém como roteirista e diretor de alguns episódios, também se aprofunda em discussões interraciais quando descobrem que a protagonista (agora interpretada por Logan Browning) tem um relacionamento escondido com um branco, algo que no filme também acontece, mas não tinha espaço para um desenvolvimento tão amplo como agora tem.

Uma das coisas que mais fez o filme funcionar (além da consistência do próprio roteiro), eram os atores. Na série da Netflix, do elenco original, apenas Brandon Bell e Marque Richardson foram mantidos no papeis de Troy Fairbanks e Reggie Green, respectivamente. Não que essa troca tenha impactado no resultado, mas alguns personagens acabaram perdendo um pouco do brilho que o filme apresentou, como também alguns deles sofreram drásticas mudanças, como é o caso de Coco Conners (Antoinette Robertson) e do próprio Troy.

No filme, a personagem de Coco (interpretada por Teyonah Parris), talvez fosse a que mais pudesse deixar o espectador confuso, já que ela é uma negra que finge ser branca, negando qualquer ato ou comportamento que caracterize sua raça, incluindo envolvimento com pessoas da mesma cor. Sua alienação e futilidade pareciam descabidas, mas sua construção é tão bem feita que a justificativa de seu comportamento não apenas é entristecedora e desmoralizante, como compreensível. Da mesma forma Troy, que no filme era um personagem condicionado pelo seu pai a agir favoravelmente aos brancos para, assim, garantir um brilhante futuro.

Na série essa complexidade toda foi amenizada. Coco se tornou uma garota ambiciosa que apenas diverge de algumas opiniões e comportamentos, sempre pendendo para aqueles que sejam menos conflituosos e que lhe traga maiores benefícios pessoais. O mesmo acontece com Troy, mas esse, sempre em conflito com as pressões sociais, familiares e políticas vindas de todos os lados ao ponto de igualmente perder sua identidade.

Uma pena Simien ter dado essa guinada de 180 graus na personalidade de ambos, que se no filme foram extremamente bem desenvolvidos, na série poderiam ter sido muito mais. O nível de complexidade dos diálogos, das referências, analogias e metáforas também foi bastante amenizado, e até os discursos de Sam White também perderam alguns pontos daquele humor ácido e perspicaz que fazem do filme um produto não apenas consistente nos seus temas, mas solidamente embasado em suas justificativas. Tudo isso a favorecer uma linguagem mais acessível ao público comum, o que é compreensível, mas não muito necessário.

De qualquer maneira, nada disso altera consideravelmente o resultado final, e novamente o roteiro sai vitorioso ao dar voz aos diferentes pontos de vista, e todos eles sempre convergendo a uma questão comum. Como acontece no quinto episódio, quando Reggie reprime um amigo branco por cantar junto com uma música um termo socialmente impróprio, e então a opinião se divide, tanto para os personagens, como também irá se dividir para o espectador. A conclusão disso é que, independente de quem tenha a razão, nada justifica a abordagem policial que o personagem recebe, numa cena bastante chocante, com referências sociais óbvias e muito mais comuns do que se pode imaginar, colocando todos em um mesmo lado e em um mesmo questionamento, inclusive o próprio espectador.

E ao contrário do que pode parecer, assim como o filme, Cara Gente Branca não é uma série militante ou que tenha intenções de ser polêmica, mas essencialmente questionadora, tanto para o segregado, quanto para o agente segregador, nos fazendo compreender como é ser um negro dentro de uma sociedade branca, e como é ser um branco em uma sociedade racialmente intolerante, e a partir daí encontrar nossa própria essência e identidade como seres humanos.

sábado, 6 de maio de 2017

NENHUM ELOGIO É BOM O BASTANTE...

★★★★★★★★★☆
Título: Feudo: Bette e Joan (Feud: Bette And Joan)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Susan Sarandon, Jessica Lange, Alfred Molina, Judy Davis, Stanley Tucci, Catherine Zeta-Jones, Kathy Bates
País: Estados Unidos
Duração: 45 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A histórica rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford revelam mais do que simplesmente uma disputa de egos.

O QUE TENHO A DIZER...
Rivalidade existe em todo lugar, mas nunca foi tão saborosa quanto entre Bette Davis e Joan Crawford. Saborosa para quem tinha partido nesse embate (ou pra quem agora tem, assistindo a série). Mas não se pode negar a tristeza bastante desmoralizante pela forma como a mídia inflamou essa fogueira, e como a situação foi explorada.

E com uma abertura bastante similar à animação vetorial de A Favorita, já fica bem evidente que o sucesso, fama, títulos, prêmios e inveja serão os grandes motivadores de uma problemática relação que influenciou toda uma indústria e seus fins trágicos por consequência.

Mas para entender melhor o que a série pretende mostrar, nada melhor do que conhecer um pouco mais da realidade em que ela é baseada.

Então senta, que lá vem história...


Não se sabe ao certo o início de tudo. Acredita-se que a situação tenha começado na década de 30, quando Joan Crawford se casou com Franchot Tone em 1935, ator com quem Bette Davis trabalhou no mesmo ano no filme Perigosa (Dangerous), por quem ficou apaixonada, sofrendo uma terrível derrota amorosa com o casamento.

Joan Crawford já tinha seu lugar profissional estabelecido e respeitado, já que vinha do cinema mudo, principalmente porque, ao contrário de muitas outras atrizes que vieram da mesma época, ela tinha talento e voz (sim, muitas atrizes perderam o emprego pois a voz era terrível). Enquanto isso, Bette Davis concorria ao seu primeiro Oscar por Servidão Humana/Escravos do Desejo (Of Human Bondage, 1934), de uma maneira muito peculiar. A princípio ela não estava entre as três finalistas, mas como sua interpretação foi elogiada pela crítica e pelo público de maneira quase unânime, aconteceu uma forte campanha para a Academia incluí-la, e assim foi feito, sendo esse filme considerado sua grande estréia em Hollywood.

Nos anos seguintes, a situação ficou um pouco mais séria quando os papéis começaram a se inverter: enquanto Davis estava em ascenção constante na carreira, Crawford foi posta de lado, sendo dispensada pela MGM em 1943, enquanto Bette se tornou um dos nomes mais importantes de Hollywood e a principal estrela da Warner. Aceitando um salário reduzido, Crawford foi contratada pela Warner. Davis, incomodada, não gostou da contratação, encarando como uma provocação do estúdio, e a presença da rival na mesma casa como uma ameaça, o que acabou exaltando o humor de todos.

Dentro da Warner, Crawford também demonstrou seu incômodo ao se esforçar de todas as maneiras para tentar conseguir papéis importantes antes deles pararem nas mãos de Davis, mas foi em vão. E ao contrário do que esperava, os papéis que chegavam eram exatamente aqueles que Davis recusava.

Essa situação de "atriz substituta" não foi de todo ruim. De três indicações ao Oscar que Crawford recebeu nos anos de 46, 48 e 53, as duas primeiras foram de papéis recusados por Davis, vencendo apenas em 46 pelo seu papel em Mildred Pierce. Como curiosidade, ela não compareceu à premiação alegando problemas de saúde. Na verdade ela fingiu estar com pneumonia para criar um espetáculo dramático e conquistar a atenção da mídia. Essa curiosidade é importante porque, além de ser um fato presente na cinebiografia Mamãezinha Querida (Mommie Dearest, 1981) e também citado em alguns episódios de Feud, é uma encenação que ela voltou a repetir para prejudicar as filmagens de Com A Maldade Na Alma (Hush, Hust, Sweet Charlotte, 1964), fato que o seriado desenvolve com profundidade lá pelo sexto espisódio.

A intenção de reunir as duas atrizes surgiu primeiramente em 1950 para o filme À Margem da Vida (Caged), mas a recusa de Bette Davis pelo papel não apenas impediu isso de acontecer como também interferiu na contratação de Crawford, que também não foi escalada para ele.

O que se imagina é que, o fato de Davis não gostar de Crawford se tornar algo público, acabou despertando em Crawford uma necessidade de resposta, e a rivalidade entre elas foi plantada. Mais do que isso, esse embate público também criou discussões comparativas dentro da indústria sobre quem era mais talentosa, quem era mais bonita, quem era mais interessante ou inteligente. Isso influenciou negativamente no comportamento de ambas, preparando o terreno para uma guerra criada e alimentada mais pelos outros do que por elas mesmas.

Em seu silêncio, Crawford aparentava sustentar uma grande admiração por Davis, mesmo sendo constantemnte minada pelas pelos comentários ácidos da colega. Ao mesmo tempo invejava seu sucesso e popularidade, e para driblar as comparações inferiores que recebia - inclusive dos próprios chefes da Warner - se esforçava herculeamente para provar ser tão (ou mais) capaz e competente. Por outro lado, quanto mais Davis percebia os esforços de Crawford, mais ela a esnobava, atacando sua moral e inferiorizando suas qualidades como atriz para desestruturá-la psicologicamente, pois Davis sabia que falar do talento de Crawford era atingir seu tendão de Aquiles, e assim continuaria por cima.

Sabe-se que reuní-las para o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened To Baby Jane?, 1962) acabou se tornando uma guerra de egos e interesses que quase enlouqueceu o diretor Albert Aldrich, e o estopim da situação foi durante a promoção do filme. Davis viajou por todo o país promovendo o filme praticamente sozinha enquanto Crawford se escondeu em sua mansão em Los Angeles. Durante a promoção, em momento algum Davis elogiou a performance de sua colega de elenco. Este é tido como, talvez, o maior rancor de Crawford depois de ter sido ignorada pelo Oscar em 1964, situações também presentes no seriado.

Crawford chegou a afirmar que teria sido louvável e profissional se Davis tivesse lhe dado um pequeno crédito nas coletivas que precederam o lançamento ao invés de agir como se o filme fosse apenas dela. Um ressentimento compreensível até, independente do difícil convívio nos bastidores.

Bette Davis sempre levou muito a sério a bagagem profissional de atores com quem trabalhou, sendo até um tanto preconceituosa a respeito disso. Ela, que começou sua carreira na Broadway, desdenhava o background profissional de Crawford, que começou a carreira como dançarina de boates antes de estrear no cinema mudo. Em contraponto, Crawford admirava a bagagem teatral de Davis, mas acreditava que essa experiência não era útil no cinema, já que as câmeras demandavam outro tipo de técnica, afirmando que Bette sabia interpretar, mas não sabia entregar personagens (fala também presente na série).

Na tentativa de construir uma imagem popular mais diplomática, Crawford nunca respondia diretamente os ataques recebidos por Davis, ou pela imprensa de fofocas. Ao invés disso, preferia agir de maneira mais indireta e ardilosa pelos bastidores, o que sempre demonstrou uma certa fraqueza emocional e covardia, coisas que Davis repudiava, pois era conhecida por ser bastante direta e desbocada. Daí o fatídico episódios do Oscar em 1963, pelo qual Davis nunca a perdoou, culminando na insustentável situação no início da produção de Com A Maldade na Alma.

Por essas e outras que, enquanto Crawford era conhecida como "a rainha do drama", Davis era conhecida como a "grande megera" de Hollywood. Davis chegou a afirmar que o maior talento de Crawford era chorar demais, como se urinasse pelos olhos, além de dormir com todos os homens de Hollywood, só faltando o cachorro Lassie. Crawford, por sua vez, vestia o papel da dama indiferente e fingia não se incomodar, respondendo que se tirassem os olhos saltados, o cigarro e os maneirismos de Davis, não sobraria talento algum. Farpas públicas recorrentes, e que para a imprensa de fofoca era sempre bastante lucrativo.

Naquela época, a opressão e o abuso da imagem feminina eram grandes. Mulheres eram poderosas nas telas, mas nos bastidores a situação era inversa. Se hoje a discussão de assédio nos bastidores é algo recorrente, na época ninguém tocava no assunto, pois era corriqueiro e dominante entre os homens e os negócios. As atrizes eram assediadas moral e sexualmente, usadas como objetos e mercadorias. Sabe-se, por exemplo, que os grandes chefes de estúdios como MGM, Warner e Fox, trocavam farpas durante o dia, mas a noite se reuniam para carteados e apostas, sendo Bette Davis uma dessas apostas quando Jack Warner aceitou empresta-la à RKO para o filme Pérfida (The Little Foxes, 1941), e assim quitar uma dívida de US$300 mil.

A rivalidade entre as duas era uma coisa natural até um certo ponto, mas a partir do momento que isso se tornou algo vendável, o oportunismo em cima disso forjou situações para piorar a inimizade e gerar essa atmosfera de constantes ataques e aprovações.

É óbvio que grande parte disso tudo era catalisado pela imprensa sensacionalista, encabeçada pela frustrada atriz e colunista de fofocas, Hedda Hooper. Sua coluna no jornal Los Angeles Times era bastante influente na opinião pública, ao mesmo tempo que Hedda era considerada persona non grata nos grupos mais intelectuais. A título de interesse, Hopper foi uma das responsáveis por denunciar possíveis comunistas ligados à indústria cinematográfica durante a era McCartista, entre as décadas de 40 e 50, prejudicando e desempregando dezenas de diretores, atores, roteiristas e demais ligados à indústria, naquilo que veio a ser chamado de "lista negra" de Hollywood.

Até hoje existe uma grande discussão mundial sobre rivalidades que a mídia cria para diminuir a capacidade das mulheres, como uma maneira de controlá-las e transformá-las em indivíduos manípuláveis, fazendo delas estereótipos e rótulos fúteis, vendendo-as pelas polêmicas, e não pelo talento, como bem aconteceu com ambas.

Davis e Crawford podiam ter seus problemas, mas uma coisa elas tinham em comum, o comprometimento com o trabalho. Ambas eram extremamente profissionais e exigiam bons papéis aos donos de Hollywood, além de detestarem serem passadas para trás. Foram, juntamente com poucas outras atrizes, como Katherine Hapburn e Olivia De Haviland, as precursoras de um comportamento femininsta em Hollywood que incomodava os grupos machistas dominantes. Davis chegou a processar a Warner na década de 30 por ter se negado a fazer um filme e estar presa a um contrato que a impedia de escolher seus trabalhos, ou até mesmo trabalhar fora dos EUA por conta própria. A Warner era "dona" dela. Obviamente ela perdeu, sua imagem ficou manchada, mas nunca abaixou a cabeça. De Haviland chegou a mover um processo similar, mas ao contrário de sua amiga, se bem sucedeu, conseguindo uma certa "emancipação" da indústria.

Embora fosse evidente para ambas que a mídia era uma grande responsável por manipular essa rivalidade, Bette nunca escondeu seu desapreço, enquanto Crawford nunca afirmou odiá-la, mas também não deixava barato. Apesar de tudo, Davis nunca negou admirar o profissionalismo e a pontualidade de Crawford, também dizendo que grande parte dos problemas que Crawford teve na indústria foram basicamente os mesmos que também teve, justamente por serem extremamente exigentes e críticas.

Hoje em dia há muitas idéias de que a mídia tenha criado esse campo de batalha para evitar que Davis e Crawford unissem forças para combater o sistema dominante da época. Era certo que, se as duas se tornassem aliadas contra os esquemas que reduziam as mulheres como carnes de açougue, isso pudesse dar margem a um movimento que seria desmoralizante para a indústria e obrigaria Hollywood a grandes mudanças. Mudanças as quais - algumas - aconteceram com o passar dos anos, como os estúdios hoje em dia não serem mais "donos" de artistas ou diretores, e proibidos de exigirem contratos restritos ou que se extendam por mais de 7 anos.

A imprensa da época era movida a "frases de impacto", tal como acontece no primeiro episódio, quando Hedda Hopper (Judy Davis) diz a Crawford (Jessica Lange) que ela só precisa de um "catch phrase" sobre Marilyn Monroe, ou seja, aquela frase de efeito pronta para ser publicada na primeira página, que se propagasse facilmente. Tanto é assim que existem diversas frases memoráveis (e verdadeiras) tanto de Joan quanto de Bette, aproveitadas no seriado em meio aos diálogos, como as mais conhecidas de Davis sobre Crawford: "Não mijaria em Crawford nem se ela estivesse pegando fogo", ou a mais polêmica delas: "Não devemos falar mal dos mortos, apenas coisas boas. Crawford está morta, isso é coisa boa".

Alfinetadas irônicas e perniciosas como Twittes nos dias atuais, nada que ultrapassasse 140 caracteres nas manchetes de fofocas. Enfim, todo o ringue era planejado e montado por aqueles que tinham interesse.

Portanto, é basicamente em cima dessas idéias e acontecimentos que Ryan Murphy irá desenvolver a primeira temporada de sua nova série de antologias, assim como é seu filho pródigo, American Horror History, onde cada temporada tem uma história única.

É por essa razão que a série irá abordar dois momentos importantes: os batidores de Baby Jane, e os bastidores de Com A Maldade Na Alma, pois são capítulos que marcam o início e o fim de uma era de rivalidade.

A idéia de Feud começou há seis anos atrás. Murphy sempre foi um grande fã de Davis, e após ler a biografia de Shaun Considine, narrando o complicado bastidor de O Que Terá Acontecido A Baby Jane?, quis fazer um filme sobre o assunto. Afirmou sempre ter tido em mente Susan Sarandon e Jessica Lange nos papéis, mas as dificuldades de transformar o projeto em filme acabaram levando-o a optar por um projeto para a televisão, algo que Sarandon chegou a afirmar em entrevistas recentes ter sido a opção mais interessante, pois haveria tempo para explorar assuntos em oito episódios que em um longa metragem não seria possível.

A biografia de Considine é um dos materiais principais de todo o roteiro, mas não apenas isso... relatos, boatos, fofocas, informações de bastidores... tudo isso igualmente incrementa e traz à tona uma rivalidade que permeou o imaginário das pessoas, alimentadas por todo o espetáculo midiático que se criou em torno disso. Claro que algumas informações distorcidas aparecem, como a série afirmar no primeiro episódio que Baby Jane teve seu roteiro escrito pelo próprio Albert Aldrich, e não por Lukas Heller (que também foi o responsável pelo roteiro de Com A Maldade Na Alma). Há também algumas controversas, como o polêmico anúncio que Bette Davis publicou em 1963 procurando emprego. A publicação, na realidade, foi uma piada criada por ela mesma para criticar o etarismo da indústria ao ignorar atrizes depois de uma certa idade, e acredita-se que foi depois de vê-lo que o diretor Robert Aldrich contatou a atriz para o papel principal em Baby Jane, e não muito bem da forma como o seriado mostra. 

Independente disso, Murphy faz uma construção muito sólida de tudo. A pesquisa realizada, o material coletado de diversas fontes videográficas (a maioria delas encontradas no próprio YouTube) reproduzem tudo com tanta atenção a detalhes que é surpreendente (há diversos vídeos comparando as reproduções da série com os materiais reais). O mais impressionante é a forma como ele conseguiu encaixar tudo dentro de uma cronologia possível e ainda criar uma história consistente em meio a tantas referências e informações dispersas.

O roteiro se utiliza basicamente de duas narrativas principais: A narrativa mais objetiva, mostrando o cotidiano das atrizes e seus conflitos pessoais, dando justificativas e arco dramático necessários para sustentar a conflituosa relação entre elas e suas respectivas vidas privadas cheias de altos e baixos, bem como a narrativa mais documental, com relatos de Olivia De Haviland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates), amigas íntimas de Davis, para dar consistência aos fatos por pontos de vistas externos e mais pessoais.

O resultado - e não tem como dizer outra coisa - é brilhante.

De forma alguma seria desmerecer ou diminuir o talento de Jessica Lange, mas o trabalho desenvolvido por Sarandon é arrebatador. Ela consegue incorporar a essência de Davis em todos os aspectos, do modo de falar ao modo de agir. Ao ver sua performance, é como se a víssemos pensando como Davis. Segundo a atriz, sua maior preocupação foi fugir o máximo que pudesse da caricatura, já que a própria Davis era uma pessoa bastante caricata, como no momento em que ela se apresenta como Baby Jane pela primeira vez, conseguindo ser tão engrandecedor e chocante como é relatado ter sido na realidade.

Assim como o primeiro episódio mostra, Davis decidiu fazer sua própria maquiagem, recusando profissionais. A idéia que ela teve para Baby Jane é que ela era uma pessoa que aparentava ser como uma boneca velha, maquiada em cima da maquiagem do dia anterior. Quando ela se apresentou daquela forma a Bob Aldrich, ela não apenas arrancou o choque da equipe, como também de sua própria filha e igualmente de Joan Crawford, ao mesmo tempo que, por outro lado, foi parabenizada pelo próprio autor do livro, que afirmou que ela estava exatamente como ele imaginava Baby Jane enquanto escrevia. Essa relação de Davis com a maquiagem já rendeu outras situações, como no filme Pérfida, quando o diretor William Wyler disse que sua maquiagem parecia de um Kabuki, e que ele não a filmaria daquele jeito. E, no fim, Pérfida é igualmente uma de suas maiores performances de sua carreira.

Embora a performance de Sarandon tenha grandes virtudes, principalmente porque seus diálogos sarcásticos e de objetividade cirúrgica reproduzem com assustadora fidedignidade a irônica rispidez, o humor sarcástico e a afiada eloquência de Davis, Lange não é ofuscada, mas também não se destaca como se espera, ficando a todo momento sob as sombras.

Mas isso não é demérito do roteiro e muito menos um erro, mas algo que se mostra proposital pela própria personalidade da atriz referenciada. Crawford, assim como publicamente taxada, era sempre dramática demais. Uma mulher que tinha diversos problemas pessoais e psicológicos, como inferioridade, baixa auto-estima, depressão, mania e alcoolismo. Não é à toa que seus móveis encapados era uma das coisas mais bizarras de sua persona, já que tinha obsessão por limpeza. Dita como uma pessoa difícil de se conviver, era inteligente e determinada, mas não tinha a mesma sagacidade de Davis. Por ter dado tanta atenção a comentários e comparações de terceiros, seu único objetivo, por muito tempo, foi se sobrepor à sua rival, e a consequência disso foi ter se tornado uma coadjuvante de sua própria história. Isso é o que é realmente entristecedor de toda essa rincha, e esse lado dramático pode até ter o melodrama sempre característico de Crawford empersonado por Lange, mas não deixa de ser verdadeiro e sofrido. A forma como Crawford absorveu a situação e transformou tudo isso em um objetivo vazio, é uma batalha que ela trava com ela mesma sem qualquer trégua, resultando em uma vida solitária, um final de carreira decadente e uma morte anunciada. 

A manipulação existente em volta das duas atrizes, até mesmo na de Aldrich sobre elas, alguém que se mostrou presente e amigo, considerado por elas como alguém de confiança e um mediador necessário, é desmoralizante. Mas assim como a série constrói, Aldrich também foi uma vítima dessa manipulação, sendo igualmente inferiorizado e um objeto/ferramenta de concretização dessa novela, tamanha a gigante proporção do domínio da indústria sobre eles, já que os estúdios passaram a depender de toda essa má publicidade para garantir o sucesso de bilheteria dos filmes numa fase que lançou o estilo "hag movies" (ou hagsploitation), ou seja, filmes que exploravam a imagem de "bruxas velhas", em referência ao gênero de suspense/horror com atrizes acima dos 50 anos interpretando vilãs caricatas.

Numa época em que fala-se muito da igualdade das mulheres e de seu empoderamento, a série ergue discussões fundamentais sobre isso sem soar doutrinadora ou didática, como no momento em que Pauline Jameson (Alison Wright) expressa suas intenções em dirigir um filme que ela mesma escreveu pensando em Crawford no papel principal, mas é desmotivada pela forte presença masculina em um período em que não havia mulheres diretoras em Hollywood. Claro que o cenário hoje é um pouco diferente, mas ainda existe um grande desfalque feminino nesta categoria, e uma das grandes razões da maioria dos episódios terem sido dirigido por mulheres.

Embora superficialmente a série aparente sustentar a rivalidade apenas em cima da inveja sobre a beleza de uma e o talento de outra, é possível perceber que havia muito mais por trás de tudo. Murphy conseguiu criar um material respeitoso, além de uma grandiosa homenagem às duas atrizes, entregando ao público um final esperado, mesmo que diferente da realidade, mas desenvolvido de maneira tão delicada, expressiva, e justificada de forma tão simples e honesta que encerrou satisfatoriamente a temporada, servindo como um possível pedido de desculpas póstumas uma à outra. Um final emotivo e nostálgico, uma fantasia poética possível caso tudo tivesse sido diferente, além de mostrar que ambas tinham muito mais em comum do que elas próprias imaginavam.

Como um todo, Feud se mostrou mais que uma série, mas um resumo histórico de uma fatia da História do Cinema e de Hollywood, além de ser, até o momento, a melhor temporada de séries de 2017. Curta, expressiva, relevante e emotiva.

Nenhum elogio é bom o bastante.

terça-feira, 2 de maio de 2017

SER HUMANO É...

★★★★★★★★★☆
Título: Human
Ano: 2015
Gênero: Documentário
Classificação: Livre
Direção: Yann Arthus-Bertrand
Elenco: -
País: França
Duração: 190 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma coletânea de histórias e imagens sobre nosso mundo, oferencendo uma imersão à essência do que é ser humano.

O QUE TENHO A DIZER...
Yann Arthus-Bertran é um fotógrafo, jornalista, repórter, cineasta e ambientalista. Nascido na França, o diretor de 70 anos ficou famoso quando lançou o livro Earth From Above (1999), resultado de seus estudos sobre o comportamento da Terra, patrocinado pela UNESCO. O livro é uma coletânea de fotos aéreas tiradas das mais impressionantes e belas paisagens que ele registrou do mundo, e vendeu mais de 3 milhões de cópias, se tornando também uma série documental de 16 episódios.

Em 2009, ele lançou Home, seu primeiro documentário em longa metragem, abordando a relação do homem com a natureza através de imagens deslumbrantes e uma narrativa bastante objetiva que questionava o equilíbrio ecológico do planeta atualmente.

Anos se passaram, e o meio ambiente sempre foi o principal assunto de discussão de seus trabalhos posteriores. Mas, em 2012, Yann resolveu dar início a outro trabalho e focar a natureza através de outro ponto de vista, o ponto de vista humano.

Com uma equipe de 20 pessoas, o diretor entrevistou mais de 2000 mil pessoas em 60 países. Uma proporção jamais feita antes. As entrevistas seguiam um questionário padrão de aproximadamente 40 perguntas relacionadas a diversos temas, desde os mais pessoais, até os mais abrangentes.

Desde o princípio, Yann tinha a audaciosa intenção de lançar o longa nas condições mais livres para o maior número de pessoas possível, e, obviamente, não conseguiu encontrar nenhum outro veículo que melhor pudesse lhe oferecer isso da maneira mais democrática do que a internet.

O documentário foi lançado em 2015 na Bienal de Cinema de Veneza, simultaneamente em 400 salas de cinema na França, e no YouTube, já que a Google foi sua parceira exclusiva, disponibilizando o material na versão extendida em seis línguas: Inglês, Russo, Espanhol, Português, Árabe e Francês, se tornando o primeiro documentário a ter o maior lançamento mundial não comercial e gratuito da história. E não por menos, pois o trabalho, mesmo que tenha seu teor crítico e diversas camadas de interpretação, seja, em sua grande essência, a maior homenagem ao ser humano que alguém já ousou fazer.

Belo e impressionante, é um documentário de formato simples e intimista. Nada além de histórias sob diferentes aspectos de vida contadas por pessoas frente a câmera, em um plano escuro, intercalando os diferentes temas abordados com maravilhosas imagens aéreas de paisagens que sempre mostram grupos de pessoas realizando atividades que, para elas, podem parecer grandiosas e extenuantes, mas na realidade mostram como somos tão pequenos e frágeis. Acima de tudo, mostra nossa característica mais marcante, a de que, apesar de toda nossa individualidade, somos seres grupistas, que necessitamos uns dos outros para realizar ou dar continuidade a qualquer coisa que seja. 

O capricho da produção, de sua fotografia, da qualidade do som e da imagem, são tão deslumbrantes que o que se destaca são os próprios indivíduos. E cada olhar, cada assimetria, cada marca de expressão, cada cicatriz, cor, defeito ou detalhe único de cada um, se transformam em belezas raras, contando muito de suas próprias histórias de vida mais do que elas mesmas precisariam contar. Pessoas que não tem nome, pois não é isso que interessa. Yann não dá uma identidade ao entrevistados porque quer deixar evidente que, além do que se acredita, isso não impede as pessoas de terem voz, e que são as experiências únicas que as definem como indíviduos e como um coletivo.

Amor é o tema inicial de abertura do filme. Os olhos dos entrevistados brilham, e suas diferentes opiniões sobre aquele que é o maior sentimento humano apenas comprovam que, mesmo havendo infinitas formas de definí-lo, ele é um só.

Essa introdução nos prepara para assuntos mais complexos. Aos poucos, o diretor nos carrega por outros temas como o machismo, família, homossexualidade, religião, pobreza, guerra, dentre outros. Diferentes experiências e sensações que vêm em ondas, já que, da mesma forma como curtos relatos conseguem tirar de nós os mais sinceros sorrisos, outros também conseguirão tirar de nós as mais sinceras lágrimas. A intensidade emocional é grande, mas não há sensacionalismo. Yann consegue mesclar essas diferentes intensidades de maneira tão hábil que nos incentiva a querer conhecer muito mais de cada um.

A brutal honestidade dos diferentes relatos apenas expõe feridas que ignoramos, ou pouco conseguimos compreender por não fazerem parte do nosso cotidiano. Em um mundo atualmente tão individualista, marcado cada vez mais por sistemas cruéis que sugam das pessoas a capacidade de compreensão do próximo, Human consegue ser um excelente exercício de descobertas, tolerância e respeito, uma expansão de consciência daquilo que somos e deveríamos ser.

É fácil julgarmos as pessoas e definir sentimentos de maneira simples, conforme nossas experiências pessoais, mas é difícil nos despir do pré-conceito. É fácil julgarmos alguém pela sua aparência, mas é difícil querermos conhecer sua história. Human consegue fazer isso, de nos mostrar que sentimentos são muito mais do que apenas aquilo que sentimos, e que por trás das aparências há experiências que talvez nunca teremos, mas devem ser respeitadas, para através delas quebrarmos paradigmas e sairmos de um status quo alimentado por uma sociedade comumente superficial e movida a impressões.

Yann desmembra a complexidade e a beleza em ser humano, do nosso instinto de sobrevivência, da nossa força tirada sabe-se lá de onde para nos mantermos em um objetivo, e da esperança existir até mesmo onde ela parecia abandonada. Também nos mostra como as experiências são modificadoras, e como não podemos deixar que certas heranças culturais se sobreponham a noções básicas do convívio e do respeito.

Um documentário transformador, que consegue nos dar diferentes impressões do que somos antes e do que pretendemos ser depois de assistí-lo. Como li em um comentário, um antídoto a tudo aquilo que nos divide, que enfraquece a dicotomia do "EU VERSUS ELES", que resume os erros que nos fazem sempre querer nos sobrepor aos outros, e resumir tudo às diferentes violências de maneira tão fácil.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

24 POR 1/2 DÚZIA...

★★★★★★☆
Título: Fragmentado (Split)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Anya Taylor-Joy, James McCavoy, Betty Buckley, Haley Lu Richarson, Jessica Sula
País: Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Três garotas são raptadas por um homem que sofre de dissociação de personalidade. Diagnosticado com 23 alter-egos, dois deles tentam fazer o 24º deles emergir, o mais poderoso e dominante de todos, enquanto as três tentam escapar do cativeiro antes que seja tarde demais.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), M. Night Shyamalan nunca mais conseguiu repetir o mesmo sucesso de crítica. Apesar de tudo, o público continuou a seguí-lo e engordar a bilheteria de seus filmes. Aos poucos, até aqueles que um dia se diziam fãs, começaram a perder o interesse nos filmes autorais do diretor, que sempre tinham uma grande premissa e um interessante enredo, mas que no fim pecavam no desenvolvimento e em conclusões tolas. Todos eles tentando, no fundo, repetir o mesmo elemento surpresa que, em 1999, funcionou tão bem.

Shyamalan nunca escondeu sua vontade de ser conhecido como um diretor autoral, com uma assinatura própria, e essa obsessão lhe custou um tanto caro no decorrer da carreira. Claro que um ou outro filme chamou a atenção, como Corpo Fechado (Unbreakable, 2000) e Sinais (Signs, 2002), mas, no geral, ele amargou uma antologia de fracassos, filme após filme.

Foi com o inesperado sucesso de A Visita (The Visit, 2015), o primeiro filme independente e produzido por ele mesmo, que, depois de 16 anos, o diretor viu uma luz no fim do túnel. O filme foi, no geral, elogiado pelo seu clima sombrio, generosas doses de terror e violência, com um tom cômico que funcionou muito bem. Pela primeira vez em muito tempo, o longa foi bem recebido pela crítica e pelo público. Parecia que ele havia retomado à sua forma, ou repensado que, para um bom filme, não era necessário tantas reviravoltas inúteis. Shyamalan justificou, atribuindo o fracasso de seus filmes anteriores ao controle dos estúdios, e que pelo fato de A Visita ser um produto independente, ele mesmo pode tomar suas próprias decisões durante todo o processo.

Fragmentado parecia ser um resultado disso, e pelo título original, poderia-se até supor que fosse uma referência indireta a Corpo Fechado, no qual o título original, Unbrakeable, soa como um antônimo. Corpo Fechado é um de seus filmes mais comentados depois de O Sexto Sentido, uma produção que, de certa forma, foi o grande precursor daquilo que viria a ser o que os filmes de super-heróis e a exploração do universo dos quadrinhos se tornaram.

Trabalhando em cima de um personagem com múltiplas personalidades, o filme carrega um "quê" de Identidade (Identity, 2003), de James Mangold (que recentemente dirigiu o dramático Logan), mas de uma forma um pouco mais inchada na fantasia, característica de seu estilo. Sem titubear, o filme começa com um interessante tom slasher movie, com uma abertura similar àquela que Wes Craven e Kevin Williamson criaram tão bem na série Pânico

A história é progressiva e lenta, e não há como negar que Shyamalan consegue criar um ambiente atemorizante e apreensivo com pouco em suas jogadas de câmera, lentas aproximações, e constante domínio do cenário que os personagens estão inseridos. Isso é uma de suas qualidades, que sempre estiveram presentes em todos seus filmes, e aqui ele consegue criar um terror psicológico tal qual feito em seu filme anterior.

Aos poucos tudo vai ganhando forma. O personagem vivido por James McCavoy vai ganhando densidade conforme suas outras personalidades se revelam, enquanto a protagonista, vivida pela excelente Anya Taylor-Joy (de A Bruxa, 2015), volta a surpreender aqui.

Mas nem tudo são flores.

O roteiro tenta, por vezes, ser sério demais, embutindo flash backs para contar uma história de abuso da protagonista e garantir a ela um passado perturbador, o que se torna uma infeliz tentativa de montar uma moral final de que, por mais que o vilão aparente ser hediondo, tanto ela, quanto ele, são resultados de traumas similares. Mas enquanto ela cola seus fragmentos, o antagonista deixa emergir personalidades que possam emponderá-lo, esconder suas fraquezas e defendê-lo de diferentes situações em 23 personalidades que James McCavoy consegue dar conta de meia dúzia delas, já que as demais só são citadas.

De uma forma ou de outra, a história pregressa de Casey acrescenta nada na história, servindo muito mais como um elemento disperso do que algo realmente consistente. Seria consistente se fosse um filme apenas sobre ela, pois é um tema pesado e que merecia maiores cuidados, mas Shyamalan o utiliza apenas para voltar naquele seu clássico elemento de que tudo na vida há um significado e que este significado terá uma grande importância na vida em algum momento, um elemento que ele utilizou bastante para concluir seus filmes anteriores, mas que aqui ele constrói de maneira diferente para tentar fugir do óbvio.

Mesmo assim, tudo parecia bastante organizado, até a 24ª personalidade aflorar, aquela mais forte e dominante, o verdadeiro mal embutido no ser humano, em uma metáfora ao comportamento animal e primitivo que consegue pegar tudo que havia sido bem construído até então e cair no simples absurdo fantasioso de sempre do diretor. Não havia necessidade de caracterizar o personagem da forma como foi feito, e se Shyamalan tivesse mantido a mesma atmosfera mais humana e realista de Corpo Fechado, em que os personagens são a personificação do maniqueísmo, o resultado teria sido mais coerente e satisfatório do que vê-lo andando por paredes, gritando e ofegando para nada.

Não é de todo um filme ruim, mas é Shyamalan novamente pecando no excesso, construíndo tudo muito bem para terminar no exagero. E aquele final surpreendente que é esperado, resulta em algo frustrante, como uma bexiga furada. O fim da história não satisfaz, mas o fim do filme sim, e talvez tenha sido o que garantiu o seu sucesso. Parece contraditório, mas comentar sobre ele é estragar o único elemento surpresa dos quase 120 minutos. Será compreensível para quem entender as referências diretas que o diretor fez dele mesmo, criando um universo próprio e que o público sempre esperou. Uma história paralela a outra que já assistimos anos atrás.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O MERGULHO VAZIO DA ÁGUIA...

★★★★★☆
Título: Assassin's Creed
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Justin Kurzel
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons
País: Reino Unido, Estados Unidos, França, China, Tailândia, Canadá
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na busca por um lendário artefato, um ex-presidiário é recrutado por uma grande empresa privada para uma experiência onde ele viverá as memórias de seu antepassado, regressando 400 anos atrás, e levar a cientista responsável por este projeto ao paradeiro deste poderoso ítem sagrado que pode por fim a uma guerra secular.

O QUE TENHO A DIZER...
Assassin's Creed é um dos maiores fenômenos dos vídeo games da história, e a franquia mais rentável da última década em um total de nove jogos, sem contar aqueles lançados em plataformas paralelas para complementar o universo.

Até que demorou bastante para que sua adaptação aos cinemas chegasse, já que a série teve início em 2007, e até hoje já vendeu quase 100 milhões de cópias em todo o mundo. Se tornou um daqueles fenômenos onde parece não haver espaço para crítica, e se alguém se atrever a isso pode correr o risco de ser apedreijado por um fã.

Se tem algo inégável é que a série de jogos trouxe elementos extremamente importantes para a cultura popular atual nas duas últimas gerações de consoles. Suas histórias, consistentes em sua maioria, sempre foram cercadas por referências históricas, literárias e mitólogicas (reais ou fictícias) de uma forma nunca feita antes. Os produtores dos jogos conseguiram algo um tanto inédito: fazer com que os jogos não fossem apenas um entretenimento banal, mas uma interessante fonte de interesse pela História.

Seja pelo período da Terceira Cruzada (por onde a série começa) até a Era Vitoriana (onde se situa o último jogo), seja interagindo com figuras de Da Vinci a Winston Churchill, ou percorrendo por cenários cuja ambientação recria (às vezes com fidedignidade) a arquitetura e cultura de cada época e localização, jogar Assassin's Creed sempre foi, acima de tudo, aquilo que o próprio enredo do jogo propõe: uma regressão ao passado, uma experiência única de reviver períodos. Cada um dos episódios deixa os jogadores embasbacados com tantas informações, imergindo-os em uma fantasia histórica que igualmente resgata o interesse pela informação e leitura, já que toda a série possui uma vasta coleção de arquivos a serem lidos e que complementam não apenas o universo criado, mas toda essa experiência imersiva

Só que, ao mesmo tempo, nunca foi segredo para ninguém a repetitividade dos jogos. A sua jogabilidade sofreu alterações consideráveis no decorrer dos anos para incrementar o interesse e abranger a sensação de novidade, mas no fundo o problema de cada jogo foi sempre se estagnar em um determinado ponto. Não há nada que mais tenha incomodado do que o enredo que vaga entre o presente e o passado, em uma história bastante furada de uma organização privada que descobriu uma forma de fazer pessoas reviverem a vida de seus antepassados através de uma regressão feita por uma memória de DNA, algo que nunca conseguiram fazer funcionar com efetividade, ou explicar direito como tudo funciona, mas que também nunca importou de fato.

Assim como nos jogos, o filme parte da idéia de uma secular guerra entre a Ordem dos Templários e a Ordem dos Assassinos. Existe um artefato, conhecido como Maçã, que possui o DNA original da humanidade e o código do livre arbítrio. Os Templários tentam conquistar o artefato para gerar a paz entre os homens, porém regidos pelas regras religiosas criadas por eles, enquanto os Assassinos tentam manter o artefato longe das mãos dos Templários para que a humanidade busque a paz através do livre arbítrio. O enredo já seria interessante assim, e poderia ter partido diretamente daí, sem a necessidade de tudo ter um início no presente, com o uso de uma tecnologia pra lá de absurda apenas para inserir a história em um contexto atual.

Essa abordagem entre presente e passado foi abandonada pelos jogos em um determinado ponto, e quando o filme estava em pré-produção, sob grande sigilo, a única coisa revelada pelo diretor foi de que a história teria uma abordagem diferente dos jogos, com um personagem novo. Muita expectativa foi criada, principalmente na de que essa bobagem hi-tech pudesse ser abolida já que se auto desgastou na franquia de jogos.

A verdade é que o filme é um produto bastante fiel, cheios de referências e elementos clássicos da série para o deleite dos fãs, mas que igualmente levou para as telas os mesmos defeitos, como a repetitividade de ações e a confusão natural que o enredo cria vagando entre as narrativas atuais e antepassadas. O pulo de narrativas, assim como nos jogos, faz o filme nunca desenvolver uma boa história em nenhum dos tempos abordados, quebrando o clima de imersão e da ação que ele tenta construir, e que nunca chega a um grande êxtase esperado, já que sempre que ele tende a chegar lá, tudo é interrompido pela narrativa presente.

O filme também falha feio ao ignorar a tal importância e interesse pelas referências que os jogos criam. Em nenhum momento o período histórico é mostrado com profundidade ou relevância além de uma ou outra referência visual, se tornando um produto vago e banal, que não se utiliza da História como uma grande ferramenta narrativa e um elemento vivo e consistente como é na série de games, ao invés disso, é recheado de momentos clichés de ação ao ponto de entediar o espectador, principalmente aquele que nada sabe sobre os jogos.

Ok, as cenas de ação e perseguição são muito bem coreografadas, repetindo o mesmo balé deslumbrante que são nos jogos, mas para quem esperava tanto por isso, são momentos tão curtos e rápidos que acabam não satisfazendo como deveriam.

Também é um pouco confusa a escolha do alemão Michael Fassbender no papel de um protagonista meio americano, meio mexicano, que revive um ancestral espanhol do século XV. Claro que isso não diminui sua competência como ator, mas reduz ainda mais a consistência do filme como um todo. Sem falar da personagem de Marion Cotillard, retilínea e uniforme do começo ao fim, sem qualquer arco dramático ou um grande conflito que justifique um profundo altruísmo digno de conto de fadas.

Enfim, o filme é apenas um produto para expandir a franquia para outras mídias, mas como dito, ao contrário dos jogos, o resultado aqui é banal, vago e fútil. O roteiro desperdiça por completo a oportunidade de fazer do filme uma experiência diferente e, pudera, original. Algo feito apenas para relembrar os fãs dos jogos de como tudo começou e nada mais, tanto que a bilheteria mundial de mais de US$230 milhões não classifica o filme como um enorme sucesso, mas justifica que 99% de seu público é o mesmo daqueles que acompanham os jogos há uma década. Se o filme já tivesse partido diretamente de um princípio histórico, talvez tivesse sido consistente como poderia e como os jogos conseguem ser, por mais repetitivos que pareçam como uma unidade.

terça-feira, 14 de março de 2017

CHEGOU A HORA...

★★★★★★★★★☆
Título: Logan
Ano: 2017
Gênero: Drama, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen
País: Estados Unidos
Duração: 137 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Em 2029 o mundo não é o mesmo, nem Logan. Com a extinção de mutantes e o fim dos X-Men, ele agora se encontra debilitado, cuidando de um Xavier igualmente doente e que não consegue mais constrolar seus poderes. Quando é incumbido de escoltar uma garota até o Canadá, Logan terá de reecontrar em si o lado humano que um dia Xavier despertou, mas que o violento mundo o fez esquecer.

O QUE TENHO A DIZER...
Logan ter como título, pela terceira vez consecutiva, o nome do próprio personagem, é um tanto esquisito e estranho porque soa mais como uma terceira tentativa do que uma sequência, pois a impressão que se tem é que o personagem está sendo reapresentado a um público descrente. E não é por menos.

Quando X-Men Origens: Wolverine (2009) foi lançado, a intenção era ser muito mais do que um spin-off dos X-Men, mas o início de uma nova franquia. E em meio a tantas deturpações e descaracterizações, a decepção foi unânime, fazendo a Fox entrar em estado de alerta, iniciando um processo de salvação de emergência de um dos personagens mais caros dentre os quais ela detém os direitos de uso da Marvel.

Os roteiristas foram trocados, o diretor James Mangold foi contratado, e Wolverine recebeu tratamentos de um reboot, sendo praticamente promovido como tal, com a finalidade de fazer o público esquecer que o primeiro filme algum dia existiu. E seguindo a tendência deixada pela Trilogia Batman, de Christopher Nolan, o roteiro deu ao segundo filme um tom mais obscuro e introspectivo, um dos grandes erros dentre vários, porque Wolverine não é um personagem sombrio, mas um herói atormentado e perseguido pela violência. O resultado não foi satisfatório, e Wolverine (2013) igualmente falhou na tentativa de salvar a franquia de um fiasco, e a idéia do personagem ter um filme marcante e digno de sua existência parecia cada vez mais distante.

Independente disso, o filme havia agradado o ator e o diretor. Segundo eles, foi uma grande conquista o que conseguiram fazer no segundo filme, deixando implícito nesta afirmativa que dificuldades existiram para driblarem o constante controle criativo por parte do estúdio, algo evidente no primeiro filme, e que continuou evidente no segundo. De qualquer forma, arrecadou mundialmente mais de US$410 milhões, e no mesmo ano, conversas sobre um terceiro filme começaram a surgir.

Nesse meio tempo, Ryan Reynolds estava numa difícil negociação de levar para as telas o filme solo de Deadpool, e depois de tantos obstáculos, conseguiu fazer o projeto finalmente sair do papel ao tomar as rédeas da produção e injetar uma boa quantia de seu próprio dinheiro para cobrir o orçamento. O lançamento de Deadpool, no início de 2016, desbravou horizontes aos filmes de super heróis por uma razão óbvia: por conta da violência explícita, a classificação etária de 16 anos não impediu o filme de ser um estrondoso sucesso de bilheteria, crítica e público, algo que a Fox nunca imaginou que pudesse acontecer.

Visando abranger um maior público, o controle etário pelos estúdios sempre foi muito rigoroso. Havia uma errônea idéia de que filmes de super heróis não poderiam ter classificação alta pois limitaria a participação infantojuvenil, os maiores consumidores de histórias em quadrinhos e a faixa etária mais rentável das bilheterias. Só que Deadpool provou exatamente o contrário, mostrou que havia um público mais adulto ávido por filmes de heróis com conteúdo mais sério e explícito porque determinados personagens exigem isso, como sempre foi o caso de Wolverine.

Por essa razão, o sucesso de Deadpool foi essencial para definirem o tom final de Logan, que segue uma narrativa mais consistente e adulta sem preocupação com faixas etárias. E finalmente essa terceira tentativa deu certo. Deu tão certo que não apenas é o único filme relevante do herói, como também o melhor e mais bem dirigido filme de Mangold até hoje. Um produto refinado, feito com vontade e inspiração. 

Nota-se logo nos primeiros minutos que o controle criativo agora estava nas mãos dos roteiristas e do diretor muito mais do que do estúdio, pois Logan é exatamente aquilo que o primeiro filme de Wolverine deveria ter sido. Melhor dizendo, Logan seria o fim de uma fantástica trilogia se os dois primeiros filmes tivessem sido executados nos mesmos moldes. Aqui, o tom distópico, rústico e violento, não faz a história se esconder por trás do herói, como foram os filmes anteriores, mas se engrandecer com ele. Uma pena que isso só foi acontecer tarde demais, quando Hugh Jackman finalmente aposentou as garras, neste que é o seu último e único bom filme solo de um personagem que, por 16 anos, ele vestiu de corpo e alma.

No filme, que se passa no ano de 2029, os mutantes finalmente entraram em extinção, como sempre foi a vontade política abordada nos filmes anteriores dos mutantes. Os X-Men não existem mais, e Logan (Hugh Jackman) agora trabalha como motorista de uma limosine de aluguel sob outra identidade para preservar sua segurança e enterrar um mundo no qual ele não faz mais parte. Ele está doente, já que seus ossos de adamantium se tornaram tóxicos ao seu sistema imunológico que agora está debilitado, e seu fator de cura não tem mais a mesma efetividade de quando era jovem. Ou seja, Logan envelheceu e morre aos poucos. Ao mesmo tempo, ele também cuida de um igualmente doente e nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart), que sofre de Alzheimer e de uma leve demência que o impede de ter o controle de seus poderes, transformando-o em uma bomba prestes a explodir. Em meio a tudo isso, Logan se vê envolvido em uma situação difícil, no qual é incumbido por uma enfermeira mexicana a escoltar uma criança, chamada Laura (Dafne Keen), até a fronteira com o Canadá.

O tom é um dos mais violentos de todas as adaptações de quadrinhos nos últimos anos, e aparenta ser muito mais chocante justamente por inserir um grande elenco infantil no meio de tudo isso, e Mangold impacta por todos os lados sem medo.

O último filme em que vi uma personagem infantil em uma história bastante violenta foi Hanna (2011), e a mesma ousadia acontece aqui. Por mais chocante que possa parecer, e muito mais violento que possa se mostrar por conta disso, existe um obrigatório senso de sobrevivência a eles que justifica as atitudes tanto de Logan, quanto de Laura. A relação que se desenvolve entre os dois, de proximidade, mas sem grandes contatos; de comunicação, mas sem muitos diálogos, é um dos grandes ápices do roteiro. É exatamente aquele elemento que transferiru a essência do personagem dos quadrinhos ao filme e que sempre faltou nas adaptações anteriores. Essa situação de co-dependência, que gradualmente cresce entre os dois, é bastante similiar à relação entre Joel e Ellie no jogo The Last Of Us (2013), que para quem não conhece, vale a pena saber que é emocionante em igual medida e tom.

Logan, sem dúvida, inaugura uma nova safra de adaptações. Um filme que mistura drama com ação em doses pontuais, de uma forma bastante inovadora em um estilo que já está saturado de clichés e piadas manjadas, que chega em um momento oportuno para um público que já está um tanto cansado de uma fórmula que se estagnou na última década. Ver o herói em sua zona de familiar desconforto é reconfortante, pois é como finalmente inserir um animal em seu habitat natural. O personagem não traz qualquer resquício daquele tom jocoso do primeiro filme, e abandonou por completo a sombriedade do segundo. Logan voltou a ser aquele homem movido pelo seu instinto arisco e violento apresentado por Brian Singer no primeiro filme dos X-Men, mas sem nunca se tornar o produto daqueles que o fizeram, pois a humanidade dentro dele sempre foi maior, apesar dos pesares.

Não dá para evitar a tristeza de ver dois grandes heróis dos quadrinhos envelhecer aos nossos olhos, e durante todo o filme existe uma latente melancolia que pesa nessa impressão todas as vezes em que Jackman e Stewart dividem as cenas, como no momento em que Logan carrega Xavier para a cama, fingindo ser o filho zeloso a proteger o debilitado pai. O simbolismo existente nessa cena é simples, mas profundo e impactante, pois metaforicamente, para o público e para os olhos de Laura, captados com precisão por Mangold, representam o fim de uma geração e o início de outra. A hora de finalmente dizer adeus não apenas a esses personagens, mas aos atores que os carregaram tão bem durante toda essa trajetória, deixando um legado que já se sente nostálgico.

Logo, apesar de toda a sanguinária violência - e que volto a dizer, em total coerência com a natureza do personagem - existe uma sutileza nos momentos dramáticos que fazem do filme um produto digno de seu protagonista, tardiamente suprindo uma longa espera. A tragédia embutida nos três personagens alivia a tensão da ação e eleva um genuíno sentimento de perda e redenção, um arco dramático sentido no silêncio do cinema de pessoas emocionalmente satisfeitas. Uma grande homenagem a um personagem que, depois de grandes tropeços no caminho, agora encerra seu ciclo em um filme memorável e que finalmente faz jus ao nome que carrega.

segunda-feira, 13 de março de 2017

DOCE E AMARGO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Um Limite Entre Nós (Fences)
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Denzel Washington
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby
País: Estados Unidos
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um pai tenta manter sua família nos anos 50 enquanto toma decisões que impactarão no futuro e ainda lida com problemas de decisões tomadas no passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Denzel Washington dirige e atua neste filme que é uma adaptação da peça homônima de August Wilson, o qual também escreveu o roteiro e veio a falecer pouco tempo depois de completá-lo, em 2005.

Mesmo que alguém o assista sem ter a informação de ser baseado em uma peça, a sensação de adaptação é bastante nítida pela forma como Washington desenvolve a história sem muitas variações de cenário, em um roteiro embasado unicamente em diálogos e poucas ações. A cena inicial já deixa clara essa proposta de ser como uma peça filmada, uma parte considerável de um cotidiano comum e repetitivo, como o protagonista por muitas vezes esclarece. Os 15 minutos iniciais resumem muito aquilo que o filme será, onde o protagonista engaja em um monólogo até cansativo e irritante, permanente até mesmo quando o cenário muda, mas elucidador no sentido das variáveis discussões e dificuldades sociais e familiares vivenciadas desde a infância.

Por mais que Washigton tente driblar os longos diálogos tanto na direção, quanto em sua atuação, a necessidade de um intervalo, ou uma quebra da situação é sentida quando esse excesso toma conta. Esses momentos podem parecer grandes defeitos, mas quando analisados com mais profundidade, são importantes em todo o contexto porque o roteiro não quer desperdiçar tempo, e também quer sempre dar uma progressiva oportunidade de mostrar como o protagonista sofre de um pedantismo incurável, oras depreciativo, oras de exagerado egoísmo e auto-suficiência.

De qualquer forma, é admirável a maneira que o filme, como um todo, é conduzido sem causar aquela sensação monótona que costuma ser em títulos que tentam não apenas se manterem fiéis a uma peça, mas também em sua estrutura narrativa original. A construção é presente e intimista, que se torna cada vez mais distante e desconfortável na medida que a verdadeira personalidade e natureza de cada um se aflora em seus determinados conflitos.

Troy (Denzel Washington) é um lixeiro indignado que se apresenta no filme como um velho contador de histórias, preenchendo suas poucas horas de folga bebendo com seu único amigo e parceiro de trabalho, e contando episódios de sua vida de sacrifícios e desgostos como anedotas particulares. Embora seus relatos sejam embutidos de certo humor e fantasia, ele assim o faz para conseguir superar mágoas e rancores que nunca se vão. É dessa forma como ele também destila sua ríspidez, seu machismo e sua conservadora educação patriarcal em cima das pessoas que ele mais ama, as únicas que fizeram sua vida ter sentido e função nos últimos 18 anos.

Aos poucos, nos sentimos envolvidos na família de Troy, curiosos sobre eles como se fôssemos vizinhos, interessados em suas vidas e segredos. Ele é um personagem que não esconde sua complexidade resultante de uma longa vida de frustrações sociais, familiares e profissionais, e isso é o que dá abertura para o roteiro abordar diversos temas que fizeram parte do cotidiano de sua vida, mas também fazem parte do cotidiano da sociedade como um todo até os dias de hoje.

A história se passa nos anos 50, mas quando o protagonista entra em cena é como se voltássemos ao fim do século XIX e revivêssemos sua adolescência talhada de sonhos e vontades, ao mesmo tempo como tudo ainda soa bastante familiar e atual. E no decorrer da história, aquele personagem que se apresentou amigável e irreverente, gradualmente se transforma em uma pessoa profundamente angustiada e egoísta, que não sabe mais a diferença entre pessoas e posses, sentimentos e obrigações. Seu egoísmo não é deliberado, mas resultado de sacrifícios e difíceis decisões, de oportunidades que não surgiram como escolha, mas como única opção, abraçadas e agarradas com todas as forças, e que para ele não podem ser dadas ou abdicadas a outros a não ser que sejam conquistadas da mesma forma. Então, apesar de toda essa antipatia que ele possa causar, ainda sim conseguimos nos sensibilizar pela maneira bastante simplista como ele define ou compara as coisas em sua vida, tudo baseado em uma vivência de poucas - porém relevantes - experiências.

Sim, há embutida fortes discussões raciais, principalmente porque boa parte da vida do protagonista ainda se passa em uma era de recente pós escravismo, onde a segregação racial nos Estados Unidos atingia níveis de quase guerra civil. Tanto que o filme começa com ele questionando a razão dos negros sempre serem contratados para realizar o trabalho pesado, como catar o lixo, mas nunca para trabalhos mais neutros, como dirigir caminhões; ou também na maneira rigorosa como ele cria seus filhos na cultura de que o negro não tem tempo para sonhos ou oportunidades sobre coisas ou assuntos "que são de brancos".

Por mais desprezível e antipática que é a maneira como a personalidade de Troy emerge ao longo do filme, se torna função de Rose (Viola Davis) nos mostrar o contrário. Viola não é apenas uma coadjuvante no filme, como sua indicação ao Oscar rotulou, ao contrário disso, sua personagem é tão principal quanto o protagonista - se não for até mais importante que a dele - pois será ela a responsável por nos dar o alento que Troy não consegue, sendo o exemplo da tolerância, o redimindo das coisas que ele é incapaz de se redimir aos olhos do espectador. Uma antagonista por excelência, enquanto Troy nos oferece as questões, Rose as responde de diversas e sensatas maneiras.

Sensatas, com certeza. Da mesma forma que não há um momento de redenção de Troy (a não ser de forma indireta na reta final), a personagem de Viola em nenhum momento se inferioriza ou se autovitimiza. Até mesmo no seu ápice dramático, quando revela ter depositado em seu marido 18 anos de sua vida, mas o fez por uma igual necessidade, tanto pessoal, quanto para a manutenção das bases familiares.

O filme perde um pouco da sua sutileza a partir de sua metade, quando uma inesperada e até chocante reviravolta acontece, não evitando clichés dramáticos e exagerados, extraindo de Viola Davis todas as lágrimas possíveis para obrigar o espectador a se identificar com suas dores e angústias. Bette Davis dizia que Joan Crawford era boa em gritar demais, e sempre faço uma alusão a isso todas as vezes que vejo Viola em cenas dramáticas, pois ela não apenas é boa em chorar, mas também em chorar demais. Não deixam de ser momentos de genuíno sofrimento, mas por vezes apelativos para apenas uma câmera. Não é um drama tenro e familiar como parece, pelo contrário, é um lado bastante entristecedor e obscuro de uma relação construída apenas em necessidades e obrigações ditadas por um período social, mantida a restritas liberdades nas suas mais variadas formas.

É um soco no estômago para quem o assiste, e se aproxima bastante de Moonlight, seu concorrente direto no Oscar 2017, por igualmente abordar diversos temas dentro de uma única narrativa, seguindo a mesma premissa de que somos o resultado daquilo que vivemos. Mesmo não tendo uma construção tão bela quanto o filme de Barry Jenkins, Washington consegue fazer de seu terceiro filme um excelente material questionador sobre aquilo que nos define em sua mais sagrada essência.

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