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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

MENOS SERIA MAIS...

★★★★★★☆
Título: Westworld
Ano: 2016
Gênero: Drama, Ação, Suspense, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Ed Harris, Anthony Hopkins
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um parque temático populado por androides constantemente recebe visitantes capazes de pagar os mais altos preços para satisfazerem suas fantasias sem limites ou consequências.

O QUE TENHO A DIZER...
Westworld pode soar uma grande novidade para o público atual, mas poucas pessoas sabem que o novo hit da HBO é baseado no filme homônimo escrito e dirigido por Michael Crichton, de 1973.

Crichton, para quem também não sabe, é o poderoso criador de outro parque, o Parque dos Dinossauros (Jurassic Park), adaptado para os cinemas por Spielberg em 1993 e que elevou mais ainda o status do autor. Na televisão também foi responsável por outro hit ao criar Plantão Médico (E.R., 1994-2009), mas no cinema nunca mais conseguiu o mesmo êxito. Faleceu em 2008, quando a quarta continuação da franquia dos dinossauros estava em discussão, o que levou a suspensão do projeto, retomado anos depois como Jurassic World (2015).

Não é à toa que o filme original de Crichton, onde os personagens de um parque são andróides que se rebelam e começam a matar seus visitantes humanos, tenha servido de inspiração para muitos filmes, incluindo os cult classics Blade Runner (1982), Exterminador do Futuro (1984), Matrix (1999), ou até o atual Ex-Machina (2015), quando partimos do contexto da evolução das máquinas e sua emancipação do poder humano. Todos esses filmes, obviamente, usam como referências as teorias de Alan Turing e as ficções de Isaac Asimov.

Óbvio que a série se inspira em tudo isso para tentar ir mais além, além de ter outros nomes de peso, como ter sido co-criada e escrita por Jonathan Nolan, irmão de Christopher Nolan. Só por isso já podemos imaginar que o enredo, antes simples, agora terá alguns níveis a mais de complexidade porque esse é seu estilo desde suas parcerias com seu irmão. E para ajudar nesse quesito, há co-produção de J.J. Abrams, que ficou famoso pelo seriado de absurdos e que testava a paciência do espectador, chamado Lost (2004-2010).

E o exagero é o que se percebe logo no primeiro capítulo, com uma das aberturas mais longas da HBO (aproximadamente 2 minutos), pois é ela quem resume o enredo do seriado sobre um mundo onde tudo é falso e fabricado, sem alma ou definição. Assim, toda vez que o espectador assistir um novo episódio, a função da abertura está lá, de relembrá-lo que tudo é uma farsa.

O Parque de Westworld, moderno, em um futuro qualquer, agora tem um nível muito maior de interação do que no seu início, sendo um gigantesco jogo com tramas, subtramas e missões a serem completadas para o ganho de recompensas ou bonus, tal como um jogo de video game no estilo chamado "mundo aberto" (open world), onde o jogador pode interagir ou não com os personagens e concluir missões de acordo com seu interesse, sem precisar seguir uma ordem pré-estabelecida. A diferença é que, em Westworld, o jogador é o visitante do Parque em pessoa, e os anfitriões são os personagens do jogo, cada um exercendo sua função na história, que precisa ser engatilhada com um comando assim que uma ação se reinicia (looping), como pegar a lata do chão todas as vezes que Dolores a derrubar, ou ajudar o pobre velho todas as vezes que ele cair da carroça.

Para os amantes de video game, por muitas vezes assistí-lo será como estar no cenário de jogos Western como Red Dead Redemption (nos consoles), ou Six Guns (nos celulares). Jonathan realmente pegou as principais estruturas dos jogos desse gênero e transferiu para a linguagem cinematográfica de maneira acessível, mas bastante simplória quando comparada com a experiência que David Chronemberg oferece em seu filme eXistenZ (1999), muito mais completa e detalhista.

A série, ao contrário, não detalha tanto as ações que diferenciam humanos de andróides porque ela quer que o espectador esqueça disso e acredite que todos sejam uma coisa só, pois a intenção do seriado é enganar até que se prove o contrário. E enganar nem sempre é a mesma coisa que surpreender, algo que muito acontece ao longo dos episódios.

O desenvolvimento da história extrapola os limites do necessário quando o roteiro desconstrói a narrativa apenas para demonstrar um nível de complexidade que a história não tem.

A temporada de estréia já começa confusa demais logo no primeiro episódio, com incógnitas desnecessária aos montes. Os roteiristas não querem dar nenhuma resposta, só perguntas. Perguntas que ficarão suspensas para nos manter assistindo. Elementos enganosos para distrair o espectador, fazendo-o perder tempo à toa para tentar compreender uma complexidade exagerada que nada significa. O que fazem com o roteiro é um artifício manjado para entreter. É pegar uma história linear e inverter ordens dos fatos. Para o espectador comum, essa construção pode parecer genial, mas não é. Na verdade, esse tipo de narrativa muitas vezes é como mágica barata, e você só acredita que é bem feita porque não prestou atenção.

Algumas tramas só começam a fazer um pouco de sentido lá pelo quarto episódio, quando já estamos um tanto cansados de idas e vindas, e nem mais assistimos porque estamos curiosos, mas porque queremos simplesmente chegar ao fim.

Depois de muita masturbação mental desnecessária, finalmente descobrirmos como certas coisas funcionam na história. Aí, sim, Westworld entretém e se transforma em uma série apreciável, com personagens interessantes, até mesmo aqueles que não pareciam ser. Quando a história relaxa dos absurdos e da desconstrução, as tramas e subtramas finalmente aparecem com consistência, como é o caso das histórias da prostituta Maeve, do diretor Bernard e do empresário William. Este último, uma das histórias mais interessantes, mas que no meio de tanto entroncamento e confusão, infelizmente não oferece o impacto que deveria ter.

É evidente o quanto as histórias se arrastam desnecessariamente para um último capítulo que só existe para ser um monólogo explicativo, um manual de instrução tardio de todos os episódios anteriores que deixaram espectadores com cara de paisagem no ar. O final, entre filosofias "nolanescas" e algumas frases de efeito, foi como um "OU SEJA" na história: dar uma nova explicação para aquilo que foi mal explicado antes. E no começo da série, quando tudo tentava nos convencer de que o fim seria espetacular, nem surpreende tanto assim.

Bagunçar algo que é simples fez os roteiristas perderem o foco e a história perder seu enredo principal. A idéia é boa, mas a execução é infeliz. E ao invés de assistirmos um jogo de sobrevivência e descobertas, parece que vemos um jogo de plataformas do Atari, subindo escadas sem chegar a lugar algum. Há um momento na história que cogitam a possibilidade de reformularem as atrações do parque porque tudo está complexo demais para visitantes que procuram algo mais simples. É exatamente a sensação que o seriado passa, algo complexo demais para espectadores que precisavam de algo mais simples. 

Apesar de tudo, ainda é algo para ser consumido sem grandes expectativas. E se o espectador for despretencioso o suficiente, irá se divertir porque o nível de produção é impecável, e conquista pelos olhos, como toda produção da HBO é. Westworld não fica nenhum pouco atrás de Game Of Thrones nesse quesito, nem nos cenários, nem no design. A trilha sonora original, de Ramin Djawadi (o mesmo de Game) eleva uma atmosfera fictícia tão eficiente quanto a dos filmes já citados e que tratam do mesmo tema, engrandecendo cenas e intensificando propósitos de algumas sequências.

Amando ou odiando Westworld, é impossível não deixar de fantasiar com tudo. Assim como imaginar o que fazer sozinho em um Shopping Center, muita gente ficará presa na fantasia do que iria fazer em um Parque onde o limite é sua própria vontade. Uma pena que o seriado não abraça ou conquista essa idéia com seu público, e essa sensação fantasiosa demora alguns pares de episódios para brotar no imaginário. Se os roteiristas tivessem se preocupado mais em primeiro conquistar o público, trazendo-o para dentro desse universo, do que já querer impressionar logo de cara com uma enxurrada de eventos sem sentido, a apreciação seria diferente. Deveriamos ter sido apresentados ao Parque, às suas atrações, aos personagens que fazem parte dele, e assim entrar nessa fantasia ao ponto de querermos fazer parte daquilo. Aí, sim, a história seria mais impressionante e assustadora do que tenta ser, e as tramas tomariam uma forma muito mais consistente.

Seria um começo similar ao de Parque dos Dinossauros, mais adequado e menos caótico, já que, no fim, a moral dos dois trabalhos de Crichton é a mesma.

CONCLUSÃO...
Nem sempre complicar e desconstruir um roteiro ou uma história oferece resultado inteligente, apenas dá uma falsa impressão de grandiosidade e complexidade. É o que acontece com Westworld, que é uma produção impecável e apreciável, mas poderia ter sido melhor desenvolvida caso tivesse seguido uma construção mais simples. Os mistérios teriam continuado o mesmo, o suspense teria sido eficaz da mesma forma, e no fim nada teria sido tão detalhadamente explicado como foi.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

NÃO VALE O PREÇO DA PASSAGEM...

★★★★☆
Título: A Garota do Trem (The Girl On The Train)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Edgar Ramirez, Justin Theroux
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota que faz o mesmo trajeto de trem diariamente de repente percebe que os personagens de sua paisagem predileta não são tão perfeitos quanto imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
A Garota do Trem (2015), de Paula Hawkins, por incrível que pareça, se assemelha em vários aspectos com Garota Exemplar (Gone Girl, 2012), de Gillian Flynn, publicado 3 anos antes e igualmente um best-seller adaptado ao cinema em 2014 por David Fincher. A começar pela narrativa em primeira pessoa. Depois vem a estrutura, na qual os capítulos também são divididos por dias, como se fosse um diário, embora não seja. E por fim, além da trama central ser parecida, há o desenvolvimento enganoso dela, que tende a nos levar para caminho algum até um ápice revelador inesperado.

Só que existe uma coisa que diferencia bastante um do outro: a qualidade.

É inegável que o texto de Flynn seja melhor escrito. Há uma maior densidade e fluidez, além de que a trama de Garota Exemplar conquista a atenção do leitor desde o princípio, e a reviravolta que a autora faz exatamente no meio da história consegue ser surpreendente.

Já no caso de Hawkins as coisas não são bem assim. O livro nunca conquista porque ele se arrasta em narrativas pessoais sobre o cotidiano de três mulheres, incluindo a protagonista depressiva e alcólatra, Rachel. Um cotidiano chato, que não tem atrativo, no qual todas as personagens passarão a maior parte do tempo lamuriando sobre suas vidas conjugais, algo que também ocorre em Garota Exemplar com consistência. Pode ser um problema da tradução, mas a escrita é bem simples e repetitiva, principalmente quando é descrito sensações pessoais que dificilmente saem de adjetivos como: nauseante, enjoada, trêmula, pálida, aflita, e derivados... Não há sequer uma diferenciação narrativa entre uma e outra personagem para que o leitor sinta a diferença de personalidade entre elas. No texto, todas parecem iguais, e é entediante.

A sorte do leitor é ser um livro curto, caso contrário, seria revoltante. O fim, que a partir de um certo momento se torna previsível, é bobo e comum, nada que não se tenha visto anteriormente na literatura policial popular ou nos filmes de mesmo gênero. E é isso que causa um certo arrependimento depois de lê-lo, pois os elementos que deixariam a trama óbvia demais são omitidos na amnésia alcólica da protagonista. Chega um momento que é impossível sustentar o suspense com nada, então, a escritora revela o essencial que acaba não surpreendendo, e muito menos causando impacto. O máximo que ela consegue é o desapontamento, pois será fácil pensar: não acredito que me arrastei até aqui para a verdade ser essa.

Não que o livro de Hawkins seja de todo ruim. Ele tem pontos fortes, como seu nível descritivo que é bastante rico. Se ele não existisse, o livro se enxugaria em 50 páginas, mas ainda consegue ser chato, pois muitas vezes se atenta a detalhes desnecessários. A autora também tem êxito em construir a bagunçada personalidade de Rachel com profundidade, afinal, é ela a garota do trem, e a protagonista é o único elemento de todo o livro que justificaria a adaptação cinematográfica. Só que não há como negar que o filme despenca ladeira abaixo, e Rachel, que deveria ser a grande e única estrela de todo o longa, acaba sendo ofuscada por um roteiro que não consegue esconder ter sido feito às pressas, já que o livro foi lançado em 2015, e em 2016 o filme já estava pronto.

Se o livro já não é lá grandes coisas porque não tem muito o que dizer, o filme diz menos ainda. Cheio de buracos e sequências que não farão muito sentido para quem não leu o livro, e para quem leu notará o esquartejamento desnecessário que o livro sofreu. A trama se desenrola muito rápido, e muito das poucas qualidades que o livro tem, principalmente sobre Rachel, se perde. Sem contar que os principais eventos se revelam sem qualquer impacto ou construção, ou se revelam antes da hora. E é assim que a adaptação caminha, revelando coisas que não precisavam ser reveladas com tanta rapidez, estragando o suspense e fazendo-o mais um drama desleixado qualquer do que um thriller doméstico em potencial (ou "noir doméstico", como li em alguns lugares). E havia potencial, mesmo vindo de uma literatura tão simples como o alfabeto. 

É claro que Emily Blunt chama a atenção, ainda mais representando uma alcólatra. Sua expressão derrubada e músculos faciais relaxados ao extremo, típicos de uma pessoa etilista, é de impressionar. Mas é triste ver seus esforços serem jogados ralo abaixo por um filme que perde seu fôlego rapidamente e desperdiça todas as características de uma personagem autodestrutiva por excelência e que tinha tudo para ser maior na tela do que no livro.

No livro Rachel sofre de uma depressão crônica, resultado da época em que estava casada e via sua relação desmoronar como um castelo de areia por não conseguir engravidar. A depressão a leva ao etilismo, e o etilismo a outros problemas. Dentre eles, seu profundo sentimento de rejeição, solidão, inutilidade e carência, por isso seu fascinio pelo casal Maggie e Scott e sua intromissão no caso para se sentir algo importante e útil, além de uma certa inveja que alimenta sobre a aparente perfeição do relacionamento que possuem. Muitas vezes Rachel até se coloca no lugar de Maggie em seus devaneios eróticos com Scott. Mas isso não é apenas com ele, seu interesse a qualquer homem que lhe dê o mínimo de atenção é óbvio e constante, tanto que sua vontade é sempre se jogar em cima de qualquer um que a trate com educação, atenção e masculinidade, tamanho o desespero por ser tocada, já que há anos não tem uma relação íntima com ninguém porque, no livro, ela é uma mulher desleixada, descrita como feia e gorda por causa de seu vício.

Rachel é uma daquelas personagens que, por conta dessa personalidade desfragmentada, tudo que faz é um desastre, e a falta de uma rotina produtiva lhe faz mergulhar cada vez mais em um mundo fantasioso e errado que ela constrói a todo tempo e que quer fazer parte a qualquer custo.

Nada disso é abordado no filme na mesma relevância que no livro, e o filme a transforma em uma personagem simples demais e que bebe somente para afogar mágoas planas como uma mesa. Ao menos, é essa a impressão que o longa passa.

Isso é resultado da tal "gourmetização hollywoodiana", ou seja, a constante mania de aliviar pesos e dramas para deixar tudo mais palatável, entregando ao espectador tudo mastigado, pronto para ser engolido, tal qual como aconteceu com a obsoleta adaptação hollywoodiana de O Homem Que Não Amava As Mulheres (2011), também de David Fincher. Tanto que a trama não se passa em Londres, mas em Nova York, e a etnia dos personagens é ignorada, como o psicoterapeuta não ser um indiano (embora tenha nome de indiano), mas um latino que, em certo momento, começa a gritar impropérios em espanhol. Até o fim é mais brando e bonitinho, com Rachel soltando uma frase de efeito que mais cliché seria impossível.

É claro que, comparando um com o outro, o filme consegue ser tão banal que o livro se torna até interessante. Mas é aquela coisa, por ser curto e de pouco impacto, é feito para ser lido entre idas e vindas de um cotidiano simples como o de Rachel e nada mais.

CONCLUSÃO...
Depois que se tornou um best-seller percebe-se como é fácil escrever um livro, e como a fórmula para um sucesso é fácil. E depois que se assiste ao filme percebemos como é fácil piorar algo que já nem se mostrava tão bom assim.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O INSTINTO SELVAGEM DE VERHOEVEN...

★★★★★★★★★☆
Título: Ela (Elle)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Isabelle Hupert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Christian Berkel
País: França, Alemanha, Bélgica
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher independente e bem sucedida se envolve em um jogo perigoso ao tenta descobrir a identidade do homem que a violentou em sua própria casa.

O QUE TENHO A DIZER...
Há um momento em que a protagonista Michelle LeBlanc (Isabelle Huppert) chama a situação em que ela passa como "doentia e perversa". É o resumo daquilo que o filme é de fato, que começa com uma cena sexual que não é vista, onde ouve-se apenas barulhos e gemidos. Quando tudo acaba, o diretor nos revela um estuprador indo embora, deixando Michelle para trás, em choque, sangrando ao chão. É dessa forma um tanto impressionante que Paul Verhoeven abre seu novo longa, nos dando a exata sensação da linha tênue que separa o prazer da violência porque, entre gemidos e sussurros, o espectador a princípio se excita, mas quando a imagem aparece de fato, ele se choca e se constrange, pois o que acontecia era um puro ato de violência, e não algo consentido. Uma abertura simples e brilhante, se analisarmos pelo ponto de vista psicológico.

Fazia tempo que Verhoeven não entregava algo tão interessante e ao mesmo tempo perturbador ao público. Também fazia tempo, talvez desde os anos 90, que ele não fazia algo tão bom, mesmo que A Espiã (Zwartboek, 2006) seja respeitável. Em uma carreira com altos e baixos entre a ficção científica e uma leve obsessão por thrillers sexuais, o diretor holandês já foi um dos mais cobiçados de Hollywood no final dos anos 80 e começo dos anos 90 em filmes como Robocop (1987), O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990) e o seu mais memorável trabalho, o amado/odiado Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1990).

Elle pode não ter a cruzada de pernas fatal de Sharon Stone, mas sem dúvida rouba seu posto de filme mais controverso da sua filmografia, pois é um misto de diversos assuntos feministas atuais que incluem a violência doméstica, o empoderamento feminino, sua independência e, inclusive, sua liberdade sexual, do seu corpo e do seu sexo. Numa época em que os valores femininos estão sendo postos a teste, principalmente na cultura popular após o lançamento de obras eróticas infames como a série 50 Tons de Cinza, que criaram e promoveram às mulheres púdicas e aos homens machistas uma ilusão submissa e fetichista deturpada ao ponto de fazer qualquer mulher que diga "eu adoro esse livro" simplesmente favorecer de maneira insidiosa o seu próprio abuso e até mesmo sua própria violência.

Assim como a brilhante abertura, todo o resto do filme perdura nessa corda bamba entre o prazer e a violência, até que ponto a fantasia e o fetiche são aceitáveis, e até qual limite devemos ir para satisfazer aquilo que originalmente entitula seu filme mais conhecido: o instinto básico.

Verhoeven não evita nos chocar com o explícito, e é com isso que ele nos faz pensar sobre essas questões de maneira bastante crua. E o mais interessante disso tudo é que, com essas ferramentas, ele consegue criar um dos suspenses eróticos mais refinados a serem lançados em circuito comercial das últimas décadas. Talvez pelo cenário francês, onde tudo pareça ser bastante civilizado e refinado em meio à língua mais romântica do mundo, talvez por lidar com personagens bem sucedidos e que nos remetem aos luxos e desfrutes da alta sociedade. Se o cenário fosse o oposto, essa sensação poderia não ter o mesmo requinte, mas a agonia, o medo, o misto da paranóia com a obsessão e a explícita violência não precisam de gênero, cor e muito menos classe social. Independente do cenário, esse é um dos pontos fortes do roteiro, baseado no livro Oh... (2012), do francês Phillipe Djian. Até porque a história não lida apenas com isso ou fale somente sobre isso, pelo contrário, Michelle está em uma espiral desenfreada de infortúnios familiares, profissionais, sociais e pessoais. E o melhor de tudo, não há um momento sequer de redenção da personagem.

Michelle é uma personagem bastante complexa e muito bem desenvolvida no contexto do filme, que teve (e ainda tem) que lidar com um massivo assédio moral por conta da deturpada publicação de uma foto em jornais e emissoras de TV quando era adolescente, que ela classifica posteriormente como uma imagem erótica e louca em um momento errado. Em outras palavras, a redução do caráter de uma pessoa pelo seu gênero.

Lidar com o ódio e a rejeição durante décadas a deixaram ser como é: uma mulher ambiciosa, exigente, que reprime sua sensibilidade e emoções, que consegue ignorar abusos e passar por cima de desaforos com tranquilidade, mas ainda sim um tanto vingativa e perversa. No geral, seu comportamento feminista, independente e até libertário é bastante parecido com o da protagonista do chileno Gloria (2013), mas há um lado mais sombrio em Michelle, um semblante de que a qualquer momento possa cometer uma grande insanidade, tal qual seu pai no passado. É por isso que, sem titubear, ela passa por cima de qualquer pessoa, sem remorsos ou arrependimentos, e Isabelle Hupert consegue vagar por toda essa complexidade com uma maestria ímpar, nos deixando confusos quando sua personagem está feliz ou simplesmente sendo ardilosa, quando está triste ou simplesmente sendo irônica ou sarcástica.

O momento em que vive não poderia ser mais moderno, já que ela, em sua meia idade, é a Diretora Executiva de uma importante produtora de jogos eletrônicos, um setor conhecidamente dominado por homens jovens. Separada de seu marido porque este a violentou fisicamente, agora mora sozinha em uma mansão. Sua vida se resume a trabalhar; tentar resolver seus problemas com seu filho; lidar com a pressão social de um pai criminoso na cadeia; ter um caso com um homem no qual já perdeu o interesse; e a criticar o noivado de sua mãe com um garoto de programa, enquanto ela mesma flerta com o marido jovem de sua vizinha católica e submissa.

Assim como sua própria mãe a define, Michelle é uma vadia. Ela não tem medo de ser uma. Também não tem medo de ser desagradável ou mortalmente sincera. E por mais que em alguns momentos possamos pedir pelo amor de deus para que ela, ao menos, peça desculpas ao menos uma vez, isso nunca acontece. Ao contrário, ela comete algo mais provocativo ainda. E esse comportamento da personagem é exatamente para deixar claro que ela é a única dona de si e de suas próprias verdades, e violar isso é um crime, no qual ela mesma decidirá o que fazer, até mesmo sobre seu próprio estupro. Por isso que a razão de ela não ter um momento sequer de redenção seja tão prazeroso, pois isso é o que a fortalece como personagem.

Sua pessoal caça ao seu estuprador a leva para uma jornada desafiadora e na já dita espiral de infortúnios. O misto de paranóia e obsessão a deixam presa numa memória repetitiva, e como numa Síndrome de Stocolmo, por um lado ela quer fazer sua justiça, mas por outro fica obcecada por aquela figura anônima. Trocar as fechaduras de casa ou comprar sprays de pimenta são apenas artifícios para sua autonegação, porque no fundo ela está dividida entre o temor de um novo ataque e a excitante espera dele. O anonimato, o fator inesperado, são elementos que começam a crescer dentro de si como uma fantasia. Mas é quando ela é atacada pela segunda vez que percebe que a fantasia pode ser prazerosa, mas a realidade não tem o mesmo sabor. É como fantasiar ser submetida a Christian Gray por ele ser rico e bonito nos livros, até a realidade transformar qualquer pessoa como ele em um monstro perverso e doentio.

A violência que Michelle sofre tem vários sifnificados. Por um momento, pela estranha fixação sobre a situação incomum sofrida numa incapacidade de se subestimar por conta disso, como também numa forma de querer se punir por suas pequenas perversidades em um segundo momento, ou até mesmo tentar aflorar sentimentos e sensações que ela não consegue mais. É no segundo momento que, embora possa não parecer, ela volta a ter domínio da situação. De violentada submetida, ela passa a ser a dominadora subversiva. Na verdade, poderá haver diferentes interpretações para quem assistir. O interessante é que essas interpretações sejam além do que a própria imagem ou as situações pareçam definir, porque o roteiro oferece muito mais do que isso, e Verhoeven consegue transmitir o mesmo, deixando argumentos longe de qualquer superficialidade.

Quando Michelle questiona ao violentador o motivo de tudo, a resposta dele é simples, tanto para ela quanto para ele, pois ele mesmo fará a mesma pergunta posteriormente. E mesmo que ele não tenha resposta, e que ambos pudessem ter outras alternativas, o espectador saberá que o fim foi necessário, pois define a natureza de ambos.

Verhoeven acerta em todos os pontos e oferece um produto final bem feito em todos os aspectos, como se tivesse cozinhado e montado o mais fino prato por horas e sem qualquer pressa. Apesar de lidar com temas fortes e atuais, há uma certa sobriedade em tudo, já que algumas subtramas acabam levando a um humor contido para dar tempo do espectador respirar e digerir, o que é ótimo quando não feito de maneira banal ou exagerada. De exagerado mesmo é apenas a constante provocação do diretor, algo que sempre fez parte de seus trabalhos, mas nunca tão efetivo como é neste filme.

CONCLUSÃO...
Elle entra na lista dos melhores de 2016, e o melhor do gênero a surgir nas últimas décadas. É Verhoeven dando a volta por cima e fazendo seu melhor trabalho depois de sequentes fiascos. Ousado e chocante, nem por isso deixa de ter sua sutileza em um trabalho que reune as principais características do diretor.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CHEGA DE DEBOCHE...

★★★★★★★☆
Título: O Contador (The Accountant)
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Gavin O'Connor
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simons, John Bernthal, Cynthia Addai-Robinson
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um contador forense é contratado para averiguar irregularidades financeiras de uma empresa, mas de repente seus serviços são dispensados e pessoas começam a entrar na mira de assassinos.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando imaginávamos que Ben Affleck não tinha mais qualquer capacidade para interpretar, ele casou com Jennifer Lopez e ambos atuaram em um filme juntos. Foi um desastre. E quando sua carreira estava a ponto de ser extinta, ele se tornou diretor.

Congratulações à parte, mesmo Argo sendo um dos melhores filmes de 2012, não dá pra levar Affleck a sério no papel principal, e menos ainda quando anunciaram que ele seria o novo Batman, devido ao desastre que foi quando investiu em Demolidor (2003). Ele pode até ter parecido bom em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), mas seu papel era ele sendo ele, o bonitão de jeito canastrão, a forma como o próprio livro descreve seu personagem.

A questão é que, quando Batman vs. Superman foi lançado, Affleck surpreendeu. E ao mesmo tempo que foi o personagem mais despretencioso da sua carreira, também foi o que ele levou mais a sério porque, fora do estúdio, havia uma leva de fãs prontos para esfolarem ele vivo se algo desse errado. O ator passou pelo crivo dos fãs e também da crítica, ao ponto de ganhar a direção do próximo filme do morcegão.

Por incrível que possa parecer, a impressão que se tem é que Affleck já curtiu tudo que Los Angeles poderia oferecer. Ficou mais velho, amadureceu, se centrou e finalmente resolveu levar a carreira de ator à sério. Ter dirigido quatro longas (com mais dois em andamento) lhe trouxe maturidade para perceber que atuação ruim só atrapalha. Talvez essa tenha sido essa sua epifania, seu momento eureka, o raio que lhe faltava na cabeça nos últimos anos.

Aproveitando a sisudez de seu Bruce Wayne, o porte e a resistência física que a preparação para Batman lhe renderam, O Contador caiu como uma luva em época e intenções, até porque ele também é uma adaptação de quadrinhos da DC.

A história pode parecer um pouco complexa a princípio, mas isso mais acontece por conta do desenvolvimento omissivo do roteiro. Ao contrário de outros filmes que costumam usar pistas falsas e enredo intrincado para enganar o espectador e causar falsa impressão de consistência, aqui tudo se desenvolve na base da omissão e na maneira de ser do personagem, que sofre de um tipo de autismo funcional e raro, no qual ele tem uma capacidade lógica extremamente rápida. Ele consegue uma excelente evolução durante a adolescência com os intensivos treinamentos físicos aos quais seu pai o submetia, mas ainda sim cresce solitário, com dificuldades de socialização, comunicação e humor.

Com sua capacidade lógica acima do normal e fisicamente treinado para poder se defender de situações de intenso perigo, ele agora trabalha como Contador Forense, uma profissão de alto risco, já que ele presta auditoria em grandiosas e dominantes corporações que nunca ficam felizes quando suas finanças são vasculhadas número a número. Só que o objetivo de Christian (Ben Affleck) não é exatamente esse, mas como dito, assim como seu comportamento lento e metódico, o mesmo acontece com o roteiro. Portanto, não tenha pressa, buracos serão tampados nos seus devidos momentos.

Não que seja uma história surpreendente, porque não é, mas consegue ter tudo o que um filme de ação precisa: consegue entreter, tem suspense e ritmo. Também tem seus momentos folhetinescos, como na sua reta final, algo que depois de Star Wars nem parece mais novidade, mas a agilidade omissiva do roteiro é tão boa que esquecemos de detalhes, os quais serão usados beneficamente contra nós depois, para o bem de momento cruciais da história.

A presença de Affleck como protagonista realmente não atrapalha, talvez porque o personagem seja de poucas palavras. O ator dessa vez consegue ser até sutil, quebrando um momento tenso ou dramático apenas com um jeito, um olhar ou uma pequena palavra de alívio cômico. Um humor sutil e clássico que nem em um milhão de anos imaginaríamos que Affleck seria capaz de fazer. É claro que, por conta da fisionomia do ator, aquele certo ar de deboche que ele naturalmente carrega pode aparecer aqui e alí, mas nada comprometedor como muitos de seus filmes anteriores. O único problema é que, no começo, ele parece levar o autismo do personagem muito a sério, mas depois deixa de convencer, e suas atitudes se mostram muito mais vícios de comportamento do que um comportamento metódico natural. Aliás, chega um ponto na história que duvidamos das razões de terem feito o personagem autista, já que se torna algo irrelevante para ele e para o espectador. Mas... em todo filme é necessário um drama para justificar algum trauma infantil, e todo herói precisa ter uma infância difícil que se tornará o agente motivador de toda sua história.

Apenas fórmulas.

CONCLUSÃO...
A realidade é que o filme não cansa de absurdos, mas também não cansa o espectador. E se tem uma coisa que ele garante é diversão, e provavelmente uma continuação.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"ESPECIAL" ENTRE ASPAS...

★★★★★★★☆
Título: Sense8
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ficção, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Lilly e Lana Wachowski (The Wachowskis)
Elenco: Miguel Angel Silvestre, Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Brian J. Smith, Tuppence Middleton, Max Riemelt, Toby Onwumere
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os Sense8 escaparam temporariamente de Wispers, e agora terão um tempo para respirarem aliviados e, talvez, curtirem o Natal, cada um a sua maneira e todos curtindo a maneira de cada um.

O QUE TENHO A DIZER...
Logo depois que a primeira temporada de Sense8 foi lançada, fiquei um tanto perplexo ao saber que o sucesso da série não era esperado e, por isso, uma segunda temporada não estava nos planos. Talvez isso tenha acontecido pela sequência de fracassos das irmãs Wachowski nos cinemas desde o fim da trilogia Matrix, não emplacando um sucesso sequer desde então, seja em crítica ou bilheteria.

Por diversos fatores logísticos e de agenda, a segunda temporada do hit de 2015 não pôde ser produzida em tempo para o lançamento ainda em 2016, o que causou a frustração de todos que aguardavam ansiosamente pela reunião dos 8 personagens contectados telepaticamente.

Para satisfazer os fãs, um "especial de Natal" bem recheado foi lançado no dia 23 de dezembro. Bem recheado por conta dos seus quase 120 minutos de duração, tempo suficiente para deixar qualquer um satisfeito. Claro que a impressão de ser apenas um "tapa buraco" não deixa de ser latente, pois a verdade é que este "tal" episódio especial nada mais é do que os dois primeiros episódios da nova temporada ainda não lançada, adiantados para amenizar a impaciência da audiência. De natalino, se for prestar bastante atenção, o episódio nada tem além de uma sequência de uns 10 minutos com o elenco fazendo cara de esperança na vinheta da Globo e cantando errado no meio da multidão. Tanto é assim que, justamente por isso, a segunda temporada, a ser lançada em Maio (ainda?), terá apenas 10 episódios, e não 12, como esperado.

É puro marketing. Foi a forma do Netflix garantir que seus assinantes não se esqueçam que Sense8 ainda existe. Isso se chama falta de planejamento. É o mesmo que ocorreu com Jessica Jones, que já era pra ter tido sua segunda temporada lançada neste segundo semestre, mas foi adiada para 2017 devido a atrasos.

Idependente disso, a série reestreou chamando atenção pela substituição de Aml Ameen por Toby Onwumere para viver o queniano Capheus. Isso ocorreu por desentendimentos entre Aml e a criadora Lana Wachowski. No mais, nada é claro. Supõe-se que seja por desavenças a respeito de cenas sexuais ou até mesmo declarações preconceituosas do ator, mas isso são apenas boatos. Não é à toa que a troca rende até uma piadinha interna no especial quando o amigo do personagem pergunta: "Vc parece estar diferente?".

O episódio da um grande salto de tempo, com Will (Brian J. Smith) e Riley (Tuppence Middleton) escondidos do grande vilão Wispers (Terrence Mann). O casal agora descobriu que Will não precisa ficar inconsciente o tempo todo, desde que ele não veja ou ouça coisas que possam levar o vilão a perceber o ambiente ao redor e assim descobrir seu paradeiro. Só me pergunto como Will ainda não se viciou em morfina (ou seja lá o que ele use) depois de tantas doses. Mas enfim, deixemos isso pros roteiristas...

No mais tudo continua onde a primeira temporada parou, sendo um bom episódio. Tudo muito bem dosado entre a ação, comédia, romance, drama e até um repeteco da "orgia" da temporada passada. Tem tudo para agradar aqueles que estavam na espera, além da sensação de ter que esperar novamente até a reestréia oficial. A breguice (ou cafonice) de Lana e Lilly Wachowski aparece em alguns momentos ou outros, mas nada que estrague o produto como é corriqueiro acontecer em seus longas metragens.

Mas o drama aqui se destaca, principalmente na relação de Lito (Miguel Silvestre) com as pessoas a sua volta depois de aceitar sua sexualidade. A pressão social que ele sente, o assédio que começa a sofrer de sua equipe de trabalho e até mesmo de onde mora, e o conflito familiar (bastante recompensador). Miguel faz um excelente trabalho, e não é à toa que suas cenas acabam sendo as mais emocionantes.

Sun Bak (Doona Bae) continua presa. Literalmente. Presa em uma cela e presa no roteiro. Parece que eles não sabem como tirá-la de lá e, por essa razão, ela virou uma personagem muleta, só aparecendo quando o próprio roteiro não sabe salvar outros personagens do perigo. Um desperdício quando ela é uma das mais interessantes e subutilizadas da série. O mesmo sobre Daryl Hannah. Qualquer atriz poderia ter feito o que ela fez na primeira temporada: morrer logo no primeiro episódio e aparecer esporadicamente como um espectro. E nesse episódio ela retorna no mesmo papel inútil e subaproveitado. Deve ser um saco ter que aparecer no estúdio para usar uma roupinha suja e gravar por apenas 3 horas. Ela realmente deve estar precisando muito do dinheiro.

No mais, o episódio é o mesmo Sense8 que foi na primeira temporada. Com uma comemoraçãozinha forçada de Natal aqui e alí por uns 10 minutos, para logo depois todo esse espírito natalino voar pelos ares em uma guerra bairrista que se inicia em Berlim entre as facções existentes para dominar o legado abandonado com a morte do tio de Wolfgang (Max Riemelt), o que provavelmente será uma das tramas principais da nova temporada.

CONCLUSÃO...
Matará a saudade de quem esperava e preparará todo mundo para o lançamento da segunda temporada completa em Maio.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O TIRO CERTEIRO DE FORD...

★★★★★★★★☆
Título: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Romance
Classificação: 16 anos
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma artista plástica recebe um estranho presente, o rascunho final do livro de um ex-marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ambição nem sempre é ruim. É o que podemos pensar quando pegamos Tom Ford como exemplo, o mundialmente reconhecido estilista que, como hobby, se tornou diretor de cinema.

Quando Direito de Amar (A Single Man, 2009) foi lançado, parecia que a crítica não queria afirmar que Ford tinha feito um dos melhores filmes do ano. O preconceito em Hollywood dificulta artistas de outros circuitos a se consagrarem no cinema, e com ele não teria sido diferente. A subestimação foi tão grande que a adaptação da obra homônima de Christopher Isherwood fez Ford ser esnobado sem qualquer cerimônia pela maioria das grandes premiações. Era difícil admitir que um homem que respirava moda podia, de repente, ter uma estréia cinematográfica tão consistente. Collin Firth foi consagrado como ator pelo filme, saindo dos teatros londrinos para ganhar proeminência no cinema norteamericano. Mas Ford sequer respirou tanta consagração assim.

Segundo ele, a intenção de ter dirigido, escrito e produzido o seu filme de estréia foram mais pessoais do que qualquer outra coisa. Tanto que Animais Noturnos é seu grande retorno depois de sete anos de total ausência. É como se ele estivesse esperando por um projeto igualmente apaixonante, algo que o tirasse da zona de conforto e o fizesse pensar que apenas ele seria capaz de fazê-lo como imagina.

É esse o sentimento que se tem ao assistir seu novo filme, baseado na obra Tony And Susan (1993), de Austin Wright, pois o caráter pessoal é tão grande que Ford também assina o roteiro e a produção.

Aqui ele segue basicamente algumas das mesmas características de seu primeiro filme. A ambientação neo-noir, a delicadeza na condução da história, a sutileza no desenvolvimento das tramas e subtramas e o glamour visual. Mas ao contrário do que ele demonstra na moda, aqui o glamour é apático, frio e distante. Fútil. Enquanto a tal delicadeza e sutileza são utilizadas de maneira brilhante na finalidade de intensificar o suspense e o teor sentimental de uma história que, ao longo dos seus 116 minutos, torna-se um misto de sentimentos em pura emplosão, demonstradas da maneira mais trágica possível à protagonista através das palavras que lê de um livro, e que são traduzidas em imagens ao espectador de maneira, por vezes, emocionalmente devastadoras.

A pretensão de Ford exala como perfume, mas assim como foi ela a resposável pelo seu sucesso ao renovar a Gucci e catapultá-a às trend marks da alta costura na década de 90, é esse seu excesso de confiança que faz tudo funcionar com tanta certeza e pontualidade em um roteiro que varia entre três narrativas bastanta distintas e que aos poucos se afunilam a uma única condução.

O filme começa com a protagonista recebendo um pacote no qual corta o dedo no papel ao tentar desembrulhá-lo, algo que, de certa forma, já a deixa apreensiva. O pacote revela-se um rascunho final do livro de Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), seu ex-marido, o qual conheceu ainda na faculdade, época em que os dois se importavam e sonhavam com o futuro: ela em ser uma reconhecida artista plástica, e ele como um grande escritor. A relação terminou porque Susan (Amy Adams) a sabotou. Além de acreditar que ela nunca sairia do mesmo lugar como artista, e Edward nunca iria evoluir como escritor, no meio do processo uma tragédia acontece, além de surgir Hutton Morrow (Army Hammer), por quem, iludida, se apaixona, e é casada desde então.

Susan alcançou seu objetivo. Artista reconhecida, que mora em uma mansão exagerada de puro concreto e vidro, e Hutton não tem mais o menor pudor em esconder que a trai. Hoje ela se dedica a coisas ínfimas, como cuidar de sua galeria e se relacionar com amigos caricatos da alta sociedade, no qual um deles até a aconselha a aproveitar melhor o mundo absurdo no qual vivem, oportunidade para poucos. E no tédio das noites de insônia percebe como ela se distanciou dela mesma ao longo dos anos. É quando resolve dar atenção ao presente recebido de Edward, o qual a impressiona logo no começo pela sua violência bem narrada, em uma sensação entre continuar lendo ou abandoná-lo. Ler a obra é seu primeiro contato com seu primeiro grande amor em anos, engatilhando lembranças que serão cruciais para o espectador compreender qual é a linha que costura essas narrativas distintas e se o livro tem algo a mais a contar do que as próprias linhas dizem.

É aí que Ford já começa o tiro certeiro, porque ao misturar a narrativa do passado com a narrativa cruel e violenta do livro, ele já nos sugere que existe alguma conexão entre eles. Seria o livro uma velada ameaça, uma simbólica história de vingança ou uma metáfora de alguma realidade? E da mesma forma como Susan se intriga com isso, intrigado também fica o espectador. O fato é que, a cada nova página virada, a nostalgia dos tempos com Edwards se engrandece, e quanto mais Susan se interessa pela história, mais o protagonista do livro sofre, do qual o sange escorre pelas mãos de Susan sem que ela perceba.

Esse paradoxo que Ford cria entre a ficção e o momento presente consegue manter um equilíbrio narrativo constante, sem ápices ou quedas bruscas, usando os flash-backs como a querer pré-justificar a conclusão, encontrando um platô cujo nível de suspense é mantido até o fim. E mesmo que o espectador não pareça tão interessado, ele vai se sentir preso àquilo que ele não sabe exatamente o que é, no qual, sem dúvida, o fará ficar pensando sobre aquilo quando os créditos finais aparecerem.

É um filme cheio de metáforas sobre Edward e Susan, cujo clima soturno e algumas referências até um pouco óbvias a clássicos como os de Hitchcock, principalmente pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que tenta remeter à sonoridade de Bernard Herman, podem não parecer tão interessantes quando analisados separadamente, mas juntos se tornam um conjunto admirável e belo em sua frieza e perversidade.

Assim como no seu filme anterior, o tema volta a ser o lado trágico do amor e os arrependimentos que nos assombram. Mas aqui ele vai mais fundo, torcendo tudo como um pano sujo depois da casa limpa, e em resumo o filme nada mais é do que uma história de vingança psicológica, vencida a partir do momento que o pacote é aberto, pois é ele que reacende sentimentos e vontades de Susan, a isca no anzol de Edward.

As diferentes texturas de imagens e camadas novamente cumprem suas funções como em Direito de Amar, pois são elas que diferenciarão os tempos e narrativas. E dessa forma bastante concisa o filme de Ford é um dos melhores e mais perfeccionistas do ano. Esse excesso de perfeição pode parecer enjoativo, mas é o que caracteriza não apenas o estilo do diretor, mas também o gênero que ele tão bem escolheu trabalhar.

O público não parece ter compreendido muito bem a subejtividade e as associações intrinsecas entre as três narrativas, parece não ter compreendido muito as entrelinhas dos objetos, mas o resultado é brilhante, e seu fim simplório, se bem interpretado, deixará um buraco no peito, o mesmo deixado no peito de Edward.

CONCLUSÃO...
É um thriller psicológico e romântico em sua mais expressiva forma, um misto de sensações e emoções, uma mistura de épocas e visuais, uma experiência única em anos. Um dos melhores filmes de 2016 que reafirma Ford não apenas como um grande diretor, mas também como um roteirista perfeccionista que consegue tirar o melhor que a história pode oferecer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

REVIVER OU MORRER? EIS A QUESTÃO...

★★★★★★★☆
Título: The OA
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Zal Batmanglij
Elenco: Brit Marling, Jason Isaacs, Scott Wilson, Alice Krige, Patrick Gibson, Phyllis Smith, Brandon Perea, Brendan Meyer, Ian Alexander
País: Estados Unidos
Duração: ~60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma garota que, depois de sete anos, reaparece com estranhas capacidades após passar por uma experiência de vida pós morte.

O QUE TENHO A DIZER...
De tempos em tempos um seriado esquisito aparece. Pode até não ser tão bem realizado, mas se for intrigante, que alimente discussões e controversas, a fórmula cult está pronta. É o que acontece em The OA, a nova empreitada da dupla Zal Batmanglij e Brit Marlin.

Batmanglij e Marling são amigos de longa data, que aos poucos tem dado uma cara diferente no cinema independente norteamericano, e agora é vez de fazerem o mesmo na TV e dispositivos multimídia. The OA é a terceira parceria de ambos como idealizadores, roteiristas e produtores. Batmanglij também continua como diretor, e Marling, como atriz principal. A diferença é que dessa vez o produto agora é direcionado a uma massa na qual os dois nunca atingiram antes, e mesmo que a liberdade criativa seja maior no Netflix, não havendo exigências tão grandes como seria em uma emissora de TV, nota-se que a pressão ainda está lá por parte do público, para o bom ou para o ruim.

O projeto, em andamento desde 2015 e impulsionado pela Plan B, produtora de Brad Pitt, é mais ousado que nos dois longas anteriores da dupla. Com apenas oito episódios que variam em duração, é impossível não fazer algumas assimilações ora com Sense8 (2015), ora com Stranger Things (2016), justamente por ter um grupo de pessoas interligadas sem qualquer semelhança uns com os outros, lidando com situações aparentemente sobrenaturais que envolvem brandas discussões sobre a Física Quântica e dimensões paralelas.

O conteúdo aqui é mais adulto, menos fantástico, fantasioso ou pop. É algo mais científico, mais dramático, com uma abordagem fraternal que igualmente funciona na idéia fundamental de que não estamos sozinhos no espaço, não o nosso lado invisível, ou seja, aquele que nunca mostramos a ninguém. E espaço, para a série, significa o lugar onde sua consciência está no momento. Também há um fundo romântico bastante sutil e diferente, e que acaba sendo o motivo central de tudo, mas em nenhum momento se sobrepõe ou incomoda as demais subtramas, o que evita o melodrama, o sentimentalismo banal e, consequentemente, o abuso do cliché. Tanto que só próximo ao fim que percebemos que o objetivo principal da protagonista é esse, e isso nem é spoiler porque é evidente desde o princípio. É bem menos comercial que as outras duas produções já citadas da casa, é algo diferenciado, um tanto alternativo e que busca um público diferente daquele comum que assina o serviço. Também pode ser visto como uma extensão, ou uma idéia melhor desenvolvida do longa Linha Mortal (Flatliners, 1990), um cult de Joel Schumacher, já que a experiência de vida pós morte é outro tema principal.

Para quem já conhece os dois filmes anteriores de Marling e Batmanglij, não irá se surpreender com essa fixação que ambos possuem pela religiosidade, pelo sobrenatural e o exotérico. Sim, um misto entre os três principais eixos espirituais da sociedade, lidando com ícones e mitos de maneira mista, como se tudo se interligasse e formasse uma coisa só. Para eles essa distinção não existe, e para tentar rebater tudo isso, está a ciência para se opor constantemente às tais teorias que eles desenvolvem, outra coisa na qual é evidente o fascínio. Funciona? Sim. Porque da mesma forma como em A Seita Misteriosa (The Sound Of My Voice, 2011), ou até mesmo em O Sistema (The East, 2013) e A Outra Terra (Another Earth, 2011), a narrativa criada a princípio parece convincente para um dos lados, mas depois se torna dúbia, deixando a favor do espectador a decisão de acreditar ou não naquilo que a história propõe.

Para quem não conhece o estilo da dupla, ou sequer assistiu um de seus dois filmes, The OA é uma grande oportunidade para conhecer. Nele estão absolutamente todos os elementos tanto autorais quanto técnicos de suas produções anteriores. Há uma mistura bem feita daquilo que já fizeram antes, sejam em projetos solos ou em parceria, como que ambos quisessem agora promover ao grande público tudo o que fizeram até hoje, usando eles mesmos como referências principais em seus próprios trabalhos. Não é à toa que Prairie (Brit Marling) é muito semelhante a Maggie, sua outra personagem em A Seita, já que ambas afirmam ser entidades que estão no plano terrestre por algum grande motivo, fora outros detalhes que não valem a pena serem ditos para não estragar algumas supresas que The OA reserva.

É um suspense dramático em sua essência, abraçando tantos estilos que chega ser difícil categorizá-lo de maneira tão específica. O suspense surge pela forma narrativa em primeira pessoa, já que boa parte dos episódios é a protagonista contando sua história aos demais, como uma líder de uma nova religião. A duração de sua narrativa é basicamente o tempo de duração de cada capítulo, já que Prairie é obrigada a viver sob certas restrições familiares.

O roteiro pode pecar por não desenvolver muito bem certas motivações ou interesses que fazem os personagens secundários se interessarem tanto pela estapafúrdia história da protatonista (pois é assim que se parece de início), mas por outro lado essa estrutura deu uma consistência nos personagens sem a necessidade de muita informação, economizando a paciência do espectador nesse sentido. O que é mostrado de cada um já é o necessário para justificar a afinidade de um grupo tão heterogêneo, mas no fundo há uma falta, uma vontade de vê-los realizarem muito mais do que serem meros objetos passivos na história. Mesmo assim o companheirismo e a confiança entre eles cresce nas reuniões, e se desenvolve entre choques e conflitos. No meio de tantas diferenças, é a incompreensão social e a solidão de cada um que forma o elo que os unem, sendo dessa inusitada união que a protagonista se fortalece. Essa honestidade nas diferentes personalidades é resultado do elenco formado por atores pouco conhecidos, mas que convence e emociona, como é o caso de Betty (Phillis Smith), personagem que a princípio pouco tem destaque, mas no fim se transforma em uma das mais emocionantes e memoráveis.

A mensagem (ou moral) primordial da série também tem seus momentos de glória sem aquela sensação de algo banalizado. A maneira como a protagonista socialmente é julgada, ou a forma como seus pais adotivos reagem ao seu comportamento, é entristecedor e sufocante. A inabilidade de compreensão da sociedade, o falso julgamento, a exploração da imagem, a falta de aproximação, a maldade e ambição humana são os grandes vilões. São eles que Prairie quer combater para transformar as coisas à sua volta. Um exemplo disso é quando Prairie conversa com Betty sobre a expulsão de Steve (Patrick Gibson) da escola, afirmando que expulsá-lo é negligenciar a responsabilidade dos professores de ensiná-lo. É por isso que ela precisa de outros, porque grandes modificações necessitam de pessoas dispostas a fazê-las. Não importa se esteja em cativeiro ou fora dele, o que precisamos é dos três C's: confiança, companheirismo e cumplicidade.

Se tem uma coisa intrigante nesse seriado, é que ele pode não oferecer nada do que habitualmente se espera de uma ficção científica, e nem oferecer o drama ou o suspense cliché que poderia; o público também pode não se sentir motivado por ele, ou sequer empolgado a princípio. Mas por alguma razão ele cativa, e mesmo com primeiros episódios pouco interessantes ou sem grandes ganchos finais que nos faça querer devorá-lo em um único dia, ainda há aquela sensação de querermos ser convencidos de alguma coisa, e continuar até chegar ao fim não se torna algo massacrante, pelo contrário, os eventos se engrandecem, uma história de amor original toma forma e o final da temporada é emocionante quando impulsionado pelo trabalho do coreógrafo Ryan Heffington (dos atuais vídeos da cantora Sia), um trabalho essencial para a mitologia desenvolvida na série. A princípio os movimentos realizados podem soar um pouco esquisitos (ou cafonas), mas depois emerge como algo extremamente expressivo, técnico e pontual, que só funcionará quando atingida a perfeição e homogeneidade, independente das afinidades de quem o realiza.

CONCLUSÃO...
The OA pode não ser um dos melhores seriados do ano no Netflix, mas é intrigante mesmo assim. Com narrativa lenta, desenvolvimento comedido e suspense gradual, tenta fugir de clichés e no fim não se mostrar tão inovador ou diferente quanto parecia, mas se diferencia ao fugir de certa convencionalidade, e dar oportunidade aos seus criadores de extenderem um mundo e um estilo próprio para agradar um público que busca fugir do comum. E por que não, dizer que acaba sendo algo bastante motivador, com uma bela mensagem a ser compartilhada.

domingo, 4 de dezembro de 2016

NEM SEMPRE TEMOS CONSERTO...

★★★★★★★★★☆
Título: Krisha
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Trey Edward Shults
Elenco: Krisha Fairchild, Robyn Fairchild, Alex Dobrenko
País: Estados Unidos
Duração: 83 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de 10 anos sem encontrar com sua família, Krisha volta a reencontrá-los no Dia de Ação de Graças, mas seu passado e traumas pessoais poderão arruinar as festividades.

O QUE TENHO A DIZER...
Com tantas qualidades e particularidades, Krisha é de longe um dos melhores filmes lançados esse ano. Produzido em 2015, só foi ter seu lançamento mundial no festival South By Southwest, em Austin/TX. Também foi apresentado internacionalmente em Cannes, o que levou o diretor a concorrer a dois prêmios: ao Câmera de Ouro e ao Grande Prêmio da Semana pela Crítica, ambos relacionados à melhor estréia de um diretor.

Dirigido, escrito, produzido, editado e brevemente atuado pelo norteamericano Trey Edward Shults, o longa veio de um processo criativo comum entre diretores estreantes, independentes e autorais, nascendo a partir de um curta metragem de mesmo nome produzido por ele em 2014. Além do fato do elenco ser praticamente o mesmo, as maiores curiosidades sobre o longa é que todos os atores envolvidos são familiares e amigos (por isso os nomes são os mesmos da vida real): quem interpreta a protagonista é sua tia (Krisha Fairchild), quem faz a irmã da protagonista é sua mãe (Robyn Fairchild) e a mãe da protagonista é sua avó (Billie Fairchild). Os demais são amigos pessoais, e apenas dois atores sem qualquer relação com o diretor foram contratados. As filmagens ocorreram na casa de seus pais, e durou apenas nove dias, com orçamento arrecadado pelo Kickstarter, uma fundação online de levantamento de fundos para desenvolvimento de projetos.

É importante conhecer essa história por trás das câmeras porque é ela quem complementa a atmosfera extremamente intimista que o filme proporciona, cuja interação entre os personagens e a naturalidade com que se desenvolvem frente às câmeras chegue a um nível de realismo sufocante, inclusive pela limitação dos cenários, que agregam mais ainda uns aos outros em um caos organizado e conflitante. Também é a prova daquilo que sempre repito por aqui, de que grandes produções não necessitam de grandes orçamentos, apenas de grandes idéias e sólida concepção.

O filme começa focado em Krisha, com um ruído sonoro ao fundo que cresce em sincronia com os sentimentos perturbadores que se afloram. A fisionomia carregada da protagonista surpreende, e a partir daí sabemos que algo de errado acontece com ela, até tudo ser abruptamente interrompido. Em seguida ela chega em um bairro, e em um grande plano sequência vemos ela caminhar de casa em casa, blasfemando arrependida por estar lá, tensa e apreensiva pela receptividade que poderá ter de familiares que reencontrará depois de 10 anos de ausência para juntos comemorarem o Dia de Ação de Graças.

A complexidade de Krisha não é fácil de ser descrita, já que a todo momento é construída e desconstruída por Shults como um quebra-cabeças. Tragicamente ela consegue ser a protagonista e a antagonista de sua própria história, um tipo único que muito raramente vemos no cinema. O excesso de planos sequência e a vagarosidade com que as cenas são conduzidas é angustiante, de um suspense e apreensão nada saudáveis, como no momento em que é acompanhada andando em círculos pela cozinha, em uma insanidade dispersa, com o mesmo ruído sonoro crescente do início do filme. O comportamento distímico de Krisha chega a ser, por vezes, assustador como um filme de horror: é comedida em meio aos familiares, se esforçando para se manter em um padrão de normalidade que eles esperam, mas por trás das paredes está sempre à espreita, alimentando sua insegurança e desconfiança pelos outros de maneira ora esquizofrênica, ora psicótica. E assim a história é construída numa progressão desastrosa, e como todo o processo é muito explícito, acaba sendo previsível, mas um tipo de previsibilidade diferente, que nos prepara para o pior, a um ápice dramático denso e que desmancha como uma pedra de gelo em uma frigideira.

Não há como dexiar de relacionar o filme a dramas familiares europeus como o sueco/dinamarquês Festa de Família (Festen, 1998), ou até mesmo na construção volátil do norteamericano O Casamento de Raquel (Rachel Getting Married, 2008), e em nenhum filme o símbolo maior do Dia de Ação de Graças foi tão bem utilizado para demonstrar que um pequeno acidente pode ser a gota d'agua de uma situação insustentável, o estopim da desgraça, a total antítese de sua simbologia, como acontece aqui.

Shults nunca nos revela pequenas coisas que nos deixam curiosos por todo o filme, ele apenas nos revela o necessário para compreendermos aquele presente e aquele momento. Se o que é revelado já constrói o pior cenário possível, não fica difícil imaginar como foi tudo antes disso e em como o passado pode ter sido tão destrutivo para chegar naquele ponto. Talvez esse flashback imaginário nem seja necessário, pois o fim é certo. Mas acima de tudo, ele também nos dá ferramenta para nos identificarmos com um dos lados, seja em nos sensibilizar com a condição de Krisha (ou até nos identificar com ela), seja em nos solidarizar com sua família e sua persistência para finalmente chegarem ao ponto da completa negação da ajuda.

É filme para poucos, por conta de sua narrativa lenta e meticulosa em sua construção, o que faz os 83 minutos parecerem o dobro. Também difícil, já que, mais que um drama, é um suspense dramático sobre os conflitos da pisiquê humana. Não é à toa que um dos cartazes promocionais do filme remete a uma ilustração de Rorschach, ou seja, a ambiguidade da protagonista, ou a sua tendência em projetar características negativas de sua personalidade aos outros, ou às coisas. Sendo aí que a protagonista brilha, pois Krisha Fairchild sem dúvida tem uma atuação memorável e impressionante, de uma humanidade perturbada excruciante.

Além da narrativa, o filme é tecnicamente belíssimo, desde a já comentada forma do diretor em conduzir muitas das cenas sem cortes e dos planos abertos que dão oportunidade aos atores em explorar o ambiente e interagir abertamente entre si, transformando o expectador em um observador presente, como também na fotografia em enquadramentos sempre muito simétricos e sinestésicos por conta de uma edição simples e pontual: aquilo que se vê, é aquilo que se sente. Sem floreios e sem dispersões, tudo muito objetivo como a visão do espectador.

CONCLUSÃO...
Uma grande estréia de um diretor promissor, e um grande filme com grandes atuações. Uma injustiça o filme estar um tanto esquecido na temporada de premiações, e quando lembrado, apenas o diretor aparece entre os indicados quando não é apenas ele uma das grandes qualidades e revelações do longa. Venceu o Gotham Awards na categoria de Melhor Diretor estreante. Mais que merecido, foi necessário.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

GRANDE COMO SPIELBERG PODE SER...

★★★★★★★☆☆
Título: O Bom Gigante Amigo (The BFG)
Ano: 2016
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Rebecca Hall
País: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota, ao avistar um gigante, é raptada por ele de seu orfanado para que ele não corra o risco do segredo de sua espécie ainda existir ser revelado. Ele a leva para onde mora, no País dos Gigantes, onde uma genuína amizade será construída, da qual ambos ficarão fortalecidos para enfrentar suas dificuldades.

O QUE TENHO A DIZER...
Assistir O Bom Gigante Amigo é chegar à conclusão de que nenhum diretor seria melhor do que Spielberg para realizá-lo, e quando ele assina a produção através de sua tão amada produtora Amblin Entertainment, acredite, é um projeto mais que pessoal.

Esse sentimento é tido por vários motivos. O principal deles é o diretor voltar a pisar em um terreno infantil no qual se distanciou desde de E.T. (1982). Claro que a fantasia nunca foi abandonada nesses 33 anos que se passaram, mas nenhuma das poucas produções desse gênero realizadas por ele, até mesmo Tintim (2011), trouxe a mesma ingenuidade ou delicadeza metafórica e inspiradora como foi com o extraterrestre, que felizmente ele repete aqui. 

Adaptado do livro homônimo de Roald Dahl, publicado em 1982, o projeto estava no papel desde 1991, mas só em 2014 foi finalmente parar nas mãos de Spielberg, que afirmou sempre ter tido vontade de dirigí-lo, pois o autor foi genial ao empoderar as crianças, sendo ousado ao introduzir uma combinação entre o obscuro e o lúdico de tal forma que apenas a Disney havia feito em seus primeiros clássicos, capaz de assustar e ser reconfortante ao mesmo tempo, oferecendo uma moral que é única a todos. E claro, não é à toa que a Disney co-produziu e distribuiu o longa.

O que Spielberg humildemente esqueceu é que seu clássico anterior se tornou uma referência justamente por ter as mesmas características, e é exatamente aí que essa linda produção igualmente se destaca. A outra razão óbvia é que o roteiro também foi escrito por Melissa Mathison, a mesma de E.T. e do maravilhoso A Chave Mágica (The Indian And The Cupboard, 1995), de Frank Oz. Melissa acabou falecendo no final de 2015 enquanto O Bom Gigante estava em produção, sendo a ela que o filme é dedicado nos créditos finais.

Portanto, não é à toa que o diretor utiliza a mesma estética narrativa de E.T. em alguns momentos, e o mesmo fez Melissa com o roteiro, levando tanto os personagens quanto os espectadores a uma inicial apreensão sobre o que irá acontecer, e se o gigante envelhecido, de silhueta envergada, seja tudo aquilo de ruim que habita a fantasia das pessoas que cresceram ouvindo os mais diferentes contos e lendas envolvendo figuras desconhecidas como ele, tanto quanto foi com o extraterrestre de olhos imensos e de corpo atrofiado, e por conta disso parecerem tão atemorizantes em um primeiro contato. São nesses momentos que sua delicadeza se destaca da mesma forma como ele descreveu a obra original de Dahl, porque ele consegue transformar até mesmo o apavorante em algo bonito e carismático, como a ensinar que o medo é apenas uma hipérbole da nossa fértil imaginação e que só cabe a nós dominá-lo.

A história volta a repetir a velha moral de que nada deve ser julgado por aquilo que aparenta ser, de que todos nós somos especiais de alguma forma e que, embora únicos, nunca estamos sozinhos, sendo essas as características que nos aproximam de semelhantes e os vínculos de amizade e amor fraternal nascem. Assim é a forma como a relação entre BFG e Sophie (Ruby Barnhill) ocorre. Simples, porém inspiradora e sólida o suficiente para sustentar todo o filme.

Ao mesmo tempo que a estética de BFG seja ameaçadora em um primeiro momento, sua expressividade serena (que muito se assemelha a um Spielberg sem barba), o sorriso singelo e espontâneo de canto de boca (que muito lembra Harrison Ford), além do aspecto frágil junto a um comportamento ora ágil, ora desastrado, é o que embute o humor e a leveza que igualmente se expressam no seu linguajar confuso, o qual infelizmente se perde na tradução/dublagem em português. Mas é quando sua personalidade se desenvolve e seu arco dramático toma forma que finalmente o conhecemos e nos sensibilizamos com seu drama comum de viver uma vida solitária e complexada, já que é o menor e mais fraco dos gigantes, sendo constantemente assediado e humilhado pelos demais, taxado como uma vergonha de sua espécie. Olha-lo novamente depois disso é compreender sua postura diminuída, de andar tímido e pés interiorizados. É quando ele se torna um personagem lindo por essência, é quando queremos ser seu amigo por compaixão.

Seus irmãos gigantes são liderados pelo maior e mais forte deles (mas também o mais ignorante). Fleshlumpeater carrega em si uma revolta que alimenta seu ódio por humanos e que o fez desistir de suas funções de ente responsável pelo equilíbrio da natureza e das coisas, função que BFG ainda exerce incansavelmente há séculos, capturando sonhos e distribuindo-os pelas sombras na calada da noite, evitando ser visto na cidade pelas mais variadas e mirabolantes camuflagens possíveis, numa destreza impecável e até bastante engraçada.

Visualmente a produção é impecável, principalmente o design de produção assinado por Janusz Kaminski, que há 26 anos trabalha com Spielberg. Ele abusa de cores quentes e estéticas um tanto circenses no cenário para compensar a ambientação soturna em que boa parte da história se passa. É claro que a sensação plástica ainda existe nos cenários e animações, mas a expressividade dos personagens digitais, principalmente nos milimétricos movimentos faciais e na sincronia labial, é de longe a melhor já feita, conseguindo superar até mesmo a captura de movimentos de Smeagol/Gollum para a trilogia O Senhor dos Anéis. Não seria de se assustar se BFG concorresse ao Oscar (se isso fosse possível), mesmo sendo um personagem animado, pois ele é tão convincente quanto consegue ser Ruby Barnhill, que por sua vez é tão carismática quanto Drew Barrymore em E.T.

Um dos poucos defeitos do filme é justamente não deixar claro na história os verdadeiros motivos pelos demais gigantes terem se tornado tudo aquilo que a lenda urbana agora os descreve - que é por onde a narrativa do filme tem início - ficando difícil compreender porque existe tanta diferença entre BFG e os outros, mesmo que Fleshlumpeater afirme em um determinado momento ter desistido dos humanos, deixando subentendido que isso aconteceu por algum trauma passado, ou pelo isolamento no qual foram obrigados a se submeter em alguma época por, talvez, serem considerados aberrações. Sua reta final também deixa um pouco a desejar, levando os personagens a um encontro inusitado com uma figura inusitada em um lugar mais inusitado ainda, talvez para tentar mostrar às crianças e adultos que tudo é possível quando existe honestidade e boas intenções, mas isso leva a uma intervenção na conclusão na história que poderia ter sido menos autoritária como foi e que acaba ferindo toda a moral construída desde o princípio, como uma ralada no joelho.

De qualquer forma, não dá para ignorar que muitos dos elementos do clássico de ficção de Spielberg estejam novamente presentes aqui, não como referências, mas como resgate de uma narrativa fantasiosa, que motiva o público infantil e o transporta para o lado mais profundo de seu imaginário sem subestimá-lo ou diminuí-lo em momento algum. Pelo contrário, o filme empodera e engrandece este público, além de mostrar aos adultos que a ilusão e a fantasia ainda existem independente da idade, só é necessário dar asas a isso.

A narrativa, como muito foi citada pela crítica, é lenta, mas caprichosa, fluida (até chegar na tal infeliz reta final), um filme para ser visto através dos olhos das crianças, caso contrário ele não terá o mesmo efeito. Fazendo isso, no fim todos serão imersos dentro de uma mesma atmosfera onde cresce uma história comovente, com personagens carismáticos e cativantes, uma fotografia lúdica de brilhar os olhos e uma trilha sonora de John Williams de arrancar lágrimas de satisfação por conta da pefeita sinergia e sincronia com que Spielberg desenvolve tudo numa paixão pessoal que não se via desde As Aventuras de Tintim (2011) ou Lincoln (2012), fazendo aquilo que parecia complexo se tornar simples aos olhos e aos sentimentos.

CONCLUSÃO...
Infelizmente foi muito ignorado, custando US$140 milhões e arrecadando um pouco mais de US$170 milhões no mundo, estatisticamente considerado um fracasso. Pouco do público conseguiu se imergir na história como Spielberg propõe, talvez pelo fato desse público estar desacostumado com uma visão mais ingênua da qual o cinema se esqueceu em uma época onde tudo é irônico, tudo é sarcático e dúbio. Tecnicamente impecável, além de ter uma sensibilidade típica de um Spielberg que agora consegue aflorar emoções e sentimentos mistos sem ser apelativo, como já foi no passado.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

FRUTOS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Verão Em L.A. (August)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eldar Rapaport
Elenco: Murray Bartlett, Daniel Dugan, Adrian Gonzalez
País: Estados Unidos
Duração: 99 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quando retorna a Los Angeles depois de cinco anos em Barcelona, ao procurar seu ex para tentar consertar um passado de erradas decisões, descobre que o resultado de tudo foi consequência dele mesmo.

O QUE TENHO A DIZER...
Ontem, pesquisando no Netflix, resolvi assistir um filme com temática homossexual. Já expressei em outras resenhas que não é um estilo que particularmente me agrada justamente pelo excesso de clichés e estereótipos que costumam ter. Com algumas excessões ou outras, como Longe do Paraíso (Far From Heaven, 2002), Delicada Relação (Yossi & Jagger, 2011), Direito de Amar (A Single Man, 2009), Tomboy (2011), Queda Livre (Freier Fall, 2013), dentre poucos outros, percebe-se a seriedade sobre o tema mais do que o reforço da idéia comum do comportamento gay ou trangênero. Tanto que, correndo entre as opções disponíveis no serviço, as sinopses costumam ser as mesmas: do amigo que não se aceita ao do namorado traído, com pequenas variações de um a outro.

Verão em LA foi o que pareceu ser o menos forçado deles, algo que ainda remetesse um comportamento comum, mas que ao mesmo tempo pudesse ser mais realista, menos romântico, debochado ou caricato.

O filme começa sem créditos, com o protagonista sendo entrevistado para um emprego. Quando vi o ator, imaginei conhecê-lo de algum lugar. Sim, estava lhe faltando o bigode. Ele é Murray Bartlett, o Dom, do verdadeiro e delicioso falecido seriado Looking (2014-2015), da HBO, que durou apenas duas temporadas porque a audiência não era satisfatória, mas mesmo assim ganhou um filme este ano, produzido pela própria HBO, justamente para concluir tudo e satisfazer os fãs.

Aqui já é possível compreender porque Bartlett posteriormente foi parar no seriado. Seu personagem não de todo estereotipado, e o ator, além de ser obviamente atraente, também é competente. Ele interpreta Troy, o galã de Los Angeles que deixou uma fila de corações partidos quando se mudou para Barcelona. Um tipo que diz não se apaixonar, um solteirão convicto. Tanto que os demais personagens sempre afirmam que, bem... ele é Troy! A figura conhecida, temida e ao mesmo tempo cobiçada de toda Los Angeles, o troféu inalcançável, o macho alfa entre os gays da cidade dos anjos.

Depois de cinco anos, Troy retorna a sua cidade natal para passar o verão, rever familiares e amigos, mas acima de tudo, se curar de uma provável crise existencial. Troy não é muito diferente de Dom, o do seriado. Eles possuem as mesmas características: a mesma determinação, o mesmo sex appeal. Mas Troy aparenta estar em uma crise mais sentimental, ao invés da crise profissional e dos 40 de Dom. Ele entra em contato com seu ex-namorado, justamente aquele o qual deixou sentimentalmente perturbado depois de um repentino fim às vésperas de se mudar para Barcelona.

Jonathan (Daniel Dugan) agora vive com o argentino Raul (Adrian Gonzalez), o qual, nas dificuldades de ser um imigrante, se casou com a melhor amiga de seu namorado. Raul conhece toda a história entre Jonathan e Troy, e a princípio é bastante compreensível com tudo, acreditando que a volta do ex seja importante para a cura de feridas ainda abertas e que possa tornar sua relação mais sólida e menos traumática.

E por aí a história se desenvolve, e o filme realmente é aquilo que eu esperava quando li sua sinopse. Não é abusivo, não é deliberadamente melodramático, não abusa de estereótipos e carrega toda a história com bastante honestidade sobre o ponto de vista dos três personagens, mesmo que o foco principal seja Troy.

O roteiro consegue explorar os erros e arrependimentos do protagonista, sobre sua falta de comprometimento e irresponsabilidades com sentimentos alheios de um passado imaturo. Mudar-se para Barcelona pode ter sido sua fuga da realidade em ter magoado tantas pessoas sem qualquer pretexto, sendo lá que seu egocentrismo e egoísmo se dissolveram quando ele se apaixonou por alguém que deve tê-lo feito sofrer no mesmo peso e medida. O filme não mostra nada disso, mas deixa implícito que as coisas foram assim, e ter seu sentimento ferido por alguém o fez relembrar das pessoas que ele feriu, especialmente Jonathan.

A situação que Troy se encontra não é uma praga rogada, como ele afirma algumas vezes, mas uma situação na qual todos estamos vulneráveis. É a reciprocidade que a própria vida fornece, na qual devemos aceitar e aprender a lidar.

Esses dias atrás escrevi um longo post sobre relações abusivas por conta de uma ironia, e por outra ironia assisti esse filme, no qual enxergo como um filme sobre o ponto de vista não de quem sofre, mas de quem fez sofrer. O resultado daquilo que é plantado e colhido, o inevitável futuro daquele que um dia abusou ou assediou, independente da forma.

O arrependimento, mesmo que tardio, é válido, mas isso não significa que ele conserte o passado, ele só o torna menos doloroso. Constantemente infligir dor a outras pessoas, mesmo que inconscientemente, uma hora se torna um fardo, e é esse fardo que Troy carrega. Como dito, a busca de Troy é, apesar dos pesares, compreensível e louvável, a possibilidade de curar feridas ainda abertas para que cada um possa seguir seu caminho sem tropeços ou mancadas.

A forma como Troy representa tudo isso é bem desenvolvida, um arquétipo que constantemente encontramos, ou que até já fomos algum dia.

CONCLUSÃO...
A recorrência do tema que o filme aborda é comum, e não é necessário ser gay para se identificar com tudo. Às vezes acontecimentos como esses só acontecem para nos testar, e nos mostrar que, apesar de dores e sofrimentos, certas escolhas realmente acabam sendo libertadoras.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

BURTON POUCO INSPIRADO...

★★★★★★☆
Título: O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home For Peculiar Children)
Ano: 2016
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: Tim Burton
Elenco: Asa Butterfield, Eva Green, Chris O'Dowd, Judi Dench, Samuel L. Jackson, Terence Stamp, Ella Purnell
País: Reino Unido, Bélgica, Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto descobre pistas que o levam para um orfanado de crianças peculiares que vivem sempre em um mesmo dia, em uma outra época, sob os cuidados de Sra. Peregrine. Mas aquilo que a princípio era mágico e fantástico, de repente começa a mostrar seus perigos conforme ele descobre e conhece mais sobre cada uma deles.

O QUE TENHO A DIZER...
Numa mistura entre X-Men, Mary Poppins e Peter Pan, existe algo em Miss Peregrine que deixa uma certa frustração no ar. O novo filme de Tim Burton, baseado no primeiro livro de uma trilogia do autor Ransom Riggs, por vezes entrega aquilo que essencialmente faz parte do seu estilo, mas por outras não. Algo que geralmente ocorre nos filmes em que ele é contratado para realizar, e não porque foi um projeto pessoal, como Frankenweenie (2012), Alice (2010), A Noiva Cadáver (2005), ou Batman: O Retorno (1992), para citar apenas alguns.

Existe uma grande diferença entre os projetos pessoais do diretor com os projetos em que ele é encaixado. É o que acontece aqui, uma produção que, mesmo possuindo características de Burton e para ele, por muitas vezes a impressão tida é contrária. Claro que há momentos em que seu estilo se destaca e traz um certo sorriso de satisfação e nostalgia ao ponto de dizermos "ah, isso é Burton!", como os personagens em si, que podem ser bizarros, mas são cativantes; os arbustos em forma de animais no jardim do orfanato, em uma referência a seu clássico Edward Mãos-de-Tesoura (1990); na batalha de bonecos em stop-motion, uma técnica na qual é apaixonado; ou na mesa de jantar, quando ele não tem receio algum de mostrar ao público infantil como Claire (Raffiella Chapman) consegue ser bastante estranha por traz de tanta doçura. Há outros momentos como esse, mas é bem nítido que Burton está pisando em um um terreno que não vemos a paixão pelo projeto sangrar pelos seus olhos.

Há uma certa apatia no ar, uma desconexão entre ele e o resto da equipe, já que a Fox começou a produção em 2011 e Burton só foi contratado em 2014. Boa parte da equipe não é a mesma com quem costuma trabalhar, nem mesmo a trilha sonora ajuda muito, talvez pela falta de Danny Elfman, seu colaborador de décadas. Até a fotografia, mesmo sendo de Bruno Delbonnel, que já trabalhou com ele em Grandes Olhos (Big Eyes, 2014) e Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012), é possível sentir que tudo está um pouco mais aguado e/ou distante, tanto quanto esses mesmos filmes também foram, já que não são os seus melhores.

Talvez o que mais "maltrate" o diretor como um todo seja o roteiro de Jane Goldman (ironicamente, a mesma de X-Men: Primeira Classe), que não é ágil, e só vai se tornar um pouco empolgante depois de mais da metade da história, quando quase uma hora e meia se passou e todo mundo já estiver um pouco entediado com tanto vai e vem, principalmente as crianças. O que é outro grande e óbvio problema é que, embora o livro seja direcionado para um publico juvenil e jovem-adulto, o filme poderia ter um tom menos sombrio justamente para agradar os mais pequenos, pois mesmo tendo uma classificação indicativa de 12 anos, foram os mais novos que preencheram boa parte das salas de exibição.

A história a princípio parece simples, mas vai ficando complexa para coisas pequenas e pouco fluida, tendendo a piorar com o desenvolvimento dela mesma. Tudo fica meio confuso quando a intenção era simplesmente entreter, chegando num momento em que o espectador simplesmente se desliga dela e só quer saber como vai terminar. E ainda termina apressada e sem clímax, apenas com tentativas frustradas de um vilão (Samuel L. Jackson) fraco e de motivações vagas querer impressionar a todo custo com entonações vocais, gargalhadas do mal e piadinhas bem chochas. O que salva é que Samuel tem um sarcasmo muito forte e sua presença é sempre grandiosa, salvando uma cena e outra de algum bocejo.

Para as crianças ou adolescentes que pouco prestarão atenção na história mais do que no visual, definitivamente o filme poderia ter tido uma atmosfera mais receptiva, já que a intenção da história é justamente fazer aquilo que Burton sempre faz em seus filmes, mostrar que ser diferente não é um defeito, mas uma qualidade única de cada um, algo que, por incrível que pareça, dessa vez não teve muito sucesso nessa moral que no livro parece ser tão forte, segundo aqueles que leram.

Mesmo sendo mais um filme no currículo de Burton que não impressione tanto quanto outros, de qualquer forma, ainda é uma aventura fantasiosa a ser apreciada por algumas particularidades e por um elenco que, dentro do possível, é carismático em sua maioria, principalmente Eva Green (a mesma do seriado Penny Dreadful), com seus grandes e expressivos peculiares olhos.

É mais uma daquelas produções em que muita gente pode amar e outras odiarem, além de muitos fãs dos livros ficarem desapontados pelo filme não representar as coisas da forma como imaginavam, ou deixar de colocar na história elementos que particularmente gostaram ou se identificaram. Algo compreensível, principalmente no cinema comercial.

CONCLUSÃO...
A história em si é cativante, mas parece não ter o mesmo apelo na tela, e o visual se destaca muito mais do que ela própria, mesmo que menos inspirado do que Burton costuma ser.
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