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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

SENTIMENTO UNIVERSAL...

★★★★★★★★★☆
Título: Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name)
Ano: 2017
Gênero: Drama, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Luca Guadagnino
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar
País: Itália, França, Brasil, Estados Unidos
Duração: 132 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A chegada de um americano para estagiar com um famoso arqueologista transforma a vida de um rapaz que estará prestes a descobrir o seu primeiro grande amor.

O QUE TENHO A DIZER...
O fim da adolescência não é fácil, o início da vida adulta e independente também não. É quando Oliver (Armie Hammer) chega na Itália para estagiar com o pai de Elio (Timothée Chalamet) que esses dois momentos se encontram. Elio tem 17 anos, e mesmo que sua educação tenha dado bases sólidas para já ter consciência de suas próprias decisões, é a falta de experiência que o mantém com um pé dentro dos impulsos emocionais da adolescência. Oliver tem 25 anos, e ao mesmo tempo que se identifica com Elio em diversos aspectos, as experiências de vida já o deixaram mais maduro para ter objetivos específicos e menos impulsivos.

Oliver é bonito, inteligente e eloquente, mas seu jeito americano soa arrogante demais para Oliver, este que foi criado sob uma educação mais calorosa e refinada, notada por conta de sua personalidade musical e de sua abrangente cultura. Mas existe algo mais no estranhamento de ambos, aquele estranhamento no qual quanto mais tentam se evitar, mais se aproximam.

Assistir esse filme definitivamente nos enche dessa sensação de como esse sentimento puro aflora e cresce entre duas pessoas, e muitas vezes poderá soar nostálgico para quem se identificar com a situação em alguma época da vida, independente da sexualidade, porque o sentimento é único e essa é a realidade que todo mundo já passou pelo menos uma vez.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, publicado em 2007, o roteiro tem algumas consistentes mudanças, mas feito de forma que felizmente o deixa sentimentalmente mais realista e menos melancólico. Ao contrário do livro, a intenção não era narrar um passado, mas persuadir o espectador de que aquilo que os personagens vivem naquele tempo e espaço é real. Dessa forma o sentimento se torna próximo e consistente o bastante para que o público se identifique com o arco emocional e dramático, ao ponto de sentirmos o misto de emoções que eles também sentem. A adaptação não é fiel ao livro no sentido narrativo, mas captou toda a sua essência de maneira tão delicada e sucinta que não é à toa que tenha vencido o BAFTA 2018 pelo Roteiro Adaptado, e esteja concorrendo ao Oscar 2018 também nesta mesma categoria, além de Melhor Filme, Melhor Ator e Música Original.

O cenário italiano não poderia soar mais romântico e caloroso, mas para atrapalhar o romancismo, temos a década de 80, que ainda era extremamente conservadora quando comparada com os dias de hoje. E se existe um grande obstáculo entre o romance que está prestes a nascer, será isso. E não porque haverá grupos, pessoas ou indivíduos a se opor ao relacionamento de ambos, porque essa discussão sequer existe, e está longe de ser a proposta. A apreensão dos personagens, a forma como lidam com os encontros secretos, a tentativa de dispersarem as atenções e, inclusive, suas próprias emoções, é tudo consequência do medo existente, o medo daquilo que desconhecem, e por desconhecerem, não saberem como lidar.

Me Chame Pelo Seu Nome não é um filme qualquer, e está longe de ser mais um Brokeback Mountain (2005) porque a naturalidade e a delicadeza com as quais o diretor Luca Guadagnino desenvolve toda a história consegue ser muito mais sutil e realista do que Ang Lee conseguiu fazer com a história dos cowboys. Isso que Ang Lee já é caracteristicamente um diretor conhecido por ser extremamente delicado.

O livro tende a ser muito mais enfático e explícito, mas Guadagnino acreditou que seguir o mesmo tom quebraria a construção da relação emotiva e de cumplicidade que ele propõe construir com o espectador. As cenas de sexo e nudez, por exemplo, eram muito mais presentes no roteiro, assim como são no livro, mas foram retirados não porque o diretor acreditou que pudessem ser chocantes, mas porque ele realmente achou desnecessário, acreditando que o excesso de impulso sexual soaria gratuito e comprometeria a originalidade do sentimento, saindo completamente do foco e da atmosfera transformadora que os permeia.

A dificuldade dos protagonistas é lidar com a situação na época, e mais do que qualquer outra pessoa, aceitarem o que acontece entre eles, e o que estão vivendo é raro e precioso. O aspecto social, a dúvida por seguir fiel ao sentimento, ou interrompê-lo para dar continuidade ao que a sociedade espera, não é uma discussão na história, mas está implícita e os atormenta como um fantasma. A princípio, a dúvida de Elio o faz ter atitudes coerentes com sua idade, sendo rude, distante e até ficando com sua melhor amiga para tentar chamar a atenção de Oliver, este que interpreta as atitudes de Elio de maneira totalmente contrária, igualmente se distanciando para respeitar o espaço do rapaz. E assim o tempo vai passando, os dias também, a estadia de Oliver se encurta e o espectador se angustia, porque como um observador onipresente, ele sabe o verdadeiro desejo de ambos, ao ponto de querer entrar na história e se intrometer na falta de comunicação entre eles. O processo é lento e honesto, tanto que quando a primeira investida acontece, é impossível não se empolgar tanto quanto eles.

A intenção do diretor é que o filme tenha uma continuidade. Por questões orçamentárias e de duração (já longo em suas mais de duas horas), tanto ele, quanto o roteirista James Ivory, preferiram interromper a história em um ponto anterior ao final do livro, um ponto interessante que deixou a situação aberta, livre para interpretações ou para uma continuação.

O grande trunfo do filme é sua simplicidade, a fotografia bucólica até poética que valoriza as pequenas e importantes coisas que sequer damos atenção na vida e no cotidiano, cheio de cenas silenciosas que dizem mais do que extensos diálogos, além dos personagens terem seus sentimentos respeitados por todos à sua volta, rendendo um discurso pra lá de emocionante do pai de Elio, e que, em sua essência, resume absolutamente todos os sentimentos e ambiguidades que a história explora.

E como bem dito nesse momento tão único e até surpreendente, a dor e a tristeza podem até existir, mas não devem nunca matar a felicidade, e será essa a grande moral de um belo filme sobre um sentimento genuíno e universal que muitas vezes pode acontecer apenas uma única vez na vida, e desperdiçá-lo é perder a experiência de vivê-lo com intensidade.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O TIRO CERTEIRO DE FORD...

★★★★★★★★☆
Título: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Romance
Classificação: 16 anos
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma artista plástica recebe um estranho presente, o rascunho final do livro de um ex-marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ambição nem sempre é ruim. É o que podemos pensar quando pegamos Tom Ford como exemplo, o mundialmente reconhecido estilista que, como hobby, se tornou diretor de cinema.

Quando Direito de Amar (A Single Man, 2009) foi lançado, parecia que a crítica não queria afirmar que Ford tinha feito um dos melhores filmes do ano. O preconceito em Hollywood dificulta artistas de outros circuitos a se consagrarem no cinema, e com ele não teria sido diferente. A subestimação foi tão grande que a adaptação da obra homônima de Christopher Isherwood fez Ford ser esnobado sem qualquer cerimônia pela maioria das grandes premiações. Era difícil admitir que um homem que respirava moda podia, de repente, ter uma estréia cinematográfica tão consistente. Collin Firth foi consagrado como ator pelo filme, saindo dos teatros londrinos para ganhar proeminência no cinema norteamericano. Mas Ford sequer respirou tanta consagração assim.

Segundo ele, a intenção de ter dirigido, escrito e produzido o seu filme de estréia foram mais pessoais do que qualquer outra coisa. Tanto que Animais Noturnos é seu grande retorno depois de sete anos de total ausência. É como se ele estivesse esperando por um projeto igualmente apaixonante, algo que o tirasse da zona de conforto e o fizesse pensar que apenas ele seria capaz de fazê-lo como imagina.

É esse o sentimento que se tem ao assistir seu novo filme, baseado na obra Tony And Susan (1993), de Austin Wright, pois o caráter pessoal é tão grande que Ford também assina o roteiro e a produção.

Aqui ele segue basicamente algumas das mesmas características de seu primeiro filme. A ambientação neo-noir, a delicadeza na condução da história, a sutileza no desenvolvimento das tramas e subtramas e o glamour visual. Mas ao contrário do que ele demonstra na moda, aqui o glamour é apático, frio e distante. Fútil. Enquanto a tal delicadeza e sutileza são utilizadas de maneira brilhante na finalidade de intensificar o suspense e o teor sentimental de uma história que, ao longo dos seus 116 minutos, torna-se um misto de sentimentos em pura emplosão, demonstradas da maneira mais trágica possível à protagonista através das palavras que lê de um livro, e que são traduzidas em imagens ao espectador de maneira, por vezes, emocionalmente devastadoras.

A pretensão de Ford exala como perfume, mas assim como foi ela a resposável pelo seu sucesso ao renovar a Gucci e catapultá-a às trend marks da alta costura na década de 90, é esse seu excesso de confiança que faz tudo funcionar com tanta certeza e pontualidade em um roteiro que varia entre três narrativas bastanta distintas e que aos poucos se afunilam a uma única condução.

O filme começa com a protagonista recebendo um pacote no qual corta o dedo no papel ao tentar desembrulhá-lo, algo que, de certa forma, já a deixa apreensiva. O pacote revela-se um rascunho final do livro de Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), seu ex-marido, o qual conheceu ainda na faculdade, época em que os dois se importavam e sonhavam com o futuro: ela em ser uma reconhecida artista plástica, e ele como um grande escritor. A relação terminou porque Susan (Amy Adams) a sabotou. Além de acreditar que ela nunca sairia do mesmo lugar como artista, e Edward nunca iria evoluir como escritor, no meio do processo uma tragédia acontece, além de surgir Hutton Morrow (Army Hammer), por quem, iludida, se apaixona, e é casada desde então.

Susan alcançou seu objetivo. Artista reconhecida, que mora em uma mansão exagerada de puro concreto e vidro, e Hutton não tem mais o menor pudor em esconder que a trai. Hoje ela se dedica a coisas ínfimas, como cuidar de sua galeria e se relacionar com amigos caricatos da alta sociedade, no qual um deles até a aconselha a aproveitar melhor o mundo absurdo no qual vivem, oportunidade para poucos. E no tédio das noites de insônia percebe como ela se distanciou dela mesma ao longo dos anos. É quando resolve dar atenção ao presente recebido de Edward, o qual a impressiona logo no começo pela sua violência bem narrada, em uma sensação entre continuar lendo ou abandoná-lo. Ler a obra é seu primeiro contato com seu primeiro grande amor em anos, engatilhando lembranças que serão cruciais para o espectador compreender qual é a linha que costura essas narrativas distintas e se o livro tem algo a mais a contar do que as próprias linhas dizem.

É aí que Ford já começa o tiro certeiro, porque ao misturar a narrativa do passado com a narrativa cruel e violenta do livro, ele já nos sugere que existe alguma conexão entre eles. Seria o livro uma velada ameaça, uma simbólica história de vingança ou uma metáfora de alguma realidade? E da mesma forma como Susan se intriga com isso, intrigado também fica o espectador. O fato é que, a cada nova página virada, a nostalgia dos tempos com Edwards se engrandece, e quanto mais Susan se interessa pela história, mais o protagonista do livro sofre, do qual o sange escorre pelas mãos de Susan sem que ela perceba.

Esse paradoxo que Ford cria entre a ficção e o momento presente consegue manter um equilíbrio narrativo constante, sem ápices ou quedas bruscas, usando os flash-backs como a querer pré-justificar a conclusão, encontrando um platô cujo nível de suspense é mantido até o fim. E mesmo que o espectador não pareça tão interessado, ele vai se sentir preso àquilo que ele não sabe exatamente o que é, no qual, sem dúvida, o fará ficar pensando sobre aquilo quando os créditos finais aparecerem.

É um filme cheio de metáforas sobre Edward e Susan, cujo clima soturno e algumas referências até um pouco óbvias a clássicos como os de Hitchcock, principalmente pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que tenta remeter à sonoridade de Bernard Herman, podem não parecer tão interessantes quando analisados separadamente, mas juntos se tornam um conjunto admirável e belo em sua frieza e perversidade.

Assim como no seu filme anterior, o tema volta a ser o lado trágico do amor e os arrependimentos que nos assombram. Mas aqui ele vai mais fundo, torcendo tudo como um pano sujo depois da casa limpa, e em resumo o filme nada mais é do que uma história de vingança psicológica, vencida a partir do momento que o pacote é aberto, pois é ele que reacende sentimentos e vontades de Susan, a isca no anzol de Edward.

As diferentes texturas de imagens e camadas novamente cumprem suas funções como em Direito de Amar, pois são elas que diferenciarão os tempos e narrativas. E dessa forma bastante concisa o filme de Ford é um dos melhores e mais perfeccionistas do ano. Esse excesso de perfeição pode parecer enjoativo, mas é o que caracteriza não apenas o estilo do diretor, mas também o gênero que ele tão bem escolheu trabalhar.

O público não parece ter compreendido muito bem a subejtividade e as associações intrinsecas entre as três narrativas, parece não ter compreendido muito as entrelinhas dos objetos, mas o resultado é brilhante, e seu fim simplório, se bem interpretado, deixará um buraco no peito, o mesmo deixado no peito de Edward.

CONCLUSÃO...
É um thriller psicológico e romântico em sua mais expressiva forma, um misto de sensações e emoções, uma mistura de épocas e visuais, uma experiência única em anos. Um dos melhores filmes de 2016 que reafirma Ford não apenas como um grande diretor, mas também como um roteirista perfeccionista que consegue tirar o melhor que a história pode oferecer.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O DIFERENCIAL QUE FALTAVA...

★★★★★★★★
Título: O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E.)
Ano: 2015
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Henry Cavil, Armie Hammer, Alicia Vikander, Elizabeth Debicki, Hugh Grant
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois agentes terão de se unir para proteger uma garota que é a única capaz de conseguir descobrir o paradeiro de um importante físico perseguido pelos nazistas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é baseado numa série norteamericana que foi muito famosa dos anos 60, e que até chegou a passar no Brasil como se fossem filmes, mas não foi algo que se manteve vivo na memória popular. Teve quatro temporadas e contou com o auxílio de Ian Fleming na concepção, o pai de James Bond. Alguns creditam Fleming como um dos criadores, quando na verdade ele apenas concebeu um dos protagonistas, Napoleon Solo, o que não é muita surpresa já que ele não foge muito do estereótipo que Fleming criou com Bond, por isso que o personagem Illya acaba sendo até mais interessante com toda sua truculência russa no filme.

O filme é dirigido e escrito por Guy Ritchie, o famoso diretor britânico que deixou de ser conhecido por Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes para levar um tropeço assustador quando fez com sua ex-mulher, Madonna, o filme Destino Insólito (Swept Away, 2002), além do kabalístico Revolver (2005), que a crítica massacrou e virou do avesso. Aos poucos ele se recompôs, e só com Sherlock Holmes (2009) que ele conseguiu, finalmente, ufa, sair da sombra do revés e se reestabelecer por completo novamente, mas dessa vez como um diretor mais comercial e não underground, como ficou conhecido.

Ritchie nunca foi de grandes públicos, mas cultuado por ter uma linguagem violenta própria muito bem dosada de ironia e humor negro, com tema sempre voltado ao crime organizado e seus criminosos, algo que remete a um Tarantino britânico, mas sem querer sê-lo. Já chegou a ser taxado de machista por seus filmes serem focados apenas em personagens masculinos e com atitudes equivalentes, além da fama de homofóbico, que para quem assistiu seus filmes poderia facilmente acreditar no mesmo. Não é à toa que suas produções mais recentes possuem personagens femininas mais fortes e participativas.

Independente de todas as polêmicas que pairam sobre seu estilo de filmagem e narrativa, ele é competente e tem uma visão bastante sólida do que quer quando o projeto lhe interessa e não há influências muito externas atrapalhando seu processo, e parece que é o que acontece aqui, já que o resultado surpreende para aqueles que esperavam alguma coisa meramente encomendada.

Já é possível sentir o ambiente boêmio e requebrado de Ritchie na trilha sonora funk e no minimalismo gráfico da abertura que conta brevemente, através de imagens, o fim da Segunda Guerra e o início da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética que, obviamente, foi o grande tema central de toda a série. Mas no filme essa vai ser, a priori, a razão para que Solo (Henry Cavil) e Illya (Armie Hammer) se conheçam de maneira nada convencional e uma explicação até bastante interessante para a origem da dupla (que nunca foi contada na série), já que tanto a agência norteamericana, quanto a russa, estão atrás de uma mesma pessoa, uma mulher chamada Gaby (Alicia Vikander), a única que pode levá-los ao paradeiro de seu pai que possui dados para a construção de uma bomba nuclear e que alguns nazistas estão atrás.

Assim que o filme começa de fato, a imagem com cores saturadas ajuda bastante na ambientação 60tista da história. Realmente parece que o filme tem uma certa idade, e esse cuidado do design artístico na pós produção faz toda a diferença. Mas assim como ele fez em Sherlock Holmes, no qual teve o mesmo cuidado na reprodução do século XIX, ele não abre mão do estilo de filmagem mais moderno e da narrativa ágil. Essa contradição que pode até dar certo anacronismo a tudo, acaba divertindo mais ainda porque tira o excesso de seriedade, e esse é um dos principais elementos de humor indiretos de Ritchie e que tanto funciona. A edição também é um elemento muito forte em seus filmes. O excesso de recortes, ao invés de atrapalhar, oferece dinamismo de forma ilustrativa, como uma novela gráfica em movimento. Ele sempre foi assim, e visualmente falando é muito interessante porque, como Tarantino, ele também tem uma linguagem pop muito presente, influenciada por diversas mídias criativas, a diferença é que sua mão é mais pesada e atual ao invés de ser nostálgica e tão referencial como Tarantino.

Por isso que, por muitas vezes, é impossível não compará-lo com Tarantino porque tudo é muito bem acabado, principalmente na sincronia entre imagem e trilha sonora, como na sequência em que Solo está numa sala de tortura. O sadismo do vilão juntamente com a ambientação sonora de Daniel Pemberton chega a causar o mesmo impacto da sequência entre Bridget e Landa, na já antológica cena em que ele descobre as verdadeiras intenções da atriz em Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009). Só que Ritchie embute o humor ao invés de um crescente assustador, quebrando a seriedade sem estragar o desenvolvimento. E é dessa forma que ele conduz tudo do início ao fim, em um grande e estiloso entretenimento sem nunca precisar apelar para o desnecessário.

As piadas são sempre muito pontuais e inteligentes, principalmente na rivalidade entre Solo e Illya, que tenta ser uma metáfora e ao mesmo tempo uma crítica saudável da relação entre EUA e Rússia daquele período, oferecendo momentos genuinamente engraçados como quando precisam cortar uma cerca para invadir uma área restrita. Mas nada chega a ser tão surreal e engraçado como a fuga dos dois, em que Solo literalmente come um lanche enquanto observa Illya resolvendo as coisas na sua forma sempre menos prática, e lógico, a trilha sonora ao fundo dando o tempero especial e até pseudo-romântico. Talvez uma piada interna que tenha surgido enquanto escreviam o roteiro, mas que funcionou e se transformou em algo impagável.

Foge da ação comum que encheu os cinemas esse ano, com um grande diferencial de ser também um filme de época, talvez para exatamente não se misturar com tantos filmes de espionagem com ação e pancadaria como a série Bourne, Missão Impossível ou até mesmo seu quase parente próximo, 007. Consegue ser diferente, um alívio no meio de tanta explosão e perseguição sem fundamento em histórias sem sentido. Lógico que, ainda sim, é um filme de ação com uma história que não pode ser séria demais, mas tem referências, tem metáforas, humor, ritmo, desenvolvimento, personagens carismáticos, um elenco agradável e o principal: roteiro enxuto.

Confesso que estava com certo receio por nada conhecer do material original, por medo de ser uma adaptação e por ter assistido filmes com Henry Cavil que realmente me deixaram constrangidos pela sua falta de talento. A surpresa foi boa, principalmente porque adoro ser surpreendido por algo que sempre espero o pior.

Por tantos elementos que dão certo, talvez este seja tecnicamente o melhor filme de Ritchie porque é ponderado e preciso, é o Ritchie mais maduro e certo do que quer, ao mesmo tempo que se diverte fazendo o que faz, porque é essa a impressão que se tem ao assistir. Uma pena ter ido mal de bilheteria, o que já podemos imaginar que não haverá continuações. Mas isso também não era uma grande surpresa, já que o público de cinema tem a tendência de torcer o nariz para adaptações de séries de televisão que um dia foram famosas, o que devemos combinar que, em sua grande maioria, são bastante ruins mesmo (para não dizer quase todas).

Mas seria interessante vê-los juntos novamente, pois é impressionante como Henry Cavil melhorou e sua química com Armie Hammer tenha funcionado, e Alicia Vikander tem um carisma bastante peculiar. É até estranho ver os três juntos, já que ela fica diminuta perto deles (que são muito altos), além da beleza dos dois tender a uma disputa de atenção, mas cada um deles tem seu espaço, com todas participações equilibradas, e nem há excesso de personagens, o que é ótimo. A mistura ficou bastante interessante e convincente, onde nenhum dos personagens consegue levar ninguém a sério, mas todos conseguem fazer tudo certo. E quando o filme acaba fica aquele gosto de querer uma continuação.

CONCLUSÃO...
Um diferencial nas recentes safras de filmes de ação e que consegue ser até um dos melhores do ano e também do diretor. Se de propósito ou não, Ritchie bebe demais de Tarantino dessa vez, mas longe de ser algo ruim, dessa forma conseguiu acertar fácil em um filme que poderia ter caído no ridículo como tantas outras adaptações para o cinema de seriados antigos que já foram famosos. Um filme que, mesmo sendo do diretor que é, consegue ser leve por conta do humor inteligente, e ao mesmo tempo não descaracteriza o tema, muito menos seu gênero.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

UM POUCO DE RUINDADE NÃO FAZ MAL A JULIA ROBERTS...

★★★★★★
Título: Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror)
Ano: 2012
Gênero: Comédia
Classificação: Livre
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Julia Roberts, Lily Collins e Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a Branca de Neve, e se você não conhece essa história, então é hora de diminuir as doses de Rivotril.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme não merece tanto o desmerecimento que vem recebendo. Ano passado vi filmes muito piores com direção, roteiro e atuações terríveis e o público enlouquecendo como se estivessem assistindo o melhor filme de suas vidas. Definitivamente não consigo entender o gosto das pessoas. Mas consigo entender porque o diretor Tarsem é tão menosprezado, talvez porque poucos entendam seus conceitos e suas visões artísticas.

Formado no Centro Universitário de Arte e Design de Pasadena, começou sua carreira dirigindo comerciais para a Nike, Coca-Cola e Pepsi (na memorável versão de We Will Rock You, aquele com Enrique Iglesias, Beyonce, Britney Spears e Pink), além de importantes vídeos musicais, incluindo o antológico Losing My Religion, do R.E.M. Sigo sua carreira desde essa época, a qual foi uma grande escola para o amadurecimento de sua atual identidade, visíveis nos filmes A Cela (The Cell, 2000), o pouco visto, menosprezado - e com um terrível título em português - Dublê de Anjo (The Fall, 2006), Imortais (Immortals, 2011) e o atual Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012). Ele afirmou em uma entrevista recente ao Hollywood Reporter que procurava projetos que pudessem dar liberdade para extravasar sua identidade mais do que ter um bom roteiro. O braço direito para toda essa sua extravagância foi a figurinista, designer, estilista e diretora artística japonesa Eiko Ishioka, que morreu no começo do ano. Eiko trabalhou com Tarsem em seus quatro filmes, além de também ter sido responsável por Drácula (Bram Stoker's Dracula, 1992). Segundo Tarsem, em uma matéria do MovieLine, não estava nos seus projetos filmar Espelho, Espelho Meu, já que era um filme visualmente orientado, o que ele não queria fazer no momento. Mas resolveu fazê-lo porque Eiko estava com câncer, ele sabia que ela tinha poucos meses de vida e que esta seria a última oportunidade que ele teria de trabalhar com ela, além dela ter expressado o intenso desejo de continuar trabalhando. E assim ele o fez.

O resultado é um filme agradável, direcionado especialmente para crianças, com humor infantil e cores fortes, contrastantes e lúdicas para chamar a atenção desse público em específico, bastante diferente dos trabalhos anteriores tanto de Eiko, quanto de Tarsem (com excessão de Dublê de Anjo). Por essa razão, muitos adultos poderão se sentir entediados ou considerar a história muito fraca. A narrativa é contada pelo ponto de vista da Rainha má, interpretada por Julia Roberts, que mesmo com todo aquele monte de pano ainda é possível notar a mesma requebrada de quadril clássica que lhe deu a fama (depois do sorriso), deixando clara a atuação despretenciosa e que, ao mesmo tempo, oferece os únicos diálogos mais adultos e sarcásticos de todo o filme. Lily Collins (filha do cantor Phill Collins), se encaixa perfeitamente no papel, tendo a doçura e a candidez que a personagem tem tanto nos contos quanto na versão animada da Disney. A história não segue as mesmas características do conto original, mas, depois da trilogia Shrek, nenhum conto de fadas tem mais a obrigação de ser levado a sério. O romance entre Branca de Neve e o Príncipe fica em segundo plano, e a química dos dois é bastante fraca. O Príncipe é representado muito mais como um paspalho do que como um herói, tendo sua alma aventureira e desbravadora substituída por cenas que chegam a ser até constrangedoras para um ator, mas vamos nos manter fiéis ao fato de que este é um filme infantil e tudo é possível.

Os sete anões, com participação e nomes bem diferentes da história original, são aqui apresentados como "bandidos", o que caiu melhor, pois são eles quem treinam e fazem de Branca de Neve tudo aquilo que o Príncipe, nessa história, não é. Embora um tanto diferente dos originais tanto dos irmãos Grimm, quanto da animação da Disney, as mudanças não atrapalham o desenvolvimento da história. O único problema é a falta de comprometimento do roteiro que apresenta as coisas de maneira vaga e em um vai e vem na Floresta Negra que acaba deixando a gente tonto, mas as crianças não prestam atenção nisso, sendo essa a razão do filme estar se saindo tão bem (já arrecadou mais de US$160 milhões em todo o mundo). O final vale até uma apresentação bollywoodiana, já que o diretor é indiano e, como é dito logo no começo do filme, "o reino era um lugar feliz, onde as pessoas cantavam e dançavam dia e noite..."

CONCLUSÃO...
Para quem for assistir para comparar com Branca de Neve e o Caçador (Snow White And The Huntsman, 2012), vai levar um belo tombo do cavalo, pois eles não apresentam nada em comum. Para os adultos que esperam algo exepcional, vão cair do cavalo da mesma forma. Apesar dos defeitos comuns nos filmes de Tarsem, o visual é magnífico e o último trabalho de Eiko Ishioka para ser apreciado em sua totalidade, que com absoluta certeza será muito mais apreciado pelo público infantil do que pelo adulto, que, ao menos no cinema, aparentou ter perdido a alma lúdica já há muito tempo.
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