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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"ESPECIAL" ENTRE ASPAS...

★★★★★★★☆
Título: Sense8
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ficção, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Lilly e Lana Wachowski (The Wachowskis)
Elenco: Miguel Angel Silvestre, Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Brian J. Smith, Tuppence Middleton, Max Riemelt, Toby Onwumere
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os Sense8 escaparam temporariamente de Wispers, e agora terão um tempo para respirarem aliviados e, talvez, curtirem o Natal, cada um a sua maneira e todos curtindo a maneira de cada um.

O QUE TENHO A DIZER...
Logo depois que a primeira temporada de Sense8 foi lançada, fiquei um tanto perplexo ao saber que o sucesso da série não era esperado e, por isso, uma segunda temporada não estava nos planos. Talvez isso tenha acontecido pela sequência de fracassos das irmãs Wachowski nos cinemas desde o fim da trilogia Matrix, não emplacando um sucesso sequer desde então, seja em crítica ou bilheteria.

Por diversos fatores logísticos e de agenda, a segunda temporada do hit de 2015 não pôde ser produzida em tempo para o lançamento ainda em 2016, o que causou a frustração de todos que aguardavam ansiosamente pela reunião dos 8 personagens contectados telepaticamente.

Para satisfazer os fãs, um "especial de Natal" bem recheado foi lançado no dia 23 de dezembro. Bem recheado por conta dos seus quase 120 minutos de duração, tempo suficiente para deixar qualquer um satisfeito. Claro que a impressão de ser apenas um "tapa buraco" não deixa de ser latente, pois a verdade é que este "tal" episódio especial nada mais é do que os dois primeiros episódios da nova temporada ainda não lançada, adiantados para amenizar a impaciência da audiência. De natalino, se for prestar bastante atenção, o episódio nada tem além de uma sequência de uns 10 minutos com o elenco fazendo cara de esperança na vinheta da Globo e cantando errado no meio da multidão. Tanto é assim que, justamente por isso, a segunda temporada, a ser lançada em Maio (ainda?), terá apenas 10 episódios, e não 12, como esperado.

É puro marketing. Foi a forma do Netflix garantir que seus assinantes não se esqueçam que Sense8 ainda existe. Isso se chama falta de planejamento. É o mesmo que ocorreu com Jessica Jones, que já era pra ter tido sua segunda temporada lançada neste segundo semestre, mas foi adiada para 2017 devido a atrasos.

Idependente disso, a série reestreou chamando atenção pela substituição de Aml Ameen por Toby Onwumere para viver o queniano Capheus. Isso ocorreu por desentendimentos entre Aml e a criadora Lana Wachowski. No mais, nada é claro. Supõe-se que seja por desavenças a respeito de cenas sexuais ou até mesmo declarações preconceituosas do ator, mas isso são apenas boatos. Não é à toa que a troca rende até uma piadinha interna no especial quando o amigo do personagem pergunta: "Vc parece estar diferente?".

O episódio da um grande salto de tempo, com Will (Brian J. Smith) e Riley (Tuppence Middleton) escondidos do grande vilão Wispers (Terrence Mann). O casal agora descobriu que Will não precisa ficar inconsciente o tempo todo, desde que ele não veja ou ouça coisas que possam levar o vilão a perceber o ambiente ao redor e assim descobrir seu paradeiro. Só me pergunto como Will ainda não se viciou em morfina (ou seja lá o que ele use) depois de tantas doses. Mas enfim, deixemos isso pros roteiristas...

No mais tudo continua onde a primeira temporada parou, sendo um bom episódio. Tudo muito bem dosado entre a ação, comédia, romance, drama e até um repeteco da "orgia" da temporada passada. Tem tudo para agradar aqueles que estavam na espera, além da sensação de ter que esperar novamente até a reestréia oficial. A breguice (ou cafonice) de Lana e Lilly Wachowski aparece em alguns momentos ou outros, mas nada que estrague o produto como é corriqueiro acontecer em seus longas metragens.

Mas o drama aqui se destaca, principalmente na relação de Lito (Miguel Silvestre) com as pessoas a sua volta depois de aceitar sua sexualidade. A pressão social que ele sente, o assédio que começa a sofrer de sua equipe de trabalho e até mesmo de onde mora, e o conflito familiar (bastante recompensador). Miguel faz um excelente trabalho, e não é à toa que suas cenas acabam sendo as mais emocionantes.

Sun Bak (Doona Bae) continua presa. Literalmente. Presa em uma cela e presa no roteiro. Parece que eles não sabem como tirá-la de lá e, por essa razão, ela virou uma personagem muleta, só aparecendo quando o próprio roteiro não sabe salvar outros personagens do perigo. Um desperdício quando ela é uma das mais interessantes e subutilizadas da série. O mesmo sobre Daryl Hannah. Qualquer atriz poderia ter feito o que ela fez na primeira temporada: morrer logo no primeiro episódio e aparecer esporadicamente como um espectro. E nesse episódio ela retorna no mesmo papel inútil e subaproveitado. Deve ser um saco ter que aparecer no estúdio para usar uma roupinha suja e gravar por apenas 3 horas. Ela realmente deve estar precisando muito do dinheiro.

No mais, o episódio é o mesmo Sense8 que foi na primeira temporada. Com uma comemoraçãozinha forçada de Natal aqui e alí por uns 10 minutos, para logo depois todo esse espírito natalino voar pelos ares em uma guerra bairrista que se inicia em Berlim entre as facções existentes para dominar o legado abandonado com a morte do tio de Wolfgang (Max Riemelt), o que provavelmente será uma das tramas principais da nova temporada.

CONCLUSÃO...
Matará a saudade de quem esperava e preparará todo mundo para o lançamento da segunda temporada completa em Maio.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O TIRO CERTEIRO DE FORD...

★★★★★★★★☆
Título: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Romance
Classificação: 16 anos
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma artista plástica recebe um estranho presente, o rascunho final do livro de um ex-marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ambição nem sempre é ruim. É o que podemos pensar quando pegamos Tom Ford como exemplo, o mundialmente reconhecido estilista que, como hobby, se tornou diretor de cinema.

Quando Direito de Amar (A Single Man, 2009) foi lançado, parecia que a crítica não queria afirmar que Ford tinha feito um dos melhores filmes do ano. O preconceito em Hollywood dificulta artistas de outros circuitos a se consagrarem no cinema, e com ele não teria sido diferente. A subestimação foi tão grande que a adaptação da obra homônima de Christopher Isherwood fez Ford ser esnobado sem qualquer cerimônia pela maioria das grandes premiações. Era difícil admitir que um homem que respirava moda podia, de repente, ter uma estréia cinematográfica tão consistente. Collin Firth foi consagrado como ator pelo filme, saindo dos teatros londrinos para ganhar proeminência no cinema norteamericano. Mas Ford sequer respirou tanta consagração assim.

Segundo ele, a intenção de ter dirigido, escrito e produzido o seu filme de estréia foram mais pessoais do que qualquer outra coisa. Tanto que Animais Noturnos é seu grande retorno depois de sete anos de total ausência. É como se ele estivesse esperando por um projeto igualmente apaixonante, algo que o tirasse da zona de conforto e o fizesse pensar que apenas ele seria capaz de fazê-lo como imagina.

É esse o sentimento que se tem ao assistir seu novo filme, baseado na obra Tony And Susan (1993), de Austin Wright, pois o caráter pessoal é tão grande que Ford também assina o roteiro e a produção.

Aqui ele segue basicamente algumas das mesmas características de seu primeiro filme. A ambientação neo-noir, a delicadeza na condução da história, a sutileza no desenvolvimento das tramas e subtramas e o glamour visual. Mas ao contrário do que ele demonstra na moda, aqui o glamour é apático, frio e distante. Fútil. Enquanto a tal delicadeza e sutileza são utilizadas de maneira brilhante na finalidade de intensificar o suspense e o teor sentimental de uma história que, ao longo dos seus 116 minutos, torna-se um misto de sentimentos em pura emplosão, demonstradas da maneira mais trágica possível à protagonista através das palavras que lê de um livro, e que são traduzidas em imagens ao espectador de maneira, por vezes, emocionalmente devastadoras.

A pretensão de Ford exala como perfume, mas assim como foi ela a resposável pelo seu sucesso ao renovar a Gucci e catapultá-a às trend marks da alta costura na década de 90, é esse seu excesso de confiança que faz tudo funcionar com tanta certeza e pontualidade em um roteiro que varia entre três narrativas bastanta distintas e que aos poucos se afunilam a uma única condução.

O filme começa com a protagonista recebendo um pacote no qual corta o dedo no papel ao tentar desembrulhá-lo, algo que, de certa forma, já a deixa apreensiva. O pacote revela-se um rascunho final do livro de Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), seu ex-marido, o qual conheceu ainda na faculdade, época em que os dois se importavam e sonhavam com o futuro: ela em ser uma reconhecida artista plástica, e ele como um grande escritor. A relação terminou porque Susan (Amy Adams) a sabotou. Além de acreditar que ela nunca sairia do mesmo lugar como artista, e Edward nunca iria evoluir como escritor, no meio do processo uma tragédia acontece, além de surgir Hutton Morrow (Army Hammer), por quem, iludida, se apaixona, e é casada desde então.

Susan alcançou seu objetivo. Artista reconhecida, que mora em uma mansão exagerada de puro concreto e vidro, e Hutton não tem mais o menor pudor em esconder que a trai. Hoje ela se dedica a coisas ínfimas, como cuidar de sua galeria e se relacionar com amigos caricatos da alta sociedade, no qual um deles até a aconselha a aproveitar melhor o mundo absurdo no qual vivem, oportunidade para poucos. E no tédio das noites de insônia percebe como ela se distanciou dela mesma ao longo dos anos. É quando resolve dar atenção ao presente recebido de Edward, o qual a impressiona logo no começo pela sua violência bem narrada, em uma sensação entre continuar lendo ou abandoná-lo. Ler a obra é seu primeiro contato com seu primeiro grande amor em anos, engatilhando lembranças que serão cruciais para o espectador compreender qual é a linha que costura essas narrativas distintas e se o livro tem algo a mais a contar do que as próprias linhas dizem.

É aí que Ford já começa o tiro certeiro, porque ao misturar a narrativa do passado com a narrativa cruel e violenta do livro, ele já nos sugere que existe alguma conexão entre eles. Seria o livro uma velada ameaça, uma simbólica história de vingança ou uma metáfora de alguma realidade? E da mesma forma como Susan se intriga com isso, intrigado também fica o espectador. O fato é que, a cada nova página virada, a nostalgia dos tempos com Edwards se engrandece, e quanto mais Susan se interessa pela história, mais o protagonista do livro sofre, do qual o sange escorre pelas mãos de Susan sem que ela perceba.

Esse paradoxo que Ford cria entre a ficção e o momento presente consegue manter um equilíbrio narrativo constante, sem ápices ou quedas bruscas, usando os flash-backs como a querer pré-justificar a conclusão, encontrando um platô cujo nível de suspense é mantido até o fim. E mesmo que o espectador não pareça tão interessado, ele vai se sentir preso àquilo que ele não sabe exatamente o que é, no qual, sem dúvida, o fará ficar pensando sobre aquilo quando os créditos finais aparecerem.

É um filme cheio de metáforas sobre Edward e Susan, cujo clima soturno e algumas referências até um pouco óbvias a clássicos como os de Hitchcock, principalmente pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que tenta remeter à sonoridade de Bernard Herman, podem não parecer tão interessantes quando analisados separadamente, mas juntos se tornam um conjunto admirável e belo em sua frieza e perversidade.

Assim como no seu filme anterior, o tema volta a ser o lado trágico do amor e os arrependimentos que nos assombram. Mas aqui ele vai mais fundo, torcendo tudo como um pano sujo depois da casa limpa, e em resumo o filme nada mais é do que uma história de vingança psicológica, vencida a partir do momento que o pacote é aberto, pois é ele que reacende sentimentos e vontades de Susan, a isca no anzol de Edward.

As diferentes texturas de imagens e camadas novamente cumprem suas funções como em Direito de Amar, pois são elas que diferenciarão os tempos e narrativas. E dessa forma bastante concisa o filme de Ford é um dos melhores e mais perfeccionistas do ano. Esse excesso de perfeição pode parecer enjoativo, mas é o que caracteriza não apenas o estilo do diretor, mas também o gênero que ele tão bem escolheu trabalhar.

O público não parece ter compreendido muito bem a subejtividade e as associações intrinsecas entre as três narrativas, parece não ter compreendido muito as entrelinhas dos objetos, mas o resultado é brilhante, e seu fim simplório, se bem interpretado, deixará um buraco no peito, o mesmo deixado no peito de Edward.

CONCLUSÃO...
É um thriller psicológico e romântico em sua mais expressiva forma, um misto de sensações e emoções, uma mistura de épocas e visuais, uma experiência única em anos. Um dos melhores filmes de 2016 que reafirma Ford não apenas como um grande diretor, mas também como um roteirista perfeccionista que consegue tirar o melhor que a história pode oferecer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

REVIVER OU MORRER? EIS A QUESTÃO...

★★★★★★★☆
Título: The OA
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Zal Batmanglij
Elenco: Brit Marling, Jason Isaacs, Scott Wilson, Alice Krige, Patrick Gibson, Phyllis Smith, Brandon Perea, Brendan Meyer, Ian Alexander
País: Estados Unidos
Duração: ~60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma garota que, depois de sete anos, reaparece com estranhas capacidades após passar por uma experiência de vida pós morte.

O QUE TENHO A DIZER...
De tempos em tempos um seriado esquisito aparece. Pode até não ser tão bem realizado, mas se for intrigante, que alimente discussões e controversas, a fórmula cult está pronta. É o que acontece em The OA, a nova empreitada da dupla Zal Batmanglij e Brit Marlin.

Batmanglij e Marling são amigos de longa data, que aos poucos tem dado uma cara diferente no cinema independente norteamericano, e agora é vez de fazerem o mesmo na TV e dispositivos multimídia. The OA é a terceira parceria de ambos como idealizadores, roteiristas e produtores. Batmanglij também continua como diretor, e Marling, como atriz principal. A diferença é que dessa vez o produto agora é direcionado a uma massa na qual os dois nunca atingiram antes, e mesmo que a liberdade criativa seja maior no Netflix, não havendo exigências tão grandes como seria em uma emissora de TV, nota-se que a pressão ainda está lá por parte do público, para o bom ou para o ruim.

O projeto, em andamento desde 2015 e impulsionado pela Plan B, produtora de Brad Pitt, é mais ousado que nos dois longas anteriores da dupla. Com apenas oito episódios que variam em duração, é impossível não fazer algumas assimilações ora com Sense8 (2015), ora com Stranger Things (2016), justamente por ter um grupo de pessoas interligadas sem qualquer semelhança uns com os outros, lidando com situações aparentemente sobrenaturais que envolvem brandas discussões sobre a Física Quântica e dimensões paralelas.

O conteúdo aqui é mais adulto, menos fantástico, fantasioso ou pop. É algo mais científico, mais dramático, com uma abordagem fraternal que igualmente funciona na idéia fundamental de que não estamos sozinhos no espaço, não o nosso lado invisível, ou seja, aquele que nunca mostramos a ninguém. E espaço, para a série, significa o lugar onde sua consciência está no momento. Também há um fundo romântico bastante sutil e diferente, e que acaba sendo o motivo central de tudo, mas em nenhum momento se sobrepõe ou incomoda as demais subtramas, o que evita o melodrama, o sentimentalismo banal e, consequentemente, o abuso do cliché. Tanto que só próximo ao fim que percebemos que o objetivo principal da protagonista é esse, e isso nem é spoiler porque é evidente desde o princípio. É bem menos comercial que as outras duas produções já citadas da casa, é algo diferenciado, um tanto alternativo e que busca um público diferente daquele comum que assina o serviço. Também pode ser visto como uma extensão, ou uma idéia melhor desenvolvida do longa Linha Mortal (Flatliners, 1990), um cult de Joel Schumacher, já que a experiência de vida pós morte é outro tema principal.

Para quem já conhece os dois filmes anteriores de Marling e Batmanglij, não irá se surpreender com essa fixação que ambos possuem pela religiosidade, pelo sobrenatural e o exotérico. Sim, um misto entre os três principais eixos espirituais da sociedade, lidando com ícones e mitos de maneira mista, como se tudo se interligasse e formasse uma coisa só. Para eles essa distinção não existe, e para tentar rebater tudo isso, está a ciência para se opor constantemente às tais teorias que eles desenvolvem, outra coisa na qual é evidente o fascínio. Funciona? Sim. Porque da mesma forma como em A Seita Misteriosa (The Sound Of My Voice, 2011), ou até mesmo em O Sistema (The East, 2013) e A Outra Terra (Another Earth, 2011), a narrativa criada a princípio parece convincente para um dos lados, mas depois se torna dúbia, deixando a favor do espectador a decisão de acreditar ou não naquilo que a história propõe.

Para quem não conhece o estilo da dupla, ou sequer assistiu um de seus dois filmes, The OA é uma grande oportunidade para conhecer. Nele estão absolutamente todos os elementos tanto autorais quanto técnicos de suas produções anteriores. Há uma mistura bem feita daquilo que já fizeram antes, sejam em projetos solos ou em parceria, como que ambos quisessem agora promover ao grande público tudo o que fizeram até hoje, usando eles mesmos como referências principais em seus próprios trabalhos. Não é à toa que Prairie (Brit Marling) é muito semelhante a Maggie, sua outra personagem em A Seita, já que ambas afirmam ser entidades que estão no plano terrestre por algum grande motivo, fora outros detalhes que não valem a pena serem ditos para não estragar algumas supresas que The OA reserva.

É um suspense dramático em sua essência, abraçando tantos estilos que chega ser difícil categorizá-lo de maneira tão específica. O suspense surge pela forma narrativa em primeira pessoa, já que boa parte dos episódios é a protagonista contando sua história aos demais, como uma líder de uma nova religião. A duração de sua narrativa é basicamente o tempo de duração de cada capítulo, já que Prairie é obrigada a viver sob certas restrições familiares.

O roteiro pode pecar por não desenvolver muito bem certas motivações ou interesses que fazem os personagens secundários se interessarem tanto pela estapafúrdia história da protatonista (pois é assim que se parece de início), mas por outro lado essa estrutura deu uma consistência nos personagens sem a necessidade de muita informação, economizando a paciência do espectador nesse sentido. O que é mostrado de cada um já é o necessário para justificar a afinidade de um grupo tão heterogêneo, mas no fundo há uma falta, uma vontade de vê-los realizarem muito mais do que serem meros objetos passivos na história. Mesmo assim o companheirismo e a confiança entre eles cresce nas reuniões, e se desenvolve entre choques e conflitos. No meio de tantas diferenças, é a incompreensão social e a solidão de cada um que forma o elo que os unem, sendo dessa inusitada união que a protagonista se fortalece. Essa honestidade nas diferentes personalidades é resultado do elenco formado por atores pouco conhecidos, mas que convence e emociona, como é o caso de Betty (Phillis Smith), personagem que a princípio pouco tem destaque, mas no fim se transforma em uma das mais emocionantes e memoráveis.

A mensagem (ou moral) primordial da série também tem seus momentos de glória sem aquela sensação de algo banalizado. A maneira como a protagonista socialmente é julgada, ou a forma como seus pais adotivos reagem ao seu comportamento, é entristecedor e sufocante. A inabilidade de compreensão da sociedade, o falso julgamento, a exploração da imagem, a falta de aproximação, a maldade e ambição humana são os grandes vilões. São eles que Prairie quer combater para transformar as coisas à sua volta. Um exemplo disso é quando Prairie conversa com Betty sobre a expulsão de Steve (Patrick Gibson) da escola, afirmando que expulsá-lo é negligenciar a responsabilidade dos professores de ensiná-lo. É por isso que ela precisa de outros, porque grandes modificações necessitam de pessoas dispostas a fazê-las. Não importa se esteja em cativeiro ou fora dele, o que precisamos é dos três C's: confiança, companheirismo e cumplicidade.

Se tem uma coisa intrigante nesse seriado, é que ele pode não oferecer nada do que habitualmente se espera de uma ficção científica, e nem oferecer o drama ou o suspense cliché que poderia; o público também pode não se sentir motivado por ele, ou sequer empolgado a princípio. Mas por alguma razão ele cativa, e mesmo com primeiros episódios pouco interessantes ou sem grandes ganchos finais que nos faça querer devorá-lo em um único dia, ainda há aquela sensação de querermos ser convencidos de alguma coisa, e continuar até chegar ao fim não se torna algo massacrante, pelo contrário, os eventos se engrandecem, uma história de amor original toma forma e o final da temporada é emocionante quando impulsionado pelo trabalho do coreógrafo Ryan Heffington (dos atuais vídeos da cantora Sia), um trabalho essencial para a mitologia desenvolvida na série. A princípio os movimentos realizados podem soar um pouco esquisitos (ou cafonas), mas depois emerge como algo extremamente expressivo, técnico e pontual, que só funcionará quando atingida a perfeição e homogeneidade, independente das afinidades de quem o realiza.

CONCLUSÃO...
The OA pode não ser um dos melhores seriados do ano no Netflix, mas é intrigante mesmo assim. Com narrativa lenta, desenvolvimento comedido e suspense gradual, tenta fugir de clichés e no fim não se mostrar tão inovador ou diferente quanto parecia, mas se diferencia ao fugir de certa convencionalidade, e dar oportunidade aos seus criadores de extenderem um mundo e um estilo próprio para agradar um público que busca fugir do comum. E por que não, dizer que acaba sendo algo bastante motivador, com uma bela mensagem a ser compartilhada.

domingo, 4 de dezembro de 2016

NEM SEMPRE TEMOS CONSERTO...

★★★★★★★★★☆
Título: Krisha
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Trey Edward Shults
Elenco: Krisha Fairchild, Robyn Fairchild, Alex Dobrenko
País: Estados Unidos
Duração: 83 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de 10 anos sem encontrar com sua família, Krisha volta a reencontrá-los no Dia de Ação de Graças, mas seu passado e traumas pessoais poderão arruinar as festividades.

O QUE TENHO A DIZER...
Com tantas qualidades e particularidades, Krisha é de longe um dos melhores filmes lançados esse ano. Produzido em 2015, só foi ter seu lançamento mundial no festival South By Southwest, em Austin/TX. Também foi apresentado internacionalmente em Cannes, o que levou o diretor a concorrer a dois prêmios: ao Câmera de Ouro e ao Grande Prêmio da Semana pela Crítica, ambos relacionados à melhor estréia de um diretor.

Dirigido, escrito, produzido, editado e brevemente atuado pelo norteamericano Trey Edward Shults, o longa veio de um processo criativo comum entre diretores estreantes, independentes e autorais, nascendo a partir de um curta metragem de mesmo nome produzido por ele em 2014. Além do fato do elenco ser praticamente o mesmo, as maiores curiosidades sobre o longa é que todos os atores envolvidos são familiares e amigos (por isso os nomes são os mesmos da vida real): quem interpreta a protagonista é sua tia (Krisha Fairchild), quem faz a irmã da protagonista é sua mãe (Robyn Fairchild) e a mãe da protagonista é sua avó (Billie Fairchild). Os demais são amigos pessoais, e apenas dois atores sem qualquer relação com o diretor foram contratados. As filmagens ocorreram na casa de seus pais, e durou apenas nove dias, com orçamento arrecadado pelo Kickstarter, uma fundação online de levantamento de fundos para desenvolvimento de projetos.

É importante conhecer essa história por trás das câmeras porque é ela quem complementa a atmosfera extremamente intimista que o filme proporciona, cuja interação entre os personagens e a naturalidade com que se desenvolvem frente às câmeras chegue a um nível de realismo sufocante, inclusive pela limitação dos cenários, que agregam mais ainda uns aos outros em um caos organizado e conflitante. Também é a prova daquilo que sempre repito por aqui, de que grandes produções não necessitam de grandes orçamentos, apenas de grandes idéias e sólida concepção.

O filme começa focado em Krisha, com um ruído sonoro ao fundo que cresce em sincronia com os sentimentos perturbadores que se afloram. A fisionomia carregada da protagonista surpreende, e a partir daí sabemos que algo de errado acontece com ela, até tudo ser abruptamente interrompido. Em seguida ela chega em um bairro, e em um grande plano sequência vemos ela caminhar de casa em casa, blasfemando arrependida por estar lá, tensa e apreensiva pela receptividade que poderá ter de familiares que reencontrará depois de 10 anos de ausência para juntos comemorarem o Dia de Ação de Graças.

A complexidade de Krisha não é fácil de ser descrita, já que a todo momento é construída e desconstruída por Shults como um quebra-cabeças. Tragicamente ela consegue ser a protagonista e a antagonista de sua própria história, um tipo único que muito raramente vemos no cinema. O excesso de planos sequência e a vagarosidade com que as cenas são conduzidas é angustiante, de um suspense e apreensão nada saudáveis, como no momento em que é acompanhada andando em círculos pela cozinha, em uma insanidade dispersa, com o mesmo ruído sonoro crescente do início do filme. O comportamento distímico de Krisha chega a ser, por vezes, assustador como um filme de horror: é comedida em meio aos familiares, se esforçando para se manter em um padrão de normalidade que eles esperam, mas por trás das paredes está sempre à espreita, alimentando sua insegurança e desconfiança pelos outros de maneira ora esquizofrênica, ora psicótica. E assim a história é construída numa progressão desastrosa, e como todo o processo é muito explícito, acaba sendo previsível, mas um tipo de previsibilidade diferente, que nos prepara para o pior, a um ápice dramático denso e que desmancha como uma pedra de gelo em uma frigideira.

Não há como dexiar de relacionar o filme a dramas familiares europeus como o sueco/dinamarquês Festa de Família (Festen, 1998), ou até mesmo na construção volátil do norteamericano O Casamento de Raquel (Rachel Getting Married, 2008), e em nenhum filme o símbolo maior do Dia de Ação de Graças foi tão bem utilizado para demonstrar que um pequeno acidente pode ser a gota d'agua de uma situação insustentável, o estopim da desgraça, a total antítese de sua simbologia, como acontece aqui.

Shults nunca nos revela pequenas coisas que nos deixam curiosos por todo o filme, ele apenas nos revela o necessário para compreendermos aquele presente e aquele momento. Se o que é revelado já constrói o pior cenário possível, não fica difícil imaginar como foi tudo antes disso e em como o passado pode ter sido tão destrutivo para chegar naquele ponto. Talvez esse flashback imaginário nem seja necessário, pois o fim é certo. Mas acima de tudo, ele também nos dá ferramenta para nos identificarmos com um dos lados, seja em nos sensibilizar com a condição de Krisha (ou até nos identificar com ela), seja em nos solidarizar com sua família e sua persistência para finalmente chegarem ao ponto da completa negação da ajuda.

É filme para poucos, por conta de sua narrativa lenta e meticulosa em sua construção, o que faz os 83 minutos parecerem o dobro. Também difícil, já que, mais que um drama, é um suspense dramático sobre os conflitos da pisiquê humana. Não é à toa que um dos cartazes promocionais do filme remete a uma ilustração de Rorschach, ou seja, a ambiguidade da protagonista, ou a sua tendência em projetar características negativas de sua personalidade aos outros, ou às coisas. Sendo aí que a protagonista brilha, pois Krisha Fairchild sem dúvida tem uma atuação memorável e impressionante, de uma humanidade perturbada excruciante.

Além da narrativa, o filme é tecnicamente belíssimo, desde a já comentada forma do diretor em conduzir muitas das cenas sem cortes e dos planos abertos que dão oportunidade aos atores em explorar o ambiente e interagir abertamente entre si, transformando o expectador em um observador presente, como também na fotografia em enquadramentos sempre muito simétricos e sinestésicos por conta de uma edição simples e pontual: aquilo que se vê, é aquilo que se sente. Sem floreios e sem dispersões, tudo muito objetivo como a visão do espectador.

CONCLUSÃO...
Uma grande estréia de um diretor promissor, e um grande filme com grandes atuações. Uma injustiça o filme estar um tanto esquecido na temporada de premiações, e quando lembrado, apenas o diretor aparece entre os indicados quando não é apenas ele uma das grandes qualidades e revelações do longa. Venceu o Gotham Awards na categoria de Melhor Diretor estreante. Mais que merecido, foi necessário.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

GRANDE COMO SPIELBERG PODE SER...

★★★★★★★☆☆
Título: O Bom Gigante Amigo (The BFG)
Ano: 2016
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Rebecca Hall
País: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota, ao avistar um gigante, é raptada por ele de seu orfanado para que ele não corra o risco do segredo de sua espécie ainda existir ser revelado. Ele a leva para onde mora, no País dos Gigantes, onde uma genuína amizade será construída, da qual ambos ficarão fortalecidos para enfrentar suas dificuldades.

O QUE TENHO A DIZER...
Assistir O Bom Gigante Amigo é chegar à conclusão de que nenhum diretor seria melhor do que Spielberg para realizá-lo, e quando ele assina a produção através de sua tão amada produtora Amblin Entertainment, acredite, é um projeto mais que pessoal.

Esse sentimento é tido por vários motivos. O principal deles é o diretor voltar a pisar em um terreno infantil no qual se distanciou desde de E.T. (1982). Claro que a fantasia nunca foi abandonada nesses 33 anos que se passaram, mas nenhuma das poucas produções desse gênero realizadas por ele, até mesmo Tintim (2011), trouxe a mesma ingenuidade ou delicadeza metafórica e inspiradora como foi com o extraterrestre, que felizmente ele repete aqui. 

Adaptado do livro homônimo de Roald Dahl, publicado em 1982, o projeto estava no papel desde 1991, mas só em 2014 foi finalmente parar nas mãos de Spielberg, que afirmou sempre ter tido vontade de dirigí-lo, pois o autor foi genial ao empoderar as crianças, sendo ousado ao introduzir uma combinação entre o obscuro e o lúdico de tal forma que apenas a Disney havia feito em seus primeiros clássicos, capaz de assustar e ser reconfortante ao mesmo tempo, oferecendo uma moral que é única a todos. E claro, não é à toa que a Disney co-produziu e distribuiu o longa.

O que Spielberg humildemente esqueceu é que seu clássico anterior se tornou uma referência justamente por ter as mesmas características, e é exatamente aí que essa linda produção igualmente se destaca. A outra razão óbvia é que o roteiro também foi escrito por Melissa Mathison, a mesma de E.T. e do maravilhoso A Chave Mágica (The Indian And The Cupboard, 1995), de Frank Oz. Melissa acabou falecendo no final de 2015 enquanto O Bom Gigante estava em produção, sendo a ela que o filme é dedicado nos créditos finais.

Portanto, não é à toa que o diretor utiliza a mesma estética narrativa de E.T. em alguns momentos, e o mesmo fez Melissa com o roteiro, levando tanto os personagens quanto os espectadores a uma inicial apreensão sobre o que irá acontecer, e se o gigante envelhecido, de silhueta envergada, seja tudo aquilo de ruim que habita a fantasia das pessoas que cresceram ouvindo os mais diferentes contos e lendas envolvendo figuras desconhecidas como ele, tanto quanto foi com o extraterrestre de olhos imensos e de corpo atrofiado, e por conta disso parecerem tão atemorizantes em um primeiro contato. São nesses momentos que sua delicadeza se destaca da mesma forma como ele descreveu a obra original de Dahl, porque ele consegue transformar até mesmo o apavorante em algo bonito e carismático, como a ensinar que o medo é apenas uma hipérbole da nossa fértil imaginação e que só cabe a nós dominá-lo.

A história volta a repetir a velha moral de que nada deve ser julgado por aquilo que aparenta ser, de que todos nós somos especiais de alguma forma e que, embora únicos, nunca estamos sozinhos, sendo essas as características que nos aproximam de semelhantes e os vínculos de amizade e amor fraternal nascem. Assim é a forma como a relação entre BFG e Sophie (Ruby Barnhill) ocorre. Simples, porém inspiradora e sólida o suficiente para sustentar todo o filme.

Ao mesmo tempo que a estética de BFG seja ameaçadora em um primeiro momento, sua expressividade serena (que muito se assemelha a um Spielberg sem barba), o sorriso singelo e espontâneo de canto de boca (que muito lembra Harrison Ford), além do aspecto frágil junto a um comportamento ora ágil, ora desastrado, é o que embute o humor e a leveza que igualmente se expressam no seu linguajar confuso, o qual infelizmente se perde na tradução/dublagem em português. Mas é quando sua personalidade se desenvolve e seu arco dramático toma forma que finalmente o conhecemos e nos sensibilizamos com seu drama comum de viver uma vida solitária e complexada, já que é o menor e mais fraco dos gigantes, sendo constantemente assediado e humilhado pelos demais, taxado como uma vergonha de sua espécie. Olha-lo novamente depois disso é compreender sua postura diminuída, de andar tímido e pés interiorizados. É quando ele se torna um personagem lindo por essência, é quando queremos ser seu amigo por compaixão.

Seus irmãos gigantes são liderados pelo maior e mais forte deles (mas também o mais ignorante). Fleshlumpeater carrega em si uma revolta que alimenta seu ódio por humanos e que o fez desistir de suas funções de ente responsável pelo equilíbrio da natureza e das coisas, função que BFG ainda exerce incansavelmente há séculos, capturando sonhos e distribuindo-os pelas sombras na calada da noite, evitando ser visto na cidade pelas mais variadas e mirabolantes camuflagens possíveis, numa destreza impecável e até bastante engraçada.

Visualmente a produção é impecável, principalmente o design de produção assinado por Janusz Kaminski, que há 26 anos trabalha com Spielberg. Ele abusa de cores quentes e estéticas um tanto circenses no cenário para compensar a ambientação soturna em que boa parte da história se passa. É claro que a sensação plástica ainda existe nos cenários e animações, mas a expressividade dos personagens digitais, principalmente nos milimétricos movimentos faciais e na sincronia labial, é de longe a melhor já feita, conseguindo superar até mesmo a captura de movimentos de Smeagol/Gollum para a trilogia O Senhor dos Anéis. Não seria de se assustar se BFG concorresse ao Oscar (se isso fosse possível), mesmo sendo um personagem animado, pois ele é tão convincente quanto consegue ser Ruby Barnhill, que por sua vez é tão carismática quanto Drew Barrymore em E.T.

Um dos poucos defeitos do filme é justamente não deixar claro na história os verdadeiros motivos pelos demais gigantes terem se tornado tudo aquilo que a lenda urbana agora os descreve - que é por onde a narrativa do filme tem início - ficando difícil compreender porque existe tanta diferença entre BFG e os outros, mesmo que Fleshlumpeater afirme em um determinado momento ter desistido dos humanos, deixando subentendido que isso aconteceu por algum trauma passado, ou pelo isolamento no qual foram obrigados a se submeter em alguma época por, talvez, serem considerados aberrações. Sua reta final também deixa um pouco a desejar, levando os personagens a um encontro inusitado com uma figura inusitada em um lugar mais inusitado ainda, talvez para tentar mostrar às crianças e adultos que tudo é possível quando existe honestidade e boas intenções, mas isso leva a uma intervenção na conclusão na história que poderia ter sido menos autoritária como foi e que acaba ferindo toda a moral construída desde o princípio, como uma ralada no joelho.

De qualquer forma, não dá para ignorar que muitos dos elementos do clássico de ficção de Spielberg estejam novamente presentes aqui, não como referências, mas como resgate de uma narrativa fantasiosa, que motiva o público infantil e o transporta para o lado mais profundo de seu imaginário sem subestimá-lo ou diminuí-lo em momento algum. Pelo contrário, o filme empodera e engrandece este público, além de mostrar aos adultos que a ilusão e a fantasia ainda existem independente da idade, só é necessário dar asas a isso.

A narrativa, como muito foi citada pela crítica, é lenta, mas caprichosa, fluida (até chegar na tal infeliz reta final), um filme para ser visto através dos olhos das crianças, caso contrário ele não terá o mesmo efeito. Fazendo isso, no fim todos serão imersos dentro de uma mesma atmosfera onde cresce uma história comovente, com personagens carismáticos e cativantes, uma fotografia lúdica de brilhar os olhos e uma trilha sonora de John Williams de arrancar lágrimas de satisfação por conta da pefeita sinergia e sincronia com que Spielberg desenvolve tudo numa paixão pessoal que não se via desde As Aventuras de Tintim (2011) ou Lincoln (2012), fazendo aquilo que parecia complexo se tornar simples aos olhos e aos sentimentos.

CONCLUSÃO...
Infelizmente foi muito ignorado, custando US$140 milhões e arrecadando um pouco mais de US$170 milhões no mundo, estatisticamente considerado um fracasso. Pouco do público conseguiu se imergir na história como Spielberg propõe, talvez pelo fato desse público estar desacostumado com uma visão mais ingênua da qual o cinema se esqueceu em uma época onde tudo é irônico, tudo é sarcático e dúbio. Tecnicamente impecável, além de ter uma sensibilidade típica de um Spielberg que agora consegue aflorar emoções e sentimentos mistos sem ser apelativo, como já foi no passado.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

FRUTOS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Verão Em L.A. (August)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Eldar Rapaport
Elenco: Murray Bartlett, Daniel Dugan, Adrian Gonzalez
País: Estados Unidos
Duração: 99 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Quando retorna a Los Angeles depois de cinco anos em Barcelona, ao procurar seu ex para tentar consertar um passado de erradas decisões, descobre que o resultado de tudo foi consequência dele mesmo.

O QUE TENHO A DIZER...
Ontem, pesquisando no Netflix, resolvi assistir um filme com temática homossexual. Já expressei em outras resenhas que não é um estilo que particularmente me agrada justamente pelo excesso de clichés e estereótipos que costumam ter. Com algumas excessões ou outras, como Longe do Paraíso (Far From Heaven, 2002), Delicada Relação (Yossi & Jagger, 2011), Direito de Amar (A Single Man, 2009), Tomboy (2011), Queda Livre (Freier Fall, 2013), dentre poucos outros, percebe-se a seriedade sobre o tema mais do que o reforço da idéia comum do comportamento gay ou trangênero. Tanto que, correndo entre as opções disponíveis no serviço, as sinopses costumam ser as mesmas: do amigo que não se aceita ao do namorado traído, com pequenas variações de um a outro.

Verão em LA foi o que pareceu ser o menos forçado deles, algo que ainda remetesse um comportamento comum, mas que ao mesmo tempo pudesse ser mais realista, menos romântico, debochado ou caricato.

O filme começa sem créditos, com o protagonista sendo entrevistado para um emprego. Quando vi o ator, imaginei conhecê-lo de algum lugar. Sim, estava lhe faltando o bigode. Ele é Murray Bartlett, o Dom, do verdadeiro e delicioso falecido seriado Looking (2014-2015), da HBO, que durou apenas duas temporadas porque a audiência não era satisfatória, mas mesmo assim ganhou um filme este ano, produzido pela própria HBO, justamente para concluir tudo e satisfazer os fãs.

Aqui já é possível compreender porque Bartlett posteriormente foi parar no seriado. Seu personagem não de todo estereotipado, e o ator, além de ser obviamente atraente, também é competente. Ele interpreta Troy, o galã de Los Angeles que deixou uma fila de corações partidos quando se mudou para Barcelona. Um tipo que diz não se apaixonar, um solteirão convicto. Tanto que os demais personagens sempre afirmam que, bem... ele é Troy! A figura conhecida, temida e ao mesmo tempo cobiçada de toda Los Angeles, o troféu inalcançável, o macho alfa entre os gays da cidade dos anjos.

Depois de cinco anos, Troy retorna a sua cidade natal para passar o verão, rever familiares e amigos, mas acima de tudo, se curar de uma provável crise existencial. Troy não é muito diferente de Dom, o do seriado. Eles possuem as mesmas características: a mesma determinação, o mesmo sex appeal. Mas Troy aparenta estar em uma crise mais sentimental, ao invés da crise profissional e dos 40 de Dom. Ele entra em contato com seu ex-namorado, justamente aquele o qual deixou sentimentalmente perturbado depois de um repentino fim às vésperas de se mudar para Barcelona.

Jonathan (Daniel Dugan) agora vive com o argentino Raul (Adrian Gonzalez), o qual, nas dificuldades de ser um imigrante, se casou com a melhor amiga de seu namorado. Raul conhece toda a história entre Jonathan e Troy, e a princípio é bastante compreensível com tudo, acreditando que a volta do ex seja importante para a cura de feridas ainda abertas e que possa tornar sua relação mais sólida e menos traumática.

E por aí a história se desenvolve, e o filme realmente é aquilo que eu esperava quando li sua sinopse. Não é abusivo, não é deliberadamente melodramático, não abusa de estereótipos e carrega toda a história com bastante honestidade sobre o ponto de vista dos três personagens, mesmo que o foco principal seja Troy.

O roteiro consegue explorar os erros e arrependimentos do protagonista, sobre sua falta de comprometimento e irresponsabilidades com sentimentos alheios de um passado imaturo. Mudar-se para Barcelona pode ter sido sua fuga da realidade em ter magoado tantas pessoas sem qualquer pretexto, sendo lá que seu egocentrismo e egoísmo se dissolveram quando ele se apaixonou por alguém que deve tê-lo feito sofrer no mesmo peso e medida. O filme não mostra nada disso, mas deixa implícito que as coisas foram assim, e ter seu sentimento ferido por alguém o fez relembrar das pessoas que ele feriu, especialmente Jonathan.

A situação que Troy se encontra não é uma praga rogada, como ele afirma algumas vezes, mas uma situação na qual todos estamos vulneráveis. É a reciprocidade que a própria vida fornece, na qual devemos aceitar e aprender a lidar.

Esses dias atrás escrevi um longo post sobre relações abusivas por conta de uma ironia, e por outra ironia assisti esse filme, no qual enxergo como um filme sobre o ponto de vista não de quem sofre, mas de quem fez sofrer. O resultado daquilo que é plantado e colhido, o inevitável futuro daquele que um dia abusou ou assediou, independente da forma.

O arrependimento, mesmo que tardio, é válido, mas isso não significa que ele conserte o passado, ele só o torna menos doloroso. Constantemente infligir dor a outras pessoas, mesmo que inconscientemente, uma hora se torna um fardo, e é esse fardo que Troy carrega. Como dito, a busca de Troy é, apesar dos pesares, compreensível e louvável, a possibilidade de curar feridas ainda abertas para que cada um possa seguir seu caminho sem tropeços ou mancadas.

A forma como Troy representa tudo isso é bem desenvolvida, um arquétipo que constantemente encontramos, ou que até já fomos algum dia.

CONCLUSÃO...
A recorrência do tema que o filme aborda é comum, e não é necessário ser gay para se identificar com tudo. Às vezes acontecimentos como esses só acontecem para nos testar, e nos mostrar que, apesar de dores e sofrimentos, certas escolhas realmente acabam sendo libertadoras.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

BURTON POUCO INSPIRADO...

★★★★★★☆
Título: O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home For Peculiar Children)
Ano: 2016
Gênero: Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: Tim Burton
Elenco: Asa Butterfield, Eva Green, Chris O'Dowd, Judi Dench, Samuel L. Jackson, Terence Stamp, Ella Purnell
País: Reino Unido, Bélgica, Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto descobre pistas que o levam para um orfanado de crianças peculiares que vivem sempre em um mesmo dia, em uma outra época, sob os cuidados de Sra. Peregrine. Mas aquilo que a princípio era mágico e fantástico, de repente começa a mostrar seus perigos conforme ele descobre e conhece mais sobre cada uma deles.

O QUE TENHO A DIZER...
Numa mistura entre X-Men, Mary Poppins e Peter Pan, existe algo em Miss Peregrine que deixa uma certa frustração no ar. O novo filme de Tim Burton, baseado no primeiro livro de uma trilogia do autor Ransom Riggs, por vezes entrega aquilo que essencialmente faz parte do seu estilo, mas por outras não. Algo que geralmente ocorre nos filmes em que ele é contratado para realizar, e não porque foi um projeto pessoal, como Frankenweenie (2012), Alice (2010), A Noiva Cadáver (2005), ou Batman: O Retorno (1992), para citar apenas alguns.

Existe uma grande diferença entre os projetos pessoais do diretor com os projetos em que ele é encaixado. É o que acontece aqui, uma produção que, mesmo possuindo características de Burton e para ele, por muitas vezes a impressão tida é contrária. Claro que há momentos em que seu estilo se destaca e traz um certo sorriso de satisfação e nostalgia ao ponto de dizermos "ah, isso é Burton!", como os personagens em si, que podem ser bizarros, mas são cativantes; os arbustos em forma de animais no jardim do orfanato, em uma referência a seu clássico Edward Mãos-de-Tesoura (1990); na batalha de bonecos em stop-motion, uma técnica na qual é apaixonado; ou na mesa de jantar, quando ele não tem receio algum de mostrar ao público infantil como Claire (Raffiella Chapman) consegue ser bastante estranha por traz de tanta doçura. Há outros momentos como esse, mas é bem nítido que Burton está pisando em um um terreno que não vemos a paixão pelo projeto sangrar pelos seus olhos.

Há uma certa apatia no ar, uma desconexão entre ele e o resto da equipe, já que a Fox começou a produção em 2011 e Burton só foi contratado em 2014. Boa parte da equipe não é a mesma com quem costuma trabalhar, nem mesmo a trilha sonora ajuda muito, talvez pela falta de Danny Elfman, seu colaborador de décadas. Até a fotografia, mesmo sendo de Bruno Delbonnel, que já trabalhou com ele em Grandes Olhos (Big Eyes, 2014) e Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012), é possível sentir que tudo está um pouco mais aguado e/ou distante, tanto quanto esses mesmos filmes também foram, já que não são os seus melhores.

Talvez o que mais "maltrate" o diretor como um todo seja o roteiro de Jane Goldman (ironicamente, a mesma de X-Men: Primeira Classe), que não é ágil, e só vai se tornar um pouco empolgante depois de mais da metade da história, quando quase uma hora e meia se passou e todo mundo já estiver um pouco entediado com tanto vai e vem, principalmente as crianças. O que é outro grande e óbvio problema é que, embora o livro seja direcionado para um publico juvenil e jovem-adulto, o filme poderia ter um tom menos sombrio justamente para agradar os mais pequenos, pois mesmo tendo uma classificação indicativa de 12 anos, foram os mais novos que preencheram boa parte das salas de exibição.

A história a princípio parece simples, mas vai ficando complexa para coisas pequenas e pouco fluida, tendendo a piorar com o desenvolvimento dela mesma. Tudo fica meio confuso quando a intenção era simplesmente entreter, chegando num momento em que o espectador simplesmente se desliga dela e só quer saber como vai terminar. E ainda termina apressada e sem clímax, apenas com tentativas frustradas de um vilão (Samuel L. Jackson) fraco e de motivações vagas querer impressionar a todo custo com entonações vocais, gargalhadas do mal e piadinhas bem chochas. O que salva é que Samuel tem um sarcasmo muito forte e sua presença é sempre grandiosa, salvando uma cena e outra de algum bocejo.

Para as crianças ou adolescentes que pouco prestarão atenção na história mais do que no visual, definitivamente o filme poderia ter tido uma atmosfera mais receptiva, já que a intenção da história é justamente fazer aquilo que Burton sempre faz em seus filmes, mostrar que ser diferente não é um defeito, mas uma qualidade única de cada um, algo que, por incrível que pareça, dessa vez não teve muito sucesso nessa moral que no livro parece ser tão forte, segundo aqueles que leram.

Mesmo sendo mais um filme no currículo de Burton que não impressione tanto quanto outros, de qualquer forma, ainda é uma aventura fantasiosa a ser apreciada por algumas particularidades e por um elenco que, dentro do possível, é carismático em sua maioria, principalmente Eva Green (a mesma do seriado Penny Dreadful), com seus grandes e expressivos peculiares olhos.

É mais uma daquelas produções em que muita gente pode amar e outras odiarem, além de muitos fãs dos livros ficarem desapontados pelo filme não representar as coisas da forma como imaginavam, ou deixar de colocar na história elementos que particularmente gostaram ou se identificaram. Algo compreensível, principalmente no cinema comercial.

CONCLUSÃO...
A história em si é cativante, mas parece não ter o mesmo apelo na tela, e o visual se destaca muito mais do que ela própria, mesmo que menos inspirado do que Burton costuma ser.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DA POLÊMICA À SUA RELEVÂNCIA...

★★★★★★★★★
Título: Aquarius
Ano: 2016
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Zoraide Coleto, Pedro Queiroz, Maeve Jinkings
País: Brasil, França
Duração: 142 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Aquarius é o nome do condomínio que fica na orla de Boa Viagem, em Recife, onde Clara (Sonia Braga) vive há mais de 35 anos, mas agora se vê em uma disputa com uma grande empreiteira que pretende comprar seu apartamento, o último a ser desocupado, e assim construírem um novo edifício.

O QUE TENHO A DIZER...
A história, dividida em três capítulos, começa com Clara nos seus 30 anos, em 1980. Empolgada para mostrar a seus amigos/parentes um "novo som", uma "nova música". Ela coloca a fita K7 no aparelho do carro para tocar Another One Bites The Dust, do Queen, um dos grandes hits daquele ano, mas que, exatamente naquele momento, ainda era desconhecido por aqui. Isso mostra o engajamento de Clara com a música, sendo desta paixão que irá se firmar como uma reconhecida escritora/jornalista.

Ela volta para seu apartamento, onde um grande número de outros amigos e parentes a aguardam para comemorar um aniversário. Pelo número de crianças que se divertem no quintal, chegamos a pensar que a festa é para alguma delas, mas não. A comemoração é para Tia Lúcia, que completa 70 anos, a qual ganhará um discurso emocionante, onde é citado brevemente suas conquistas profissionais, de como sua participação familiar é importante, e de ter sido perseguida na ditadura por conta de suas inclinações políticas. Tia Lúcia divaga entre memórias, agradece com emoção e brinca dizendo que falaram de tudo, só pularam a época da Revolução Sexual, provavelmente quando conheceu seu falecido amante, quem realmente amou.

Aproveitando o discurso, o marido de Clara fala como os últimos meses foram difíceis, principalmente até ela superar sua doença, o que a deixou "com o cabelinho de Elis Regina", como ele diz. Isso deixa óbvio que a protagonista sobreviveu um câncer, e também que o cabelo que usa não é porque ela segue uma moda, uma tendência, mas por resultado do tratamento.

A importância dessa primeira parte é mostrar ao espectador toda a sólida base familiar que construiu a personalidade igualmente calorosa e liberal de Clara. Tia Lúcia ter citado abertamente a Revolução Sexual, sem haver constrangimento de nenhuma parte, apenas reforça isso. É algo que não mudará com o tempo, embora o ambiente à volta da protagonista se modifique: seu cabelo volte a ser comprido (como devia ser antes da doença); a planta de seu apartamento seja modernizada; os filhos que cresceram, casaram e pouco a visitam; e da vida um tanto solitária que tem, mas que ao invés de lhe trazer incômodo, traz autoconfiança e sossego.

A independência, o vanguardismo, o senso de moral e justiça de Clara são resultados de sua educação, da sua percepção da vida. É na segunda parte que experimentaremos um pouco de seu agradável e muito bem conquistado cotidiano, até que a Bonfim Empreendimentos surja para tentar atrapalhar (ou modificar) tudo isso, trazendo com ela a desconfiança, a apreensão, o conflito, a quebra da pacata e cômoda vida que Clara conquistou com muito custo. E então o medo surge. De que tudo aquilo construído por toda a sua vida seja, literalmente, desmoronado e que nada sobre daquilo além da poeira, tal como também quer dizer aquele sucesso do Queen que ouviu em 1980.

Como Marcelo Hessel escreveu em sua crítica para O Omelete, o horror toma forma do arranha-céu ao lado, o qual a personagem chega a olhar com espanto da rua, e que depois assombra com a branca rede de segurança que despenca pela janela de Clara no meio da noite como um fantasma. A ameaça da mudança forçada trazida pela especulação imobiliária, da ganância empresarial que se funde com a ambição política, a tentativa de interrupção e intromissão da vida alheia, o enraizamento de uma cultura religiosa intrusiva e invasiva. O início do assédio moral, social e psíquico. Tudo isso são os vilões sociais que Kleber constrói e difunde, elementos que a todo momento tentam moldar o indivíduo e transformá-lo parte de uma massa uniforme.

Primeiramente há um cuidado estético fenomenal, a começar pela fotografia e o desenho de produção impecáveis. Quando o filme começa, a impressão que se tem é de realmente assistir uma película dos anos 80. O figurino, a maquiagem, os cabelos, até mesmo a imagem propositalmente saturada e envelhecida nos dão a nítida impressão de, talvez, estar assistindo um filme errado. E então, esteticamente tudo muda, e depois de uns vinte minutos de introdução da história Sonia Braga surge na janela de seu apartamento, radiante depois de 20 anos sem ser protagonista de um filme nacional. Perfeitamente enquadrada, dominante nos longos cabelos pretos, sua marca registrada de décadas e a marca registrada da cultura cinematográfica brasileira.

É emocionante vê-la. Essa exposição proposital no momento em que entra no filme tem absolutamente tudo a ver com a proposta de Kleber Mendonça sobre as diferenças entre a memória, o saudosismo e a nostalgia. Para o espectador, ver Sonia pode soar nostálgico, mas para Kleber, colocá-la em cena é atualizar uma memória, é ser saudosista com com seus trabalhos anteriores para valorizá-la neste presente. A construção e, ao mesmo tempo, o resultado que Aquarius é de tudo isso. E é dessa forma como Clara vive sua vida. Há o saudosismo, mas sem vazão à nostalgia. A construção dia após dia de algo que possa ser preservado no futuro. Não é ser a favor ou não da tecnologia, ou do MP3, mas é ter a garantia de que aquilo tenha uma história, uma razão para existir e acontecer, como o LP de John Lennon que ela mostra. Qual o legado a ser deixado por tudo isso?

Mas ainda sim a nostalgia é sentida, mesmo que perdida em algum espaço, encoberta em algum momento. É a função da música na vida de Clara. A nostalgia é seu momento íntimo, o link da sua relação com o passado, aquilo que a faz reviver as sensações. A história que aquela lembrança fonográfica lhe trás, assim como a história que acompanha a cômoda de Tia Lúcia, mas que apenas e somente Tia Lúcia conhecia. É o olhar de Clara à namorada de seu sobrinho, o (talvez) vislumbre da adolescência que um dia teve.

Não há imediatismo na história. Kleber não tem pressa em construí-la e nos imergir. Ele quer que tenhamos conhecimento de quem são as pessoas daquele filme, quer que conheçamos suas histórias, nem que seja a mais coadjuvante delas, como a advogada de Clara, que é apresentada como "advogada e amiga". O ênfase dado em "amiga" poderia ter ficado de fora, não faria diferença numa observação superficial. Mas dentro do contexto do filme, existe uma importância para Clara fazer isso, pois sua amiga faz parte da sua vida. Os vínculos possuem histórias, e isso tudo é explorado desde o mais simples objeto até o protagonismo da personagem. Não existe ponto sem nó, tudo é milimetricamente construído para um propósito específico. Linear e simples, mas que demonstra a devoção da protagonista pelo tempo e por tudo aquilo que ele oferece.

É quando já estamos bastante íntimos da personagem e de seu cotidiano que aquele pedaço de vida tem uma reviravolta. A ambientação leve dá lugar a uma tensão no ar, e o suspense passa a tomar conta na dúvida do que é que vai acontecer, qual é a próxima ameaça social na qual Clara estará sujeita por simplesmente querer ser respeitada e ter sua vontade preservada, como seria de seu direito.

Sim, há uma crítica social e política no contexto. Só enxerga quem quiser ver. Para aqueles que não se importarem com isso, de qualquer forma perceberão como o roteiro reproduz mesmo assim o cotidiano e seus problemas. Podem não acontecer diretamente, mas nos afetam de alguma forma porque permeam nosso redor: da vizinhança que se altera, das casas que se modificam, de terrenos que se multiplicam, edifícios que substituem a memória do que tínhamos; pessoas que crescem e não mais reconhecemos; atitudes que se empobrecem; o sentimento de incompetência, impotência e vulnerabilidade vinda do abuso do poder.

A polêmica na qual o filme se envolveu parte de um grande equívoco que ironicamente e sem querer acabou tendo total contexto com o filme, já que ele também nos questiona até onde vai a subordinação das pessoas pelo poder. A situação polêmica do filme reproduz exatamente a desinformação, a desvirtuação e a transferência de culpas que atualmente a sociedade brasileira tem vivido, consequência da polarização de idéias.

Pode até haver uma metáfora em resultado de uma mera coincidência. Mera coincidência porque sua produção foi iniciada antes da forte crise política de 2015/16. A mais importante associação que possa ser feita entre o filme com o cenário político vivido é o incessante assédio sofrido pela protagonista por todos os lados, desde a pressão do engenheiro até a escada social toda defecada. Por ser uma mulher sexagenária, taxada como louca, pressionada pela empreiteira e pelos ex-vizinhos que reinvidicam suas porcentagens do imóvel que não pode ser recebido enquanto ela não desocupar o apartamento. Não que tudo isso seja uma coincidência específica com o momento político, mas é uma recorrência do que é visto acontecer com as mulheres independentes e sociopoliticamente ativas na sociedade machista. São pressionadas, minimizadas e ridicularizadas até sua total desmoralização.

É o que acontece com Clara quando pergunta a seus filhos se eles já sentiram as pessoas considerá-los loucos mesmo sabendo que não estão loucos, mas acabando se sentindo loucos de tanto que os outros os taxam de loucos. Parece redundante, mas é o sentimento desmoralizante, o pânico crescente resultante da desumanização que estamos sujeitos a sofrer. É o que acontece no cenário social e político brasileiro, é o que está acontecendo no cenário social e político norteamericano, é o que acontece na sociedade e na política, no passado ou no presente. Além de podermos associar a substituição do condomínio de Clara por outro presumidamente mais "seguro" e "confiável", corporativista, agregador do poder. É a venda de que o novo é sempre melhor, a coisificação do objeto, a agregação do valor a algo banal apenas para preservar um status, uma qualidade de vida ilusória. É o que acontece na sua cidade, no seu bairro, no condomínio vizinho. É o que está acontecendo no país, seja o nosso, seja o dos outros.

Mais do que uma coincidência com fatos políticos, é uma coincidência social que se repete aqui e em qualquer lugar do mundo. Kleber Mendonça pode nem ter escrito o roteiro pensando propositalmente nesses detalhes, mas por conta desses padrões repetitivos. Um visionarismo condicionado neles, inconsciente.

O fato da direita conservadora brasileira ter criticado negativamente o filme por conta do ativismo político do diretor e do elenco em Cannes, inventando associações esquerdistas ao filme, é de um despropósito inquestionável. As ofensas dirigidas gratuitamente a Sonia Braga é uma ofensa direta a um patrimônio da cultura nacional, ao que ela representa como pessoa, como profissional e figura pública. Como dito, é o irônico equívoco consequente da desinformação, da opinião deturpada de pessoas que sequer o assistiram e mesmo assim o taxaram de diversas coisas, como "filme comunista" ou "filme socialista", sendo que, em absoluto, é nada disso. É até vergonhoso ler comentários que se prestam a dizer qualquer coisa sobre ele, menos do que ele realmente seja.

E sem dúvida houve uma perseguição política ao filme, não pelo que ele explora, mas para retaliar as pessoas envolvidas nele que se manifestaram contra o governo substituto: O Ministro da Cultura se pronunciou contra o diretor; a classificação etária de 18 anos foi dada para fortalecer o boicote (posteriormente reduzida para 16 anos); mesmo com a excelente receptividade da crítica estrangeira, ele não foi selecionado para representar o Brasil no Oscar e, em consequência de tudo isso, sumiu tão rápido como se destacou. Emudeceram um dos filmes mais originais e relevante que surgiram nos últimos anos, sem qualquer razão. Um filme que se coloca no mesmo patamar de qualidade e multi-interpretação de Que Horas Ela Volta? (2015).

A sorte que temos é que nada no cinema morre, só tende a ser fortificado com o tempo. E repetindo o que li recentemente sobre ele, ignorando qualquer controvérsia política envolvendo o filme, o que sobra é uma história fantástica, com um intenso final libertador a Clara, que pode não resolver seu problema, mas como ela mesma afirma, só de dar um mínimo de dor de cabeça já satisfaz.

Mesmo sendo uma co-produção da Globo Filmes, é em produção como essa que notamos a presença, importância e empenho do diretor, é algo que podemos assistir e afirmar com categoria o que é um cinema de classe, com relevância e qualidade, mais espontâneo e natural. É o "estilo Sonia Braga" que se destaca e deveria ser referência a qualquer um. Sônia mesmo já afirmou humildemente que não é uma atriz, mas uma ferramenta do diretor, pois não consegue interpretar roteiros, mas faz o que ele manda. Ela compreende o contexto e improvisa em cima daquilo na medida do possível. É daí que vem sua espontaneidade e ver em Clara uma pessoa comum de verdade, defendida com honestidade e caráter, o exemplo daquele brasileiro antes de se esquecer quem realmente é.

CONCLUSÃO...
A discussão social do filme e da posição que os indivíduos se colocam em uma sociedade é forte. A discussão política é implícita, discreta. Exerga quem quer, e é metafórica para quem quiser que seja, sendo assim um filme bastante subjetivo, podendo ser visto da forma que lhe melhor agradar. Um filme que, acima de tudo, nos mostra que moral, ética e educação vem de bases familiares, e através delas que deixamos nosso legado, valores acima de qualquer cifrão ou de qualquer universidade estrangeira. É ser Clara.

TENHA MEDO DA ÁGUA...

★★★★★★★☆
Título: Águas Rasas (The Shallows)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jaume Collet-Serra
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaenada
País: Estados Unidos
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a perda da mãe, Nancy (Blake Lively) resolve viajar para uma praia isolada e desconhecida no México, na qual sua mãe costumava frequentar enquanto estava grávida dela. Tentando aproveitar o momento para surfar e superar as dores recentes, é atacada por um tubarão. Ilhada em um recife, agora tem de descobrir uma forma de sobreviver.

O QUE TENHO A DIZER...
Blake Lively, a protagonista, afirmou que queria muito fazer este filme porque se sentiu inspirada pelo seu marido, Ryan Reynolds, em Enterrado Vivo (Buried, 2010), pois as filmagens se passaram inteiramente com ele dentro de uma caixa. Reynolds sofre de claustrofobia, e mesmo assim aceitou o papel por conta do desafio que seria. Blake quis o papel pelo mesmo motivo, pois passar todo o tempo de filmagem dentro da água seria igualmente desafiador e transformador tanto quanto foi para ele.

E realmente, se analisarmos a situação como um todo, existem grandes similaridades entre o filme de Reynolds com este, já que é basicamente uma história de sobrevivência, ou tentativa dela. Por isso o enredo não é nada demais além de uma surfista que fica ilhada no mar depois de ser atacada por um tubarão branco fêmea.

Ok, para aqueles que afirmarem que este é mais um filme de tubarões e que novamente usa referências do clássico de Steven Spielberg, estará redondamente certo. A diferença aqui é que, mesmo sendo uma ficção exagerada tanto quanto o filme de Spielberg e sabermos cientificamente que na vida real a situação seria bastante diferente, o legado é honrado e talvez consiga ser o segundo melhor filme sobre o tema depois de Tubarão (Jaws, 1975). Claro que houveram outros, como Do Fundo do Mar (Deep Blue Sea, 1999), que na época também foi elogiado por referenciar Tubarão, mas que não conseguiu sobreviver ao tempo e hoje é visto como um filme trash, datado e cliché, com péssimas atuações.

Não adianta, de tempo em tempo alguma produção sobre o frio e calculista animal vai aparecer, e sempre algum será surpreendente de alguma forma. Mas o que faz esse aqui um tanto diferente e especial é que, em primeiro lugar, não tem pretensão de ser algo chamativo e impactante, a começar pelo seu orçamento relativamente baixo que impede isso (US$17 milhões). Ele também não trata a situação como um filme de horror, a transformar o animal em um assassino em série, ou colocar o elenco em uma sopa de sangue e vísceras.

De maneira irônica, existe um drama à deriva que nos afeta. O isolamento da personagem, a tragédia familiar que lhe perturba, a tentativa de revisitar suas origens, a redescoberta pessoal e outros detalhes sutis que dão um arco dramático na história bastante convincente, que nos faz torcer pela sobrevivência da personagem e ao mesmo tempo nos angustia porque não conseguimos ver saídas óbvias para ela. Sim, torcer pela sobrevivência mesmo. Enquanto nos outros filmes a gente torce para os personagens escaparem do perigo, aqui torcemos para ela sobreviver, para conseguir superar seus conflitos e seguir com sua vida. Por isso, também é um interessante filme sobre superações. Nada muito profundo, mas como dito, são coisas que ficam na superfície o tempo todo e que acaba nos atingindo emocionalmente.

É um filme que funciona desde o princípio, quando a câmera faz a clássica filmagem submarina de Spielberg como se fosse os olhos do animal focando sua presa. O bom aqui é que o diretor italiano, Jaume Collet-Serra, não faz disso algo cliché, como ocorre frequentemente. Pelo contrário, o sentimento perturbador e de medo são menores do que o sentimento de solidão e fragilidade, mas nem por isso deixamos de enrigecer os ossos em vários momentos.

A locação escolhida para filmagens definitivamente é um deslumbre à parte, mesmo que o diretor tenha afirmado que, a cada cena feita, 10% era real, enquanto 90% era digitalizado, mas é os 10% que engana o espectador devido à ênfase dada na imagem, e não nos efeitos. As cenas esportivas ou submarinas também são muito bem feitas, sejam reais ou digitais, como no momento em que a protagonista é atacada pela primeira vez, arrastada para o fundo por conta da turbulência e o empuxo da onda. É uma daquelas situações que voltamos a cena várias vezes para ver detalhes.

Tudo é muito objetivo e claro. Tudo é muito simples e bem feito, e é por isso que funciona e impressiona.

CONCLUSÃO...
As referências a Tubarão (1975) podem parecer muitas, mas ao contrário do clássico de Spielberg, aqui o diretor opta por transformar o animal não em um monstro, mas em uma ameaça natural, além de deixar muito mais exposto o lado dramático e elementos que nos conectem com a personagem, evitando elementos clichés do gênero, sustos baratos e banhos de sangue. Além de tudo, tem Blake Lively, que além de bonita também tem talento.

sábado, 5 de novembro de 2016

AQUELE NOVELÃO DA GLOBO...

★★★★☆☆☆☆☆☆

Título: Amor Em Sampa
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Romance, Musical
Classificação: 12 anos
Direção: Carlos Alberto Riccelli e Kim Riccelli
Elenco: Bruna Lombardi, Du Moscovis, Rodrigo Lombardi, Mariana Lima, Carlos Alberto Riccelli, Tiago Abravanel, Kim Riccelli
País: Brasil
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O amor a São Paulo e as possibilidades de se encontrar o amor no meio ao caos da metrópole.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor em Sampa é o quarto filme produzido pelo casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Mais uma vez com o roteiro original de Bruna e direção de Riccelli, que agora divide a cadeira com seu filho, Kim. E todos eles também atuam. É um trabalho em família, e tanta função mostra a versatilidade de ambos nos diferentes trabalhos que exercem, assim como aconteceu nos filmes anteriores.

Para quem já assistiu os filmes anteriores do casal, a expectativa nesse novo longa foi grande, e não seria errado assisti-lo como uma versão mais leve e bem humorada de O Signo da Cidade (2007), já que a história parte basicamente do mesmo princípio de ser uma junção de várias pequenas histórias que se fundem no amor pela metrópole e os amores que surgem nela. Enquanto em O Signo os personagens se chocavam de forma até drástica e a cidade era mostrada de forma mais fria e distante, aqui eles se encontram, se cruzam e se conhecem, às vezes, sem qualquer afinidade, mostrando o lado mais caloroso e possível, difícil de alcançar no outro filme.

Misturando diferentes narrativas com sequências musicais, a idéia até parece interessante, mas Bruna se perde no trajeto ao tentar tanta abrangência, não conseguindo ser efetiva seja quando a narrativa está em primeira pessoa (com algumas quebras da quarta barreira), seja quando é objetiva. O roteiro tenta dar aquela espontaneidade inspirada de musicais como os de Fred Astaire, quando de repente alguém começa a cantar e desenvolver a história dentro da música, algo que Woody Allen tentou resgatar nos anos 90 com Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, 1996), usando atores que nem tinham talento vocal, mas funcionava na proposta romântica.

Neste filme as sequências musicais mais atrapalham do que ajudam. Pode ser, ora ou outra, um pouquinho atraente, diferente, como é na apresentação do longa, mas no geral atrasam o desenvolvimento das histórias e não conseguem evitar aquela sensação um tanto cafona, constrangedora, como na sequência de Rodrigo Lombardi cantarolando em um jardim por estar com o coração partido. As demais tramas amorosas, cheias de encontros, desencontros, e muita argumentação banal, também são bem fracas. Nada que realmente lhe dê um grande motivo para continuar assistindo com prazer, como foi em Onde Está A Felicidade? (2011), ou com grandes expectativas de algo realmente bom e impressionante acontecer.

Bruna também tenta engatar seu ativismo com sua preocupação real sobre o aquecimento global, é seu momento de exercer um serviço social de conscientização dentro do seu trabalho como roteirista e atriz, mas soa forçado e enfiado na história, virando algo esquecível frente a tantos personagens e tramas paralelas pouco consistentes.

O que mais me incomoda profundamente no cinema nacional é a falta de naturalidade dos diálogos, das interpretações e interação. É exatamente isso que estraga esse filme em sua totalidade, que faz desandar a maioria das sequências que poderiam ter algo interessante, seja nos momentos cômicos ou nos poucos conflitos dramáticos que surgem. A falta de um roteiro mais expressivo na linguagem coloquial ajuda nesse excesso de floreio e formalidade na atuação, e quando o texto pede do ator o uso de uma gíria ou um palavrão, nem existe coerência.

Comparado com os filmes anteriores do casal, Amor Em Sampa é como um retrocesso. Não oferece o mesmo nível de qualidade, intensidade ou relevância, seja na direção, seja no roteiro. E olha que Bruna Lombardi sabe escrever um bom roteiro. Já Riccelli continua o mesmo: bom na parte técnica, mas um péssimo diretor de elenco. Elenco "global" que está sempre mal preparado, cheio de participações especiais igualmente sacadas, como a de Tiago Abravanel, um estrupício que de nada acrescenta na história. Os atores, se não aparentam amadores e inexpressivos, como o próprio Riccelli (ou seu filho), são atores experientes que representam no padrão televisivo que estão condicionados, como Rodrigo Lombardi, que sempre mais parece um palestrante do que um ator. Deve-se lembrar que esse é um problema recorrente nos filmes de Bruna e Riccelli (com menor intensidade em Onde Esta A Felicidade?), e isso acontece justamente por ser uma produção da Globo Filmes.

Querendo ou não a produtora nada mais é do que uma extensão do monopólio da Rede Globo, expandindo seu capital e utilizando seus filmes como marketing de seus atores de casa e os produtos populares em que eles estão relacionados. Isso interfere negativamente na qualidade dos filmes porque o formato é mais televisivo que cinematográfico; a linguagem é repetitiva como de um folhetim ou de um seriado cômico de terça-feira; a edição é repicada, nunca fluida; os atores escalados nos papéis secundários parecem estar lá por exigência contratual; até coisas simples, como cenas de transição, diminuem a qualidade narrativa porque é tudo muito didático, fácil, trivial. Toda a cartilha de "como fazer um filme para a Globo" está lá. Elementos que o cinema de classe dispensa.

De tudo, nada é diferente do que é visto diariamente nas telenovelas da emissora, e nada parecido com os filmes nacionais independentes ou produzidos por empresas mais sérias que seguem padrões mais internacionais, no sentido de experiência e qualidade visual/narrativa.

O filme não é uma piada, mas com tantos padrões meramente copiados e colados do formato televisivo, parece. Passou da hora de Bruna e Riccelli buscarem outras parcerias para uma maior liberdade criativa, para ousarem mais com as experiências que adquiriram juntos nessa jornada de quatro longas metragens em um pouco mais de dez anos. Influentes no meio artístico como são, conseguem facilmente alcançar um patamar de qualidade superior ao que estão e ir atrás de um público mais sério, que não quer ir ao cinema para ver mais do mesmo que se vê na televisão.

É possível notar os esforços do casal em fazer o filme funcionar. É evidente a paixão que ambos possuem pelo cinema e pela arte, o que é admirável e o que sempre mais admiro em seus trabalhos, mas definitivamente Amor em Sampa pode ser agradável e bonitinho de se ver como um novelão de 110 minutos, mas nunca se entrega como deveria como um filme, e nunca cumpre a proposta de mostrar o amor pela cidade e como os amores se constroem nela.

CONCLUSÃO...
A impressão que se tem com Amor em Sampa é de assistir um novelão de quase duas horas. Ser uma produção da Globo Filmes impacta diretamente na qualidade e nos padrões, deixando de ter um formato cinematográfico para ser televisivo. É uma pena. Até que ponto há uma interferência da produtora, é difícil saber, mas é muito fácil perceber pelo visual e pela narrativa que está longe de ser um produto para cinema.
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