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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DA POLÊMICA À SUA RELEVÂNCIA...

★★★★★★★★★
Título: Aquarius
Ano: 2016
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Zoraide Coleto, Pedro Queiroz, Maeve Jinkings
País: Brasil, França
Duração: 142 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Aquarius é o nome do condomínio que fica na orla de Boa Viagem, em Recife, onde Clara (Sonia Braga) vive há mais de 35 anos, mas agora se vê em uma disputa com uma grande empreiteira que pretende comprar seu apartamento, o último a ser desocupado, e assim construírem um novo edifício.

O QUE TENHO A DIZER...
A história, dividida em três capítulos, começa com Clara nos seus 30 anos, em 1980. Empolgada para mostrar a seus amigos/parentes um "novo som", uma "nova música". Ela coloca a fita K7 no aparelho do carro para tocar Another One Bites The Dust, do Queen, um dos grandes hits daquele ano, mas que, exatamente naquele momento, ainda era desconhecido por aqui. Isso mostra o engajamento de Clara com a música, sendo desta paixão que irá se firmar como uma reconhecida escritora/jornalista.

Ela volta para seu apartamento, onde um grande número de outros amigos e parentes a aguardam para comemorar um aniversário. Pelo número de crianças que se divertem no quintal, chegamos a pensar que a festa é para alguma delas, mas não. A comemoração é para Tia Lúcia, que completa 70 anos, a qual ganhará um discurso emocionante, onde é citado brevemente suas conquistas profissionais, de como sua participação familiar é importante, e de ter sido perseguida na ditadura por conta de suas inclinações políticas. Tia Lúcia divaga entre memórias, agradece com emoção e brinca dizendo que falaram de tudo, só pularam a época da Revolução Sexual, provavelmente quando conheceu seu falecido amante, quem realmente amou.

Aproveitando o discurso, o marido de Clara fala como os últimos meses foram difíceis, principalmente até ela superar sua doença, o que a deixou "com o cabelinho de Elis Regina", como ele diz. Isso deixa óbvio que a protagonista sobreviveu um câncer, e também que o cabelo que usa não é porque ela segue uma moda, uma tendência, mas por resultado do tratamento.

A importância dessa primeira parte é mostrar ao espectador toda a sólida base familiar que construiu a personalidade igualmente calorosa e liberal de Clara. Tia Lúcia ter citado abertamente a Revolução Sexual, sem haver constrangimento de nenhuma parte, apenas reforça isso. É algo que não mudará com o tempo, embora o ambiente à volta da protagonista se modifique: seu cabelo volte a ser comprido (como devia ser antes da doença); a planta de seu apartamento seja modernizada; os filhos que cresceram, casaram e pouco a visitam; e da vida um tanto solitária que tem, mas que ao invés de lhe trazer incômodo, traz autoconfiança e sossego.

A independência, o vanguardismo, o senso de moral e justiça de Clara são resultados de sua educação, da sua percepção da vida. É na segunda parte que experimentaremos um pouco de seu agradável e muito bem conquistado cotidiano, até que a Bonfim Empreendimentos surja para tentar atrapalhar (ou modificar) tudo isso, trazendo com ela a desconfiança, a apreensão, o conflito, a quebra da pacata e cômoda vida que Clara conquistou com muito custo. E então o medo surge. De que tudo aquilo construído por toda a sua vida seja, literalmente, desmoronado e que nada sobre daquilo além da poeira, tal como também quer dizer aquele sucesso do Queen que ouviu em 1980.

Como Marcelo Hessel escreveu em sua crítica para O Omelete, o horror toma forma do arranha-céu ao lado, o qual a personagem chega a olhar com espanto da rua, e que depois assombra com a branca rede de segurança que despenca pela janela de Clara no meio da noite como um fantasma. A ameaça da mudança forçada trazida pela especulação imobiliária, da ganância empresarial que se funde com a ambição política, a tentativa de interrupção e intromissão da vida alheia, o enraizamento de uma cultura religiosa intrusiva e invasiva. O início do assédio moral, social e psíquico. Tudo isso são os vilões sociais que Kleber constrói e difunde, elementos que a todo momento tentam moldar o indivíduo e transformá-lo parte de uma massa uniforme.

Primeiramente há um cuidado estético fenomenal, a começar pela fotografia e o desenho de produção impecáveis. Quando o filme começa, a impressão que se tem é de realmente assistir uma película dos anos 80. O figurino, a maquiagem, os cabelos, até mesmo a imagem propositalmente saturada e envelhecida nos dão a nítida impressão de, talvez, estar assistindo um filme errado. E então, esteticamente tudo muda, e depois de uns vinte minutos de introdução da história Sonia Braga surge na janela de seu apartamento, radiante depois de 20 anos sem ser protagonista de um filme nacional. Perfeitamente enquadrada, dominante nos longos cabelos pretos, sua marca registrada de décadas e a marca registrada da cultura cinematográfica brasileira.

É emocionante vê-la. Essa exposição proposital no momento em que entra no filme tem absolutamente tudo a ver com a proposta de Kleber Mendonça sobre as diferenças entre a memória, o saudosismo e a nostalgia. Para o espectador, ver Sonia pode soar nostálgico, mas para Kleber, colocá-la em cena é atualizar uma memória, é ser saudosista com com seus trabalhos anteriores para valorizá-la neste presente. A construção e, ao mesmo tempo, o resultado que Aquarius é de tudo isso. E é dessa forma como Clara vive sua vida. Há o saudosismo, mas sem vazão à nostalgia. A construção dia após dia de algo que possa ser preservado no futuro. Não é ser a favor ou não da tecnologia, ou do MP3, mas é ter a garantia de que aquilo tenha uma história, uma razão para existir e acontecer, como o LP de John Lennon que ela mostra. Qual o legado a ser deixado por tudo isso?

Mas ainda sim a nostalgia é sentida, mesmo que perdida em algum espaço, encoberta em algum momento. É a função da música na vida de Clara. A nostalgia é seu momento íntimo, o link da sua relação com o passado, aquilo que a faz reviver as sensações. A história que aquela lembrança fonográfica lhe trás, assim como a história que acompanha a cômoda de Tia Lúcia, mas que apenas e somente Tia Lúcia conhecia. É o olhar de Clara à namorada de seu sobrinho, o (talvez) vislumbre da adolescência que um dia teve.

Não há imediatismo na história. Kleber não tem pressa em construí-la e nos imergir. Ele quer que tenhamos conhecimento de quem são as pessoas daquele filme, quer que conheçamos suas histórias, nem que seja a mais coadjuvante delas, como a advogada de Clara, que é apresentada como "advogada e amiga". O ênfase dado em "amiga" poderia ter ficado de fora, não faria diferença numa observação superficial. Mas dentro do contexto do filme, existe uma importância para Clara fazer isso, pois sua amiga faz parte da sua vida. Os vínculos possuem histórias, e isso tudo é explorado desde o mais simples objeto até o protagonismo da personagem. Não existe ponto sem nó, tudo é milimetricamente construído para um propósito específico. Linear e simples, mas que demonstra a devoção da protagonista pelo tempo e por tudo aquilo que ele oferece.

É quando já estamos bastante íntimos da personagem e de seu cotidiano que aquele pedaço de vida tem uma reviravolta. A ambientação leve dá lugar a uma tensão no ar, e o suspense passa a tomar conta na dúvida do que é que vai acontecer, qual é a próxima ameaça social na qual Clara estará sujeita por simplesmente querer ser respeitada e ter sua vontade preservada, como seria de seu direito.

Sim, há uma crítica social e política no contexto. Só enxerga quem quiser ver. Para aqueles que não se importarem com isso, de qualquer forma perceberão como o roteiro reproduz mesmo assim o cotidiano e seus problemas. Podem não acontecer diretamente, mas nos afetam de alguma forma porque permeam nosso redor: da vizinhança que se altera, das casas que se modificam, de terrenos que se multiplicam, edifícios que substituem a memória do que tínhamos; pessoas que crescem e não mais reconhecemos; atitudes que se empobrecem; o sentimento de incompetência, impotência e vulnerabilidade vinda do abuso do poder.

A polêmica na qual o filme se envolveu parte de um grande equívoco que ironicamente e sem querer acabou tendo total contexto com o filme, já que ele também nos questiona até onde vai a subordinação das pessoas pelo poder. A situação polêmica do filme reproduz exatamente a desinformação, a desvirtuação e a transferência de culpas que atualmente a sociedade brasileira tem vivido, consequência da polarização de idéias.

Pode até haver uma metáfora em resultado de uma mera coincidência. Mera coincidência porque sua produção foi iniciada antes da forte crise política de 2015/16. A mais importante associação que possa ser feita entre o filme com o cenário político vivido é o incessante assédio sofrido pela protagonista por todos os lados, desde a pressão do engenheiro até a escada social toda defecada. Por ser uma mulher sexagenária, taxada como louca, pressionada pela empreiteira e pelos ex-vizinhos que reinvidicam suas porcentagens do imóvel que não pode ser recebido enquanto ela não desocupar o apartamento. Não que tudo isso seja uma coincidência específica com o momento político, mas é uma recorrência do que é visto acontecer com as mulheres independentes e sociopoliticamente ativas na sociedade machista. São pressionadas, minimizadas e ridicularizadas até sua total desmoralização.

É o que acontece com Clara quando pergunta a seus filhos se eles já sentiram as pessoas considerá-los loucos mesmo sabendo que não estão loucos, mas acabando se sentindo loucos de tanto que os outros os taxam de loucos. Parece redundante, mas é o sentimento desmoralizante, o pânico crescente resultante da desumanização que estamos sujeitos a sofrer. É o que acontece no cenário social e político brasileiro, é o que está acontecendo no cenário social e político norteamericano, é o que acontece na sociedade e na política, no passado ou no presente. Além de podermos associar a substituição do condomínio de Clara por outro presumidamente mais "seguro" e "confiável", corporativista, agregador do poder. É a venda de que o novo é sempre melhor, a coisificação do objeto, a agregação do valor a algo banal apenas para preservar um status, uma qualidade de vida ilusória. É o que acontece na sua cidade, no seu bairro, no condomínio vizinho. É o que está acontecendo no país, seja o nosso, seja o dos outros.

Mais do que uma coincidência com fatos políticos, é uma coincidência social que se repete aqui e em qualquer lugar do mundo. Kleber Mendonça pode nem ter escrito o roteiro pensando propositalmente nesses detalhes, mas por conta desses padrões repetitivos. Um visionarismo condicionado neles, inconsciente.

O fato da direita conservadora brasileira ter criticado negativamente o filme por conta do ativismo político do diretor e do elenco em Cannes, inventando associações esquerdistas ao filme, é de um despropósito inquestionável. As ofensas dirigidas gratuitamente a Sonia Braga é uma ofensa direta a um patrimônio da cultura nacional, ao que ela representa como pessoa, como profissional e figura pública. Como dito, é o irônico equívoco consequente da desinformação, da opinião deturpada de pessoas que sequer o assistiram e mesmo assim o taxaram de diversas coisas, como "filme comunista" ou "filme socialista", sendo que, em absoluto, é nada disso. É até vergonhoso ler comentários que se prestam a dizer qualquer coisa sobre ele, menos do que ele realmente seja.

E sem dúvida houve uma perseguição política ao filme, não pelo que ele explora, mas para retaliar as pessoas envolvidas nele que se manifestaram contra o governo substituto: O Ministro da Cultura se pronunciou contra o diretor; a classificação etária de 18 anos foi dada para fortalecer o boicote (posteriormente reduzida para 16 anos); mesmo com a excelente receptividade da crítica estrangeira, ele não foi selecionado para representar o Brasil no Oscar e, em consequência de tudo isso, sumiu tão rápido como se destacou. Emudeceram um dos filmes mais originais e relevante que surgiram nos últimos anos, sem qualquer razão. Um filme que se coloca no mesmo patamar de qualidade e multi-interpretação de Que Horas Ela Volta? (2015).

A sorte que temos é que nada no cinema morre, só tende a ser fortificado com o tempo. E repetindo o que li recentemente sobre ele, ignorando qualquer controvérsia política envolvendo o filme, o que sobra é uma história fantástica, com um intenso final libertador a Clara, que pode não resolver seu problema, mas como ela mesma afirma, só de dar um mínimo de dor de cabeça já satisfaz.

Mesmo sendo uma co-produção da Globo Filmes, é em produção como essa que notamos a presença, importância e empenho do diretor, é algo que podemos assistir e afirmar com categoria o que é um cinema de classe, com relevância e qualidade, mais espontâneo e natural. É o "estilo Sonia Braga" que se destaca e deveria ser referência a qualquer um. Sônia mesmo já afirmou humildemente que não é uma atriz, mas uma ferramenta do diretor, pois não consegue interpretar roteiros, mas faz o que ele manda. Ela compreende o contexto e improvisa em cima daquilo na medida do possível. É daí que vem sua espontaneidade e ver em Clara uma pessoa comum de verdade, defendida com honestidade e caráter, o exemplo daquele brasileiro antes de se esquecer quem realmente é.

CONCLUSÃO...
A discussão social do filme e da posição que os indivíduos se colocam em uma sociedade é forte. A discussão política é implícita, discreta. Exerga quem quer, e é metafórica para quem quiser que seja, sendo assim um filme bastante subjetivo, podendo ser visto da forma que lhe melhor agradar. Um filme que, acima de tudo, nos mostra que moral, ética e educação vem de bases familiares, e através delas que deixamos nosso legado, valores acima de qualquer cifrão ou de qualquer universidade estrangeira. É ser Clara.

TENHA MEDO DA ÁGUA...

★★★★★★★☆
Título: Águas Rasas (The Shallows)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Jaume Collet-Serra
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaenada
País: Estados Unidos
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após a perda da mãe, Nancy (Blake Lively) resolve viajar para uma praia isolada e desconhecida no México, na qual sua mãe costumava frequentar enquanto estava grávida dela. Tentando aproveitar o momento para surfar e superar as dores recentes, é atacada por um tubarão. Ilhada em um recife, agora tem de descobrir uma forma de sobreviver.

O QUE TENHO A DIZER...
Blake Lively, a protagonista, afirmou que queria muito fazer este filme porque se sentiu inspirada pelo seu marido, Ryan Reynolds, em Enterrado Vivo (Buried, 2010), pois as filmagens se passaram inteiramente com ele dentro de uma caixa. Reynolds sofre de claustrofobia, e mesmo assim aceitou o papel por conta do desafio que seria. Blake quis o papel pelo mesmo motivo, pois passar todo o tempo de filmagem dentro da água seria igualmente desafiador e transformador tanto quanto foi para ele.

E realmente, se analisarmos a situação como um todo, existem grandes similaridades entre o filme de Reynolds com este, já que é basicamente uma história de sobrevivência, ou tentativa dela. Por isso o enredo não é nada demais além de uma surfista que fica ilhada no mar depois de ser atacada por um tubarão branco fêmea.

Ok, para aqueles que afirmarem que este é mais um filme de tubarões e que novamente usa referências do clássico de Steven Spielberg, estará redondamente certo. A diferença aqui é que, mesmo sendo uma ficção exagerada tanto quanto o filme de Spielberg e sabermos cientificamente que na vida real a situação seria bastante diferente, o legado é honrado e talvez consiga ser o segundo melhor filme sobre o tema depois de Tubarão (Jaws, 1975). Claro que houveram outros, como Do Fundo do Mar (Deep Blue Sea, 1999), que na época também foi elogiado por referenciar Tubarão, mas que não conseguiu sobreviver ao tempo e hoje é visto como um filme trash, datado e cliché, com péssimas atuações.

Não adianta, de tempo em tempo alguma produção sobre o frio e calculista animal vai aparecer, e sempre algum será surpreendente de alguma forma. Mas o que faz esse aqui um tanto diferente e especial é que, em primeiro lugar, não tem pretensão de ser algo chamativo e impactante, a começar pelo seu orçamento relativamente baixo que impede isso (US$17 milhões). Ele também não trata a situação como um filme de horror, a transformar o animal em um assassino em série, ou colocar o elenco em uma sopa de sangue e vísceras.

De maneira irônica, existe um drama à deriva que nos afeta. O isolamento da personagem, a tragédia familiar que lhe perturba, a tentativa de revisitar suas origens, a redescoberta pessoal e outros detalhes sutis que dão um arco dramático na história bastante convincente, que nos faz torcer pela sobrevivência da personagem e ao mesmo tempo nos angustia porque não conseguimos ver saídas óbvias para ela. Sim, torcer pela sobrevivência mesmo. Enquanto nos outros filmes a gente torce para os personagens escaparem do perigo, aqui torcemos para ela sobreviver, para conseguir superar seus conflitos e seguir com sua vida. Por isso, também é um interessante filme sobre superações. Nada muito profundo, mas como dito, são coisas que ficam na superfície o tempo todo e que acaba nos atingindo emocionalmente.

É um filme que funciona desde o princípio, quando a câmera faz a clássica filmagem submarina de Spielberg como se fosse os olhos do animal focando sua presa. O bom aqui é que o diretor italiano, Jaume Collet-Serra, não faz disso algo cliché, como ocorre frequentemente. Pelo contrário, o sentimento perturbador e de medo são menores do que o sentimento de solidão e fragilidade, mas nem por isso deixamos de enrigecer os ossos em vários momentos.

A locação escolhida para filmagens definitivamente é um deslumbre à parte, mesmo que o diretor tenha afirmado que, a cada cena feita, 10% era real, enquanto 90% era digitalizado, mas é os 10% que engana o espectador devido à ênfase dada na imagem, e não nos efeitos. As cenas esportivas ou submarinas também são muito bem feitas, sejam reais ou digitais, como no momento em que a protagonista é atacada pela primeira vez, arrastada para o fundo por conta da turbulência e o empuxo da onda. É uma daquelas situações que voltamos a cena várias vezes para ver detalhes.

Tudo é muito objetivo e claro. Tudo é muito simples e bem feito, e é por isso que funciona e impressiona.

CONCLUSÃO...
As referências a Tubarão (1975) podem parecer muitas, mas ao contrário do clássico de Spielberg, aqui o diretor opta por transformar o animal não em um monstro, mas em uma ameaça natural, além de deixar muito mais exposto o lado dramático e elementos que nos conectem com a personagem, evitando elementos clichés do gênero, sustos baratos e banhos de sangue. Além de tudo, tem Blake Lively, que além de bonita também tem talento.

sábado, 5 de novembro de 2016

AQUELE NOVELÃO DA GLOBO...

★★★★☆☆☆☆☆☆

Título: Amor Em Sampa
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Romance, Musical
Classificação: 12 anos
Direção: Carlos Alberto Riccelli e Kim Riccelli
Elenco: Bruna Lombardi, Du Moscovis, Rodrigo Lombardi, Mariana Lima, Carlos Alberto Riccelli, Tiago Abravanel, Kim Riccelli
País: Brasil
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O amor a São Paulo e as possibilidades de se encontrar o amor no meio ao caos da metrópole.

O QUE TENHO A DIZER...
Amor em Sampa é o quarto filme produzido pelo casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Mais uma vez com o roteiro original de Bruna e direção de Riccelli, que agora divide a cadeira com seu filho, Kim. E todos eles também atuam. É um trabalho em família, e tanta função mostra a versatilidade de ambos nos diferentes trabalhos que exercem, assim como aconteceu nos filmes anteriores.

Para quem já assistiu os filmes anteriores do casal, a expectativa nesse novo longa foi grande, e não seria errado assisti-lo como uma versão mais leve e bem humorada de O Signo da Cidade (2007), já que a história parte basicamente do mesmo princípio de ser uma junção de várias pequenas histórias que se fundem no amor pela metrópole e os amores que surgem nela. Enquanto em O Signo os personagens se chocavam de forma até drástica e a cidade era mostrada de forma mais fria e distante, aqui eles se encontram, se cruzam e se conhecem, às vezes, sem qualquer afinidade, mostrando o lado mais caloroso e possível, difícil de alcançar no outro filme.

Misturando diferentes narrativas com sequências musicais, a idéia até parece interessante, mas Bruna se perde no trajeto ao tentar tanta abrangência, não conseguindo ser efetiva seja quando a narrativa está em primeira pessoa (com algumas quebras da quarta barreira), seja quando é objetiva. O roteiro tenta dar aquela espontaneidade inspirada de musicais como os de Fred Astaire, quando de repente alguém começa a cantar e desenvolver a história dentro da música, algo que Woody Allen tentou resgatar nos anos 90 com Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, 1996), usando atores que nem tinham talento vocal, mas funcionava na proposta romântica.

Neste filme as sequências musicais mais atrapalham do que ajudam. Pode ser, ora ou outra, um pouquinho atraente, diferente, como é na apresentação do longa, mas no geral atrasam o desenvolvimento das histórias e não conseguem evitar aquela sensação um tanto cafona, constrangedora, como na sequência de Rodrigo Lombardi cantarolando em um jardim por estar com o coração partido. As demais tramas amorosas, cheias de encontros, desencontros, e muita argumentação banal, também são bem fracas. Nada que realmente lhe dê um grande motivo para continuar assistindo com prazer, como foi em Onde Está A Felicidade? (2011), ou com grandes expectativas de algo realmente bom e impressionante acontecer.

Bruna também tenta engatar seu ativismo com sua preocupação real sobre o aquecimento global, é seu momento de exercer um serviço social de conscientização dentro do seu trabalho como roteirista e atriz, mas soa forçado e enfiado na história, virando algo esquecível frente a tantos personagens e tramas paralelas pouco consistentes.

O que mais me incomoda profundamente no cinema nacional é a falta de naturalidade dos diálogos, das interpretações e interação. É exatamente isso que estraga esse filme em sua totalidade, que faz desandar a maioria das sequências que poderiam ter algo interessante, seja nos momentos cômicos ou nos poucos conflitos dramáticos que surgem. A falta de um roteiro mais expressivo na linguagem coloquial ajuda nesse excesso de floreio e formalidade na atuação, e quando o texto pede do ator o uso de uma gíria ou um palavrão, nem existe coerência.

Comparado com os filmes anteriores do casal, Amor Em Sampa é como um retrocesso. Não oferece o mesmo nível de qualidade, intensidade ou relevância, seja na direção, seja no roteiro. E olha que Bruna Lombardi sabe escrever um bom roteiro. Já Riccelli continua o mesmo: bom na parte técnica, mas um péssimo diretor de elenco. Elenco "global" que está sempre mal preparado, cheio de participações especiais igualmente sacadas, como a de Tiago Abravanel, um estrupício que de nada acrescenta na história. Os atores, se não aparentam amadores e inexpressivos, como o próprio Riccelli (ou seu filho), são atores experientes que representam no padrão televisivo que estão condicionados, como Rodrigo Lombardi, que sempre mais parece um palestrante do que um ator. Deve-se lembrar que esse é um problema recorrente nos filmes de Bruna e Riccelli (com menor intensidade em Onde Esta A Felicidade?), e isso acontece justamente por ser uma produção da Globo Filmes.

Querendo ou não a produtora nada mais é do que uma extensão do monopólio da Rede Globo, expandindo seu capital e utilizando seus filmes como marketing de seus atores de casa e os produtos populares em que eles estão relacionados. Isso interfere negativamente na qualidade dos filmes porque o formato é mais televisivo que cinematográfico; a linguagem é repetitiva como de um folhetim ou de um seriado cômico de terça-feira; a edição é repicada, nunca fluida; os atores escalados nos papéis secundários parecem estar lá por exigência contratual; até coisas simples, como cenas de transição, diminuem a qualidade narrativa porque é tudo muito didático, fácil, trivial. Toda a cartilha de "como fazer um filme para a Globo" está lá. Elementos que o cinema de classe dispensa.

De tudo, nada é diferente do que é visto diariamente nas telenovelas da emissora, e nada parecido com os filmes nacionais independentes ou produzidos por empresas mais sérias que seguem padrões mais internacionais, no sentido de experiência e qualidade visual/narrativa.

O filme não é uma piada, mas com tantos padrões meramente copiados e colados do formato televisivo, parece. Passou da hora de Bruna e Riccelli buscarem outras parcerias para uma maior liberdade criativa, para ousarem mais com as experiências que adquiriram juntos nessa jornada de quatro longas metragens em um pouco mais de dez anos. Influentes no meio artístico como são, conseguem facilmente alcançar um patamar de qualidade superior ao que estão e ir atrás de um público mais sério, que não quer ir ao cinema para ver mais do mesmo que se vê na televisão.

É possível notar os esforços do casal em fazer o filme funcionar. É evidente a paixão que ambos possuem pelo cinema e pela arte, o que é admirável e o que sempre mais admiro em seus trabalhos, mas definitivamente Amor em Sampa pode ser agradável e bonitinho de se ver como um novelão de 110 minutos, mas nunca se entrega como deveria como um filme, e nunca cumpre a proposta de mostrar o amor pela cidade e como os amores se constroem nela.

CONCLUSÃO...
A impressão que se tem com Amor em Sampa é de assistir um novelão de quase duas horas. Ser uma produção da Globo Filmes impacta diretamente na qualidade e nos padrões, deixando de ter um formato cinematográfico para ser televisivo. É uma pena. Até que ponto há uma interferência da produtora, é difícil saber, mas é muito fácil perceber pelo visual e pela narrativa que está longe de ser um produto para cinema.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NÃO RESPIRE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: O Homem Nas Trevas (Don't Breathe)
Ano: 2016
Gênero: Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Fede Alvarez
Elenco: Jane Levy, Dylan Minnette, Daniel Zovatto, Stephen Lang
País: Estados Unidos
Duração: 88 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Três colegas resolvem assaltar uma casa, mas as coisas não saem realmente como planejavam.

O QUE TENHO A DIZER...
Se tem uma coisa que me irrita muito nos títulos em português é a deturpação do filme e do seu contexto. Isso é muito comum em filmes como esse, que quando chegam no Brasil sem fama alguma, sensacionalizam o título para ter venda fácil. O material promocional também o vende como um produto de terror, algo igualmente comum nas produções da Ghost House, produtora de Sam Raimi, que apenas investe neste gênero, dos quais raramente algum seja realmente bom ou realmente de horror.

Portanto, esqueça, não é um filme de horror, não é um filme gore (sanguinário) e muito menos macabro, como pode parecer. É puramente um suspense, no seu sentido mais cru, porque não há monstros, não há sobrenatural, não há um assassino em série ou qualquer outro elemento que pudesse caracteriza-lo como tal. E falar somente sobre isso já é o suficiente para não estragar algumas surpresas que ele segura.

Então, basicamente a história é de três conhecidos que ganham a vida assaltando casas facilmente porque o pai de um deles é dono de uma empresa de segurança, tendo informação e acesso fácil às casas asseguradas. Mas aquilo que roubam não lhe dão o retorno financeiro que esperam. É quando descobrem que, em uma casa isolada, onde mora um senhor cego, há uma grande quantidade de dinheiro suficiente para abandonarem essa vida delinquente. Resolvem fazer desse assalto o último golpe, mas como todo filme do gênero, as coisas não saem muito certas.

Por incrível que pareça, esse filme um tanto desconhecido pelos lados de cá foi um dos mais inesperados sucessos do primeiro semestre nos lados de lá. Seu orçamento foi de US$9 milhões, enquanto arrecadou mais de US$140 milhões no mundo.

De fato, é uma surpresa, porque o título original (que significa "não respire") é basicamente o que o espectador fará do começo ao fim devido a tensão que a história cria. Sendo mais interessante o fato de não demorar para essa atmosfera surgir, a qual é mantida até o final de maneira bem satisfatória. Os atores não fazem feio, e a idéia um pouco ousada do diretor uruguaio, Fede Alvarez, pode lhe render um ótimo futuro se ele souber cultivá-lo como fez com essa produção.

Alvarez, é o mesmo do remake de Uma Noite Alucinante (Evil Dead, 2013), que foi bastante criticada porque mexia com o clássico imexível do próprio Raimi. Por conta das negativas críticas recebidas pelo longa anterior, este atual filme é basicamente uma resposta a isso. Ele optou por um material original (o roteiro foi escrito por ele), sem grandes derramamentos de sangue ou que tivesse elementos sobrenaturais. Daí a razão do uso de elementos que, pelo senso comum, seriam inofensivos, pois seu exercício durante o desenvolvimento do roteiro foi criar uma história partindo totalmente do inverso daquilo que seria um filme de horror com elementos óbvios, onde tudo fosse explícito ou evidentemente ameaçador, além de desgastado como o gênero está.

A concepção é muito interessante e fazia tempo que eu não assistia um thriller como esse, que me deixasse naturalmente tenso com suas sequências e algumas boas sacadas que enganam o espectador com omissões sem subestimar sua inteligência, algo que é difícil se fazer. Mas assim como Hitchock afirmava, filmes de suspense dependem apenas da técnica. Alvarez definitivamente mostra ter habilidade com ela, e não é à toa que a história tem lá seus buracos, incoerências e absurdos, com um desenvolvimento muito pobre dos personagens e razões muito rasas para serem criminosos. Mas a tal efetividade da técnica consegue ser mais presente, deixando esses defeitos apenas como pano de fundo para a construção da atmosfera apreensiva.

De certo modo há até referências a clássicos como o próprio Uma Noite Alucinante (Evil Dead, 1981), Cujo (1983) e Silêncio dos Inocentes (Silence Of The Lambs, 1991), os dois últimos, muito bem referenciados, por sinal.

CONCLUSÃO...
Não é um daqueles filmes brilhantes, mas cumpre aquilo que promete, desde que não seja assistido como um filme de horror. Mesmo no visível baixo orçamento, ele se destaca de muito outros mais caros e muito mais comerciais do mesmo gênero, além de igualmente também oferecer muito mais.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

PASSE LONGE. IGNORE...

★★☆
Título: Nina
Ano: 2016
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Cynthia Mort
Elenco: Zoe Saldana, David Oyelowo
País: Reino Unido
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma visão superficial e um tanto romântica de alguns anos da vida da cantora, compositora, musicista e militante, Nina Simone.

O QUE TENHO A DIZER...
É difícil falar de Nina depois de What Happened, Miss Simone? (2015), porque por um lado temos um grande documentário produzido pela Netflix, que concorreu ao Oscar (e venceu o Emmy), enquanto do outro temos um filme banal que apenas mostra a cantora como uma mulher instável e alcólatra durante todo o tempo e nada mais. Há apenas um esboço aqui e alí do seu ativismo social, ou de uma ou outra inspiração para suas composições, mas só. O resto é irrelevante e desnecessário.

Há tantos erros, equívocos e livre interpretação neste filme que a situação chega a ser bastante ultrajante. Boa parte de tudo ocorre pela idéia ser extremamente ousada para uma estreante na direção, Cynthia Mort, que também escreveu o roteiro sem ponto de partida ou chegada, sem eira ou beira. A outra catástrofe foi o fato da família de Nina não ter sido consultada em nenhum momento, principalmente sua filha, a cantora Lisa Simone Kelly, que não aprova a produção e muito menos seu conteúdo, embora tenha deixado claro que nenhuma responsabilidade do filme deve ser atribuída à atriz, Zoe Saldana, como a crítica e o público acabou fazendo.

A pesquisa da diretora/roteirista, parece bastante rasa, de fontes duvidosas, como se tivesse juntado um punhado de boatos de trablóide e feito um filme com isso. Ela até tenta dar uma cronologia, mostrando ora ou outra o ano em que certa cena se passa, mas Nina (a personagem), nunca envelhece, nem quando está nos seus mais de 60 anos.

O filme basicamente começa em 1995 com Nina sendo internada em um hospital psiquiátrico após ameaçar um advogado com uma arma. Nessa época Nina tinha 62 anos e morava na França, e já tratava sua bipolaridade, que foi descoberta apenas no final dos anos 80. Muito provável que também já tratava seu câncer de mama, lembrando (por pura curiosidade) que em 1997 ela se apresentou no Brasil, no Bourbon Street, em São Paulo.

Por conta de falhas cronológicas e de informações como essas, nunca temos certeza em qual época boa parte da história se passa. Cynhtia se manteve numa zona segura, negligenciando períodos muito mais interessantes, importantes ou complexos da vida da cantora, como sua militância aos Direitos Civis ou até mesmo a fase mais pessoal e turbulenta ao deixar os Estados Unidos nos anos 70 e se radicar em Barbados. Se ela tivesse pego o início de sua carreira, quando adotou o nome artístico para esconder de seus pais que ganhava dinheiro tocando em bares noturnos de Nova York, época que foi obrigada a usar sua voz e descobrir que também era uma cantora, o que abruptamente ascendeu sua carreira, teria sido muito melhor do que um filme que tenta ser qualquer coisa, menos uma biografia.

A diretora/roteirista evidentemente opta por buracos negros da biografia para ter liberdade de interpretação e criar tudo a seu modo, como no período em que Nina se isolou na França apenas em companhia de seu assistente, Clifton Henderson, chegando a ficar seis meses sem contato com qualquer outra pessoa. Pouca gente sabe o que aconteceu durante esse tempo, então qual o motivo em explorá-lo se não existem fontes seguras para descrevê-lo? É então que Mort erra pesado outra vez, pois é nesta fase que o filme mais se foca, criando uma necessidade em deixar implícito uma relação mais íntima e romântica entre Nina e Clifton, fato que a própria filha da cantora nega que possa ter acontecido por Clifton ter sido abertamente gay.

Não houve cuidado estético, não houve planejamento adequado. Toda a produção é definitivamente um dos maiores erros do cinema em seu propósito de ser um material biográfico de uma das figuras mais controversas da música e da cultura negra norteamericana, uma tentativa desrespeitosa em trivializar, marginalizar e explorar sua imagem como um commodity hollywoodiano.

Mas nada foi tão controverso quanto a escolha da portoriquenha Zoe Saldana, gerando diferentes reações negativas principalmente após o lançamento do trailer, sendo alguns até engraçados, como ESTE AQUI (em inglês, sem legendas).

A grande polêmica foi de Zoe ser latina e ter uma pele muito mais clara do que a da cantora, precisando ser caracterizada sob forte maquiagem e próteses no nariz, dentes e lábios para se distanciar do biotipo latino e se aproximar do afroamericano. Se o filme tivesse levado a história de Nina a sério desde o princípio, a atriz nunca teria sido escolhida. A reprovação pela escolha vem justificada pelas raízes da cantora e seus princípios sociais, étnicos e de gênero. Seu feminismo e sua militância pela liberdade e expressividade da cultura negra sempre foram as engrenagens de seu trabalho. Sim, ser ator é não ter cor, mas existem casos em que as caracterizações devem ser respeitadas, e a de Nina deveria ser uma delas. Esse desrespeito mostrou a hipocrisia no cinema, e o racismo latente, principalmente numa época em que os afroamericanos tem liderado a militância por maiores participações no cenário artístico. O equívoco na escolha definitivamente é, como dito por Aaron Overfield, gerente de conteúdo do ninasimone.com, "uma cuspida no legado de Nina".

De qualquer forma, apesar de toda a crítica negativa envolta, a atriz não deve ser culpada. É compreensível os motivos dela ter aceito o papel (mesmo que não seja compreensível o motivo de não ter recusado, já que tudo indicava que ela não deveria fazê-lo). Zoe disse que sua intenção em representá-la foi a honra de poder transferir as mensagens e o idealismo de uma figura respeitável, se doando de corpo e alma para isso. É notável os esforços em sua caracterização física, algo que ela faz até bem, reproduzindo comportamentos, maneirismos, o modo de andar, dançar e falar que muito se assemelham. Zoe é expressiva, ela tem uma dramaticidade convincente, mas ironicamente, quando lembramos que sua personagem é Nina Simone, fica bastante difícil aceitá-la, principalmente quando a pesada maquiagem mostra-se como algo mal feito, de próteses evidentes e mal encobertas. Um grande erro também foi terem substituído todas as imagens da cantora pelas da atriz. Só há um momento, que eu me lembre, da capa original de um LP aparecer, todas as demais imagens foram substituídas, tanto quanto as músicas, cantadas pela atriz, e não dubladas, como deveria ter sido, já que o timbre e o alcance vocal de Nina são únicos.

É óbvio que terem optado por essas substituições mostra o baixo orçamento do filme, ao ponto da produção não ter tido condições de pagar pelos direitos do uso da imagem e das canções originais (que realmente encarecem muito). Zoe Saldana canta muito bem dentro de seus limites como atriz, mas tentar reproduzir o contralto de Nina, ou imitar suas transições e emoções nas performances chega a ser ridículo, incômodo, constrangedor. Sim, as versões de Saldana para o filme conseguem ser interessantes e apreciadas, como é a de Sinnerman, faixa utilizada nos créditos finais, onde Zoe canta como Zoe, mas todas essas músicas só funcionariam se fosse um tributo à parte, e não para um filme.

O mesmo a ser dito sobre o filme, que se for assistido como um drama qualquer, se for possível ignorar sua tentativa biográfica, o seu drama comum e melado podem até levar a algumas rasas emoções. Mas para isso só terá êxito aqueles que desconhecerem por completo quem foi o furação Nina Simone, caso contrário, passe longe da prateleira, ou ignore se um dia ele aparecer em algum serviço por demanda.

CONCLUSÃO...
Um filme que tenta ser qualquer coisa com o nome e Nina Simone, menos uma biografia.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ARTIGO DEFINIDO FEMININO PLURAL...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Caça-Fantasmas (Ghostbusters)
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 10 anos
Direção: Paul Feig
Elenco: Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon, Leslie Jones
País: Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após uma ameaça sobrenatural, duas pesquisadoras do tema se unem a mais duas mulheres para tentar evitar uma grande gatastrofe.

O QUE TENHO A DIZER...
Desde o segundo filme da série, de 1989, o que mais se falou foi da concepção de um terceiro. Os fãs sempre cobraram Dan Aykroyd (ator/criador/roteirista) e os demais para retomarem a franquia, e a "culpa" de quase 15 anos de atraso foi de Bill Murray, que sempre foi bastante crítico a respeito dos roteiros que recebia e achava que nunca eram bons o suficiente para superarem o segundo filme. Embora não pareça, é algo bastante comum. Foi o que aconteceu com Indiana Jones, que demorou 19 anos para ter o tão esperado quarto filme que hoje é considerado um dos piores da franquia. Portanto, às vezes, o que é bom não deve ser mexido, mesmo que a nostalgia fale mais alto. São para isso que filmes são feitos, para marcarem uma época e serem revisitados quando essa saudade bater. Pensando nisso, talvez Murray não estivesse errado, e nem Aykroyd, que não queria que a franquia fosse simplesmente explorada, por isso que nunca aceitou substituir o papel de Murray, e por isso que o projeto com o elenco original nunca saiu do papel.

Por conta disso, depois de vários problemas de produção, recusa de roteiro e diretores que entravam e saiam, o projeto finalmente foi parar nas mãos de Paul Feig, em 2014. Feig é um diretor/produtor/roteirista de comédias em Hollywood, conhecido por sempre escalar mulheres como protagonistas de seus filmes/seriados. Foi depois do estrondoso sucesso de Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2013) que ele foi alçado para o primeiro escalão de diretores de Hollywood, e obviamente que a noticia que ele deu quando abocanhou Ghostbusters foi em dizer que o filme não seria uma continuação, e muito menos um remake, mas um projeto totalmente novo e cujo grupo de heróis seria agora feminino.

A princípio todos ficaram interessados, alguns fãs reclamaram aqui e alí, mas no geral a comoção havia sido positiva. Esperava-se um grande sucesso, tanto de público quanto de crítica. Mas não foi bem isso que aconteceu.

O filme foi lançado logo após alguns movimentos de reinvidicação de direitos em Hollywood ganharem força, dentre os quais incluem os movimentos feministas e igualitários, que reinvidicam melhores papéis e equidade nos salários com os homens. Devido à proporção que essas manifestações tomaram, a produção foi apedreijada em seu lançamento pois foi vista como uma "provocação" tanto pelo público conservador, quanto pela crítica conservadora, e o filme foi taxado de produção feminista, que incita o ódio aos homens, e coisas do tipo. Os fãs disseram que o novo filme "estragou" a franquia, e as opiniões foram de mal a pior, principalmente daqueles que não conseguem enxergar que Hollywood sempre foi machista, sexista e preconceituosa, e essas opiniões apenas refletem essa cultura absorvida de que mulheres não podem ser protagonistas, não podem ser heroínas de um filme, não podem ter uma franquia própria, devem ser submissas aos homens a todo o tempo e não podem substituí-los em um remake ou algo do tipo.

O papo chauvinista tomou proporções gigantescas, e o filme gerou uma polêmica desnecessária e negativa, que apenas aumentou o ódio contra as mulheres, ao invés de neutralizar o assunto, ou simplesmente trazer um sopro de novidade, que é o que o filme faz.

O interessante é que ele realmente é uma produção nova e que tem apenas o enredo reaproveitado. Não é uma refilmagem cena-a-cena, como Gus Van Sant fez em Psicose (1998). Não é um remake desnecessário de algum cult do passado, como Footloose (2011). O material aqui é completamente novo, para início de uma nova franquia.

Sim, participações especiais de alguns dos atores originais acontece, bem como referências diretas aos filmes originais também, mas tudo faz parte do processo, homenagens que são necessárias como políticas de boa vizinhança.

O fato é que o filme realmente é uma versão bastante feminina, mas nem por isso seja um filme apenas para elas. No geral, é um filme atual, mas com uma incrível sensação que se tinha nos filmes 80tistas de que aquela absurdez era aceitável, além de poder ser vista por qualquer faixa etária, divertindo todos à sua própria forma. O que Feig faz com o material é bastante interessante. Os diálogos não são ofensivos; as personagens são caricatas sem serem ridículas (bem... boa parte delas); os diálogos parecem improvisados, bem no estilo dos filmes anteriores do diretor; e os efeitos especiais, embora se destaquem (no sentido de artificialidade), são propositalmente lúdicos e engraçados. Não há violência banal, não há uma truculência masculina dominante. Tudo é muito neutro e divertido até mesmo quando o roteiro pisa em alguns buracos, como nunca mais dar atenção ao apresentador do museu.

Há algumas piadinhas feministas diretas e indiretas, mas que estão anos luz de serem tão ofensivas como as piadas machistas que habitualmente somos obrigados a engolir de outros filmes. Talvez a mais importante delas seja o papel de Chris Hemsworth, como o secretário Kevin. Loiro, alto, bonito, sensual, forte e burro, aquilo que seria uma mulher caso seu papel fosse feminino. É uma resposta inteligente ao sexismo existente, sutil e bem usado, bem como todas as protagonistas o tratarem simplesmente como um objeto de desejo, tal qual os homens fariam caso seus papéis fossem masculinos.

Seria incômodo se fosse verdade. E é exatamente por isso que, nesses momentos pontuais, o filme realmente incomoda àqueles que tem problemas com gêneros.

A história segue exatamente o mesmo caminho da história original, de cientistas que acreditam em entidades sobrenaturais e que tem dificuldade para provarem isso publicamente até que um cataclisma ameace todos.

Particularmente esperava um filme fraco, com piadas infames. Elas existem, bem como as piadas clichés, ou como diz a personagem em uma das cenas finais: piadas clássicas que sempre funcionam. Mas funcionam por causa das atrizes. Kristen Wiig e Melissa McCarthy tem uma química surpreendente, e mesmo que ambas repitam aqui quase os mesmos tipos que fizeram em Missão Madrinha de Casamento, elas juntas sempre funcionam. O bom é que McCarthy conseguiu deixar sua personagem durona sem masculinizá-la, como costuma fazer, e Leslie Jones complementa o grupo muito bem quando sua personagem finalmente engata na história, um tipo mandona e matrona, mas que surge entre elas no susto, sem um motivo muito bem definido, consequências do roteiro um pouco esburacado. Infelizmente o mesmo não pode ser dito de Kate McKinnon, que parece deslocada na personagem Holtzmann, sem graça e à parte, que a todo momento tenta conquistar no exagero, forçando caretas e expressões que não apenas colocam-na como uma aloprada inútil, como também as demais parecem não dar a mínima para o que ela faz. E o mesmo faz os espectadores. Poderiam ter escalado outra atriz, alguém que fosse mais naturalmente cômica.

No geral, o que se pode dizer é que Feig é um diretor feminino, no sentido de que ele realmente sabe lidar com as mulheres, abstrair o ambiente que as oprimem, dar uma leveza imponente e situações cômicas sem ser apelativo. Ele realmente consegue empoderá-las. Ainda é um homem por trás das mulheres, mas o que o diferencia dos outros é a maneira feminina como ele pensa e as dirige, e a grande discussão de gênero em Hollywood no momento, em sua essência, é sobre isso.

Por algumas vezes a impressão que se tem é que o filme se arrasta. Poderiam ter utilizado técnicas de passagem de tempo para acelerar a introdução, seja para encurtar a longa duração, ou para ter dado mais espaço aos momentos de ação ao invés de jogá-los todos para o final. Diverte mesmo assim, e a baxíssima pontuação do filme nos websites especializados são dos odiadores que irão sempre odiar. Como disse Melissa, este filme não estraga os filmes anteriores, como muita gente ofensivamente manifestou nas redes sociais. Os filmes originais estão lá, e são apenas os machistas e sexistas que querem opinar sobre isso.

E infelizmente é assim que o filme foi promovido, tanto que o título em português sequer traz o artigo definido feminino no plural para definir que AS caça-fantasmas são mulheres.

Sim, a resposta ao filme é conclusivamente mais machista do que qualquer intenção feminista que o filme pudesse ter.

CONCLUSÃO...
Embora massacrado pela crítica e por machistas de plantão, não apenas é muito melhor do que a mídia promoveu como também poderia ser uma excelente nova oportunidade para o início de uma nova franquia. Também é uma grande homenagem aos filmes originais, principalmente na parte estética e participações, que inclui a do Boneco de Marshmellow. Engraçado e nostálgico, mas que tropeçou no meio do caminho por uma inútil discussão de gênero, mas que ganhou relevância, nos mostrando que há muito caminho a ser percorrido para que essa dominância masculina seja enfraquecida.

TAMPEM OS OUVIDOS...

★★★★★★★☆
Título: Florence: Quem É Esta Mulher?
Ano: 2016
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Stephen Frears
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda
País: Reino Unido
Duração: 111 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Florence é uma mulher que a vida toda perseguiu a carreira de cantora, mesmo tendo uma péssima voz.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de Julie e Julia (2009) e seu terceiro Oscar por A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011), parece que Meryl Streep tomou gosto por personagens reais e excêntricos, pois Florence é tão única quanto as dos dois filmes anteriores.

Embora sua caracterização como Julia Child tenha sido um tanto quanto exagerada e, por que não dizer, muitas vezes fora do tom, ela conseguiu sua 14ª indicação. Mas isso não era nenhuma surpresa, assim como não será surpresa ela ser indicada novamente por representar Florence, caracterização que chega a impressionar, mas ainda vemos a sombra de Meryl-atriz em algum maneirismo ou outro, algo que não aconteceu quando impersonou Margareth Tatcher. Independente disso, com certeza arrancará algumas gargalhadas e também alguns olhos marejados em momentos dramáticos pontuais para isso, como toda e qualquer boa dramédia, principalmente porque Meryl também é uma grande atriz de comédia.

O filme começa dizendo que a história é baseada em fatos reais, e realmente é. Existe um documentário sobre a cantora chamado Florence Foster Jenkins: A World Of Her Own (2007) que pode ser assistido no YouTube (em inglês, sem legendas). Sua história nele é bem detalhada desde antes de se tornar uma socialite respeitada e de fundar o Clube Verdi, em 1917. O interessante do filme é que ele não é detalhista na biografia de Florence, mas é possível compreender boa parte pela forma como o roteiro dispõe alguns dos principais fatos, seja diretamente, ou indiretamente através dos diálogos. A cronologia dos fatos se altera um pouco para o bem do arco dramático, mas mesmo assim é respeitoso, algo que poderia se esperar do diretor Stephen Frears, já que ele segue o mesmo tom misto que deu a Philomena (2013).

Florence aprendeu a tocar piano cedo e era muito talentosa no instrumento. Tentou estudar música na Europa, mas seu pai não apoiava a escolha. Foi então que casou com Frank Thorton Jenkins, em 1885, e um ano depois descobriu ter contraído sífilis dele. Ela o deixou e, mesmo nunca falado dele, manteve o sobrenome por razões sociais da época. Como pianista, teve que encerrar a profissão abruptamente após uma lesão em seu braço, passando a dar aulas em Filadélfia até se mudar para Nova York, em 1900, onde conheceu e morou junto com o britânico St. Clair Bayfield. Pouco tempo depois seu pai morreu, e ela ficou beneficiária de boa parte da fortuna (que praticamente duplicou após a morte da mãe, em 1930).

Com essa renda, Florence voltou a perseguir suas aspirações musicais, fazendo aulas de canto e participando ativamente de grupos e clubes de música na alta sociedade, promovendo ensaios, recitais e concertos, muitos deles beneficentes ou que fossem revertidos para cobrir eventos, atraindo a atenção das pessoas e se tornando bastante influente. Foi então que fundou o Clube Verdi, um dos maiores e mais famosos de Nova York na época.

Além de tudo, Florence doava grandes quantias de dinheiro a clubes de música, eventos sociais, culturais, e a qualquer indivíduo que batesse em sua porta pedindo "patrocínio", como acontece brevemente em uma das cenas do filme. E ela o fazia sem sequer questionar. Além de tudo, Florence era uma grande entertainer. Era inteligente, extrovertida e os eventos que promovia eram sempre os mais disputados pois ela não fazia economia. As pessoas eram sempre bem servidas das melhores músicas, comidas e bebidas, com excessão de suas apresentações que eram sempre mais cômicas do que qualquer outra coisa. E foi assim ela fez seu nome.

Portanto, a história de Florence mostra que o fato de continuar cantando mesmo sendo uma péssima cantora era porque as pessoas tinham muito mais medo de perder o apoio financeiro e o status social que ela fornecia do que magoá-la de fato. Sem saber, ela havia comprado a opinião de toda a classe intelectual e artística de Nova York, e não porque St. Clair corria pra lá e pra cá encobrindo o desgosto das pessoas, como o filme mostra de maneira bastante romântica. Até porque há uma grande dúvida se a relação entre ela e St. Clair era apenas conveniência ou se realmente havia um sentimento, algum respeito de fato.

De qualquer forma, parecia ser uma mulher um tanto ingênua e altruísta, algo que Meryl consegue passar em sua atuação. E por incrível que pareça, o timbre da atriz é bastante parecido com a de Florence. Meryl canta todas as vezes do início ao fim do filme, sem dublagens, e a similaridade com os originais de Florence são bastante impressionantes, além de hilários.

Claro que em alguns momentos o roteiro nos dirige para o drama, mas é algo previsto em um filme biográfico, afinal, qual seria a razão dele sem qualquer lágrima? O interessante é que, como dito, é respeitoso e não apelativo, momentos que se tornam um pouco mais densos nem pelo seu conteúdo, mas pela situação e atuação que são envolventes. Apelativo é o título em português e sua incrível capacidade de fazer o público perder o interesse, já que apenas pelo título transforma a produção em uma comédia pastiche e ridícula, além de dar a impressão de que ela seja "louca" porque é mulher.

Uma pena Frears levar a direção de forma muito segura e até bastante simples. Ele podia ter optado por planos mais abertos do que os fechados, principalmente nas sequências em que Florence se apresenta. Podia ter aproveitado mais o palco e a liberdade da atriz nele, e não em querer reafirmar a performance de Meryl, como que a querer nos convencer que ela é uma grande atriz e sempre merece um Oscar e destaque. Nós já estamos carecas de saber disso, mas os diretores adoram explorar a imagem dela, mais do que o trabalho que ela faz de fato, e quando fazem isso, o filme deixa de ter uma história para ter simplesmente Meryl Streep.

E falando em performance uma vez li que antes de Madonna existiu Florence, já que era muito performatica para a época, com figurinos e cenários que ela mesma mandava desenhar. Um exemplo disso foi sua fissura em se apresentar no Carnegie Hall, uma das mais importantes casas de espetáculos de Nova York, fato que não aconteceu exatamente como o filme mostra, primeiro porque as negociações demoraram um pouco, além de ser dito que Florence estava tão extasiada com a experiência que não notou a platéia rir e zombar de sua horrenda apresentação, saindo de lá até bastante satisfeita. O que a deprimiu foram as críticas publicadas nos jornais no dia seguinte, sua saúde se definhou no decorrer dos dias, posteriormente levando-a à morte.

Por fim, é uma história cômica e ao mesmo tempo trágica, pois percebemos que a música para Florence foi, de fato, um combustível de vida e uma paixão que a ajudou a superar frustrações e a não enxergar a maldade ou os interesses alheios, mas que rendeu um filme leve e bem dosado, talvez muito perfeitinho e correto no seu desenvolvimento propositalmente para render algumas indicações na temporada de premiação que começa em Novembro.

CONCLUSÃO...
A história do filme é bem próxima com a biografia de Florence, com algumas mudanças aqui e alí no desenvolvimento e na cronologia para o bem do drama, mas nada que incomode de fato, ou que diminua a curiosidade das pessoas em saber mais sobre essa figura. É um filme comum, correto e decente. Acima de tudo, respeitoso, fazendo valer a intenção em assistí-lo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ADORAMOS VÊ-LO FUGIR. SEMPRE!

★★★★★★★☆☆☆
Título: Jason Bourne
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassell, Julia Stiles
País: Reino Unido, China, Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Bourne está fora dos radares da CIA, até uma antiga agente desligada interceptá-lo com novas informações sobre seu passado.

O QUE TENHO A DIZER...
Uma coisa é fato, e indíscutível: Se não fosse Jason Bourne, os filmes de 007 não estariam tão bons. Jason Stathan não teria virado referência no gênero e Matt Damon seria apenas um ganhador de Oscar que continuou fazendo dramas medianos.

Acredite, a Trilogia Bourne original foi revolucionária no cinema de ação atual e o seu formato impactou diretamente a forma de se fazer filmes do gênero em Hollywood, a começar pelo dinamismo na edição e a câmera mais livre que Paul Greengrass adicionou a partir do segundo filme (já que o primeiro foi dirigido por Doug Liman), e isso deu a sensação de o espectador ser um grande observador ativo em toda a história.

Apenas a Trilogia Bourne arrecadou quase US$2 bilhões pelo mundo (somando bilheteria e home vídeo), além de respeitosamente figurar entre os 100 melhores filmes de ação da história. Mas as pessoas devem saber que foi gradual, e o sucesso do herói só foi tomar proporções mundiais de fato no terceiro filme.

Como dito, Bourne foi um divisor de águas no cinema de ação, e o que Tony Gilroy e Paul Greengrass fizeram, se tornou referência.

A trilogia foi baseada em uma série de livros de Robert Ludlum, uma série que foi continuada pelo escritor Eric Van Lustbader após a morte do colega em 2002. Depois do terceiro filme, Greengrass afirmou que não voltaria à franquia, tanto que, quando soube que haveria uma continuação com Jeremy Renner (que não teria Damon, mas aconteceria no mesmo universo), o diretor bricou, entitulando o filme como "A Redundância Bourne".

Mesmo sendo escrito e dirigido por Tony Gilroy, roteirista e produtor da trilogia original, O Legado Bourne (The Bourne Legacy, 2012) não causou o mesmo impacto principalmente porque seguiu uma estética muito similar ao primeiro filme, dando aquele ar de deja vu no decorrer da trama. Mas de qualquer forma, Renner deu ao personagem Aaron Cross possibilidades para crescer. E o fato de terem continuado a trama por outro ponto de vista apenas reinterou a informação dos filmes anteriores de que Jason Bourne nunca foi o único, expandindo o universo para novas possibilidades.

Questionado frequentemente se voltaria ao papel, ou se haveria possibilidade de um encontro entre Jason Bourne e Aaron Cross em algum ponto da franquia, Matt Damon sempre afirmou que só voltaria se Paul Greengrass dirigisse o projeto. E assim foi. Greengrass, que outrora zombou de continuações, voltou ao projeto e Damon também. Se foi excepcionalmente pelo dinheiro, não se sabe, o que sabemos é que a parceria funciona, e que Damon realmente gosta de Bourne.

O filme começa com Nicky Parsons (Julia Stiles, a mesma da trilogia original) já desligada da CIA e hackeando a agência para obter documentos dos programas secretos de segurança do Governo, já que está intencionada a expô-los publicamente, no qual incluem os projetos Treadstone, Emerald Lake, Rubicon, Spearfish, LARX, Outcome, Hourglass, Spectrum, Blackbriar e Iron Hand, dos quais alguns já foram mencionados nos filmes anteriores. Bourne foi um dos primeiros no projeto Treadstone, e Nicky a responsável por alertá-lo de que ele não era o único, e que havia outros projetos além do que ele participou (é daí que surge o personagem Aaron Cross, que fez parte do projeto Outcome, explorado em O Legado Bourne).

Óbvio que, sem saber, ela será rastreada durante o hackeamento, indo atrás de Bourne para ajudá-la a revelar as informações. Bourne, que estava desaparecido dos radares desde os acontecimentos do último filme da trilogia original, novamente se torna alvo da CIA juntamente com Nicky, e a partir daí começam as cenas de perseguição, fuga, combate e espionagem clássicas da série.

Algumas pequenas mudanças ocorreram. No lugar de Pamela Landy (Joan Allen), entrou Robert Dewey (Tommy Lee Jones) como novo diretor operacional da CIA, e a função de Nicky Parsons (Julia Stiles) agora é de Heather Lee (Alicia Vikander). A questão é que Heather é muito mais ambiciosa, e quer derrubar Dewey para inciar uma nova geração de operações na CIA.

É inegável que, apesar de o cenário ser sempre o mesmo e esta sequência nem ser uma das melhores da franquia, ainda consegue ser um excelente filme de ação. Por parte do enredo, é um dos mais fáceis dos quatro filmes, não há reviravoltas mirabolantes, pistas falsas ou excesso de informações sobre os programas secretos para ficarmos confusos. Nem diálogos há muito, sendo o filme em que Matt Damon menos fala nas mais de duas horas de duração, ganhando até mesmo de seu personagem em Perdido em Marte (The Martian, 2015).

Mas quem disse que Bourne precisa falar? Matt Damon sempre foi um ator mais expressivo do que performático, e ele fez disso a característica principal de Bourne, sendo o verdadeiro atrativo dos filmes, afora as cenas de ação que aqui podem não ter tanto quanto nos anteriores, se extendendo demais em perseguições de carro, mas que mantém o mesmo ritmo frenético de Greengrass. Portanto, tem festival de sobra para os fãs, e a qualidade sonora e visual é bem paga no alto orçamento de US$120 milhões.

As reviravoltas na trama são modestas, e o que fazem delas interessantes são os próprios atores. Tommy Lee Jones é sempre carrancudo, objetivo e determinado, algo que ele sempre foi e por isso se encaixa em papéis como esses, não sendo à toa que ele bata o recorde de personagens que sejam ou da CIA, ou do FBI. Em contraponto está Alicia Vikander, sempre na espreita, tentando manipular e chegar ao centro comendo pelas bordas. Sua personagem é uma das mais interessantes da franquia, justamente por Bourne nunca saber de que lado ela realmente se encontra, uma dúvida que ganha o espectador ao também deixá-lo na mesma situação, o que é algo difícil de acontecer. Tanto que o filme rende um dos melhores finais da franquia. Final simples, mas de uma engraçada e merecida frustração (e que não é do espectador), encerrando com chave de ouro essa história, mas deixando aberto para um provável futuro.

Jason Bourne é o filme mais fácil da série, na intenção de conquistar o público jovem que não o conheceu antes (já que existe um buraco de quase 10 anos entre o último filme e este), a geração Y que pouco se importa com o conteúdo. Entitulá-lo apenas com o nome do personagem dessa vez pode significar o recomeço que a franquia não conseguiu com O Legado Bourne, até mesmo porque o filme arrecadou mundialmente mais de US$412 milhões, o que já garante sua continuação e mostra que o personagem ainda tem fôlego para sobreviver, mesmo depois de tanto tempo. E não há como se discutir: todos nós amamos Bourne, e adoramos vê-lo fugir sempre.

CONCLUSÃO...
Não é o filme mais forte da franquia, mas também não é descartável. Talvez seja a retomada da série. E que seja, Jason Bourne é o fugitivo que sempre iremos adorar ver.

CONFORTAVELMENTE EFICIENTE...

★★★★★★★☆☆☆

Título: Warcraft
Ano: 2016
Gênero: Ação, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: Duncan Jones
Elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbel
País: China, Canadá, Japão e Estados Unidos.
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Baseado na série de jogos de RPG, a guerra entre Orcs e Humanos começou.

O QUE TENHO A DIZER...
Embora tenha sido um fracasso nos EUA, não conseguindo chegar nem a US$48 milhões nas bilheterias, no resto do mundo o filme foi um sucesso, arrecadando um total de quase US$434 milhões por conta da fidelidade dos fãs sobre um dos títulos multimídia mais famosos de RPG da história.

Warcraft é uma febre entre adolescentes e jovens adultos, e um filme com seu título demandava muita responsabilidade, já que a História nos revela a péssima reputação que adaptações de jogos tem nos cinemas.

Mesmo aqueles que não são fãs, ou que particularmente não conheçam nenhum dos jogos, irá entender tudo muito facilmente. Para aqueles que sejam familiarizados com o estilo, ou que ao menos tenha assistido aos filmes do Senhor Dos Anéis - ou lido os livros de Tolkien - já tem material suficiente para ficar satisfeito sem compromisso. Sim, Tolkien sempre será uma referência vívida em qualquer título de RPG, pois foi ele quem popularizou a tal gramática - ou protocolo - que envolve a criação desses mundos.

A história é simples demais, explicando brevemente que a guerra entre Orcs e Humanos vai ter início a partir do momento em que um ambicioso feiticeiro Orc abre um portal no mundo de Draenor para o mundo de Azeroth, onde poderão reconstruir sua raça. O problema surge quando os humanos começam a ser mortos em massa sem saberem os reais motivos disso, e então a guerra é declarada.

Por um enredo principal tão simples, poderia se esperar o pior. Mas a questão é que em RPG's o simples existe para dar espaço ao complexo, que no caso seriam as subtramas e uma maior densidade dramática nos personagens. Mas o filme, dirigido e escrito por Duncan Jones (filho de David Bowie), ao invés de seguir a estrutura dos jogos, conseguiu transportar com bastante objetividade apenas o necessário, incluindo subtramas, e o arco dramático dos personagens é bem brando, causando uma comoção aqui e alí, mas nada muito pesado ou profundo. Basta dizer que ele fez tudo isso sem estragar nada, tudo numa zona de segurança muito-muito segura mesmo. A razão parece óbvia o bastante: dar oportunidade para os espectadores serem mergulhados no mundo de Azeroth, com a atenção voltada apenas aos detalhes que fazem parte das estruturas de um típico RPG.

O mundo distinto, os diferentes mapas, as estratégias de guerra, orcs, humanos, elfos, anões, animais de estimação (os "pets"), cidades com arquiteturas próprias, choques culturais, línguas distintas, florestas, magos, magias, explosões coloridas, encantamentos, vegetação e clima variados, etc... Tudo que se pode esperar de um mundo fantástico, como é o de Warcraft, ou de qualquer outro RPG, está no filme, seja em presença ativa ou apenas uma mera referência. É uma adaptação simples, mas consistente no seu propósito, que abraça os principais ícones do gênero e do estilo para criar um mundo fantasioso e à parte, com sua própria mitologia. Isso faz parte do protocolo, e realmente é difícil sair do hors concurs, do senso comum, daquilo que partiu de uma fantasia RPGista.

Mesmo com um orçamento exorbitante de quase US$150 milhões em 10 anos de produção, o filme mais parece uma cena de 120 minutos de computação gráfica (CG) retirada de algum dos jogos do que algo filmado de fato. Claro que as animações são deslumbrantes, principalmente dos Orcs, que por vezes passam uma expressividade ou uma naturalidade nos movimentos ao ponto de ficarmos na dúvida se são atores reais em pesada maquiagem ou não, mas que por outras vezes a artificialidade também fique bem nítida. O mundo construído é extremamente detalhado, mas tudo, como um todo, parece muito plástico, sem aquela mesma beleza mais natural e realista que se vê, por exemplo, na trilogia O Senhor dos Anéis. Por vezes tive a impressão de estar assistindo mais um episódio de algum seriado do Sci-Fi Channel. Mas tudo bem, porque visualmente Warcraft consegue ser complexo, e o que Jones conseguiu fazer em cima disso ainda é admirável. O excesso de CG não estraga a experiência, mas chega um ponto em que nos perguntamos qual o motivo de atores reais estarem no meio de tudo? E sem dúvida, isso acaba reduzindo sua relevância como um filme, mas não como entretenimento.

A maioria do elenco parece bem amadora, e de todos apenas dois nomes são bem conhecidos: Paula Patton, como Garona; e Ben Foster, como Medivh. Há também uma brevísssima aparição de Glenn Close, mas é tão rápida que se piscar os olhos na hora errada, vai perder.

O filme pode ter um roteiro raso e um enredo simples, mas se fosse o contrário, todo o encarecido e plastificado visual se ofuscaria com facilidade. Ainda não é um filme que conseguirá representar o RPG como Peter Jackson fez, mas consegue ser uma das poucas boas ataptações de jogos para o cinema e que diverte sem ser presunçoso, principalmente porque nenhuma raça é verdadeiramente vilã, algo que Jones fez questão de deixar claro.

CONCLUSÃO...
O enredo simples existe para não ofuscar o visual ou fazer o espectador perder o foco além de simplesmente mergulhar na fantasia do mundo de Warcraft. Mas a zona de conforto no medo de estragar uma série de mundial sucesso fez de tudo apenas mais um entretenimento, com uma relevância quase inexistente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

É SALLY QUEM MANDA...

★★★★★★☆☆☆☆

Título: Doris, Redescobrindo o Amor (Hello, My Name Is Doris)
Ano: 2015
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 12 anos
Direção: Michael Showalter
Elenco: Sally Field, Mas Greenfield, Tyne Dali
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher tem de redescobrir como lidar com uma inesperada paixão quando um homem 30 anos mais novo se apresenta como novo colega de trabalho.

O QUE TENHO A DIZER...
Não, o título original do filme não é sobre a amiga esquecida de Nemo. E, sim, o título em português, além de cafona, não traz o mesmo humor embutido do original.

Na verdade é uma das pequenas e agradáveis surpresas do ano. Não que seja um filme estupendo, mas também não é ruim. É algo diferente, que talvez já tenhamos visto antes em alguma época, mas que ainda sim consegue ter seu charme e até um certo alento excepcionalmente por causa de Sally Field.

Ela é Doris, uma acumuladora sexagenária que perdeu a mãe há pouco tempo, com a qual viveu e cuidou por mais de 40 anos e não viu sua vida passar, nem seus sonhos se realizar, tendo como hobbie, além de colecionar tranqueiras, ler literatura romântica barata ou assistir programas de autoajuda. Ela trabalha em um escritório que a mantém no mesmo cargo há décadas por ser uma funcionária antiga, que veio agregada à uma transição que a empresa sofreu. Doris é o tipo de mulher retraída, que ninguém conhece, ninguém faz questão de conhecer, mas respeitam mesmo assim pela sua idade, e não por aquilo que é ou faz.

Tudo muda quando ela conhece John (Max Greenfield) em um elevador, e é pega de surpresa quando este se apresenta como um novo colega de trabalho. E a partir daí ela passa a alimentar um amor platônico maior que ela.

Sim, um enredo um pouco cliché, que tenta novamente transformar uma idosa em vítima de sua própria condição social e dos valores que a sociedade prega. E para diminuir a dramaticidade, trasformaram Doris em uma mulher excêntrica, parada no tempo, que não entende gírias e usa as mesmas roupas e o mesmo cabelo da adolescência. Poderia ter sido algo que usasse e abusasse das pataquadas de uma senhora desajustada para cair no humor comum e barato. Isso até acontece algumas vezes, mas que funciona por conta de uma atriz que sempre transmite uma honestidade muito forte. Não é à toa que, mesmo nos momentos mais constrangedores e típicos de comédias românticas que colocam personagens mais velhos em situações que fogem da realidade que vivem - como no momento em que Doris começa a dançar música eletrônica em sua sala, ou quando vai conhecer o líder de uma banda - conseguimos nos simpatizar com ela, deixar o constrangedor de lado e enxergar tudo como um momento libertador e sincero, que seria pequeno e infame caso o semblante extremamente motivador de Sally não fosse presente.

Claro que a vida de Doris ora se torna doce, ora amarga justamente pelas diferenças culturais e etárias em que ela se mete e das desilusões que passa por entender as entrelinhas de forma errada, nos trazendo momentos um pouco entristecedores pelo esforço que pessoas na mesma condição dela acabam fazendo para se sentirem socialmente relevantes ou aceitos. Mas fora isso, seu amor platônico se torna bastante real, ingênuo e puro, e a dificuldade que a personagem tem de lidar com isso, as marés baixas e altas desse tão conflituoso sentimento, deixa de ser dela para se mostrar algo universal, que independe de idade. 

Independente de qualquer coisa, consegue ser um filme leve, que pode não causar gargalhadas pois é ameno nas palhaçadas que poderia ser comuns em filmes similares, deixando aquela sensação um tanto purificada, como um gás hilariante que espalha um leve sorriso de satisfação pelo ar. Não digo que consiga ser um filme que faça jus ao talento de Sally Field, mas esse talento em si é tão radiante que a sensação que se tem é que quem mandou em tudo foi ela, aquela atriz que não precisa mais ser dirigida, apenas filmada.

CONCLUSÃO...
Um filme pequeno e bastante honesto sobre um amor platônico tardio, com uma personagem igualmente pequena e sincera, mas que se engrandece pela intensa e radiante presença de Sally Field.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O HUMOR NEGRO (SEM HUMOR) DE SOLONDZ...

★★★★★★★
Título: Wiener-Dog
Ano: 2016
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Todd Solondz
Elenco: Tracy Letts, Julie Delpy, Greta Gerwig, Kieran Culkin, Danny DeVito, Ellen Burstyn
País: Estados Unidos
Duração: 88 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um cachorro é o personagem principal de quatro histórias sobre quatro personagens.

O QUE TENHO A DIZER...
Para quem acompanha a carreira de Solondz desde seu primeiro filme, já conhece o estilo do diretor de trás pra frente. Embora ele aborde sempre os mesmos temas, esses são tão complexos que seus filmes nunca se repetem da mesma forma. Bastante fora do circuito comum, esse norteamericano faz parte do pequenino grupo de diretores autorais e independentes que nadam contra a maré hollywoodiana.

É um pequeno gênio do cinema alternativo, cuja narrativa sempre tende a ser mais artística, introspectiva, que lida com os mais diversos temores humanos e suas complexidades. E como não há nada espetaculoso, acaba sendo ignorado. Como já escrevi em uma outra análise, Solondz brinca com o humor negro todo o tempo para aliviar o peso dos complexos temas dramáticos, dando o balanço exato e necessário para que verdadeiras discussões sobre a vida - muitas vezes pesadas - se transformem em algo comum como um café da manhã.

O diretor nunca teve uma grande evolução ao longo de seus filmes, no sentido de explorar outros espaços e situações. Ele sempre se manteve fiel às discussões humanas, na relação entre eles e como os conflitos se desencadeiam em efeitos borboleta. Ou seja, pequenos atos que dão origem a grandes ou trágicas conclusões.

Pois é. A impressão que se tem quando se fala dele é que seus filmes sejam tão densos ao ponto do insuportável. Mas não. Há uma delicadeza nata, uma naturalidade que muitas vezes nos impede de ver além do óbvio pela forma simplista como ele condensa tudo. Suas histórias e personagens demandam atenção e cuidado, pois realmente são criados e lapidados com muito detalhe. Quando algum de seus filmes acaba, a sensação que se tem a princípio é de uma breve catatonia, e então o tapa na cara é sentido com certo retardo.

Em Wiener-Dog isso não seria diferente, principalmente depois de dois grandes filmes que foram Dark Horse (2011) e A Vida Durante A Guerra (Life During Wartime, 2009). Nessa antologia o personagem principal é um cão Basset (ou Dashshund), que irá vagar por quatro histórias muito distintas. Com excessão das duas primeiras, as duas últimas não parecem ter uma conexão direta, e de fato não sabemos se o cachorro é o mesmo, que passou de dono em dono, ou se são cachorros distintos. Talvez esse seja o ponto negativo de uma narrativa que teria sido muito mais impactante e coesa se a conexão fosse mais óbvia como é nas duas primeiras partes, justamente por conta da conclusão que o filme tem, o qual foi responsável por algumas vaias recebidas no festival de Sundance.

O cachorro nada mais é na história do que um substituto daquilo que os personagens tem ausência, seja amor, companheirismo, ou de um simples adorno de mesa, e como são moldados por seus donos para conceder essas satisfações. A amargura, a displicência, a infelicidade e, acima de tudo, a solidão, são as discussões corriqueiras de Solondz e nessas histórias, havendo até tempo para um final feliz na única delas que foge da tragédia das demais, que por um breve momento nos faz sorrir e acreditar que o mundo nos reserva coisas inesperadas em meio a tanta negatividade e agressividade do ambiente que vivemos.

A primeira história já começa na crueldade Solondz de ser, sobre um casal rico e infeliz, que superou a doença terminal do filho único. O pai (Tracy Letts) explica ao filho o motivo de deixar o cachorro preso, e assim domesticá-lo para que ele passe a agir como um humano, mesmo que ele, em sua natureza, ainda tenha que ser levado para fora para fazer suas necessidades. É o contraditório e o antinatural. Acontece que a inocência do garoto o impede de compreender certas distinções, levando algumas das explicações na total literalidade infantil ao ponto de quase matar o animal ao dar a ele um pequeno pedaço de uma barra de cereais. A falta de tato dos pais se intensifica nas vezes em que a mãe (Julie Delpy) tenta intervir no relacionamento do seu filho com o cão. A forma como ela assim faz pode parecer até absurda e engraçada na atmosfera tragicômica criada, mas é a essência da crueldade propriamente dita, uma afronta à imatura intelectualidade do garoto. A domesticalização humana. 

O cachorro, por fim, vai parar nas mãos de Dawn Wiener (Greta Gerwig), a devastadora personagem do seu segundo longa, a qual era constantemente assediada na escola, apelidada de Salsichona (o "wiener-dog" do título, ou "cachorro salsicha"), e que agora, já adulta, trabalha como auxiliar veterinária. Irônico como apenas Solondz poderia ser.

Na visão do diretor, agora adulta, é como se a personagem tivesse personificado todo o trauma infantil e se transformado naquilo que as pessoas fizeram-na acreditar ser por toda a vida. Não é à toa que, ao ver o cachorro prestes a ser sacrificado, o seu lado ingênuo, o mesmo de quando era criança, despertam. Ela foge da clínica com o animal, se identifica com a solidão dele, e o batiza de Sujinho (ou algo assim), por conta da aparência que ele tinha quando chegou em suas mãos. É Dawn reproduzindo no animal o que fizeram com ela na infância, tal qual ela fazia com sua irmã mais nova em seu próprio longa. Somos nós reproduzindo a crueldade alheia naqueles que consideramos mais fracos.

Duas semanas depois ela reencontra Brandon (Kieran Culkin), um antigo colega de escola que a molestou e por quem acabou apaixonada, já que aquilo foi para ela a primeira experiência sexual que teve. Ao reencontrá-la ele a chama pelo apelido nada carinhoso de infância, mas ela já está tão condicionada ao tratamento que não mais se importa com isso. Ela virou aquilo.

A principio ele a trata com o mesmo desprezo de antes, enquanto ela outra vez se humilha para tentar ganhar sua atenção. É Solondz sendo provocativo outra vez, como querendo dizer que os anos passam, as pessoas se esquecem do passado, mas a essência continua a mesma, como aquela máxima que diz "quem bate esquece, quem apanha nunca esquece". A dureza do diretor, junto ao seu tom de humor trazem aquele sabor um tanto amargo quando Brandon, brincando com o animal, diz que os cachorros o adoram. Dawn nem se atenta ao fato de que ela era apaixonada por um rapaz que a tratava como um cachorro e que a xingava de cachorro. Ele também nem se atenta ao fato de que ela corria atrás dele como tal. Uma atitude passivo agressiva inconsciente dele, mas nós, espectadores, aqueles que já conhecem o passado de Dawn em Bem-Vindo À Casa de Bonecas (Welcome To Dollhouse, 1995), entenderá a referência e engolirá a seco.

Detalhar sobre essa história em específico é uma obrigação, pois Dawn é a única personagem que tem uma continuidade neste filme, e da qual temos conhecimento de sua bagagem atormentada, de uma infância desajustada e indesejada, de um filme cruel e ao mesmo tempo humano que foi esquecido com o tempo. Deve ser por isso que Solondz resgatou essa personagem que é a referência principal desse longa, talvez para finalmente libertá-la da eternidade trágica que o cinema lhe concedeu, e 20 anos depois concluir uma série de infortúnios de maneira muito honesta, mesmo que breve, seja para ela ou para os espectadores que a conhecem. Uma conclusão sincera e delicada em sua forma, mostrando que depois da tempestade vem a calmaria. Uma história curta, mas cheia de referências diretas e indiretas para aqueles que assistiram seu filme. Uma pena Heather Mattarazzo ter recusado reviver a personagem, mas Greta Gerwig consegue impersonar, mesmo que à sua forma, a essência cativante de Dawn.

A terceira e quarta história se assemelham pela solidão que os personagens se encontram, mesmo que por diferentes motivos. Temos um professor da faculdade de cinema, que é um roteirista fracassado no qual seus alunos o desprezam pela sua sua peculiar falta de talento e didática. É uma breve participação de Danny DeVito, mas tão consistente e marcante que a vida de seu personagem se torna dolorosa além da tela. E enquanto ele brilha com sua expressividade dramática, Ellen Burstin brilha intensamente na última história por justamente fazer o contrário, estar contida do início ao fim, enclausurada numa amargura que a vida lhe colocou.

E seguindo essa narrativa slice-of-life, os pedaços da vida desses personagens tem, em sua linha guia, uma cronologia óbvia ao longo das quatro curtas histórias: da infância, ao fim da vida; da perda da inocência, até a redenção sobre as consequências que isso traz, ao mesmo tempo que tudo isso mostra ser um ciclo do qual as gerações não estarão imunes. Solondz se referencia o tempo todo, como analisar sua própria trajetória. É um filme com teores existencialistas, como são todos seus filmes, mas que nunca perde o foco da realidade, nos fazendo encontrar os pontos positivos nos momentos mais negativos, e assim aprendermos algo com eles.

CONCLUSÃO...
Como dito, para aqueles que conhecem o trabalho de Solondz, Wiener-Dog é mais um ponto de vista excruciante da diversidade humana e dos problemas que nos atormentam. Não é tão brilhante quanto seus filmes anteriores, mas ainda consegue ter seu impacto, e por que não, sua beleza.
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