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terça-feira, 23 de outubro de 2012

"JOGOS VORAZES" É UMA FARSA REVOLTANTE!

★★★★★★★☆☆☆
Título: Batalha Real (Batoru Rowaiaru)
Ano: 2000
Gênero: Ação, Aventura, Drama, Horror
Classificação: 16 anos.
Direção: Kinji Fukasaku
Elenco: Tatsuya Fujiwara, Aki Maeda, Taro Yamamoto, Takeshi Kitano, Chiaki Kuriyama
País: Japão
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de alunos de uma sala são escolhidos para enfrentarem uma batalha em uma ilha deserta onde apenas um deverá sobreviver, numa guerra onde os amigos se tornam inimigos e os inimigos não são perdoados.

O QUE TENHO A DIZER...
É muito engraçado comentar sobre esse filme depois de já ter comentado sobre Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), porque no comentário que fiz sobre o filme americano, lembro que ainda achei interessante certa originalidade em trazer para a modernidade essa batalha similar à de gladiadores na Roma antiga.

Se eu tivesse assistido este filme japonês primeiro, hoje em dia meu comentário sobre Jogos Vorazes seria diferente, e eu diria simplesmente que o livro de Suzanne Collins (cujo roteiro adaptado também é dela) nada mais é que uma cópia descarada e mal feita de Batalha Real, uma encomenda arranjada.

É nessas horas que nós, pobres mortais ignorantes, nos damos conta do quanto somos sucetíveis a qualquer coisa, principalmente no que é produzido por norteamericanos. Pelo nosso contato com a cultura oriental ser praticamente nula, isso facilita sermos enganados por qualquer um que literalmente importe alguma idéia do outro lado do mundo, o que prova que podemos ser enganados por qualquer tolice. Já se diz há algum tempo que não existe mais originalidade, bem como nada se cria, tudo se copia. O grande valor se dá em quão capaz você é de fazer um cópia suficientemente boa para se dizer "parecida", porém diferente o bastante para não ter que pagar direitos da obra ou não ser processado por plágio.

Assim como Jogos Vorazes, Batalha Real também é baseado em um livro homônimo escrito pelo japonês Kaushun Takami. O livro ficou pronto em 1996, mas ele só foi originalmente publicado em 1999, diferente da "obra" de Collins, que foi publicada oito anos depois, ou seja, tempo suficiente que ela teve para estudar a obra de Takami e repaginá-la para dizer que é sua. Até o ano de 2000 o livro de Takami já havia vendido mais de 1 milhão de cópias apenas no Japão, sendo posteriormente traduzido em outras línguas, inclusive o inglês. No mesmo ano de seu lançamento, ele também recebeu uma adaptação em mangá e posteriormente para o cinema, se tornando também uma das maiores bilheterias do país, ficando entre os 10 filmes de maior arrecadação. O filme ganhou uma continuação, Batalha Real: Requiem (Battle Royale II: Requiem, 2003), porém o diretor Kinji Fukasaku morreu pouco tempo depois de iniciar as filmages, e o filme foi terminado por seu filho, Kenta Fukasaku.

Recebido com críticas mistas e muita controversa pelo público justamente por conta do seu tema e da violência explícita com menores de idade, por muito tempo correu o boato de que o filme havia sido banido dos Estados Unidos, o que é mentira. Sua distribuição foi constantemente adiada nos EUA por questões burocráticas da produtora japonesa detentora dos direitos e também por conta do mercado. Há também o boato de que houve um adiamento por conta do massacre de Columbine, já que o tema do filme relembrava bastante este episódio. A distribuição só foi ocorrer porque o filme esporadicamente aparecia nos circuitos de festivais norteamericanos, o que impulsionou a produtora Toei a vender os direitos de distribuição à Anchor Bay, a qual lançou oficialmente o filme em DVD e Blu-Ray em Março deste ano.

Para quem já assistiu  ou leu Jogos Vorazes infelizmente (ou muito felizmente) irá encontrar inúmeras similaridades que irão deixar os novos fãs dessa série de livros de Suzanne Collins um tanto decepcionados. E com razão, pois irão desmascarar que não há uma gota de originalidade em uma obra já tão pobre. A impressão que se tem é que Suzanne apenas traduziu para o ocidente a obra de Kaushun Takami, adicionando elementos mais popopulares e atuais da indústria midiática ocidental numa linguagem acessível e reduzida o suficiente para melhor assimilação do seu público alvo, os adolescentes e adultos jovens.

Mas ao contrário da fraca adaptação cinematográfica da pobre obra de Suzanne Collins, a adaptação de Batalha Real é muito mais madura e crua, como só os japoneses conseguem ser. Além de ser uma forte crítica ao estado totalitário, também critica as demais mudanças do comportamento social que vem acontecendo no Japão nas últimas décadas, um país o qual sua origem cultural é bastante rígida, baseada em preceitos milenares que colocam no topo da hierarquia social os mais velhos, grandes mentores da educação, da moral, dos costumes e da perpetuação da história. Há uma grande preocupação de que a cultura japonesa esteja sendo esquecida e cada vez mais banalizada por conta da facilidade de consumo da cultura descartável ocidental, além da inversão da pirâmide etária, na qual a população idosa está em uma queda inédita na história do país, dando lugar a uma população jovem mais atualizada e menos presa às correntes históricas.

O filme se passa em 1997, e começa com uma turma de estudantes do último ano do segundo grau sendo levados a uma ilha. Eles foram escolhidos dentre 50 turmas iguais de várias escolas, e todo ano uma dessas turmas é escolhida aleatoriamente. Nessa ilha isolada esses jovens são postos em um campo de batalha com uma mochila cada um, contendo suprimentos e uma arma qualquer para a sobrevivência básica. Dentre várias regras e penalidades eles são obrigados a duelarem entre si até apenas um sobreviver. Este "Programa", como é chamado, vem acontecendo desde 1947, sendo um projeto militar para aterrorizar a população e criar uma paranóia coletiva efetiva o bastante para que a população tenha suas atitudes e pensamentos contrários ao governo e a sociedade contidos de todas as formas, sendo uma maneira de também puní-la publicamente sobre seus atos. Este acontecimento anual se torna um evento explorado incansavelmente pela mídia, transformando o sobrevivente de cada ano em uma celebridade instantânea.

O filme é de uma brutalidade chocante, que consegue ser amenizado algumas vezes por conta do exagero clássico dos filmes japoneses nessa engraçada insanidade que eles desenvolvem. Algumas sequências são construídas numa linguagem de mangá, com personagens soltando frases de efeito em situações estáticas. O sangue jorra como água em mangueiras de jardim, tal qual Tarantino reproduziu e homenageou com exaustão em Kill Bill (2003/2004). Mas o clima tenso e desesperador é constante, e mesmo sem ler o livro é possível observar o nível de fidedignidade que o roteirista Kenta Fukasaku tenta manter na adaptação. Talvez o mais chocante do filme seja os dramas reais de cada personagem e como isso influencia suas escolhas, além de perder bastante tempo em mostrar o caos entre cada um deles. O filme peca um pouco na fotografia e numa trilha sonoroa que evidentemente aparece para tornar cenas mais apelativas, o que deixa mais constrangedor do que qualquer outra coisa, mas nem por isso os créditos são diminuídos, principalmente porque agora é possível saber que Jogos Vorazes é uma farsa.

Claro que sempre vai ter alguém que tentará provar o contrário, e mostrar até cinco grandes razões para haver diferença entre as duas obras, mas a realidade é que a essência é a mesma, e as similaridades superam as diferenças que deveriam existir. Além de que, eu também sou da seguinte opinião de que quanto mais você tenta provar o contrário para alguém, mais ela vai querer recusar o que você diz.

CONCLUSÃO...
Para quem ler a sinopse do filme, pode achar que copiei a sinopse do livro de Suzanne Collins por tanta similaridade com Jogos Vorazes. As similaridades são tantas que até o fim surpreende por ser tão parecido, e o engraçado é que grande parte das pessoas (assim como eu) ignoravam o fato de que, ao contrário do que pode parecia, Jogos Vorazes é uma obra com zero originalidade, o que transforma Batalha Real em uma grande obra cruel e adulta, tudo aquilo que Suzanne Collins fez questão de dimiuir pelo bem da cultura ocidental ditada pela mentalidade norteamericana.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NINGUÉM SABE O QUE FAZER COM ELA, NEM O ROTEIRISTA...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Excision
Ano: 2012
Gênero: Drama, Comédia, Horror
Classificação: 16 anos
Direção: Richard Bates Jr.
Elenco: AnnaLynne McCord, Traci Lords, Roger Bart
País: Estados Unidos
Duração: 81 minutos

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma adolescente problemática que sofre de delírios e alucinações, e tem a obsessão de se tornar médica.

O QUE TENHO A DIZER...
Excision é o primeiro filme escrito e dirigido por Richard Bates Jr., estrelado por AnnaLynne McCord (a patricinha Naomi Clark, na nova versão do seriado 90210), Tracy Lords e Robert Bart (o George, de Desperate Housewives). Claro que o filme fez parte da seleção especial do Festival de Sundance desse ano, já que é aquele típico filme contraditório que o público desse festival adora, tal qual o filme Sound Of My Voice no ano passado, do qual comentei dois posts atrás. Então quem já conhece esse público que adora cultuar um filme vago sem muitas razões, já poderá imaginar como é este filme.

Ainda é inédito no país e está um pouco popular pela internet. Ao contrário de como o filme vem sendo promovido ou mostrado em websites de compartilhamento de vídeos ou que falam de cinema, o filme não é de terror. Ele é um horror psicodramático com pitadas de humor negro. Complexo, não? Pois você ainda não viu como é a personagem principal...

Pauline é uma adolescente problemática que sofre de delírios e alucinações bizarras e necrófilas, com uma inteligência acima da média. Ela tem comportamentos antissociais e fortes desvios de conduta, o que a faz agir com ofensa, descaso, agressividade e desobediência com outras pessoas, incluindo familiares, exceto sua irmã mais nova e seu pai, já que eles não apresentam nenhuma ameaça. O contrário do que acontece com a mãe, com a qual tem um relacionamento difícil, já que a todo momento tenta podar ou punir Pauline por conta de seus comportamentos subversivos. Por ter sonhos bizarros e frequentes, Pauline desenvolve um quadro perverso e psicótico do qual ela não tem mais controle, além de sua crescente obsessão em se tornar médica para transformar esses sonhos em realidade. A garota não se enquadra em nenhum grupo social, sendo excluída e taxada de "estranha" e "esquisita", mas ela não liga por ser egocêntrica e considerar todas as demais pessoas inferiores. Sua mãe sabe que ela sofre de problemas que podem ser uma ameaça, mas não sabe lidar com a situação, tentando trazer Pauline mais próxima à família e a sociedade de acordo com aquilo que ela vivencia no dia a dia da sociedade, matriculando-a em um curso de etiqueta e levando-a regularmente a um padre conselheiro. Todas essas obrigações e regras faz Pauline detestar sua mãe cada vez mais, e a distância entre elas aumenta.

É um filme tenso, desconfortável, lento e com um final que choca, mas que não deixa esclarecido os motivos da personagem sofrer de tantos problemas psiquiátricos. AnnaLynne McCord desempenha um bom pape e é convincente, embora muitas vezes caricata. Mas quando essa caricatura é deixada de lado, chega a representar uma figura até assustadora, completamente diferente da patricinha manipuladora que ela interpreta em 90210.

O grande problema mesmo é o roteiro, que peca no excesso de embasamento clínico e na falta de objetividade. O roteirista e diretor utiliza inúmeras características de diversas condições psiquiátricas apenas para dar uma exagerada complexidade na personagem e fazer o espectador mais leigo se impressionar fácil, fugindo bastante de uma realidade clínica para aqueles que tem uma visão mais conscientizada dos diversos disturbios existentes. É fato que um doente psiquiátrico normalmente tem um distúrbio principal e que pode desencadear outros, mas no caso dela tudo acontece ao mesmo tempo, num exagero absurdo apenas para justificar o comportamento e a atitude final da personagem, e concluir que ela é uma vítima dela mesma. Tudo acontece de forma gratuita porque não há um aprofundamento a uma condição específica ou a fatores sociais que justificassem a personagem ser tão perturbada em níveis tão graves, ou seja, dá a sensação de que ela nasceu assim, cresceu assim e é assim por que é o que tem que ser.

Durante o filme a personagem diz que sofre de personalidade limítrofe (ou borderline), mas das duas uma: ou ela tirou um sarro (porque perto de tudo que ela sofre um transtorno borderline se torna simples), ou o próprio roteirista não sabia o que estava falando (o que eu acho mais provável).

De qualquer forma, algumas das características de um socipata, um psicótico, um perverso e até mesmo um esquizofrênico estão no filme, fora outras condições. As cenas que representam seus delírios chegam até a ter a intenção de uma beleza surreal, mas não acrescentam muita coisa na história. Coitada da personagem que sofre de tudo o que sofre. Não é à toa que ela é toda errada na história e ninguém sabe o que fazer com ela, nem o roteirista.

CONCLUSÃO...
Podia ter sido um filme bom se tivesse se limitado a uma condição psiquiátrica específica, mas ao invés disso o roteirista e diretor preferiu encher a personagem de problemas e dar pouco fundamento para a existência deles. Embora as cenas de delírio da personagem sejam carregadas em sangue, não é um filme de horror como aparenta, embora o final acabe sendo chocante. Pontos para a atriz, que no meio de uma personagem carregada de problemas e contradições, conseguiu dar conta do recado. Um filme feito mais pra impressionar do que qualquer outra coisa. Esquecível, e até mesmo dispensável.

sábado, 13 de outubro de 2012

LINCOLN SALVANDO A NAÇÃO DA ESCURIDÃO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Timur Bekmambetov
Elenco: Benjamim Walker, Dominic Cooper, Mary Elizabeth Winstead, Rufus Sewell, Simmi Simpson.
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Abrahan Lincoln foi muito mais do que um presidente dos Estados Unidos, e a história deixou de contar que ele também foi um caçador de vampiros e livrou o país e o mundo da escuridão.
O QUE TENHO A DIZER...
Abraham Lincoln pode ter passado despercebido nos cinemas. Com um orçamento de mais de US$69 milhões, não arrecadou nem a metade nos EUA, mas felizmente arrecadou um total de mais de US$100 milhões no mundo, salvando o filme de um completo fracasso. O interessante é que ele consegue ser melhor do que muitos filmes de ação sangrentos que pipocaram em 2011 e 2012, mas talvez o excesso de produções esquecíveis com protagonistas vampiros tem deixado o público mais atual desinsteressado.
Lincoln é um dos mais importantes presidentes dos Estados Unidos, se não for o mais importante e o mais relembrado, sendo citado incansavelmente em músicas, filmes, desenhos animados e até histórias em quadrinhos. Agora resolveram transformá-lo em um personagem de ficção num mash-up entre realidade e fantasia que pode não ser muito convincente, mas que de certa forma ajuda relembrar a importância desta figura na cultura norteamericana e a promover sua imagem de grande herói nacional numa época em que os Estados Unidos apenas exporta personagens patéticos, sejam eles reais ou fictícios, sofrendo amargamente com a falta de um grande representante da nação que possa promover o país e sua falsa hegemonia com a efetividade que faziam antigamente.
A história começa com Abraham Lincoln ainda criança, vendo sua mãe, Nancy Lincoln, morrer em delírio após ser mordida por um vampiro. Lincoln (Benjamin Walker) cresce fissurado na idéia de se vingar do vampiro assassino, até encontrar a oportunidade de matá-lo. Numa tentativa frustrada, Abraham é quase morto, sendo salvo pelo misterioso Henry Sturges (Dominic Cooper). Henry se propõe a ensinar Abraham a lutar e a matar vampiros, desde que ele siga determinadas regras como: não ter amigos, não se apaixonar, não fazer tudo por vingança, e apenas matar as pessoas que Henry designar. Claro que Abraham aceita as condições, mas não segue nenhuma regra, e acaba se apaixonando por Mary Todd (Mary Elizabeth Winstead), a grande companheira da vida do herói e presidente. E assim ele segue sua saga de caçador.
Claro que o filme não vai se atentar a detalhes históricos, mas até que o roteirista Seth Grahame-Smith (e também autor do livro em que o filme é baseado), dá boas pinceladas em alguns fatos como o auto-didatismo de Lincoln, a importância de sua formação em direito na carreira política, a amizade real com Joshua Speed, o debate entre ele e seu rival Stephen Douglas, o movimento social de Lincoln contra a escravatura, a Guerra Civil e sua ascenção à presidência.
Como um filme de ação e horror, ele funciona muitas vezes. A trilha sonora e a fotografia são sombrias e sujas. Os vampiros tem uma caricatura mais assustadora e bizarra, diferente de apenas aquela palidez cadavérica e olhos vermelhos de True Blood ou Saga Crepúsculo. Eles assustam como vampiros costumavam a assustar antigamente, agindo como monstros esfomiados, sugadores de sangue que pulam prontos para cravar as unhas e os dentes como predadores primatas.
Lembro que quando era criança fiquei noites sem dormir depois de ver a transformação da personagem Amy Peterson em vampira no filme A Hora do Espanto (Fright Night, 1985), e isso ficou marcado na minha memória como uma marca de gado. Os vampiros do filme são parecidos com essa imagem de Amy na minha memória, então toda vez que eles apareciam era como se um gatilho fosse apertado no meu cérebro, e talvez por isso eu tenha ficado surpreendido com eles.
Aqui os vampiros podem andar no sol, porque eles usam protetores solares. Tudo bem que os protetores solares surgiram no século XX, e não no final do século XIX, período em que a história do filme se passa, mas se Abraham Lincoln virou caçador de vampiros, porque não protetores solares já existirem em 1800, não é? Mas uma coisa que me irrita profundamente é essa constante mania de filmes que se passam em períodos muito anteriores mostrarem cenas de ação com técnicas de lutas modernas, como acontecem nesse filme. Que Abraham Lincoln era um lenhador, isso é fato e não ficção, e foi muito interessante ter mantido o machado como uma arma de caça porque eram instrumentos improvisados assim que eles usavam em revoltas armadas além das armas de fogo, principalmente o povo de classes mais pobres. E deveriam ter parado por aí porque nessa época, nos Estados Unidos, ninguém sabia outras formas de luta além de murro, paulada, ponta pé e tiro ao alvo, principalmente na região mais central e sul do país. As cenas de ação são bem feitas, num jogo entre câmera lenta e rápida que ficam bem ágeis no contexto, mas se eles perderam tanto tempo realizando coreografias modernas de luta, podiam ter elaborado algo mais mais rústico e ainda interessante ao invés de voadoras e pulos de ginasta só pra impressionar.
O melhor do filme é que não tem muita encheção de lingüiça e aquela coisa de "temos que nos armar até os dentes para matar o chefe dos vampiros". Todo mundo morre na hora que tem que morrer e também não tem cena de sentimentalismo barato com trilha sonora chorosa só pra insistir na idéia de que Abraham Lincoln era um homem louvável. Tim Burton assina a produção, o que eleva um pouco o nível e acrescenta aquela pitada de sarcasmo que todo mundo gosta. Dá umas escorregadas quando Lincoln envelhece, porque no livro a história se extende até sua morte, mas no filme não funciona muito bem.
CONCLUSÃO...
Merece ser assistido porque tem tudo aquilo que alguém espera em um filme de ação, entretém, assusta e prende atenção, mesmo tendo mantido muitos dos clichés que o impedem de ser um diferencial tal qual enfiar uma figura historica norteamericana em uma situação bastante fictícia. Mesmo assim é muito melhor que muitas produções do gênero, mas parece que as pessoas ultimamente tem preferido o que é pior.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

É VERDADE... É MENTIRA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Sound Of My Voice
Ano: 2011
Gênero: Drama, Suspense, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Zal Batmanglij
Elenco: Christopher Denham, Nicole Vicius, Brit Marling
País: Estados Unidos
Duração: 85 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal de jornalistas resolve se infiltrar em um culto onde a líder afirma ter vindo do futuro, e coletar material suficiente para a produção de um documentário.
O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro filme dirigido por Zal Batmanglij, e também um dos dois primeiros escritos pela atriz/roteirista/produtora e amiga pessoal, Brit Marling. O filme ainda permanece inédito no Brasil (tanto em cinema quanto em home video), mas como sempre, isso hoje em dia não é mais um fator limitante pra quem se interessa por títulos que fogem do convencional, mas não encontram distribuidoras no país.
A biografia de Brit Marling é interessante. Ela é formada em economia e chegou a receber uma proposta de emprego na Goldman Sachs, uma grande firma de investimentos e seguros norteamericana, mas resolveu se dedicar a arte. Mudou-se para Los Angeles para investir na carreira de atriz e enquanto explorava e estudava a indústria cinematográfica acabou recebendo inúmeras propostas para ser estrela de filmes de terror adolescente. Cansada disso, resolveu fazer tudo a sua própria maneira e segurar as rédeas com as próprias mãos, escrevendo seus próprios filmes para que ela tivesse oportunidade de interpretar papéis melhores. Isso resultou em dois filmes: Sound Of My Voice e A Outra Terra (Another Earth, 2011), ambos filmados ao mesmo tempo. Durante o dia ela filmava A Outra Terra, e  a noite filmava Sound Of My Voice. Hoje, aos 29 anos, Brit Marling é um nome promissor, e o terceiro filme em que assina o roteiro, produz e atua (novamente em parceria com Zal Bamanglij na direção), chamado The East, está em fase de pósprodução, com um elenco que inclui nomes de peso como Alexander Sakrsgard (o Eric, de True Blood), Ellen Page (de Juno, 2007) e Julia Ormond (de Sete Dias Com Marilyn, 2011).
Seus dois primeiros filmes foram lançados simultaneamente no Festival de Sundance de 2011, o que gerou bastante comentário e ajudou Sound Of My Voice ser um hit no festival. Como de praxe, todo ano o público de Sundance elege sem muitos parâmetros um filme para ser cult, gerando comentários sobre algum título que nem precisa ser bom, mas que acaba despertando o interesse de muita gente. Igual acidente de carro: nunca é bom, mas o barulho faz todo mundo parar pra ver. E é exatamente o que acontece com este filme, que vem colhendo um sucesso de crítica discreto por conta dessa poeira erguida por este festival do ano passado e por outros como South by Southwest e Festival Internacional de Palm Springs.
Conta a história de um casal de jornalistas Lorna (Nicole Vicius) e Peter (Christopher Denham) que se infiltram em um culto para desmistificá-lo e usar isso como material para um documentário. O grupo se encontra secretamente em um porão para seguir uma líder, Maggie (Brit Marling), que afirma ter vindo do futuro para alertar os homens de seus próprios perigos e fracassos. Essa líder, que aparentemente sofre de algum tipo de doença, vive em um porão porque deve evitar o contato direto com o mundo externo e atual, diferente da época em que veio, o que a deixa mais vulnerável a contágios e infecções. Isso é o que ela diz. Por isso, a cada encontro, os membros do culto devem se higienizar por completo e usar roupas que um ajudante pessoal da líder dispõe. Para não ser encontrada facilmente e questionada pelas suas ações, esses membros também são levados até ela de mãos atadas e olhos vendados num processo que os impeçam saber o caminho. Maggie utiliza seus dons de persuasão para adquirir a confiança de todos e fazê-los acreditar que tudo que ela diz é verdadeiro e deve ser aceito sem questionamento. No decorrer dos dias Lorna desconfia que a líder seja perigosa, já que ela obriga Peter a levar uma criança até ela, afirmando que essa criança seja sua mãe. Lorna, então, é abordada por uma mulher que se apresenta como uma agente da CIA que investiga o paradeiro da "falsa" guru procurada por encabeçar um grupo criminoso, e que o que ela está fazendo é recrutando um novo grupo para um futuro golpe.

Tudo começa de maneira interessante e naquele estilo de filmagem já comum nos filmes independentes da construção de uma experiência próxima e pessoal, revelando aos poucos fatos e situações para que essa dúvida seja transformada em mistério e mantida até o final. Apesar de deixar a história suspensa por todo o tempo, é difícil classificá-lo em um gênero. Pode ser um drama, já que lida com relações pessoais, questionando o tempo todo o poder de persuasão, a confiança e a esperança que as pessoas alimentam e desenvolvem, além da necessidade que algumas sentem em serem lideradas e guiadas para amenizarem suas confusões e falta de perspectivas. Brit Marling e Zal Batmanglij também disseram que o filme é uma ficção científica, já que ele lida com a possibilidade da viagem no tempo e o confronto entre fé e ciência, mas ao mesmo tempo ele também é um suspense, já que tudo que é mostrado também é duvidoso.
É dividido em partes sem lógica alguma. Parece que, a princípio, ele foi rodado para ser veiculado na internet em pequenos episódios, mas a Fox Searchlight resolveu juntar tudo em uma coisa só ao comprar os direitos. É bem atuado e algumas vezes consegue ser convincente. O grande trunfo do filme é dar a possibilidade da livre interpretação, seja vendo pelo lado de que tudo é uma fraude, seja vendo pelo lado de que tudo seja real. Mas para quem prestar bastante atenção perceberá que tudo tende a converger para uma farsa, e que a guru realmente é uma criminosa que meticulosamente pretende recrutar pessoas através da confiança e da persuação para um provavel golpe criminoso. Por isso que algumas cenas que podem parecer não fazer sentido no começo, mas farão no final.

O grande problema que acaba atrapalhando bastante é a quantidade de informações que levam a lugar nenhum, deixando muitas perguntas sem respostas por conta de pistas falsas e situações sem contexto. Poderia ter sido um excelente episódio piloto de um seriado se ele não fosse um filme, e poderia ter sido um excelente filme se não fosse tão redundante. De qualquer forma é um trabalho independente e interessante para ser assistido dessa forma e pelos esforços dos roteiristas de manter tudo numa linha segura entre a dúvida e a certeza, mas não é algo digno de ter recebido tanta atenção em um festival como o de Sundance, e não é um filme que sobreviverá sozinho por muito tempo até mesmo entre o público mais alternativo.
CONCLUSÃO...
É um filme independente, estranho e interessante, mas nada que surpreenda. Apenas ergue alguns questionamentos e inúmeras dúvidas que dão liberdade de interpretação, mas que no fim não concluem nada e nem ajudam a concluir coisa alguma. Por ser um filme relativamente curto, não cansa, terminando na hora certa.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

TODO RELACIONAMENTO É IGUAL...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Entre O Amor E A Paixão (Take This Waltz)
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Sarah Polley
Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman
País: Canadá, Espanha, Japão
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma mulher conturbada entre satisfazer suas vontades dentro de um casamento estagnado e até feliz, mas que sobrevive apenas pelo companheirismo e amizade. Tudo muda quando ela conhece e se apaixona pelo seu vizinho, mas por respeito ao seu marido e ao casamento de 5 anos, ela opta por limitar e adiar essa relação até as últimas conseqüencias.

O QUE TENHO A DIZER...
É o segundo filme dirigido, escrito e produzido pela também atriz canadense Sarah Polley. Seu filme anterior, Longe Dela (Away From Her, 2006), foi uma história delicada e extremamente esclarecedora a respeito de um homem que todo dia tenta manter viva as lembranças de sua mulher com Alzheimer e se encontra na difícil situação de reconquistá-la novamente quando a doença avança ao ponto dela não reconhecer mais quem é ele. O filme merecidamente recebeu duas indicações ao Oscar, de Melhor Roteiro Adaptado para Sarah Polley, e Melhor Atriz para Julie Christie. De lá pra cá Sarah trabalhou mais como atriz em filmes pequenos e seriados de televisão. Sarah é um tipo de artista que prefere esses tipos de trabalhos mais modestos e parece não se importar muito com fama e sucesso, talvez essa seja a razão dela ser tão respeitada e ter conquistado uma grande legião de fãs.

Entre O Amor e a Paixão é uma comédia romântica e dramática bastante sincera e honesta que discute com leveza as dificuldades da rotina de um casamento, além das transformações e consequências que essa relação sofre ao longo do tempo. Sarah coloca o sexo como a situação limítrofe dessa discussão e a perda da atração física e sexual que é substituída pelo companheirismo e amizade ao longo do tempo, onde pouco a pouco a relação intensa, de extrema intimidade e conexão, passa a ser ocupada por uma conveniência do dia a dia, como um costume e dependência.

Assim como seu filme anterior, a narrativa novamente é linear e lenta, nos dando uma noção bastante real de passagem de tempo e da condição rotineira dos personagens Margot (Michelle Williams) e Lou (Seth Rogen). Tudo muda quando Daniel (Luke Kirby) a conhece em um avião e ambos ficam encantados com a habilidade de satisfazer um ao outro com tão pouco. A vida de Margot estava tão comum que ela nunca percebeu que Daniel, por coincidência, também é seu novo vizinho que mora do outro lado da rua.

Os encontros entre ela e o vizinho, que a princípio ocorrem por coincidências da rotina de ambos, passa a ser algo proposital e regular. Sem querer os dois se veem apaixonados um pelo outro, numa relação amorosa baseada apenas em desejos e expectativas criadas pelas conversas, passeios e contatos sexuais imaginários, já que, para Margot, a traição só existiria a partir do momento que esse limite fosse ultrapassado. Até então, para ela, a situação platônica de ambos era apenas uma coisa nova em sua vida e que lhe desse novos estímulos em seu casamento. Para Daniel o sofrimento é maior, pois ele respeita a vontade de Margot, e a impossibilidade de tê-la da maneira como ele quer e imagina o deixa cada vez mais frustrado e deprimido.

Margot não consegue tirar o seu casamento da zona de conforto que se estagnou e quer desesperadamente novas sensações que reacendam a empolgação de uma paixão que nela se apagou há muito tempo. Em uma situação extrema e desesperada ela finalmente vê em Daniel a oportunidade de se satisfazer por completo com novas experiências amorosas e sexuais, cheia de amizade e companheirismo, e tudo aquilo q ela não tem mais com seu marido, mas não consegue se entregar por estar presa a uma conveniência chamada casamento, o que a bloqueia e a deixa em um meio termo que a apavora. Daniel, cansado da obsessão de querer algo que nunca poderá ter, faz uma escolha necessária para que ele consiga tocar sua vida pra frente. Margot se desespera com a perda de Daniel e Lou descobre os desejos ocultos de sua mulher e compreende tudo aquilo como uma verdadeira traição e o fim da relação é inevitável para os dois.

A maneira como a diretora e roteirista mostra a diferente situação de Margot com cada um deles talvez seja o ponto mais alto do roteiro, pois ela questiona o tempo todo o que é de fato a infidelidade. É o contato ou a presença? O sexo ou o pensamento? A realização ou a vontade? Portanto esse conflito real é discutido o tempo todo através das atitudes da personagem principal, e o roteiro pontua com bastante exatidão esse paradoxo da sexualidade e do sentimento, da emoção e da racionalidade. Para Sarah Polley a infidelidade se caracteriza muito mais pelo sentimento do que por uma simples satisfação sexual e isso fica evidente quando Lou finalmente descobre o desejo alimentado por sua mulher, os sonhos, as vontades e o pensamento constante de Margot em Daniel, significando uma situação muito mais frustrante para ele do que se tivesse sido uma mera realização sexual, o contrário do que Margot pensava.

É um filme que poderia ser denso se não tivesse alguns fatores que aliviassem isso, como os núcleos cômicos, o figurino e fotografia que exageram nas estampas, nas cores quentes e alegres, e na leveza com que a temática é conduzida. Michelle Williams tem se especializado em personagens que sofrem de depressões amorosas crônicas desde o seriado Dawson's Creek, e para quem também já está familiarizado com esses tipos em seus filmes anteriores, como em O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005) e Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010), não vai encontrar nesse filme uma interpretação muito diferente. Existe aqui uma tentativa da personagem ser um pouco mais cômica, mas a atriz não consegue variar muito bem entre esses dois estilos conforme o roteiro exige, o que muitas vezes passa a ligeira impressão de uma mera reprise dos papéis anteriores que ela já interpretou, já que aquele semblante depressivo, inchado e corado de quem vai cair no choro a qualquer momento é o mesmo. Michelle é uma atriz carismática, mas está longe de conseguir ser engraçada, mas nada disso diminui sua competência, só aparenta estar deslocada. Seth Rogen, que é muito mais um comediante do que um ator dramático (e muitas vezes irritante em alguns papéis por exagerar no pastelão) consegue dar variações muito melhores e mais eficientes do que ela dentro do contexto do filme.

Algumas sequencias banais e desnecessárias, como o exagero de cenas de nudez, de intimidade das personagens e algumas de sexo, acabam não tendo muito valor além da tentativa da diretora de soar realista e rotineira de uma forma que não se encaixa. As cenas chocam sem motivo, e também assustam porque aparece em momentos inesperados. Por ser mais um filme de desenvolvimento lento, muita gente pode não gostar ou não entender, mas por outro lado deveria estar na lista de filmes obrigatórios para casais que não sabem por onde começar uma discussão sobre o tema que ele propõe, e também para os casais seguros que já sabem que o amor, o companheirismo e a amizade são muito mais importantes do que qualquer nova aventura que não leva a lugar algum além da satisfação de vontades e prazeres que acabam com o tempo. O fato é que a acomodação e a rotina são inevitáveis, e todo relacionamento tende a esfriar com o tempo e se manter num platô seguro. A sequencia final do filme mostra exatamente isso, e por sinal é uma das sequências mais belas, poéticas e certeiras do filme, que mostra como o amor é bonito, mas confuso.

CONCLUSÃO...
Um filme tipicamente feminino, que lida muito mais com as emoções do que os prazeres imediatos, questionando muito o significado da infidelidade. Ele se perde um pouco com algumas sequencias desnecessárias, e o desenvolvimento lento pode deixar a desejar para alguns, mas a importância do tema se encaixa para qualquer pessoa que goste de filmes que se embasam em discussões simples e contraditórias. De qualquer forma, querendo ou não é um filme fácil de se identificar porque são situações que se repetem com todos porque todo relacionamento é igual, a diferença está na maneira como as pessoas conduzem.

sábado, 6 de outubro de 2012

SÓ DEUS PRA SABER O QUE SE PASSA NA CABEÇA DELE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Cosmopolis
Ano: 2012
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: David Cronemberg
Elenco: Robert Pattinson, Sarah Gadon, Kevin Durand, Juliette Binoche, Samantha Morton, Paul Giamatti
País: França, Canadá, Portugual, Itália
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Eric Packer é um multimilhonário que, através da sua limosine luxuosa e tecnológica, atravessa Manhattan para cortar o cabelo. Mas vários acontecimentos interceptam sua tragetória, como a visita do presidente dos EUA em Nova York, uma revolta anti-capitalista que toma conta das principais ruas, o assassinato de uma figura pública em rede nacional, e vários outras pessoas que aos poucos revelam que seu mundo magnífico de poder se transforma em ruínas a cada novo segundo.

O QUE TENHO A DIZER...
David Cronemberg sempre foi considerado um diretor controverso e que já explorou diversos gêneros cinematográficos (ele começou com o horror e depois foi mesclando esse gênero com a ficção, o suspense psicológico e o drama até alcançar um estilo próprio e irreprodutível), mas sua especialidade é chegar no limite do bizarro e colocar seus personagens como cobaias de experimentos frente a diferentes níveis de perversão. E quando falo de perversão digo no seu mais profundo sentido sexual e patológico, já que seus filmes sempre foram recheados de filosofias psicoterapeuticas, analíticas e até freudianas, como nos títulos Videodrome (1983), A Mosca (The Fly, 1986), Gêmeos (Dead Ringers, 1988), M. Butterfly (1993), Crash (1996), eXistenZ (1999), dentre muitos outros (senão todos).

Cronemberg, nascido no Canadá, nunca se preocupou com a fama e sempre recusou grandes produções por acreditar que os grandes estúdios são responsáveis por destruir grandes idéias. Ele sempre foi fiel a este pensamento, sendo um tipo de pessoa que costuma transformar uma atualidade aparentemente banal em algo a ser observado de perto e que, no fim das contas, é mais importante do que imaginamos. Sem dúvida ele sempre foi tido como um diretor muitas vezes incompreendido e às vezes difícil, tanto é que a frase "só Deus sabe o que se passa na cabeça de Cronemberg" é uma das primeiras coisas que quem conhece o seu estilo pensa. Seu visionarismo é tão amplo que seus filmes conseguem ser únicos ao ponto dele ser, dentre os diretores vivos mais cultuados, o único com o maior número de títulos considerados clássicos, filmes que se tornaram referência e com temáticas que sobrevivem ao tempo e às discussões.

Nos últimos anos ele tem se dedicado a filmes com construção mais lenta e realista, ainda bastante metafóricos, mas mais acessíveis. Mesmo assim, não deixaram de ser aclamados pela crítica, como os violentos Marcas da Violência (A Story Of Violence, 2005) e Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007), e o penúltimo Um Método Perigoso (A Dangerous Method, 2011). Cosmopolis é mais um produto dessa sua safra menos bizarra.

Claro que ele mantém todas as características que o resgistraram ao longo das décadas: a câmera estática com angulações diagonais e incômodas, que intensificam a perturbação de idéias, discussões, austeridade e imposição; a fotografia pálida e monocromática; a tecnologia mais uma vez atuando como uma extensão do corpo humano; o medo das pessoas frente às transformações e mudanças; as atuações sutis e mecânicas dos atores; maquiagem, figurinos e cabelos artificiais, numa beleza sempre vulgar, como se todos fossem bonecos de uma vitrine barata; e, claro, a dificuldade do ser humano de lidar com ele próprio. Tudo isso faz parte de um único conceito para Cronemberg, a de que o ser humano caminha sempre para sua autodestruição.

Uma das grandes sacadas do diretor foi ter colocado Robert Pattinson para viver o personagem principal, e aquilo que poderia ter sido um grande desastre se transformou, talvez, no grande trunfo.

Pattinson não é um ator, ele é um mero produto hollywoodiano fabricado para satisfazer o desejo sexual adolescente e ser um ícone de sua geração que será lembrado no futuro como um mero objeto e nada mais, por mais que ele se esforce para tentar o contrário. Quem já assistiu alguns de seus outros filmes sabe o quanto ele desperdiça as oportunidades com suas expressões limitadas, suas caretas fora de hora e um inútil balançar de pescoço e cabeça na tentativa de dar algum tom teatral na cena. Fora os diálogos sempre monotônicos, sem qualquer carga de improviso cênico, típicos de atores amadores de teatro escolar. Ele é um ator tão ruim que chega a ser constrangedor, e se torna evidente que a escolha de Cronemberg se dá por conta de todas essas limitações somatizadas à arrogância natural que o ator carrega em sua imagem de playboy contemporâneo, despertando uma antipatia quase que imediata e inevitável do espectador.

Os paralelos entre o ator e o personagem são vastos, e até mesmo quem não suporta Robert Pattinson (como eu) irá absorver melhor o filme e ter uma experiência muito mais interessante se assisti-lo com esse ponto de vista irônico e - muitas vezes - sarcástico que o diretor aparentemente propõe. Pode não ter sido a intenção de Cronemberg fazer isso, mas não consigo tirar da cabeça que um diretor tão inteligente e que sempre primou em trabalhar com atores experientes e ousados tivesse aceito um ator fraco e indiferente apenas pela popularidade, até porque Cronemberg também nunca se importou com isso. A princípio, era para Colin Farrel interpretar o personagem principal, outro ator que também consegue atingir altos níveis de antipatia com o público quando quer. A diferença é que Colin é um bom ator e que sabe articular muito bem dentro daquilo que um diretor visualiza e propõe. Mas para esse filme, Cronemberg parece ter se interessado mais em uma figura real do que em uma interpretada. E frente a esse detalhe é que minha teoria se conclui.

Portanto, Pattinson veste o personagem Eric Packer como uma luva. Não há esforços para ele ser o personagem, da mesma forma como também é evidente que não há esforços de Cronemberg em dirigí-lo. Cronemberg inteligentemente deixa Pattinson ser ele mesmo, pois os defeitos natos do ator são as características fundamentais do personagem. O apelo sexual vazio e insosso que Pattinson desperta são essenciais para a jornada de Eric Packer durante sua longa e lenta migração em Manhattan para um simples corte de cabelo e sua decadência. Essa inconveniência do ator e do personagem já causa desconforto logo na primeira cena, depois de uma abertura simples com a trilha sonora de Howard Shore (longo colaborador do diretor), que mexe com a sensibilidade humana logo de cara, num misto de motivação, medo e angústia. A imensa fortuna e austera arrogância de Eric são tão grandes que ele acredita ser um homem detentor do poder em suas mãos, tal qual a imagem de Pattinson depois da fama. Ele nem ao menos olha para seus empregados enquanto conversa com eles.

O filme é claramente uma crítica ao capitalismo, às grandes diferenças de classes e a dentenção do poder nas mãos de poucos, mas tudo isso é feito de maneira refinada e nada panfletária, apenas através dos exageros e exacerbações do personagem principal e dos demais que cruzam seu caminho. Sua limosine acaba sendo nada mais do que uma representação do alcançável e inalcançável. Para ele é fácil abrir a porta e caminhar entre as pessoas, mas apenas algumas pessoas podem chegar até ele. A facilidade com que ele pode se relacionar e conseguir o que quer e no momento que quiser por conta de sua inesgotável fonte de dinheiro e poder o torna obsessivo com aquilo que não consegue ou não tem controle, como uma capela que não está a venda, sua recém esposa que recusa ter relações sexuais com ele, sua saúde e o medo da morte prematura. Conforme o dia passa e ele atravessa Manhattan, a valorização do Yen faz com que ele perca grandes quantias de dinheiro que também será responsável por sua queda e destruição. Óbvio que conforme sua queda se mostra cada vez mais íngreme, mais forte ele pretende se chocar no fim.

Qualquer comparação do filme com a atual situação econômica norte-americana não será mera coincidência. O livro ao qual o filme foi baseado, escrito por Don DeLillo, foi originalmente publicado em 2003, época em que a economia norte-americana começou a apresentar "discretos" sinais de socorro. Por conta disso o filme também tem sido comparado a diversas situações atuais que incluem a desvalorização do dólar e a silenciosa contenção desse naufrágio econômico que é um desastre para alguns e uma fabulosa oportunidade para economias emergentes.

É um filme frio e insensível, inteiramente justificado na capacidade do ser humano de se coisificar e diminuir o seu valor tal qual uma nota de papel, e acreditar que isso faz deles soberanos de algo que foi criado e não existe, mas é constantemente alimentado por uma ilusão coletiva. O final do filme pode parecer frustrante, mas metaforicamente é uma dúvida real que respiramos.

É um Cronemberg diferente e mais linear, mas nem por isso deixa de ser Cronemberg. Não é algo comum que pode ser reduzido simplesmente a um gostar ou não gostar, portanto, se alguém disser que o filme é ruim é porque não o entendeu, e se disser que adorou é porque vai querer pagar de intelectual. A grande verdade é que Cosmopolis é um filme discutível, aquele para ser assistido, seriamente refletido e discutido porque ele tem material em abundância para isso. É lento e também testa a paciência de muita gente, sendo bastante chato e massante para aqueles que não conhecem o diretor, e pior ainda para aqueles que não entenderem do que o filme se trata. Tanto é assim que ele não foi muito bem aceito no Festival de Cannes, onde estreiou, e muita gente tem deixado o cinema no meio do filme. Mas isso é o Cronemberg provocativo de sempre, por isso que seus filmes são para poucas... bem poucas pessoas mesmo, porque só Deus pra saber o que se passa na cabeça dele.

CONCLUSÃO...
Um filme para poucos, com certeza, e também para uns poucos a mais que agora podem ter a oportunidade de apreciar um Cronemberg menos confuso e mais preocupado com o significado do que com os significantes.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

ESPECIAL: MISSING

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Missing
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Ashley Judd, Sean Bean, Nick Eversman, Cliff Curtis, Adriano Giannini, Laura Donnelly, Tereza Vorísková
País: Estados Unidos
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Sobre uma mulher que perde seu marido em um atentado a bomba no qual seu filho escapa, mas 10 anos depois ele desaparece após se mudar para Roma para estudar.

O QUE TENHO A DIZER...
Missing no final das contas pode até empolgar os menos atentos e críticos, mas mesmo assim demora bastante para convencer.

Estrelando Ashley Judd, atriz outrora famosa de Hollywood, mas que não emplaca um filme desde Divinos Segredos (Divine Secrets Of The Ya-Ya Sisterhood, 2002), mesmo tendo estrelado pequenos e muito bons filmes como Possuídos (Bug, 2006), um excelente triller psicológico dirigido por William Friedkin, mais conhecido por O Exorcista (The Exorcist, 1973), no qual ela oferece uma atuação brilhante, mas que passou despercebido.

Ashley agora resolveu investir em uma produção televisiva, fazendo o papel de Becca Winstone, uma mãe que perde o marido num atentado a bomba que seu filho sai ileso por um triz, mas 10 anos depois ele é sequestrado logo após ter ido cursar universidade em Roma. Não demora muito para descobrimos que Becca esconde mais segredos do que aparenta e que tanto ela, quanto seu marido, eram agentes da CIA aposentados, e que o assassinato de seu marido e o sequestro de seu filho podem estar relacionados a isso.

Depois de tantos seriados e filmes de espionagens e traição, esse enredo não soa nenhum pouco original, mesmo transformando a personagem principal em uma mãe aposentada. O seriado até que tem uma trama bem elaborada e consegue enganar com efetividade desenvolvendo a trama com surpresas e reviravoltas que realmente acabam pegando o espectador de calças curtas. Mas ele não foge de erros graves que o caracterizam definitivamente como uma produção barata para a televisão, além de pegar pesado em alguns argumentos e em atuações pouco inspiradas.

Produzido pelo canal ABC, o seriado não consegue convencer nem como um drama e nem como um gênero de ação, por mais que eles se esforcem. Equivalente ao que no Brasil conhecemos como padrão Globo de produção, não dá pra levar a sério uma produção que segue à risca a fórmula ABC de produzir, insistindo em utilizar características como: focalizar os atores em frases de efeito; exagerar na batida trilha sonora sintetizada e chorosa, incansavelmente reutilizada nas suas produções; uma direção amadora e uma edição fajuta, que retalha uma sequência inteira intercalando zooms e câmera tremendo para dar a falsa impressão de dinamismo. Durante todo o seriado não há uma cena sequer de ação que seja completa, sem cortes bruscos, principalmente nas cenas de luta, nas quais cada murro dado é um corte.

O primeiro episódio chega a ser constrangedor porque tudo acontece de forma tão rápida e sem qualquer explicação que absurdo chega a ser pouco. A história toma rumos aleatórios, personagens vão sendo jogados em cena sem qualquer explicação e Becca sempre tem uma sacada genial para tudo, numa tentativa forçada e atrapalhada de transformá-la em uma versão feminina, matriarcal e empobrecida de Jason Bourne, ou uma Sidney Bristow aos 45 anos.

As coisas melhoram um pouco no decorrer dos episódios, mas Ashley Judd está tão preocupada na técnica que sua atuação está mecânica e desconfortável, ao invés de levada na naturalidade que ela demonstra no cinema. Mesmo assim o papel conseguiu lhe render uma indicação ao Emmy na categoria Melhor Atriz Drama, que acabou perdendo, obviamente.

O seriado já foi cancelado logo na primeira temporada. A ABC alega que ele foi produzido para ter uma única temporada, sem expectativas de uma grande audiência, apenas para cobrir a grade de programação, mas seu último episódio ainda deixa algumas coisas no ar, como se a possibilidade para uma continuação da história pudesse existir. Ou seja... essa desculpa não cola muito bem e a verdade é que a trama pode até ser boa e interessante, mas é um seriado pobre em comparação com outros mais recentes e de um nível de produção muito mais sofisticado, como Damages, que levou para a televisão um nível cinematográfico altíssimo.

CONCLUSÃO...
Não foge dos clichés das demais produções da ABC. Seu enredo e trama são até interessantes, mas a produção pobre e formulada chega a ser constrangedora e muitas vezes forçada, quebrando a excelente experiência que poderia oferecer. Consegue convencer aqueles menos críticos, e realmente até entretém

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ESPECIAL: WEEDS

★★★★★★★☆☆☆
Nota:
Título: Weeds
Ano: 2007-2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco principal: Mary Louise Parker, Hunter Parish, Alexander Gould, Kevin Nealon, Justin Kirk, Elizabeth Perkins
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Sobre uma recém viúva que resolve investir no mercado ilegal de maconha no pequeno subúrbio onde mora para pagar as dívidas de casa e sustentar os dois filhos, travando uma batalha com toda a hipocrisia ao seu redor.

O QUE TENHO A DIZER...
Weeds é um seriado que serviu para muitas coisas, principalmente para quebrar determinados paradigmas na televisão, numa época que as pessoas parecem cada vez mais caminhar para a involução, além de ainda morrerem de medo e vergonha de falar de temas considerados "ultrajantes" e que fujam de tabus sociais. Por anos o seriado foi o grande assunto da mídia especializada e de premiações importantes. Todo mundo comentava, e essa grande atenção dada é compreensível. O humor de Weeds sempre foi o ponto alto e o responsável pela aceitação do público sem preconceitos, já que tudo com humor é melhor absorvido do que sem ele. Esse foi o grande trunfo de Jenji Kohan, a criadora da série, e até mesmo do canal Showtime, que depois do sucesso de crítica e público, elevou mais ainda o nível de suas produções, investindo em seriados mais críticos e realistas, em um patamar comparável às produções originais da HBO.

O seriado começou contando a história de Nancy Botwin (Mary Louise Parker), recém viúva e com dois filhos adolescentes que estava afogada em dívidas. Por acaso ela descobre que a pequena cidade onde mora esconde muito mais do que aparenta, existindo por baixo de toda uma falsa moral um comércio e consumo exacerbado de drogas ilícitas por todos os lados e por pessoas que ela nunca imaginava, variando entre pais entediados, mães estressadas, filhos rebeldes, políticos corruptos e falsos religiosos, ou seja, todos os patamares, mas tudo de forma muito discreta e disfarçada. Sem vergonha alguma ela se infiltra por todos eles e passa a negociar maconha, sempre da melhor qualidade, e conforme suas vendas aumentam ela descobre o que cada um dos moradores do pequeno subúrbio esconde embaixo dos panos, conquistando dessa forma diversos amigos e aliados, mas ao mesmo tempo muitas inimizades, já que ela atentava contra a moral e também pisava em território inimigo ao tirar a clientela de outros comerciantes e traficantes. Tudo isso ela conseguiu de maneira limpa e ética, apenas na simpatia, no humor sarcástico e no seu dom persuasivo, se safando de ameaças e chantagens usando a seu favor a hipocrisia das pessoas contra elas mesmas. Foi ganhando força e poder no decorrer das temporadas e de uma simples viúva mal falada e que era pouco ouvida nos desprezíveis eventos sociais da cidade, virou uma mulher poderosa e que tinha todos na mão, mas sempre agindo com integridade e fiel a sua ética pessoal. Ao mesmo tempo tinha que lidar com seu filho caçula problemático, seu filho mais velho adolescente, a vizinha invejosa, seu cunhado ninfomaníaco e sem onde morar, seu amigo que está sempre entorpecido e outras pessoas que acabavam procurando sua ajuda ou atropelando seu caminho, construindo uma rede de confiança e de interesses necessários para a sobrevivência de sua família e dos negócios.

Sem dúvida as características mais importantes do seriado nunca foram as drogas, nem mesmo o clã Botwin viver um novo inferno a cada dia, e muito menos os erros cometidos por cada um dos personagens a cada novo episódio, mas sim os problemas sociais que ele apontava, enfiando o dedo na ferida e torcendo, ao mesmo tempo que assoprava e fazia cócegas. Para compreender melhor o seriado, nada melhor do que conhecer uma cidade pequena e suburbana como a imaginária Agrestic/Majestic/Regrestic (a cidade mudou de nome três vezes por razões explicadas durante as temporadas), pois só assim para saber como é sobreviver em um lugar no qual algumas pessoas sejam rodeadas por uma grande maioria ignorante movida por uma aparência inexistente, e todos agindo iguais. A crítica começa logo na abertura do seriado, que foi a mesma durante as três primeiras temporadas, mostrando pessoas iguais, agindo iguais e de forma repetida, como se todos fossem produtos de uma mesma maquininha, tudo ao som da clássica canção "Little Boxes", sátira política de Malvina Reynolds, gravada originalmente em 1962 e que, cinco décadas depois, é mais atual do que nunca.

Essa posição determinista de que o ambiente é o grande fator condicionante nunca foi tão real, sendo obviamente revoltante para um pequeno número que se contrapõe a esta situação, querendo, de propósito e a todo tempo, fazer coisas apenas para provocar a ignorância alheia e brincar com a abstração de realidade sofrida pela maioria. Era isso que Nancy Botwin fazia, e foi isso que o seriado mostrou de maneira brilhante e inteligente, de forma que o espectador se sente conectado a tudo isso, seja se indentificando com a minoria reacionária, ou na hipocrisia da maioria. Portanto as primeiras 4 temporadas do seriado significaram muito mais do que um seriado que falava de drogas e sexo, mas uma forte crítica sobre a hipocrisia e ignorância suburbana.

Além de toda essa crítica social disfarçada em comédia absurda e por algumas vezes surreal, como uma viagem de THC, também havia a interpretação dos atores. Mary Louise Parker encarnou perfeitamente o papel de mãe moderna e reacionária, e é difícil imaginar qualquer outra atriz desempenhando o mesmo papel, tanto que ela foi indicada ao Emmy por quatro anos consecutivos e outras três ao Globo de Ouro (vencendo uma vez, em 2007). Elizabeth Perkins, no papel da vizinha invejosa Celia Hodes, foi uma das personagens mais memoráveis que o seriado teve por ser exatamente o retrato de todos os defeitos de uma sociedade ignorante, preconceituosa, racista, arrogante e psicótica, que sofria de uma depressão profunda, sempre mergulhada em um mau humor corrosivo que até os raros sorrisos eram duros igual uma pedra. As atitudes da personagem foram sendo justificadas ao longo das temporadas, e a compaixão por ela muitas vezes acaba sendo inevitável, por isso que ela se tornou a bruxa que todos adoram. Perkins também concorreu diversas vezes ao Emmy e ao Globo de Ouro, mas injustamente foi ignorada todas as vezes. A eterna rivalidade entre ambas e a relação de amor e ódio que foi desenvolvido durante as quatro primeiras temporadas podia ser vista como uma metáfora da guerra perpétua entre a tolerância e a ignorância.

Mas a partir da 4ª temporada as coisas começaram a tomar um rumo diferente no seriado. A criadora da série e também cabeça da equipe de roteiristas, tentando dar uma chacoalhada nas idéias e na falta de novos argumentos, resolveu tirar o clã Botwin do subúrbio para jogá-lo no mundo, mudando drasticamente o formato do show. Numa jornada que parecia infinita, os Botwin foram para todos os cantos possíveis, e de um seriado satírico e de humor negro sobre a vida suburbana, se transformou em uma comédia-pastelão-dramática-familiar onde todos deixaram de ter um papel importante para virarem apenas adornos de um roteiro pobre e sem rumo. Era notável que o destino dos personagens estava incerto, o público não aderiu muito bem as mudanças e o seriado começou a sofrer diversas críticas.

A criadora, juntamente com os roteiristas, pressionados pelos comentários e o desgosto dos fãs, tentaram por várias vezes resgatar a fórmula das primeiras temporadas, mudando as situações de forma brusca, tentando a todo custo criar ambientes similares ao suburbano em que viviam, como por exemplo, ao situá-los em Nova York, na sétima temporada.

Weeds ficou cansativo, com entrada e saída de personagens sem razões ou explicações, repetindo argumentos e tramas. Celia Hodes, que antes era uma personagem crucial no desenvolvimento dos episódios, foi perdendo espaço a cada nova temporada até se transformar em algo patético, vergonhoso e sem força, uma heresia para uma personagem que outrora fora tão forte. Sem saberem o que fazer ou que desenvolvimento dar a ela, Elizabeth Perkins se desligou do seriado em definitivo e na sétima temporada todos estranharam seu sumiço e sua falta foi sentida até o último episódio do seriado.

Nacy Botwin casou, teve filho, separou, fugiu, foi presa, foi solta sob condicional, foi ameaçada, brigou com os filhos, com o cunhado, transou a torto e a direita, conquistou seu espaço, perdeu seu espaço, perdeu a guarda do filho, ficou rica, comprou uma casa, ganhou a guarda do filho, levou um tiro na cabeça, entrou em coma, acordou desejando a paz mundial num dia e no dia seguinte voltou a ser como era antigamente, como se nada antes disso tivesse acontecido. Não havia mais linearidade. O nível de indecisão das tramas foi tão grande que a oitava e última temporada foi uma das mais absurdas e confusas, talvez a pior de todo o seriado, começando com um salto de 4 anos, além da entrada e saída de personagens e o cancelamento de histórias tão logo quanto começavam. E "cancelamento" é o termo mais apropriado, já que muitas delas acabavam sem mesmo uma razão melhor fundamentada.

As mudanças bruscas de direcionamento e roteiro, o retorno e a saída sem explicação de Jill (Jennifer Jason Leigh); o casamento sem sentido de Andy (Justin Kirk) com uma desconhecida; as atitudes cada vez mais absurdas e desnecessárias de Doug Wilson (Kevin Nealon); a rebeldia agora já sem sentido de Shane Botwin (Alexander Gould). Tudo isso são exemplos de uma encheção de linguiça feita para completar 13 episódios, sem nenhuma lógica ou sequência coerente.

Os dois últimos episódios foram apresentados juntos com a inédita duração de 50 minutos de última hora, talvez porque o canal não via a hora de acabar com o seriado tanto quanto os fãs não viam a hora de um ponto final naquilo que virou um circo de absurdos. Como se não bastasse o carnaval que se transformou, o último episódio teve outro salto de 10 anos no tempo, em um futuro no qual o iPhone é transparente, a maconha foi legalizada e Nacy Botwin se tornou uma empresária milhonária da droga, dona de 50 lojas por todo o país, das quais a Starbucks está interessada em comprar por uma quantia suficiente para "todos viverem em abudância para o resto da vida". A pobre surrealidade deste último episódio atingiu níveis ultrajantes, terminando em uma sequência de 2 minutos com todos os personagens em silêncio, fumando um cigarro de maconha na porta de casa. O simbolismo dessa cena foi bem menos do que aparenta, e significou apenas a falta do que ser dito e de que nada mais havia para ser dito depois de uma jornada que se tornou incoerente e com tão pouco a ser falado. Uma tragetória triste e um episódio final frustrante para um seriado que começou com temporadas brilhantes, mas ao longo dos anos se tornou insosso e cansativo (para não dizer patétitco). Mais uma prova de que alguns seriados não precisam ter essa longevidade toda.

CONCLUSÃO...
Vale e deve ser visto pelo menos por suas quatro primeiras temporadas, que são brilhantes e, mesmo tendo a maconha como um dos temas principais, não falam sobre apologia a drogas ou qualquer coisa parecida, mas foi uma fórmula certeira de lidar com as críticas suburbanas e a hipocrisia social em um humor negro que infelizmente foi perdendo seu tom ao longo dos anos e se transformando em um seriado sem sentido, com acontecimentos apenas para justificar a existência dele e entreter por entreter simplesmente.

domingo, 23 de setembro de 2012

DRAMA DE NOVELA...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: People Like Us
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Michelle Pfeiffer
País: Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sam (Chris Pine) recebe a notícia de sua namorada, Hannah (Olivia Wilde), que seu pai ausente e irresponsável morreu. Mesmo relutante, ele vai para a casa de sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Lá descobre, por intermédio de um testamenteiro, que ele tem uma irmã e um sobrinho, do qual nunca ouviu falar, e agora ele terá que lidar com esses dois lados da família e suas escolhas.

O QUE TENHO A DIZER...
Esse filme é a estréia do roteirista e produtor Alex Kurtzman na direção, que teve êxito ao produzir alguns episódios de seriados como Xena - A Princesa Guerreira (1995-2001), Alias (2001-2006) e Fringe (2008), além de dois filmes que foram de enorme sucesso comercial para seu currículo como o reboot de Jornada Nas Estrelas (Star Trek, 2009) e a comédia romântica A Proposta (The Proposal, 2009). O roteiro é assinado por ele em colaboração com mais dois autores, Roberto Orci e Jody Lambert. Roberto Orci parece ser colaborador de longa data, já que ambos possuem vários trabalhos em comum, enquanto o outro roteirista deve ter sido um tipo de estagiário, já que não possui algo muito relevante.

Esse drama, ainda inédito no país, atraiu minha curiosidade por ter um elenco bastante forte que é encabeçado por Chris Pine, ator atualmente em ascenção. O filme começa com Sam, um negociador corporativo egoísta, ambicioso e mentiroso, tendo problemas em sua empresa depois de uma das suas negociações violar leis federais de troca de produtos. Seu chefe o obriga a contornar a situação subornando os agentes responsáveis pela investigação com seu próprio dinheiro, ou ele será responsabilizado por todas as irregularidades. Ao mesmo tempo, Sam volta para casa e recebe a notícia da morte de seu pai. Relutante, acaba voando para Los Angeles para visitar sua mãe, Lillian (Michelle Pfeiffer). Por intermédio de um testamenteiro, descobre que seu pai deixou uma quantia de US$150 mil para um garoto chamado Josh, de 11 anos. Determinado a ficar com o dinheiro e resolver os seus atuais problemas, ele acaba descobrindo que Josh é, na verdade, seu sobrinho, filho de uma meia-irmã paterna, Frankie (Elizabeth Banks), da qual ele nunca ouviu falar. Sam se aproxima de Frankie, mas não consegue contar a verdade em momento algum.

O enredo do filme é do típico drama que norte-americano adora, envolvendo a difícil relação familiar e da dificuldade de aceitação dos erros dos pais pelos filhos depois que eles já estão adultos. Começa com a redundante e desnecessária informação de que é baseado em fatos reais, talvez para aumentar o vínculo entre o público e o drama. A verdade é que o que o protagonista vive com sua família, mesmo não sendo comum, é bastante recorrente não apenas no cinema como também na vida real, pois sabemos que acontece e existe por aí. Ao mesmo tempo isso também não significa que o filme seja carregado desse apelo pessoal que nos identifique a todo o tempo com a realidade, pois embora o título do filme tenha essa intenção, a história não fala de pessoas como nós, nem no sentido de conexão com os personagens e nem no sentido de que os protagonistas do filme sejam pessoas tão comuns quanto a gente, e os roteiristas não conseguem em momento algum criar esse vínculo.

Há um momento no filme que Frankie diz que você identifica uma mentira quando a pessoa carrega os fatos em detalhes desnecessários. O exagero do filme em "carregar" a história com paralelos inúteis é o que transforma tudo em um drama fictício e inverossímel, contradizendo a informação dada no começo. Os problemas profissionais que Sam está passando não tem nenhuma finalidade no filme além de tentar dar profundidade à sua personalidade egocêntrica e covarde que já são exploradas bastante nas suas relações familiares, deixando essa trama paralela suspensa e sem resolução, aparecendo aleatoriamente durante o filme para criar momentos de indecisão forçadas e que não levam a nada. Demora para os personagens e a história encontrar seu tom, e isso só vai acontecer depois de uma hora de filme.

Esse desenvolvimento confuso do roteiro é o que estraga uma história que poderia ter sido mais sincera e realista se tivesse mantido o foco apenas na relação familiar e nas dificuldades de administrar descobertas que levam a escolhas importantes e definitivas para todos. As tramas e complexidades dispersas não dão oportunidade a personagens e atores crescerem, como acontece com Michelle Pfeiffer, que faz o papel da mãe, se tornando uma personagem esquecida tanto quanto a personagem de Olivia Wilde.

A cena de reencontro entre Lillian e Sam mostra que ambos tem uma relação de um passado aparentemente conturbado e difícil, mas que nunca é desenvolvido ou explicado, envolvendo até um tapa no rosto de Sam, sem muita lógica ou nexo. A própria atriz insistiu que essa cena fosse deletada, alegando que que seria difícil para o espectador compreender o motivo e posteriormente ter compaixão por ela. E realmente fica difícil compreender essa sequência, porque a relação entre ambos segue como se nada disso tivesse acontecido, ignorando um passado turbulento que exista entre eles.

O foco fica sempre na relação entre Sam e Frankie, sua meia-irmã, uma alcólatra em reabilitação que também tem dificuldades com seu filho adolescente e rebelde, personagem que só tem a intenção de acentuar o apelo dramático e de como sua personagem é uma mãe esforçada e trabalhadora, que além de ter tido uma infância traumática e uma adolescencia problemática, também tem que lidar com o filho que não se adapta na escola por conta da ausência de uma figura paterna. A relação construída nesse núcleo é um tanto forçada, já que Sam invade a vida de ambos sem pedir licença e Frankie aceita de bom grado sem nem ao menos questionar em qualquer momento suas origens ou intenções, como se nenhuma experiência de vida a tivesse ensinado alguma coisa, se extendendo até a uma tensão sexual desnecessária que ocorre no ápice da relação dos dois, momento que, aí sim, ela resolve questioná-lo sobre tudo.

A inexperiência do diretor e o roteiro vago esquecem que a inteção do filme é mostrar como é difícil para todos lidar com as diferenças da instituição familiar e como as escolhas são importantes para que esses laços sejam mantidos independente dos graus de proximidade e de diferenças, além da posição que devemos tomar para a manutenção desses vínculos. Por conta disso o filme nunca atinge esse vínculo pessoal com o espectador, que vai absorver muito pouco ou achar pouca coisa relevante para ser interpretada como uma grande moral ou lição a ser aprendida.

CONCLUSÃO...
Sem dúvida é um filme sofrível de ser assistido por conta do péssimo desenvolvimento e de uma direção perdida. O pouco êxito se dá por conta da experiência dos atores, que nem precisaram ser dirigidos pelo visto, e a grande intenção que tiveram de fazer tudo funcionar como deve. Mas o produto final não agrada, virando um filme com uma traminha aguada de novela.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ESPECIAL: DAMAGES

★★★★★★★☆☆☆
Título: Damages
Ano: 2007-2012
Gênero: Suspense, Drama, Crime
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco principal: Glenn Close, Rose Byrne
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Sobre uma recém-formada em direito contratada para trabalhar junto com uma das mais poderosas e influentes advogadas de Nova York, que vê na jovem uma oportunidade de transformá-la em sua pupila e ter a possibilidade de deixar o seu legado para alguém ambicioso o suficiente para isso. Mergulhando em jogos de intrigas pelo poder e ambição, tanto pessoais quanto de seus clientes, ambas farão de tudo para alcançar o que querem, resultando em perdas e danos irreparáveis e que nenhuma delas ousou imaginar.

O QUE TENHO A DIZER...
Nessas cinco temporadas de Damages foi possível observar de tudo, desde como um seriado consegue um sucesso praticamente imediato, sua força de persuasão e atuações incríveis, até seu declínio e a facilidade de um show de TV perder a conexão com a sua audiência tão rapidamente como conquistou. Tudo isso foram fatores importantes para perceber que, sim, ainda é complicado manter um seriado na televisão, e ao mesmo tempo que o público busca algo diferente, ele necessita de informações fáceis e clichés que os conectem a algo, o que os criadores de Damages não conseguiram muito bem ao longo dos anos.

Mas sem dúvida que Damages foi um dos melhores seriados a ter estreiado em 2007, não pela sua história que é bastante fictícia - mesmo cada uma das temporadas terem sido baseadas em importantes casos jurídicos nos Estados Unidos - mas pela forma como elas foram contadas em paralelo à trama principal, e principalmente pelas atuações e a química tensa e sincronizada das protagonistas.

Glenn Close dispensa qualquer comentário. Sempre foi e será magnífica em qualquer papel. Neste show em particular ela é fabulosamente assustadora, com uma personagem sem escrúpulos e que sofre de um narcisismo compulsivo e psicótico. Concordo que seja um desperdício de talento ver uma atriz da sua categoria trabalhando em um seriado de televisão, mas ao mesmo tempo é um imenso privilégio ter essa possibilidade.

Rose Byrne também foi uma grande surpresa e o seriado foi responsável pela sua grande estréia ao tirá-la do patamar de atriz desconhecida e colocá-la em um status de uma das novas atrizes mais requisitadas atualmente tanto na televisão quando no cinema. Australiana, já havia estrelado alguns filmes pequenos e que chamaram a atenção da mídia e da crítica, como no filme Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007), continuação do filme de terror dirigido por Danny Boyle em 2002, de grande sucesso e que conquistou uma legião de fãs pelo mundo. Rose atualmente atravessa por uma fase de ascenção em Hollywood depois do enorme sucesso de Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) e pela grande aceitação que teve como Dra. Moira MacTaggert em X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011).

Durante o quinto episódio da primeira temporada, Patty Hewes (Gleen Close) diz a Ellen Parsons (Rose Byrne) para não confiar em ninguém. O seriado inteiro se desenvolve em torno deste aviso porque tudo é um segredo, ninguém é de confiança e nada é o que parece ser. Todos os elementos de um bom enredo de crime e suspense estão lá. Alguns clichés existem, mas são importantes para o desenvolvimento e o interesse de quem assiste.

A primeira temporada, baseada no escândalo da Companhia Enron, que levou centenas de pessoas à falência nos EUA, foi de enorme sucesso de crítica e público, com todos os melhores elementos que seriados de televisão como este deveriam ter. Seu episódio final foi surpreendente o bastante para que todos esperassem pela segunda temporada com grande entusiasmo. Os criadores da série não acreditavam que teria a repercurssão que teve e imediatamente o canal FX aprovou a produção da segunda e terceira temporada.

Com quase um ano e meio de atraso, a segunda temporada estreiou, sendo baseada na crise de energia na Califórnia. Os mesmos elementos de flashback e flashforward que caracterizaram o seriado voltaram à tona, apresentando um enredo novo, indefinido e que parecia surpreendente tanto quanto fora a temporada anterior. Mas conforme os episódios foram passando as coisas se mostraram muito mais confusas do que um interessante quebra-cabeças. O espectador deixou de ser uma parte ativa no desenvolvimento, e sua função de descobrir junto com os personagens os mistérios e segredos, havia sumido. A audiência ficou passiva, desafiada o tempo todo com mudanças bruscas na trama, pistas falsas inconclusivas e absurdas que não serviam para nada além de enganar sem motivo. Houve a participação de atores de forte calibre como William Hurt e Marcia Gay Harden, esta última, em um papel esquecível e que não aproveitou de seus potenciais em nenhum momento, tanto para acréscimo do seriado, quanto para o enredo, com uma personagem que tinha tudo para oferecer muito mais do que havia sido proposto. O fim foi uma resolução banal e sem continuidade ou qualquer fundamento, perdendo os elementos e características que fizeram a primeira temporada algo especial e um tanto inovadora no gênero. A desconexão e o desinteresse do público começou aí. Aos poucos as pessoas deixaram de assistir o seriado por acharem a temporada confusa e inferior.

A terceira temporada, baseado nos esquemas fraudulentos do empresário Bernie Madoff, seguiu a mesma tragetória. Sendo talvez a pior temporada, mesmo com um elenco novamente estelar que incluia a veterana e desperdiçada Lily Tomlin, que foi escalada para o papel por ter expressado a um dos criadores e roteiristas que era uma grande fã do seriado. Ao longo da temporada parecia que os roteiristas não sabiam mais o que estavam fazendo ou que direcionamento dar aos personagens, chegando até mesmo a matar um dos principais, Tom Shayes (Tate Donovan), um personagem que tinha grandes oportunidades para crescer e desempenhar outros papéis nas tramas, mas que nunca foi desenvolvido.

A audiência despencou porque o público de Damages era diferenciado, de pessoas que estão acostumadas e procuram produtos mais elaborados. Os fãs não gostaram dos rumos inferiores nos argumentos e histórias muito mal desenvolvidas. O preço dos episódios ficou muito caro (apenas o salário de Glenn Close era de aproximadamente US$200 mil/episódio, considerado alto para os padrões de canais fechados). O canal FX ficou em dúvida entre cancelar ou não o seriado porque, embora a audiência fosse ruim, o seriado era uma boa publicidade para o canal devido a suas participações em premiações importantes como Emmy e Globo de Ouro. Glenn Close chegou a ser premiada com um Globo de Ouro em 2008 e dois Emmy (um em 2008 e o outro em 2009). Rose Byrne também foi indicada algumas vezes tanto para o Emmy quanto para o Globo de Ouro. Por fim, a DirecTV demonstrou interesse em salvar o show de um fim repentino, pegando carona no poder publicitário que ele tinha. A companhia passou a produzí-lo, alegando que a audiência fiel atingia o número esperado para o canal e que o seriado ainda tinha muito a oferecer. O contrato estipulado era para a produção de mais duas temporadas de apenas 10 episódios cada, ao invés de 13, o que acabou compactando muito mais as histórias e amenizando o número de tramas paralelas dispensáveis.

A quarta temporada estreiou no canal Audience Network, sendo levemente baseado na companhia militar privada norte-americana, a Blackwater. As mudanças foram nítidas e o seriado voltou ao seu clima de mistérios e crimes envolvendo personagens de alto escalão político em um roteiro que novamente resgatou as características da primeira temporada. Diferente das duas temporadas anteriores, não houve reviravoltas enganosas ou absurdas que pudessem chamar o espectador de tolo, não havia pegadinhas, havia um enredo desconstruído e que se encaixava conforme os episódios eram apresentados, exatamente como foi na primeira temporada. A impressão que se tem é que fizeram questão de esquecer que a segunda e terceira temporada existiram, pois elas não são citadas em momento algum. Mesmo assim a audiência não subiu, e a quinta temporada foi decisiva para que o seriado colocasse um fim à épica rivalidade entre Patty Hewes e Ellen Parsons.

A temporada 2012, dessa vez baseada nos escândalos que envolveram Julian Assange, seu Wikileaks e algumas acusações de abuso sexual, fechou de forma satisfatória o ciclo das duas protagonistas, tendo íntima relação com os acontecimentos da primeira temporada. As temporadas anteriores são citadas por vários momento, seja em referências diretas ou não, mas nada muito importante ou que precise realmente ser revisto porque, além de serem desinteressantes, não acrescentam nada à conclusão da trama. Sem dúvida foi uma temporada para satisfazer o público fiel, finalmente respondendo questões que pairavam no ar há muito tempo. Os interesses de Patty e Ellen ficaram muito mais evidentes, bem como a personalidade de cada uma chegou ao limite para ambas. Por um lado temos Patty Hewes que durante as temporadas mostrou ter cada vez mais poder e influência ao ponto de ser indestrutível. Por outro temos Ellen Parsons que de uma mera protegida se transformou em uma mulher cada vez mais confiante e poderosa, que entrou no jogo com unhas e dentes para ganhar, custe o que custar.

O seriado foi concluído sem um grande conflito entre as protagonistas, tudo muito pacífico e limpo, como Ellen mesmo afirma no último episódio. Isso pode ser um pouco frustrante para quem esperava uma atitude mais impensada e impulsiva, mas por outro ponto de vista também é interessante e de alto nível por parte do roteiro que não ignorou a evolução de Ellen Parsons durante as temporadas, personagem que deixou sua impulsividade de lado ao longo do seriado, se tornou cada vez mais contida, enigmática e calculista, até sua postura e imagem ficaram mais confiantes ao longo dos anos. Enquanto isso Patty Hewes apenas a observava sem o menor esforço, vendo sua discípula amadurecer a cada novo passo, como uma criança, se gabando e prevendo cada estratégia, porque ela mesma já passou pelas mesmas experiências de Ellen.

A temporada conclusiva conseguiu ser surpreendente por diversas vezes, obrigando-nos a manter nossa atenção até o último episódio tal qual aconteceu na primeira temporada, balanceando as pistas e seqüências aleatórias entre conclusões simples e completamente diferentes do que a audiência poderia suspeitar, com outras mais dramáticas e inesperadas. O cliché aparece o tempo todo, mas como dito anteriormente, importantes para o desenvolvimento e a conclusão da busca e da espera de cada uma, das perdas e dos danos, e o preço que cada uma delas teve de pagar para conquistar o que queria. O diálogo final entre ambas é breve, discreto, e ao mesmo tempo um deja vu sombrio e determinista que termina em um silêncio seco e engasgado. Não foi um final aparentemente feliz, mas tenso e satisfatório.

CONCLUSÃO...
Damages pode ter tido muitas falhas, principalmente na segunda e terceira temporada, que são esquecíveis e dispensáveis, mas o seriado todo ofereceu uma qualidade cinematográfica de atuação e desenvolvimento de trama raramente vista na televisão, tal qual a química entre duas grandiosas atrizes: uma veterana que já atingiu a perfeição de sua técnica, e uma novata que conseguiu se manter à altura. Um paradoxo até que bastante interessante entre suas personagens.

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