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quinta-feira, 7 de junho de 2012

A SÍNDROME DE CARRIE ESTÁ DE VOLTA...

★★★★★★★★
Título: Poder Sem Limites (Chronicle)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Suspense, Ficção
Classificação: 12 anos
Direção: Josh Trank
Elenco:Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan, Ashley Hinshaw, Michael Kelly
País:Estados Unidos, África do Sul
Duração: 84 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um grupo de jovens que, após serem expostos a uma forma de vida indefinida, desenvolvem poderes psíquicos.

O QUE TENHO A DIZER...
Filme de estréia do diretor Josh Trank, baseado em uma história escrita por ele e Max Landis. Segue a mesma premissa dos atuais filmes de baixo orçamento intencionados a lucrar, o que não é uma tarefa fácil, mas o cinema já provou que tem espaço para isso, basta ter uma boa idéia e uma câmera digital na mão. E assim o fez, custando "apenas" US$12 milhões e arrecadando mais de US$126 milhões mundialmente, o que já fez a Fox dar sinal verde para uma continuação.

A onda, iniciada com o inesperado sucesso de A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), demorou bastante para ser reproduzida em escala comercial, como a tetralogia Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007/2010/2011/2012), REC (2007), Cloverfield (2008), Contatos de 4º Grau (The 4th Kind, 2009), Fenômenos Paranormais (Grave Encounters, 2011); O Túnel (The Tunnel, 2011), Apollo 18 (2011), dentre outros. Embora o estilo terror seja predominante, essa forma de narrativa acabou sendo explorada por outros gêneros, como, por exemplo, nos excelentes seriados The Office e The Comeback. São filmes de baixo orçamento e com péssima qualidade de imagem, mas que acabam sendo por vezes muito mais interessantes que os filmes tradicionais de grandes estúdios, pois para a idéia não parecer batida e uma mera reprodução do pai de todos (A Bruxa de Blair), é como se fosse uma obrigação ter sempre um tom de originalidade ao menos na história a ser contada.

A história pega carona no sucesso de adaptações de super-heróis de histórias em quadrinhos, mas nem pelas questões de baixa produção este filme pode ser considerado inferior, muito pelo contrário. Embora essa visão subjetiva da câmera seja por vezes cansativa e um tanto absurda a idéia de "salve a câmera custe o que custar", como é dito em Cloverfield, esse formato conseguiu dar um tom de realidade a uma fantasia que se desenvolve com naturalidade, prendendo a atenção e sendo até bastante convincente ao mostrar toda a tragetória do surgimento de um super herói, não parecendo tão plástico e artificial como são as adaptações de quadrinhos.

O que mais achei interessante de tudo é o desenvolvimento dos personagens, que é bastante rico, e os acontecimentos envolvendo cada um deles, além da falsa impressão do que cada um deles poderia fazer com o poder, como o personagem Steve (Michael B. Jordan), por exemplo, que é presidente do grêmio estudantil e sonha construir carreira política. A partir deste cliché imaginamos que ele poderia usar o novo dom para se promover e garantir seus objetivos, mas ele é o personagem mais sensato e que menos usa seus poderes. Ou o personagem Matt (Alex Russell), o mais bonitão da turma, que poderia se tornar exibicionista e arrogante, o que não acontece.

O único personagem cliché que acaba fazendo exatamente o que se espera é o personagem Andrew (Dane DeHaan), mas vejo o personagem mais como uma homenagem e uma referência à personagem Carrie, de Stepehen King. Aliás, foi uma bela e bem feita referência e não simplesmente uma cópia mal feita e preguiçosa. Mas até aí, só quem leu o livro ou assistiu ao filme de Brian De Palma, de 1976, para compreender o que estou querendo dizer.

Os efeitos visuais muitas vezes impressionam, mas ao mesmo tempo o excesso de chroma key é nítido, mas nada atrapalha, e fazia tempo que não assistia uma fantasia tão convincente. Vi na tela aquilo que sempre quis que acontecesse comigo quando era adolescente, vivia no mundo da fantasia e que sonhava ser alguém importante e poderoso, o que de certa forma fez do filme algo bastante nostálgico e emocionante, talvez tenha sido por isso que gostei tanto.

CONCLUSÃO...
Vai agradar em cheio aos fãs de histórias fantásticas envolvendo poderes e o processo auto conhecimento que segue a partir daí. Pra mim é atualmente o melhor filme do gênero, conseguindo ser muitas vezes melhor do que qualquer adaptação de super-herói feita até o momento quando analisamos pelo ponto de vista de desenvolvimento de história. Como disse antes, dá um tom realista a uma fantasia, mostrando de forma natural o processo e o surgimento de um super-herói de maneira muito mais realista, convincente e efetiva do que todos os outros filmes de grande orçamento já tentaram fazer.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ATÉ CHUCK NORRIS SAI CORRENDO...

★★★★★★★★
Título: Operação Invasão (Serbuan Maut)
Ano: 2011
Gênero:Ação, Policial, Suspense
Classificação:16 anos
Direção:Gareth Evans
Elenco:Iko Uwais, Joe Taslim, Yayan Ruhian, Ray Sahetapy, Iang Darmawan
País:Indonésia
Duração: 101 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma equipe de força especial que é incumbida de invadir e esvaziar a todo custo um prédio de 30 andares tomado por um chefe e sua enorme facção criminosa de assassinos e traficantes.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme fez parte da seleção oficial de Sundance e ganhou outros prêmios internacionais, sendo atualmente considerado por muitos como um dos melhores filmes do gênero dos últimos anos, o que vem chamando a atenção das pessoas nos países em que está sendo divulgado, e também no boca a boca. Dirigido e escrito pelo galês Gareth Evans e estrelado por Iko Uwais, é a segunda parceria dos dois. O diretor o conheceu durante as filmagens de um documentário sobre Pencak Silat, uma arte marcial tradicional na Indonésia. A primeira parceria é no filme Merantau (Merantau, 2009), e a continuação de The Raid, a qual será a terceira parceria, está prevista para ser lançada em 2013. Seus filmes ganharam fama por novamente conseguir populalizar o Pencak Silat não apenas na Indonésia, mas também em outros países onde os filmes Merantau e The Raid foram exibidos.

Alguns brasileiros que assistirem ao filme acabarão fazendo algumas comparações com Tropa De Elite (2007), mas serão meras coincidências. The Raid é 100% orientado a ação, tipicamente do gênero e non-stop, ou seja, possui apenas alguns breves minutos de pausa que aliviam a ação, mas aumentam o suspense, o que faz a atenção e tensão nunca diminuirem durante todo o desenvolvimento da trama.

É bastante violento e não poupa a audiência de tiros no rosto, facadas no pescoço, fuzilamento explícito, espancamento e sangue, muito sangue. Um filme de homens e para homens (embora mulheres que gostem do gênero também se divertirão). Mas, acima de tudo, também possui uma trama de traição e corrupção que se desenvolve de maneira inteligente dentro de um ambiente limitado e com recursos igualmente limitados, resultando em um filme melhor do que muitos outros de grande orçamento. Além de ser bastante realista, já que os atores principais são seus próprios dublês, realizando todas as cenas de luta em coreografias geniais e puramente técnicas que excluem voadoras, piruetas, armas mirabolantes ou câmera lenta. É simplesmente a força pela força e a técnica pela técnica, vencendo quem conseguir dominar melhor os dois e nada mais.

CONCLUSÃO...
É para quem gosta de ação pela ação, e também para quem gosta de filmes de ação com uma trama, que embora comum é bastante aceitável por sua recorrencia na realidade. Mais uma prova de que um bom filme só precisa de uma idéia bem desenvolvida e não de um orçamento milhonário.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

"VIVEMOS EM UMA DITADURA CAPITALISTA!"

★★★★★★★★
Título: Os Educadores (Die Fetten Jahre Sind Vorbei)
Ano: 2004
Gênero: Crime, Drama, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Hans Weingartner
Elenco: Daniel Brühl, Julia Jentsch, Stipe Erceg, Burghart Klaußner
País: Alemanha/Áustria
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre dois amigos que dividem ideais comunistas e, durante a madrugada fazem manifestações pacíficas assinada por eles como "OS EDUCADORES". Mas depois de um incidente envolvendo a namorada de um deles, acabam sendo obrigados a mudar o protocolo, colocando todos em risco.

O QUE TENHO A DIZER...
Segundo longa metragem do diretor Hans Weingartner, e também a segunda coloboração entre ele e o ator Daniel Brühl, o mesmo ator de Adeus, Lenin! (Good Bye, Lenin!, 2003). Considerado hoje um filme cult e pop por ser reacionário e tratar de política, ideais, amizade, amor e humanidade por um ponto de vista contrário aos clichés atuais, além de ser recheado de atores (na época) novos e experientes, linguagem acessível e uma trilha sonora cheia de referências que marcaram uma época. Aqui os questionamentos são os mesmos repetidos por todo jovem adulto exposto às dificuldades da vida, lutando contra tudo e todos em busca do ideal utópico, principalmente se estes jovens nasceram em uma nação com um pensamento político tão dividido e ativo como na Alemanha. O filme foi um dos destaques do Festival de Cannes de 2004, concorrendo à Palma de Ouro. Ganhou importantes prêmios do cinema alemão e é até hoje referência para muitos.

A história se passa de maneira proposital em Berlim e que, mesmo após a queda do muro em 1989, que dividia sua parte oriental e simpatizante do regime soviético da parte ocidental e capitalista, ainda tem posicionamentos políticos comunistas bastante fortes, principalmente por grupos intelectuais na faixa dos 20 e 30 anos. O filme começa com um protesto pacífico contra a exploração capitalista, deixando claro que o tema principal irá girar em torno dessas duas filosofias políticas. Mas embora possa se tratar de um tema difícil e massante para muita gente, a forma como é abordado e como as personagens dialogam sobre isso não segue cartilhas marxistas ou tenta ser discurssivo e chato. Pelo contrário, é realista, questionando dificuldades e nos dando diferentes pontos de vista para a compreensão do que vivemos no dia a dia, muitas vezes parecendo até ingênuo, nos remetendo a um deja vu que levará muitos a dizer "eu já pensei assim um dia".

Mas esse tom ingênuo é perdido quando entra em cena Hardenberg, vivido pelo ator Burghart Klaußner, que é exatamente a representação daquele que naturalmente corrompeu seus ideais por uma simples necessidade de escolha. Dando respostas e incentivando contra-respostas que fazem o filme perder o tom partidário que aparentava, passando a ser humano e realista, oferecendo ferramentas a quem assiste para discernir o que é certo ou errado dentro daquilo que elas mesmas acreditam. Tudo sempre de maneira extremamente pacífica, apesar de atitudes não muito coerentes dos personagens.

Além disso, há também a relação entre os três personagens principais e do triângulo amoroso que nasce, o que acaba sendo bastante simbólico junto ao tema principal, já que a escolha de Jule entre Jan e Pete se encaixa muito bem frente às decisões e escolhas políticas e ideologicas de cada um, dando também um retrato bastante tocante e bonito dos valores de consideração e lealdade, tão raros hoje em dia.

O roteiro extremamente bem trabalhado faz as personagens principais flutuarem entre a ingenuidade e a maturidade, tanto em ações quanto em diálogos, evidenciando as crises pessoais que cada um deles está passando, e o diretor Hans Weingartner foi hábil ao situar a importância de cada um deles.

Filmado com câmera digital e suspensa, talvez a qualidade um pouco inferior de imagem e o constante balançar da câmera acabem incomodando os mais impacientes, mas que com o decorrer do filme acabam sendo esquecidos frente a riqueza temática do filme.

CONCLUSÃO...
Vale a pena ser assistido por qualquer pessoa, pois oferece material que levanta questões fundamentais de forma inteligente, dinâmica, e o melhor, numa linguagem cinematográfica que prende a atenção e surpreende no final.

sábado, 26 de maio de 2012

IMAGINE UMA NOVELA DIRIGIDA POR CRONENBERG...

★★★★★★★
Título: A Pele Que Habito (La Piel Que Habito)
Ano: 2011
Gênero: Horror, Suspense, Drama, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
País: Espanha
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Eu adoraria responder essa pergunta, mas não posso.

O QUE TENHO A DIZER...
Almodóvar sempre tenta nos pegar de calças curtas e nos surpreende de alguma forma. É por essas e outras que o lançamento de seus filmes sempre é um evento, seja nos cinemas ou pela euforia de seus fãs em casa. Desde quando divulgou a produção do filme, ele afirmou que se aventuraria no terror, mas sem gritos ou sustos. Para um diretor que já que experimentou um pouco de tudo em sua trajetória cinematográfica, um terror estava mais do que na hora.

É também o retorno de Banderas com o diretor, depois de um hiato de 20 anos, fazendo um cirurgião plástico de poucas palavras e cheio de segredos. Mas mesmo assim não deixa de ser perturbador e ao mesmo tempo sexy apenas com o seu olhar expressivo. O mesmo deve ser dito sobre Elena Anaya na sua segunda colaboração com diretor. A princípio Almodóvar queria Penélope Cruz, que não pode aceitar o papel devido a conflitos de agenda, e Elena acabou sendo a opção perfeita para o papel, por ter uma representação comedida e traços físicos muito mais sutis e delicados.

É um filme estranho até mesmo para seus fãs mais fiéis, que não encontrarão nele o calor dos personagens anteriores, o uso exagerado das cores e os dramalhões almodovarianos tão tradicionais. A impressão que se tem é que ele quis pegar o seu próprio estilo e virar do avesso, fazendo completamente o oposto do que fazia. A estranheza é observada logo no começo, mostrando ambientes frios, cores quentes substituídas pelas frias e metálicas, cenas apáticas em momentos que era esperado ataques histéricos e movimentações mecânicas tanto de câmera quanto dos atores. O desenvolvimento da história é lento, chega a ser cansativo e entediante, e quase desisti de continuar assistindo por várias vezes. Mas ao mesmo tempo resisti, pois sabia que a intenção era sovar, criando uma atmosfera e preparando-a até não ser possível aguentar mais.

Claro que por momentos muito breves e raros é possível identificar o humor negro de Almodóvar durante o filme, como se fosse um leve sorriso de canto de boca, um escorregão proposital que sem querer você se pega gargalhando e, ao mesmo tempo olhando para os lados, com vergonha, porque não era pra ser engraçado. Aquilo era Almodóvar provocando.

Pode não ser um de seus melhores filmes, mas sua direção é impecável ao conseguir variar entre o terror, suspense e drama com naturalidade. Para um filme de terror não ter sustos ou gritos, Almodovar conseguiu lidar com o medo nato do homem e o bizarro com poucos recursos, já que seu conceito de bizarro ainda é gracioso, e o medo nato ele instiga pela fantasia que ele nos obriga a criar através de coisas ainda não reveladas, desenvolvendo a trama sem falsas pistas, apenas mostrando o necessário nas horas certas e em pequenas doses.

Com certeza é o projeto mais psicótico, obsessivo, perverso e ambicioso do diretor, sendo toda a trama explicada pelo Efeito Pigmaleão, o efeito das nossas expectativas sobre a forma como nos relacionamos com a realidade e como a percebemos, transformando-a frente àquilo que esperamos ou queremos.

CONCLUSÃO...
Indispensável para amantes de cinema em geral, independente de ser ou não fã de Almodóvar. Aos fãs do diretor recomendo assistirem sem pré-conceitos estabelecidos pelos filmes anteriores, já que este foi um gênero que ele fez questão de ser algo completamente diferente de tudo o que ele estava acostumado a fazer, e que também estávamos acostumados a ver.

terça-feira, 22 de maio de 2012

HAMMER HORROR PICTURE SHOW...

★★★★★★
Título: A Mulher de Preto (The Woman In Black)
Ano: 2012
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Classificação: 12 anos.
Direção: James Watkins
Elenco:Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Roger Allam
País: Reino Unido, Canadá, Suécia
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um jovem advogado que é enviado a uma pequena vila para colocar em ordem os documentos sobre os bens de uma falecida mulher, mas descobre que toda a vila é aterrorizada por aquilo que eles conhecem como "maldição", mas que ele vem a descobrir que é um fantasma em busca de vingança.

O QUE TENHO A DIZER...
Baseado no livro de Susan Hill, que já havia tido uma adaptação em 1989, é o segundo filme do diretor James Watkins, que também dirigiu e escreveu o carnal e violento O Lago Perfeito (Eden Lake, 2008).

É o quinto filme a ser produzido na nova leva de filmes após o renascimento da produtora britânica Hammer Films, produtora que ficou famosa nos anos 50 a 70 por produzir filmes B de horror, como as séries Drácula, Frankenstein e A Múmia. Por serem produções baratas, eram filmadas em preto e branco, com iluminação precária, muitas vezes reaproveitando cenários e figurinos, direção muitas vezes amadora, com histórias bizarras e finais muitas vezes absurdos. Tudo isso acabou, por fim, virando características e a marca registrada da produtora que coleciona legião de fãs por todo o mundo até hoje.

A Mulher de Preto mantém muitas das características dos filmes clássicos de horror da Hammer. Embora seja colorido, o baixo orçamento ainda é presente (o filme custou "apenas" US$17 milhões), e por hoje em dia esse trabalho ser mais acessível, a direção de arte, os figurinos e a fotografia são mais caprichados. Mas a atmosfera sombria, a iluminação deficiente, o tom acinzentado, a granulação de imagem, os efeitos precários e muitos dos enquadramentos de câmera (principalmente nos momentos em que é focalizado apenas o rosto do ator caminhando contra a câmera, com o olhar vago na penumbra) são características marcantes e que hoje podem não surpreender mais, mas nos anos 60 deixava muita gente sem respirar na poltrona.

Portanto, o diretor deixa claro que sabia o que estava fazendo e o resultado que queria, não preocupado se o filme causaria impacto ou daria sustos. A intenção era agradar os fãs nostálgicos e, ao mesmo tempo, impressionar de forma clássica. Por essa razão o filme recebe opiniões mistas. Os que desconhecem a história tanto da produtora quanto do cinema clássico de horror poderá achar esse filme fraco e uma besteira, enquanto aqueles que já conhecem um pouco das referências usadas irá apreciar o produto final e levar alguns sustos à moda antiga e que fizeram a escola dos filmes de horror. De qualquer forma, o filme já arrecadou mais de US$127 milhões no mundo.

Conta com boas atuações dos atores principais. Daniel Radcliffe, embora muito novo e estigmatizado como o eterno Harry Potter, tem uma formação artística típicamente britânica e consegue segurar o filme com poucos diálogos. Já o ator Ciáran Hinds, com sua presença sisuda e porte áustero, deixa a audiência sempre em dúvida sobre sua conduta, principalmente depois que assisti A Vida Durante A Guerra (Life During Wartime, 2009), em que ele faz um maníaco de maneira impressionante, ficando difícil desassociar essa imagem ao assistir outros trabalhos dele depois disso.

CONCLUSÃO...
Não é algo surpreendente, e o final pode ser desagradável para alguns que esperavam um maior desfecho, mas vale a pena ser assistido como uma homenagem e uma referência direta aos clássicos da produtora e se deixar levar pela simplicidade, sem maiores expectativas. A continuação já recebeu sinal verde, até o momento entitulada como The Woman In Black: Angels Of Death, ainda sem data de produção definida.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A VINGANÇA DOS VINGADORES...

★★★★★★★★
Título: Os Vingadores (The Avengers)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: Livre
Direção: Joss Wedon
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Tom Hiddleston, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Samuel L. Jackson
País: Estados Unidos
Duração: 143 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os distintos e emocionalmente instáveis super-heróis são recrutados por uma agência secreta de segurança para defender o mundo contra um vilão que deseja abrir um portal entre duas diferentes dimensões para que haja o domínio e o controle da Terra e de seus habitantes.

O QUE TENHO A DIZER...
Há anos essa produção está no papel. Desde quando Brian Singer e sua versão dos X-Men fizeram os super-heróis voltarem a ser um grande produto de investimento pros estúdios numa época que Hollywood estava pobre de idéias, ainda lá no começo de 2000, o boato sobre essa grande reunião começou a pipocar no boca a boca de fãs por todo o mundo até chegar nos ouvidos dos manda-chuvas da Marvel. Houve até uma estimativa de quanto poderia ser gasto na época para o desenvolvimento do filme, e algum tempo depois, em meados de 2001 ou 2002 (não me lembro), soltaram uma nota dizendo que a produção do filme seria inviável pelo exorbitante orçamento, que fora avaliado na época em torno de US$350 milhões, o que fez com que o projeto fosse engavetado para um futuro "indeterminado", como eles mesmo disseram.

10 anos se passaram e cada um dos super-heróis da equipe teve seu próprio filme. Começou com Hulk (2003/2008), que teve duas versões distintas (não são continuações) e com atores diferentes (Eric Bana e Edward Northon), já que o primeiro não agradou os fãs e o segundo, embora tenha agradado mais, não foi o sufiente para que ele pudesse ter uma franquia própria de sucesso. Depois Homem de Ferro, que parecia ser um erro, mas que no fim se tornou o grande favorito em 2008, ganhou uma continuação em 2010 e o terceiro já está em produção. Em seguida, Capitão América e Thor (2011), ambos estão com continuações em andamento. Foram filmes que também serviram como base de testes para saber se, hoje em dia, valeria a pena produzir um filme da equipe. E valeu. Com o orçamento US$ 100 milhões mais barato do que 10 anos atrás, o filme já é a terceira maior bilheteria da história com mais de US$1,4 bilhões arrecadados no mundo, atrás apenas de Avatar (2009) e Titanic (1997).

Embora a equipe apresentada no filme falte com a presença de outros personagens da equipe original por conta de dificuldades de direitos de uso de imagem já que alguns personagens estão lienciados à Fox (como os filhos de Magneto, Quicksilver e Feiticeira Escarlate.), a história tenta se manter fiel tanto aos quadrinhos quanto aos filmes anteriores, o que é uma tarefa bastante difícil para qualquer adaptação que tenha anos de história. É também a primeira vez no cinema em que os spinoffs (termo dado a histórias ou personagens de uma história principal e que posteriormente ganham filmes/histórias próprias) foram lançados primeiro para só posteriormente o filme principal ser feito, quando geralmente é o contrário, como aconteceu com Wolverine (2009), que teve um filme próprio depois de X-Men (2000/2003/2006), ou Deadpool, que apareceu em Wolwerine e terá seu filme próprio em 2014.

O roteiro é assinado pelo próprio diretor, Joss Whedon, que obteve muita experiência tanto em direção quanto em produção e roteirização principalmente com duas séries que ele criou e que o levaram ao sucesso: Buffy e, seu spinoff, Angel. O diretor também coleciona uma legião de fãs da pouco conhecida série, mas hoje considerada cult, Firefly, que por sua vez resultou no filme Serenity (2005). Joss, que era fã dos quadrinhos publicados na década de 60, tanto que a maioria das referências do filme são aos quadrinhos dessa época, teve o cuidado de agradar todos os públicos possíveis e o resultado é maciço. Os fãs adoraram (com excessão dos fãs xiitas que nunca se contentam com algo), quem assistiu os anteriores consegue encontrar várias referências que ligam uma trama na outra, o público que desconhece os heróis ou seus filmes anteriores gostaram pela ação e o banho de efeitos especiais, e muita gente que não se interessava passou a se interessar por eles.

Obviamente que um pouco mais de atenção é dada ao Homem de Ferro, por ele ter se tornado o personagem mais popular depois do lançamento de seu próprio filme, e também de Thor, já que a história gira em torno das loucuras de seu irmão, Loki. Mas cada um dos personagens tem seus momentos de importância muito determinados e nunca um é mais favorecido que o outro além do que interessa na história, além do filme mostrar o tempo todo como personagens tão diferentes e com problemas pessoais tão distintos agem individualmente e mesmo assim resultam em um trabalho de equipe.

Se os dois filmes anteriores não agradaram muito os fãs de Hulk, esse filme tem agradado. Hulk (Mark Ruffalo desta vez) é apresentado como nos quadrinhos, incontrolável e estúpido, mas que depois de aprender a controlar seus poderes e suas ações, vira um personagem companheiro, porém ainda rabugento e ignorante. Edward Northon até chegou a ser reconsiderado para o papel, mas as negociações entre ele e a Marvel não deram certo, por isso a substituição.

Infelizmente a Viúva Negra é a única mulher de uma equipe que, originalmente nos quadrinhos, teve várias passagens femininas importantes (como a Feiticeira Escarlate e Miss Marvel), mas ela não desaponta com seu estilo manipulador. Particularmente as suas cenas são as mais inteligentes dentro de um filme que não tem motivos para ser inteligente, mas que justificam perfeitamente o nome fantasia que ela carrega.

Efeitos especiais é o que mais tem. Raios laser, explosões, carros voando, prédios caindo, naves e alienígenas com suas armas e veículos de outro mundo, lutas coreografadas e tudo mais daquilo que faz um blockbuster ser considerado como tal. E o grande mérito do filme todo é ter uma história linear e que faz referências bem discretas a fatos históricos de nações imperialistas e que também, de alguma forma, acabam enaltecendo mais ainda a cultura norte-americana, bem como aconteceu com Capitão América, mas que é facilmente abstraído.

A única coisa que me incomodou um pouco foi a velocidade que tudo acontece, me deixando um pouco perdido algumas vezes sobre quem era quem e quem estava fazendo o quê. Um pouco de câmera lenta para poder quebrar essa sensação e apreciar melhor algumas determinadas sequências não teria feito mal a ninguém.
A Marvel já anunciou que a seqüencia será feita.

CONCLUSÃO...
É o filme de ação que todo mundo espera, mas raramente tem, que podia ser mais um filme vazio qualquer, mas para quem conhece um pouco dos personagens em quadrinhos vai delirar ao vê-los em carne e osso fazendo tudo aquilo que eles nasceram pra fazer.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

BEL AMI DA ONÇA...

★★★★
Título: Bel Ami, O Sedutor (Bel Ami)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação:14 anos
Direção:Declan Donnellan, Nick Ormerod
Elenco:Robert Pattinson, Uma Thurman, Christina Ricci, Kristin Scott Thomas
País: Reino Unido, França, Itália
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME...
Sobre um jovem pobre que busca ascenção financeira e social na sociedade parisiense do século XIX do único jeito que sabe: conquistando as mulheres.

O QUE TENHO A DIZER...
É um projeto bastante ousado adaptar a obra de Guy de Maupassant logo na primeira empreitada dos novatos diretores Declan Donnellan e Nick Ormerod. O livro já foi adaptado no passado para o cinema, TV e teatro. É uma história que não chega a ser complexa, mas requer atenção, já que o personagem principal literalmente faz da cabeça das pessoas degraus sociais em prol da sua insaciável ganância e ambição, um exemplo referencial a tipos comuns, retratando de forma fiel uma sociedade movida a dinheiro e influências, além da sutileza das dependência políticas e sociais entre todos eles. Uma história que, apesar de seu tempo, é atual pela disposição dessas relações ser essencial para a existência e manutenção do poder e da diferença de classes.

A história se passa numa época muito importante da França após a regulamentação da mídia naquele país, onde os jornais, por conta da Lei da Imprensa, tinham liberdade de expressar e de circular sem a necessidade de regulamentação governamental, mas o filme não faz referência alguma a isso, se aprofundando mais nos influentes que passaram a dominar a mídia impressa, fazendo fortunas com o uso da informação, muitas vezes manipulando a política, o comércio e a sociedade, enriquecendo e dando mais poder aos já ricos e poderosos, além de enfraquecer e até mesmo destruir os rivais.

O interessante é que, neste caso, a história tanto do livro quanto do filme dispõem a influência feminina entre os homens. A sociedade conservadora daquela época impedia mulheres de trabalhar ou ter participações políticas. O excesso de casamentos por conveniência favoreciam os relacionamentos extra-conjugais tanto por parte dos homens quanto das mulheres, ampliando as relações, os contatos e a troca de informações. A participação limitada das mulheres na sociedade fazia delas peças importantes e imprecindíveis na guerra do poder, já que muitas delas eram detentoras de grandes fortunas (que podiam desfrutar apenas através de seus cônjuges já que uma mulher solteira e rica não era aceita na sociedade), tinham bons relacionamentos e eram verdadeiras caixas preciosas de informação. Portanto, embora o adultério fosse um crime, homens e mulheres faziam vistas grossas pela necessidade e importância do tráfico de informações e influências. Daí a razão da expressão "por trás de um grande homem há uma grande mulher" cair tão bem. O filme até consegue mostrar de forma digna que os grandes pensadores ou poderosos detentores de informação não eram os homens, mas as mulheres com as quais eles se relacionavam. Não é à toa que George Duroy (Robert Pattinson) começa sua escalada social através da sedução e da manipulação das mulheres, usando cada uma delas para uma razão específica no seu jogo ambicioso.

Os pontos principais do livro estão no filme, como a infiltração social de George Duroy, as relações de interesse, a tentativa de conspiração e boicote de seus rivais, a retaliação e sua constante ascenção. A direção de arte e figurinos são belíssimos, mantendo o mesmo misto de imundice e elegância da França da época, muito embora a fotografia tenha sido mal aproveitada.

Mas a escolha de Robert Pattinson foi de uma imensa infelicidade. Um ator inexperiente, jovem e que aqui mantém as mesmas expressões faciais da Saga Crepúsculo. O filme, que poderia ser agradável e interessante, se torna desconfortável e irritante com as constantes caretas fora de hora numa tentativa do ator expressar uma coisa que não se sabe o que é, ao invés da leveza, simpatia e sutileza de um personagem canastrão, cínico e interesseiro, que na falta de uma educação nobre compensa sua ignorância com a sedução e a manipulação. Talvez tenha sido esse o grande erro do filme, que se preocupa muito mais em tentar convencer de que Robert Pattinson é um grande ator de caretas do que dar mais atenção às relações que o personagem desenvolve, o uso que ele faz das influência das mulheres na sociedade, suas manipulações e chantagens. A impressão que se tem é que o único êxito que o personagem teve foi de levar para a cama todas as personagens principais, quando é muito mais do que isso. Todos os confrontos e complexidades do personagem e suas relações são colocados em um plano bastante coadjuvante e esquecível, o que não deveria acontecer, já que o personagem é a representação de um grupo social, mas é posto como um menino mimado e chato, o que é contraditório e incoerente nessa adaptação, já que ele nunca foi um nobre para agir dessa maneira. O roteiro cai novamente no erro do drama comum ao invés do drama socio-político, como deveria ser. O contraste de atuações é notável quando entra em cena o elenco feminino, que são as verdadeiras engrenagens da história. Uma Thurmam apresenta uma atuação inspirada que não se via desde Kill Bill (2003-2004), como a romântica, intelectual e política Madeleine Forestier. Christina Ricci sempre sobrando com as personagens mais esquisitas como a infeliz, apaixonada e compreensiva Clotilde de Marelle, e Kristin Scott Thomas numa atuação memorável da correta, perturbada e possessiva Virginie Walters.

CONCLUSÃO...
Tinha tudo pra ser uma grande adaptação, com um excelente elenco, cuidado visual e uma grande trama de época, porém não consegue ser convincente por ter um ator que mais irrita do que atua, e um roteiro perdido, que não sabe se desenvolve uma versão boba e superficial dos romances ou se tenta ser algo mais sério e profundo. Foi como disse no começo, é um projeto bastante ousado e ganancioso para ser um primeiro filme dos diretores, e essa inexperiência atinge diretamente a alma de tudo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

MELHOR QUE O LIVRO...

★★★★★★
Título: Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Aventura
Classificação: 12 anos
Direção: Gary Ross
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Stanley Tucci, Elizabeth Banks
País: Estados Unidos
Duração: 142 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre tantas coisas... Mas vou tentar ser bastante simples: em um futuro muito, muito distante, depois da Terra ter sobrevivido a diversas guerras, em um lugar conhecido como Panem (onde seriam os Estados Unidos), os humanos vivem em situações precárias com pouca comida e recursos, e além disso, como forma de punição aos civis que se rebelaram contra o governo no passado e fazer com que todos se lembrem de que quem manda é quem pode, todos os anos é sorteado um casal de jovens de cada distrito (há um total de 13) para participarem dos Hunger Games, um evento transmitido em rede nacional onde todos os participantes são postos em uma arena e devem lutar até restar apenas um vivo.

O QUE TENHO A DIZER...
Adaptado do livro homônimo de Suzanne Collins, sendo a primeira parte da trilogia de sua série de ficção para jovens adultos. A direção e o roteiro é de Gary Ross, que dirigiu o belo Pleasantville - A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998) e o interessante Nascido Para Ganhar (Seabiscuit, 2003).

A versão cinematográfica consegue ser mais interessante que o livro. A impressão que se tem é que a própria autora (que também assina o roteiro) tentou consertar a simplicidade da sua obra, porque embora o livro seja curto, tem uma narrativa em primeira pessoa bastante simplória. Esse tipo de narrativa muitas vezes é bastante interessante por mostrar pontos de vista objetivos através do narrador sobre os acontecimentos, mas também é um recurso bastante utilizado por aqueles que não conseguem transcrever de forma efetiva um mundo imaginário. Ok, podemos pensar que é um livro direcionado a uma faixa etária dos 15-20 anos e que a tradução em português talvez o empobreça, mas isso não justifica uma literatura tão simplista frente a outras superiores e que também tiveram adaptações cinematográficas, como Harry Potter, de J. K. Rowlings, ou até mesmo O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, que foi um livro originalmente intencionado para adolescentes.

De qualquer forma o livro tenta nos transportar para um mundo futurista que mescla tecnologia com sistemas arcaicos. Quem detém a tecnologia são os ricos, e os pobres sobrevivem em métodos um tanto quanto medievais, caçando, vivendo de subsistência, trocando produtos e vendendo a vida para comprar um punhado de farelo de milho, além, claro, de ter que contribuir constantemente com impostoso e viver sobre a sombra do medo de ter um filho, parente, ou amigo, sorteado para participar dos tais Jogos Vorazes.

A mistura das batalhas de gladiadores durante o ápice do Império Romano com aquilo que hoje conhecemos como reality show sem sombra de dúvidas foi o resgate mais interessante da autora para a cultura pop dos últimos anos, tentando criticar de alguma forma o atual sistema de entretenimento, trazendo para os dias atuais aquilo que era conhecido como panem et circus (pão e circo), atualizado como um programa de televisão líder absoluto de audiência e ovacionado por todos, por mais cruel, inaceitável e absurdo que possa ser. Nessa questão o filme sucede e consegue até realizar essa crítica, nunca escondendo de quem assiste que tudo que acontece é falso e uma grande e perversa tragédia disfarçada de espetáculo e entretenimento.

O diretor e roteirista, juntamente com a própria autora, conseguem ampliar tudo o que é limitado no livro, como o mundo e o espaço em que a história se passa, os personagens que fazem parte e as dificuldades e obstáculos que cada um deve superar, mas perde muito tempo mostrando o solitário sofrimento da personagem principal e seus dias perdida na floresta, quando deveria ter utilizado esse tempo para reproduzir mais fielmente toda a voracidade existente nas batalhas travadas entre os participantes do jogo, o que não é feito, dando a impressão que tudo nada mais é do que um bando de adolescentes chatos assediando moralmente uns aos outros e não duelando como animais e matando uns aos outros como máquinas de guerra num jogo de sobrevivência, uma das poucas coisas que são melhores descritas no livro. Mas também sabemos que isso é uma imposição do próprio estúdio que não queria que o filme fosse violento demais e a censura ultrapasse os treze anos de idade, o que limitaria muito a arrecadação na bilheteria. E funcionou bem, pois o filme teve um custo de US$72 milhões (mediano para o tamanho da produção), e já arrecadou mais de US$646 milhões no mundo, além de estar em 6º lugar no ranking dos filmes que mais arrecadaram no seu dia de estréia, conseguindo pagar antecipadamente as próximas duas seqüencias que, segundo o estúdio, só seriam feitas caso isso acontecesse.

De qualquer forma, dentre os atuais filmes baseados em série de livros, Jogos Vorazes consegue ser melhor que a série que o antecedeu, Crepúsculo, principalmente ao colocar como atriz principal a talentosa Jennifer Lawrence, já indicada ao Oscar por Inverno Da Alma (Winter's Bone, 2010), que ao contrário da heroína da outra série, consegue manter sua boca fechada, ser expressiva, convincente e elevar a qualidade do filme, fazendo-o deixar de ser apenas um produto direcionado a adolescentes fãs dos livros, mas também agradar o público adulto por ser madura e carismática o suficiente pra isso.

Os demais personagens coadjuvantes conseguem ser bastante fiéis ao livro em sua caricatura, com o apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci e suas imensas próteses dentárias expostas em gargalhadas exageradas) e Effie Trinket (Elizabeth Banks, irreconhecível com tanta maquiagem). A narrativa do filme varia entre câmeras fixas e livres, e embora as cenas com câmera livre sejam interessantes por tentar reproduzir a narrativa em primeira pessoa do livro, acaba se tornando cansativa, confusa e enjoativa no meio de tantas explosões e fugas.

O filme não fez tanto sucesso no Brasil já que a série de livros só passou a ser divulgada e mais conhecida pouco antes do filme estreiar no país, mas a legião de fãs e de curiosos tende a aumentar.

CONCLUSÃO...
Poderia ser melhor e mais ousado, mas não chega a ser tão ruim quanto o livro. Para as pessoas com pouco senso crítico o filme cumpre seu papel como um produto de ação fantasioso e que também consegue, da sua maneira, criticar a cultura pop descartável e emburrecente da mídia atual. As atuações e a produção caprichada salvam o filme da superficialidade dominante em outros filmes de ação voltado ao público adolescente.

sábado, 21 de abril de 2012

TUDO É PELA METADE...

★★★★★
Título: 50% (50/50)
Ano: 2011
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Jonathan Levine
Elenco: Joseph Gordon-Lewitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard, Angelica Houston
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz que descobre que está com um câncer raro na coluna e tem 50% de chances de se curar.

O QUE TENHO A DIZER...
Bom... filmes sobre doença é complicado quando ele já foi incansavelmente explorado de todas as formas possíveis e imagináveis, principalmente quando é sobre câncer, qualquer que seja ele.

Embora o papel principal não era pra ser de Joseph Gordon-Lewitt, foi evidente mesmo assim os esforços sobrenaturais que tentaram fazer no ano passado de tentar consolidá-lo com essa comédia (sim, comédia) boba que já foi vista antes. Fizeram de tudo para colocar tanto ele quanto o filme nas melhores premiações, mas não conseguiu nada mais importante que de duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Ator Comédia e Melhor Filme Comédia). Will Reiser até conseguiu abocanhar um Independent Spirit Award e um National Board Of Review de melhor roteiro original, até parecendo que ano passado não teve nada melhor.

50% foi do jeito que fiquei depois que terminei de assisti-lo. Não é ruim, mas não é bom. Não é maravilhoso, mas não é horroroso. Meio drama, meio comédia. Nada nele é por inteiro, tudo é pela metade. A direção frouxa e sem uma orientação definida fez do filme um caos, já que o roteiro autobiográfico de Will Reisner também falha bastante na tentativa de misturar drama e comédia usando um tema tão difícil como esse levando a momentos de inevitável cliché.

Além de tudo, o elenco principal atua os mesmos personagens que já interpretaram em um breve passado, recortando e colando as performances, só mudando o nome. Joseph sendo a personificação do sofrimento e da incompreensão como em (500) Dias Com Ela (500 Days Of Summer, 2009); Seth Rogen sendo aquele personagem chato e exagerado que tenta ser "engraçado", aquele tipo de ator que sempre é contratado ou enfiado em um filme pra tenta fazer as pessoas rirem e aliviar o tom dramático; Bryce Dallas Howard agindo como a mesma garotinha fresca e egoísta; Anna Kendrick repete a mesma insegura, eufórica e entusiasta como em Amor Sem Escalas (Up In The Air, 2009); e claro, Angelica Houston sempre sobrando e sendo subaproveitada em papéis esquecíveis como a mãe. Mesmo repetindo os mesmos estilos, nenhum deles oferece uma atuação realmente brilhante.

O resultado é o mesmo filme de câncer e as dificuldades para sobreviver a ele. Javier Barden já fez isso, Meryl Streep também, Susan Sarandon, Michael Keaton, Emma Thompson, Debra Winger... e a lista vai embora. Este filme é apenas mais um, mais uma vez usando a doença para terem oportunidade de mostrar os personagens se entorpecendo de maconha como se isso fosse uma grande piada engraçada. Parece simples e honesto, mas ao invés disso é descartável, tentando com muito esforço ser alguma coisa. Há alguns momentos engraçados, mas nenhum deles pelas tentativas frustradas de Seth Rogen. Alguns outros momentos bem tristes, mas muito mais pelo uso correto e efetivo de cenas impactantes junto com a trilha sonora apelativa.

CONCLUSÃO...
Um filme que não é tudo aquilo que dizem e tentaram promover, mas engana bem aqueles que não estão acostumados ou não ligam em assistir a mesma coisa sempre. Não chega a ser uma perda de tempo, mas também não serve pra ser uma primeira escolha ou muito menos deixar de fazer algo para assistí-lo. Feito pra ser assistido numa tarde chuvosa de domingo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

CUIDADO, CHUCK NORRIS!

★★★★★★
Título: À Toda Prova (Haywire)
Ano: 2012
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Gina Carano, Ewan McGregor, Michael Fassbender, Bill Paxton, Michael Douglas
País: Estados Unidos, Irlanda
Duração: 93 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma agente que é traída durante uma missão e volta querendo vingança.

O QUE TENHO A DIZER...
Pelo número de filmes que Soderbergh já fez (e a maioria deles muito bons), ele fez questão de querer provar que é um diretor eclético, viajando através dos diferentes gêneros sem esforço, oferecendo abordagens diferenciadas sem sair muito do que é esperado. Ele faz filmes americanos para uma audiência americana diferente, e às vezes filmes hollywoodianos para aqueles que querem algo um pouco diferente do óbvio. E dessa forma Soderbergh provou que pode encabeçar a lista de melhores diretores de seu tempo, mas ao mesmo tempo este é o seu principal problema porque as pessoas geralmente superestimam demais seus filmes, caracterizando-os como obras cinematográficas grandiosas quando muitas vezes é apenas um filme diferenciado.

O diretor realmente começou sua escalada ao sucesso e ao topo dos mais influentes da atualidade com seu filme Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies and Videotape, 1989), recebendo uma indicação ao Oscar por Melhor Roteiro Original por ele. Alguns anos e algumas produções pouco lembradas depois, emplacou nas bilheterias e na crítica dois filmes no mesmo ano, Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento (Erin Brockovich, 2000) e Tráfico (Traffic, 2000). Ambos foram ao Oscar, sendo que o primeiro consagrou Julia Roberts como Melhor Atriz daquele ano, e o segundo abocanhou quatro estatuetas, sendo uma delas de Melhor Diretor. Isso foi o suficente para Soderbergh superestimar ele mesmo, lançando um filme por ano e variando entre pequenas e grandes produções, entre público alternativo e popular, mas no geral todo filme novo era um sucesso, fosse de público ou de crítica. Isso foi o suficiente para acreditar que Hollywood estava a seus pés. Ele chegou ao cúmulo de realizar um filme apenas para reunir os amigos e se divertirem, como na continuação absurda e incoerente 12 Homens e Outro Segredo (Ocean's Twelve, 2004). Chegou a fazer ficção científica, arriscou no estilo noir e fez o mais ambicioso de seus projetos até hoje, Che (Che, 2008). Dividido em duas partes, o filme totalizava aproximadamente 4 1/2 horas. Foi pouco foi assistido e lembrado, além de ter sido ignorado pela maioria das premiações e festivais. Foi aí que Hollywood deu sua primeira rasteira, e ele voltou às pequenas e discretas produções.

Para Haywire ele criou um discurso promocional fantástico. Disse que sempre teve vontade de fazer um grande filme de ação e até criticou de maneira generalista, inferiorizando os filmes do gênero de hoje, dizendo que os diretores não sabem fazer mais filmes de ação, apenas explosões, tiros e efeitos especiais. Para quem ouvia essas afirmações imaginava que vinha aí uma grande revolução do gênero e uma obra prima.

Mas não era bem assim. Um bom filme de ação para ele era um com os moldes clássicos, onde o personagem principal bate e arrebenta com os próprios punhos e sem dubles, explosões ou armas. Foi quando conheceu a lutadora de MMA, Gina Carano, e então ele decidiu que era hora de fazê-lo, convidando-a e desenvolvendo o filme especialmente para ela. Ele também chegou a afirmar que sua decisão de resgatar um filme "bate e arrebenta" com uma mulher como personagem principal era que muitos dos filmes de ação usam a sexualidade feminina mais do que seus dons marciais. E assim o filme foi feito. As habilidades de Gina Carano definitivamente excluem dublês, resultando em cenas realistas e intensas.

O filme cumpre o que promete, Sodebergh tenta manter as cenas de ação focadas inteiramente nas lutas e nas sequências de perseguição, nunca usando trilha sonora ou tiros mais do que o necessário para não invadir e encobrir toda a atenção técnica que ele tanto queria experimentar. E funciona, mas não muito. Para uma audiência comum o filme pode não parecer o que esperam, podendo ser frustrante, principalmente se essas declarações do diretor chegaram ao ouvido dessas pessoas antes delas assistirem.

O tema do filme é extremamente previsível e comum, nada que nenhum outro filme de ação já tenha desenvolvido anteriormente, e nós conhecemos Soderbergh o suficiente para saber que toda a complicada trama é apenas para causar a falsa impressão de que seus filmes não são estúpidos.

De qualquer forma, gostei do resultado final e admiro o esforço dele tentar resgatar essas velhas visões técnicas no filme, mas Haywire não sai muito da linha que ele tanto quis ficar de fora. Ele está muito certo ao afirmar que não existem filmes de ação com uma personagem feminina principal interessante, mas ao mesmo tempo é pretencioso demais ele esquecer que antes de Haywire existiu a excelente Trilogia Bourne que revolucionou de alguma forma como os filmes de ação são produzidos hoje em dia, sendo influencia para muitos e poucos conseguindo ser bem sucedidos no resultado final, como, por exemplo, Hanna (2011).

CONCLUSÃO...
É um excelente filme de ação, mas não deve ser assistido como um filme de ação comum. Tem uma narrativa lenta e é um filme muito mais tenso do que frenético. Vale pelas cenas realistas, pois o resto é esquecível já que Gina Carano é muito melhor lutando do que interpretando, e a história do filme não foge muito do habitual dos filmes desse gênero.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

NÃO, NÃO TEM ESTRELAS!

Título: Armadilha (ATM)
Ano: 2011
Gênero: Terror, Suspense, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: David Brooks
Elenco: Alice Eve, Josh Peck, Brian Geraghty
País: Estados Unidos, Canadá
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre três jovens que ficam presos dentro de um ATM por conta de um maníaco desconhecido que sem razão alguma quer matar todos.

O QUE TENHO A DIZER...
É o filme de estréia do desconhecido David Brooks, com o roteiro assinado por Chris Sparling, o mesmo do tenso e (às vezes) absurdo, porém interessante Enterrado Vivo (Buried, 2010), diretor que ficou queimado em Hollywood por ter enviado e-mails a membros da Academia como que implorando para que considerassem o roteiro de Enterrado Vivo na premiação, o que é expressamente proibido, já que qualquer um dos envolvidos em qualquer produção que tenha essa conduta não apenas é completamente anulado como também todo o filme.

Pra ser sincero, não tem muito o que se falar sobre esse ERRO de filme que nem para ser engraçado frente a tanto absurdo prestou. Eu até hoje não entendo como tive coragem de assistí-lo até o final.

ATM é o acrônimo de automated teller machine, que são os caixas eletrônicos. Também é acrônimo de at the moment (no momento), mas também pode ser o acrônimo de A TERRIBLE MOVIE (um filme terrível) e é exatamente isso, pois sem dúvida alguma ele pode figurar na lista dos piores não apenas da década, mas da história do cinema.

A idéia das pessoas presas dentro de um caixa eletrônico, como acontece com Colin Farrell em uma cabine de telefone no filme Por Um Fio (Phone Boot, 2002), é interessante, mas é só e somente isso. O filme é recheado de gafes gravíssimas, buracos e interpretação amadora e irritante, extremamente previsível e cheio de situações absurdas. Eu poderia pontuar todos esses momentos, mas deixo essa diversão para quem realmente insistir em assistir esta grande peça de porcaria.

O assassino e seu jeitinho Jason de andar é hilário. Se todos tivessem saído correndo provavelmente teriam conseguido dar três voltas por todo o quarteirão enquanto o lerdo nem teria chegado na esquina.

Quando se pensa que o filme não poderia ficar pior, vem o assassino e tenta encher a cabine de água como se fosse um aquário gigante, e assim matar todos afogados. Olha... sinto muito, mas esse filme é vergonhoso e ultrajante.

Quem gostar de uma porcaria dessas ou: 1) porque é pré-adolescente; 2) nunca assistiu filme algum. E acredite, cheguei a ler comentários no IMDb de pessoas que o considerou "fantástico". Essas pessoas estão doentes.

CONCLUSÃO...
Se você tem amor próprio e valoriza seu intelecto, passe longe.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

UM POUCO DE RUINDADE NÃO FAZ MAL A JULIA ROBERTS...

★★★★★★
Título: Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror)
Ano: 2012
Gênero: Comédia
Classificação: Livre
Direção: Tarsem Singh
Elenco: Julia Roberts, Lily Collins e Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre a Branca de Neve, e se você não conhece essa história, então é hora de diminuir as doses de Rivotril.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme não merece tanto o desmerecimento que vem recebendo. Ano passado vi filmes muito piores com direção, roteiro e atuações terríveis e o público enlouquecendo como se estivessem assistindo o melhor filme de suas vidas. Definitivamente não consigo entender o gosto das pessoas. Mas consigo entender porque o diretor Tarsem é tão menosprezado, talvez porque poucos entendam seus conceitos e suas visões artísticas.

Formado no Centro Universitário de Arte e Design de Pasadena, começou sua carreira dirigindo comerciais para a Nike, Coca-Cola e Pepsi (na memorável versão de We Will Rock You, aquele com Enrique Iglesias, Beyonce, Britney Spears e Pink), além de importantes vídeos musicais, incluindo o antológico Losing My Religion, do R.E.M. Sigo sua carreira desde essa época, a qual foi uma grande escola para o amadurecimento de sua atual identidade, visíveis nos filmes A Cela (The Cell, 2000), o pouco visto, menosprezado - e com um terrível título em português - Dublê de Anjo (The Fall, 2006), Imortais (Immortals, 2011) e o atual Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012). Ele afirmou em uma entrevista recente ao Hollywood Reporter que procurava projetos que pudessem dar liberdade para extravasar sua identidade mais do que ter um bom roteiro. O braço direito para toda essa sua extravagância foi a figurinista, designer, estilista e diretora artística japonesa Eiko Ishioka, que morreu no começo do ano. Eiko trabalhou com Tarsem em seus quatro filmes, além de também ter sido responsável por Drácula (Bram Stoker's Dracula, 1992). Segundo Tarsem, em uma matéria do MovieLine, não estava nos seus projetos filmar Espelho, Espelho Meu, já que era um filme visualmente orientado, o que ele não queria fazer no momento. Mas resolveu fazê-lo porque Eiko estava com câncer, ele sabia que ela tinha poucos meses de vida e que esta seria a última oportunidade que ele teria de trabalhar com ela, além dela ter expressado o intenso desejo de continuar trabalhando. E assim ele o fez.

O resultado é um filme agradável, direcionado especialmente para crianças, com humor infantil e cores fortes, contrastantes e lúdicas para chamar a atenção desse público em específico, bastante diferente dos trabalhos anteriores tanto de Eiko, quanto de Tarsem (com excessão de Dublê de Anjo). Por essa razão, muitos adultos poderão se sentir entediados ou considerar a história muito fraca. A narrativa é contada pelo ponto de vista da Rainha má, interpretada por Julia Roberts, que mesmo com todo aquele monte de pano ainda é possível notar a mesma requebrada de quadril clássica que lhe deu a fama (depois do sorriso), deixando clara a atuação despretenciosa e que, ao mesmo tempo, oferece os únicos diálogos mais adultos e sarcásticos de todo o filme. Lily Collins (filha do cantor Phill Collins), se encaixa perfeitamente no papel, tendo a doçura e a candidez que a personagem tem tanto nos contos quanto na versão animada da Disney. A história não segue as mesmas características do conto original, mas, depois da trilogia Shrek, nenhum conto de fadas tem mais a obrigação de ser levado a sério. O romance entre Branca de Neve e o Príncipe fica em segundo plano, e a química dos dois é bastante fraca. O Príncipe é representado muito mais como um paspalho do que como um herói, tendo sua alma aventureira e desbravadora substituída por cenas que chegam a ser até constrangedoras para um ator, mas vamos nos manter fiéis ao fato de que este é um filme infantil e tudo é possível.

Os sete anões, com participação e nomes bem diferentes da história original, são aqui apresentados como "bandidos", o que caiu melhor, pois são eles quem treinam e fazem de Branca de Neve tudo aquilo que o Príncipe, nessa história, não é. Embora um tanto diferente dos originais tanto dos irmãos Grimm, quanto da animação da Disney, as mudanças não atrapalham o desenvolvimento da história. O único problema é a falta de comprometimento do roteiro que apresenta as coisas de maneira vaga e em um vai e vem na Floresta Negra que acaba deixando a gente tonto, mas as crianças não prestam atenção nisso, sendo essa a razão do filme estar se saindo tão bem (já arrecadou mais de US$160 milhões em todo o mundo). O final vale até uma apresentação bollywoodiana, já que o diretor é indiano e, como é dito logo no começo do filme, "o reino era um lugar feliz, onde as pessoas cantavam e dançavam dia e noite..."

CONCLUSÃO...
Para quem for assistir para comparar com Branca de Neve e o Caçador (Snow White And The Huntsman, 2012), vai levar um belo tombo do cavalo, pois eles não apresentam nada em comum. Para os adultos que esperam algo exepcional, vão cair do cavalo da mesma forma. Apesar dos defeitos comuns nos filmes de Tarsem, o visual é magnífico e o último trabalho de Eiko Ishioka para ser apreciado em sua totalidade, que com absoluta certeza será muito mais apreciado pelo público infantil do que pelo adulto, que, ao menos no cinema, aparentou ter perdido a alma lúdica já há muito tempo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

EU JÁ VI ESSE FILME ANTES...

★★★★
Título: O Despertar (The Awakening)
Ano: 2011
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Nick Murphy
Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton
País: Reino Unido
Duração: 107 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma parapsicóloga que desmistifica atividades paranormais e desmascara charlatões, e é convidada a investigar os acontecimentos dentro de uma velha e tradicional escola fundamental.

O QUE TENHO A DIZER...
É engraçado como os filmes mais mal desenvolvidos são feitos por diretores estreiantes como esse, o que passa a impressão de que eles estudam cinema, mas não assistem filmes de maneira crítica, pois utilizam sempre das mesmas fórmulas e caem sempre nas mesmas mesmices e erros. O diretor Nick Murphy, que também assina o roteiro, já havia feito alguns pequenos documentários antes, mas não foi o suficiente, até porque a linguagem é completamente diferente. O filme passou despercebido em vários países, em alguns ele foi lançado diretamente em home video e aqui no Brasil isso só não aconteceu porque falou que tem fantasminha, brasileiro vai correndo.

Há algumas coisas bem interessantes neste filme. Ele é muito bem atuado pelo trio de atores principais e tem uma direção de arte fantástica, com uma cenografia simples, mas que brinca com a atmosfera fria, distante e por vezes sombria, reproduzindo fielmente o tempo numa fotografia bastante objetiva. Não apenas isso, mas a profissão da personagem principal, de desmistificar atividades paranormais e desmascarar charlatões foi muito interessante no meio de tantos filmes lançados nos últimos anos e que ficou cansativo frente a constante repetitividade o que da um ar de novidade (até certo ponto). O mesmo pode ser dito sobre a direção (até certo ponto), que não apenas consegue tirar o melhor de seus atores como também conduzir a história de forma efetiva, segurando a atenção e introduzindo-o na história (até certo ponto).

Mas quando a trama culmina na resolução, me senti desapontado. Enganado, na realidade. Tudo começa com uma cena de sexo desnecessária que foi jogada no meio do filme sem uma razão. Naturalmente já acho cenas de sexo desnecessárias em 98,5% dos filmes, neste caso não apenas não encaixa no desenvolvimento como também não acrescenta nada. Tudo bem que, se formos analisar os personagens, todos eles são completamente estranhos e solitários, numa época em que sexo casual era totalmente contra os princípios sociais e religiosos, e o comportamento da personagem de Rebecca Hall é evidentemente justificável pela solidão e pela falta de uma vida afetiva. De qualquer forma, a cena foi jogada livremente na história. Essa condição solitária dos personagens e a necessidade de afeto poderia ter tido uma abordagem diferente e o significado teria sido o mesmo, porém mais delicado. Portanto, essa cena foi o divisor de águas do filme, porque a partir daí vira um festival de bagunça.

Desde O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) este tema sobre fantasmas e crianças já está saturado, e partindo-se do princípio que não há mais muitas novidades ou resoluções interessantes (já que quase todas que conhecemos foram exploradas exaustivamente), os roteiristas estão chegando à conclusão que a saída para isso é misturar as conclusões de todos os filmes em um só, dando a impressão de ser algo novo, quando na verdade não é. O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), Ecos do Além (Stir Of Echoes, 1999), Os Outros (The Others, 2001), O Orfanato (The Orphanage, 2007), só pra citar os mais populares. Há um pouco de cada um deles neste filme, mas ao invés de oferecerem algo maravilhosamente surpreendente, apenas tira uma cansada sensação de "outra vez isso?" de quem está assistindo.

O filme se perde nos gêneros num ponto que nem os atores parecem saber mais o que estão fazendo ou para onde devem ir ou o que fazer. A explicação que dão sobre a personagem principal é simplesmente intragável porque só uma pessoa no mais profundo coma para não lembrar de onde veio, para onde foi e o que fez. O mesmo digo sobre o fim descabido, cheio de interrogações pra levantar questionamentos da audiência, fazer ninguém chegar a conclusão alguma e dar a falsa impressão de que é muito inteligente. Já vi esse fim antes também.

CONCLUSÃO...
É decepcionante para um filme que começa muito bem, os roteiristas pegaram o caminho mais difícil para oferecer mais do mesmo. Tem gente que vai gostar, mas uma pessoa mais analítica não engole esse filme de forma alguma.

quarta-feira, 7 de março de 2012

BRUNA E RICCELLI ACERTAM OUTRA VEZ...

★★★★★★★

Título: Onde Está a Felicidade?
Ano: 2011
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Carlos Aberto Riccelli
Elenco: Bruna Lombardi, Bruno Garcia, Marcello Airoldi, Marta Larralde, Maria Pujarte
País: Brasil, Espanha
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma chef de cozinha e também apresentadora de um programa de culinária afrodisíaca que descobre que a emissora onde trabalha será vendida e que seu marido cultiva uma amante virtual. Em uma depressão emocional e crise existencial, resolve juntar suas malas e fazer o caminho de Santiago de Compostela em uma peregrinação para sua redescoberta pessoal e da felicidade.

O QUE TENHO A DIZER...
É o terceiro filme dirigido e produzido por Riccelli, com roteiro e também produção de Bruna Lombardi. Também é o segundo filme dos dois no qual Bruna atua. Assim como O Signo da Cidade (2007), este é grande surpresa. Enquanto o filme anterior era um drama bem feito e com cenas belíssimas sobre um ponto de vista bastante melancólico da cidade de São Paulo e o questionamento difícil entre escolhas e destino, neste filme a comédia gira em torno da felicidade e onde poderemos encontrá-la através de hilários pontos de vista de alguns tipos excêntricos.

Riccelli e Lombardi estão ficando melhores a cada novo trabalho e isso é inquestionável. O trabalho anterior foi interessante e com um bom desenvolvimento de roteiro, mas alguns elementos quebravam a experiência, talvez pelo excesso de exigências da distribuidora (Globo Filmes) e a falta de uma direção mais firme que fizesse os atores oferecerem atuações mais inspiradas. Mas parece que Riccelli aprendeu com a experiência e melhorou sua maneira de conduzir as coisas. Mesmo a Globo Filmes continuar sendo a distribuidora do filme, a confiança tanto de Riccelli quanto Lombardi é muito mais evidente, lidando melhor com problemas e falhas que fizeram de O Signo da Cidade um filme belo, mas frustrante em algumas cenas.

Bruna é bastante influenciada neste filme por Almodóvar e comédia de absurdos, que se misturam com seu próprio estilo em um filme que não se passa em um período ou uma época definida para contar a história de Teodora, a personagem prinicipal. Mesmo parecendo ser mais uma comédia comum, há vários momentos genuinamente engraçados, aém de uma produção de primeira. O equilíbrio existente entre o figurino colorido, diálogos inteligentes e motivados junto com uma peregrinação por um lugar tão mágico quanto Santiago de Compostela fazem do filme algo extremamente prazeroso de se assistir.

Atuado por atores de vários lugares, cada um deles tem sua importância, e os atores convidados são apresentados e colocados em cenas devidas e que não atrapalham o desenvolvimento da história, o que é um alívio, já que geralmente não é assim que acontece quando tentam sempre enfiar participações de atores mais pela popularidade do que pela sua importância na história, uma característica quiçá pobre e ainda mantida pela Globo Filmes. Os demais atores do elenco principal são bem dirigidos e alguns outros que poderiam ser irritantes nunca são exatamente pelo fato de Riccelli ter dado mais atenção às atuações do que se preocupar apenas na perfeição técnica das cenas, diferente do que acontece no filme anterior. Os diálogos são muito interessantes e inteligentes, encaixados em situações absurdas mas com o cuidado de não cair no ridículo, sendo poucos os momentos entediantes. Nunca fui muito fã de Bruno Garcia (Nando) e seus vícios de interpretação, mas ele fez um bom trabalho com cenas que nunca excedem o necessário. Bruna Lombardi, embora nunca tenha sido uma grande atriz, assim como em O Signo da Cidade, mais uma vez oferece uma de suas melhores performances, muito melhor do que quando atuava em novelas.

Mas o ponto de maior destaque do filme é, sem dúvida, o roteiro. O filme não seria o que é se não fosse por ele. Bruna afirmou diversas vezes que foi morar em Los Angeles especificamente para estudar e aprimorar sua escrita e o processo de roteirização. Ela aprendeu bem. Sua forma de escrita é rica, descritiva e cheia de detalhes que enquanto eu assistia ao filme era como se eu estivesse lendo o que acontecia na tela.

Acredito que o único grande problema seria os seus quase 120 minutos, mas Bruna e Riccelli estão entrando no tom certo e se transformando em uma excelente influência no cinema nacional, o que me faz ter certeza de que o amor e a dedicação que eles tem pelo que fazem como artistas e produtores ainda nos presenteará no futuro com maravilhosas surpresas.

CONCLUSÃO...
É um pouco diferente dos padrões das comédias nacionais, extremamente bem produzido e com um humor leve e esperto, com diálogos bem escritos dentro de situações propositalmente exageradas que se equilibram, sendo até por vezes bastante motivador e que merece ser apreciado.

segunda-feira, 5 de março de 2012

HUGO E A SUA FANTÁSTICA FÁBRICA DE MEMÓRIA...

★★★★★★★★
Título: A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)
Ano: 2011
Gênero: Fantasia, Aventura, Drama, Comédia
Classificação: Livre
Direção: Martin Scorcese
Elenco: Ben Kingsley, Asa Butterfield, Cloe Grace Moretz, Helen McCrory, Emily Mortimer, Sasha Baron Cohen.
País: Estados Unidos
Duração: 126 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um órfão que mora numa estação de trem e passa os dia cuidando do relógio da estação e em busca de peças para tentar consertar um autômato deixado por seu pai e que ele acredita conter algum segredo.

O QUE TENHO A DIZER...
É uma bela história sobre o cinema que Martin Scorcese resolveu contar baseado na obra do escritor e ilustrador Brian Selznick, filho de David O. Selznick, grande produtor de Hollywood nos anos 20-50. É uma bela mistura de realidade e fantasia principalmente para aqueles que não estão familiarizados e acreditam que o cinema começou nos Estados Unidos, mas certamente serão poucos que irão assistir ao filme e assimilar este ponto de vista ou até mesmo perceber que estão assistindo a uma alegoria de uma história que não é fictícia. Um maravilhoso tributo ao cinema francês do começo ao fim.

O filme de alguma forma me lembrou bastante os de Jean Pierre Jeunet e Marc Caro, os aspectos visuais, a importância de segmentos da vida cotidiana, personagens incomuns e o uso da fantasia para contar uma história simples que se transforma bela e admirável. Isso acontece talvez pelo fato de Jeunet ser um dos mais importantes diretores franceses contemporâneos e que é claramente inspirado por George Meliés e seu fantástico e colorido mise en scene.

Scorcese oferece à audiência uma tocante e inspirada jornada que apenas um diretor experiente poderia oferecer, misturando o cinema clássico com o que há de mais moderno em tecnologia, resultando numa emocionante tragetória do antigo ao novo num perfeito equilíbrio. O grande problema do filme é ele ficar em um meio termo entre o público adulto e o infantil, além de infelizmente muitos não assimilarem a história e a que ela se refere. Um pouco longo também, como costumam ser os filmes do dirtor. Embora seja admirável essa homenagem e manutenção da memória que Scorcese quis, é uma pena que ela realmente pouco exista de fato. Mas agora está imortalizada e disponível para quem se interesse.

CONCLUSÃO...
Maravilhoso. O filme não é apenas nostálgico por nos levar às raízes do cinema, mas também aquilo que George Meliés exatamente esperava do cinema: uma oportunidade para sonhar novamente.
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