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domingo, 23 de setembro de 2018

EMOCIONALMENTE CONSISTENTE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Maniac
Ano: 2018
Gênero: Drama, Fantasia, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Sally Field
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois estranhos se cadastram em uma empresa farmacêutica para realizarem uma série de testes com um droga em desenvolvimento que promete curar todos seus problemas.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao contrário do que se pode imaginar, Maniac não é uma idéia original, mas uma adaptação norteamericana de uma série norueguesa de mesmo nome. Na série original, Espen é o personagem principal, uma pessoa que todo mundo gosta. Um cara agradável e que sempre encontra soluções para tudo. Mas na verdade isso é o que se passa dentro de sua cabeça por conta de um tratamento psiquiátrico no qual está submetido, já que ser Espen na vida real é completamente o oposto.

Com algumas mudanças aqui e ali, mantendo (talvez) a mesma premissa, nesta adaptação conheceremos Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), dois estranhos que não se conhecem e que de alguma forma se encontram desconectados do mundo real. Owen por sofrer de esquizofrênia e despersonalização, e Annie por ter depressão e comportamento autodestrutivo. Os dois vão parar em uma empresa farmacêutica que está recrutando pessoas dispostas a realizar uma série de testes para o desenvolvimento de uma nova droga. Owen porque acredita que possa ser curado de seu problema, e Annie porque simplesmente quer ter acesso à substância e continuar vivendo no mundo do nada.

Maniac, embora possa ser carregado de momentos dramáticos honestos por conta da beleza e sutileza com que desenvolve os protagonistas, e principalmente pela interpretação atenta a detalhes tanto de Emma Stone como de Jonah Hill (o cara simplesmente domina todas as cenas), também tem seus momentos de humor negro. Mas seu foco é, desde o princípio, dissertar sobre a fantasia e imaginação humana, e como de perto realmente nenhuma pessoa é normal, ao mesmo tempo que é essa complexidade que nos faz humanos.

Dirigido e escrito por Cary Fukunaga, criador do premiado True Detective, da HBO, e também por ter dirigido uma das primeiras grandes produções originais do Netflix, Beasts Of No Nation (2015), já podemos imaginar que densidade é o que não vai faltar. Só que ao contrário de seus outros trabalhos, aqui ele alivia a mão da realidade e mergulha de cabeça numa imaginação fundamentada em preceitos psicoanalíticos de transtornos psicóticos e depressivos, como a esquizofrenia, paranóia, pânico, egocentrismo, dentre outros, para desenvolver uma narrativa que, mais do que fantástica, é humana e sobre as diferentes formas que temos de nos encontrar como seres no espaço em que vivemos, e de como nossa mente é capaz de criar esses dispositivos para nos salvar de dores, traumas e angústias, mesmo que para isso se pague o preço caro da incompreensão e do desajuste social.

Há um momento em que um dos personagens diz que ninguém deveria dizer o que a outra pessoa tem antes que ela mesma descubra. A razão nessa afirmação é porque, além de cruel, é como rotular e lacrar aquilo que aquela pessoa será para o resto da vida, ao contrário daquela que, quando descobre por si só, não apenas tenta encontrar as razões, mas aprende a conviver com o problema ao invés de querer encontrar uma cura para ele que não existe, com a própria Annie chega a afirmar em um determinado momento.

O seriado é construído exatamente para uma plataforma streaming, daquela maneira em que ninguém consegue desgrudar os olhos dele enquanto não chegar no último episódio. Não porque ele realmente seja tão intrigante assim ao ponto de fazê-lo naturalmente, mas porque o formato e a maneira como seus episódios se apresentam obriga o espectador a isso.

Os primeiros episódios prendem a atenção, os episódios centrais enchem a linguiça necessária para dar conteúdo a 10 episódios, e os episódios finais vão direto ao ponto que o espectador espera quando a sensação de que nada mais faz sentido, ou de que a história esteja repetindo os mesmos temas, mas com outras roupas, começa a surgir.

E esse é o grande problema da produção que, por se tratar de uma minissérie (com começo e fim declarado, pelo menos até segunda ordem), poderia ter sido mais enxuta. Todos os devaneios das histórias fantasiosas que é desenvolvida nos episódios centrais, que vagam desde O Fantástico Mundo do Dr. Parnassus até Matrix, tem fundamento em suas repetitividades, mas novamente falham, como no filme A Origem, em tentar transportar o espectador para um mundo onde a lógica e a razão não existem, apenas os simbolismos e as emoções. Os sonhos policiais, aventurescos e misteriosos que ocorrem se tornam esquetes com apenas alguns detalhes da vida dos protagonistas que já tínhamos visto antes para sabermos que seus devaneios nada mais são do que resgates disso, ao invés de nos dar uma sensação mais consistente de que alguma compreensão de suas vidas de fato esteja acontecendo. Momentos desconexos de toda a maravilhosa introdução, ou dos muito bem construídos episódios iniciais e finais que, quando agrupados, oferecem um resultado melhor do que a série em toda sua integralidade. Esses devaneios tolos não deixam de ser divertidos e até emocionantes, mas dispersam do delicado e complexo tema principal, aquele que a gente só vai lembrar que existe no fim.

O bom é que, mesmo com muitos desenvolvimentos desnecessários, existe um charme visual na produção que é o atrativo extra de um mundo que soa esquisito, mas identificável; simplório e distante, mas confortável. Nada de ficções científicas e biotecnologia invasiva. A inteligência artificial existe e está difundida como estão nos celulares, mas a maneira devastadora como ela é retratada em outros filmes é amenizada até mesmo quando a impressão que se tem é que veremos novamente mais uma assustadora sabotagem, como a do computador Hal em 2001.

Seja nos equipamentos eletrônicos datados, porém com funcionalidades extremamente atuais, numa total contravenção ao cyberpunk 80tista; seja uma homenagem os seriados japoneses igualmente dos anos 80 (os conhecidos Tokusatsus), cheios de personagens caricatos, expressividade exagerada e cientistas malucos mergulhados em laboratórios cobertos de botões e fios elétricos; serão esses elementos, assim como o proposital amadorismo de algumas cenas, que fazem o seriado ser uma divagação leve sobre a psiquê e o comportamento humano, e não aquela masturbação mental massante e cansativa. Até os raros momentos violentos não soam violentos, mas sátiras desse gênero, como no episódio em que um personagem vira uma peneira com tantos tiros. A situação é tão caricata que é impossível conter a gargalhada.

Agora, nada melhor para complementar o cuidado visual do que uma trilha sonora memorável. E nesse quesito, Dan Romer, o compositor responsável, consegue o maior êxito (e um dos maiores cartões de visita do seriado) que é, obviamente, unir o som e a imagem, amarrando com coerência e transformando tudo isso em uma enxurrada sinestésica, onde as diferentes sensações são sentidas desde aquele crescente instrumental que parece que vai arrebentar o peito, até aquele violino de arrepiar o fio do cabelo. Momentos que aumentam a tensão e a expectativa, da mesma forma que aumentam sentimentos dramáticos e motivantes. A trilha sonora é realmente mágica na sua simplicidade e em toda a excêntrica fotografia.

E são essas coisas que, apesar de Maniac muitas vezes escorregar no seu timing e até mesmo exagerar no seu conteúdo, ainda sim consegue ser um entretenimento delicado e emocionalmente consistente sem ser piegas ou melodramático. Uma viagem com um esquisito glamour sobre a dificuldade de ser o que somos.

sábado, 22 de setembro de 2018

E O TRIOZINHO VOLTA...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Tully
Ano: 2018
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Jason Reitman
Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Ron Livingston, Mark Duplass
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma babá noturna é contratada para ajudar com o filho recém nascido de uma mãe de três.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando Jason Reitman leu o roteiro de Juno (2007), ele quis dirigí-lo imediatamente. O filme foi um sucesso surpresa na carreira do diretor, e catapultou Diablo Cody de ex-stripper e jornalista a uma das roteiristas mais promissoras de Hollywood ao ganhar o Oscar por Melhor Roteiro Original em sua estréia.

Com um seriado premiado (United States Of Tara, 2009) e um filme de horror adolescente fracassado depois (Jennifer's Body, 2009), Cody não parecia ter a ascenção que esperavam. Reitman continuou acreditando, e persistiu na parceria, dirigindo em seguida Jovens Adultos (2011), também estrelado por Charlize Theron.

Aqui o trio Cody, Reitman e Theron se repete pela segunda vez. O que não é ruim, pois embora o filme anterior acabe tendo seus momentos claudicantes, Theron sempre (e sempre mesmo) sabe o que fazer em frente uma câmera; Reitman sempre sabe ser dirigido pelos seus atores mais do que ele dirigí-los; e Cody...

... bom, Diablo Cody é uma roteirista que sabe criar personagens complexos (ou ao menos tenta). Multifacetados, cheios de camadas dramáticas, que vagam entre o cativante e o antipático nas mesmas passadas. Todos sempre baseados em figuras reais e experiências pessoais. Eles nunca sofrem glamourizações desnecessárias, ou um excesso de banho Hollywoodiano para serem aquilo que não pretendem e não devem ser. Em nenhum momento seus personagens forçam empatia com o público.

Não é à toa que a personagem de Theron em Jovens é irritante, inconveniente e afrontosa, mas nem por isso deixa de ser cativante porque seus comportamentos vem de traumas e experiências desagradáveis que teve na vida, o que a faz ser compreensível, mas não necessariamente simpática, mas naturalmente cria uma conexão com o espectador em algum momento ou outro. Até mesmo no grande erro que é Ricki And The Flash (2015), a personagem de Meryl Streep é bem dosada nos mesmos princípios, ou Juno, a menina dos olhos de Cody, de uma petulância que consegue tirar qualquer um do eixo por ser inteligente, porém adolescente. E para quem assistiu United States Of Tara, essas multicamadas são explicitas na satírica e metafórica dissociação de personalidades da personagem de Toni Collette. E nessas construções conseguimos entender as motivações e desmotivações de cada um.

Mas ao mesmo tempo que na teoria tudo parece muito bem estruturado, a execução nem sempre é tão virtuosa assim porque Cody costuma desviar seus focos de atenção para situações um tanto peculiares, querendo muitas vezes construir análises observacionais de uma sociedade norteamericana esquizofrênica, histérica, estereotipada, acomodada, preguiçosa e pessimista. Pois é, uma complexidade bonita no tema, mas que ela não consegue valorizar como deveria por imprimir visões bastante particulares, ao invés de trabalhar dentro de uma linguagem mais universal e linear para uma assimilação que não precisa ser didática, mas poderia ser mais direta.

As idéias e os comportamentos contraditórios dos personagens conseguem exercer esse papel autoreflexivo, e suas histórias, que sempre são representações de um pedaço da vida do personagem (o estilo narrativo conhecido como "slice of life"), muitas vezes tentam seguir tão à risca essa premissa que as rotinas daquele momento da vida escolhido para construir a narrativa não só é dispensável como também se tornam monótonas. E quando ela arrisca se aprofundar mais em algum drama ou alguma situação mais consistente e que fuja do cotidiano de pessoas comuns, como acontece aqui, a resolução não se mostra tão grandiosa quanto poderia, porque não se encaixam com a realidade que ela cria.

Como dito, Theron sabe o que fazer. Aqui ela não está irreconhecível como em Monster (2003), mas faz questão de sair da pose de estrela ao se ultra caracterizar para a personagem, engordado 20 quilos, usando moletom e pouca maquiagem, tentando ser como a mais comum das pessoas que você poderia encontrar no dia a dia. E mesmo assim, é impossível desgrudar os olhos dela e de seu talento que é nato e hipnotizante (sem falar da beleza) que chega a ser constrangedor comentar porque parece tietagem avulsa, mas não é.

Marlo (Theron) é mãe de três filhos: uma garota mais velha, um filho do meio com um grau brando de autismo ou algo do tipo, e uma recém nascida. Ela é a típica mãe e dona de casa norteamericana, que ama seu marido e que faz de tudo para seus filhos. Mas depois de ter sofrido de depressão pós-parto com o segundo filho, ela agora tem indícios de stress cumulativo. É nesse momento que entra Tully, a personagem de Mackenzie Davis, uma babá noturna que seu irmão rico deu de presente para que ela tenha, ao menos, noites bem dormidas.

Nesse momento a virtude de Cody entra, porque ela realmente aborda temas extremamente atuais e que a sociedade recrimina, como a depressão pós parto, a sobrecarga feminina dentro do conceito familiar, a imposição social de que mães nunca devem criticar a maternidade, dentre outros subtemas importantes, como o despreparo e a falta de informação da sociedade e até mesmo da própria família frente a um filho problemático, porque em nenhum momento o filme diz o que seu filho tem, e tampouco a protagonista sabe, como chega a demonstrar em um determinado momento.

É também uma analise feminina sobre a mulher moderna que não evoluiu na mesma dinâmica que a sociedade, que abriu mão de valores essenciais que cultivava por auto negação e até um pouco pela falta de indulgência própria. E ela o faz até com bastante delicadeza, mostrando que tudo isso, somado e multiplicado, pode ser uma bomba relógio na vida de uma mãe e de uma mulher que até pode ser casada e acreditar ser feliz na situação que está, mas faz uma caminhada isolada e solitária de sustentação familiar dentro de uma cultura ultrapassada sem sequer notar nada disso.

Só que quando Tully entra em cena, e que deveria ser o momento em que a história poderia incrementar seu ritmo e dar consistência em tudo aquilo que ela já havia apresentado, ou até mesmo a questionar a própria existência da protagonista de maneira mais direta e funcional, o filme perde seu tom. É Cody voltando a divagar sobre coisas que nada agregam. Discussões tolas sobre o dia a dia e desenvolvimentos banais que vão e vêm sobre uma rotina que o espectador podia construir na imaginação, sendo desnecessário esse didatismo. Funciona sobre o ponto de vista da personagem, mas não funciona diretamente sobre o ponto de vista do espectador.

O que posso dizer é que quando o filme atinge o ápice da sua história tudo isso fará mais de sentido, mas o espectador já está tão entediado que a resolução não chega a ser surpreendente como poderia.

Tully, que deveria ser uma personagem motivadora, que confrontasse os medos e receios de Marlo e que definitivamente mostrasse que nunca é tarde demais para resgatar coisas que se perderam com o tempo, é apenas uma faceta linear, sem grande expressividade, que apenas se mostra cansativa e intrometida quando em cena, e seus reais propósitos na trama se apagam, quando deveriam fazer exatamente o oposto.

Não é um filme ruim, mas tem aquele cansaço de Diablo Cody que sempre permeia suas histórias, e assim como Reitman sempre permite nos seus filmes com ela.

Outra vez uma história definitivamente maternal, sobre a maternidade e sobre o comportamento feminino. Se em Juno ela divaga sobre a maternidade precoce ao mesmo tempo que a adolescente se descobre mulher, aqui ela divaga sobre a maternidade tardia pelo lado de fora do arco-íris e sobre a redescoberta feminina. E claro, sobrando espaço para reflexões humanas, mesmo que por vezes banais, mas fundamentais para a sociedade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

QUANDO MUITA COISA FALTA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Geek
Ano: 2017
Gênero: Documentário, Jornalístico
Classificação: Livre
Direção: Carla Albuquerque
Elenco: Vários
País: Brasil
Duração: 22 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
O que é ser geek? É isso o que a série vai tentar esclarecer ao longo de oito temas que fazem parte deste universo que parece complexo, mas que todo mundo tem um pouco dentro de si.

O QUE TENHO A DIZER...

Geek é o termo atual que define todo aquele tipo de pessoa que se interessa e aprofunda seu conhecimento por coisas específicas, incomuns, complexas, peculiares, pouco difundidas ou até bastante conhecidas, mas compreendidas além do superficial. Seja amador ou entusiasta, embora não sejam assuntos ou comportamentos de massa, mas de nichos, grande parte envolve a cultura pop em geral e que acaba atingindo a massa de uma maneira ou de outra. Jogos de tabuleiro ou eletrônicos, cinema e TV, livros e histórias em quadrinhos, moda, música, culturas, coleções ou época específicas... Não existe limite para aquele que se considera tal.

A série, produzida pela brasileira Medialand, mostra um pouco dessa cultura, mas não consegue desmistificar alguns preconceitos sobre esse universo dominado por assuntos tão específicos que não somente inundam o imaginário de quem se alimenta dele, como também atuam como combustíveis criativos para quem vive dele.

Não significa necessariamente que a produção tinha esse objetivo, mas deveria, já que para se compreender um assunto devemos ser mergulhados em sua origem e concepção. Embora a produtora, encabeçada por Carla Albuquerque e Beto Ribeiro, tenha um vasto currículo de produções, muitas delas são de qualidade bastante duvidosa. É o que acontece com a recém aderida pelo Netflix, Velhas Amigas. Mesmo duas produções de teor completamente diferentes, onde uma é uma mistura debochada de drama e comédia da pior espécie e a outra uma série mais jornalística do que documental, os defeitos e problemas se mostram os mesmos: a falta de um roteiro consistente, de uma produção mais polida e caprichada. Detalhes que definitivamente tirariam essa sensação de produto amador ou improvisado, feito de última hora apenas para entregar algo encomendado e garantir os incentivos e fundos conquistados.

Aqui a coisa se torna até mais séria quando, na falta de um conteúdo mais consistente, a edição reutiliza imagens numa repetitividade que não aconteceria em um produto bem pensado e desenvolvido, como acontece numa frequência até irritante no último episódio, em que no meio de uma entrevista que nunca sai do mesmo lugar, e no meio de uma vasta coleção de action figures que deixaria qualquer geek enlouquecido, o que vemos é mais de 20 minutos de imagens que se repetem na mesma proporção que o entrevistado: um investigador e sua evidente obsessão militar.

Óbvio, não é o entrevistado o culpado, mas a produção que não tinha um briefing consistente para o episódio, um roteiro definido e, muito menos, uma edição efetiva o suficiente pra dar suculência no material e peneirar aquilo que o espectador não precisa saber.

A intenção de se aprofundar no universo Geek nunca se mostra tão consistente como, em partes, a série Brinquedos Que Marcaram Época, também no serviço de streaming, consegue. Uma produção norteamericana igualmente simples, que trata de um tema recorrente desse universo, mas com uma relevância documental muito mais segura e que deveria ter sido levada como referência.

Aqui tudo é tratado com muita superficialidade, baseado apenas em relatos que são interessantes, mas não é criada qualquer introdução ou contexto em volta. Há muita pouca pesquisa, menos ainda sobre a história que envolve o tema abordado em cada episódio, como a origem do assunto, o impacto dele localmente e no mundo, a maneira como a massa é influenciada por aquilo, ou como aquilo chega até a massa, etc.

Tudo começa com o primeiro episódio, em que dão destaque à história profissional de Ivan Reis, mas não mostram nada além do que está exposto ao seu redor. Ivan, que é um dos mais renomados e importantes desenhistas da DC Comics, não deveria ser o único a ser entrevistado, já que temos diversos outros brasileiros respeitadíssimos nessa indústria, como Joe Bennett ou Mike Deodato, só pra citar alguns. Não que apenas a historia de Ivan não seja interessante, mas se aprofundar mais no interesse de saber como o cenário brasileiro começou a fazer parte de um mercado internacional tão complexo e competitivo teria sido motivador e um grande diferencial.

Os demais episódios se perdem da mesma forma. Se esquecem do propósito esclarecedor pra se tornar uma matéria jornalística simplista e comum.

A produção não se atenta em nenhum momento em criar uma narrativa que aproxime o espectador do assunto, e que o faça compreender que além da excentricidade, existe uma grande importância sociocultural que envolve o comportamento. Seja na cultura gamer ou gráfica, cinematográfica ou literária, existe um grupismo ou uma individualidade saudável e produtiva. O que se assiste é algo que parece específico para quem já conhece o assunto, e não um conteúdo, de fato, informativo e agregador.

Não adianta querer se autodenominar uma série documental quando não é sequer esclarecido ao espectador o que seja, por exemplo, a Comic Con, como acontece no terceiro episódio. Ao invés disso, soltaram um personagem de uma das próprias produções B da Medialand para sair entrevistando pessoas aleatórias como uma esquete improvisada. Pode ser cômico, mas não tem coerência, além de zero consistência sobre um evento mundialmente conhecido e que foi se popularizar no país apenas nessa década. Um episódio que poderia ter, sim, tido seu lado cômico, mas uma narrativa documental nele teria sido essencial. Para piorar, o nome da feira sequer é citado no episódio, talvez porque sequer foram atrás de autorização para filmagem, pois é isso que faz parecer.

Essa atitude um tanto aleatória e alienada da série apenas reforça a imagem esquisita e desconexa da realidade que o tema aderiu com o tempo e que tanto se fortalece entre aqueles não familiarizados com ele, ao invés de mostrar que a feira, por exemplo, seja a consequência de indústrias da cultura e do entretenimento que movimentam milhões porque finalmente resolveram dar relevância a um grupo que sobreviveu pelas sombras da exclusão por muito tempo.

O mesmo acontece sobre o episódio que trata dos jogos de tabuleiro e de RPGs de mesa. O que são jogos de tabuleiro? O que são RPGs? Onde essas pessoas se encontram para isso? De onde veio essa cultura ou desde quando ela existe com consistência? Que mercado é esse? Nada disso é respondido. Novamente, o que se vê são pessoas aleatórias relatando experiências que, para quem não é familiarizado, irá interpretar a situação como um bando de gente esquisita, desocupada e hedonista.

Alguma coisa um pouco diferente acontece no episódio em que os fundadores do canal Overloadr e do arcade house VR Games são entrevistados. Eles conseguem dar aquela consistência necessária ao conteúdo por mérito próprio, e não porque a direção ou o roteiro da produção foi efetivo. Eles próprios tomam a iniciativa de não apenas darem seus relatos pessoais, mas contar um pouco da história de como tudo começou, de como as idéias para o arcade house ou para o canal surgiram, a qual nicho eles pertencem e quem é o público atingido. Esclarecedor de uma forma que 80% da produção deveria ser, mas não é.

O resultado de tudo não chega a ser desinteressante ou constrangedor como a maioria das demais produções da Medialand constumam ser, mas está longe de ter uma consistência necessária para corresponder com a proposta informativa que o desconhecido termo exigiria. Seria adequado como um quadro especial do Fantástico, mas não como um conteúdo exclusivo do Netflix, o que demostra que a empresa tenha endossado o projeto mais para inflar a quantidade de produções locais em seu catálogo do que por querer investir em conteúdo de qualidade de fato.

Novamente é uma pena uma produtora independente ter o interesse em produzir conteúdo diferenciado, conseguir captar recursos através de incentivos e fundos governamentais, mas não atingir um nível de qualidade que poderia. Ao invés disso, cai na mesmice e simplicidade dignas de estudantes de cinema realizando um projeto para a média do bimestre.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ENTREGUE COMO PROMETIDO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Os Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Elenco: Chris Hemsworth, Robert Downey Jr., Scarlett Johanson, Chris Pratt, Josh Brolin, Chris Evans
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Para colocar o seu plano em prática, Thanos agora segue atrás das Pedras do Infinito e daqueles que as protegem.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando era criança eu preferia Flashman a Changeman, dois seriados japoneses do estilo Tokusatsu, febres nos anos 90. Ambos eram parecidos, similares nos 5 personagens que usavam macacões coloridos e capacete.

Mas minha preferência era baseada em uma única situação: os Flashman são derrotados.

No 15º episódio o monstro Zas Konder não apenas dá uma bela surra no grupo como deixa em migalhas o robô gigante do Comando Estelar, simbolo do poder e força da equipe. A derrota feriu o orgulho do grupo, e deprimidos pela tragédia, chegaram até a questionar valores heroicos.

Essa fase dos Flashman, que durou alguns episódios, é a minha preferida, e a definição daquilo que me faz apreciá-los mais do que qualquer outra série Super Sentai que existiu, não porque eles perderam, mas porque era uma novidade, uma quebra do enjoativo padrão narrativo de que nenhum herói é passível de derrota.

Essa é uma razão para eu também achar a série animada dos X-Men, de 1992, um dos melhores desenhos animados do gênero, pois também nunca escondeu as fraquezas e derrotas de seus heróis.

Logo, não é à toa que Guerra Infinita pode até ser o filme "menos Vingadores" dos Vingadores, mas sem dúvida é o mais respeitável deles se partirmos por esse ponto de vista trágico do qual todos sempre foram poupados até então.

Isso pode soar como um grande spoiler, mas nessa altura do campeonato não tem uma pessoa no mundo que não saiba do que o filme se trata, ao menos para aqueles que acompanharam o mínimo possível do Universo Marvel no cinema por esses 10 anos, ou conheça o básico da Marvel nos quadrinhos.

Claro que Guerra Infinita alimentou os mais profundos medos dos fãs ao longo de toda essa década de cultivo, principalmente sobre qual herói iria ou não ser afetado por este evento que, mais do que físico, também é moral.

A derrota de qualquer herói pode muitas vezes ser sentida como a perda de alguém próximo e que temos confiança, como foi com o emocionante final de Logan (2017). Pode parecer comédia, como quando Superman morre em A Origem da Justiça (2016). Pode também levar à revolta, como quando Charles Xavier é simplesmente desintegrado por Fênix logo na fabulosa sequência inicial de X-Men - O Confronto Final (2006), uma das poucas coisas que tenham funcionado nesse filme, diga-se de passagem, mesmo que não muito apreciado.

Derrotar, matar, ou até mesmo maquinar um genocídio quase apocalíptico entre heróis é sempre um movimento tenso no tabuleiro de xadrez da cultura pop, mas o que Guerra Inifita propõe não é mostrar a fraqueza de seus personagens, mas torná-los mais fortes depois disso. É isso o que a história quer nos passar.

Agora, a intenção real é chegar ao tão aguardado fim de um ciclo que a Marvel inaugurou no cinema em 2008 e dar início a outro, para uma nova geração. Assim as eras são renovadas tal como também acontece nos quadrinhos.

Este terceiro filme oferece tudo aquilo que todo mundo esperou, menos uma grande reunião de heróis, no sentido de grupo e unidade, com o título nos faz compreender. Para quem esperava um grande trabalho em equipe, organizado e sincronizado tal qual é visto na sequência inicial e final de A Era de Ultron, ficará um tanto decepcionado porque temos basicamente três filmes distintos em um só. Tem o filme Capitão América Visita Wakanda, o filme Homem de Ferro no Planeta Inóspito e Thor Perdido no Espaço. Fica livre ao espectador escolher ir para o banheiro no meio daquele que menos lhe interessar. E esse excesso é sentido nas quase duas horas e meia de filme.

Brincadeiras à parte, essa distinção de cenários novamente tem duas razões. Na razão lógica, seria muito confuso enfiar tantos personagens em um mesmo cenário. No primeiro e segundo filmes até funcionou, mas agora o número de heróis duplicou, seria muita informação de uma vez só, o que foi evitado. Na razão narrativa, isso tudo é consequência da grande catástrofe separatista que ocorreu em Capitão América - Guerra Civil, também conhecido como a sequência não oficial d'Os Vingadores

É nessas horas que percebemos como todo o universo cinematográfico da Marvel foi muito bem planejado, e como o desenvolvimento das histórias de todos seus filmes apresentam uma progressão convincente. Aqui a premissa deixada pelo último filme do Capitão é mantida, dando a constante sensação do impacto que a dissolução do grupo trouxe na dinâmica de heróis que não conseguem mais dialogar a partir do momento que a diferença de ideais falou mais alto do que o bem comum. Ao mesmo tempo, esses mesmo heróis não conseguem encontrar identidade com outros grupos ou indivíduos, como acontece quando Thor se depara com os Guardiões, ou quando Tony Stark se encontra com Doutor Estranho. Situações inconvenientes onde todos querem falar a mesma coisa, mas nunca usam a mesma língua.

Enquanto isso Thanos se aproveita dessas brechas para traçar seu ambicioso plano de manutenção do Universo (e não de destruição, segundo ele) que, apesar dos pesares, tem um certo sentido dentro da realidade distorcida do personagem, mas que o roteiro não consegue desenvolver ao ponto dele se transformar em um vilão mal compreendido, ou em um vilão em conflito, aquele tipo que até tem uma atitude nobre, mas extremista ao ponto do inaceitável. Por mais que o roteiro tente criar momentos de empatia com o vilão para desenvolver esse seu lado mais emocional, como na sua relação com Gamorra, a intenção falha, e sempre voltamos a odiar Thanos porque temos que odiá-lo e nada mais.

Sem dúvida que levar a crueldade de Thanos e sua impiedosa personalidade para uma franquia familiar foi como andar em corda bamba, e por mais que seja um personagem digital, Josh Brolin conseguiu imprimir uma personalidade nele que não apenas zomba da fraqueza de seus inimigos como também faz questão de demonstrar não sentir um pingo de graça ou empatia com piadinhas fora de hora, o que pode ser levado até como uma metacrítica não só nos dois filmes anteriores dirigidos por Joss Whedon, mas também algo que vinha incomodando muito nos últimos filmes da Marvel.

A escolhas dos irmãos Russo para dirigir Guerra Inifita foi certeira. Eles aboliram tudo aquilo que não funcionou com Joss Whedon, principalmente na velocidade das cenas que era tão rápida ao ponto de não se compreender quem era quem ou o quê. Toda aquela sobriedade e seriedade de Soldado Invernal e Guerra Civil foram bem portadas, ao mesmo tempo que adequaram essa identidade para um público mais abrangente, sem cair na demanda da ação absurda e escapista que Taika Waititi fez em Thor: Ragnarok, e que de fato preocupou muita gente. Até porque seria muito personagem piadista em um único elenco. Já tem o Tony Stark de Robert Downey Jr. que definitivamente é um excesso por si só, seguido do novo Homem Aranha de Tom Holland em uma hiperatividade juvenil irritante. Tem o sempre bem humorado e motivado guardião Peter Quill, além do mais novo "mestre" do improviso e da piada pronta chamado Thor e, por último, Bruce Banner, que a cada novo filme se torna mais patético. Ou seja, tinha tudo pra dar errado se não tivessem sido bem dosados pelos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, os mesmos de Guerra Civil também.

Tem os momentos absurdos de sempre, como Thor falar no espaço, Tony Stark sobreviver depois de Thanos literalmente arremessar uma lua em cima dele, ou o campo de força de Wakanda suportar um impacto meteórico de uma nave, mas não conseguir resistir uma horda de extraterrestres. Absurdos esquecíveis, mas que a gente não deveria ser obrigado a ver em um projeto que ficou por 10 anos em uma encubadora, custou mais de US$350 milhões e já arrecadou quase US$2 bilhões no mundo com um mês de exibição.

Por mais que seja tudo aquilo que os fãs respeitosamente podem esperar, Guerra Infinita está longe de ser perfeito ou tão bom e empolgante quanto o primeiro da série, mas depois de Pantera Negra, é mais uma prova de que a Marvel, como toda boa indústria, se adequa aos tempos modernos, e resgatar certa sobriedade se mostrava uma necessidade.

Sem contar que ainda é apenas o penúltimo capítulo do fim de uma era. A princípio era para ser um filme dividido em duas partes, mas por razões inexplicáveis decidiram transformar a saga definitivamente em uma tetralogia. Não que essa mudança muda consideravelmente alguma coisa além de que novos conceitos poderão ser apresentados. E se você assistir assim como eu, que por momentos acreditou que o que tudo que acontecia poderia ser uma pegadinha do Loki, ficará mais surpreso ainda ao descobrir que, não... não é.

E, sim, se você leu em vários lugares que Guerra Infinita é um episódio de mudanças drásticas no Universo Cinematográfico da Marvel, acredite nisso. É um mistério, uma dúvida e uma incógnita até agradável o que virá depois dele.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

QUANDO A FALTA DE QUALIDADE CONSTRANGE...

★★☆
Título: Velhas Amigas
Ano: 2018
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Carla Albuquerque, Beto Ribeiro
Elenco: Carla Pagani, Keila Taschini, Alejandra Sampaio
País: Brasil
Duração: 30 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Três amigas de longa data que vivem no mesmo bairro de Higienópolis, em São Paulo, confidenciam problemas familiares, amorosos e cotidianos.

O QUE TENHO A DIZER...
Maria Antônia (Carla Pagani), entre preocupações triviais da vida, como decidir em qual restaurante almoçar, gasta seu salto andando de um lado para outro dentro de seu amplo apartamento em Higienópolis, um dos bairros mais tradicionais - e caros - de São Paulo. Seu apartamento é tão espaçoso e reflete tão bem sua posição socioeconômica que tem a possibilidade de ter três salas: uma dedicada ao estar, uma dedicada à TV, e um escritório.

Dinheiro ou tempo não é problema pra ela, que se arruma sem pressa para sair com seu marido que acabara de comprar um carro. Ela nem fica surpresa com a notícia do novo artigo de luxo porque já está tão acostumada com isso que acha a situação tão entediante quanto o marido sempre escolher a mesma cor.

Nervosa com um brinco de pérolas que não atarraxa e com o cheiro de cigarro que o marido deixou no apartamento ao fumar no escritório, ainda por cima não consegue encontrar seu celular que toca, enquanto Conrado solta uma frase machista sem sentido sobre "as mulheres e seus celulares", como se celular fosse uma moda, um artigo, ou um acessório unicamente feminino e de preocupação feminina tanto quanto um absorvente.

"Você está ouvindo ele tocar, Conrado?", pergunta ela duas vezes enquanto volta aos fundos, balançando as mãozinhas de um lado para outro, cabeça erguida, na mesma falta de pressa. Uma caricatura típica de madame cansada de perder as coisas em casa, ensaiadíssima na procura enquanto a câmera não tira o foco de seu cansativo ir e vir. Como Conrado não responde, provavelmente ele não ouviu nem o telefone, e nem ela perguntar. Não que ele não tenha ouvido, mas na vida real teria, e deliberadamente ignoraria. Primeiro porque o telefone que toca não seria problema seu, e segundo porque a pergunta de Maria Antônia não faz o menor sentido, já que não apenas ela ouvia o telefone tocar, como a gente também. Talvez o único momento realmente acertivo do roteiro ao reproduzir uma situação cotidiana de "como ignorar uma pessoa irritante fazendo uma pergunta irritante", me lembrando de Francisco Milani e de seu irritadiço personagem Saraiva.

Depois do hercúleo sacrifício, Antônia atende o telefone, e na linha estão Violeta (Alejandra Sampaio) e Lurdinha (Keila Taschini) conversando em conferência, algo que o roteiro resolveu colocá-las fazendo pela primeira vez justo no primeiro episódio, só para terem um diálogo pra lá de antiquado e completamente descontextualizado sobre "linhas cruzadas" e "extensão de telefone", uma coisa que no Brasil praticamente não existe mais há mais de 20 anos, e que elas, mesmo com seus celulares com mais de cinco polegadas de modernidade, sequer haviam se dado conta até então.

Por incrível que pareça, toda essa situação de abertura, que culmina com uma terrível ironia da vida com Conrado sofrendo um infarto dentro de seu carro novo, é incômoda. Incômoda porque é perceptível o amadorismo de tudo por todos os cantos. Dos diálogos mal interpretados, às situações forçadas e sem qualquer naturalidade, de um elenco mal escolhido que não evolui até sequer demonstrar qualquer química.

A direção de Carla Albuquerque e Beto Ribeiro (este, que também assina o roteiro), parece não saber que dirigir um projeto não é simplesmente carregar a câmera de um lado para o outro, e que tomadas longas (ou planos sequência) não significa maestria ou contemporaneidade quando feito sem coerência, como é o caso. É bonito, ousado e empolgante quando acontece, mas não funciona quando não se tem a menor noção do que se fazer com isso.

Ao mesmo tempo que as cenas evitam os cortes, a câmera concentra-se em planos fechados, limitando a liberdade e a naturalidade que essa técnica de filmagem permite e oferece, soando redundante. Veja em O Rebu (2014), por exemplo, em que José Luiz Villamarim usou os planos sequência com abundância no intuito de dar liberdade de movimento e atuação aos personagens, assim como já fez em séries anteriores que dirigiu, levando para a TV uma técnica de teatralização de cena que foi muito bem vinda. Mas aqui, a condução dessa técnica parece só ter o propósito de economizar nos custos da edição, porque no resto só evidenciou mais ainda a atuação ensaiada e devidamente marcada, ampliando os defeitos como uma lupa, como no episódio do noivado da filha de Lurdinha, em que a tecnica só serviu para reduzir mais ainda o tamanho do ambiente e causar uma sensacao claustrofóbica de gente acumulada em volta de uma camera (sem falar que o teor "Sai de Baixo" do episodio simplesmente é desastroso, e uma personagem como a da e.pregada é o típico excesso que qualquer roteiro deve evitar).

Nem mesmo durante os momentos no cemitério, no segundo episódio, em que o plano consegue ser sequenciado e mais aberto, a situação evita cair no constrangedor. Um momento que poderia ter rendido uma excelente situação tragicômica se torna um pesadelo ruim de doer com atrizes que apenas falam o que leem e nada mais. Nunca há emoção ou um comprometimento convincente com o papel. Toda fala é retilínea e uniforme, sem qualquer presença. Nem no teatro amador a coisa é tão terrivelmente séria assim, nem mesmo em Malhação os atores novatos conseguem ser tão inexpressivos, nem Ricardo Macchi parece mais ser tão ruim assim. E por mais qualidade de ponta que a produção possa ter usado, são detalhes como esses que passam a impressão de precariedade e amadorismo que não precisava.

Para ajudar tudo (botão da ironia apertado), há os momentos de flashback que mostram a adolescência das personagens no final dos anos 70 em um desenho de produção que nunca parece ser de época. Nem mesmo no cabelo ou na maquiagem houve, sequer, algum esforço. A única coisa que eu conseguia reparar era em um ou dois figurantes que passavam desmotivados em segundo plano, praticamente arrastando os pés, com calça e camisa colorida qualquer só pra dar um tonzinho de naturalidade cotidiana. Risos, risos... foi engraçado.

Mas voltando... Quando as três se juntam em um determinado momento, trocando respostas ao mesmo tempo que trocam de lugar sincronizadamente como em um jogral, parece que estamos assistindo Chiquititas, e que do nada a Mili vai pular em frente a câmera e cantarolar para todas remexerem bem com as mãos, com os pés e com a cabeça.

É tão desmotivante a imaturidade da direção/roteiro que causa até constrangimento, junto com uma leve labirintite.

E entre citações de autor desconhecido, e até de Miley Cirus (sim, acredite), é assim que todo episódio começa, sempre havendo o suficiente para aqueles que adoram se torturar e pagar suas penitências pelos pecados cometidos na vida.

Dizer que a ideia é boa não parece ser suficiente, porque nem consistência existe. As personagens não tem profundidade além de dinheiro. Violeta é a reservada e tradicionalista, Lurdinha é a moderna e liberal, e Antônia a meio termo. A velha fórmula dos dois extremos com um centro. Os conflitos são rasos, fúteis, esquecíveis, que se apoiam em diálogos de fofocas e acontecimentos duvidosos. Nada que justifique tantos episódios para tão pouco.

Depois temos uma história que, mais elitista e alienada seria impossível, mas talvez porque o texto baseado em estereótipos sempre é o caminho mais fácil pra quem tem inabilidade em criar camadas e arcos dramáticos. O problema nunca é um enredo ter como pano de fundo a classe média paulistana, carioca ou seja lá de onde for, mas na maneira como ela se desenvolve. Nem Higienópolis consegue ter o destaque, ou se transformar em um personagem vivo como Nova York se torna em Sex And The City, ou São Paulo como um todo em O Signo da Cidade (2007). Um desperdício de oportunidade, de cenário e de aproveitamento daquilo que a própria série tenta se promover em cima.

Começar o texto descrevendo o primeiro episódio, e os conflitos de viver la vida de madame loca de Maria Antônia e companhia, é carecidamente a essência de toda a série e das demais personagens, mostrando quão mal tudo começa, e como tão mal tudo continua. Sem falar que o etarismo é jogado no texto o tempo todo: a tecnologia que elas não compreendem, a prisão nostálgica que vivem, os discursos politicamente corretos e matriarcais, a confusão do que é sexualidade e gênero... e assim o título da série perde sua ambiguidade e torna-se literal. Perde seu interesse e se torna banal. Deixa de ser uma ironia, uma sátira, ou uma ode ao tabu da moderna independência feminina depois do casamento, da separação ou da viuvez para se tornar algo sem qualquer tempero. Artificial e mal colocado. Se fossem esquetes de vizinhas trocando receitas e fofocas pela janela, teria sido mais interessante.

É sempre louvável ver produções brasileiras ainda serem feitas, principalmente quando encabeçadas por produtoras independentes, como é o caso. Isso deveria ser mais difundido, e as leis de incentivo poderiam favorecer mais isso. Mas se tem uma coisa que o Brasil ainda precisa aprender com o cinema norteamericano é a maneira como as produtoras independentes conseguem peneirar o conteúdo que escolhem, principalmente no roteiro e na seleção de elenco, porque se ao menos a direção é ruim, o resto consegue se virar de algum jeito.

A série infelizmente não decola em nenhum momento, e o ranço amador é tão grande que apenas reforça o preconceito de que conteúdo nacional não tem qualidade. O que tem voltado com força na opinião pública nesse atual momento do mercado de produções nacionais se dedicarem demais a comédias de situação banais, sem qualquer espontaneidade ou perspicácia.

Mas pra não dizer que tudo seja ruim, a calorosa conversa lida entre Lurdinha (Keila Taschini) e Jean Carlos (Wagner Galvão), no terceiro episódio, além de ser dramática como uma novela mexicana, consegue ter uma reviravolta surpreendente... como uma novela mexicana. Um pastiche até apreciável se esse fosse o objetivo desde o início.

É nessas horas que percebemos como as décadas de monopólio e da influência da Rede Globo e da Globo Filmes prejudicou demais a criatividade e a livre autoria. A impressão que temos é que, mesmo tentando fugir de certos padrões, seja divagando sobre a vida feminina depois dos 50, ou da vida cosmopolita moderna, apostar em um elenco desconhecido em sua maioria, ou até abusar de técnicas cinematográficas pouco utilizadas por aqui, a cultura cinematográfica brasileira está tão condicionada a um padrão que, toda vez que existe uma tentativa de sair dela, o material desanda pela inabilidade de conseguirem caminhar com as próprias pernas, justamente por não existir tantas outras referências ou experiências frescas e relevantes o suficiente que favoreça o desenvolvimento de outros padrões sem a perda de qualidade.

É uma grande pena que o resultado final dessa produção seja algo frustrante, porque ser uma pequena produção não é sinônimo de péssima qualidade. Os melhores filmes que assisti ao longo de todos os meus anos são aqueles que tiveram os menores orçamentos, e na televisão eu também acredito que isso seja bastante possível. Mas uma pequena produção que não sabe do que falar, ou como falar, não faz qualquer sentido existir.

Carla Albuquerque e Beto Ribeiro podem até ser os cabeças da Medialand, produtora responsável pela série e empresa com um currículo considerável de produções televisivas, mas terem abraçado o projeto com as próprias mãos em praticamente todos os sentidos, definitivamente não foi uma boa escolha. E um produto que merecia uma melhor atenção, uma boa filtragem e uma excelente polida, acabou se tornando mais um pastelão malfeito tanto quanto os filmes B que Beto Ribeiro dirigiu para uma série de cinco telefilmes transmitida no Canal Brasil. A diferença é que esses telefilmes eram para ser assim, ao contrário de Velhas Amigas, que nem mesmo se fosse uma sátira (será que é mesmo?) precisava ser tão mal desenvolvida. E se o padrão continuar o mesmo, não vai ser de admirar que Gamebros, a próxima empreitada da dupla, tenha a mesma qualidade duvidosa.

Mas se você é do tipo que não se importa com qualidade e até gosta de produções com essa pegada "vamos juntar as vizinhas do condomínio e filmar uma série", então ela é pra você. E para aqueles que adoram ver humor e se divertem com defeitos, aí sim, Velhas Amigas será um prato cheio.

quarta-feira, 21 de março de 2018

LIBERDADE ACIMA DE TUDO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Sebastián Lelio
Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes
País: Chile, Alemanha, Espanha, Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma transexual terá de lidar com diversas outras dores além da perda repentina de seu namorado.

O QUE TENHO A DIZER...
Grande vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018, sua vitória foi bastante comemorada, não por realmente se colocar como o melhor filme entre os finalistas, mas porque é um tema inédito a vencer em qualquer categoria da premiação. Pode ter sido um esquema da Academia em se promover como um grupo diversificado e que, ao contrário do que a História nos mostra, seja a favor da diversificação.

A vitória do filme veio em um momento muito delicado no cinema mundial, onde diversos grupos reivindicam seus diretos. Os negros exigindo maior espaço, as mulheres exigindo maior igualdade e, porque não, transgêneros também exigirem o respeito social e profissional que lhes são merecidos por direito humano e civil.

Sebastián Lelio é o mesmo diretor e roteirista responsável pelo grito empoderador da mulher independente que a todo instante caminha contra o preconceito e o machismo no filme Gloria (2013), o qual também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014, e agora está sendo refilmado para o público norte-americano pelo próprio diretor com Juliane Moore no elenco.

Portanto, não é de se espantar que sua sensibilidade sobre o tema seja refinada o suficiente ao ponto de outra vez desenvolver um grito empoderador e de liberdade relevantes aqui, e por uma personagem que igualmente caminha contra o preconceito, o machismo, a discriminação, o assédio, a violência e a todos os demais adjetivos desumanos que estão agregados nesta história. Não é à toa que Lelio materializa essa difícil batalha em uma das cenas mais simbólicas do filme, quando Marina (Daniela Vega), a grande heroína da história, caminha na rua contra uma rajada de vento, onde cada passo se torna mais difícil de sustentar, mas incapaz de impedí-la ou derrubá-la mesmo assim.

E é em cima dessa metáfora que todo o filme será construído, sendo a trajetória da protagonista baseada em histórias reais espalhadas pelo mundo, pois representa muitos casos similares ao dela em estados ou países que não amparam uniões estáveis como a dela, ou transgêneros como ela.

As situações por muitas vezes podem parecer exageradas no sentido de que, a partir do momento que Orlando (Franciso Reyes) morre, morre junto qualquer compaixão e respeito que exista, fazendo-a novamente encarar a bruta realidade de pessoas movidas por ódios injustificáveis, que ignoram completamente que a escolha individual de cada um deve ser respeitada independente de qual seja, levando-a a uma sucessão de conflitos desnecessários que a impedem de prosseguir com sua vida com dignidade.

Essa hiperbolização das situações tem um propósito chocante deliberado para sentimos o peso maciço das dores e de como a integridade da personagem é constantemente atacada e testada por puro sadismo e ignorância. O luto de Marina sequer é respeitado, além dela ser tratada como uma criminosa, responsabilizada não apenas pela morte de Orlando, como também pelas escolhas e infelicidades dos outros. É assim como faz a ex-mulher do falecido, que não se conscientiza que Orlando a deixou por uma escolha dele. A revolta de Sonia (Aline Küppenheim) não é por ter sido trocada por outra mulher, mas ter sido substituída por uma transexual, ferindo sua feminilidade narcisista, notado quando ela deixa claro que considera Marina uma aberração.

De atitudes familiares estúpidas, como exigir a devolução do carro e do apartamento deixados por Orlando, das ameaças que Marina sofre de seu enteado em crise sexual, das ofensas gratuitas que ouve dos demais familiares, nada parece o bastante até ser proibida de comparecer no funeral, numa situação muito parecida com a história real do casal Shane e Tom, contada no documentário Bridegroom (2013), onde Shane foi igualmente impedido de comparecer no funeral de seu marido, e que volto a dizer, é uma situação mais comum do que se imagina.

O desamparo legal, social e familiar, o escárnio, o desrespeito e a violência sofrida por todos os lados só acontecem dessa forma por ela ainda ter seu nome de batismo na sua carteira e pela inabilidade da sociedade em ser pluralista e diversificada. A depredação psicológica e física que Marina constantemente sofre mostra uma realidade tão brutal e desumana difícil de engolir. Seu comportamento sempre pacífico e calado, e a consciência que tem de que responder aos ataques só daria mais razões para a continuidade do sofrimento é o que também nos dá o igual sentimento de impotência e vulnerabilidade que ela tem, mas ao mesmo tempo nos deixa mais claro que a luz do dia de como sua integridade, respeito e educação são maiores do que de qualquer outra pessoa.

Por muitas vezes nos deparamos com a personagem se olhando ao espelho. Não é ela se questionando se deveria ser diferente, mas sim, o que há de errado com as pessoas em não aceitá-la como é, já que diariamente ela aceita e respeita todas as outras que frequentam o restaurante onde trabalha, ou a casa de shows em que apresenta seus números de canto. E a conclusão é que a ignorância é a única responsável por impedir essa reciprocidade.

É um filme difícil, mas há uma beleza implícita em todo o drama da protagonista e, acima de tudo, uma mensagem motivadora forte de que todos nós devemos impor o respeito pelo nosso espaço a partir do momento que ele é invadido. E o que acontece com ela é uma invasão tão brutal que se assemelha a um estupro, seja quando é coagida a realizar um exame de corpo delito, seja quando é sequestrada por um grupo, um momento tão apavorante e aterrorizante que só podemos pensar o pior.

O semblante que carrega do fardo da batalha que trava diariamente contra os achismos e demandas sociais irrelevantes nos deixa evidente que a vida de Marina nunca foi um mar de rosas, e que não era necessário maiores motivos para ela ser uma pessoa tão retraída e apática como demonstra na maioria das vezes. É a pele que engrossa e a casca que endurece em um mundo que se mostra cada vez mais incapaz de diálogo e compreensão. Só assim para ela conseguir dar a reviravolta emocionante que consegue na história, como um grito de independência e, finalmente, a tão esperada liberdade.

segunda-feira, 19 de março de 2018

DIVERSIDADE SEMPRE BEM VINDA...

★★★★★★★★☆
Título: On My Block
Ano: 2018
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Sierra Capri, Jason Genao, Brett Gray, Diego Tinoco, Ronni Hawk, Peggy Blow, Jessica Marie Garcia
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A relação entre cinco amigos adolescentes e suas experiências em uma pequena cidade no interior de Los Angeles.

O QUE TENHO A DIZER...
Assim como Cara Gente Branca (Dear White People, 2017), essa série chega para incrementar a proposta diversificadora do Netflix, e por que não, conscientizadora também. Igualmente apelativa para o público mais jovem, com aquele visual descolado, diálogos cheio de gírias caricatas, comportamento progressistas, personagens irreverentes e uma trilha sonora pra lá de popular, ela pode não ter o mesmo peso crítico-social presente na sátira de Justin Simien, mas a intenção existe de igual forma principalmente pelo elenco ser predominantemente latino, algo um tanto inédito para uma produção de distribuição mundial.

Aqui as tramas se desenvolvem dentro de um bairro, colocando todos os personagens em um mesmo ecossistema, numa mesma condição demográfica. Não existe uma discrepância sócio-econômico-cultural entre eles, o que existe é uma dinâmica social um tanto autônoma que cria suas próprias regras e leis para compensar a negligência dos grandes escalões sobre políticas inclusivas, resultando em problemas comuns encontrados em grupos sociais carentes.

Mas a série, a princípio, não tratará tudo isso como um grande problema a ser enfrentado pelos personagens, pelo contrário, é encarado pelos cinco amigos como uma realidade cotidiana tal qual tentar adivinhar o calibre da arma pelo tiro que ouvem na rua. E isso, para eles, é divertido, porque não há outra maneira de combater essa realidade além da proposital alienação.

O drama apenas surge quando Cesar (Diego Tinoco) é incluído entre os Santos, uma gangue na qual o seu irmão Oscar (Julio Macias) é chefe, e a possibilidade dele abandonar os estudos e o convívio com os amigos para viver do crime aumenta cada vez mais. É então que os cinco amigos percebem que a vida adulta se aproxima mais rápido do que imaginavam, e junto com isso problemas que, até então, pareciam fáceis de serem contornados. E também quando percebemos que a série não será apenas sobre dramas colegiais, ansiedades do primeiro beijo, discursos sobre a virgindade ou a busca pela popularidade na escola.

A grande sacada da série é misturar as complexas responsabilidades que surgem com os dramas da idade à realidade em que vivem, algo complexo e triste quando percebemos que é a situação de muita gente por aí, e como a transição para a vida adulta se torna uma tarefa mais difícil do que já é em condições como essa. Mas longe de dramatizarem demais o cenário, tudo é levado com bom humor na medida do possível. O elenco, formado em sua maioria por atores pouco experientes, consegue ser cativante o suficiente, numa química necessária para nos convencer de que tudo, no fim, dará certo. O lema de respeitarem uns aos outros como uma família se torna uma bela perspectiva quando é a única realidade na qual podem agarrar com todas as forças para superarem os obstáculos. Por isso que, em muitas situações, nenhum problema entre eles será grande o bastante para abrirem mão disso.

É interessante a forma como discussões cotidianas também são desenvolvidas, porque o roteiro não se esquece em nenhum momento que os personagens são adolescentes, e a distimia presente em seus comportamentos ora infantis, ora adultos, são coerentes, sendo perdoáveis até momentos em que garotos tenham comportamentos machistas, ou alguém tenha um diálogo mais malicioso ou preconceituoso. Mesmo porque sempre terá alguém para confrontar essas situações, criando momentos de reflexão, como Monse (Sierra Capri) muitas vezes faz. São pessoas em formação, que estão aprendendo a lidar com o peso daquilo que dizem e fazem, com grandes ideais pela frente, mas que ainda não tem a menor noção de como atingi-los.

A surrealidade aparece em pequenas doses para esquecermos dos pesos dramáticos e as situações cômicas serem atenuadas sem apelações para o cliché pastiche. A maioria desses momentos cabe nas inesperadas aparições de Jasmine (Jessica Marie Garcia), uma personagem bem coadjuvante, mas recorrente, de hilária autoconfiança, mas solitária por conta de sua inconveniência. Ela é assediada moralmente por todos, inclusive pelos próprios protagonistas, e seu comportamento histriônico é consequência dessa rejeição sofrida e da ânsia de ser aceita e sentir-se inserida em algum grupo. Mas de uma forma brilhante o texto consegue transformar todo esse peso dramático da personagem em um dos elementos mais hilários da série, alfinetando discretamente o comportamento social frente aquilo que seja diferente ou excêntrico, criando uma empatia quase imediata com o espectador. Mérito indiscutível da própria atriz, que transforma a personagem em uma montanha inabalável de autoestima.

A consciência dos personagens a respeito daquilo que são, de suas origens e condições sociais é o que faz os momentos dramáticos não caírem no comum. Pelo contrário, essa consciência é o que justifica cada um ser exatamente como é, dando aos nossos heróis e heroínas características únicas como poderes. Seja no excesso de sensatez de Monse, na fatalista conformidade de Cesar, na positividade de Ruby, na honestidade de Jamal ou na ingenuidade de Olivia, são as qualidades de cada um que irá complementar as ausências e defeitos uns dos outros.

A variedade cultural que o seriado traz também é um dos elementos de destaque porque igualmente temos um elenco de diversidade racial e étnica muito grande, não sendo à toa que a trilha sonora reflita bastante essa atmosfera tão misturada que permeia pelos episódios, com músicas que navegam pelos diferentes estilos da black music, influenciados ou não pela cultura latina, incrementando mais ainda todo o universo pluralista que a série tenta ostentar. Seja no Funk, no Soul, no Rap, R&B, Hip-Hop, ou até mesmo no Pop ou Eletrônico, as músicas utilizadas são dignas de atenção. Preparem o Shazam e estejam dispostos a conhecer excelentes artistas do cenário atual que fogem da obviedade e nos faz perguntar onde estavam para nunca termos descoberto eles antes.

On My Block é uma versão mais séria e adulta de Stranger Things por conta de seu enredo girar em torno de um grupo de amigos, resgatando uma semelhante atmosfera fraternal sincera e inspiradora, deixando a fantasia um pouco mais de lado e trazendo à tona elementos do cotidiano. Não que subtramas mais aventurescas e fictícias não aconteça, como Jamal (Brett Gray) acreditar que existe um tesouro enterrado no bairro e passar grande parte dos episódios atrás de pistas que o levem até ele, sendo apoiado apenas por uma velha senhora que acredita que os sonhos nunca devem ser esquecidos. Mas é na trama de Cesar que a realidade toda vez é trazida à tona como um puxão, bem como a finitude das coisas é uma ameaça constante, e como o calibre de uma arma não é apenas uma charada, mas o triste elemento da violência que os rodeia.

Engraçado, motivador e emocionante na medida certa, entre conflitos românticos e terrores sociais,  o seriado muitas vezes nos deixa sem saber onde é que estamos indo ou em que terrenos vamos pisar, e por isso é surpreendente e imprevisível, com um grande futuro pela frente, basta que as pessoas se abram a ele, como ele se abre sem vergonha alguma para nos conquistar.

DOIS PARA FRENTE, DOIS PARA TRÁS...

★★★★★★☆
Título: Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2)
Ano: 2017
Gênero: Terror
Classificação: 16 anos
Direção: James Wan
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Maria Doyle Kennedy, Franka Potente
País: Canadá, Estados Unidos
Duração: 134 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ed e Lorraine Warren tentam se afastar de casos paranormais quando sua mulher tem uma visão perturbadora, porém um caso familiar os reaproxima de novo a um caso sobrenatural muito mais sério do que imaginavam.

O QUE TENHO A DIZER...
James Wan voltou para dar continuidade às histórias do casal Ed e Lorraine Warren depois de dirigir a continuação Sobrenatural, Capítulo 2 (Insidious - Chapter 2, 2013) e contribuir para a franquia multimilionária, Velozes e Furiosos 7 (Furious 7, 2015), tentando escapar do gênero que o consagrou e mostrar ao público sua versatilidade. O que o ajudou de certa forma, já que será o diretor de Aquaman.

O filme começa de maneira interessante fazendo referência ao caso de Amtyville, o acontecimento mais famoso do casal Warren. Mas ao invés de recontar uma história que já foi incansavelmente recontada no cinema, a situação serve apenas como uma introdução ao filme mesmo, uma referência e um gancho para os eventos seguintes.

Wan mantém muitas das mesmas técnicas que ele utilizou no filme anterior, como algumas poucas cenas em plano sequência para incrementar os estilos visuais e dar uma sensação mais fluida e participativa, ou as câmeras em angulações incomuns para aumentar o clima sombrio e distorcido. É indiscutível que dessa vez ele utilize melhor as técnicas para conduzir a história ao invés de abusar dos jump scares, aqueles elementos jogados repentinamente na tela com um som estrondoso para causar sustos deliberados. Não significa que eles não existam aqui, pelo contrário, qualquer coisinha ainda é motivo para um barulho atrapalhar a experiência, e muitas cenas acabam não funcionando, seja porque o efeito sonoro desnecessário atrapalha, seja porque a cena realmente é fraca e o som evidentemente entra para obrigar o espectador a ter alguma reação. E o primeiro motivo ainda é o grande vilão, na mesma intensidade que no filme anterior.

A história em si não é muito diferente, outra vez baseado em um fato real, e um dos mais investigados e explorados pela mídia até hoje, sobre uma família que passa a ser atormentada por eventos sobrenaturais. Enquanto na história anterior era um espírito, aqui será uma entidade, o que faz a situação ficar mais séria de maneira que Lorraine afirma jamais ter visto, e que se o inferno for como ela visualizou, ela espera não ter a mesma experiência nunca mais. Uma situação um pouco complicada para a franquia quando a personagem afirma isso porque automaticamente já diminui a complexidade de qualquer filme seguinte, mas enfim... ignoremos porque os roteiristas irão ignorar também. Mas não ignoremos o fato de que a Igreja Católica e os dogmas religiosos novamente conduzem muitas situações outra vez, quando, para dar uma variada, poderiam servir como elementos de dúvidas e questionamentos. Mas ninguém quer cutucar leão com vara curta. Falar sobre demônios pode, mas duvidar da fé não.

Aos poucos é possível perceber uma maior maturidade no diretor para construir a atmosfera que pretende, como a colocar elementos aleatórios em segundo plano nas cenas, fazendo o espectador ser pego de surpresa não porque foi jogado na tela, mas porque ele próprio, de soslaio, percebe que no fundo do cenário, ou no canto da tela, tem alguma coisa estranha na parede ou na cadeira de balanço, por exemplo. Coisas que sempre funcionam muito bem para dar aquele arrepio na espinha de que alguma coisa errada acontece, o tal elemento inusitado que desafia a percepção que há muito tempo eu não via ser feito em filmes de terror, porque na verdade é isso o que mais assusta, é o inusitado, a aparição de algo que está lá, mas você não nota de imediato.

Outra coisa muito interessante, e mérito dos roteiristas Chad e Carey Hayes, é fazer os eventos acontecerem sem ordem. Chega daquela história cliché de fantasminha ser calculista e ficar quieto quando a polícia estiver perto ou só pregar peça nas crianças quando os pais estiverem dormindo. Não importa quem seja ou que horas seja, as coisas acontecem mesmo assim, quebrando a sensação de obviedade que os filmes do gênero costumam ter.

O problema é que, ao mesmo tempo que os roteiristas dão dois passos à frente com essa interessante sacada, eles voltam ao mesmo lugar dando dois para trás ao criar conflitos incoerentes, como no caso de diversos personagens não acreditarem que a família Hodgson esteja sofrendo com atividades sobrenaturais, mesmo todos eles sendo testemunhas de vários acontecimentos, incluindo os próprios protagonistas. Sim, incluindo Ed e Lorraine Warren.

Chega a ser inacreditável a repetitividade com que os personagens discutem a realidade dos fatos, mesmo quando eles mesmos sofrem alguma violência que não tem explicação lógica, como na sequência em que Ed é atacado no porão, mas logo em seguida acredita que tudo possa ser uma farsa. A situação culmina ao ridículo quando o casal de investigadores até abandona a família "por falta de provas". Momentos como esse que nos perguntamos como os roteiristas são capazes de dar reviravoltas tão absurdas e impensadas, e como um diretor que tentou se consagrar no gênero permitiu descontextualidades tão grandes assim.

Muitas vezes um filme de terror não depende de sua história para ser aterrorizante ou simplesmente causar um ou outro medo, mas as incoerências aqui são tão grandes que realmente acabam ferindo o resultado final. É claro que para os espectadores menos atentos isso tudo será praticamente irrelevante porque existem outros elementos que para eles chamarão mais atenção e foram, na verdade, as razões de se interessarem pelo filme, como as figuras da Freira ou do Homem Torto. A Freira realmente é uma figura perturbadora, rendendo sequências bastante obscuras e que vão fazer muita gente acender a luz antes de sair de frente da televisão. Mas aí voltamos ao mesmo problema de dois passos pra frente e dois para trás quando apresentam o Homem Torto, uma figura mais cômica do que assustadora, feito inteiramente em computação gráfica, sem o menor impacto ou importância na história, pecando no excesso, mais parecendo um personagem que saiu de algum filme de Tim Burton do que outra coisa.

Ou seja, Wan pode ter a visão necessária para criar um bom filme de horror, mas precisa aprender a abrir mão de elementos comerciais demais, apelativos apenas para atrair a atenção do público, mas não na manutenção do universo que ele cria. A partir daí podemos ter uma noção do que poderão ser os filmes que se originarão desses personagens. Até porque é aquilo que sempre digo: o cinema nunca consegue se dar bem quando tenta explicar a origem de um mal, e toda vez que alguém se aventurou a isso, como fizeram com Freddy Krueger, Jason, Leatherface, e outros, acabou destruindo os conceitos originais. E além de Wan não ser o diretor responsável por esses filmes, muito menos será da terceira parte de Invocação, segundo ele informou em uma entrevista. Então podemos ter certeza que a exploração desenfreada do gênero outra vez será a razão de seu retrocesso.

Ou seja: novamente dois passos pra frente, e dois para trás.

AINDA HÁ ESPERANÇA PARA O TERROR...

★★★★★★☆☆
Título: Invocação do Mal (The Conjuring)
Ano: 2013
Gênero: Terror
Classificação: 16 anos
Direção: James Wan
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Lili Taylor, Ron Livingston
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma família começa a ser perturbada por espíritos assim que se muda para um nova casa.

O QUE TENHO A DIZER...
Invocação do Mal foi a tentativa de James Wan dar continuidade ao gênero que ele acredita ter se dado tão bem.

Depois do sucesso de Sobrenatural (Insidious, 2010), o diretor acabou "tropeçando" na biografia de Ed e Lorraine Warren, dois investigadores paranormais que dedicaram suas vidas a esse tema, alegando terem participado e investigado diversos casos, sendo o mais famoso deles o de Amityville, incansavelmente explorado pelo cinema. Lorraine ainda vive, aos 91 anos, enquanto Ed faleceu em 2006, aos 76 anos. Segundo Wan, a história do casal já era interessante sozinha, mas eles também tinham diversas experiências documentadas tão fantásticas que poderiam ser exploradas no cinema de igual forma.

E foi o que ele fez aqui, pegando a história da família Perron, que havia se mudado para um lote no interior de Rhode Island, nos Estados Unidos, onde havia vivido uma bruxa no século XIX que, segundo o casal Warren, almaldiçoou o lugar, condenando todos que morassem lá depois dela à morte. Obviamente que o roteiro de Chad e Carey Hayes adapta livremente o que os Warren estudaram, mas consegue fazer um trabalho descente com o gênero em pleno século XXI, onde os filmes de terror que seguem estruturas mais clássicas não mais assustam porque a audiência se acostumou com o exagero e o sensacionalismo explícito.

Recentemente, em uma entrevista para promover seu próximo filme, A Freira (The Nun, 2018), mais uma extensão do universo que ele tem criado em cima das histórias dos Warren, Wan afirmou que sua intenção é resgatar o respeito que os filmes de terror merecem. Vale dizer que, por ironia do destino, ele mesmo foi um dos maiores responsáveis pela mudança de percepção do público daquilo que passou ou não a ser considerado assustador.

Quando lançou Jogos Mortais (Saw, 2004), Wan não imaginava o quanto seu thriller sanguinário influenciaria o gênero nos anos seguintes. Na época em que foi lançado, ele realmente impressionou por ser explícito e trazer um terror visual tão contundente e chocante que automaticamente o gore voltou a ser explorado em demasia pelo cinema. Os filmes posteriores a ele, incluindo suas sequências, abandonaram a exploração do gênero pelo lado psicológico e técnico, oferecendo cenas de susto fácil ao jorrar suco de tomate pela tela ao desmembrar, decapitar, escalpelar ou dissecar personagens de maneira explícita. Foi instaurado aí um outro nível tolerância ao gênero, e aqueles que ainda apostavam no terror mais clássico e sobrenatural, sofreram com essa resistência do público ao que era mais subliminar ou subjetivo, e filmes que não tivessem alguns elementos desses estavam fadados ao fracasso ou ao esquecimento.

Mas a felicidade de Wan é que sua percepção sobre como contar histórias é diferente, e mesmo que ele tenha contribuído com o aumento da tolerância visual na qual os espectadores ficaram expostos nos filmes de terror, talvez ele tenha notado o rumo absurdo e gratuitamente violento no qual o gênero caminhou por conta disso e preferiu resgatar certas origens. Foi a partir de Gritos Mortais (Dead Silence, 2007), que não chega a ser um spino-off de Jogos Mortais, mas ainda é um evidente reaproveitamento e uma referência direta do que Jigsaw representou em seu filme anterior, que o diretor percebeu que era possível expandir idéias e universos apresentados em uma história, o que ele começou a explorar com mais profundidade depois do sucesso de Sobrenatural, que abriu portas para ele solidificar uma legião de fãs que viriam garantir a ele uma estabilidade suficiente para fazer o que ele agora faz: contar histórias de terror de maneira um tanto autoral, já que as idéias são originalmente dele.

Enquanto Sobrenatural já está indo para seu quarto filme, Invocação do Mal não só vai ter sua terceira parte como também tem dois spin-offs, Annabelle e sua sequência (2014/2017) e o já mencionado A Feira, a estrear este ano. Portanto, Wan se tornou uma grande referência do gênero, mas isso não significa que ele seja excelente para isso.

Wan é muito bom para criar histórias e personagens, mas como diretor ainda peca bastante em diversos aspectos porque seu estilo puxa muito mais pro suspense do que para o timing certeiro que o terror exige. Ele consegue construir personagens e atmosferas, mas por muitas vezes opta pelo susto fácil com elementos clichés, como o uso indevido do som naqueles típicos "barulhões" sem sentido que acontecem quando algo surge repentinamente na tela, artifício manjado e usado com excesso. E o engraçado é que não era necessário. Várias vezes voltei a cena e deixei no mudo só para perceber se a sensação de espanto ou surpresa teria sido a mesma. A conclusão foi que, sim, a construção das cenas são boas o bastante para, sozinhas, as técnicas visuais funcionarem mais do que as sonoras. Uma pena que ele não percebeu isso antes porque muito desses efeitos sonoros inúteis poderiam ter sido evitados, e a sensação aterrorizante e incômoda daquilo que desconhecemos teria sido muito maior.

O mesmo sobre elementos narrativos que também não apenas já foram usados incansavelmente, como também reforçam a presença de uma cultura religiosa que chega a ser desrespeitosa não com a religião em questão, mas da forma imperativa como ela é representada.

Depois de O Exorcista (The Exorcist, 1973), é praticamente impossível fazer um filme que tenha uma narrativa parecida, ou que leve a narrativa para esse fim, e que consiga ficar livre de comparações com o clássico de William Friedkin. E é isso o que acontece quando o filme caminha para sua conclusão e um dos personagens é finalmente possuído pelo espírito maligno. Sabemos que a igreja será procurada, que o padre precisa de provas e da aprovação do Vaticano, mas de alguma forma alguém corajoso o suficiente irá ler o sagrado texto em latim e o demônio voltará pisando alto pro inferno. Sabemos porque sim. 99% dos filmes com possessão segue esse protocolo. Não precisamos de mais um filme contando essa história, assim como não precisamos de mais um filme mostrando o personagem possuído ficar desfigurado enquanto vomita na cara das pessoas.

Foi aí que parece que a sacada de cobrir o personagem com um lençol se tornou uma coisa simples e quase genial, uma forma de querer dizer: "ok, todo mundo já sabe o que vem depois disso, então ninguém precisa ver de novo". Mas nada disso ameniza o fato de que, sinceramente, não precisávamos de mais uma sessão dessas. E aí entramos na outra questão, a da religiosidade e da constante necessidade da cultura cinematográfica em nos obrigar a crer que a Igreja Católica é a grande salvação para qualquer mal. Eu me perguntava durante as cenas do exorcismo se apenas católicos são possuídos, e se rituais como esse são feitos apenas por padres católicos. E não, não são. Embora igreja e espiritualidade sejam dois temas que podem ser muito bem explorados (como foi em O Exorcista), em um determinado momento o padre diz a Ed (Patrick Wilson) que o exorcismo não pode ser feito porque a família não frequenta a igreja e as crianças não são batizadas, e é exatamente este ponto que me incomoda, porque na maioria das vezes não consigo considerar algo bom essa constante demonização de pessoas taxadas de "pagãs", ou a constante pregação de que apenas a Igreja Católica seja capaz de expulsar o mal. O mundo não é feito apenas de católicos, e o cristianismo não é a única vertente religiosa que existe.

O grande mérito do filme é, acima de qualquer coisa, ter um elenco bom e tentar manter a técnica a mais presente possível. Pode não espantar e tirar o espectador da cadeira, ou deixá-lo roendo o toco das unhas de medo, mas Wan conseguiu criar diversas sequências bastante obscuras e que surpreendem justamente por tentar reaver o clássico e abandonar o excesso visual. Seu pecado foi não ter se atentado de que o terror é sempre sutil, e se tivesse permanecido assim do início ao fim, sem obrigar situações ao impor alguns efeitos sobre a estrutura narrativa, sem dúvida Invocação teria causado um impacto muito maior do que permite.
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