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segunda-feira, 28 de maio de 2018

QUANDO MUITA COISA FALTA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Geek
Ano: 2017
Gênero: Documentário, Jornalístico
Classificação: Livre
Direção: Carla Albuquerque
Elenco: Vários
País: Brasil
Duração: 22 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
O que é ser geek? É isso o que a série vai tentar esclarecer ao longo de oito temas que fazem parte deste universo que parece complexo, mas que todo mundo tem um pouco dentro de si.

O QUE TENHO A DIZER...

Geek é o termo atual que define todo aquele tipo de pessoa que se interessa e aprofunda seu conhecimento por coisas específicas, incomuns, complexas, peculiares, pouco difundidas ou até bastante conhecidas, mas compreendidas além do superficial. Seja amador ou entusiasta, embora não sejam assuntos ou comportamentos de massa, mas de nichos, grande parte envolve a cultura pop em geral e que acaba atingindo a massa de uma maneira ou de outra. Jogos de tabuleiro ou eletrônicos, cinema e TV, livros e histórias em quadrinhos, moda, música, culturas, coleções ou época específicas... Não existe limite para aquele que se considera tal.

A série, produzida pela brasileira Medialand, mostra um pouco dessa cultura, mas não consegue desmistificar alguns preconceitos sobre esse universo dominado por assuntos tão específicos que não somente inundam o imaginário de quem se alimenta dele, como também atuam como combustíveis criativos para quem vive dele.

Não significa necessariamente que a produção tinha esse objetivo, mas deveria, já que para se compreender um assunto devemos ser mergulhados em sua origem e concepção. Embora a produtora, encabeçada por Carla Albuquerque e Beto Ribeiro, tenha um vasto currículo de produções, muitas delas são de qualidade bastante duvidosa. É o que acontece com a recém aderida pelo Netflix, Velhas Amigas. Mesmo duas produções de teor completamente diferentes, onde uma é uma mistura debochada de drama e comédia da pior espécie e a outra uma série mais jornalística do que documental, os defeitos e problemas se mostram os mesmos: a falta de um roteiro consistente, de uma produção mais polida e caprichada. Detalhes que definitivamente tirariam essa sensação de produto amador ou improvisado, feito de última hora apenas para entregar algo encomendado e garantir os incentivos e fundos conquistados.

Aqui a coisa se torna até mais séria quando, na falta de um conteúdo mais consistente, a edição reutiliza imagens numa repetitividade que não aconteceria em um produto bem pensado e desenvolvido, como acontece numa frequência até irritante no último episódio, em que no meio de uma entrevista que nunca sai do mesmo lugar, e no meio de uma vasta coleção de action figures que deixaria qualquer geek enlouquecido, o que vemos é mais de 20 minutos de imagens que se repetem na mesma proporção que o entrevistado: um investigador e sua evidente obsessão militar.

Óbvio, não é o entrevistado o culpado, mas a produção que não tinha um briefing consistente para o episódio, um roteiro definido e, muito menos, uma edição efetiva o suficiente pra dar suculência no material e peneirar aquilo que o espectador não precisa saber.

A intenção de se aprofundar no universo Geek nunca se mostra tão consistente como, em partes, a série Brinquedos Que Marcaram Época, também no serviço de streaming, consegue. Uma produção norteamericana igualmente simples, que trata de um tema recorrente desse universo, mas com uma relevância documental muito mais segura e que deveria ter sido levada como referência.

Aqui tudo é tratado com muita superficialidade, baseado apenas em relatos que são interessantes, mas não é criada qualquer introdução ou contexto em volta. Há muita pouca pesquisa, menos ainda sobre a história que envolve o tema abordado em cada episódio, como a origem do assunto, o impacto dele localmente e no mundo, a maneira como a massa é influenciada por aquilo, ou como aquilo chega até a massa, etc.

Tudo começa com o primeiro episódio, em que dão destaque à história profissional de Ivan Reis, mas não mostram nada além do que está exposto ao seu redor. Ivan, que é um dos mais renomados e importantes desenhistas da DC Comics, não deveria ser o único a ser entrevistado, já que temos diversos outros brasileiros respeitadíssimos nessa indústria, como Joe Bennett ou Mike Deodato, só pra citar alguns. Não que apenas a historia de Ivan não seja interessante, mas se aprofundar mais no interesse de saber como o cenário brasileiro começou a fazer parte de um mercado internacional tão complexo e competitivo teria sido motivador e um grande diferencial.

Os demais episódios se perdem da mesma forma. Se esquecem do propósito esclarecedor pra se tornar uma matéria jornalística simplista e comum.

A produção não se atenta em nenhum momento em criar uma narrativa que aproxime o espectador do assunto, e que o faça compreender que além da excentricidade, existe uma grande importância sociocultural que envolve o comportamento. Seja na cultura gamer ou gráfica, cinematográfica ou literária, existe um grupismo ou uma individualidade saudável e produtiva. O que se assiste é algo que parece específico para quem já conhece o assunto, e não um conteúdo, de fato, informativo e agregador.

Não adianta querer se autodenominar uma série documental quando não é sequer esclarecido ao espectador o que seja, por exemplo, a Comic Con, como acontece no terceiro episódio. Ao invés disso, soltaram um personagem de uma das próprias produções B da Medialand para sair entrevistando pessoas aleatórias como uma esquete improvisada. Pode ser cômico, mas não tem coerência, além de zero consistência sobre um evento mundialmente conhecido e que foi se popularizar no país apenas nessa década. Um episódio que poderia ter, sim, tido seu lado cômico, mas uma narrativa documental nele teria sido essencial. Para piorar, o nome da feira sequer é citado no episódio, talvez porque sequer foram atrás de autorização para filmagem, pois é isso que faz parecer.

Essa atitude um tanto aleatória e alienada da série apenas reforça a imagem esquisita e desconexa da realidade que o tema aderiu com o tempo e que tanto se fortalece entre aqueles não familiarizados com ele, ao invés de mostrar que a feira, por exemplo, seja a consequência de indústrias da cultura e do entretenimento que movimentam milhões porque finalmente resolveram dar relevância a um grupo que sobreviveu pelas sombras da exclusão por muito tempo.

O mesmo acontece sobre o episódio que trata dos jogos de tabuleiro e de RPGs de mesa. O que são jogos de tabuleiro? O que são RPGs? Onde essas pessoas se encontram para isso? De onde veio essa cultura ou desde quando ela existe com consistência? Que mercado é esse? Nada disso é respondido. Novamente, o que se vê são pessoas aleatórias relatando experiências que, para quem não é familiarizado, irá interpretar a situação como um bando de gente esquisita, desocupada e hedonista.

Alguma coisa um pouco diferente acontece no episódio em que os fundadores do canal Overloadr e do arcade house VR Games são entrevistados. Eles conseguem dar aquela consistência necessária ao conteúdo por mérito próprio, e não porque a direção ou o roteiro da produção foi efetivo. Eles próprios tomam a iniciativa de não apenas darem seus relatos pessoais, mas contar um pouco da história de como tudo começou, de como as idéias para o arcade house ou para o canal surgiram, a qual nicho eles pertencem e quem é o público atingido. Esclarecedor de uma forma que 80% da produção deveria ser, mas não é.

O resultado de tudo não chega a ser desinteressante ou constrangedor como a maioria das demais produções da Medialand constumam ser, mas está longe de ter uma consistência necessária para corresponder com a proposta informativa que o desconhecido termo exigiria. Seria adequado como um quadro especial do Fantástico, mas não como um conteúdo exclusivo do Netflix, o que demostra que a empresa tenha endossado o projeto mais para inflar a quantidade de produções locais em seu catálogo do que por querer investir em conteúdo de qualidade de fato.

Novamente é uma pena uma produtora independente ter o interesse em produzir conteúdo diferenciado, conseguir captar recursos através de incentivos e fundos governamentais, mas não atingir um nível de qualidade que poderia. Ao invés disso, cai na mesmice e simplicidade dignas de estudantes de cinema realizando um projeto para a média do bimestre.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

ENTREGUE COMO PROMETIDO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Os Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Elenco: Chris Hemsworth, Robert Downey Jr., Scarlett Johanson, Chris Pratt, Josh Brolin, Chris Evans
País: Estados Unidos
Duração: 149 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Para colocar o seu plano em prática, Thanos agora segue atrás das Pedras do Infinito e daqueles que as protegem.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando era criança eu preferia Flashman a Changeman, dois seriados japoneses do estilo Tokusatsu, febres nos anos 90. Ambos eram parecidos, similares nos 5 personagens que usavam macacões coloridos e capacete.

Mas minha preferência era baseada em uma única situação: os Flashman são derrotados.

No 15º episódio o monstro Zas Konder não apenas dá uma bela surra no grupo como deixa em migalhas o robô gigante do Comando Estelar, simbolo do poder e força da equipe. A derrota feriu o orgulho do grupo, e deprimidos pela tragédia, chegaram até a questionar valores heroicos.

Essa fase dos Flashman, que durou alguns episódios, é a minha preferida, e a definição daquilo que me faz apreciá-los mais do que qualquer outra série Super Sentai que existiu, não porque eles perderam, mas porque era uma novidade, uma quebra do enjoativo padrão narrativo de que nenhum herói é passível de derrota.

Essa é uma razão para eu também achar a série animada dos X-Men, de 1992, um dos melhores desenhos animados do gênero, pois também nunca escondeu as fraquezas e derrotas de seus heróis.

Logo, não é à toa que Guerra Infinita pode até ser o filme "menos Vingadores" dos Vingadores, mas sem dúvida é o mais respeitável deles se partirmos por esse ponto de vista trágico do qual todos sempre foram poupados até então.

Isso pode soar como um grande spoiler, mas nessa altura do campeonato não tem uma pessoa no mundo que não saiba do que o filme se trata, ao menos para aqueles que acompanharam o mínimo possível do Universo Marvel no cinema por esses 10 anos, ou conheça o básico da Marvel nos quadrinhos.

Claro que Guerra Infinita alimentou os mais profundos medos dos fãs ao longo de toda essa década de cultivo, principalmente sobre qual herói iria ou não ser afetado por este evento que, mais do que físico, também é moral.

A derrota de qualquer herói pode muitas vezes ser sentida como a perda de alguém próximo e que temos confiança, como foi com o emocionante final de Logan (2017). Pode parecer comédia, como quando Superman morre em A Origem da Justiça (2016). Pode também levar à revolta, como quando Charles Xavier é simplesmente desintegrado por Fênix logo na fabulosa sequência inicial de X-Men - O Confronto Final (2006), uma das poucas coisas que tenham funcionado nesse filme, diga-se de passagem, mesmo que não muito apreciado.

Derrotar, matar, ou até mesmo maquinar um genocídio quase apocalíptico entre heróis é sempre um movimento tenso no tabuleiro de xadrez da cultura pop, mas o que Guerra Inifita propõe não é mostrar a fraqueza de seus personagens, mas torná-los mais fortes depois disso. É isso o que a história quer nos passar.

Agora, a intenção real é chegar ao tão aguardado fim de um ciclo que a Marvel inaugurou no cinema em 2008 e dar início a outro, para uma nova geração. Assim as eras são renovadas tal como também acontece nos quadrinhos.

Este terceiro filme oferece tudo aquilo que todo mundo esperou, menos uma grande reunião de heróis, no sentido de grupo e unidade, com o título nos faz compreender. Para quem esperava um grande trabalho em equipe, organizado e sincronizado tal qual é visto na sequência inicial e final de A Era de Ultron, ficará um tanto decepcionado porque temos basicamente três filmes distintos em um só. Tem o filme Capitão América Visita Wakanda, o filme Homem de Ferro no Planeta Inóspito e Thor Perdido no Espaço. Fica livre ao espectador escolher ir para o banheiro no meio daquele que menos lhe interessar. E esse excesso é sentido nas quase duas horas e meia de filme.

Brincadeiras à parte, essa distinção de cenários novamente tem duas razões. Na razão lógica, seria muito confuso enfiar tantos personagens em um mesmo cenário. No primeiro e segundo filmes até funcionou, mas agora o número de heróis duplicou, seria muita informação de uma vez só, o que foi evitado. Na razão narrativa, isso tudo é consequência da grande catástrofe separatista que ocorreu em Capitão América - Guerra Civil, também conhecido como a sequência não oficial d'Os Vingadores

É nessas horas que percebemos como todo o universo cinematográfico da Marvel foi muito bem planejado, e como o desenvolvimento das histórias de todos seus filmes apresentam uma progressão convincente. Aqui a premissa deixada pelo último filme do Capitão é mantida, dando a constante sensação do impacto que a dissolução do grupo trouxe na dinâmica de heróis que não conseguem mais dialogar a partir do momento que a diferença de ideais falou mais alto do que o bem comum. Ao mesmo tempo, esses mesmo heróis não conseguem encontrar identidade com outros grupos ou indivíduos, como acontece quando Thor se depara com os Guardiões, ou quando Tony Stark se encontra com Doutor Estranho. Situações inconvenientes onde todos querem falar a mesma coisa, mas nunca usam a mesma língua.

Enquanto isso Thanos se aproveita dessas brechas para traçar seu ambicioso plano de manutenção do Universo (e não de destruição, segundo ele) que, apesar dos pesares, tem um certo sentido dentro da realidade distorcida do personagem, mas que o roteiro não consegue desenvolver ao ponto dele se transformar em um vilão mal compreendido, ou em um vilão em conflito, aquele tipo que até tem uma atitude nobre, mas extremista ao ponto do inaceitável. Por mais que o roteiro tente criar momentos de empatia com o vilão para desenvolver esse seu lado mais emocional, como na sua relação com Gamorra, a intenção falha, e sempre voltamos a odiar Thanos porque temos que odiá-lo e nada mais.

Sem dúvida que levar a crueldade de Thanos e sua impiedosa personalidade para uma franquia familiar foi como andar em corda bamba, e por mais que seja um personagem digital, Josh Brolin conseguiu imprimir uma personalidade nele que não apenas zomba da fraqueza de seus inimigos como também faz questão de demonstrar não sentir um pingo de graça ou empatia com piadinhas fora de hora, o que pode ser levado até como uma metacrítica não só nos dois filmes anteriores dirigidos por Joss Whedon, mas também algo que vinha incomodando muito nos últimos filmes da Marvel.

A escolhas dos irmãos Russo para dirigir Guerra Inifita foi certeira. Eles aboliram tudo aquilo que não funcionou com Joss Whedon, principalmente na velocidade das cenas que era tão rápida ao ponto de não se compreender quem era quem ou o quê. Toda aquela sobriedade e seriedade de Soldado Invernal e Guerra Civil foram bem portadas, ao mesmo tempo que adequaram essa identidade para um público mais abrangente, sem cair na demanda da ação absurda e escapista que Taika Waititi fez em Thor: Ragnarok, e que de fato preocupou muita gente. Até porque seria muito personagem piadista em um único elenco. Já tem o Tony Stark de Robert Downey Jr. que definitivamente é um excesso por si só, seguido do novo Homem Aranha de Tom Holland em uma hiperatividade juvenil irritante. Tem o sempre bem humorado e motivado guardião Peter Quill, além do mais novo "mestre" do improviso e da piada pronta chamado Thor e, por último, Bruce Banner, que a cada novo filme se torna mais patético. Ou seja, tinha tudo pra dar errado se não tivessem sido bem dosados pelos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, os mesmos de Guerra Civil também.

Tem os momentos absurdos de sempre, como Thor falar no espaço, Tony Stark sobreviver depois de Thanos literalmente arremessar uma lua em cima dele, ou o campo de força de Wakanda suportar um impacto meteórico de uma nave, mas não conseguir resistir uma horda de extraterrestres. Absurdos esquecíveis, mas que a gente não deveria ser obrigado a ver em um projeto que ficou por 10 anos em uma encubadora, custou mais de US$350 milhões e já arrecadou quase US$2 bilhões no mundo com um mês de exibição.

Por mais que seja tudo aquilo que os fãs respeitosamente podem esperar, Guerra Infinita está longe de ser perfeito ou tão bom e empolgante quanto o primeiro da série, mas depois de Pantera Negra, é mais uma prova de que a Marvel, como toda boa indústria, se adequa aos tempos modernos, e resgatar certa sobriedade se mostrava uma necessidade.

Sem contar que ainda é apenas o penúltimo capítulo do fim de uma era. A princípio era para ser um filme dividido em duas partes, mas por razões inexplicáveis decidiram transformar a saga definitivamente em uma tetralogia. Não que essa mudança muda consideravelmente alguma coisa além de que novos conceitos poderão ser apresentados. E se você assistir assim como eu, que por momentos acreditou que o que tudo que acontecia poderia ser uma pegadinha do Loki, ficará mais surpreso ainda ao descobrir que, não... não é.

E, sim, se você leu em vários lugares que Guerra Infinita é um episódio de mudanças drásticas no Universo Cinematográfico da Marvel, acredite nisso. É um mistério, uma dúvida e uma incógnita até agradável o que virá depois dele.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

QUANDO A FALTA DE QUALIDADE CONSTRANGE...

★★☆
Título: Velhas Amigas
Ano: 2018
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Carla Albuquerque, Beto Ribeiro
Elenco: Carla Pagani, Keila Taschini, Alejandra Sampaio
País: Brasil
Duração: 30 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Três amigas de longa data que vivem no mesmo bairro de Higienópolis, em São Paulo, confidenciam problemas familiares, amorosos e cotidianos.

O QUE TENHO A DIZER...
Maria Antônia (Carla Pagani), entre preocupações triviais da vida, como decidir em qual restaurante almoçar, gasta seu salto andando de um lado para outro dentro de seu amplo apartamento em Higienópolis, um dos bairros mais tradicionais - e caros - de São Paulo. Seu apartamento é tão espaçoso e reflete tão bem sua posição socioeconômica que tem a possibilidade de ter três salas: uma dedicada ao estar, uma dedicada à TV, e um escritório.

Dinheiro ou tempo não é problema pra ela, que se arruma sem pressa para sair com seu marido que acabara de comprar um carro. Ela nem fica surpresa com a notícia do novo artigo de luxo porque já está tão acostumada com isso que acha a situação tão entediante quanto o marido sempre escolher a mesma cor.

Nervosa com um brinco de pérolas que não atarraxa e com o cheiro de cigarro que o marido deixou no apartamento ao fumar no escritório, ainda por cima não consegue encontrar seu celular que toca, enquanto Conrado solta uma frase machista sem sentido sobre "as mulheres e seus celulares", como se celular fosse uma moda, um artigo, ou um acessório unicamente feminino e de preocupação feminina tanto quanto um absorvente.

"Você está ouvindo ele tocar, Conrado?", pergunta ela duas vezes enquanto volta aos fundos, balançando as mãozinhas de um lado para outro, cabeça erguida, na mesma falta de pressa. Uma caricatura típica de madame cansada de perder as coisas em casa, ensaiadíssima na procura enquanto a câmera não tira o foco de seu cansativo ir e vir. Como Conrado não responde, provavelmente ele não ouviu nem o telefone, e nem ela perguntar. Não que ele não tenha ouvido, mas na vida real teria, e deliberadamente ignoraria. Primeiro porque o telefone que toca não seria problema seu, e segundo porque a pergunta de Maria Antônia não faz o menor sentido, já que não apenas ela ouvia o telefone tocar, como a gente também. Talvez o único momento realmente acertivo do roteiro ao reproduzir uma situação cotidiana de "como ignorar uma pessoa irritante fazendo uma pergunta irritante", me lembrando de Francisco Milani e de seu irritadiço personagem Saraiva.

Depois do hercúleo sacrifício, Antônia atende o telefone, e na linha estão Violeta (Alejandra Sampaio) e Lurdinha (Keila Taschini) conversando em conferência, algo que o roteiro resolveu colocá-las fazendo pela primeira vez justo no primeiro episódio, só para terem um diálogo pra lá de antiquado e completamente descontextualizado sobre "linhas cruzadas" e "extensão de telefone", uma coisa que no Brasil praticamente não existe mais há mais de 20 anos, e que elas, mesmo com seus celulares com mais de cinco polegadas de modernidade, sequer haviam se dado conta até então.

Por incrível que pareça, toda essa situação de abertura, que culmina com uma terrível ironia da vida com Conrado sofrendo um infarto dentro de seu carro novo, é incômoda. Incômoda porque é perceptível o amadorismo de tudo por todos os cantos. Dos diálogos mal interpretados, às situações forçadas e sem qualquer naturalidade, de um elenco mal escolhido que não evolui até sequer demonstrar qualquer química.

A direção de Carla Albuquerque e Beto Ribeiro (este, que também assina o roteiro), parece não saber que dirigir um projeto não é simplesmente carregar a câmera de um lado para o outro, e que tomadas longas (ou planos sequência) não significa maestria ou contemporaneidade quando feito sem coerência, como é o caso. É bonito, ousado e empolgante quando acontece, mas não funciona quando não se tem a menor noção do que se fazer com isso.

Ao mesmo tempo que as cenas evitam os cortes, a câmera concentra-se em planos fechados, limitando a liberdade e a naturalidade que essa técnica de filmagem permite e oferece, soando redundante. Veja em O Rebu (2014), por exemplo, em que José Luiz Villamarim usou os planos sequência com abundância no intuito de dar liberdade de movimento e atuação aos personagens, assim como já fez em séries anteriores que dirigiu, levando para a TV uma técnica de teatralização de cena que foi muito bem vinda. Mas aqui, a condução dessa técnica parece só ter o propósito de economizar nos custos da edição, porque no resto só evidenciou mais ainda a atuação ensaiada e devidamente marcada, ampliando os defeitos como uma lupa, como no episódio do noivado da filha de Lurdinha, em que a tecnica só serviu para reduzir mais ainda o tamanho do ambiente e causar uma sensacao claustrofóbica de gente acumulada em volta de uma camera (sem falar que o teor "Sai de Baixo" do episodio simplesmente é desastroso, e uma personagem como a da e.pregada é o típico excesso que qualquer roteiro deve evitar).

Nem mesmo durante os momentos no cemitério, no segundo episódio, em que o plano consegue ser sequenciado e mais aberto, a situação evita cair no constrangedor. Um momento que poderia ter rendido uma excelente situação tragicômica se torna um pesadelo ruim de doer com atrizes que apenas falam o que leem e nada mais. Nunca há emoção ou um comprometimento convincente com o papel. Toda fala é retilínea e uniforme, sem qualquer presença. Nem no teatro amador a coisa é tão terrivelmente séria assim, nem mesmo em Malhação os atores novatos conseguem ser tão inexpressivos, nem Ricardo Macchi parece mais ser tão ruim assim. E por mais qualidade de ponta que a produção possa ter usado, são detalhes como esses que passam a impressão de precariedade e amadorismo que não precisava.

Para ajudar tudo (botão da ironia apertado), há os momentos de flashback que mostram a adolescência das personagens no final dos anos 70 em um desenho de produção que nunca parece ser de época. Nem mesmo no cabelo ou na maquiagem houve, sequer, algum esforço. A única coisa que eu conseguia reparar era em um ou dois figurantes que passavam desmotivados em segundo plano, praticamente arrastando os pés, com calça e camisa colorida qualquer só pra dar um tonzinho de naturalidade cotidiana. Risos, risos... foi engraçado.

Mas voltando... Quando as três se juntam em um determinado momento, trocando respostas ao mesmo tempo que trocam de lugar sincronizadamente como em um jogral, parece que estamos assistindo Chiquititas, e que do nada a Mili vai pular em frente a câmera e cantarolar para todas remexerem bem com as mãos, com os pés e com a cabeça.

É tão desmotivante a imaturidade da direção/roteiro que causa até constrangimento, junto com uma leve labirintite.

E entre citações de autor desconhecido, e até de Miley Cirus (sim, acredite), é assim que todo episódio começa, sempre havendo o suficiente para aqueles que adoram se torturar e pagar suas penitências pelos pecados cometidos na vida.

Dizer que a ideia é boa não parece ser suficiente, porque nem consistência existe. As personagens não tem profundidade além de dinheiro. Violeta é a reservada e tradicionalista, Lurdinha é a moderna e liberal, e Antônia a meio termo. A velha fórmula dos dois extremos com um centro. Os conflitos são rasos, fúteis, esquecíveis, que se apoiam em diálogos de fofocas e acontecimentos duvidosos. Nada que justifique tantos episódios para tão pouco.

Depois temos uma história que, mais elitista e alienada seria impossível, mas talvez porque o texto baseado em estereótipos sempre é o caminho mais fácil pra quem tem inabilidade em criar camadas e arcos dramáticos. O problema nunca é um enredo ter como pano de fundo a classe média paulistana, carioca ou seja lá de onde for, mas na maneira como ela se desenvolve. Nem Higienópolis consegue ter o destaque, ou se transformar em um personagem vivo como Nova York se torna em Sex And The City, ou São Paulo como um todo em O Signo da Cidade (2007). Um desperdício de oportunidade, de cenário e de aproveitamento daquilo que a própria série tenta se promover em cima.

Começar o texto descrevendo o primeiro episódio, e os conflitos de viver la vida de madame loca de Maria Antônia e companhia, é carecidamente a essência de toda a série e das demais personagens, mostrando quão mal tudo começa, e como tão mal tudo continua. Sem falar que o etarismo é jogado no texto o tempo todo: a tecnologia que elas não compreendem, a prisão nostálgica que vivem, os discursos politicamente corretos e matriarcais, a confusão do que é sexualidade e gênero... e assim o título da série perde sua ambiguidade e torna-se literal. Perde seu interesse e se torna banal. Deixa de ser uma ironia, uma sátira, ou uma ode ao tabu da moderna independência feminina depois do casamento, da separação ou da viuvez para se tornar algo sem qualquer tempero. Artificial e mal colocado. Se fossem esquetes de vizinhas trocando receitas e fofocas pela janela, teria sido mais interessante.

É sempre louvável ver produções brasileiras ainda serem feitas, principalmente quando encabeçadas por produtoras independentes, como é o caso. Isso deveria ser mais difundido, e as leis de incentivo poderiam favorecer mais isso. Mas se tem uma coisa que o Brasil ainda precisa aprender com o cinema norteamericano é a maneira como as produtoras independentes conseguem peneirar o conteúdo que escolhem, principalmente no roteiro e na seleção de elenco, porque se ao menos a direção é ruim, o resto consegue se virar de algum jeito.

A série infelizmente não decola em nenhum momento, e o ranço amador é tão grande que apenas reforça o preconceito de que conteúdo nacional não tem qualidade. O que tem voltado com força na opinião pública nesse atual momento do mercado de produções nacionais se dedicarem demais a comédias de situação banais, sem qualquer espontaneidade ou perspicácia.

Mas pra não dizer que tudo seja ruim, a calorosa conversa lida entre Lurdinha (Keila Taschini) e Jean Carlos (Wagner Galvão), no terceiro episódio, além de ser dramática como uma novela mexicana, consegue ter uma reviravolta surpreendente... como uma novela mexicana. Um pastiche até apreciável se esse fosse o objetivo desde o início.

É nessas horas que percebemos como as décadas de monopólio e da influência da Rede Globo e da Globo Filmes prejudicou demais a criatividade e a livre autoria. A impressão que temos é que, mesmo tentando fugir de certos padrões, seja divagando sobre a vida feminina depois dos 50, ou da vida cosmopolita moderna, apostar em um elenco desconhecido em sua maioria, ou até abusar de técnicas cinematográficas pouco utilizadas por aqui, a cultura cinematográfica brasileira está tão condicionada a um padrão que, toda vez que existe uma tentativa de sair dela, o material desanda pela inabilidade de conseguirem caminhar com as próprias pernas, justamente por não existir tantas outras referências ou experiências frescas e relevantes o suficiente que favoreça o desenvolvimento de outros padrões sem a perda de qualidade.

É uma grande pena que o resultado final dessa produção seja algo frustrante, porque ser uma pequena produção não é sinônimo de péssima qualidade. Os melhores filmes que assisti ao longo de todos os meus anos são aqueles que tiveram os menores orçamentos, e na televisão eu também acredito que isso seja bastante possível. Mas uma pequena produção que não sabe do que falar, ou como falar, não faz qualquer sentido existir.

Carla Albuquerque e Beto Ribeiro podem até ser os cabeças da Medialand, produtora responsável pela série e empresa com um currículo considerável de produções televisivas, mas terem abraçado o projeto com as próprias mãos em praticamente todos os sentidos, definitivamente não foi uma boa escolha. E um produto que merecia uma melhor atenção, uma boa filtragem e uma excelente polida, acabou se tornando mais um pastelão malfeito tanto quanto os filmes B que Beto Ribeiro dirigiu para uma série de cinco telefilmes transmitida no Canal Brasil. A diferença é que esses telefilmes eram para ser assim, ao contrário de Velhas Amigas, que nem mesmo se fosse uma sátira (será que é mesmo?) precisava ser tão mal desenvolvida. E se o padrão continuar o mesmo, não vai ser de admirar que Gamebros, a próxima empreitada da dupla, tenha a mesma qualidade duvidosa.

Mas se você é do tipo que não se importa com qualidade e até gosta de produções com essa pegada "vamos juntar as vizinhas do condomínio e filmar uma série", então ela é pra você. E para aqueles que adoram ver humor e se divertem com defeitos, aí sim, Velhas Amigas será um prato cheio.

quarta-feira, 21 de março de 2018

LIBERDADE ACIMA DE TUDO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica)
Ano: 2017
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Sebastián Lelio
Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes
País: Chile, Alemanha, Espanha, Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma transexual terá de lidar com diversas outras dores além da perda repentina de seu namorado.

O QUE TENHO A DIZER...
Grande vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018, sua vitória foi bastante comemorada, não por realmente se colocar como o melhor filme entre os finalistas, mas porque é um tema inédito a vencer em qualquer categoria da premiação. Pode ter sido um esquema da Academia em se promover como um grupo diversificado e que, ao contrário do que a História nos mostra, seja a favor da diversificação.

A vitória do filme veio em um momento muito delicado no cinema mundial, onde diversos grupos reivindicam seus diretos. Os negros exigindo maior espaço, as mulheres exigindo maior igualdade e, porque não, transgêneros também exigirem o respeito social e profissional que lhes são merecidos por direito humano e civil.

Sebastián Lelio é o mesmo diretor e roteirista responsável pelo grito empoderador da mulher independente que a todo instante caminha contra o preconceito e o machismo no filme Gloria (2013), o qual também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014, e agora está sendo refilmado para o público norte-americano pelo próprio diretor com Juliane Moore no elenco.

Portanto, não é de se espantar que sua sensibilidade sobre o tema seja refinada o suficiente ao ponto de outra vez desenvolver um grito empoderador e de liberdade relevantes aqui, e por uma personagem que igualmente caminha contra o preconceito, o machismo, a discriminação, o assédio, a violência e a todos os demais adjetivos desumanos que estão agregados nesta história. Não é à toa que Lelio materializa essa difícil batalha em uma das cenas mais simbólicas do filme, quando Marina (Daniela Vega), a grande heroína da história, caminha na rua contra uma rajada de vento, onde cada passo se torna mais difícil de sustentar, mas incapaz de impedí-la ou derrubá-la mesmo assim.

E é em cima dessa metáfora que todo o filme será construído, sendo a trajetória da protagonista baseada em histórias reais espalhadas pelo mundo, pois representa muitos casos similares ao dela em estados ou países que não amparam uniões estáveis como a dela, ou transgêneros como ela.

As situações por muitas vezes podem parecer exageradas no sentido de que, a partir do momento que Orlando (Franciso Reyes) morre, morre junto qualquer compaixão e respeito que exista, fazendo-a novamente encarar a bruta realidade de pessoas movidas por ódios injustificáveis, que ignoram completamente que a escolha individual de cada um deve ser respeitada independente de qual seja, levando-a a uma sucessão de conflitos desnecessários que a impedem de prosseguir com sua vida com dignidade.

Essa hiperbolização das situações tem um propósito chocante deliberado para sentimos o peso maciço das dores e de como a integridade da personagem é constantemente atacada e testada por puro sadismo e ignorância. O luto de Marina sequer é respeitado, além dela ser tratada como uma criminosa, responsabilizada não apenas pela morte de Orlando, como também pelas escolhas e infelicidades dos outros. É assim como faz a ex-mulher do falecido, que não se conscientiza que Orlando a deixou por uma escolha dele. A revolta de Sonia (Aline Küppenheim) não é por ter sido trocada por outra mulher, mas ter sido substituída por uma transexual, ferindo sua feminilidade narcisista, notado quando ela deixa claro que considera Marina uma aberração.

De atitudes familiares estúpidas, como exigir a devolução do carro e do apartamento deixados por Orlando, das ameaças que Marina sofre de seu enteado em crise sexual, das ofensas gratuitas que ouve dos demais familiares, nada parece o bastante até ser proibida de comparecer no funeral, numa situação muito parecida com a história real do casal Shane e Tom, contada no documentário Bridegroom (2013), onde Shane foi igualmente impedido de comparecer no funeral de seu marido, e que volto a dizer, é uma situação mais comum do que se imagina.

O desamparo legal, social e familiar, o escárnio, o desrespeito e a violência sofrida por todos os lados só acontecem dessa forma por ela ainda ter seu nome de batismo na sua carteira e pela inabilidade da sociedade em ser pluralista e diversificada. A depredação psicológica e física que Marina constantemente sofre mostra uma realidade tão brutal e desumana difícil de engolir. Seu comportamento sempre pacífico e calado, e a consciência que tem de que responder aos ataques só daria mais razões para a continuidade do sofrimento é o que também nos dá o igual sentimento de impotência e vulnerabilidade que ela tem, mas ao mesmo tempo nos deixa mais claro que a luz do dia de como sua integridade, respeito e educação são maiores do que de qualquer outra pessoa.

Por muitas vezes nos deparamos com a personagem se olhando ao espelho. Não é ela se questionando se deveria ser diferente, mas sim, o que há de errado com as pessoas em não aceitá-la como é, já que diariamente ela aceita e respeita todas as outras que frequentam o restaurante onde trabalha, ou a casa de shows em que apresenta seus números de canto. E a conclusão é que a ignorância é a única responsável por impedir essa reciprocidade.

É um filme difícil, mas há uma beleza implícita em todo o drama da protagonista e, acima de tudo, uma mensagem motivadora forte de que todos nós devemos impor o respeito pelo nosso espaço a partir do momento que ele é invadido. E o que acontece com ela é uma invasão tão brutal que se assemelha a um estupro, seja quando é coagida a realizar um exame de corpo delito, seja quando é sequestrada por um grupo, um momento tão apavorante e aterrorizante que só podemos pensar o pior.

O semblante que carrega do fardo da batalha que trava diariamente contra os achismos e demandas sociais irrelevantes nos deixa evidente que a vida de Marina nunca foi um mar de rosas, e que não era necessário maiores motivos para ela ser uma pessoa tão retraída e apática como demonstra na maioria das vezes. É a pele que engrossa e a casca que endurece em um mundo que se mostra cada vez mais incapaz de diálogo e compreensão. Só assim para ela conseguir dar a reviravolta emocionante que consegue na história, como um grito de independência e, finalmente, a tão esperada liberdade.

segunda-feira, 19 de março de 2018

DIVERSIDADE SEMPRE BEM VINDA...

★★★★★★★★☆
Título: On My Block
Ano: 2018
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Sierra Capri, Jason Genao, Brett Gray, Diego Tinoco, Ronni Hawk, Peggy Blow, Jessica Marie Garcia
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A relação entre cinco amigos adolescentes e suas experiências em uma pequena cidade no interior de Los Angeles.

O QUE TENHO A DIZER...
Assim como Cara Gente Branca (Dear White People, 2017), essa série chega para incrementar a proposta diversificadora do Netflix, e por que não, conscientizadora também. Igualmente apelativa para o público mais jovem, com aquele visual descolado, diálogos cheio de gírias caricatas, comportamento progressistas, personagens irreverentes e uma trilha sonora pra lá de popular, ela pode não ter o mesmo peso crítico-social presente na sátira de Justin Simien, mas a intenção existe de igual forma principalmente pelo elenco ser predominantemente latino, algo um tanto inédito para uma produção de distribuição mundial.

Aqui as tramas se desenvolvem dentro de um bairro, colocando todos os personagens em um mesmo ecossistema, numa mesma condição demográfica. Não existe uma discrepância sócio-econômico-cultural entre eles, o que existe é uma dinâmica social um tanto autônoma que cria suas próprias regras e leis para compensar a negligência dos grandes escalões sobre políticas inclusivas, resultando em problemas comuns encontrados em grupos sociais carentes.

Mas a série, a princípio, não tratará tudo isso como um grande problema a ser enfrentado pelos personagens, pelo contrário, é encarado pelos cinco amigos como uma realidade cotidiana tal qual tentar adivinhar o calibre da arma pelo tiro que ouvem na rua. E isso, para eles, é divertido, porque não há outra maneira de combater essa realidade além da proposital alienação.

O drama apenas surge quando Cesar (Diego Tinoco) é incluído entre os Santos, uma gangue na qual o seu irmão Oscar (Julio Macias) é chefe, e a possibilidade dele abandonar os estudos e o convívio com os amigos para viver do crime aumenta cada vez mais. É então que os cinco amigos percebem que a vida adulta se aproxima mais rápido do que imaginavam, e junto com isso problemas que, até então, pareciam fáceis de serem contornados. E também quando percebemos que a série não será apenas sobre dramas colegiais, ansiedades do primeiro beijo, discursos sobre a virgindade ou a busca pela popularidade na escola.

A grande sacada da série é misturar as complexas responsabilidades que surgem com os dramas da idade à realidade em que vivem, algo complexo e triste quando percebemos que é a situação de muita gente por aí, e como a transição para a vida adulta se torna uma tarefa mais difícil do que já é em condições como essa. Mas longe de dramatizarem demais o cenário, tudo é levado com bom humor na medida do possível. O elenco, formado em sua maioria por atores pouco experientes, consegue ser cativante o suficiente, numa química necessária para nos convencer de que tudo, no fim, dará certo. O lema de respeitarem uns aos outros como uma família se torna uma bela perspectiva quando é a única realidade na qual podem agarrar com todas as forças para superarem os obstáculos. Por isso que, em muitas situações, nenhum problema entre eles será grande o bastante para abrirem mão disso.

É interessante a forma como discussões cotidianas também são desenvolvidas, porque o roteiro não se esquece em nenhum momento que os personagens são adolescentes, e a distimia presente em seus comportamentos ora infantis, ora adultos, são coerentes, sendo perdoáveis até momentos em que garotos tenham comportamentos machistas, ou alguém tenha um diálogo mais malicioso ou preconceituoso. Mesmo porque sempre terá alguém para confrontar essas situações, criando momentos de reflexão, como Monse (Sierra Capri) muitas vezes faz. São pessoas em formação, que estão aprendendo a lidar com o peso daquilo que dizem e fazem, com grandes ideais pela frente, mas que ainda não tem a menor noção de como atingi-los.

A surrealidade aparece em pequenas doses para esquecermos dos pesos dramáticos e as situações cômicas serem atenuadas sem apelações para o cliché pastiche. A maioria desses momentos cabe nas inesperadas aparições de Jasmine (Jessica Marie Garcia), uma personagem bem coadjuvante, mas recorrente, de hilária autoconfiança, mas solitária por conta de sua inconveniência. Ela é assediada moralmente por todos, inclusive pelos próprios protagonistas, e seu comportamento histriônico é consequência dessa rejeição sofrida e da ânsia de ser aceita e sentir-se inserida em algum grupo. Mas de uma forma brilhante o texto consegue transformar todo esse peso dramático da personagem em um dos elementos mais hilários da série, alfinetando discretamente o comportamento social frente aquilo que seja diferente ou excêntrico, criando uma empatia quase imediata com o espectador. Mérito indiscutível da própria atriz, que transforma a personagem em uma montanha inabalável de autoestima.

A consciência dos personagens a respeito daquilo que são, de suas origens e condições sociais é o que faz os momentos dramáticos não caírem no comum. Pelo contrário, essa consciência é o que justifica cada um ser exatamente como é, dando aos nossos heróis e heroínas características únicas como poderes. Seja no excesso de sensatez de Monse, na fatalista conformidade de Cesar, na positividade de Ruby, na honestidade de Jamal ou na ingenuidade de Olivia, são as qualidades de cada um que irá complementar as ausências e defeitos uns dos outros.

A variedade cultural que o seriado traz também é um dos elementos de destaque porque igualmente temos um elenco de diversidade racial e étnica muito grande, não sendo à toa que a trilha sonora reflita bastante essa atmosfera tão misturada que permeia pelos episódios, com músicas que navegam pelos diferentes estilos da black music, influenciados ou não pela cultura latina, incrementando mais ainda todo o universo pluralista que a série tenta ostentar. Seja no Funk, no Soul, no Rap, R&B, Hip-Hop, ou até mesmo no Pop ou Eletrônico, as músicas utilizadas são dignas de atenção. Preparem o Shazam e estejam dispostos a conhecer excelentes artistas do cenário atual que fogem da obviedade e nos faz perguntar onde estavam para nunca termos descoberto eles antes.

On My Block é uma versão mais séria e adulta de Stranger Things por conta de seu enredo girar em torno de um grupo de amigos, resgatando uma semelhante atmosfera fraternal sincera e inspiradora, deixando a fantasia um pouco mais de lado e trazendo à tona elementos do cotidiano. Não que subtramas mais aventurescas e fictícias não aconteça, como Jamal (Brett Gray) acreditar que existe um tesouro enterrado no bairro e passar grande parte dos episódios atrás de pistas que o levem até ele, sendo apoiado apenas por uma velha senhora que acredita que os sonhos nunca devem ser esquecidos. Mas é na trama de Cesar que a realidade toda vez é trazida à tona como um puxão, bem como a finitude das coisas é uma ameaça constante, e como o calibre de uma arma não é apenas uma charada, mas o triste elemento da violência que os rodeia.

Engraçado, motivador e emocionante na medida certa, entre conflitos românticos e terrores sociais,  o seriado muitas vezes nos deixa sem saber onde é que estamos indo ou em que terrenos vamos pisar, e por isso é surpreendente e imprevisível, com um grande futuro pela frente, basta que as pessoas se abram a ele, como ele se abre sem vergonha alguma para nos conquistar.

DOIS PARA FRENTE, DOIS PARA TRÁS...

★★★★★★☆
Título: Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2)
Ano: 2017
Gênero: Terror
Classificação: 16 anos
Direção: James Wan
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Maria Doyle Kennedy, Franka Potente
País: Canadá, Estados Unidos
Duração: 134 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ed e Lorraine Warren tentam se afastar de casos paranormais quando sua mulher tem uma visão perturbadora, porém um caso familiar os reaproxima de novo a um caso sobrenatural muito mais sério do que imaginavam.

O QUE TENHO A DIZER...
James Wan voltou para dar continuidade às histórias do casal Ed e Lorraine Warren depois de dirigir a continuação Sobrenatural, Capítulo 2 (Insidious - Chapter 2, 2013) e contribuir para a franquia multimilionária, Velozes e Furiosos 7 (Furious 7, 2015), tentando escapar do gênero que o consagrou e mostrar ao público sua versatilidade. O que o ajudou de certa forma, já que será o diretor de Aquaman.

O filme começa de maneira interessante fazendo referência ao caso de Amtyville, o acontecimento mais famoso do casal Warren. Mas ao invés de recontar uma história que já foi incansavelmente recontada no cinema, a situação serve apenas como uma introdução ao filme mesmo, uma referência e um gancho para os eventos seguintes.

Wan mantém muitas das mesmas técnicas que ele utilizou no filme anterior, como algumas poucas cenas em plano sequência para incrementar os estilos visuais e dar uma sensação mais fluida e participativa, ou as câmeras em angulações incomuns para aumentar o clima sombrio e distorcido. É indiscutível que dessa vez ele utilize melhor as técnicas para conduzir a história ao invés de abusar dos jump scares, aqueles elementos jogados repentinamente na tela com um som estrondoso para causar sustos deliberados. Não significa que eles não existam aqui, pelo contrário, qualquer coisinha ainda é motivo para um barulho atrapalhar a experiência, e muitas cenas acabam não funcionando, seja porque o efeito sonoro desnecessário atrapalha, seja porque a cena realmente é fraca e o som evidentemente entra para obrigar o espectador a ter alguma reação. E o primeiro motivo ainda é o grande vilão, na mesma intensidade que no filme anterior.

A história em si não é muito diferente, outra vez baseado em um fato real, e um dos mais investigados e explorados pela mídia até hoje, sobre uma família que passa a ser atormentada por eventos sobrenaturais. Enquanto na história anterior era um espírito, aqui será uma entidade, o que faz a situação ficar mais séria de maneira que Lorraine afirma jamais ter visto, e que se o inferno for como ela visualizou, ela espera não ter a mesma experiência nunca mais. Uma situação um pouco complicada para a franquia quando a personagem afirma isso porque automaticamente já diminui a complexidade de qualquer filme seguinte, mas enfim... ignoremos porque os roteiristas irão ignorar também. Mas não ignoremos o fato de que a Igreja Católica e os dogmas religiosos novamente conduzem muitas situações outra vez, quando, para dar uma variada, poderiam servir como elementos de dúvidas e questionamentos. Mas ninguém quer cutucar leão com vara curta. Falar sobre demônios pode, mas duvidar da fé não.

Aos poucos é possível perceber uma maior maturidade no diretor para construir a atmosfera que pretende, como a colocar elementos aleatórios em segundo plano nas cenas, fazendo o espectador ser pego de surpresa não porque foi jogado na tela, mas porque ele próprio, de soslaio, percebe que no fundo do cenário, ou no canto da tela, tem alguma coisa estranha na parede ou na cadeira de balanço, por exemplo. Coisas que sempre funcionam muito bem para dar aquele arrepio na espinha de que alguma coisa errada acontece, o tal elemento inusitado que desafia a percepção que há muito tempo eu não via ser feito em filmes de terror, porque na verdade é isso o que mais assusta, é o inusitado, a aparição de algo que está lá, mas você não nota de imediato.

Outra coisa muito interessante, e mérito dos roteiristas Chad e Carey Hayes, é fazer os eventos acontecerem sem ordem. Chega daquela história cliché de fantasminha ser calculista e ficar quieto quando a polícia estiver perto ou só pregar peça nas crianças quando os pais estiverem dormindo. Não importa quem seja ou que horas seja, as coisas acontecem mesmo assim, quebrando a sensação de obviedade que os filmes do gênero costumam ter.

O problema é que, ao mesmo tempo que os roteiristas dão dois passos à frente com essa interessante sacada, eles voltam ao mesmo lugar dando dois para trás ao criar conflitos incoerentes, como no caso de diversos personagens não acreditarem que a família Hodgson esteja sofrendo com atividades sobrenaturais, mesmo todos eles sendo testemunhas de vários acontecimentos, incluindo os próprios protagonistas. Sim, incluindo Ed e Lorraine Warren.

Chega a ser inacreditável a repetitividade com que os personagens discutem a realidade dos fatos, mesmo quando eles mesmos sofrem alguma violência que não tem explicação lógica, como na sequência em que Ed é atacado no porão, mas logo em seguida acredita que tudo possa ser uma farsa. A situação culmina ao ridículo quando o casal de investigadores até abandona a família "por falta de provas". Momentos como esse que nos perguntamos como os roteiristas são capazes de dar reviravoltas tão absurdas e impensadas, e como um diretor que tentou se consagrar no gênero permitiu descontextualidades tão grandes assim.

Muitas vezes um filme de terror não depende de sua história para ser aterrorizante ou simplesmente causar um ou outro medo, mas as incoerências aqui são tão grandes que realmente acabam ferindo o resultado final. É claro que para os espectadores menos atentos isso tudo será praticamente irrelevante porque existem outros elementos que para eles chamarão mais atenção e foram, na verdade, as razões de se interessarem pelo filme, como as figuras da Freira ou do Homem Torto. A Freira realmente é uma figura perturbadora, rendendo sequências bastante obscuras e que vão fazer muita gente acender a luz antes de sair de frente da televisão. Mas aí voltamos ao mesmo problema de dois passos pra frente e dois para trás quando apresentam o Homem Torto, uma figura mais cômica do que assustadora, feito inteiramente em computação gráfica, sem o menor impacto ou importância na história, pecando no excesso, mais parecendo um personagem que saiu de algum filme de Tim Burton do que outra coisa.

Ou seja, Wan pode ter a visão necessária para criar um bom filme de horror, mas precisa aprender a abrir mão de elementos comerciais demais, apelativos apenas para atrair a atenção do público, mas não na manutenção do universo que ele cria. A partir daí podemos ter uma noção do que poderão ser os filmes que se originarão desses personagens. Até porque é aquilo que sempre digo: o cinema nunca consegue se dar bem quando tenta explicar a origem de um mal, e toda vez que alguém se aventurou a isso, como fizeram com Freddy Krueger, Jason, Leatherface, e outros, acabou destruindo os conceitos originais. E além de Wan não ser o diretor responsável por esses filmes, muito menos será da terceira parte de Invocação, segundo ele informou em uma entrevista. Então podemos ter certeza que a exploração desenfreada do gênero outra vez será a razão de seu retrocesso.

Ou seja: novamente dois passos pra frente, e dois para trás.

AINDA HÁ ESPERANÇA PARA O TERROR...

★★★★★★☆☆
Título: Invocação do Mal (The Conjuring)
Ano: 2013
Gênero: Terror
Classificação: 16 anos
Direção: James Wan
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Lili Taylor, Ron Livingston
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma família começa a ser perturbada por espíritos assim que se muda para um nova casa.

O QUE TENHO A DIZER...
Invocação do Mal foi a tentativa de James Wan dar continuidade ao gênero que ele acredita ter se dado tão bem.

Depois do sucesso de Sobrenatural (Insidious, 2010), o diretor acabou "tropeçando" na biografia de Ed e Lorraine Warren, dois investigadores paranormais que dedicaram suas vidas a esse tema, alegando terem participado e investigado diversos casos, sendo o mais famoso deles o de Amityville, incansavelmente explorado pelo cinema. Lorraine ainda vive, aos 91 anos, enquanto Ed faleceu em 2006, aos 76 anos. Segundo Wan, a história do casal já era interessante sozinha, mas eles também tinham diversas experiências documentadas tão fantásticas que poderiam ser exploradas no cinema de igual forma.

E foi o que ele fez aqui, pegando a história da família Perron, que havia se mudado para um lote no interior de Rhode Island, nos Estados Unidos, onde havia vivido uma bruxa no século XIX que, segundo o casal Warren, almaldiçoou o lugar, condenando todos que morassem lá depois dela à morte. Obviamente que o roteiro de Chad e Carey Hayes adapta livremente o que os Warren estudaram, mas consegue fazer um trabalho descente com o gênero em pleno século XXI, onde os filmes de terror que seguem estruturas mais clássicas não mais assustam porque a audiência se acostumou com o exagero e o sensacionalismo explícito.

Recentemente, em uma entrevista para promover seu próximo filme, A Freira (The Nun, 2018), mais uma extensão do universo que ele tem criado em cima das histórias dos Warren, Wan afirmou que sua intenção é resgatar o respeito que os filmes de terror merecem. Vale dizer que, por ironia do destino, ele mesmo foi um dos maiores responsáveis pela mudança de percepção do público daquilo que passou ou não a ser considerado assustador.

Quando lançou Jogos Mortais (Saw, 2004), Wan não imaginava o quanto seu thriller sanguinário influenciaria o gênero nos anos seguintes. Na época em que foi lançado, ele realmente impressionou por ser explícito e trazer um terror visual tão contundente e chocante que automaticamente o gore voltou a ser explorado em demasia pelo cinema. Os filmes posteriores a ele, incluindo suas sequências, abandonaram a exploração do gênero pelo lado psicológico e técnico, oferecendo cenas de susto fácil ao jorrar suco de tomate pela tela ao desmembrar, decapitar, escalpelar ou dissecar personagens de maneira explícita. Foi instaurado aí um outro nível tolerância ao gênero, e aqueles que ainda apostavam no terror mais clássico e sobrenatural, sofreram com essa resistência do público ao que era mais subliminar ou subjetivo, e filmes que não tivessem alguns elementos desses estavam fadados ao fracasso ou ao esquecimento.

Mas a felicidade de Wan é que sua percepção sobre como contar histórias é diferente, e mesmo que ele tenha contribuído com o aumento da tolerância visual na qual os espectadores ficaram expostos nos filmes de terror, talvez ele tenha notado o rumo absurdo e gratuitamente violento no qual o gênero caminhou por conta disso e preferiu resgatar certas origens. Foi a partir de Gritos Mortais (Dead Silence, 2007), que não chega a ser um spino-off de Jogos Mortais, mas ainda é um evidente reaproveitamento e uma referência direta do que Jigsaw representou em seu filme anterior, que o diretor percebeu que era possível expandir idéias e universos apresentados em uma história, o que ele começou a explorar com mais profundidade depois do sucesso de Sobrenatural, que abriu portas para ele solidificar uma legião de fãs que viriam garantir a ele uma estabilidade suficiente para fazer o que ele agora faz: contar histórias de terror de maneira um tanto autoral, já que as idéias são originalmente dele.

Enquanto Sobrenatural já está indo para seu quarto filme, Invocação do Mal não só vai ter sua terceira parte como também tem dois spin-offs, Annabelle e sua sequência (2014/2017) e o já mencionado A Feira, a estrear este ano. Portanto, Wan se tornou uma grande referência do gênero, mas isso não significa que ele seja excelente para isso.

Wan é muito bom para criar histórias e personagens, mas como diretor ainda peca bastante em diversos aspectos porque seu estilo puxa muito mais pro suspense do que para o timing certeiro que o terror exige. Ele consegue construir personagens e atmosferas, mas por muitas vezes opta pelo susto fácil com elementos clichés, como o uso indevido do som naqueles típicos "barulhões" sem sentido que acontecem quando algo surge repentinamente na tela, artifício manjado e usado com excesso. E o engraçado é que não era necessário. Várias vezes voltei a cena e deixei no mudo só para perceber se a sensação de espanto ou surpresa teria sido a mesma. A conclusão foi que, sim, a construção das cenas são boas o bastante para, sozinhas, as técnicas visuais funcionarem mais do que as sonoras. Uma pena que ele não percebeu isso antes porque muito desses efeitos sonoros inúteis poderiam ter sido evitados, e a sensação aterrorizante e incômoda daquilo que desconhecemos teria sido muito maior.

O mesmo sobre elementos narrativos que também não apenas já foram usados incansavelmente, como também reforçam a presença de uma cultura religiosa que chega a ser desrespeitosa não com a religião em questão, mas da forma imperativa como ela é representada.

Depois de O Exorcista (The Exorcist, 1973), é praticamente impossível fazer um filme que tenha uma narrativa parecida, ou que leve a narrativa para esse fim, e que consiga ficar livre de comparações com o clássico de William Friedkin. E é isso o que acontece quando o filme caminha para sua conclusão e um dos personagens é finalmente possuído pelo espírito maligno. Sabemos que a igreja será procurada, que o padre precisa de provas e da aprovação do Vaticano, mas de alguma forma alguém corajoso o suficiente irá ler o sagrado texto em latim e o demônio voltará pisando alto pro inferno. Sabemos porque sim. 99% dos filmes com possessão segue esse protocolo. Não precisamos de mais um filme contando essa história, assim como não precisamos de mais um filme mostrando o personagem possuído ficar desfigurado enquanto vomita na cara das pessoas.

Foi aí que parece que a sacada de cobrir o personagem com um lençol se tornou uma coisa simples e quase genial, uma forma de querer dizer: "ok, todo mundo já sabe o que vem depois disso, então ninguém precisa ver de novo". Mas nada disso ameniza o fato de que, sinceramente, não precisávamos de mais uma sessão dessas. E aí entramos na outra questão, a da religiosidade e da constante necessidade da cultura cinematográfica em nos obrigar a crer que a Igreja Católica é a grande salvação para qualquer mal. Eu me perguntava durante as cenas do exorcismo se apenas católicos são possuídos, e se rituais como esse são feitos apenas por padres católicos. E não, não são. Embora igreja e espiritualidade sejam dois temas que podem ser muito bem explorados (como foi em O Exorcista), em um determinado momento o padre diz a Ed (Patrick Wilson) que o exorcismo não pode ser feito porque a família não frequenta a igreja e as crianças não são batizadas, e é exatamente este ponto que me incomoda, porque na maioria das vezes não consigo considerar algo bom essa constante demonização de pessoas taxadas de "pagãs", ou a constante pregação de que apenas a Igreja Católica seja capaz de expulsar o mal. O mundo não é feito apenas de católicos, e o cristianismo não é a única vertente religiosa que existe.

O grande mérito do filme é, acima de qualquer coisa, ter um elenco bom e tentar manter a técnica a mais presente possível. Pode não espantar e tirar o espectador da cadeira, ou deixá-lo roendo o toco das unhas de medo, mas Wan conseguiu criar diversas sequências bastante obscuras e que surpreendem justamente por tentar reaver o clássico e abandonar o excesso visual. Seu pecado foi não ter se atentado de que o terror é sempre sutil, e se tivesse permanecido assim do início ao fim, sem obrigar situações ao impor alguns efeitos sobre a estrutura narrativa, sem dúvida Invocação teria causado um impacto muito maior do que permite.

quinta-feira, 15 de março de 2018

NÃO JULGUE PELA CAPA...

★★★★★★★★★☆
Título: A Grande Jogada (Molly's Game)
Ano: 2017
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 16 anos
Direção: Aaron Sorkin
Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera
País: China, Estados Unidos, Canadá
Duração: 140 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma competidora de nível olímpico que se torna uma das maiores gerenciadora de jogos de poker em Hollywood e Nova York, para depois ser alvo do FBI.

O QUE TENHO A DIZER...
Jessica Chastain não é ainda um nome memorável, ou que imediatamente remeta à imagem de uma grande e popular estrela, como acontece como Julia Roberts, Meryl Streep ou Nicole Kidman.

Não nos lados de cá.

Se você não é uma pessoa que assiste filmes com regularidade ou pouco se importa com fichas técnicas, provavelmente deixou passar em branco muitos títulos em que ela foi protagonista em algum momento, talvez aí a razão de seu nome sequer soar familiar. O que é uma pena, porque Jessica é, junto com Amy Adams, uma das maiores atrizes de sua geração no momento. Não é à toa que, quando interpretou a socialite expansiva e engraçada, mas que por trás dessa imagem vulnerável escondia a sobrevivência de uma avassaladora violência doméstica em Histórias Cruzadas (The Help, 2011), tudo mudou. Ela concorreu ao seu primeiro Oscar como coadjuvante e daí pra frente sua carreira engatou a sexta marcha e nunca mais parou, protagonizando filmes com personagens determinadas, em sua maioria baseadas em figuras reais que tiveram uma grande história em meio a situações lideradas por homens.

A Grande Jogada segue esse mesmo perfil que se tornou a marca registrada da atriz, que entre uma ou outra produção séria, acaba fazendo filmes mais despretensiosos, mas que estão longe de ter a mesma qualidade narrativa e construtiva que a maioria de seus filmes tem.

Aqui ela vai interpretar Molly Bloom, uma garota de classe média que cresceu praticando esqui livre e se profissionalizando em nível Olímpico na adolescência, cujo pai, além de ser seu treinador, era professor universitário e médico psiquiatra. Mas depois de um acidente que quase lhe custou a vida durante uma competição, abandonou o esporte e foi cursar faculdade de direito. Ou melhor dizendo, tentou.

O filme é baseado na biografia da verdadeira Molly Bloom, que descreve sua trajetória desde uma mera competidora de nível olímpico até se tornar uma das mais influentes gerenciadoras de jogos em Hollywood e Nova York.

É sem dúvida uma daquelas histórias que só acontecem no mundo financeiro e megalomaníaco do Estados Unidos, lugar onde se concentram as figuras mais excêntricas dispostas a qualquer coisa para atingir o cultural sonho americano do sucesso e da fama. Guiadas por essa cultura social há gerações, não é de se espantar que a incidência de fraudes, golpes, casos de duplicação de patrimônio a curto prazo ou enriquecimento ilícito tenham os números mais expressivos nesse país. Como as chances de se dar bem de forma fácil são sempre pequenas, basta uma oportunidade para se deixarem cair na tentação, sendo exatamente assim como nossa protagonista irá sair do subúrbio para o mundo do luxo e da influência social e fatalmente se tornar um dos maiores alvos do FBI.

O que sabemos desde o princípio é que Molly, assim como o filme e o livro no qual é baseado, nunca irá falar toda a verdade que acontecia nos bastidores e nos anônimos encontros de jogatina que ela organizava, mas o que podemos ter certeza é que ela é uma pessoa de confiança, e que a traição nunca fez parte de seus planos para alcançar seus objetivos, nem mesmo quando ela mesma foi traída. Caso fosse assim, tenho certeza que ela não estaria viva para contar essa história.

Logo no começo do filme é possível perceber que tudo será construído em cima de uma narrativa rápida e bastante visual, por muitas vezes até difícil de acompanhar mesmo quando tenta ser o mais didático possível, seguindo uma estética parecida com a de outro filme de título até similar, A Grande Aposta (The Big Short, 2015), só não tendo a quebra da quarta parede. A intenção do diretor e roteirista Aaron Sorkin ao fazer isso é reproduzir a maneira rápida e focada como a protagonista pensa, raciocina e coloca em prática.

É um tanto atordoante como os diálogos metralhados acabam se sobrepondo uns aos outros e como a edição picota as imagens em um ping-pong que intensifica mais ainda essa sensação de se perder no meio de uma discussão, não sendo à toa que os momentos mais interessantes do filme sejam exatamente as poucas - mas longas e até incômodas - pausas, principalmente em cenas entre ela e seu advogado, interpretado por Idris Elba. Momentos estes que é possível notar como os personagens estão cansados de argumentar, numa disputa verbal sempre engatilhada pelos pré-conceitos de Charlie e pela falta de confiança de Molly, levando ambos a se testarem constantemente, culminando no emocionante discurso do advogado aos promotores.

Sim, embora ocorra tudo numa velocidade na qual seja fácil o espectador perder o fio da meada, os diálogos são incisivos e interessantes com seus excessos de contra-argumentos, principalmente quando zomba da obviedade e da forma rasa como costumamos observar ou pensar sobre as coisas, ditadas muitas vezes pela mídia desinformativa. Portanto, é interessante assisti-lo em uma noite com tempo de sobra, não apenas pelas suas mais de 2 horas de duração, mas porque esse tempo pode aumentar significativamente dependendo do interesse e do tanto de vezes que você apertar o botão de retroceder para acompanhar melhor muitas das cenas.

No fim, não importa se você irá entender como funciona as estratégias do pôquer ou de como a protagonista conseguia administrar gorjetas, lucros, empréstimos, dívidas, pagamentos ou comissões, porque nada disso fará diferença, nem mesmo elementos ou personagens fictícios que entram para incrementar os conflitos e arcos dramáticos. O resultado final é unica e simplesmente sua determinação de construir um império próprio usando a observação e perspicácia, dominando da noite para o dia um negócio masculinizado e sexista, que acreditava que mulheres neste ramo eram apenas objetos de diversão. O que culmina na situação em que a motivação de Molly para se manter no negócio deixa de ser uma mera ambição para se transformar numa declarada e inconsciente guerra pessoal ao domínio machista opressor que passou a tomar formas violentas e covardes. Maravilhosa a forma como a protagonista resolve montar uma equipe só de mulheres para ajudá-la a recrutar novos jogadores e manipular suas participações, se aproveitando da ignorância dos homens e de suas constantes esterotipações femininas.

Molly Bloom não apenas construiu um império, como sua conduta pacífica e sua política bastante restrita fizeram-na se tornar uma figura respeitável e reconhecida. Mas, como de praxe em histórias de repentino sucesso como o dela, por um pequeno deslize quebrou todos os princípios que a fizeram chegar onde chegou em tão pouco tempo. Decisões mal calculadas que foram responsáveis pela sua queda e seu indireto envolvimento com a máfia. O interessante é que mesmo que o roteiro tente manter a integridade de sua figura, ela mesma não se impede de pontuar seus erros, exageros e deslizes, não com objetivo redentor, mas para mostrar ao espectador que somos nós mesmos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso.

No caso, a colocou no centro do radar não apenas de muitos clientes poderosos, como também do FBI, que tentou coagi-la de todas as formas a se tornar uma informante e revelar nomes envolvidos em esquemas que ela mesma desconhecia, ou fazia questão de desconhecer.

Em sua estréia na direção, Sorkins desenvolve um trabalho consistente o suficiente, que pode ter lá suas liberdades dramáticas, mas que acontecem em momentos muito exatos e quebram a seriedade quase sufocante da trama em que a protagonista se envolve. Dramas humanos e comuns, como na conflituosa relação entre a protagonista e seu pai, rendendo uma sequência bastante emocionante e de uma sinceridade que pode parecer até óbvia, mas que assim é vista exatamente quando deixamos de negligenciá-la. O mesmo sobre os alívios cômicos, raros, mas que sempre entram na narrativa ou nos diálogos para dar tempo do espectador respirar e se revigorar nesses breves parênteses.

Os papéis que Jessica tem desempenhado nos últimos anos se superam em qualidade, trabalho após trabalho. Sua performance aqui mantém características que a individualizam das demais, mas possui a mesma consistência e competência vista em Armas Na Mesa (Miss Sloane, 2016) e O Ano Mais Violento (A Most Violent Year, 2014), além de tecnicamente se equivaler ao que Erin Brockovich foi para Julia Roberts, ou Um Sonho Possível foi para Sandra Bullock, ou Eu, Tonya foi para Margot Robbie. Ela não se impota na caracterização física, dando preferência a detalhes que fizeram essas pessoas serem únicas e se destacarem, e dessa vez ela preferiu dar atenção às vulnerabilidades e fraquezas da personagem.

A atriz foi uma das exigências da própria Molly Bloom para que o filme fosse produzido, e segundo ela, foram detalhes que não apenas fizeram as cenas convincentes como muitas vezes fizeram Molly sentir que era ela mesma na tela, tamanha a semelhança das situações com a realidade e da interpretação certeira da atriz sobre sua própria personalidade.

É inacreditável como este filme passou despercebido pelos cinemas, e extremamente ignorado pela temporada de premiações, principalmente o Oscar, cujas indicações da atriz já poderiam ser facilmente equivalentes às 5 indicações que já conquistou no Globo de Ouro nos últimos seis anos. O filme concorreu apenas ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, de um livro que, apesar de seu título enorme e disperso (segundo Molly, decisões de sua própria editora), dizem ter um conteúdo que nunca deveria ser julgado pela sua capa, assim como foi esse o maior objetivo da personagem durante toda sua história.

quarta-feira, 14 de março de 2018

DECLARAÇÃO DE AMOR...

★★★★★★★★☆
Título: Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent)
Ano: 2017
Gênero: Drama, Animação, Biografia, Crime
Classificação: 12 anos
Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman
Elenco: Douglas Booth, Saoirse Ronan, Jerome Flynn, Helen McCrory, Eleonor Tomlinson
País: Polônia, Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Animação baseada nas obras e na biografia de Vincent Van Gogh.

O QUE TENHO A DIZER...
Esta obra genial e trabalhosa é uma biografia diferente porque, através de uma reimaginação da história, fatos reais são contados, e também é uma animação bastante peculiar porque utilizou técnicas que nunca haviam sido usadas antes. Os diretores e roteiristas, Dorta Kobiela e Hugh Welchman, conseguiram fazer deste filme o maior projeto artístico já realizado no mundo ao unir a terceira e sétima arte, além de ser a primeira animação inteiramente realizada com pintura à óleo.

Sem dúvida é uma enorme declaração de amor à vida e obra do pintor, e a vontade de tocar o projeto partiu de Kobiela, depois de passar meses lendo as cartas de Van Gogh, analisando seu estilo e estudando todas suas obras durante um momento muito difícil e particular de sua vida. Muitos foram os obstáculos para tocar um projeto no qual era constantemente afirmado ser impossível de realizar devido às dificuldades técnicas em sequenciar as pinturas e transformá-las em frames (as fotografias que, quando agrupadas, formam um segundo de imagem em movimento) e assim obter-se uma cena. Os diretores foram encorajados a realizar o filme em computação gráfica, mas a idéia era transpor não apenas o estilo de Van Gogh de maneira realista, mas também uma forma de captar sua essência e os sentimentos que seus traços despertam, objetivos presentes em suas obras.

Foi então que, em 2012, vários processos foram testados e eles concluíram que, ao contrário do que diziam, realizar uma sequência em pintura a óleo era algo possível. Com a maturação da idéia, foi criado o chamado "processo de captação do movimento". As cenas foram gravadas com atores reais em um cenário em chroma key, seguidos de uma pós-produção que utilizou um misto de efeitos especiais e computação gráfica para, por fim, servirem como matriz para os mais de 80 pintores contratados de diversas partes do mundo reproduzirem as cenas a óleo utilizando os mesmos traços característicos do pintor.

Outra dificuldade encontrada é que as obras de Van Gogh variavam em tamanho (grandes ou pequenas) e posição (horizontais ou verticais), e como elas são reproduzidas em detalhes por serem as referências principais de todo o longa, era necessário complementar livremente a composição de muitas delas quando seu tamanho era menor que o tamanho do frame de um filme. Muitos quadros também tinham iluminações ou a reprodução de determinadas estações do ano que não condiziam com a narrativa, e por isso foram igualmente adaptados, respeitando os demais elementos originais.

Com exceção dos flash-backs da história, que foram propositalmente realizados com técnicas preto-e-branco justamente para se diferenciarem das demais e preencher lacunas da história, já que são os únicos momentos em que nenhuma obra de Van Gogh foi utilizada como referência, todas as demais respeitaram seus estilos, que nunca foram únicos ao longo de toda sua vida. Há momentos em que é explicita essa diferença entre uma cena e outra porque Van Gogh experimentou várias técnicas em suas obras, se adequando a algumas delas ao longo de sua carreira. O único elemento comum em situações como essa é o protagonista, que acabou recebendo um tratamento mais diferenciado e padrão justamente para se destacar como um elemento fictício.

Mas também é possível notar a diferença de estilos entre os próprios pintores que fizeram parte do projeto, mesmo quando todos tentam, ao máximo, se manterem fiéis aos estilos referentes a cada uma das obras de Van Gogh que inspiraram as cenas realizadas. Mas de nenhuma forma isso reduz a qualidade e o desafio de um filme tecnicamente desafiador e visualmente brilhante, que reuniu mais de 66 mil pinturas, em um total de 800 a 1000 telas, já que muitas delas eram reaproveitadas para se utilizar os elementos estáticos de uma cena e assim os pintores não terem a necessidade de refazer tudo frame a frame, economizando tempo, material e trabalho. Segundo o making of da produção, se todas as pinturas fossem colocadas lado a lado em seus tamanhos originais, seria possível cobrir todo território de Londres ou da Ilha de Manhattan.

A história é uma imaginação sobre os dias que sucederam a morte do pintor, e a partir disso sua biografia será contada de forma bastante resumida enquanto o protagonista tenta desvendar os motivos da tentativa de suicídio de Van Gogh e demais mistérios em torno de sua estranha figura, que ao mesmo tempo que era respeitada por muitos, era vista com bastante estranheza por outros devido aos problemas psicológicos que enfrentava e que a sociedade desconhecia. E por desconhecerem, não sabiam como lidar.

Claro que o estilo diferenciado da animação pode acabar limitando seu público porque não tem a mesma fluidez das produções modernas e comerciais, estando longe de ter o nível de entretenimento que as produções da Disney/Pixar oferecem. É uma animação para um público mais adulto mesmo, aquele que se importa com a terceira arte e que gosta de admirar projetos desafiadores como esse, mesmo que a história também tenha um ritmo bastante lento porque foi criada respeitando a vida e as obras de Van Gogh, e tudo não passa de um pretexto para a exaltação de tudo isso.

Os esforços da produção foram reconhecidos, chegando a concorrer ao Oscar de Melhor Animação em Longa Metragem, perdendo para Viva (Coco, 2017), da Pixar. Isso nos faz voltar à velha questão, desde quando esta categoria foi criada em 2002, do que de fato faz uma animação ser considerada a melhor. Porque ao longo dos anos muitos filmes apresentaram de técnicas inovadoras àquelas que retomaram técnicas clássicas esquecidas, mas a preferência sempre vai para as grandes produções comerciais em computação gráfica e de grande bilheteria, que podem ser bonitos, mas de nenhuma forma se equivalem à originalidade que encontramos, por exemplo, aqui. Mais do que uma história, a Academia deveria observar a técnica, afinal, o que está sendo analisado é a animação acima de qualquer coisa, principalmente quando não há subcategorias específicas para o gênero, o que poderia e deixaria tudo muito mais dividido e democrático se existisse.

De qualquer forma, Com Amor definitivamente nos motiva a mergulhar na cabeça do pintor, não nos seus problemas e dificuldades, mas na maneira bastante simples e ingênua como ele enxergava o mundo, coisas e pessoas, criando cenários que, mesmo bastante lúdicos na sua expressão, nunca deixam de ser verdadeiros em suas formas e traços.
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