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quinta-feira, 15 de março de 2018

NÃO JULGUE PELA CAPA...

★★★★★★★★★☆
Título: A Grande Jogada (Molly's Game)
Ano: 2017
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 16 anos
Direção: Aaron Sorkin
Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera
País: China, Estados Unidos, Canadá
Duração: 140 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma competidora de nível olímpico que se torna uma das maiores gerenciadora de jogos de poker em Hollywood e Nova York, para depois ser alvo do FBI.

O QUE TENHO A DIZER...
Jessica Chastain não é ainda um nome memorável, ou que imediatamente remeta à imagem de uma grande e popular estrela, como acontece como Julia Roberts, Meryl Streep ou Nicole Kidman.

Não nos lados de cá.

Se você não é uma pessoa que assiste filmes com regularidade ou pouco se importa com fichas técnicas, provavelmente deixou passar em branco muitos títulos em que ela foi protagonista em algum momento, talvez aí a razão de seu nome sequer soar familiar. O que é uma pena, porque Jessica é, junto com Amy Adams, uma das maiores atrizes de sua geração no momento. Não é à toa que, quando interpretou a socialite expansiva e engraçada, mas que por trás dessa imagem vulnerável escondia a sobrevivência de uma avassaladora violência doméstica em Histórias Cruzadas (The Help, 2011), tudo mudou. Ela concorreu ao seu primeiro Oscar como coadjuvante e daí pra frente sua carreira engatou a sexta marcha e nunca mais parou, protagonizando filmes com personagens determinadas, em sua maioria baseadas em figuras reais que tiveram uma grande história em meio a situações lideradas por homens.

A Grande Jogada segue esse mesmo perfil que se tornou a marca registrada da atriz, que entre uma ou outra produção séria, acaba fazendo filmes mais despretensiosos, mas que estão longe de ter a mesma qualidade narrativa e construtiva que a maioria de seus filmes tem.

Aqui ela vai interpretar Molly Bloom, uma garota de classe média que cresceu praticando esqui livre e se profissionalizando em nível Olímpico na adolescência, cujo pai, além de ser seu treinador, era professor universitário e médico psiquiatra. Mas depois de um acidente que quase lhe custou a vida durante uma competição, abandonou o esporte e foi cursar faculdade de direito. Ou melhor dizendo, tentou.

O filme é baseado na biografia da verdadeira Molly Bloom, que descreve sua trajetória desde uma mera competidora de nível olímpico até se tornar uma das mais influentes gerenciadoras de jogos em Hollywood e Nova York.

É sem dúvida uma daquelas histórias que só acontecem no mundo financeiro e megalomaníaco do Estados Unidos, lugar onde se concentram as figuras mais excêntricas dispostas a qualquer coisa para atingir o cultural sonho americano do sucesso e da fama. Guiadas por essa cultura social há gerações, não é de se espantar que a incidência de fraudes, golpes, casos de duplicação de patrimônio a curto prazo ou enriquecimento ilícito tenham os números mais expressivos nesse país. Como as chances de se dar bem de forma fácil são sempre pequenas, basta uma oportunidade para se deixarem cair na tentação, sendo exatamente assim como nossa protagonista irá sair do subúrbio para o mundo do luxo e da influência social e fatalmente se tornar um dos maiores alvos do FBI.

O que sabemos desde o princípio é que Molly, assim como o filme e o livro no qual é baseado, nunca irá falar toda a verdade que acontecia nos bastidores e nos anônimos encontros de jogatina que ela organizava, mas o que podemos ter certeza é que ela é uma pessoa de confiança, e que a traição nunca fez parte de seus planos para alcançar seus objetivos, nem mesmo quando ela mesma foi traída. Caso fosse assim, tenho certeza que ela não estaria viva para contar essa história.

Logo no começo do filme é possível perceber que tudo será construído em cima de uma narrativa rápida e bastante visual, por muitas vezes até difícil de acompanhar mesmo quando tenta ser o mais didático possível, seguindo uma estética parecida com a de outro filme de título até similar, A Grande Aposta (The Big Short, 2015), só não tendo a quebra da quarta parede. A intenção do diretor e roteirista Aaron Sorkin ao fazer isso é reproduzir a maneira rápida e focada como a protagonista pensa, raciocina e coloca em prática.

É um tanto atordoante como os diálogos metralhados acabam se sobrepondo uns aos outros e como a edição picota as imagens em um ping-pong que intensifica mais ainda essa sensação de se perder no meio de uma discussão, não sendo à toa que os momentos mais interessantes do filme sejam exatamente as poucas - mas longas e até incômodas - pausas, principalmente em cenas entre ela e seu advogado, interpretado por Idris Elba. Momentos estes que é possível notar como os personagens estão cansados de argumentar, numa disputa verbal sempre engatilhada pelos pré-conceitos de Charlie e pela falta de confiança de Molly, levando ambos a se testarem constantemente, culminando no emocionante discurso do advogado aos promotores.

Sim, embora ocorra tudo numa velocidade na qual seja fácil o espectador perder o fio da meada, os diálogos são incisivos e interessantes com seus excessos de contra-argumentos, principalmente quando zomba da obviedade e da forma rasa como costumamos observar ou pensar sobre as coisas, ditadas muitas vezes pela mídia desinformativa. Portanto, é interessante assisti-lo em uma noite com tempo de sobra, não apenas pelas suas mais de 2 horas de duração, mas porque esse tempo pode aumentar significativamente dependendo do interesse e do tanto de vezes que você apertar o botão de retroceder para acompanhar melhor muitas das cenas.

No fim, não importa se você irá entender como funciona as estratégias do pôquer ou de como a protagonista conseguia administrar gorjetas, lucros, empréstimos, dívidas, pagamentos ou comissões, porque nada disso fará diferença, nem mesmo elementos ou personagens fictícios que entram para incrementar os conflitos e arcos dramáticos. O resultado final é unica e simplesmente sua determinação de construir um império próprio usando a observação e perspicácia, dominando da noite para o dia um negócio masculinizado e sexista, que acreditava que mulheres neste ramo eram apenas objetos de diversão. O que culmina na situação em que a motivação de Molly para se manter no negócio deixa de ser uma mera ambição para se transformar numa declarada e inconsciente guerra pessoal ao domínio machista opressor que passou a tomar formas violentas e covardes. Maravilhosa a forma como a protagonista resolve montar uma equipe só de mulheres para ajudá-la a recrutar novos jogadores e manipular suas participações, se aproveitando da ignorância dos homens e de suas constantes esterotipações femininas.

Molly Bloom não apenas construiu um império, como sua conduta pacífica e sua política bastante restrita fizeram-na se tornar uma figura respeitável e reconhecida. Mas, como de praxe em histórias de repentino sucesso como o dela, por um pequeno deslize quebrou todos os princípios que a fizeram chegar onde chegou em tão pouco tempo. Decisões mal calculadas que foram responsáveis pela sua queda e seu indireto envolvimento com a máfia. O interessante é que mesmo que o roteiro tente manter a integridade de sua figura, ela mesma não se impede de pontuar seus erros, exageros e deslizes, não com objetivo redentor, mas para mostrar ao espectador que somos nós mesmos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso.

No caso, a colocou no centro do radar não apenas de muitos clientes poderosos, como também do FBI, que tentou coagi-la de todas as formas a se tornar uma informante e revelar nomes envolvidos em esquemas que ela mesma desconhecia, ou fazia questão de desconhecer.

Em sua estréia na direção, Sorkins desenvolve um trabalho consistente o suficiente, que pode ter lá suas liberdades dramáticas, mas que acontecem em momentos muito exatos e quebram a seriedade quase sufocante da trama em que a protagonista se envolve. Dramas humanos e comuns, como na conflituosa relação entre a protagonista e seu pai, rendendo uma sequência bastante emocionante e de uma sinceridade que pode parecer até óbvia, mas que assim é vista exatamente quando deixamos de negligenciá-la. O mesmo sobre os alívios cômicos, raros, mas que sempre entram na narrativa ou nos diálogos para dar tempo do espectador respirar e se revigorar nesses breves parênteses.

Os papéis que Jessica tem desempenhado nos últimos anos se superam em qualidade, trabalho após trabalho. Sua performance aqui mantém características que a individualizam das demais, mas possui a mesma consistência e competência vista em Armas Na Mesa (Miss Sloane, 2016) e O Ano Mais Violento (A Most Violent Year, 2014), além de tecnicamente se equivaler ao que Erin Brockovich foi para Julia Roberts, ou Um Sonho Possível foi para Sandra Bullock, ou Eu, Tonya foi para Margot Robbie. Ela não se impota na caracterização física, dando preferência a detalhes que fizeram essas pessoas serem únicas e se destacarem, e dessa vez ela preferiu dar atenção às vulnerabilidades e fraquezas da personagem.

A atriz foi uma das exigências da própria Molly Bloom para que o filme fosse produzido, e segundo ela, foram detalhes que não apenas fizeram as cenas convincentes como muitas vezes fizeram Molly sentir que era ela mesma na tela, tamanha a semelhança das situações com a realidade e da interpretação certeira da atriz sobre sua própria personalidade.

É inacreditável como este filme passou despercebido pelos cinemas, e extremamente ignorado pela temporada de premiações, principalmente o Oscar, cujas indicações da atriz já poderiam ser facilmente equivalentes às 5 indicações que já conquistou no Globo de Ouro nos últimos seis anos. O filme concorreu apenas ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, de um livro que, apesar de seu título enorme e disperso (segundo Molly, decisões de sua própria editora), dizem ter um conteúdo que nunca deveria ser julgado pela sua capa, assim como foi esse o maior objetivo da personagem durante toda sua história.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CADÊ GODZILLA?

★★★★
Título: Círculo de Fogo (Pacific Rim)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Charlie Hunnan, Rinko Kikuchi, Idris Elba
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma raça alienígena e parasita migra de planeta em planeta de tempos em tempos, e agora tentam invadir a Terra enviando Kaijus através de um portal em uma fenda tectônica para destruirem os humanos. Cansados de serem constantemente atacados, as nações se unem na construção dos Jaegers, robôs capazes de irem a combate para lutarem e destruirem os monstros.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo mexicano Guillermo Del Toro, o mesmo de Hellboy (2004/2008) e O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth, 2006), sendo sua volta como diretor depois de cinco anos (nos últimos anos atuou mais como produtor) e também a tentativa da Warner de pegar carona com a franquia Transformers, iniciada em 2007, e lançar seu próprio filme (ou sua própria franquia) de robôs gigantes. Talvez possa dar certo, talvez não, pois o filme custou US$190 milhões e foi um fracasso nos Estados Unidos, arrecadando custosamente um pouco mais de US$100 milhões. Mas curiosamente o filme arrecadou mais de US$300 milhões no resto do mundo, o que garantiu a ele a possibilidade de uma sequencia e talvez, segundo o próprio Del Toro, de uma trilogia.

Conta a história de monstros alienígenas gigantescos que invadem a Terra pelo mar ao atravessarem uma fenda tectônica que é também um portal entre os dois mundos. Chamados de Kaiju (termo japonês dado a monstros desconhecidos), destruiram boa parte das grandes cidades numa sequência de ataques que já duram sete anos, o que fez as nações se unirem para criar os Jaegers, robôs igualmente gigantescos capazes de enfrentá-los de forma equivalente e evitar novas invasões e catástrofes.

A grande diferença dos já mencionado Transformers é que o filme de Del Toro, o qual também trabalhou no roteiro e produção, bebe até em exagero da cultura japonesa e seu fascínio por monstros gigantes de destruição em massa que andam pelas cidades como em um jardim. Enquanto Transformers lida com a guerra entre robôs de diferentes raças, Círculo de Fogo lida com a guerra direta entre humanos e monstros. Por conta disso, não é difícil associar o filme a antigos seriados como Jaspion, Changemam e Flashman por conta de uma equipe de heróis responsável por comandar robôs que irão a campo de batalha contra monstros destruidores. Também é impossível não associar àquele que foi e é a referência maior de todos eles, chamado Godzilla. Há também referências aos mangás e animes japoneses que tratam do mesmo tema, ou até a série de jogos eletrônicos Final Fantasy, já que grande parte dos monstros do filme tem visuais bastante similares aos monstros chamados Weapons nesses jogos.

Uma pena que as grandes e importantes referências utilizadas parem por aí e necessariamente não façam do filme algo tão bom como poderia, porque Del Toro não consegue evitar o uso exacerbado do fator Hollywoodiano, ou seja, do excesso do desnecessário. Da mesma forma que o diretor também não consegue manter a mesma linearidade e aquela mistura mágica e aceitável de ficção, fantasia e realidade que ele já conseguiu com sucesso em títulos anteriores, tanto que ele ficou conhecido justamente pela facilidade em articular esses gêneros como se fosse um só.

Círculo erra naquilo que a maioria dos blockbusters fazem. Exacerba nos diálogos bobos, vazios e cheios de frases heróicas de efeito; atores inexpressivos ou que se expressam caricatamente como feito, por exemplo, por Idris Elba na sua leitura repetitiva e já cansada de chefe áustero e mecânico ou do herói durão feito por Charlie Hunnam; os personagens cômicos e irritantes para cobrir buracos; e um argumento comum para justificar tanta destruição; ou a famosa tensão sexual existente entre o herói e a heroína irritante.

O roteiro é cheio de buracos e situações que não se encaixam ou justificam as razões das coisas existirem e acontecerem, como o fato de serem capazes de criar robôs gigantes cheios de aparatos tecnológicos inimagináveis, mas não de um míssel ou bombas avassaladoras contra eles. Sem contar que, no decorrer da história, supõe-se que os monstros ficariam maiores e mais difíceis, mas o último deles, o temido CLASSE 5, que pode acabar com qualquer coisa a sua frente, é morto numa facilidade como se fosse o primeiro. Aliás, como eles saberiam que é um  Classe 5 se nunca tinham visto antes? Há também o fato dos robôs existirem para evitar a invasão e destruição das cidades, mas durante batalha eles são permitidos destruir mais que os próprios monstros. Então, assim como o intragável O Homem de Aço, me pergunto para que a existência de heróis se eles matam e destróem mais do que os vilões e os monstros?

Portanto, se torna incoerente e sem sentido, desatento a tudo que é mostrado e falado, e uma via única e fácil para produzirem um blockbuster oco para o aumento do consumo de pipoca. Nem podemos dizer que possui efeitos especiais deslumbrantes, pois a maioria do que acontece é no escuro ou na chuva porque é mais fácil esconder os defeitos da produção corrida, ou também dizer que há cenas de ação realmente boas ou de tirar o fôlego, porque todas parecem ser iguais.

Então, novamente é fraco tanto quanto Transformers, e não algo mais polido, articulado e adulto quanto se supunha, deixando aquele gosto de desperdício no ar e da constante carência de cabeças mais amadurecidas por filmes de ação que não necessariamente precisam tacar em nossa cara tanto absurdo de uma vez só e chamar isso de cinema.

E se preparem porque nada vai parar por aí, há também o reboot de Gozdilla chegando ano que vem, como se o absurdo de Roland Emmerich (1997) não tivesse sido suficiente.

CONCLUSÃO...
Prato cheio para aqueles que só querem ver efeitos grandiosos, explosões, batalhas entre monstros ou até mesmo ter apenas um gostinho de nostalgia sobre as referências utilizadas. Está longe de ser um filme bom, e mais ainda de ser memorável. Mas como um todo é um filme robusto na tentativa de impressionar, pesado no exagero e que demora pra entrar em um ritmo tal qual os próprios Jaegers.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

PSEUDO-FILOSOFIA...

★★★★★★
Título: Prometheus
Ano: 2012
Gênero: Ficção Científica, Drama, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 124 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A tripulação da nave Prometheus finalmente chega a um planeta desconhecido depois de 2 anos e meio de viagem para uma exploração intencionada a descobrir as origens da raça humana.

O QUE TENHO A DIZER...
Não é novidade para quem gosta de cinema que Ridley Scott não é mais o mesmo de antigamente. Por ser dono de três importantes títulos como Alien (1979), Blade Runner (1982) e Thelma & Louise (1991), a impressão que tenho é que o mito ficou maior do que a verdade, e esse tão falado "visionarismo" do diretor nada mais foi do que uma mera "ousadia" no tempo certo. Alien, o cult classic favorito dos amantes da ficção científica, foi um sucesso. Teve um custo de US$11 milhões na época, e arrecadou mais de US$185 milhões no mundo, sem falar de seus relançamentos em DVD e versões extendidas, remasterizadas e em alta definição no cinema ao longo dos anos e que contribuiram para o aumento desses números.

Agora, uma curiosidade é que, ao contrário do que parece, Blade Runner não foi o sucesso que a mídia reporta. Foi um filme praticamente fadado ao fracasso, que ficou conhecido apenas no circuito alternativo e demorou anos para ser assimilado pelo público mais popular, tanto que o filme original sofreu várias mudanças até chegar no formato que conhecemos. Com um custo de aproximadamente US$28 milhões, arrecadou suados US$32 milhões só nos EUA. Ou seja, o sucesso de Blade Runner é mais boato do que fato. Seu sucesso comercial foi acontecer apenas ao longo dos anos e da insistência com os constantes relançamentos em home vídeo e diferentes versões no cinema. Óbvio que isso não diminui a qualidade do filme e do seu poder de referência, mas quebra bastante o paradigma de que Ridley Scott é dono de dezenas de sucessos. Alguns poucos sucessos subsequentes, incluindo o de Thelma & Louise, só foram conquistados em cima desse falso marketing.

A última grande investida do diretor foi em Gladiador (Gladiator, 2000), novamente muito mais uma aposta de sorte do que de visionarismo, e que trouxe de volta um estilo que não deu muito certo nas mãos de outros diretores, incluindo dele mesmo, quando tentou repetir esse sucesso com Cruzada (Kingdom Of Heaven, 2005), um grande fracasso comercial.

A história de um quinto filme da série Alien surgiu como um boato ainda no começo de 2000, quando Ridley Scott e James Cameron, juntamente com Sigourney Weaver, demonstraram interesse em voltar para mais um filme da franquia. Mas enquanto o roteiro estava sendo desenvolvido, o estúdio deu sinal verde para o lançamento do terrível crossover Alien Vs. Predador (2004). Alegando que este lançamento teria repercurssão negativa para a série, James Cameron desistiu do projeto e ninguém mais voltou a falar sobre o assunto.

Em 2009, a nova onda dos reboots por conta do sucesso da série Batman, de Christopher Nolan, trouxe novas possibilidades e a Fox resolveu fazer o mesmo com a série Alien e uma pré-sequencia havia sido confirmada desde que Ridley Scott retornasse para a direção. A pré-produção sofreu diversas mudanças criativas e de desenvolvimento e no fim das contas Ridley Scott afirmou que, embora a idéia do filme tenha sido inspirada na série Alien e que a história se passe no mesmo universo, o processo criativo desenvolveu uma nova idéia, em um filme completamente diferente que se basearia na mitologia e na criação do universo.

De fato, a história até puxa algumas referências que explicam - dentre várias coisas que explicam ou deixam sem explicar - a origem da espécie humana e alienígena, mas o filme parte de um princípio completamente diferente da série Alien, e que realmente o classifica como uma história única, e não uma pré-continuação.

Prometeus é o nome de um titã da Mitologia Grega que roubou o fogo dos deuses para que os homens pudessem usar para seu progresso e civilização. Por conta disso ele foi condenado ao sofrimento, sendo amarrado em uma rocha onde todas as manhãs uma águia comeria o seu fígado, que regeneraria para ser novamente devorado no dia seguinte, e assim por toda a eternidade.

A história e a moral desenvolvida no filme segue particularmente a linha mais romântica de Prometeus, a do herói titã que se transformou em símbolo da bravura humana e do conhecimento, mas que também significou o risco de ultrapassar os limites até suas últimas consequências, já que seus esforços em incentivar o progresso e a melhoria dos homens também resultou na sua própria tragédia. Em resumo significaria o homem brincar de deus, e ao criar algo que possa favorecê-lo, também cria algo que volta-se contra ele mesmo.

Ao contrário do que parece ser, Prometeus não é um filme de horror científico tal qual é a série Alien. É muito mais um drama científico do que qualquer outra coisa. Lento e com basicamente apenas três grandes sequências de ação durante suas mais de duas horas, pode fazer muitas pessoas ficarem um pouco desapontadas ou frustradas.

A verdade é que Ridley Scott, juntamente com os roteiristas Jon Spaihts e Damon Lindelof, tentaram fazer desse filme uma obra pós-moderna de ficção científica tal qual Alien ou Blade Runner significaram em seu tempo. O uso da mitologia grega ou suméria (e até de outras culturas similares na sua construção) para justificar a busca pela origem humana, é bastante evidente, o que não caracterizaria o material como algo original, embora ele também apresente alguns poucos elementos próprios. A história também tenta afirmar que a religião que é baseada na ciência, e não o contrário, como muita gente acredita. Mas a aproximação dessas duas linhas de pensamento tão distintas e de como isso é feito chega a ser muitas vezes até subliminar, talvez para evitar polêmicas ou conflitos desnecessários. Tanto é assim que a personagem principal, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), se mostra uma cristã devota principalmente em uma das sequencias finais, quando ela pede perdão por ter ido tão longe, convergindo para o princípio religioso do abuso do poder dado aos homens e as duras consequências colhidas por seus atos de grandeza.

Obviamente que a grande característica do filme, e que o encaixa como um material dentro do universo proposto (ou "DNA Alien", como disse Ridley Scott), é o visual obscuro, metalizado e biomecânico resgatado do primeiro Alien, legado do diretor de arte Roger Christian e do artista plástico surrealista H. R. Giger. Os cenários grandiosos e o uso do 3D para ampliar a sensação de profundidade é o que mais tem chamado a atenção, mais do que a própria história. Isso acontece porque ela em si se mostra um tanto redundante, andando em círculos e esclarecendo quase nada. O espectador não consegue respostas para muitas das situações que são jogadas na sua frente sem qualquer relevância. Não dá pra entender muito bem qual a função de algumas determinadas coisas, como a da substância negra, que ao mesmo tempo que destrói também desenvolve (ou muta). Além disso, há um número desnecessário de atores no elenco. Muitos deles estão lá apenas para desvirtuarem propósitos ou darem falsas pistas gratuitamente, novamente sem relevância alguma para o desenvolvimento da história.

Achei essa inutilidade de personagens talvez o mais revoltante de todo o filme, pois não há como o espectador evitar de prestar atenção nesses detalhes e no fim se sentirem enganados para nada. São elementos que foram utilizados até a exaustão na série Alien e demais filmes de ação espacial, mas que hoje em dia se transformaram em clichés previsíveis e que não funcionam, gerando mais revolta do que expectativa. Não dá para entender, por exemplo, o motivo de Guy Pearce atuar como o velho Peter Weyland e aquela tenebrosa maquiagem visivelmente falsa, ou qual é exatamente a função de Charlize Theron como Meredith Vickers além de uma revelação tipicamente Guerra-Nas-Estrelas-de-ser.

A verdade é que muita gente não vai conseguir engolir muito bem essa pseudo-filosofia existencialista que o filme tenta propor. É um filme confuso, pois mesmo sua moral sendo bastante interessante e baseada em alguns fundamentos religiosos e míticos fortes, a ficção e o exagero de elementos desnecessários para forçar um clima de suspense e medo acabam não tendo a eficiência que deveriam justamente pelo excesso de intenção. Ridley Scott definitivamente tem se mostrado um diretor comum, que carrega em si apenas o peso do nome e da importância de alguns poucos títulos na história do cinema.

CONCLUSÃO...
Prometheus poderia ter sido um grande retorno e um filme tão grandioso quanto seus cenários, mas resultou num produto banal, inconclusivo, com um elenco grandioso e que muitos deles estão lá apenas para atrair público, não acrescentando qualquer coisa que seja, tanto para aqueles que esperavam algo original, quanto àqueles que assistiram como uma pré-continuação da série Alien. Uma continuação já foi anunciada, e se for seguir a tradição da série Alien, em que Aliens (continuação de 1986, dirigido por James Cameron) é considerado melhor que o original de Ridley Scott, então talvez isso não soe tão mal assim.

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