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sábado, 2 de março de 2013

SUTILEZA E DISCRIÇÃO QUE CHAMAM ATENÇÃO...

★★★★★★★
Título: As Sessões (The Sessions)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ben Lewin
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um poeta que vive em um pulmão de aço e resolve contratar uma terapeuta sexual para perder a sua virgindade. 
O QUE TENHO A DIZER...
As Sessões é um filme que vaga entre a comédia e o drama de forma muito natural e sem exageros de nenhuma forma. Na verdade o filme não tem pretensões alguma de ser qualquer coisa, apenas uma forma de mostrar um ponto de vista humano e motivador mesmo dentro de uma vida limitada como a do poeta, jornalista e advogado Mark O'Brian, que contraiu poliomielite aos seis anos de idade. A doença fez com que todos os músculos do seu corpo deixassem de funcionar corretamente, o que o deixou em uma condição paralisada e extremamente limitada, com excessão do pescoço e cabeça, o que o obriga a viver dentro de um pulmão de aço, já que ele não tem força suficiente para respirar sozinho por um longo período de tempo.
A história contada no filme é baseada em fatos reais, em um artigo publicado por ele mesmo em 1990 a respeito de seus encontros com a terapeuta sexual Cheryl Cohen-Greene, com quem ele ficou amigo até sua morte, em 1999. A razão dele tê-la contratado é que, mesmo tendo uma relação muito próxima com diversas mulheres que o adoravam pela sua simpatia e genuíno senso de humor, aos 38 anos nunca conseguira ter uma relação sexual com nenhuma delas. Além disso ele sofria de ejaculação precoce, o que muitas vezes o deixava constrangido perto das pessoas, pois as faziam ter idéias erradas sobre o que acontecia, principalmente das que cuidavam dele, já que um simples toque era o suficiente para acontecer algo no qual ele não tinha controle e não sabia como fazê-lo. E então é com a ajuda de seu amigo padre, de sua terapeuta e de uma amiga igualmente deficiente que ele resolve entrar em contato com Cheryl, e as sessões serão justamente o limite de seis sessões de terapia que ela oferece aos pacientes.
Nos EUA a profissão de Cheryl é conhecida como "sex surrogate", ou seja, uma pessoa que "aluga" o sexo por algum motivo específico e terapêutico, o que as diferem de prostitutas, que vendem o sexo apenas pelo dinheiro, sem uma razão específica. O termo é traduzido como "terapeuta sexual", o que não é uma forma muito correta de tradução já que no Brasil os terapeutas sexuais são profissionais que lidam apenas com a psiquê e não com o físico, o que pode gerar uma certa confusão.
Mark é interpretado brilhantemente por John Hawkes, em um daqueles papéis que é quando temos certeza que um ator é bom frente a tantas limitações e obstáculos. Cheryl é interpretada por Helen Hunt, que não tem nenhum momento ou cena específica que destaque sua personagem para chamar a atenção de premiações, mas oferece uma atuação bastante sincera e emocionalmente contida, sendo até mesmo uma surpresa, já que a atriz dificilmente encontrou bons papéis depois de ter ganho o Oscar em 1998 por Melhor É Impossível (As Good As It Gets, 1997). Ambos atores conseguiram chamar a atenção com tanta sutileza e discrição, concorrendo a todos os principais prêmios da temporada como Screen Actors Guild, Golden Globes e o Oscar. Infelizmente levaram poucos dos prêmios que concorreram por ter sido um ano realmente bastante competitivo, mas deixaram evidente em como bons atores necessitam de pouco para transformar algo simples em grandioso.
CONCLUSÃO...
Um filme leve, delicado e bastante motivador, que até mesmo nos momentos dramáticos consegue ser sutil e natural. A relação construída entre Mark e Cheryl é bastante interessante e o ponto alto do filme. Há também as relações paralelas entre Mark e suas cuidadoras Amanda e Vera, que não apenas o compreendiam como também foram seus braços, pernas e a extensão para o mundo exterior que ele não tinha.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

COMO O OSCAR CONSEGUE SER CONSTRANGEDOR...

Nas previsões que realizei nas categorias principais, só errei no prêmio de Melhor Diretor. Ao invés de ter ido para Spielberg, o prêmio foi com grande surpresa a Ang Lee. Foi um choque, pois a predileção era Spielberg na falta de Ben Affleck na categoria.
 
Mas o que falar do show do Oscar?
 
A cada ano que passa ela se torna uma festa mais degradante. O último grande sopro de novidade aconteceu em 2007, seis anos atrás, quando Ellen Degeneres foi convidada para ser apresentadora do evento. Tentando sair do óbvio e fazer da festa algo interessante e glamuroso sem precisar ser quadrado, ela ousou dentro dos limites, conseguindo ser engraçada, delicada e genuína, deixando de lado a grosseira ou o excesso de sarcasmo, da autodepreciação e do constrangimento alheio, coisas demasiadamente absurdas que viraram marcas registrada daquilo que eles consideram "o maior evento do cinema mundial".
 
2008 tentou ser interessante com Jon Stewart, que foi um pouco mais político, alfinetando aquilo que deveria, mas dentro de seu senso de humor ácido. Hugh Jackman, em 2009, foi um verdadeiro host, um lord, mas os exageros da Academia deixaram a festa mais cafona do que já ousou um dia ser ao extrapolarem na medida de provar que Jackman é um homem multitalentoso. Depois tivemos Alec Baldwin com Steve Martin (ahn?!), James Franco e Anne Hathaway (o pior dos piores anos), Billy Crystal (chato e cansativo como sempre), e quando achamos que nada poderia ficar pior, tivemos Seth MacFarlane.
 
MacFarlane, um desconhecido comediante pra grande maioria, ficou famoso por ter escrito e dirigido o filme mais politicamente incorreto dos últimos anos, Ted (2012). E foi com essa presunção em mente que ele achou que iria conquistar o público de igual forma. A diferença é que ele não imaginou que quem é engraçado é o personagem de boca suja que bebe, fuma, arrota e fala palavrão, e não ele.
 
A cerimônia já começou constrangedora. MacFarlane atirou para todos os lados e não poupou esforços em ser desagradável com piadas desnecessárias, que ultrapassavam o politicamente incorreto no humor americano mais baixo, gratuito, vazio e grosseiro que pudesse existir. Pintou um personagem de si próprio que precisaria descobrir a fórmula perfeita para receber a aprovação do público, ironizando o tempo todo. Se autocriticou incansavelmente, minou ele mesmo e reverteu qualquer futura crítica negativa em piada, uma boa jogada para ter liberdade de fazer tudo que é ruim sem ser apedreijado, como até mesmo cantar uma música chamada "We Saw Your Boobs" (Nós Vimos Seus Peitos) em altos brados, numa das esquetes musicais mais vergonhosas de todos os 85 anos da premiação. Na música o (dito) "comediante" dizia que todos nós já vimos os peitos de diversas atrizes, citando várias delas que estavam na platéia, bem como os filmes em que isso acontece. Eles fizeram uma montagem que fingia o constrangimento de Naomi Watts e Charlize Theron, mas isso não deve ter sido mentira com as demais, frente a recepção fria que a platéia teve.
 
Suas piadas foram um fiasco, apenas uma meia dúzia de gargalhadas forçadas eram ouvidas e as palmas da platéia vinham justamente de um meio centro apropriadamente ensaiado para enganar o espectador caseiro. Tudo isso para posteriormente ele vestir uma imagem de apresentador comum e que não conseguiu nem ao menos ser carismático. Ou seja, parece não existir mais um grande entertainer para a festa como um dia já existiu, ou textos inteligentes o bastante para serem engraçados, ou até mesmo situações irônicas sem a necessidade de pisar nos dedos de ninguém ou chamar o espectador de imbecil, porque é essa a impressão que eu tenho nos últimos 10 anos que venho assistindo. Uma sucessão de erros que todos enxergam, mas não fazem questão de mudar.
Uma das maiores reclamações da cerimônia sempre (e SEMPRE) foi sua interminável duração, tanto que há aproximadamante 10 anos (ou um pouco mais) as apresentações musicais foram gradualmente cortadas, pois eram exaustivas, principalmente na época em que Disney enchia seus desenhos de canções e dominava o gênero. Esse ano resolveram esquecer de tudo isso, e sem uma razão muito óbvia resolveram homenagear e enaltecer os musicais modernos (apenas os poucos três mais relevantes dos últimos 10 anos), com direito a reapresentação de alguma cenas memoráveis nos palcos pelos atores que as fizeram nas telas, incluindo o repeteco desnecessário de Catherine Zeta-Jones no seu já esgotado All That Jazz, de Chicago (2002). Ao todo foram umas 10 apresentações musicais, e o Oscar, que agora mais parece um MTV Awards de gala, resolveu vestir uma fantasia Grammy, tentando explorar a popularidade de Adele e o sucesso de um tema de James Bond que não se tinha desde... nem eu sei quando! E o mais engraçado é que, tudo isso, numa época em que ninguém mais se interessa por musicais no cinema. Então... qual o motivo de tudo isso? Falta de idéias? Onde está a coerência?
 
Uma lástima.
 
Mas, se por um lado foi um show mais uma vez cansativo, longo, chato e constrangedor, por outro tivemos grandes surpresas como a apresentação arrebatadora de Shirley Bassey, que aos 73 anos ofereceu uma performance aplaudida em pé, colocando Adele no seu devido lugar, que mesmo ganhando o prêmio de Melhor Canção da noite por Skyfall (e que nem merecia tanto assim) não recebeu mais do que medianos aplausos em um misto de lágrimas e desdém. Ela nem sequer ousou agradecer as demais divas que ocuparam o mesmo lugar nesses 50 anos de existência do espião, e que, como Rubens Ewald disse, se tornou uma marca da série e um estilo de música próprio: "as músicas de James Bond". Também tivemos outras coisas boas como Barbra Streisand e um discurso breve e emocionante de Christopher Plummer às atrizes coadjuvantes.
 
Foi um ano competitivo como há muito não se via, onde não houve favoritismo a ninguém e os prêmios foram muito bem divididos entre os filmes. Também não houve grandes injustiças como em anos anteriores, com excessão da predileção de Jennifer Lawrence ao invés da francesa Emmanuele Riva. Não que a jovem atriz não merecesse, mas o histórico e o grande desempenho da atriz francesa merecia uma melhor consideração, uma consideração que ela mesma pareceu não conseguir entender em não ter tido.
 
No mais tudo seguiu como planejado tal qual Anne Hatthaway receber o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, ou a Primeira Dama Michelle Obama participar da entrega do prêmio de Melhor Filme naquilo que eu já havia dito e de certa forma previsto em posts anteriores sobre a atual necessidade da cultura norte-americana se enaltecer com pouco, numa época em que essa nação está às mínguas, e em um ano em que o cinema e os interesses políticos nunca estiveram numa polêmica tão forte. De um lado tinhamos A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), que colocou em risco a imagem e a dignidade do serviço de inteligência do governo dos EUA. Por outro lado tinhamos Argo (2012), que pintava uma imagem excitante e patriotista do mesmo país. Houve também a surpresa da premiação de Ang Lee receber como Melhor Diretor, quando ele era o menos cotado a receber o prêmio em um ano que tinha tudo para ser de Spielberg se não fosse de Ben Affleck.
 
Novamente não foi um ano em que foi possível dizer que passar 4 horas assistindo uma premiação foi a melhor programação da noite de um domingo, mas foi um ano competitivo e de certa forma um dos mais ecléticos pelo ponto de vista da premiação, a grande pena é que nada disso caminhou com coerência em um espetáculo mais uma vez constrangedor e que mais irritou do que entreteve.
 
Para ver a lista completa de vencedores, clique AQUI.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

ÚLTIMAS APOSTAS PARA O OSCAR 2013!

Vou ser bem direto nas minhas apostas desse ano. Vamos lá...

MELHOR FILME
Definitivamente será Argo porque de fato ele é o grande diferencial de 2013, um filme de ação incomum fundamentado em uma história verídica e que consegue ser ao mesmo tempo empolgante, divertido e dramático, sendo fictício em doses exatas apenas para o bem da narrativa. Também será a forma da Academia tentar se redimir pelos erro que cometeu de não ter colocado Ben Affleck entre os finalistas de Melhor Direção. É difícil pra mim ter que aceitar esse fato, porque tenho lá meus preconceitos com o roteirista que virou ator, e de ator agora é diretor e produtor... mas fazer o quê? O rapaz vem fazendo tudo certinho e provando que tem mais charme atrás das câmeras do que na frente delas.

Mas minha escolha pessoal seria Indomável Sonhadora. É um filme belíssimo, delicado e lúdico, que também tem lá seus fundamentos verídicos sobre as dificuldades que a população miserável sulista nos EUA passa e não faz questão de mudar para manter sua integridade cultural. Filme emocionante sem cair na pieguice e convincente por todos os lados.

MELHOR DIRETOR
Na falta de Ben Affleck, o prêmio irá para Steven Spielberg, que provavelmente fará algum discurso nobre sobre a ausência do colega na categoria. Esse ano ele poderá ganhar por W.O., já que não há outro candidato mais forte, e minha escolha pessoal também seria ele, mesmo se Ben Affleck estivesse presente.

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, não há mais dúvida alguma sobre isso.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aposto em novamente ser Christopher Waltz, o que também bate com minha escolha pessoal.

MELHOR ATRIZ
Tudo indica que será Jennifer Lawrence. Ela vem abocanhando todas, incluindo o Screen Actors Guild, mas perdeu o BAFTA, o último grande prêmio antes do Oscar. Mas não vejo nada brilhante na sua atuação, apenas algo bem feito e que gerou uma boa química com o ator Bradley Cooper.

Mas tomara que eu esteja bastante errado e o prêmio vá para minha escolha pessoal, Emmanuelle Riva. O desempenho desta atriz no filme Amor é arrebatador. Ela foi esquecida no SAG, mas venceu o BAFTA, o que ainda oferece uma grande esperança de que ela vença, e se isso acontecer, não conseguirei segurar minhas lágrimas, pois será emocionante com certeza. Corre um leve boato de que agora ela tem muitas chances, além de uma campanha não oficial que anda pairando pela internet já há um bom tempo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anne Hathaway é a favorita, e nem é porque é seu melhor papel, mas por ser aquele em que ela se destacou o necessário para isso, e levará o prêmio mais pelo seu conjunto de obras simpáticas e pela sua popularidade do que pelo desempenho. Isso é comum na história da Academia e todo ano isso acontece.

Confesso que minha escolha pessoal fica dividida entre Helen Hunt e Jacki Weaver.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Tarantino poderá levar por Django Livre. O filme foi polêmico e Tarantino é uma máquina de criar roteiros bem feitos, e meu favoritismo pessoal também é pra ele.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ben Affleck tem grandes chances de levar para novamente compensar sua falta na categoria de Melhor Direção.

Tony Kushner mereceria por Lincoln, mas confesso que o roteiro de Ben Affleck realmente tem um "quê" a mais de originalidade e que fez o filme ser uma das coisas mais pitorescas e divertidas do gênero nos últimos anos. É, admito... fico com Ben novamente.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PRECONCEITOS DE LADO: É BOM MESMO!

★★★★★★★★★☆
Título: Argo
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Kyle Chandler, Victor Garber
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Baseado na missão verídica Canadian Caper durante a Crise de Reféns do Irã em 1979, em que um agente da CIA se infiltra no país para resgatar seis diplomatas norte-americanos sem que o governo iraniano perceba. 
O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido, escrito, produzido e atuado por Ben Affleck, a produção também é assinada por George Clooney, que é outro ator que vem desempenhando um forte papel como diretor nos últimos anos, e que talvez tenha sido uma grande mão na roda desse filme, já que sua experiência com longas é bem maior.
Tenho que finalmente torcer minha lingua e concordar que é um bom filme, e realmente tem razão de figurar entre os melhores de 2012. É o terceiro longa metragem do ator que se destacou como roteirista ao ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (juntamente com seu então amigo Matt Damon) pelo filme Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997) e agora se tornou uma figura poderosa em Hollywood ao se consolidar como um dos novos e bons diretores dessa geração, e Hollywood tem feito de tudo para promovê-lo assim.
O histórico da carreira de Ben Affleck é cheio de altos e baixos. Da noite para o dia ele se tornou um galã, e do dia para a noite sua fama despencou por conta das constantes perseguições da mídia e do frequente esculacho sofrido a respeito da sua limitada capacidade de interpretação e de sua vida pessoal. Demorou para ele voltar a se resguardar, ser esquecido pela mídia sensacionalista e aos poucos se reestabelecer pessoal e profissionalmente. É o novo patinho feio, e agora Hollywood se aproveita disso para pintá-lo dessa forma e, talvez, de também pedir desculpas por tanto escárnio ao longo de boa parte de sua carreira.
Sr. Affleck vem causando surpresa por ter feito arrastões na temporada de premiações de 2013, já recebendo prêmios de Melhor Diretor e/ou Melhor filme em eventos importantes como o Critics Choice, Globo de Ouro, Screen Actors Guild e Directors Guild. O filme também recebeu sete indicações ao Oscar, mas isso não impediu de que ele fosse esnobado pela Academia que não o incluiu na lista de finalistas de Melhor Direção, embora figure na lista de Melhor Filme. Esse fato tem causado bastante polêmica e levado os membros da Academia a sofrerem fortes críticas por isso frente a tanto favoritismo que Argo vem tendo. Há duas grandes fortes razões para isso ter acontecido. A primeira delas pode ter sido pela mudança da data de votação dos finalistas ao Oscar já que foi feito em um período de férias e festas de final de ano, sendo dito por aí que muitos membros do comitê para a categoria de Melhor Direção não tenham tido tempo suficiente para enviar os votos e que, ao mesmo tempo, muitos outros tenham feito suas votações sem ao menos ter assistido os filmes, dando votos cegos. A segunda razão, e talvez a mais plausível, é pelo comitê não engolir a ascenção de Ben Affleck por puro preconceito mesmo. O próprio ator/diretor/roteirista/produtor já desmonstrou seu descontentamento a cerca disso e não vem evitando situações para sutilmente alfinetar a Academia a cada novo prêmio conquistado.
O filme é baseado no fato verídico do plano Canadian Caper, em que o agente da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck), liderou o resgate de seis diplomatas norte-americanos que conseguiram escapar da Embaixada Americana do Irã após a invasão de militantes e estudantes islamitas, levando à Crise de Reféns do Irã, que durou entre 1979 e 1981, envolveu o sequestro de 52 norte-americanos que se encontravam na Embaixada e que foram mantidos em cativeiro por 444 dias. Após várias missões de resgate falharem, Tony Mendez surge com a idéia absurda de se infiltrar no país disfarçado de produtor de cinema canadense que trabalha em Hollywood e que está procurando locações no país para a filmagem de um novo longa de ficção científica chamado Argo. O plano principal era encontrar o grupo foragido e igualmente disfarçá-los de cidadãos canadenses que fazem parte da equipe de filmagem para poder extraí-los do país sem que o governo iraniano percebesse.
Embora Argo seja o título do filme e o título do roteiro utilizado no plano que o filme narra, na missão real de extração o título do roteiro utilizado foi de um filme que nunca foi filmado chamado O Senhor da Luz (Lord Of Light), baseado na obra de Roger Zelazny, e aquilo que parecia absurdo, no fim se tornou um sucesso e um exemplo de parceria e cooperação diplomática entre diferentes nações. Foi isso que chamou a atenção de Ben Affleck para adaptar a história originalmente publicada como um artigo em 2007, mas que já havia se tornado pública durante o governo de Clinton.

Sem dúvida é um filme que acaba enaltecendo os Estados Unidos em um período difícil que o país passa de descrença entre seus próprios cidadãos e do constante declínio de sua hegemonia e imagem no resto do mundo. Também acaba sendo sem querer um ponto de vista mais bonito, humanitário e contraditório do filme A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012), em que a diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal não mediram esforços para mostrar o lado mais desumano e anti-diplomático dos Estados Unidos quando o assunto envolve a guerra de interesses. Talvez seja por essa razão que o filme de Affleck esteja sendo ovacionado pela crítica e pelo público, pois é um filme que acaba por promover uma imagem que os EUA agora carece.
Enquanto Argo mostra o lado patriótico e pacífico da CIA, A Hora Mais Escura mostra o lado negro da força da agência de inteligência secreta do país, suas influências perigosas e o abuso de força e poder. Por isso, mesmo os dois filmes se passando em épocas e situações distintas, se tornaram importantes títulos que são interessantes de serem assistidos para essa observação ser feita, pois juntos erguem questões fundamentais que o grande público até então tinha pouco acesso.
Enquanto Bigelow deu um ar mais histórico ao seu filme evitando transformar fatos em cenas de ação comuns do gênero, Affleck oferece um tom mais fictício transformando os fatos em um grande entretenimento, e não há como negar os méritos disso. O filme se destaca exatamente por ser igualmente baseado em pesquisas sólidas para retratar e caracterizar tudo da forma mais histórica possível (como é mostrado durante os créditos finais) e ainda recebe as dosagens exatas de humor, ação convencional e suspense. Por conta dessa união feliz de diferentes fatores que poderiam facilmente cair em um grande besteirol, Argo é um filme de ação incomum e inteiramente verídico, porém dentro de um tom teatral útil que entretém e nunca deixa o espectador entediado.
Obviamente que Affleck usa e abusa de clichés para manter um clima de tensão constante, repetindo aquela mesma tática de segurar as situações e enganar o espectador, fazendo-o acreditar que tudo vai dar errado até o clímax ser atingido e todo mundo finalmente poder dizer "ufa". Essa fórmula é repetida não com frequência, mas seguidamente, o que acaba sendo um pouco cansativo e previsível porque depois da primeira vez que isso acontece a tensão continua existindo, mas não há surpresas. Independente disso, para a proposta do filme, a tática funciona bem até o último minuto.
Grandes pontos positivos também para os atores, que também receberam o prêmio SAG de Melhor Elenco de longa metragem, uma das categorias mais importantes do evento e da temporada de premiações, já que é avaliado as atuações como um todo e sua química em cena. Isso deve ser por conta da maioria do elenco ser formado por atores experientes e gabaritados, mais conhecidos por trabalharem em seriados de televisão como: Bryan Cranston, de Breaking Bad; Victor Garber de Alias, Clea DuVall, de American Horror History; Kyle Chandler de Friday Night Lights; e Tate Donovan, Chris Messina e Zeljko Ivanek, de Damages. Atores que já estão acostumados a trabalhar com grandes equipes e tem uma capacidade maior de interação entre si. O grande defeito de elenco é o próprio Ben Affleck, que ainda insiste em atuar (ou finge atuar) em seus próprios filmes. Mas aqui sua incapacidade nem é tão notada, tudo fica bem camuflado no meio de tanta barba, cabelo e demais atores que conseguem roubar as cenas.
O filme ainda concorre ao Oscar de Melhor Edição, que é bastante pontual e funcional, nunca deixando o clima cair ou desandar. A produção de arte e o figurino também são excelentes, retratando bastante os anos 70, inclusive no tipo de filmagem, já que Ben Affleck fez questão de que a imagem tivesse o mesmo aspecto envelhecido de documentos da época, realizando um processo de filmagem convencional, porém em um tamanho menor de imagem, e depois duplicando seu tamanho na hora da revelação para que essa granulação ficasse mais nítida.
Buscando a história real e os fatos verídicos, há alguns anacronismos e desvios que Affleck fez questão de dizer que foram feitos simplesmente para amarrar o roteiro e manter os climas de tensão, desde as coisas mais supérfluas (como as letras de Hollywood em ruínas, que foram restauradas antes da época em que o filme se passa) até as mais sérias, como o fato do filme afirmar que apenas a Embaixada Canadense ofereceu refúgio aos seis americanos, quando na realidade tanto a Embaixada Britânica quanto a Neozelandesa também ofereceram ajuda.

Enfim, como ator Ben Affleck tem se provado um grande diretor e roteirista. Por um lado confesso que meu preconceito me impede de aceitar que Argo realmente tenha a melhor direção, o melhor roteiro e, por fim, acabe sendo o melhor filme de 2012, mas por outro também tenho que concordar que ele realmente não desaponta em nenhum aspecto, além de ter conseguido fazer uma coisa que nenhum dos filmes que figuram na lista dos melhores das premiações conseguiram até o momento, me deixar empolgado e em nenhum momento me entediar ou querer que acabasse logo.
CONCLUSÃO...
É um filme feito sob medida. Tudo nele funciona como deve e em nenhum momento peca por excessos ou faltas, e mesmo sendo um filme baseado fortemente em fatos verídicos, ele é construído em cima de um clima de ação e tensão que o deixa com um aspecto incomum. Interessante quando assistido junto com A Hora Mais Escura, já que é outro título de 2012 também fortemente baseado em fatos verídicos envolvendo ações da CIA e com uma narrativa completamente diferente, mas que ajuda a erguer questões fundamentais que não devem ser ignoradas. É Affleck sabendo escolher bons trabalhos e excelentes parcerias, como a de Clooney na produção e todo o elenco envolvido. O orgulho e preconceito de alguns pode dificultar, mas realmente ele merece estar entre o Top 5 de 2012.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

HORROR À MODA ANTIGA...

★★★★★★
Título: Terror Em Silent Hill: Revelação (Silent Hill: Revelation)
Ano: 2012
Gênero: Horror
Classificação: 16 anos
Direção: Michael J. Bassett
Elenco: Adelaide Clemens, Kit Harrigton, Sean Bean, Carrie-Anne Moss
País: França, Estados Unidos, Canadá
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Heather, agora adolescente, morde a isca e volta a Silent Hill para resgatar seu pai que foi sequestrado pela Ordem e descobrir suas verdadeiras origens e quem ela realmente é.

O QUE TENHO A DIZER...
Terror Em Silent Hill: Revelação, é dirigido e escrito pelo inglês Michael J. Bassett, e realmente desconheço qualquer outro trabalho que ele tenha feito. A princípio o filme era pra ser escrito e dirigido por Roger Avary, o mesmo roteirista do primeiro filme, mas aí o cara foi preso porque sofreu um acidente grave de carro com vítimas enquanto estava embriagado, e a produção foi suspensa. Por essas e outras razões a produção demorou seis anos para ter início, o que é um intervalo bem grande de tempo para a continuação de um filme que, embora tenha feito um relativo sucesso, não ficou na memória de muita gente.
Para quem não sabe (será?), o filme é baseado numa série de jogos de horror com o mesmo nome (ao todo são 9 jogos oficiais até o momento). Os produtores Don Carmody e Samuel Hadida sempre quiseram levar um segundo filme para as telas, para concluir o final estranho deixado pelo primeiro, além de também sempre acreditaram que Silent Hill oferecia um grande material para um filme de terror, o que sempre foi verdade, desde quando o primeiro jogo da série surgiu, lá em 1999.
O primeiro filme, Terror Em Silent Hill (Silent Hill, 2006) recebeu críticas positivas no geral, mas foi mais elogiado pelo seu clima sombrio e uma produção de horror caprichada que há muito tempo não se via no gênero, resgatando um estilo de filme que incita o medo sem a necessidade de sustos orquestrados, mas apenas sendo sombrio, que usou e abusou de todas as características dos jogos e sua atmosfera, o que foi impressionante. Tanto que o filme é considerado, de longe, a melhor adaptação de um jogo de video game (talvez a única), por se manter fiel a todos os elementos e ainda ser um filme igualmente assustador.
O segundo filme sofreu diversas modificações na produção. Embora ele ainda mantenha uma classificação de idade alta (16 anos no Brasil, 17 nos EUA), o que é raro, pois o retorno financeiro não é garantido já que limita bastante o público principalmente nos EUA, muitos cortes foram realizados. A produção do primeiro filme teve um orçamento de US$50 milhões, a do segundo caiu para "apenas" US$20 milhões. O primeiro filme teve um pouco mais de 120 minutos, a duração do segundo filme caiu para 94 minutos. Ao mesmo tempo teve a exigência de ser um filme em 3D, o que aumentou os custos e exigiu que a produção tivesse que pisar em ovos, mais do que já estava. O surpreendente é que, apesar de tudo isso, o resultado final ainda é impressionante. Salvo algumas cenas, é praticamente impossível notar qualquer diferença entre essa produção modesta com qualquer outra mais cara. Sem dúvida os produtores tiveram que sambar legal para conseguir manter um nível de qualidade dentro de tantas restrições, o que é outro fator admirável. Como esperado, não fez tanto sucesso quanto o primeiro, mas ao menos conseguiu se pagar com o total US$50 milhões arrecadados no mundo e agradar os fãs em geral.
A história dá continuidade ao primeiro filme e seis anos depois a garotinha Sharon/Alessa agora se chama Heather (Adelaide Clemens) e está bem crescida. Essa confusão com os nomes é explicada no filme, e nem é tão confusa assim, então ninguém precisa se preocupar com esse detalhe. Heather tem constantes sonhos bizarros envolvendo uma estranha cidade chamada Silent Hill, mas seu pai, Christopher (Sean Bean), esconde a verdade de sua origem para defendê-la e evitar que ela volte para lá. O problema surge quando A Ordem captura Christopher para usá-lo como isca. Prevendo que isso poderia acontecer algum dia, ele deixa uma carta a Heather contando suas origens e sendo enfático ao dizer que, custe o que custar ou aconteça o que acontecer, não é para ela ir a Silent Hill. Claro que ela volta para todas as revelações do título acontecerem.
É meio estranho falar do filme porque ele tem coisas ótimas e tem coisas péssimas que se equilibram bem e deixam o gosto dentro de um meio termo, que não dá pra classificá-lo como bom e nem como ruim.
A atriz principal é ótima e caracteriza muito bem a personagem do terceiro jogo, além de todos os demais elementos sombrios como os personagens bizarros, o clima macabro, sujo e até mesmo a trilha sonora característica, estarem lá. Há referências sobre os jogos o tempo todo, e isso para os fãs é como entrar numa loja de doces e poder comer de graça por uma hora. A produção de arte é caprichadíssima, favorecendo uma fotografia caótica e assustadora que mesmo bastante escura consegue ser distinguida facilmente.
Os monstros, que são os maiores inimigos e atrativos dos jogos (porque mais bizarros que eles é impossível), também são a grande atração do filme, como as Enfermeiras, o Manequim Monstro (que é fantástico!) e o retorno do Cabeça de Pirâmide, dentre outros. Seres bizarros que, nos jogos, representam a força da cidade agindo sobre os pensamentos caóticos dos personagens, e que o filme até tenta reproduzir isso quando mistura as visões da personagem com a realidade. Apenas uma cabeça brilhantemente insana para criar essas figuras que conseguiram causar o mesmo impacto dos jogos no filme. Elas são assustadoras sem precisar de muito, pois distorcem a imagem daquilo que é inofensivo, e fazem do simples se transformar em um verdadeiro pesadelo. Acho isso fantástico quando bem usados (e no filme são) porque assustar é fácil, já que qualquer ação inesperada faz isso, mas causar o medo e o assombro é difícil porque a imagem está lá o tempo todo, mas é a forma como ela é mostrada que é o verdadeiro fator impressionante.
Há sequências perturbadoras como quando os cavalos do carrossel viram pessoas, ou quando Heather entra em uma cozinha em que o cozinheiro retira um filé que não é mignon, ou o chão de cabeças. Não há como deixar de lembrar de filmes como Hellraiser, pois essa imagem criada pro Clive Barker de que o infernal e perturbador é povoado por figuras de natureza masoquista, que vivem da dor e flagelação, sempre dilaceradas, disformes, costuradas e presas em materiais enferrujados cortantes ou pontiagudos, são seguidas a risca aqui e sem parecerem cópias.
Outro detalhe MUITO importante é que tudo foi feito à moda antiga, com maquiagens reais e cenários de verdade. Com excessão do Manequim Monstro, dos efeitos em cena, e de trabalho de pós produção para dar acabamento a alguns dos seres bizarros, o uso do CG foi limitadíssimo, o que é interessante pro nível de realismo e detalhes. A certa originalidade criada nos jogos e sua forma simples de ser perturbadora são mantidas nesses dois filmes, e esse é o grande show de elementos que realmente fazem desse filme ser mais um grande diferencial nos últimos anos quando o assunto é imagens perturbadoras.
Mas nem tudo é "flores". Assim como nos jogos, a história é boa, mas o roteiro é apressado e desenvolve de forma rápida e sem passagens de tempo, fazendo tudo soar forçado. Com excessão da atriz principal, os demais atores parecem amadores, isso inclui Sean Bean, inexpressivo, caricato e extremamente desinspirado, chega a ser constrangedor. E isso é resultado da carência de uma  direção mais efetiva. Os monstros poderiam ter tido maiores participações, e não aparecido apenas em sequências bastante definidas como se fossem fases de um jogo, o que fez o filme perder o gás conforme se aproximava do fim, como se o repertório de grandes idéias tivesse acabando, exagerando até para uma ceninha de luta pra lá de desnecessária. E o pecado de sempre: personagens e acontecimentos que não trazem acrescimo algum na história ou para o mérito do filme.
As coisas boas são boas mesmo, e as péssimas infelizmente fazem o filme deixar a desejar. Também não é um filme para quem não assistiu ao primeiro ou não conhece os jogos, o que pode deixar muita gente meio perdida e achando que poderia ser melhor. Realmente ele poderia ser melhor, mas não dá pra exigir muito frente a tantas limitações.
Não assisti o filme em 3D, o que me arrependo, já que mas tem muitas pessoas por aí que assistiram e, mesmo não tendo gostado, afirmaram que realmente são bons e impressionavam, pois ele foi filmado com câmeras especiais para isso, e não adicionado em pós-produção, como vem acontecendo com vários títulos atualmente. Mas acredito que isso não era necessário, e para um orçamento tão limitado essa tecnologia podia ter sido evitada para aproveitadar o dinheiro com outas coisas. Só a sequência final de créditos já deve ter ido uns bons milhões. E quem é que vai se importar com créditos finais de filme?

CONCLUSÃO...
É literalmente uma continuação do primeiro filme e uma boa coletânea de todos os elementos que fazem da série de jogos ser aterrorizante, não no sentido de sustos, mas do espectador ficar impressionado e com medo do bizarro como raramente conseguimos com filmes de horror modernos. Junto com o primeiro filme da série, talvez seja o único a ousar esse estilo no circuito comercial, o que é uma grande pena, já que esse gênero carece de boas produções como essa tentou ser, e até consegue. Grande ponto positivo para o uso limitado de CGs, provando que o bom e velho trabalho manual de maquiadores e cenógrafos ainda é insubstituível, principalmente para filmes como esse. Para quem gosta, é um prato generoso, podia ser um prato cheio, mas não podemos reclamar muito, pois o que é que temos melhor que isso atualmente nesse estilo? Nada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

POLÊMICAS E BIN LADEN NA HORA MAIS ESCURA...

★★★★★★★
Título: A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
Ano: 2012
Gênero: Drama, Ação, Guerra
Classificação: 14 anos
Direção: Kathryn Bigelow
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Jennifer Ehle
País: Estados Unidos
Duração: 157 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os dez anos de busca e finalmente captura e assassinato de Bin Laden.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é dirigido por Kathryn Bigelow, aquela que em 2010 surgiu do "nada" com o filme Guerra Ao Terror (The Hurt Locker, 2008) e abocanhou o Oscar de Melhor Filme e Direção, entrando para a história da premiação como a primeira mulher a receber o prêmio nas duas categorias. Eu felizmente tive a oportunidade de assistí-lo pouco tempo depois de seu lançamento, ainda no começo de 2009, e sempre o considerei um filme bom e um grande concorrente antes mesmo da sua fama. Na época fiquei bastante surpreso e feliz com sua presença no Oscar 2010, já que ele só foi entrar na premiação quase um ano e meio depois do seu lançamento.

Muita gente não se conforma com isso, já que ela derrubou o favoritismo de Avatar (2009) que, por sinal, é do seu todo-poderoso-ex-marido-James-Cameron, o qual também foi responsável até mesmo por convencê-la a realizar aquele filme. Hoje em dia críticos alegam que os prêmios dados a ela foi a oportunidade que tiveram para esnobar a arrogância de James Cameron e também para dizer que a Academia não é machista, misógina ou preconceituosa, e que mesmo o filme tendo sido, a princípio, um grande fracasso de bilheteria (ele foi conseguir se recuperar apenas 1 ano depois por conta da publicidade adquirida no Oscar), ele tinha suas qualidades. E ele realmente tem.

Por isso que vale dizer que Guerra Ao Terror é um excelente filme. Ele não deve ser diminuído (como foi na época) por não ser uma grande produção (custou apenas US$15 milhões, o filme mais barato a receber o prêmio da Academia de Melhor Filme). Tecnicamente é um filme complexo, que sofreu grandes problemas de produção por conta das dificuldades de filmagem no Iraque, do perigo por toda a equipe ter trabalhado em um território hostil, além de seu orçamento limitadíssimo ao ponto de várias pessoas, tanto da equipe técnica quanto de atores, terem desistido no meio das filmagens. Mas ao mesmo tempo vários atores importantes acreditaram no projeto e fizeram questão de participar, como Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse, sem contar que o filme revelou Jeremy Renner.

O prêmio de direção recebido por Kathryn foi merecido, ela soube unir diferentes estilos de filmagem para construir um filme de poucos diálogos e cenas de ação, mas tenso, carregado de um terrorismo psicológico realista ao mostrar a vida difícil de soldados do esquadrão antibombas. Tem gente por aí que diz que ela só se tornou alguma coisa por causa de James Cameron. Que seja. Se foi com ele que ela aprendeu algo, ela soube fazer direitinho as lições de casa, e isso deve ser levado como um mérito, assim como vários outros bons e atuais diretores também tiveram grandes mentores dentro da própria família, como Sophia Coppola e Jason Reitman. E sozinha ela conseguiu fazer sua história e um currículo de filmes que a crítica diz serem "tipicamente masculinos", o que também é um grande diferencial de seu estilo.


Em A Hora Mais Escura, ela dá uma certa continuidade ao filme anterior, voltando para os territórios hostis do Oriente Médio, trabalhando novamente com o jornalista e roteirista Mark Boal, o mesmo de Guerra Ao Terror.

As polêmicas começaram logo na fase de pré-produção e a possibilidade de uma parceria partidária, já que o filme estava agendado para ser lançado um mês antes das eleições norte-americanas, o que poderia favorecer a re-eleição de Barack Obama. Isso foi negado pela distribuidora Sony, que afirmou que a data de lançamento foi escolhida porque era a época mais favorável para o gênero do filme, e até mesmo o roteirista foi a público negar qualquer parceria. Por conta dessa polêmica o filme acabou tendo lançamento limitado para críticos e para a consideração de premiações, e o lançamento público e oficial foi reagendado para Dezembro de 2012.

O filme recebeu críticas positivas e o favoritismo para a temporada de premiações foi imediato, mas outras polêmicas envolvendo o desenvolvimento do roteiro acabaram denegrindo tudo isso. O roteirista e a diretora sempre foram claros ao dizer que o filme é baseado em fatos reais e que as cenas de tortura foram feitas em cima de fontes primárias. Isso ajudou o Senado a acusar a CIA e a adminsistração de Obama de ter oferecido informações confidenciais à diretora e ao roteirista, o que colocou a própria CIA e o Departamento de Segurança a investigar se isso realmente aconteceu.


Tanto o roteirista quanto a diretora negaram a participação do governo, mas a veracidade pela qual o tema é tratado no filme convence o serviço de inteligência secreta norte-americano de que houve vazamento de informações secretas e classificadas como altamente confidenciais, o que acabou sendo bombástico para sua reputação. A CIA inclusive chegou a se reportar em público, contradizendo veementemente ao negar, sem qualquer escrúpulo, de que ela não utiliza métodos violentos de interrogatório para obter informações de seus inimigos (podemos rir dessa piada?). Há inclusive um momento no filme em que aparece uma reportagem com Obama na televisão fazendo a mesma afirmação, o que é um tanto irônico e o grande ponto de mudança do filme.

O governo agora realiza uma caça às bruxas para abafar isso, e Kathryn Bigelow e Mark Boal passam por maus bocados, já que o Governo agora exige a retratação dos fatos e a verdadeira fonte dessas informações confidenciais, o que é proibido nos EUA até mesmo sob leis de liberdade de expressão, pesquisa jornalística, ou coisas desse tipo. Parece que todos os envolvidos na produção ainda correm o risco de serem julgados e até mesmo presos se nada disso for contornado. Ou seja, é uma situação complicada e que fez com que a mídia virasse a casaca e passasse a atacar o filme. Tanto foi assim que foi uma surpresa a diretora não estar entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Diretor no Oscar 2013, o que aparenta ter sido uma medida tomada de última hora pelos membros da Academia para se absterem de qualquer partido nisso que se tornou uma guerra pública e política.


Também não é mais segredo para ninguém que o filme narra a histórica caça a Osama Bin Laden, que durou 10 anos. Mark Boal já tinha um roteiro pronto para o filme, que narraria os anos de uma busca infeliz e frustrada, que matou milhares de inocentes, colocou a economia americana e mundial em risco e que não teve sucesso algum. Mas pouco antes da pré-produção do filme ter início, Osama foi encontrado e assassinado pela CIA, e o roteirista teve que mudar toda a história. O filme também mostra a obsessão de uma agente da CIA em chegar até as últimas consequências em descobrir seu paradeiro, já que ela dedicou toda sua carreira nisso. Mostrada no filme pelo nome fictício de Maya, ela é real, mas ainda permanece disfarçada e é proibida de dar entrevistas a jornalistas por motivos de segurança. Alguns colegas que realmente trabalharam com ela afirmam que a caracterização dada pela atriz Jessica Chastain é bem próximo da realidade, principalmente a respeito da sua dedicação e temperamento.

Sem dúvida é um filme bem feito, e ao contrário do que a crítica aponta, ele não favorece a tortura. Ele apenas mostra que a tortura foi uma das atitudes tomadas pelos agentes, uma atitude desesperada até, já que a pressão sobre eles era constante e se tornou cada vez maior e mais pesada com o passar dos anos. Também não são cenas tão chocantes quanto a mídia pinta. Eu realmente assisti preparado para ver o pior, e o pior não é nem tão chocante assim, não com imagens. O choque é muito mais psicológico, porque a situação é lidada de forma bem crua, ao ponto de dar a impressão de poder sentir até o cheiro do ambiente. Não vemos chicotamento, laceração, queimaduras, nada disso... é apenas o confronto entre uma pessoa que se fortifica com a constante fragilização do outro. Em nenhum momento o filme se posiciona sobre o uso da tortura, mas ele deixa a situação duvidosa por vários momentos.


O crítico Rubens Ewald Filho acredita que se a personagem Maya tivesse verbalizado uma opinião que desaprovasse as situações, por mais curta que fosse, teria diminuído o peso sobre o filme. Mas isso não é necessário, a própria postura da personagem e seu semblante já demonstram isso a todo instante, incluindo uma sequencia em que ela mesma incita a tortura, mas logo em seguida se martiriza sozinha no banheiro pela ação extrema tomada. Portanto, sobre isso, é o que a própria diretora afirmou, o filme é duvidoso quando a própria história é duvidosa - como o uso da tortura, e acertivo quando a própria história é acertiva - como o assassinato de Bin Laden.

Na verdade o filme pode ser macro-dividido em duas partes, a primeira que mostra o uso da tortura e nenhum avanço nas buscas, e a segunda parte em que é usado a pesquisa e investigação, o que leva diretamente a Bin Laden. Por causa disso Michael Moore chegou a até ironizar, dizendo como é engraçado oito anos de tortura não levarem a nada e dois anos de investigação levar diretamente ao terrorista. Essa "mudança de planos" que ocorre no filme é outra questão que fundamenta que ele não deve ser taxado como pró-tortura. Enfim... essa questão é muito mais sensacionalismo da mídia e de críticos que assistem filmes igual fazem leitura dinâmica, apenas cinco minutos do começo, do meio e do fim, apenas para dar um parecer.

É mais um daqueles filmes lentos, que demoram pra desenvolver, além de longo. Muito longo. São 157 minutos que parecem durar o dobro pela falta de cenas mais dinâmicas e algo que realmente prenda a atenção. Mas é um filme histórico, não é um filme intencionado a descarregar adrenalina. Apesar disso, Bigelow consegue manter um clima de perigo constante ao soltar em momentos imprevisíveis os diversos atentados terroristas que ocorreram durante os 10 anos, e nisso ela tem muito êxito, pois ficamos paranóicos tanto quanto os personagens, acreditando que a qualquer momento algo pode acontecer. É ela novamente trabalhando com o terrorismo psicológico, tal qual feito em Guerra Ao Terror, em um clima que já é tenso logo quando a apresentação silenciosa do filme termina e algumas das gravações feitas entre vítimas do atentado de 11/09 são ouvidas em uma tela preta.


Embora Maya seja baseada em uma figura real e cuja participação na busca tenha sido crucial, achei a personagem bastante comum e sem uma grande participação no filme, o que é estranho. A figura na qual a personagem é baseada é tida como uma mulher determinada, chamada de "a assassina de Washington". Mas não vemos muito disso, aliás, quase nada. Pelo contrário, grande parte do filme a vemos como uma pessoa frágil, submissa, perdida, de poucas palavras. Há apenas uma cena e outra em que ela se impõe um pouco mais numa histeria desesperada, mas em definitivo não é nada que verdadeiramente justifique o favoritismo de Jessica Chastain ao Oscar, estando longe de ser um grande papel cativante como o que ela desempenhou em Vidas Cruzadas (The Help, 2011).

O filme poderia ter salvo um pouco de tempo para abordar outras situações que não foram sequer citadas como, por exemplo, o treinamento tático que os agentes tiveram em uma réplica da fortaleza de Bin Laden construída na Carolina do Norte, nos EUA, para justificar como é que o ataque foi realizado com tanta precisão, como é mostrado no final do filme, sendo uma das melhores sequências. Filmado de forma documentada, é a sequência que justifica o título original do filme, que se refere ao termo dado ao horário mais escuro da noite, às 0h30, horário no qual ocorreu o ataque (o relógio marcando esse horário pode ser visto logo no início dessa sequencia). É a única parte em que o filme é realmente escuro e que usa com excesso câmeras noturnas, mas é de uma tensão e de um tempo de filmagem preciso, em uma edição perfeitamente sincronizada, tanto que o filme tem concorrido nesta categoria em várias premiações, incluindo o Oscar. Bigelow fez questão de que essa cena fosse a mais realista possível, tanto que o tempo de ataque no filme dura 25 minutos, um pouco menos do que durou na realidade.

Em nenhum momento Bigelow apela para o sentimentalismo ou o excesso de drama. O tiro é dado na cabeça. Pronto! Não há dramatização em cima, não há trilha sonora, não há floreios. É ela agindo de forma certeira e fazendo seus personagens agirem de forma mais humana e realista possível. A bomba explodiu, tudo vai pelos ares. O foco muda e o filme continua. Até mesmo no assassinato de Bin Laden, uma cena que poderia ter sido o uso e abuso do cliché em mãos de diretores como Spielberg ou Terrence Malick, mas em nenhum momento ela faz disso um espetáculo ou um grande mérito da nação norteamericana, como é esperado. É um filme que tenta evitar partidos e posicionamentos.

Polêmicas à parte, vale ser visto por fazer um bom apanhado dos 10 anos e revelar importantes situações que são desconhecidas publicamente. A trama e os acontecimentos históricos são bem costurados ao ponto de transformar o espectador em uma parte daquilo tudo e fazê-lo pensar várias vezes "eu lembro de quando isso aconteceu" ou "eu lembro de ter lido algo a respeito disso", um espectador ativo e vivo dentro da história. O que é sempre muito interessante.

CONCLUSÃO...
Bigelow acerta mais uma vez em um filme mais tático do que de guerra, tal qual seu filme anterior Guerra Ao Terror. Aqui os grandes pontos positivos são o desenvolvimento da história, que amarra bem os fatos reais com os (possivelmente) fictícios, e o tom humano e verdadeiro da direção precisa e direta de Bigelow, sem dramatizar ou sentimentalizar demais situações em que outros diretores poderiam facilmente ter exagerado para o bem do drama. Também é um filme que coloca em discussão a polêmica do uso da força versus inteligência, e deve ser visto assim, e não como um filme que favoreça a tortura, como a mídia e críticos tem esboçado sobre ele.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PODERIA SER UMA FICÇÃO SE NÃO FOSSE VERDADE...

★★★★★★
Título: Compliance
Ano: 2012
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Craig Zobel
Elenco: Dreama Walker, Ann Dowd, Pat Healy
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma gerente de um restaurante recebe um telefonema de um policial que investiga um furto que ele acredita ter sido feito por uma de suas funcionárias.

O QUE TENHO A DIZER...
Compliance ainda é inédito no Brasil, sendo o segundo filme escrito e dirigido por Craig Zobel. O filme teve estréia no Festival de Sundance de 2012 sob forte controvérsia, pois durante sua exibição muitos da platéia deixaram a sala enquanto outra parte chegou a vaiar. Mas apesar disso, ele foi bem recepcionado pela crítica especializada e também pelo público em geral, atingindo uma pontuação de 6.5 no IMDb e de 66% no Rotten Tomatoes, o que é uma média relativamente boa para um filme independente e de baixo circuito.
Conta a história de um oficial que liga para Sandra (Ann Dowd), gerente de uma lanchonete. Ele é um dos policiais que está investigando um roubo que aconteceu dentro do estabelecimento que ela gerencia e a suspeita é Becky (Dreama Walker), uma de suas funcionárias. Ele explica que, por estar ao mesmo tempo investigando outro caso, isso o impossibilita de ir para o local de imediato, mas para agilizar as coisas ele pede para que Sandra realize alguns procedimentos regulares. Porém isso acontece numa das noites mais movimentadas da lanchonete, o que faz com que Sandra acabe delegando a função para outras pessoas, incluindo seu noivo. Porém os pedidos começam a ficar sérios, e as pessoas que ficam responsáveis por Becky estranham os procedimentos exigidos por telefone.

Se você não quer saber mais da história, então não leia o resto...

Mas obviamente que, logo que o filme começa, já percebe-se que se trata de um trote, e a questão que paira no ar é: como que Becky e as pessoas que ficaram responsáveis por ela, incluindo sua chefe, se deixaram levar pela situação sem ao menos questionarem o comportamento irregular da pessoa do outro lado da linha, ou simplesmente ter desligado o telefone e esperado uma apresentação oficial?
Bom, primeiramente, se alguém tivesse simplesmente desligado o telefone, o filme acabaria nos seus primeiros 10 minutos, e eu com certeza teria feito se acontecesse comigo de verdade, ou caso eu não fosse uma pessoa sugestionável.

As pessoas tendem a ser sugestionadas e/ou convencidas facilmente em situações estressantes, principalmente se feitas por alguém em qualquer nível hierárquico superior. Ha também o fato da maioria das pessoas serem obedientes sem questionar quando diretamente confrontadas por alguém aceito com superioridade. No caso do filme o próprio ambiente de trabalho e a situação desenvolvida é estressante isoladamente, e a obediencia frente a um superior foi respeitada por acreditarem que ele realmente fosse um oficial de polícia por conta de toda eloquência do impostor e sua agilidade em desenvolver situações que direcionassem suas vítimas a realizarem tudo que ele exigia sem questionarem ou se negarem com veemência. E lógico, tudo isso baseado na ignorância coletiva e a falta da educação questionadora, herança de uma cultura formada para obedecer, não questionar e não confrontar, como cordeiros. E talvez seja por isso que um restaurante de fast-food tenha sido não somente o cenário escolhido para o filme, mas o cenário perfeito escolhido pelo criminoso, já que o filme é baseado em casos comuns reais.

Como o próprio filme diz, foram mais de 70 casos registrados de ligações para restaurantes ou lojas de conveniência de alguém que, se passando por um oficial de justiça, pedia para que fosse realizadas revistas íntimas nos "suspeitos" ou outros procedimentos padrão da polícia. Casos como esse aconteceram nos EUA por praticamente dez anos, até finalmente levar ao principal suspeito que foi preso em 2006.

O filme é especificamente baseado no caso de Mount Washington, no estado de Kentucky, nos EUA, que ocorreu dentro de um estabelecimento do McDonald's. Segundo as descrições do caso, o filme reproduz com bastante detalhe a situação real sofrida pela atendente Kim Dockery e as três horas e meia de cárcere privado, incluindo o abuso sexual que ela sofreu pelo noivo de Donna Summers, a gerente do restaurante.

Toda a situação constrangedora sofrida por Kim foi filmada por câmeras de segurança dentro do escritório. Após esse incidente, Donna Summers foi demitida do cargo por ter violado regras estipuladas para gerentes do McDonald's, que impedem a realização de vistorias íntimas em caso de suspeitas de furto e pela autorização de entrada de pessoal não autorizado dentro do escritório. A atendente, maior vítima de todo o caso, foi transferida de local de trabalho, mas ficou em tratamento pós-traumático por três anos após o ocorrido. O noivo da gerente, Walter Nix, foi indiciado por abuso sexual, e o impostor, Dave Stewart, foi preso em 2006 por falsa identidade e sodomia. As vítimas do caso, incluindo as testemunhas que participaram de alguma forma, afirmam que houve momentos de dúvida e de que todo o processo não estava correto, mas por alguma razão, um bloqueio ou uma necessidade de cumprir ordens de um "homem que dizia ser oficial da justiça", eles acabavam seguindo adiante com a situação, com medo de que algo pior pudesse acontecer.

O McDonald's foi processado em 2007 sendo acusado de ter 50% de culpa de todo o caso, já que trotes como esse já haviam acontecido em 4 outros estabelecimentos da mesma rede em 4 diferentes estados e nenhuma providência foi tomada pela rede para alertar seus gerentes da possibilidade de reincidência. Kim Dockery recebeu mais de US$6 milhões de dólares entre danos morais e compensatórios, e Donna Summers um pouco mais de US$1 milhão. Além disso, o McDonald's também foi obrigado a pagar outros US$2,5 milhões em custos do processo.

Depois de conhecer essa história maluca, fica mais fácil de acreditar no filme e levar a sério toda a tensão e constrangimento sofrido não apenas pela vítima, mas por todos os que direta ou indiretamente participaram desse caos. O diretor e roteirista consegue manter esse clima com pouco. Os mais de 90 minutos do filme se passa inteiramente dentro de apenas um cenário e a maior parte dos diálogos ocorre entre o criminoso e a vítima pelo telefone. Seria um filme monótono, mas que são bem conduzidos pelo roteiro e as atuações, e uma trilha sonora que é tocada discretamente no fundo e que aumenta o clima da pressão psicológica da situação sem incomodar ou soar invasivo. Ann Dowd realmente está fantástica como a gerente Sandra, papel pelo qual ela recebeu grandes críticas positivas e o prêmio de melhor atriz coadjuvante pela National Board Of Review, e infelizmente a baixa campanha do filme não ajudou para que seu papel pudesse ser melhor reconhecido por outros prêmios maiores.

Talvez o grande defeito do filme tenha sido não se aprofundar melhor nas razões do impostor ter feito o que fez. Não se sabe se a razão dele ter feito isso foi por algum tipo de perversão sexual ou alguma outra obsessão, já que no caso real foram encontrados na casa do criminoso diversos pertences como uniformes, distintivos e fichas de inscrição para trabalhar no departamento local de polícia.

É um filme tenso, constrangedor e triste por mostrar como é necessário pouco para pessoas se tornarem vítimas, e que nem todo mundo é dotado de uma malícia nata para impedir que determinadas coisas aconteçam, além da inabilidade das pessoas de lidarem com pressões psicológicas.

CONCLUSÃO...
Por mais absurdo que seja é uma história que não somente é baseada em um fato real como mostra tudo com detalhes, e é necessário saber que tudo é bastante próximo da realidade para poder levar o filme a sério e admirar um bom trabalho realizado pelo diretor e roteirista, que apenas erra a mão em algumas situações que podem soar exageradas para aqueles que não souberem dos fatos, ou também por não ter deixado mais claro as razões do criminoso e se tudo é uma perversão sexual ou algum outro tipo de obsessão. Um filme independente que mais funciona pelo clima construído em cima de pouco.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A "XICA DA SILVA" DE TARANTINO...

★★★★★★★
Título: Django Livre (Django Unchained)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson
País: Estados Unidos
Duração: 165 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Django está livre e com a ajuda de um caçador de recompensas alemão ele vai atrás de sua mulher para resgatá-la das mãos de um perigoso fazendeiro.

O QUE TENHO A DIZER...
Não é uma tarefa fácil falar de Tarantino, porque o cara enfia tanta coisa em um filme só que o problema não é ficar perdido, mas admirar como é que ele consegue misturar tantas coisas de uma forma coerente que soa fantástica, mas não absurda. Enfim, ele não é simplesmente um cineasta qualquer, ele é uma enciclopédia humana do que existe do melhor e do pior no cinema, na cultura pop e na história. Talvez essa gigantesca capacidade dele de absorver coisas úteis e inúteis como uma esponja justifique a razão dele ter uma cabeça tão grande e uma excentricidade hiperativa que deixa evidente a velocidade com que aquele cabeção funciona.

Tarantino é a Madonna do cinema, já que as polêmicas e o frisson que envolvem cada novo trabalho são sempre as mesmas, o que já ocorre numa frequência injustificável que nem ele mesmo suporta mais ao ponto de, logo no começo do ano, ter discutido ao vivo com o repórter Krishnan Guru-Murthy quando este tentou indiretamente associar a violência de seus filmes com a violência real, como que tentando de forma indireta responsabilizá-lo por incentivar o comportamento violento e da insanidade coletiva frequentes nos Estados Unidos, coisa que a mídia adora fazer, culpando a ficção ao invés de culpar quem realmente é e deve ser culpado. Nesta entrevista o diretor se impôs numa postura ofensiva em um sarcasmo arrogante típico da sua persona e do seu estilo, colocando o entrevistador no lugar devido em um constrangimento seguido do outro. Isso porque Django Livre nem é o mais violento de seus sete longa metragens. Há balas voando por todos os lados, e sangue jorrando como geisers num exagero pastelão que mais causa riso do que assombro.

A grande violência mostrada é a relação brutal e desumana que os brancos tinham com os negros durante o período de escravidão, e mesmo mostrando algumas situações fortes de tortura, abusos e constrangimentos, ao mesmo tempo ele também não mostra mais do que o necessário, o foco é o confronto das situações e suas sobreposições. Por exemplo: grande parte das cenas os escravos estão bem vestidos e arrumados, no mesmo ambiente que seus donos, mas tratados como animais domesticados, porque é nessa caracterização que ele nos faz questionar porque essa diferença existia se a realidade é que não há diferença alguma?

O filme conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo rebelde que foi separado de sua mulher, Broomilda (Kerry Washington), para ser vendido na maior feira de escravos do Mississipi. No caminho ele é interceptado por por Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas alemão com ideais abolicionistas que precisa de Django para identificar três foragidos. Shultz compra sua liberdade e, sensibilizado pela história do escravo e de sua mulher, promete ajudá-lo a recuperar sua amada depois do inverno, tempo necessário para que o caçador cumpra suas missões e prepare Django para o ato final do filme.

É uma história de amor e vingança que, a princípio, Tarantino nunca contou, já que o tema principal é a relação entre Django e Broomilda. Mas isso nada mais é do que um motivo para o diretor e roteirista mudar o repertório e adentrar na sua zona de conforto preferida quando o personagem descobre que, se tornando um caçador de recompensa juntamente com seu mentor, ele terá a oportunidade de destruir todos aqueles que fizeram sua vida ser mais miserável do que já era. E assim o filme se transforma naquilo que todos os filmes anteriores de Tarantino são, a da justiça sendo feita pelas próprias mãos custe o que custar.

A vontade de Tarantindo de fazer um Bang Bang moderno, com cavalos, pistolas, botas com espora e o pastelão típico que envolve o estilo, é velha, mas ele sempre foi talhado pelos chefões. Isso não o impediu de fazer experiências e misturar esse estilo nos seus trabalhos no decorrer dos anos, como as constantes referências existentes do estilo em Kill Bill (2003/2004), ou a trilha sonora western e os personagens caricatos de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Logo, Django Livre é a concretização de um sonho antigo, que às vezes dá certo, mas por muitas outras ele erra a mão.

O filme não é ruim, mas peca pelo excesso, a começar pelos exagerados 165 minutos, que chegam a isso por conta de inúmeras sequências tarantinescas desnecessárias e a constante necessidade que ele tem de incrementar situações com piadinhas fora de hora e situações patéticas para deixar explícito que tudo que ele faz é uma fantasia do seu circo particular.

Não há como negar que ele consegue fazer isso muito bem, mas esse excesso de auto-confiança às vezes é seu maior defeito, pois essas situações são propositais para quebrarem a expectativa coletiva e são os ganchos necessários pra ele brincar com o inusitado como ele sempre faz, mas isso se torna frustrante muito mais por não serem coerentes com a narrativa e situação do momento, do que pela concretização da expectativa do espectador em si. Isso é evidente, por exemplo, na sequencia em que Django é revelado a Broomilda. O reencontro dos dois é o ápice do filme, o momento mais esperado, e a tensão nessa sequencia cresce de maneira tão natural e emocionante que de repente esse clima todo construído é jogado no lixo como uma facada no peito, numa frustração brochante tal qual a do assassinato de Hitler no seu filme anterior, um momento de igual catarse e tensão que se tornou banal e só soltou um "não acredito que o filme inteiro foi pra ser simples assim", do público.

A tentativa de Tarantino de reproduzir seus sucessos anteriores também é bem evidente, como a narrativa épica de Kill Bill, tanto que há diversas sequências muito similares entre os dois filmes, só mudando o sexo do personagem principal e colocando uma pistola no lugar da katana. O mesmo pode ser dito sobre a cena do jantar, em que Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) realiza um discurso no mesmo tom perverso ao de Hans Lanza em Bastardos Inglórios, um deja vu que teria sido muito apropriado se não fosse tão recente. Sem falar no teor "gangsta" e a cultura negra que sempre foram presentes desde Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), Pulp Fiction (1994) e o estilo blaxploitation de Jackie Brown (1997).

Essas similaridades do filme com os anteriores fizeram fãs divulgarem massivamente a teoria de que todos os filmes do diretor se passam dentro de um mesmo universo e que há relacões diretas que ligam uns aos outros. Mas segundo o próprio Tarantino sobre o filme, a construção, o desenvolvimeto e a narrativa de Django é muito similar ao de Bastardos Inglórios, e por isso, sem querer, ele se viu dentro de uma idéia de uma trilogia de vinganças históricas que irá se completar com seu próximo filme, que ainda não tem título ou data de produção, mas que a idéia existe e que talvez se passe durante a invasão da Normandia, o Dia D. Talvez seja por isso que a sensação de "eu já vi essa cena antes" seja bem recorrente nesse filme.

Os personagens são bem construídos e os atores bem caracterizados. Leonardo DiCaprio está bem convincente como o vilão, mas Tarantino fez escola quando criou o personagem Hans Lanza para Christoph Waltz, que foi o responsável por dar uma caricatura ao personagem que posteriormente virou referência para a construção de outros como Charles Rakes (Guy Pearce) de Os Infratores (Lawless, 2012) e até mesmo Raoul Silva (Javier Bardem), de 007: Operação Skyfall (Skyfall, 2012), personagens bastante similares e igualmente brilhantes. Mas esses vilões com sexualidade duvidosa, que agem com delicadeza para atrair a simpatia do espectador para depois surpreendê-los com a perversidade oculta, agora mostra sinais de cansaço com DiCaprio. O ator Christoph Waltz, que agora faz um personagem do lado dos mocinhos, é de longe um dos mais interessantes, juntamente com Samule L. Jackson, que só vai aparecer mais no final do filme no papel do negro racista, o Sr. Stephens.

Mesmo cansativo e cheio de momentos frustrantes, Django tem lá as qualidades natas do diretor, como os enquadramentos perfeitos das cenas, posicionamento de atores e toda a perfeição cenográfica que ele faz questão, além do dinamismo de filmagem referente aos clássicos japoneses que ele nunca escondeu ser um grande admirador, ou o estilo "pastiche mexicano" que também é uma forte referência no seu estilo. Sem contar que o roteiro é sempre o grande trunfo das suas produções, já que ele não é somente um roteirista, mas um autor que preza pela construção de personagens e diálogos inteligentes que são sempre a atração principal do grande mundo sarcástico que ele vive... o grande problema são as páginas extras desnecessárias.

CONCLUSÃO...
Novamente digo que não é um filme ruim, mas o excesso faz ele ser frustrante diversas vezes numa narrativa que a princípio começa muito bem, mas da metade em diante parece desandar e desenvolver aos tropeços, perdendo a identidade e não sabendo onde se colocar. Está longe de ser um dos melhores filmes do diretor, e Django nada mais é do que um punhado de cenas e sequencias que Tarantino já fez nas suas últimas produções e que poderia soar nostálgico se não fossem tão recentes.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"O SOL NASCE EM MOONRISE KINGDOM"...

★★★★★★★★
Título: Moonrise Kingdom
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Wes Anderson
Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Bob Balaban
País: Estados Unidos
Duração: 94 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal de adolescentes apaixonados fogem da pequena cidade de New Penzance para refazer o mesmo caminho de migração de colheita de uma antiga tribo, colocando a pequena população da cidade em polvorosa, ao mesmo tempo que se transforma em um grande acontecimento em um lugar onde nada interessante acontece.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido e produzido por Wes Anderson, e o roteiro original é escrito por ele em parceria com Roman Coppola, filho de Francis Ford Coppola, com quem ele já havia trabalhado anteriormente em Viagem A Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007).

Juntamente com Os Excêntricos Tenembauns (The Royal Tenenbaums, 2001), é o filme mais lucrativo e de sucesso nos cinemas de Wes Anderson. Custou US$15 milhões e arrecadou mundialmente mais de US$65 milhões. O que é um fato bastante estranho para um diretor de 44 anos e com sete longas metragens no currículo, incluindo a elogiada animação O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox, 2009), que foi praticamente ignorada pelo público naquele ano e pelo Oscar, perdendo a estatueta pelo bom, mas não melhor, Up - Altas Aventuras (Up, 2009).

Ele também é conhecido por suas parcerias, como a com o ator Owen Wilson, que já atuou e também colaborou com o roteiro de vários outros títulos, incluindo o próprio Tenembauns, com o qual concorreram ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2002, perdendo para o filme de Robert Altman, Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001). Ou também a parceria com os atores Bill Murray e Angelica Houston. É um diretor muito bem quisto no meio, sendo por vezes comparado a diretores, seja pelo visual ou pela condução das histórias, como Tim Burton, Michel Gondry, Spike Jonze, Tarsem Singh e até mesmo os irmãos Cohen.

Moonrise tem uma história um pouco diferente de seus filmes anteriores, já que é uma dramédia romantica que trata do amor entre dois jovens que estão entrando na adolescência e são apaixonados um pelo outro por conta de suas particularidades e excentricidades em comum, além da constante curiosidade por coisas que ninguém tem interesse e a vontade de explorarem juntos um mundo fora do que existe na pequena cidade onde moram. E assim eles fogem com o intuito de refazer um caminho que era realizado por uma tribo antiga durante o período de colheita. O desaparecimento dos dois coloca a cidade de pernas para o ar, e ao mesmo tempo se transforma em um inusitado acontecimento que também se transformará em um grande espetáculo por conta de uma forte tempestade que se aproxima da ilha onde vivem.


Anderson é conhecido por suas cenas visualmente interessantes e pela coerência de uma estranha mistura cenográfica que foge do perfeccionismo, colocando seus personagens em situações estranhas e cômicas numa alienação do comportamento convencional. Ele faz isso para intensificar o incomum e trazer do idílico para a realidade (e vice-versa) de que o imperfeito faz parte daquilo que é mostrado e também do nosso próprio cotidiano. E esse filme é novamente o diretor brincando com o diferente e o esquisito. Há sempre elementos nas cenas que se destacam e que quebram a perfeição e homogeneidade, como uma marca, ou um defeito, que simboliza essa metáfora de que o diferente não deve partir dos olhos de quem vê, mas de que está lá o tempo todo e é comum.


Assim como todos seus filmes anteriores, tudo se passa em um mundo fantástico onde há sempre uma contradição não apenas nos cenários, mas também nos personagens. Aqui os personagens infantojuvenis agem como uma metáfora do comportamento adulto, mas por um ponto de vista ingênuo do amor, do medo e do companheirismo. Ao mesmo tempo vemos adultos que já perderam a ingenuidade agindo como crianças por pura ignorância. Também temos personagens de bela aparência com comportamentos transviados e personagens com aparências estranhas tendo atitudes comuns. É como colocar o menino com o tapa-olho no meio dos desmais escoteiros em seus perfeitos uniformes; ou em um outro momento, em que os personagens principais vão para um lugar isolado para conversar e de repente um menino começa a pular em uma cama elástica; ou a estranha casa na árvore; ou a relação romântica, porém crua e nada melosa dos personagens. É a forma de Anderson quebrar com os padrões, e ao mesmo tempo fazer o espectador ser obrigado a mudar o foco de atenção sem se dispersar, apenas para prestar atenção nos detalhes. É exatamente o que o personagem principal faz quando começa a explicar todos os instrumentos utilizados em uma música orquestrada. Ou seja, expandir a visão limitada para que ela dê atenção ao belo que é pouco visto, e o belo não significa ser perfeito.


O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, mas novamente não será o favorito, assim como é mais um filme do diretor esquecido em outras categorias. Talvez seja seu melhor filme até o momento por ser a junção de todas as excelentes qualidades que ele colecionou e fez disso um estilo único ao longo da carreira. Também há uma certa e interessante semelhança entre a relação construída dos personagens com os da comédia romântica O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook, 2012). Nem por todas suas grandes qualidades é um filme que se abstém de defeitos, mas não são defeitos técnicos, muito menos da direção perfeccionista e de um roteiro sem tropeços ou buracos, mas defeitos nossos por não estarmos acostumados a assistir filmes como esse.

CONCLUSÃO...
É uma história de amor inconvencional, em um filme inconvencional, de um diretor inconvencional, para um público que esteja aberto ao inconvencional.
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