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domingo, 22 de janeiro de 2017

TER CIPÓ GRANDE NÃO GARANTE...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: A Lenda de Tarzan (The Legend Of Tarzan)
Ano: 2016
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: David Yates
Elenco: Alexander Skarsgard, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou
País: Reino Unido, Canadá, Estados Unidos
Duração: 110 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Tarzan, agora civilizado, volta à selva do Congo com Jane para cumprirem um convite do Rei, mas o convite era uma emboscada.

O QUE TENHO A DIZER...
O diretor David Yates se destacou com os quatro últimos filmes de Harry Potter, e depois do sucesso de Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts And Where To Find Them, 2016), ele foi anunciado como responsável pelo exagerado número de quatro continuações que este título terá. Um exagero hollywoodiano como também é este novo filme de Tarzan.

O filme não é um reboot e nem uma continuação, mas uma mescla dos dois. A história começa com Tarzan já civilizado e influente na sociedade, morando em Londres sob sua identidade verdadeira, John Clayton. Interpretado pelo ex-True Blood, Alexander Skarsgard, o passado de Sir Clayton se tornou uma lenda, e ele é como uma celebridade por onde passa, principalmente entre as crianças. Há até livros ilustrados com histórias fantásticas sobre Tarzan, mas Sir Clayton quer se distanciar desse passado, até que um convite do Rei Leopold para voltar ao Congo tenta arrastá-lo de volta.

Convencido por George Williams (Samuel L. Jackson), que quer aproveitar a ocasião para confirmar boatos de que o desbravador do Rei, Leon Rom (Christoph Waltz), tem usado trabalho escravo, Sir Clayton aceita voltar à sua antiga terra natal, e junto, entre birrinhas, bateção de pé e bico derrubado, Jane (Margot Robbie) consegue convencer Sir Clayton de ir junto.

Ao chegarem na tribo onde Jane viveu com seu pai, quando este dava aulas de inglês aos nativos, não demora muito para serem atacados pela equipe de Leon, e muito menos para descobrir que eles cairam em uma cilada. Leon quer capturar Tarzan para entrega-lo a Mbonga (Djimon Hounsou), chefe de uma tribo, em troca de diamantes que essa tribo protege.

Basicamente a história é essa e, entre um momento e outro, flashbacks acontecerão para justificar o passado de Tarzan. Desde como ele ficou órfão, até como conheceu Jane.

Realmente não há como não se emocionar em vários momentos, sejam nos flashbacks sobre a vida nativa do herói ou no presente da história em meio a paisagens e cenários deslumbrantes, num excesso de verde tão vívido que chega a nos engolir para dentro da tela. Há um excesso de capricho tão grande nesta produção que visualmente se torna impecável. Dos efeitos especiais, até nas dezenas de figurantes que aparecem, belíssimos em sua maioria. O resultado de tudo são fotografias de tirar o fôlego.

Mas no resto a situação é manjada, e conforme a história progride, mais cliché ela fica. Tarzan é um herói da selva, mas ele é tratado no filme como um super herói invencível. E na proposta que o filme a princípio parecia ter, de levar as situações de maneira um tanto mais realista, de repente tudo começa a ser encenado no meio de uma sequência de absurdos. Como no momento em que ele e sua turma mergulham em um mar de árvores, e atrás vai o quase idoso George, que mal aguentava correr. Logo em seguida eles se jogam em cipós para alcançar um trem. Só que o bizarro dessa situação um tanto Homem-Aranha de ser é que os cipós parecem não ter fim. Tudo bem que se está no Congo, mas nem lá os cipós são tão grandes assim, né?

E a partir daí aquele festival de absurdos que Hollywood adora vira o centro das atenções, chegando no ápice da ridícula batalha entre Tarzan e seu irmão gorila. Mesmo Skarsgard ter se preparado para o filme em dieta e uma rotina de treino que ele afirmou terem sido torturantes para chegar no nível atlético do personagem, é inaceitável acreditar que Tarzan não teria sido arrebentado ao meio na primeira porrada nas costas de um gorila três vezes maior que ele. Ao menos Tarzan sai como perdedor, mesmo que sem um osso quebrado, só com um arranhãozinho aqui e alí. E no dia seguinte ele tá ótimo para enfrentar Leon.

O austríaco Christoph Waltz se revelou ao mundo quando interpretou o vilão Hans Landa em Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009), de Tarantino. De lá pra cá a lista de vilões só cresceu, e Leon Rom é mais um para sua coleção. Embora Waltz seja um ator impecável, parece que estamos um pouco cansados de seus vilões e artefatos únicos que ele adere em cada um para dar características únicas que facilmente os diferencie um dos outros. Aqui ele usa um cordão mortal feito com seda de aranha, numa habilidade tão grande que parece Shun com suas correntes, em Cavaleiros do Zodíaco. O nível de perversidade do vilão também não é novidade, embora, como dito, Waltz consiga caracterizá-los numa habilidade tão única que eles não conseguem ser iguais, mesmo que com personalidades similares.

Mas é aquilo... colocá-lo no papel de vilão está na mesma zona de conforto na qual o filme fica o tempo inteiro, assim como ter Samuel L. Jackson para dar os alívios cômicos um tanto pastelões, Jane ser a mulher destemida e determinada e Tarzan um incrível galã romântico.

É um filme tipicamente familiar e dentro de fórmulas manjadas para agradar desde os fãs de Transformers até a vovozinha que um dia já ficou louca com o Tarzan de Christopher Lambert na década de 80. Mas nada satisfatório para aqueles que esperavam um avanço melhor na abordagem da história, uma versão que nem precisava ser mais adulta, mas que se mantesse fiel a um nível de realidade mais próximo.

Como tudo hoje em dia tem sido "super-heroizado", algo mais humano e menos fantástico, principalmente de um herói que originalmente é mais humano e menos fantástico, teria sido bem vindo.

CONCLUSÃO...
No resultado, Tarzan consegue ser um filme até divertido, com poucos momentos empolgantes e sensível em pequenas doses, mas em nenhum momento evita aquela sensação previsível que todas as adaptações do herói igualmente tiveram antes. É muito mais visualmente deslumbrante do que um entretenimento eletrizante.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

UM LINDO ENGANO...

★★★★★★★★★★
Título: Capitão Fantástico (Captain Fantastic)
Ano: 2016
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Kathryn Hahn, Steve Zan, Frank Langella
País: Estados Unidos
Duração: 118 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma família que mora isolada no meio das florestas de Washington de repente precisa sair de seu mundo paradisíaco para mergulhar em outro desconhecido. Ao pegarem a estrada para salvar a falecida mãe de um enterro indesejado e realizar seu último desejo, assim como ela deixou em seu testamento, um pai e seus seis filhos serão testados naquilo que é ser uma família, ou naquilo que acreditavam ser.

O QUE TENHO A DIZER...
Imagine crescer tendo aulas de ciências humanas, biológicas e exatas para compreender a vida. Saber artes marciais para auto-defesa e a usar os mais diferentes tipos de armas brancas para poder caçar sua própria comida. Ou conseguir escalar montanhas e árvores, e ter resistência física de atleta para fugir com sucesso de eventuais perigos. Também ter conhecimentos avançados de medicina para se recuperar de um imprevisto, ou botânica, para poder se alimentar daquilo que seja comestível dentre tantas que não são. Conhecer todos os mais diferentes filósofos que já existiram no mundo e já ter lido mais livros do que uma pessoa de meia idade leu em sua vida na cidade, lhe dando conhecimento suficiente para desenvolver seu caráter sem influências externas diretas. E no fim de tudo, ser um brilhante ser humano.

É o que acontece com Ben Cash (Viggo Morthensen) e seus seis filhos. Uma família naturista e erudita, que vive no meio das florestas de Washington desde quando Ben e sua mulher, Leslie (Trin Miller), resolveram abandonar a vida urbana, cosmopolita e consumista para buscarem uma melhor qualidade de vida fora de todo esse caos. Dessa forma eles teriam condições de estarem completamente presentes da vida de seus filhos, viverem exclusivamente em função deles com uma qualidade de vida própria e melhor que muita gente da cidade.

O resultado é um cenário em perfeita hamornia e coexistência com a natureza, onde qualquer pessoa imaginaria passar suas férias de verão. A maneira de viverem é tão simples e funcional que se torna mágica e ritualística, como no início do longa, ou quando seus filhos são vistos correndo pelas matas numa inesgotável energia e felicidade enquanto argumentam sobre teorias políticas e analisam capítulos de clássicos literários da filosofia em meio a canções improvisadas com os instrumentos que possuem.

Só que agora Leslie não está mais com eles. Diagnosticada com um tipo de transtorno bipolar grave, precisou sair do conforto de onde morava para ser internada e abandonar a vida bucólica e produtiva que tinha com sua família, até finalmente cometer suicídio. Sua morte será a responsável pelo choque de realidade que a família de Ben irá sofrer, pois os pais de sua falecida mulher, além de o acusarem de destruir a vida de Leslie, desejam realizar o funeral e enterrá-la dentro dos modos cristãos, enquanto ela, por ser budista, havia determinado em seu testamento que fosse cremada.

É então que, de um filme familiar e bucólico, Capitão Fantástico se transforma em um road movie por excelência, tão engrandecedor quanto é a jornada de Olive em Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), trocando-se a Combi velha por um antigo ônibus adaptado para ser um motor home, e cuja missão principal será chegar à tempo no funeral para salvar a mãe do enterro.

É durante toda essa longa viagem que grande parte dos conflitos e descobertas surgirão, principalmente porque será a primeira vez que os filhos de Ben entrarão efetivamente em contato com a sociedade da qual tanto quis protegê-los. Ele sabe que seus filhos estão preparados a tudo, já que estudaram e aprenderam incansavelmente sobre a cultura e a sociedade urbana de todo o mundo. A única coisa que ele não esperava é que a prática seria completamente diferente e que o excesso de proteção iria trazer a eles um interesse muito maior pelo mundo afora, como ficarem eufóricos ao saberem que no cardápio de um restaurante há cachorro-quente, milkshake e batata frita, ou lugares chamados de Universidades.

O diretor e roteirista, Matt Ross, afirmou que se baseou em um questionamento pessoal de como seria criar seus filhos longe das influências de uma sociedade moderna e tecnológica como é atualmente, além de algumas próprias experiências que teve na infância ao viver com seus pais em uma comunidade alternativa. Há um momento no filme em que é dito que, talvez, a família de Ben seja uma das últimas a experimentarem esse estilo de vida nativo. Talvez seja verdade, já que até os índios nativo-americanos estão em extinção. E o fato é que, querendo ou não, o que Ross criou não é apenas um questionamento sério sobre bases familiares e até onde vai os limites da constante influência dos pais sobre os filhos, mas também uma grande crítica social e anti-americana. Mas veja bem, ele faz tudo sem ser cacofônico ou pedante. Ao contrário disso, o filme é bastante inspirador e ousado.

Mesmo sendo filmes com enredos completamente diferentes, estruturalmente a quantidade de referências autobiográficas se misturam tão bem com a ficção que a atmosfera, de certa forma, tem o mesmo sentimento honesto e inocente de Quase Famosos (Almost Famous, 2000), filme de Cameron Crowe que também mistura ficção e suas próprias experiências pessoais antes de se tornar jornalista e crítico de música. No caso de Capitão Fantástico, as referências vão mais além, seja através da filosofia clássica, seja da cultura popular: de o Mito da Caverna, de Platão, até Tarzan, de Edgar Burroughs. As metáforas são as mesmas. E as sementinhas plantadas nas cabeças dos mais céticos e cosmopolitas também.

Ross realmente consegue resgatar um modo nativo-americano de vida e adaptá-lo aos dias atuais e à cultura moderna, questionando se isso seria possível nos dias de hoje. O grande medo do protagonista, e de seus filhos, é de o pai ser preso por todos viverem livremente no país. Embora a Constituição o preserve de várias maneiras, há diversas leis que proíbem e incriminem sua atitude de viver com sua família de maneira tão primitiva, principalmente com seus filhos menores de idade. Seria muito simples perder a custódia deles, ou acusá-lo de diversos crimes de abuso infantil (como seu sogro tenta fazer) por andarem armados, ou estarem expostos a constantes situações de risco. Ele faz nada além de viver com seus filhos dentro de uma cultura própria e nativa, mas por ser um cidadão cosmopolita registrado, não importa como faça, será sempre tratado como um. Então, dizer que Estados Unidos é um país livre e democrático, nessa situação, soa um tanto contraditório na realidade dos personagens.

Sabemos das intenções de Ben, compreendemos que ele, como pai, conseguiu exercer uma função educacional e familiar mais sólida e grandiosa do que qualquer família moderna. Mesmo havendo uma rigidez disciplinar praticamente militar, nem por isso seus filhos deixaram de ter suas fases desrespeitadas. As crianças ainda são crianças lúdicas, mas que não vivem em um mundo fantasioso e aliennate; os adolescentes ainda adolescentes, com vontades e curiosidades; e os jovens adultos tratados como tal em seus deveres e responsabilidades. Cada um deles uma grande e positiva contradição àquilo que é maioria das famílias norte-americanas. Mas pelo ponto de vista legal, Ben seria um alvo certeiro da Assistência Social e do infundado julgamento social.

É quando seus filhos se deparam com outras pessoas que o choque cultural é explícito, como quando todos perguntam se as pessoas em uma lanchonete estão doentes, já que todas são obesas. Embora uma situação cômica, Ross não teve intenções de tirar sarro de pessoas gordas, mas de criticar o modo de vida sedentário, oscioso e mal organizado da cultura norte-americana, coisas que não fazem parte da realidade da família de Ben. Há também o momento em que Bo (George MacKay) se encontra pela primeira vez com um grupo de garotas e não consegue dizer uma palavra sequer porque tem conhecimendo da dificuldade de comunicação e do sofrimento que é para ele não conseguir se relacionar com diferentes níveis intelectuais justamente por não ter o hábito do convívio social. A visita a um dos familiares também resume a dificuldade de comunicação e interação entre a família de Ben e os demais: a vida alienante versus a vida produtiva.

Enfim, pessoas que falam a mesma língua, mas não se entendem.

Então o julgamento social começa a tomar forma. Tachados de hippies, loucos, estranhos e esquisitos por não serem adequados numa sociedade (chamada) "civilizada", a qual, quando comparada com a família de Ben, de civilizada há nada. Até mesmo quando realizam um furto organizado. Ao invés de ser chocante e de difícil aceitação para alguns, analisando a situação no contexto do filme, a atitude passa longe de um ato criminoso, mas a concretização de um pensamento e da manutenção de uma filosofia de vida que tenta fugir do controle do consumo, tal qual querer substituir a comemoração do Natal por um outro dia fantasioso qualquer, como o dia de Noam Chomsky, uma data comemorativa que Ben resolve criar para homenagear a existência de um dos mais importantes filósofos, cientistas, historiadores, críticos sociais e ativistas políticos ainda vivos nos Estados Unidos.

Oras, qual o problema de acreditar em outras coisas e ter ideologias diferentes daquelas que a sociedade comum e urbana cresceu condicionado?

Mas se por um lado tudo parece ser um ideal fantástico, por outro a realidade se mostra bastante diferente, onde manter sua família presa em uma floresta agora aparenta apenas um ato egoísta, uma fantasia de ultra proteção na qual nenhum deles teve oportunidade de escolha, que tudo se mostra como meros devaneios tolos, ou, como o próprio protagonista diz: "um lindo engano". Ben se dá conta de que, acima de tudo, não existe uma fórmula perfeita para criar e proteger seus filhos do mundo, e que o excesso de proteção pode se tornar o mais perigoso inimigo. Por mais que o ambiente onde viviam pudesse lhe fornecer o necessário, seus filhos não poderiam ficar longe da vida urbana para sempre porque as experiências são necessárias, e a tal fórmula estará dentro de cada um para encontrar. A moral é que ninguém está errado, e só se torna errado aquele que tenta impedir, proíbir ou coíbir o direito de escolha.

Pelo seu título, Capitão Fantástico não é um filme de super-herói, mas ainda de um herói que muita gente se esquece, o da figura paterna.

CONCLUSÃO...
Capitão Fantástico é um dos filmes mais inspiradores de 2016, que consegue plantar a semente da dúvida sobre a forma como vivemos, que nos mostra que a escolha é essencial para nosso caráter, e que conhecimento nunca é demais, mesmo quando percebemos que de tudo que sabemos, nada sabemos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

MENOS SERIA MAIS...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Westworld
Ano: 2016
Gênero: Drama, Ação, Suspense, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Ed Harris, Anthony Hopkins
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um parque temático populado por androides constantemente recebe visitantes capazes de pagar os mais altos preços para satisfazerem suas fantasias sem limites ou consequências.

O QUE TENHO A DIZER...
Westworld pode soar uma grande novidade para o público atual, mas poucas pessoas sabem que o novo hit da HBO é baseado no filme homônimo escrito e dirigido por Michael Crichton, de 1973.

Crichton, para quem também não sabe, é o poderoso criador de outro parque, o Parque dos Dinossauros (Jurassic Park), adaptado para os cinemas por Spielberg em 1993 e que elevou mais ainda o status do autor. Na televisão também foi responsável por outro hit ao criar Plantão Médico (E.R., 1994-2009), mas no cinema nunca mais conseguiu o mesmo êxito. Faleceu em 2008, quando a quarta continuação da franquia dos dinossauros estava em discussão, o que levou a suspensão do projeto, retomado anos depois como Jurassic World (2015).

Não é à toa que o filme original de Crichton, onde os personagens de um parque são andróides que se rebelam e começam a matar seus visitantes humanos, tenha servido de inspiração para muitos filmes, incluindo os cult classics Blade Runner (1982), Exterminador do Futuro (1984), Matrix (1999), ou até o atual Ex-Machina (2015), quando partimos do contexto da evolução das máquinas e sua emancipação do poder humano. Todos esses filmes, obviamente, usam como referências as teorias de Alan Turing e as ficções de Isaac Asimov.

Óbvio que a série se inspira em tudo isso para tentar ir mais além, além de ter outros nomes de peso, como ter sido co-criada e escrita por Jonathan Nolan, irmão de Christopher Nolan. Só por isso já podemos imaginar que o enredo, antes simples, agora terá alguns níveis a mais de complexidade porque esse é seu estilo desde suas parcerias com seu irmão. E para ajudar nesse quesito, há co-produção de J.J. Abrams, que ficou famoso pelo seriado de absurdos e que testava a paciência do espectador, chamado Lost (2004-2010).

E o exagero é o que se percebe logo no primeiro capítulo, com uma das aberturas mais longas da HBO (aproximadamente 2 minutos), pois é ela quem resume o enredo do seriado sobre um mundo onde tudo é falso e fabricado, sem alma ou definição. Assim, toda vez que o espectador assistir um novo episódio, a função da abertura está lá, de relembrá-lo que tudo é uma farsa.

O Parque de Westworld, moderno, em um futuro qualquer, agora tem um nível muito maior de interação do que no seu início, sendo um gigantesco jogo com tramas, subtramas e missões a serem completadas para o ganho de recompensas ou bonus, tal como um jogo de video game no estilo chamado "mundo aberto" (open world), onde o jogador pode interagir ou não com os personagens e concluir missões de acordo com seu interesse, sem precisar seguir uma ordem pré-estabelecida. A diferença é que, em Westworld, o jogador é o visitante do Parque em pessoa, e os anfitriões são os personagens do jogo, cada um exercendo sua função na história, que precisa ser engatilhada com um comando assim que uma ação se reinicia (looping), como pegar a lata do chão todas as vezes que Dolores a derrubar, ou ajudar o pobre velho todas as vezes que ele cair da carroça.

Para os amantes de video game, por muitas vezes assistí-lo será como estar no cenário de jogos Western como Red Dead Redemption (nos consoles), ou Six Guns (nos celulares). Jonathan realmente pegou as principais estruturas dos jogos desse gênero e transferiu para a linguagem cinematográfica de maneira acessível, mas bastante simplória quando comparada com a experiência que David Chronemberg oferece em seu filme eXistenZ (1999), muito mais completa e detalhista.

A série, ao contrário, não detalha tanto as ações que diferenciam humanos de andróides porque ela quer que o espectador esqueça disso e acredite que todos sejam uma coisa só, pois a intenção do seriado é enganar até que se prove o contrário. E enganar nem sempre é a mesma coisa que surpreender, algo que muito acontece ao longo dos episódios.

O desenvolvimento da história extrapola os limites do necessário quando o roteiro desconstrói a narrativa apenas para demonstrar um nível de complexidade que a história não tem.

A temporada de estréia já começa confusa demais logo no primeiro episódio, com incógnitas desnecessária aos montes. Os roteiristas não querem dar nenhuma resposta, só perguntas. Perguntas que ficarão suspensas para nos manter assistindo. Elementos enganosos para distrair o espectador, fazendo-o perder tempo à toa para tentar compreender uma complexidade exagerada que nada significa. O que fazem com o roteiro é um artifício manjado para entreter. É pegar uma história linear e inverter ordens dos fatos. Para o espectador comum, essa construção pode parecer genial, mas não é. Na verdade, esse tipo de narrativa muitas vezes é como mágica barata, e você só acredita que é bem feita porque não prestou atenção.

Algumas tramas só começam a fazer um pouco de sentido lá pelo quarto episódio, quando já estamos um tanto cansados de idas e vindas, e nem mais assistimos porque estamos curiosos, mas porque queremos simplesmente chegar ao fim.

Depois de muita masturbação mental desnecessária, finalmente descobrirmos como certas coisas funcionam na história. Aí, sim, Westworld entretém e se transforma em uma série apreciável, com personagens interessantes, até mesmo aqueles que não pareciam ser. Quando a história relaxa dos absurdos e da desconstrução, as tramas e subtramas finalmente aparecem com consistência, como é o caso das histórias da prostituta Maeve, do diretor Bernard e do empresário William. Este último, uma das histórias mais interessantes, mas que no meio de tanto entroncamento e confusão, infelizmente não oferece o impacto que deveria ter.

É evidente o quanto as histórias se arrastam desnecessariamente para um último capítulo que só existe para ser um monólogo explicativo, um manual de instrução tardio de todos os episódios anteriores que deixaram espectadores com cara de paisagem no ar. O final, entre filosofias "nolanescas" e algumas frases de efeito, foi como um "OU SEJA" na história: dar uma nova explicação para aquilo que foi mal explicado antes. E no começo da série, quando tudo tentava nos convencer de que o fim seria espetacular, nem surpreende tanto assim.

Bagunçar algo que é simples fez os roteiristas perderem o foco e a história perder seu enredo principal. A idéia é boa, mas a execução é infeliz. E ao invés de assistirmos um jogo de sobrevivência e descobertas, parece que vemos um jogo de plataformas do Atari, subindo escadas sem chegar a lugar algum. Há um momento na história que cogitam a possibilidade de reformularem as atrações do parque porque tudo está complexo demais para visitantes que procuram algo mais simples. É exatamente a sensação que o seriado passa, algo complexo demais para espectadores que precisavam de algo mais simples. 

Apesar de tudo, ainda é algo para ser consumido sem grandes expectativas. E se o espectador for despretencioso o suficiente, irá se divertir porque o nível de produção é impecável, e conquista pelos olhos, como toda produção da HBO é. Westworld não fica nenhum pouco atrás de Game Of Thrones nesse quesito, nem nos cenários, nem no design. A trilha sonora original, de Ramin Djawadi (o mesmo de Game) eleva uma atmosfera fictícia tão eficiente quanto a dos filmes já citados e que tratam do mesmo tema, engrandecendo cenas e intensificando propósitos de algumas sequências.

Amando ou odiando Westworld, é impossível não deixar de fantasiar com tudo. Assim como imaginar o que fazer sozinho em um Shopping Center, muita gente ficará presa na fantasia do que iria fazer em um Parque onde o limite é sua própria vontade. Uma pena que o seriado não abraça ou conquista essa idéia com seu público, e essa sensação fantasiosa demora alguns pares de episódios para brotar no imaginário. Se os roteiristas tivessem se preocupado mais em primeiro conquistar o público, trazendo-o para dentro desse universo, do que já querer impressionar logo de cara com uma enxurrada de eventos sem sentido, a apreciação seria diferente. Deveriamos ter sido apresentados ao Parque, às suas atrações, aos personagens que fazem parte dele, e assim entrar nessa fantasia ao ponto de querermos fazer parte daquilo. Aí, sim, a história seria mais impressionante e assustadora do que tenta ser, e as tramas tomariam uma forma muito mais consistente.

Seria um começo similar ao de Parque dos Dinossauros, mais adequado e menos caótico, já que, no fim, a moral dos dois trabalhos de Crichton é a mesma.

CONCLUSÃO...
Nem sempre complicar e desconstruir um roteiro ou uma história oferece resultado inteligente, apenas dá uma falsa impressão de grandiosidade e complexidade. É o que acontece com Westworld, que é uma produção impecável e apreciável, mas poderia ter sido melhor desenvolvida caso tivesse seguido uma construção mais simples. Os mistérios teriam continuado o mesmo, o suspense teria sido eficaz da mesma forma, e no fim nada teria sido tão detalhadamente explicado como foi.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

NÃO VALE O PREÇO DA PASSAGEM...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: A Garota do Trem (The Girl On The Train)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Edgar Ramirez, Justin Theroux
País: Estados Unidos
Duração: 112 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma garota que faz o mesmo trajeto de trem diariamente de repente percebe que os personagens de sua paisagem predileta não são tão perfeitos quanto imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
A Garota do Trem (2015), de Paula Hawkins, por incrível que pareça, se assemelha em vários aspectos com Garota Exemplar (Gone Girl, 2012), de Gillian Flynn, publicado 3 anos antes e igualmente um best-seller adaptado ao cinema em 2014 por David Fincher. A começar pela narrativa em primeira pessoa. Depois vem a estrutura, na qual os capítulos também são divididos por dias, como se fosse um diário, embora não seja. E por fim, além da trama central ser parecida, há o desenvolvimento enganoso dela, que tende a nos levar para caminho algum até um ápice revelador inesperado.

Só que existe uma coisa que diferencia bastante um do outro: a qualidade.

É inegável que o texto de Flynn seja melhor escrito. Há uma maior densidade e fluidez, além de que a trama de Garota Exemplar conquista a atenção do leitor desde o princípio, e a reviravolta que a autora faz exatamente no meio da história consegue ser surpreendente.

Já no caso de Hawkins as coisas não são bem assim. O livro nunca conquista porque ele se arrasta em narrativas pessoais sobre o cotidiano de três mulheres, incluindo a protagonista depressiva e alcólatra, Rachel. Um cotidiano chato, que não tem atrativo, no qual todas as personagens passarão a maior parte do tempo lamuriando sobre suas vidas conjugais, algo que também ocorre em Garota Exemplar com consistência. Pode ser um problema da tradução, mas a escrita é bem simples e repetitiva, principalmente quando é descrito sensações pessoais que dificilmente saem de adjetivos como: nauseante, enjoada, trêmula, pálida, aflita, e derivados... Não há sequer uma diferenciação narrativa entre uma e outra personagem para que o leitor sinta a diferença de personalidade entre elas. No texto, todas parecem iguais, e é entediante.

A sorte do leitor é ser um livro curto, caso contrário, seria revoltante. O fim, que a partir de um certo momento se torna previsível, é bobo e comum, nada que não se tenha visto anteriormente na literatura policial popular ou nos filmes de mesmo gênero. E é isso que causa um certo arrependimento depois de lê-lo, pois os elementos que deixariam a trama óbvia demais são omitidos na amnésia alcólica da protagonista. Chega um momento que é impossível sustentar o suspense com nada, então, a escritora revela o essencial que acaba não surpreendendo, e muito menos causando impacto. O máximo que ela consegue é o desapontamento, pois será fácil pensar: não acredito que me arrastei até aqui para a verdade ser essa.

Não que o livro de Hawkins seja de todo ruim. Ele tem pontos fortes, como seu nível descritivo que é bastante rico. Se ele não existisse, o livro se enxugaria em 50 páginas, mas ainda consegue ser chato, pois muitas vezes se atenta a detalhes desnecessários. A autora também tem êxito em construir a bagunçada personalidade de Rachel com profundidade, afinal, é ela a garota do trem, e a protagonista é o único elemento de todo o livro que justificaria a adaptação cinematográfica. Só que não há como negar que o filme despenca ladeira abaixo, e Rachel, que deveria ser a grande e única estrela de todo o longa, acaba sendo ofuscada por um roteiro que não consegue esconder ter sido feito às pressas, já que o livro foi lançado em 2015, e em 2016 o filme já estava pronto.

Se o livro já não é lá grandes coisas porque não tem muito o que dizer, o filme diz menos ainda. Cheio de buracos e sequências que não farão muito sentido para quem não leu o livro, e para quem leu notará o esquartejamento desnecessário que o livro sofreu. A trama se desenrola muito rápido, e muito das poucas qualidades que o livro tem, principalmente sobre Rachel, se perde. Sem contar que os principais eventos se revelam sem qualquer impacto ou construção, ou se revelam antes da hora. E é assim que a adaptação caminha, revelando coisas que não precisavam ser reveladas com tanta rapidez, estragando o suspense e fazendo-o mais um drama desleixado qualquer do que um thriller doméstico em potencial (ou "noir doméstico", como li em alguns lugares). E havia potencial, mesmo vindo de uma literatura tão simples como o alfabeto. 

É claro que Emily Blunt chama a atenção, ainda mais representando uma alcólatra. Sua expressão derrubada e músculos faciais relaxados ao extremo, típicos de uma pessoa etilista, é de impressionar. Mas é triste ver seus esforços serem jogados ralo abaixo por um filme que perde seu fôlego rapidamente e desperdiça todas as características de uma personagem autodestrutiva por excelência e que tinha tudo para ser maior na tela do que no livro.

No livro Rachel sofre de uma depressão crônica, resultado da época em que estava casada e via sua relação desmoronar como um castelo de areia por não conseguir engravidar. A depressão a leva ao etilismo, e o etilismo a outros problemas. Dentre eles, seu profundo sentimento de rejeição, solidão, inutilidade e carência, por isso seu fascinio pelo casal Maggie e Scott e sua intromissão no caso para se sentir algo importante e útil, além de uma certa inveja que alimenta sobre a aparente perfeição do relacionamento que possuem. Muitas vezes Rachel até se coloca no lugar de Maggie em seus devaneios eróticos com Scott. Mas isso não é apenas com ele, seu interesse a qualquer homem que lhe dê o mínimo de atenção é óbvio e constante, tanto que sua vontade é sempre se jogar em cima de qualquer um que a trate com educação, atenção e masculinidade, tamanho o desespero por ser tocada, já que há anos não tem uma relação íntima com ninguém porque, no livro, ela é uma mulher desleixada, descrita como feia e gorda por causa de seu vício.

Rachel é uma daquelas personagens que, por conta dessa personalidade desfragmentada, tudo que faz é um desastre, e a falta de uma rotina produtiva lhe faz mergulhar cada vez mais em um mundo fantasioso e errado que ela constrói a todo tempo e que quer fazer parte a qualquer custo.

Nada disso é abordado no filme na mesma relevância que no livro, e o filme a transforma em uma personagem simples demais e que bebe somente para afogar mágoas planas como uma mesa. Ao menos, é essa a impressão que o longa passa.

Isso é resultado da tal "gourmetização hollywoodiana", ou seja, a constante mania de aliviar pesos e dramas para deixar tudo mais palatável, entregando ao espectador tudo mastigado, pronto para ser engolido, tal qual como aconteceu com a obsoleta adaptação hollywoodiana de O Homem Que Não Amava As Mulheres (2011), também de David Fincher. Tanto que a trama não se passa em Londres, mas em Nova York, e a etnia dos personagens é ignorada, como o psicoterapeuta não ser um indiano (embora tenha nome de indiano), mas um latino que, em certo momento, começa a gritar impropérios em espanhol. Até o fim é mais brando e bonitinho, com Rachel soltando uma frase de efeito que mais cliché seria impossível.

É claro que, comparando um com o outro, o filme consegue ser tão banal que o livro se torna até interessante. Mas é aquela coisa, por ser curto e de pouco impacto, é feito para ser lido entre idas e vindas de um cotidiano simples como o de Rachel e nada mais.

CONCLUSÃO...
Depois que se tornou um best-seller percebe-se como é fácil escrever um livro, e como a fórmula para um sucesso é fácil. E depois que se assiste ao filme percebemos como é fácil piorar algo que já nem se mostrava tão bom assim.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O INSTINTO SELVAGEM DE VERHOEVEN...

★★★★★★★★★☆
Título: Ela (Elle)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Isabelle Hupert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Christian Berkel
País: França, Alemanha, Bélgica
Duração: 130 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher independente e bem sucedida se envolve em um jogo perigoso ao tenta descobrir a identidade do homem que a violentou em sua própria casa.

O QUE TENHO A DIZER...
Há um momento em que a protagonista Michelle LeBlanc (Isabelle Huppert) chama a situação em que ela passa como "doentia e perversa". É o resumo daquilo que o filme é de fato, que começa com uma cena sexual que não é vista, onde ouve-se apenas barulhos e gemidos. Quando tudo acaba, o diretor nos revela um estuprador indo embora, deixando Michelle para trás, em choque, sangrando ao chão. É dessa forma um tanto impressionante que Paul Verhoeven abre seu novo longa, nos dando a exata sensação da linha tênue que separa o prazer da violência porque, entre gemidos e sussurros, o espectador a princípio se excita, mas quando a imagem aparece de fato, ele se choca e se constrange, pois o que acontecia era um puro ato de violência, e não algo consentido. Uma abertura simples e brilhante, se analisarmos pelo ponto de vista psicológico.

Fazia tempo que Verhoeven não entregava algo tão interessante e ao mesmo tempo perturbador ao público. Também fazia tempo, talvez desde os anos 90, que ele não fazia algo tão bom, mesmo que A Espiã (Zwartboek, 2006) seja respeitável. Em uma carreira com altos e baixos entre a ficção científica e uma leve obsessão por thrillers sexuais, o diretor holandês já foi um dos mais cobiçados de Hollywood no final dos anos 80 e começo dos anos 90 em filmes como Robocop (1987), O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990) e o seu mais memorável trabalho, o amado/odiado Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1990).

Elle pode não ter a cruzada de pernas fatal de Sharon Stone, mas sem dúvida rouba seu posto de filme mais controverso da sua filmografia, pois é um misto de diversos assuntos feministas atuais que incluem a violência doméstica, o empoderamento feminino, sua independência e, inclusive, sua liberdade sexual, do seu corpo e do seu sexo. Numa época em que os valores femininos estão sendo postos a teste, principalmente na cultura popular após o lançamento de obras eróticas infames como a série 50 Tons de Cinza, que criaram e promoveram às mulheres púdicas e aos homens machistas uma ilusão submissa e fetichista deturpada ao ponto de fazer qualquer mulher que diga "eu adoro esse livro" simplesmente favorecer de maneira insidiosa o seu próprio abuso e até mesmo sua própria violência.

Assim como a brilhante abertura, todo o resto do filme perdura nessa corda bamba entre o prazer e a violência, até que ponto a fantasia e o fetiche são aceitáveis, e até qual limite devemos ir para satisfazer aquilo que originalmente entitula seu filme mais conhecido: o instinto básico.

Verhoeven não evita nos chocar com o explícito, e é com isso que ele nos faz pensar sobre essas questões de maneira bastante crua. E o mais interessante disso tudo é que, com essas ferramentas, ele consegue criar um dos suspenses eróticos mais refinados a serem lançados em circuito comercial das últimas décadas. Talvez pelo cenário francês, onde tudo pareça ser bastante civilizado e refinado em meio à língua mais romântica do mundo, talvez por lidar com personagens bem sucedidos e que nos remetem aos luxos e desfrutes da alta sociedade. Se o cenário fosse o oposto, essa sensação poderia não ter o mesmo requinte, mas a agonia, o medo, o misto da paranóia com a obsessão e a explícita violência não precisam de gênero, cor e muito menos classe social. Independente do cenário, esse é um dos pontos fortes do roteiro, baseado no livro Oh... (2012), do francês Phillipe Djian. Até porque a história não lida apenas com isso ou fale somente sobre isso, pelo contrário, Michelle está em uma espiral desenfreada de infortúnios familiares, profissionais, sociais e pessoais. E o melhor de tudo, não há um momento sequer de redenção da personagem.

Michelle é uma personagem bastante complexa e muito bem desenvolvida no contexto do filme, que teve (e ainda tem) que lidar com um massivo assédio moral por conta da deturpada publicação de uma foto em jornais e emissoras de TV quando era adolescente, que ela classifica posteriormente como uma imagem erótica e louca em um momento errado. Em outras palavras, a redução do caráter de uma pessoa pelo seu gênero.

Lidar com o ódio e a rejeição durante décadas a deixaram ser como é: uma mulher ambiciosa, exigente, que reprime sua sensibilidade e emoções, que consegue ignorar abusos e passar por cima de desaforos com tranquilidade, mas ainda sim um tanto vingativa e perversa. No geral, seu comportamento feminista, independente e até libertário é bastante parecido com o da protagonista do chileno Gloria (2013), mas há um lado mais sombrio em Michelle, um semblante de que a qualquer momento possa cometer uma grande insanidade, tal qual seu pai no passado. É por isso que, sem titubear, ela passa por cima de qualquer pessoa, sem remorsos ou arrependimentos, e Isabelle Hupert consegue vagar por toda essa complexidade com uma maestria ímpar, nos deixando confusos quando sua personagem está feliz ou simplesmente sendo ardilosa, quando está triste ou simplesmente sendo irônica ou sarcástica.

O momento em que vive não poderia ser mais moderno, já que ela, em sua meia idade, é a Diretora Executiva de uma importante produtora de jogos eletrônicos, um setor conhecidamente dominado por homens jovens. Separada de seu marido porque este a violentou fisicamente, agora mora sozinha em uma mansão. Sua vida se resume a trabalhar; tentar resolver seus problemas com seu filho; lidar com a pressão social de um pai criminoso na cadeia; ter um caso com um homem no qual já perdeu o interesse; e a criticar o noivado de sua mãe com um garoto de programa, enquanto ela mesma flerta com o marido jovem de sua vizinha católica e submissa.

Assim como sua própria mãe a define, Michelle é uma vadia. Ela não tem medo de ser uma. Também não tem medo de ser desagradável ou mortalmente sincera. E por mais que em alguns momentos possamos pedir pelo amor de deus para que ela, ao menos, peça desculpas ao menos uma vez, isso nunca acontece. Ao contrário, ela comete algo mais provocativo ainda. E esse comportamento da personagem é exatamente para deixar claro que ela é a única dona de si e de suas próprias verdades, e violar isso é um crime, no qual ela mesma decidirá o que fazer, até mesmo sobre seu próprio estupro. Por isso que a razão de ela não ter um momento sequer de redenção seja tão prazeroso, pois isso é o que a fortalece como personagem.

Sua pessoal caça ao seu estuprador a leva para uma jornada desafiadora e na já dita espiral de infortúnios. O misto de paranóia e obsessão a deixam presa numa memória repetitiva, e como numa Síndrome de Stocolmo, por um lado ela quer fazer sua justiça, mas por outro fica obcecada por aquela figura anônima. Trocar as fechaduras de casa ou comprar sprays de pimenta são apenas artifícios para sua autonegação, porque no fundo ela está dividida entre o temor de um novo ataque e a excitante espera dele. O anonimato, o fator inesperado, são elementos que começam a crescer dentro de si como uma fantasia. Mas é quando ela é atacada pela segunda vez que percebe que a fantasia pode ser prazerosa, mas a realidade não tem o mesmo sabor. É como fantasiar ser submetida a Christian Gray por ele ser rico e bonito nos livros, até a realidade transformar qualquer pessoa como ele em um monstro perverso e doentio.

A violência que Michelle sofre tem vários sifnificados. Por um momento, pela estranha fixação sobre a situação incomum sofrida numa incapacidade de se subestimar por conta disso, como também numa forma de querer se punir por suas pequenas perversidades em um segundo momento, ou até mesmo tentar aflorar sentimentos e sensações que ela não consegue mais. É no segundo momento que, embora possa não parecer, ela volta a ter domínio da situação. De violentada submetida, ela passa a ser a dominadora subversiva. Na verdade, poderá haver diferentes interpretações para quem assistir. O interessante é que essas interpretações sejam além do que a própria imagem ou as situações pareçam definir, porque o roteiro oferece muito mais do que isso, e Verhoeven consegue transmitir o mesmo, deixando argumentos longe de qualquer superficialidade.

Quando Michelle questiona ao violentador o motivo de tudo, a resposta dele é simples, tanto para ela quanto para ele, pois ele mesmo fará a mesma pergunta posteriormente. E mesmo que ele não tenha resposta, e que ambos pudessem ter outras alternativas, o espectador saberá que o fim foi necessário, pois define a natureza de ambos.

Verhoeven acerta em todos os pontos e oferece um produto final bem feito em todos os aspectos, como se tivesse cozinhado e montado o mais fino prato por horas e sem qualquer pressa. Apesar de lidar com temas fortes e atuais, há uma certa sobriedade em tudo, já que algumas subtramas acabam levando a um humor contido para dar tempo do espectador respirar e digerir, o que é ótimo quando não feito de maneira banal ou exagerada. De exagerado mesmo é apenas a constante provocação do diretor, algo que sempre fez parte de seus trabalhos, mas nunca tão efetivo como é neste filme.

CONCLUSÃO...
Elle entra na lista dos melhores de 2016, e o melhor do gênero a surgir nas últimas décadas. É Verhoeven dando a volta por cima e fazendo seu melhor trabalho depois de sequentes fiascos. Ousado e chocante, nem por isso deixa de ter sua sutileza em um trabalho que reune as principais características do diretor.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CHEGA DE DEBOCHE...

★★★★★★★☆☆☆
Título: O Contador (The Accountant)
Ano: 2016
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Gavin O'Connor
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simons, John Bernthal, Cynthia Addai-Robinson
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um contador forense é contratado para averiguar irregularidades financeiras de uma empresa, mas de repente seus serviços são dispensados e pessoas começam a entrar na mira de assassinos.

O QUE TENHO A DIZER...
Quando imaginávamos que Ben Affleck não tinha mais qualquer capacidade para interpretar, ele casou com Jennifer Lopez e ambos atuaram em um filme juntos. Foi um desastre. E quando sua carreira estava a ponto de ser extinta, ele se tornou diretor.

Congratulações à parte, mesmo Argo sendo um dos melhores filmes de 2012, não dá pra levar Affleck a sério no papel principal, e menos ainda quando anunciaram que ele seria o novo Batman, devido ao desastre que foi quando investiu em Demolidor (2003). Ele pode até ter parecido bom em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), mas seu papel era ele sendo ele, o bonitão de jeito canastrão, a forma como o próprio livro descreve seu personagem.

A questão é que, quando Batman vs. Superman foi lançado, Affleck surpreendeu. E ao mesmo tempo que foi o personagem mais despretencioso da sua carreira, também foi o que ele levou mais a sério porque, fora do estúdio, havia uma leva de fãs prontos para esfolarem ele vivo se algo desse errado. O ator passou pelo crivo dos fãs e também da crítica, ao ponto de ganhar a direção do próximo filme do morcegão.

Por incrível que possa parecer, a impressão que se tem é que Affleck já curtiu tudo que Los Angeles poderia oferecer. Ficou mais velho, amadureceu, se centrou e finalmente resolveu levar a carreira de ator à sério. Ter dirigido quatro longas (com mais dois em andamento) lhe trouxe maturidade para perceber que atuação ruim só atrapalha. Talvez essa tenha sido essa sua epifania, seu momento eureka, o raio que lhe faltava na cabeça nos últimos anos.

Aproveitando a sisudez de seu Bruce Wayne, o porte e a resistência física que a preparação para Batman lhe renderam, O Contador caiu como uma luva em época e intenções, até porque ele também é uma adaptação de quadrinhos da DC.

A história pode parecer um pouco complexa a princípio, mas isso mais acontece por conta do desenvolvimento omissivo do roteiro. Ao contrário de outros filmes que costumam usar pistas falsas e enredo intrincado para enganar o espectador e causar falsa impressão de consistência, aqui tudo se desenvolve na base da omissão e na maneira de ser do personagem, que sofre de um tipo de autismo funcional e raro, no qual ele tem uma capacidade lógica extremamente rápida. Ele consegue uma excelente evolução durante a adolescência com os intensivos treinamentos físicos aos quais seu pai o submetia, mas ainda sim cresce solitário, com dificuldades de socialização, comunicação e humor.

Com sua capacidade lógica acima do normal e fisicamente treinado para poder se defender de situações de intenso perigo, ele agora trabalha como Contador Forense, uma profissão de alto risco, já que ele presta auditoria em grandiosas e dominantes corporações que nunca ficam felizes quando suas finanças são vasculhadas número a número. Só que o objetivo de Christian (Ben Affleck) não é exatamente esse, mas como dito, assim como seu comportamento lento e metódico, o mesmo acontece com o roteiro. Portanto, não tenha pressa, buracos serão tampados nos seus devidos momentos.

Não que seja uma história surpreendente, porque não é, mas consegue ter tudo o que um filme de ação precisa: consegue entreter, tem suspense e ritmo. Também tem seus momentos folhetinescos, como na sua reta final, algo que depois de Star Wars nem parece mais novidade, mas a agilidade omissiva do roteiro é tão boa que esquecemos de detalhes, os quais serão usados beneficamente contra nós depois, para o bem de momento cruciais da história.

A presença de Affleck como protagonista realmente não atrapalha, talvez porque o personagem seja de poucas palavras. O ator dessa vez consegue ser até sutil, quebrando um momento tenso ou dramático apenas com um jeito, um olhar ou uma pequena palavra de alívio cômico. Um humor sutil e clássico que nem em um milhão de anos imaginaríamos que Affleck seria capaz de fazer. É claro que, por conta da fisionomia do ator, aquele certo ar de deboche que ele naturalmente carrega pode aparecer aqui e alí, mas nada comprometedor como muitos de seus filmes anteriores. O único problema é que, no começo, ele parece levar o autismo do personagem muito a sério, mas depois deixa de convencer, e suas atitudes se mostram muito mais vícios de comportamento do que um comportamento metódico natural. Aliás, chega um ponto na história que duvidamos das razões de terem feito o personagem autista, já que se torna algo irrelevante para ele e para o espectador. Mas... em todo filme é necessário um drama para justificar algum trauma infantil, e todo herói precisa ter uma infância difícil que se tornará o agente motivador de toda sua história.

Apenas fórmulas.

CONCLUSÃO...
A realidade é que o filme não cansa de absurdos, mas também não cansa o espectador. E se tem uma coisa que ele garante é diversão, e provavelmente uma continuação.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"ESPECIAL" ENTRE ASPAS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Sense8
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ficção, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Lilly e Lana Wachowski (The Wachowskis)
Elenco: Miguel Angel Silvestre, Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Brian J. Smith, Tuppence Middleton, Max Riemelt, Toby Onwumere
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Os Sense8 escaparam temporariamente de Wispers, e agora terão um tempo para respirarem aliviados e, talvez, curtirem o Natal, cada um a sua maneira e todos curtindo a maneira de cada um.

O QUE TENHO A DIZER...
Logo depois que a primeira temporada de Sense8 foi lançada, fiquei um tanto perplexo ao saber que o sucesso da série não era esperado e, por isso, uma segunda temporada não estava nos planos. Talvez isso tenha acontecido pela sequência de fracassos das irmãs Wachowski nos cinemas desde o fim da trilogia Matrix, não emplacando um sucesso sequer desde então, seja em crítica ou bilheteria.

Por diversos fatores logísticos e de agenda, a segunda temporada do hit de 2015 não pôde ser produzida em tempo para o lançamento ainda em 2016, o que causou a frustração de todos que aguardavam ansiosamente pela reunião dos 8 personagens contectados telepaticamente.

Para satisfazer os fãs, um "especial de Natal" bem recheado foi lançado no dia 23 de dezembro. Bem recheado por conta dos seus quase 120 minutos de duração, tempo suficiente para deixar qualquer um satisfeito. Claro que a impressão de ser apenas um "tapa buraco" não deixa de ser latente, pois a verdade é que este "tal" episódio especial nada mais é do que os dois primeiros episódios da nova temporada ainda não lançada, adiantados para amenizar a impaciência da audiência. De natalino, se for prestar bastante atenção, o episódio nada tem além de uma sequência de uns 10 minutos com o elenco fazendo cara de esperança na vinheta da Globo e cantando errado no meio da multidão. Tanto é assim que, justamente por isso, a segunda temporada, a ser lançada em Maio (ainda?), terá apenas 10 episódios, e não 12, como esperado.

É puro marketing. Foi a forma do Netflix garantir que seus assinantes não se esqueçam que Sense8 ainda existe. Isso se chama falta de planejamento. É o mesmo que ocorreu com Jessica Jones, que já era pra ter tido sua segunda temporada lançada neste segundo semestre, mas foi adiada para 2017 devido a atrasos.

Idependente disso, a série reestreou chamando atenção pela substituição de Aml Ameen por Toby Onwumere para viver o queniano Capheus. Isso ocorreu por desentendimentos entre Aml e a criadora Lana Wachowski. No mais, nada é claro. Supõe-se que seja por desavenças a respeito de cenas sexuais ou até mesmo declarações preconceituosas do ator, mas isso são apenas boatos. Não é à toa que a troca rende até uma piadinha interna no especial quando o amigo do personagem pergunta: "Vc parece estar diferente?".

O episódio da um grande salto de tempo, com Will (Brian J. Smith) e Riley (Tuppence Middleton) escondidos do grande vilão Wispers (Terrence Mann). O casal agora descobriu que Will não precisa ficar inconsciente o tempo todo, desde que ele não veja ou ouça coisas que possam levar o vilão a perceber o ambiente ao redor e assim descobrir seu paradeiro. Só me pergunto como Will ainda não se viciou em morfina (ou seja lá o que ele use) depois de tantas doses. Mas enfim, deixemos isso pros roteiristas...

No mais tudo continua onde a primeira temporada parou, sendo um bom episódio. Tudo muito bem dosado entre a ação, comédia, romance, drama e até um repeteco da "orgia" da temporada passada. Tem tudo para agradar aqueles que estavam na espera, além da sensação de ter que esperar novamente até a reestréia oficial. A breguice (ou cafonice) de Lana e Lilly Wachowski aparece em alguns momentos ou outros, mas nada que estrague o produto como é corriqueiro acontecer em seus longas metragens.

Mas o drama aqui se destaca, principalmente na relação de Lito (Miguel Silvestre) com as pessoas a sua volta depois de aceitar sua sexualidade. A pressão social que ele sente, o assédio que começa a sofrer de sua equipe de trabalho e até mesmo de onde mora, e o conflito familiar (bastante recompensador). Miguel faz um excelente trabalho, e não é à toa que suas cenas acabam sendo as mais emocionantes.

Sun Bak (Doona Bae) continua presa. Literalmente. Presa em uma cela e presa no roteiro. Parece que eles não sabem como tirá-la de lá e, por essa razão, ela virou uma personagem muleta, só aparecendo quando o próprio roteiro não sabe salvar outros personagens do perigo. Um desperdício quando ela é uma das mais interessantes e subutilizadas da série. O mesmo sobre Daryl Hannah. Qualquer atriz poderia ter feito o que ela fez na primeira temporada: morrer logo no primeiro episódio e aparecer esporadicamente como um espectro. E nesse episódio ela retorna no mesmo papel inútil e subaproveitado. Deve ser um saco ter que aparecer no estúdio para usar uma roupinha suja e gravar por apenas 3 horas. Ela realmente deve estar precisando muito do dinheiro.

No mais, o episódio é o mesmo Sense8 que foi na primeira temporada. Com uma comemoraçãozinha forçada de Natal aqui e alí por uns 10 minutos, para logo depois todo esse espírito natalino voar pelos ares em uma guerra bairrista que se inicia em Berlim entre as facções existentes para dominar o legado abandonado com a morte do tio de Wolfgang (Max Riemelt), o que provavelmente será uma das tramas principais da nova temporada.

CONCLUSÃO...
Matará a saudade de quem esperava e preparará todo mundo para o lançamento da segunda temporada completa em Maio.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O TIRO CERTEIRO DE FORD...

★★★★★★★★☆☆
Título: Animais Noturnos (Nocturnal Animals)
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Romance
Classificação: 16 anos
Direção: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer
País: Estados Unidos
Duração: 116 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma artista plástica recebe um estranho presente, o rascunho final do livro de um ex-marido.

O QUE TENHO A DIZER...
Ambição nem sempre é ruim. É o que podemos pensar quando pegamos Tom Ford como exemplo, o mundialmente reconhecido estilista que, como hobby, se tornou diretor de cinema.

Quando Direito de Amar (A Single Man, 2009) foi lançado, parecia que a crítica não queria afirmar que Ford tinha feito um dos melhores filmes do ano. O preconceito em Hollywood dificulta artistas de outros circuitos a se consagrarem no cinema, e com ele não teria sido diferente. A subestimação foi tão grande que a adaptação da obra homônima de Christopher Isherwood fez Ford ser esnobado sem qualquer cerimônia pela maioria das grandes premiações. Era difícil admitir que um homem que respirava moda podia, de repente, ter uma estréia cinematográfica tão consistente. Collin Firth foi consagrado como ator pelo filme, saindo dos teatros londrinos para ganhar proeminência no cinema norteamericano. Mas Ford sequer respirou tanta consagração assim.

Segundo ele, a intenção de ter dirigido, escrito e produzido o seu filme de estréia foram mais pessoais do que qualquer outra coisa. Tanto que Animais Noturnos é seu grande retorno depois de sete anos de total ausência. É como se ele estivesse esperando por um projeto igualmente apaixonante, algo que o tirasse da zona de conforto e o fizesse pensar que apenas ele seria capaz de fazê-lo como imagina.

É esse o sentimento que se tem ao assistir seu novo filme, baseado na obra Tony And Susan (1993), de Austin Wright, pois o caráter pessoal é tão grande que Ford também assina o roteiro e a produção.

Aqui ele segue basicamente algumas das mesmas características de seu primeiro filme. A ambientação neo-noir, a delicadeza na condução da história, a sutileza no desenvolvimento das tramas e subtramas e o glamour visual. Mas ao contrário do que ele demonstra na moda, aqui o glamour é apático, frio e distante. Fútil. Enquanto a tal delicadeza e sutileza são utilizadas de maneira brilhante na finalidade de intensificar o suspense e o teor sentimental de uma história que, ao longo dos seus 116 minutos, torna-se um misto de sentimentos em pura emplosão, demonstradas da maneira mais trágica possível à protagonista através das palavras que lê de um livro, e que são traduzidas em imagens ao espectador de maneira, por vezes, emocionalmente devastadoras.

A pretensão de Ford exala como perfume, mas assim como foi ela a resposável pelo seu sucesso ao renovar a Gucci e catapultá-a às trend marks da alta costura na década de 90, é esse seu excesso de confiança que faz tudo funcionar com tanta certeza e pontualidade em um roteiro que varia entre três narrativas bastanta distintas e que aos poucos se afunilam a uma única condução.

O filme começa com a protagonista recebendo um pacote no qual corta o dedo no papel ao tentar desembrulhá-lo, algo que, de certa forma, já a deixa apreensiva. O pacote revela-se um rascunho final do livro de Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), seu ex-marido, o qual conheceu ainda na faculdade, época em que os dois se importavam e sonhavam com o futuro: ela em ser uma reconhecida artista plástica, e ele como um grande escritor. A relação terminou porque Susan (Amy Adams) a sabotou. Além de acreditar que ela nunca sairia do mesmo lugar como artista, e Edward nunca iria evoluir como escritor, no meio do processo uma tragédia acontece, além de surgir Hutton Morrow (Army Hammer), por quem, iludida, se apaixona, e é casada desde então.

Susan alcançou seu objetivo. Artista reconhecida, que mora em uma mansão exagerada de puro concreto e vidro, e Hutton não tem mais o menor pudor em esconder que a trai. Hoje ela se dedica a coisas ínfimas, como cuidar de sua galeria e se relacionar com amigos caricatos da alta sociedade, no qual um deles até a aconselha a aproveitar melhor o mundo absurdo no qual vivem, oportunidade para poucos. E no tédio das noites de insônia percebe como ela se distanciou dela mesma ao longo dos anos. É quando resolve dar atenção ao presente recebido de Edward, o qual a impressiona logo no começo pela sua violência bem narrada, em uma sensação entre continuar lendo ou abandoná-lo. Ler a obra é seu primeiro contato com seu primeiro grande amor em anos, engatilhando lembranças que serão cruciais para o espectador compreender qual é a linha que costura essas narrativas distintas e se o livro tem algo a mais a contar do que as próprias linhas dizem.

É aí que Ford já começa o tiro certeiro, porque ao misturar a narrativa do passado com a narrativa cruel e violenta do livro, ele já nos sugere que existe alguma conexão entre eles. Seria o livro uma velada ameaça, uma simbólica história de vingança ou uma metáfora de alguma realidade? E da mesma forma como Susan se intriga com isso, intrigado também fica o espectador. O fato é que, a cada nova página virada, a nostalgia dos tempos com Edwards se engrandece, e quanto mais Susan se interessa pela história, mais o protagonista do livro sofre, do qual o sange escorre pelas mãos de Susan sem que ela perceba.

Esse paradoxo que Ford cria entre a ficção e o momento presente consegue manter um equilíbrio narrativo constante, sem ápices ou quedas bruscas, usando os flash-backs como a querer pré-justificar a conclusão, encontrando um platô cujo nível de suspense é mantido até o fim. E mesmo que o espectador não pareça tão interessado, ele vai se sentir preso àquilo que ele não sabe exatamente o que é, no qual, sem dúvida, o fará ficar pensando sobre aquilo quando os créditos finais aparecerem.

É um filme cheio de metáforas sobre Edward e Susan, cujo clima soturno e algumas referências até um pouco óbvias a clássicos como os de Hitchcock, principalmente pela trilha sonora de Abel Korzeniowski, que tenta remeter à sonoridade de Bernard Herman, podem não parecer tão interessantes quando analisados separadamente, mas juntos se tornam um conjunto admirável e belo em sua frieza e perversidade.

Assim como no seu filme anterior, o tema volta a ser o lado trágico do amor e os arrependimentos que nos assombram. Mas aqui ele vai mais fundo, torcendo tudo como um pano sujo depois da casa limpa, e em resumo o filme nada mais é do que uma história de vingança psicológica, vencida a partir do momento que o pacote é aberto, pois é ele que reacende sentimentos e vontades de Susan, a isca no anzol de Edward.

As diferentes texturas de imagens e camadas novamente cumprem suas funções como em Direito de Amar, pois são elas que diferenciarão os tempos e narrativas. E dessa forma bastante concisa o filme de Ford é um dos melhores e mais perfeccionistas do ano. Esse excesso de perfeição pode parecer enjoativo, mas é o que caracteriza não apenas o estilo do diretor, mas também o gênero que ele tão bem escolheu trabalhar.

O público não parece ter compreendido muito bem a subejtividade e as associações intrinsecas entre as três narrativas, parece não ter compreendido muito as entrelinhas dos objetos, mas o resultado é brilhante, e seu fim simplório, se bem interpretado, deixará um buraco no peito, o mesmo deixado no peito de Edward.

CONCLUSÃO...
É um thriller psicológico e romântico em sua mais expressiva forma, um misto de sensações e emoções, uma mistura de épocas e visuais, uma experiência única em anos. Um dos melhores filmes de 2016 que reafirma Ford não apenas como um grande diretor, mas também como um roteirista perfeccionista que consegue tirar o melhor que a história pode oferecer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

REVIVER OU MORRER? EIS A QUESTÃO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: The OA
Ano: 2016
Gênero: Suspense, Drama, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Zal Batmanglij
Elenco: Brit Marling, Jason Isaacs, Scott Wilson, Alice Krige, Patrick Gibson, Phyllis Smith, Brandon Perea, Brendan Meyer, Ian Alexander
País: Estados Unidos
Duração: ~60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma garota que, depois de sete anos, reaparece com estranhas capacidades após passar por uma experiência de vida pós morte.

O QUE TENHO A DIZER...
De tempos em tempos um seriado esquisito aparece. Pode até não ser tão bem realizado, mas se for intrigante, que alimente discussões e controversas, a fórmula cult está pronta. É o que acontece em The OA, a nova empreitada da dupla Zal Batmanglij e Brit Marlin.

Batmanglij e Marling são amigos de longa data, que aos poucos tem dado uma cara diferente no cinema independente norteamericano, e agora é vez de fazerem o mesmo na TV e dispositivos multimídia. The OA é a terceira parceria de ambos como idealizadores, roteiristas e produtores. Batmanglij também continua como diretor, e Marling, como atriz principal. A diferença é que dessa vez o produto agora é direcionado a uma massa na qual os dois nunca atingiram antes, e mesmo que a liberdade criativa seja maior no Netflix, não havendo exigências tão grandes como seria em uma emissora de TV, nota-se que a pressão ainda está lá por parte do público, para o bom ou para o ruim.

O projeto, em andamento desde 2015 e impulsionado pela Plan B, produtora de Brad Pitt, é mais ousado que nos dois longas anteriores da dupla. Com apenas oito episódios que variam em duração, é impossível não fazer algumas assimilações ora com Sense8 (2015), ora com Stranger Things (2016), justamente por ter um grupo de pessoas interligadas sem qualquer semelhança uns com os outros, lidando com situações aparentemente sobrenaturais que envolvem brandas discussões sobre a Física Quântica e dimensões paralelas.

O conteúdo aqui é mais adulto, menos fantástico, fantasioso ou pop. É algo mais científico, mais dramático, com uma abordagem fraternal que igualmente funciona na idéia fundamental de que não estamos sozinhos no espaço, não o nosso lado invisível, ou seja, aquele que nunca mostramos a ninguém. E espaço, para a série, significa o lugar onde sua consciência está no momento. Também há um fundo romântico bastante sutil e diferente, e que acaba sendo o motivo central de tudo, mas em nenhum momento se sobrepõe ou incomoda as demais subtramas, o que evita o melodrama, o sentimentalismo banal e, consequentemente, o abuso do cliché. Tanto que só próximo ao fim que percebemos que o objetivo principal da protagonista é esse, e isso nem é spoiler porque é evidente desde o princípio. É bem menos comercial que as outras duas produções já citadas da casa, é algo diferenciado, um tanto alternativo e que busca um público diferente daquele comum que assina o serviço. Também pode ser visto como uma extensão, ou uma idéia melhor desenvolvida do longa Linha Mortal (Flatliners, 1990), um cult de Joel Schumacher, já que a experiência de vida pós morte é outro tema principal.

Para quem já conhece os dois filmes anteriores de Marling e Batmanglij, não irá se surpreender com essa fixação que ambos possuem pela religiosidade, pelo sobrenatural e o exotérico. Sim, um misto entre os três principais eixos espirituais da sociedade, lidando com ícones e mitos de maneira mista, como se tudo se interligasse e formasse uma coisa só. Para eles essa distinção não existe, e para tentar rebater tudo isso, está a ciência para se opor constantemente às tais teorias que eles desenvolvem, outra coisa na qual é evidente o fascínio. Funciona? Sim. Porque da mesma forma como em A Seita Misteriosa (The Sound Of My Voice, 2011), ou até mesmo em O Sistema (The East, 2013) e A Outra Terra (Another Earth, 2011), a narrativa criada a princípio parece convincente para um dos lados, mas depois se torna dúbia, deixando a favor do espectador a decisão de acreditar ou não naquilo que a história propõe.

Para quem não conhece o estilo da dupla, ou sequer assistiu um de seus dois filmes, The OA é uma grande oportunidade para conhecer. Nele estão absolutamente todos os elementos tanto autorais quanto técnicos de suas produções anteriores. Há uma mistura bem feita daquilo que já fizeram antes, sejam em projetos solos ou em parceria, como que ambos quisessem agora promover ao grande público tudo o que fizeram até hoje, usando eles mesmos como referências principais em seus próprios trabalhos. Não é à toa que Prairie (Brit Marling) é muito semelhante a Maggie, sua outra personagem em A Seita, já que ambas afirmam ser entidades que estão no plano terrestre por algum grande motivo, fora outros detalhes que não valem a pena serem ditos para não estragar algumas supresas que The OA reserva.

É um suspense dramático em sua essência, abraçando tantos estilos que chega ser difícil categorizá-lo de maneira tão específica. O suspense surge pela forma narrativa em primeira pessoa, já que boa parte dos episódios é a protagonista contando sua história aos demais, como uma líder de uma nova religião. A duração de sua narrativa é basicamente o tempo de duração de cada capítulo, já que Prairie é obrigada a viver sob certas restrições familiares.

O roteiro pode pecar por não desenvolver muito bem certas motivações ou interesses que fazem os personagens secundários se interessarem tanto pela estapafúrdia história da protatonista (pois é assim que se parece de início), mas por outro lado essa estrutura deu uma consistência nos personagens sem a necessidade de muita informação, economizando a paciência do espectador nesse sentido. O que é mostrado de cada um já é o necessário para justificar a afinidade de um grupo tão heterogêneo, mas no fundo há uma falta, uma vontade de vê-los realizarem muito mais do que serem meros objetos passivos na história. Mesmo assim o companheirismo e a confiança entre eles cresce nas reuniões, e se desenvolve entre choques e conflitos. No meio de tantas diferenças, é a incompreensão social e a solidão de cada um que forma o elo que os unem, sendo dessa inusitada união que a protagonista se fortalece. Essa honestidade nas diferentes personalidades é resultado do elenco formado por atores pouco conhecidos, mas que convence e emociona, como é o caso de Betty (Phillis Smith), personagem que a princípio pouco tem destaque, mas no fim se transforma em uma das mais emocionantes e memoráveis.

A mensagem (ou moral) primordial da série também tem seus momentos de glória sem aquela sensação de algo banalizado. A maneira como a protagonista socialmente é julgada, ou a forma como seus pais adotivos reagem ao seu comportamento, é entristecedor e sufocante. A inabilidade de compreensão da sociedade, o falso julgamento, a exploração da imagem, a falta de aproximação, a maldade e ambição humana são os grandes vilões. São eles que Prairie quer combater para transformar as coisas à sua volta. Um exemplo disso é quando Prairie conversa com Betty sobre a expulsão de Steve (Patrick Gibson) da escola, afirmando que expulsá-lo é negligenciar a responsabilidade dos professores de ensiná-lo. É por isso que ela precisa de outros, porque grandes modificações necessitam de pessoas dispostas a fazê-las. Não importa se esteja em cativeiro ou fora dele, o que precisamos é dos três C's: confiança, companheirismo e cumplicidade.

Se tem uma coisa intrigante nesse seriado, é que ele pode não oferecer nada do que habitualmente se espera de uma ficção científica, e nem oferecer o drama ou o suspense cliché que poderia; o público também pode não se sentir motivado por ele, ou sequer empolgado a princípio. Mas por alguma razão ele cativa, e mesmo com primeiros episódios pouco interessantes ou sem grandes ganchos finais que nos faça querer devorá-lo em um único dia, ainda há aquela sensação de querermos ser convencidos de alguma coisa, e continuar até chegar ao fim não se torna algo massacrante, pelo contrário, os eventos se engrandecem, uma história de amor original toma forma e o final da temporada é emocionante quando impulsionado pelo trabalho do coreógrafo Ryan Heffington (dos atuais vídeos da cantora Sia), um trabalho essencial para a mitologia desenvolvida na série. A princípio os movimentos realizados podem soar um pouco esquisitos (ou cafonas), mas depois emerge como algo extremamente expressivo, técnico e pontual, que só funcionará quando atingida a perfeição e homogeneidade, independente das afinidades de quem o realiza.

CONCLUSÃO...
The OA pode não ser um dos melhores seriados do ano no Netflix, mas é intrigante mesmo assim. Com narrativa lenta, desenvolvimento comedido e suspense gradual, tenta fugir de clichés e no fim não se mostrar tão inovador ou diferente quanto parecia, mas se diferencia ao fugir de certa convencionalidade, e dar oportunidade aos seus criadores de extenderem um mundo e um estilo próprio para agradar um público que busca fugir do comum. E por que não, dizer que acaba sendo algo bastante motivador, com uma bela mensagem a ser compartilhada.

domingo, 4 de dezembro de 2016

NEM SEMPRE TEMOS CONSERTO...

★★★★★★★★★☆
Título: Krisha
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Trey Edward Shults
Elenco: Krisha Fairchild, Robyn Fairchild, Alex Dobrenko
País: Estados Unidos
Duração: 83 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de 10 anos sem encontrar com sua família, Krisha volta a reencontrá-los no Dia de Ação de Graças, mas seu passado e traumas pessoais poderão arruinar as festividades.

O QUE TENHO A DIZER...
Com tantas qualidades e particularidades, Krisha é de longe um dos melhores filmes lançados esse ano. Produzido em 2015, só foi ter seu lançamento mundial no festival South By Southwest, em Austin/TX. Também foi apresentado internacionalmente em Cannes, o que levou o diretor a concorrer a dois prêmios: ao Câmera de Ouro e ao Grande Prêmio da Semana pela Crítica, ambos relacionados à melhor estréia de um diretor.

Dirigido, escrito, produzido, editado e brevemente atuado pelo norteamericano Trey Edward Shults, o longa veio de um processo criativo comum entre diretores estreantes, independentes e autorais, nascendo a partir de um curta metragem de mesmo nome produzido por ele em 2014. Além do fato do elenco ser praticamente o mesmo, as maiores curiosidades sobre o longa é que todos os atores envolvidos são familiares e amigos (por isso os nomes são os mesmos da vida real): quem interpreta a protagonista é sua tia (Krisha Fairchild), quem faz a irmã da protagonista é sua mãe (Robyn Fairchild) e a mãe da protagonista é sua avó (Billie Fairchild). Os demais são amigos pessoais, e apenas dois atores sem qualquer relação com o diretor foram contratados. As filmagens ocorreram na casa de seus pais, e durou apenas nove dias, com orçamento arrecadado pelo Kickstarter, uma fundação online de levantamento de fundos para desenvolvimento de projetos.

É importante conhecer essa história por trás das câmeras porque é ela quem complementa a atmosfera extremamente intimista que o filme proporciona, cuja interação entre os personagens e a naturalidade com que se desenvolvem frente às câmeras chegue a um nível de realismo sufocante, inclusive pela limitação dos cenários, que agregam mais ainda uns aos outros em um caos organizado e conflitante. Também é a prova daquilo que sempre repito por aqui, de que grandes produções não necessitam de grandes orçamentos, apenas de grandes idéias e sólida concepção.

O filme começa focado em Krisha, com um ruído sonoro ao fundo que cresce em sincronia com os sentimentos perturbadores que se afloram. A fisionomia carregada da protagonista surpreende, e a partir daí sabemos que algo de errado acontece com ela, até tudo ser abruptamente interrompido. Em seguida ela chega em um bairro, e em um grande plano sequência vemos ela caminhar de casa em casa, blasfemando arrependida por estar lá, tensa e apreensiva pela receptividade que poderá ter de familiares que reencontrará depois de 10 anos de ausência para juntos comemorarem o Dia de Ação de Graças.

A complexidade de Krisha não é fácil de ser descrita, já que a todo momento é construída e desconstruída por Shults como um quebra-cabeças. Tragicamente ela consegue ser a protagonista e a antagonista de sua própria história, um tipo único que muito raramente vemos no cinema. O excesso de planos sequência e a vagarosidade com que as cenas são conduzidas é angustiante, de um suspense e apreensão nada saudáveis, como no momento em que é acompanhada andando em círculos pela cozinha, em uma insanidade dispersa, com o mesmo ruído sonoro crescente do início do filme. O comportamento distímico de Krisha chega a ser, por vezes, assustador como um filme de horror: é comedida em meio aos familiares, se esforçando para se manter em um padrão de normalidade que eles esperam, mas por trás das paredes está sempre à espreita, alimentando sua insegurança e desconfiança pelos outros de maneira ora esquizofrênica, ora psicótica. E assim a história é construída numa progressão desastrosa, e como todo o processo é muito explícito, acaba sendo previsível, mas um tipo de previsibilidade diferente, que nos prepara para o pior, a um ápice dramático denso e que desmancha como uma pedra de gelo em uma frigideira.

Não há como dexiar de relacionar o filme a dramas familiares europeus como o sueco/dinamarquês Festa de Família (Festen, 1998), ou até mesmo na construção volátil do norteamericano O Casamento de Raquel (Rachel Getting Married, 2008), e em nenhum filme o símbolo maior do Dia de Ação de Graças foi tão bem utilizado para demonstrar que um pequeno acidente pode ser a gota d'agua de uma situação insustentável, o estopim da desgraça, a total antítese de sua simbologia, como acontece aqui.

Shults nunca nos revela pequenas coisas que nos deixam curiosos por todo o filme, ele apenas nos revela o necessário para compreendermos aquele presente e aquele momento. Se o que é revelado já constrói o pior cenário possível, não fica difícil imaginar como foi tudo antes disso e em como o passado pode ter sido tão destrutivo para chegar naquele ponto. Talvez esse flashback imaginário nem seja necessário, pois o fim é certo. Mas acima de tudo, ele também nos dá ferramenta para nos identificarmos com um dos lados, seja em nos sensibilizar com a condição de Krisha (ou até nos identificar com ela), seja em nos solidarizar com sua família e sua persistência para finalmente chegarem ao ponto da completa negação da ajuda.

É filme para poucos, por conta de sua narrativa lenta e meticulosa em sua construção, o que faz os 83 minutos parecerem o dobro. Também difícil, já que, mais que um drama, é um suspense dramático sobre os conflitos da pisiquê humana. Não é à toa que um dos cartazes promocionais do filme remete a uma ilustração de Rorschach, ou seja, a ambiguidade da protagonista, ou a sua tendência em projetar características negativas de sua personalidade aos outros, ou às coisas. Sendo aí que a protagonista brilha, pois Krisha Fairchild sem dúvida tem uma atuação memorável e impressionante, de uma humanidade perturbada excruciante.

Além da narrativa, o filme é tecnicamente belíssimo, desde a já comentada forma do diretor em conduzir muitas das cenas sem cortes e dos planos abertos que dão oportunidade aos atores em explorar o ambiente e interagir abertamente entre si, transformando o expectador em um observador presente, como também na fotografia em enquadramentos sempre muito simétricos e sinestésicos por conta de uma edição simples e pontual: aquilo que se vê, é aquilo que se sente. Sem floreios e sem dispersões, tudo muito objetivo como a visão do espectador.

CONCLUSÃO...
Uma grande estréia de um diretor promissor, e um grande filme com grandes atuações. Uma injustiça o filme estar um tanto esquecido na temporada de premiações, e quando lembrado, apenas o diretor aparece entre os indicados quando não é apenas ele uma das grandes qualidades e revelações do longa. Venceu o Gotham Awards na categoria de Melhor Diretor estreante. Mais que merecido, foi necessário.
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