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terça-feira, 2 de junho de 2015

MEXIDO, MAS NÃO BATIDO...

★★★★★★★★
Título: The Returned
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Mark Pellegrino, Jeremy Sisto, Tandi Wright, India Ennenga, Sophie Lowe, Mary Elizabeth Winstead, Michelle Forbes
País: Estados Unidos
Duração: 43 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma pequena e pacata cidade entra em caos quando vários moradores dados como mortos retornam sem saber que haviam morrido.

O QUE TENHO A DIZER...
O choque já começa logo nos primeiros minutos do primeiro episódio, em um flashback de quatro anos antes, quando um ônibus escolar, lotado de crianças e adolescentes, cai de um penhasco. Ao retomar a narrativa para os dias atuais, vemos as mãos de Camille (India Ennenga) escalando uma grade de segurança, como a sair de sua própria cova rasa. Ela está intacta, com as mesmas roupas de quando embarcou no ônibus que colocaria não um ponto final em sua vida, mas uma grande vírgula, cheia de reticências.

Camille caminha por horas pelas estradas que cortam as Florestas Boreais que apenas o Canadá poderia oferecer, já que Vancouver é o cenário utilizado para retratar a pequena e pacata cidade fictícia chamada Caldwell. Em meio a uma neblina fantasmagórica, ela finalmente chega em sua casa. Ao ouvir barulhos no andar de baixo, sua mãe, Claire (Tandi Wright), desce para verificar. Ela encontra Camille devorando um enorme lanche na cozinha, reclamando da peregrinação que fez. O momento não consegue ser tão impactante como deveria, talvez por que Tandi Wright não tenha conseguido expressar muito bem o misto de espanto, surpresa, felicidade, esperança e uma pitada de horror por uma situação inexplicável que a personagem presenciava, mas o espectador consegue complementar em sua própria imaginação o verdadeiro misto de sensações. Realmente não haveria reação. O catatonismo seria a única resposta para um acontecimento sobrehumano a poucos passos de distância. Camille, surpresa pela afonia de sua mãe, pergunta se está tudo bem, sem ter a mínima noção de que estava morta há tanto tempo e que a poucos minutos antes sua mãe rezava e lamentava sua morte em um altar improvisado.

Sim, é dessa forma um tanto sombria e que vagamente nos remete ao Cemitério Maldito, de Stephen King, que The Returned cumpre o que propõe: ser um seriado dramático de horror e mistério que deixará todos curiosos demais para saber o que realmente aconteceu, no famoso estilo Lost de ser. Troca-se a ilha por uma cidade, e temos Caldwell, tão pacata e comum quanto Chester's Mill, de Under The Dome (também de Stephen King), e com uma população tão interiorana e conservadora como Bon Temps, de True Blood. Até o bar local, chamado DogStar, chega a ser um coadjuvante bastante presente tanto quanto o bar Merlotte's, do falecido seriado vampiresco da HBO. E os personagens ressucitados seriam, digamos, uma versão limpinha, educada e "vegetariana" dos zumbis de George Romero.

Com tantas referências assim, fica difícil saber se são propositais ou não, mas fica bem evidente que o seriado é uma colcha de retalhos de várias fórmulas que deram certo por aí, seja na literatura fantástica, seja na televisão. Até porque, embora ele seja apresentado como uma série original da Netflix, os dez episódios desta primeira temporada são refilmagens do seriado francês Les Revenants, que por sua vez é baseado em um filme de 2004 que leva o mesmo título. O seriado francês foi escrito por Robin Campillo, o próprio roteirista do filme, o qual curiosamente também assina a versão norteamericana. Ou seja, mesmo sem assistir a versão original francesa, supõe-se que o remake não apenas agrade o gosto exigente e preguiçoso dos norteamericanos que detestam legendas, como também consiga ser o mais fiel possível de seu irmão mais velho francês. E é exatamente isso o que se lê na maioria das críticas favoráveis por aí, de que apesar de algumas poucas e sutis mudanças, ambas versões são bastante próximas. Enquanto as críticas mais negativas se limitam a pessoas que provavelmente assistiram apenas o episódio piloto e julgaram ter sido o necessário. E devo dizer: não é.

Dentre erros e acertos das produções que o Netflix tem lançado esse ano, The Returned é uma das poucas agradáveis até o momento dentro deste gênero, ao contrário do infame e desnecessário Between, que também narra um mistério em torno de um grupo de pessoas isoladas em uma pacata cidade, uma cópia descarada e muito mais inferior de Under The Dome.

Mesmo sendo essa mexido de fórmulas já usadas anteriormente, The Returned consegue dar um acabamento final interessante, e ao invés daquela sensação batida de já termos assistido algo parecido antes, as situações semelhantes soam mais como referências muito bem usadas e reformuladas para a proposta da história. É fato que a produção não chega a ter o mesmo valor cinematográfico agregado a Demolidor, mas é muito bem feito mesmo assim. Muito bem filmado, editado e continuado, é mais comum ver acertos do que erros, algo difícil em produções menores como essa. Até porque o grande trunfo de tudo são as atuações, que em sua grande maioria são convincentes, tanto por veteranos pouco conhecidos, como pelos mais novatos que não deixam nada a dever.

A história flui como deve, e aos poucos as tramas e os mistérios se revelam de forma bastante fluida e inesperada. Inesperada não no sentido de surpresa imediata, mas de algo construído gradativamente. Nada daquelas situações manjadas de "hoje será o episódio de tal revelação", pelo contrário, todo episódio revela peças chaves do quebra cabeça, seja através da sutileza da narrativa atual, seja através da objetividade dos flashbacks. E tudo muito bem costurado para descobrirmos as demais camadas e a natureza dos personagens, tanto que cada episódio leva o nome de um deles.

Sem dar explicações óbvias, a história se utiliza de preceitos religiosos e até míticos para fundamentar algumas pontas soltas, fazendo aquilo que poucos seriados conseguem com efetividade: gerar comentários e teorias. Outros seriados, como Arquivo X, ou até o já citado Lost, conseguiram o mesmo, mas aqui a situação tem um tom mais palpável por conta da efetividade do roteiro e de seu desenvolvimento humano dentro de toda essa fantasia. Nada de clichés exagerados, nada de situações muito forçadas. Todos personagens lidam com medos, fraquezas, angustias e tristezas humanas, e todos possuem objetivos definidos. Dessa forma o espectador percebe o cenário se inverter sutilmente, e aqueles personagens que acreditávamos ter razão, deixam de tê-la, enquanto os que pareciam não ter, se fortalecem. Nada maniqueísta demais, nada de vilões ou mocinhos, apenas personagens que acreditam nas suas próprias razões e motivos, e uma construção bem interessante em cima da velha idéia de que devemos ter mais medo dos vivos do que dos mortos.

Não é um seriado perfeito, e nem redondo, porque deixou um final aberto para uma provável segunda temporada (o original francês terá sua segunda temporada ainda este ano), mas é a subida da montanha russa e a visão panorâmica antes da queda, conseguindo ser acima da média e que merece a chance de ser assistido. Resta agora saber se esta versão também terá uma segunda temporada. A única coisa que se sabe é que a primeira temporada seria fiel ao original, mas caso seja renovado para temporadas seguintes, seguirá um direcionamento completamente diferente.

CONCLUSÃO...
Dentre os atuais seriados produzidos pelo Netflix lançados esse ano até o momento, este figura na lista dos que merecem atenção. Sabe-se que Estados Unidos adora produzir remakes desnecessários, que pecam por deturpar as produções originais, resultando em produtos inferiores e esquecíveis. Por um milagre, não é o caso deste seriado. Sendo ou não sendo melhor que o original francês, The Returned cumpre o que promete dentro do gênero. Mas com tantas boas qualidades técnicas, seria difícil dar totalmente errado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

VAMOS JOGAR UM JOGO...

★★★★★★★
Título: O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
Ano: 2014
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 114 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um matemático, suposto ser o melhor do mundo, é contratado pela inteligência britânica para integrar uma equipe delegada a descobrir como decodificar as mensagens criptografadas pelos nazistas durante a segunda guerra.

O QUE TENHO A DIZER...
No começo do filme, Alan Turing, interpretado por Benedict Cumberbatch, diz que falamos coisas enquanto pensamos outras na intenção de que os outros adivinhem o que realmente queremos dizer, e que ele simplesmente não consegue entender esta linguagem confusa. Essa idéia se repete na segunda metade do filme, quando Alan observa seu colega de trabalho decifrar os "códigos" e a "linguagem corporal" da garota com quem flerta, enquanto era muito mais fácil algum dos dois se dirigir diretamente ao outro e colocar claramente suas intenções. É o significante e o significado. As dificuldade de Alan em compreender as manobras linguísticas que o ser humano utiliza para driblar a verdade ou a literalidade justificam a grande facilidade e preferência que ele tinha com números e letras, pois a linguagem com estes símbolos é clara e óbvia.

A maneira um tanto filosófica como este pensamento é posto no filme, além de ser uma das poucas em que funciona como uma ação de efeito sem parecer forçada ou cliché, também encaixa-se perfeitamente no contexto lógico do matemático, resumindo perfeitamente a maneira simples e primitiva como as máquinas "pensam", que embora primitiva, ainda é a forma como elas são construídas até hoje. Tanto é assim que um computador não consegue entender um comando caso ele não seja executado com precisão. Até mesmo os complexos códigos binários dos serviços de busca, como o Google, não retornarão informações precisas caso não sejam solicitadas buscas da maneira correta. É assim como Alan se comporta quando seus colegas indiretamente o convidam para lanchar, pois dizer que irão lanchar é diferente de convidar para lanchar e dizer para alguém que está com fome é diferente de perguntar se está com fome.

O título se refere ao famoso Teste de Turing, teste o qual todo o recente filme Ex_Machina (2015) é baseado e brilhantemente executado, comentado no post anterior. Neste teste, um humano deve interagir com uma fonte de inteligência e depois avaliar se era uma máquina ou um humano. Ele é positivo se a pessoa considerar que a interação foi humana quando, na realidade, ela foi artificial.

Apesar do filme tratar desse tema, ele não é tecnológico como o filme de Alex Garland, pelo contrário. Até porque a história se passa na década de 40, época em que a máquina decodificadora projetada por Turing foi o primeiro esboço daquilo que viria a ser os computadores. O fato é que o roteiro de Graham Moore, baseado no livro de Andrew Hodges, irá tratar muito mais da humanidade que se perdeu há muito tempo e deste grande e complexo sistema chamado comunicação.

A dificuldade de Alan de se comunicar e de explicar em palavras suas idéias é o que gera repulsa e desconfiança por parte de seus superiores e demais colegas, mas ninguém tentou compreendê-lo da forma como ele realmente é, com excessão de Joan Clarke, interpretada decentemente por Keira Knightley. É no momento que ela o ensina a ser mais simpático e carismático, como a política social convencional manda, que os demais personagens percebem que Alan não é um monstro arrogante e egocêntrico como acreditavam, mas um ser humano excêntrico, com uma cabeça que se organiza de forma confusa e compreende as coisas de maneira bastante particular, simples e até primitiva, como sua máquina, o que o caracteriza como um ser humano genuinamente ingênuo e fará com que muitas pessoas se aproveitem disso.

Esse "jogo da imitação" terá vários significados no filme, desde a interação entre Alan e as outras pessoas, assim como dele mesmo com a própria máquina que criou. Enquanto a maioria dos demais personagens tratam Alan como uma máquina ou um objeto, ele por sua vez tratará sua máquina como uma pessoa. A máquina se chamará Christopher, em referência ao primeiro grande amor do personagem. Esta construção feita por Moore é um dos pontos mais altos do filme e que, assim como em Ex_Machina, indiretamente nos mostra que o teste inventado por Turing chega a ser positivo até mesmo para ele, o próprio criador.

A fidedignidade do filme com a história real é bastante falha e controversa. Obviamente houve uma dramatização muito maior tanto na esquizitice do personagem quanto de sua relação com Joan. Além dos fatos não terem ocorrido na cronologia histórica correta. Há também erros científicos como a programação da máquina pela busca de palavras chaves ter ocorrido depois que ela já estava em funcionamento. Na realidade, a máquina desenhada por Alan, bem como qualquer processo de decodificação, necessita obrigatoriamente de simbolos chaves comuns para que o processo seja bem sucedido. O filme também mostra um Alan Turing com claros sinais de Asperger, um tipo de autismo, quando fontes próximas ao verdadeiro Alan informaram que, embora ele tenha sido uma pessoa bastante particular, ele era muito sociável e dotado de um excelente humor, algo que pessoas com esta condição não possuem.

De qualquer forma o roteiro desenvolve muito bem a história e seus personagens, pecando apenas nos coadjuvantes que fazem parte do núcleo do protagonista, onde alguns deles não tem suas funções muito definidas na história, aparecendo e saindo de cena apenas para complementar o cenário. Cumberbatch, junto com Michael Keaton, era o mais cotado para o Oscar 2014, mas nenhum dos dois levou o prêmio. A competência do ator é inegável, a sofrida solidão, a ingenuidade inerente e a dificuldade de compreender a linguagem dos homens sensibiliza profundamente, até mesmo em momentos dramáticos um pouco exagerados que já chegamos a ver em alguma telenovela por aí. Isso talvez seja culpa do rosto forte e com traços bastante expressivos do ator, que não precisa de muito para chamar a atenção e ser impactante.

Mas o que mais impressiona, no mau sentido, é a direção do norueguês Morten Tyldum, que havia dirigido antes o excelente e engajado Headhunters (2011). Embora grande parte do filme se mantenha sempre numa zona segura e bastante limitada, há erros de continuidade e até mesmo eixo de ação invertido, o erro mais clássico de todos, no momento em que Alan está à mesa, sendo interrogado pelo delegado. O erro foi tão grosseiro que é nítida a tentativa de conserto ao espelharem a imagem para fingir que ela está no eixo correto, mas a franja muito bem definida de Benedict Cumberbatch condena a evidente confusão.

Apesar de alguns erros até grosseiros e uma dramatização dos fatos muito maior do que deveria, ainda sim consegue ser emocionante por conta do domínio de Cumberbatch em cena e a honestidade com que ele conduz as situações. Excluí-se a ficção e temos uma história bastante impressionante, não apenas por Alan ter sido visionário e pioneiro no desenvolvimento da alma de um computador e a importância que essas máquinas tem em nossas vidas atualmente, mas também pela perseguição que sofreu por ser homossexual, onde ignoraram completamente a importância que ele teve durante a Segunda Guerra simplesmente por um julgamento social infundável que o levou a cometer suicídio em 1954.

O filme termina de forma até brilhante, afirmando que Turing teve uma importante participação no fim da Segunda Guerra e que isso foi tardiamente reconhecido, e que após a queda do nazismo, a Grã Bretanha condenou mais de 49 mil homossexuais por sua sexualidade. Ou seja, lutaram contra o nazismo, mas perpetuaram o crime humano de outras formas.

CONCLUSÃO...
Não chega a ser um filme tipicamente histórico, mas que desenvolve entre boas doses dramáticas e exageros ficcionais algumas idéias sobre como os homens se relacionam entre si, como a comunicação se tornou complexa e como cada vez mais precisamos de máquinas para interceptar e facilitar esta relação. Além da crueldade humana, da indiferença e do completo julgamento aleatório. A manutenção da violência enquanto ela nos engrandece, como bem é dito durante o filme.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO...

★★★★★★★★★☆
Título: Ex_Machina
Ano: 2015
Gênero: Drama, Suspense, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Alex Garland
Elenco: Domhnal Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
País: Reino Unido
Duração: 108 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um rapaz que irá participar de um fascinante e complexo experimento no qual deverá interagir com uma inteligência artificial em forma de uma mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Caleb (Domhnall Gleeson) é um programador que trabalha numa grande empresa chamada Blue Book, a maior e mais importante ferramenta de pesquisa existente, o equivalente ao Google ou Facebook. Ocorre um sorteio interno na empresa, cujo prêmio será passar uma semana com o todo poderoso Nathan (Oscar Isaac), o gênio recluso por trás da criação e do sucesso de toda a companhia.

A mansão subterrânea de Nathan é também seu escritório de trabalho, por onde monitora meticulosamente todas as atividades da empresa e cada um da extensa lista de funcionários. É também seu laboratório particular de experimentos, criação e desenvolvimento de novas tecnologias. Bastante iluminada e automatizada, fria e sem qualquer personalidade, essa atmosfera pálida onde tudo é geometricamente definido muito se assemelha com a fotografia de A Pele Que Habito (La Piel Que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar, cuja artificialidade gera um incômodo constante. É preciso permissão de acesso para qualquer parte do grande complexo que se molda perfeitamente dentro da própria natureza sólida e gélida onde está localizada. É como se Nathan não acreditasse no ser humano de alguma forma, mantendo distância por não saber se relacionar com ele.

Quando Caleb chega, Nathan até tenta tratá-lo com informalidade para "quebrar o gelo" do primeiro contato, mas a austeridade patronal e a frieza de tudo, inclusive dele mesmo, impedem uma aproximação mais calorosa e receptiva. Para piorar as coisas, Caleb é induzido a assinar um contrato de confidencialidade sobre tudo que ver, ouvir, ler ou acessar durante os sete dias que estiver hospedado lá. É então que ele descobre que sua função é participar de um experimento dentro do Teste de Turing, que é interagir com uma máquina e avaliar se ela realmente possui inteligência artificial ou não.

E então nos é apresentado Ava, uma fembot, ou seja, um robô com características e personalidade feminina que fala, ouve, vê, interage, dialoga, pensa e tem sentimentos. Ava é uma mistura de Andrew, de O Homem Bicentenário (1999), com Samantha, o sistema operacional de Ela (2013), de Spike Jonze. E ao mesmo tempo que ela tem a ingenuidade de David, de A.I. (2001), o sentimento de que a qualquer momento ela se volte contra alguém é inevitável, tal qual a atitude de Hal em 2001 (1968), de Kubrick.

Ava possui uma inteligência artificial fluida, responsiva, distinta e adaptável, "como se ela pensasse antes de dizer algo", como diz Caleb em um determinado momento. Isso acontece porque Nathan criou o cérebro artificial reunindo todas as informações de busca realizados na Blue Book, pois as ferramentas de busca são mapas de como as pessoas pensam. É como se Ava tivesse um Google dentro de sua cabeça, agindo de forma às vezes impulsiva, às vezes responsiva, imperfeita, padronizada e caótica, tal qual a forma como as pessoas fazem suas pesquisas. Ou seja, uma justificativa simples sobre a forma de Ava pensar, mas ao mesmo tempo sólida e absolutamente coerente com a nossa realidade.

Caleb fica fascinado com a criação de Nathan, o que é obviamente fascinante por si só tamanha a perfeição. Mesmo visualmente simples, todo o conjunto funciona. Os efeitos especiais que dão o visual tecnológico, mas ainda orgânico, nunca atrapalham essa simplicidade principalmente porque Alicia Vikander não atua com movimentos mecânicos ou clichés, como Schwarzenegger em Exterminador, mas limitadamente, num controle físico e expressivo surpreendente, como que movida a impulsos eletrônicos.

É impossível não se sentir atraído por Ava, tanto pelo que ela é quanto pelo que ela faz. Confinada em um quarto, limitada apenas àquele ambiente como um computador em uma mesa cuja função é estar sempre à disposição de seu usuário, ela tem um rosto, tem expressões faciais, vocais e corporais, e por isso conseguimos enxergá-la como uma pessoa, e nos sensibilizamos com as angustias das quais ela está programada a sentir, sendo a solidão a maior delas. Sim, nos sentirmos sensibilizados por ela nos dar essa sensação de que também fazemos parte do mesmo teste pelo qual Caleb passa, e isso é um dos elementos mais interessantes e também impressionantes do filme.

A trama toma outro rumo quando, durante uma queda de energia do complexo, seguros de que não estavam sendo observados, Ava pede a Caleb que não acredite em tudo que Nathan diz. A partir daí o protagonista deixa de ser uma peça passiva da história para definitivamente agir nela. Ele é tomado por paranóias, que se intensificam na medida que o sentimento de confinamento aumenta e a sensação de ser apenas mais uma peça do experimento fica cada vez mais evidente.

Dirigido e escrito por Alex Garland, o filme segue uma linearidade e uma coerência quase perfeitas. Garland já foi responsável pelo roteiro de três filmes do cineasta Danny Boyle: A Praia (The Beach, 2000), Extermínio (28 Days Later, 2002) e Sunshine (2007). Ex_Machina é o primeiro que dirige em sua carreira, e o faz muito bem, tanto que ele consegue esse raro fenômeno de manipular o espectador e literalmente enfiá-lo dentro da história como um diretor veterano poderia fazer.

Ao contrário da impressão que passa pela forma como foi promovido, como um thriller intenso sobre a relação homem/máquina, o que vemos de fato é um filme bastante equilibrado em todos os quesitos, que ao contrário de simplesmente contar uma história, ele dialoga com seu espectador e o insere na mesma situação que o protagonista se encontra. Garland primeiro nos apresenta os ambientes e os personagens, depois ele nos abraça de forma envolvente com a fluidez da trama, e apesar do final ser até previsível, não é previsível o caminho até ele. Acima de tudo é um filme humano dentro da frieza de seu contexto, que explora as essências mais complexas da solidão e da necessidade de afeto, como isso tem refletido no avanço tecnológico e como cada vez mais tentamos inserir essas necessidades naquilo que podemos utilizar no cotidiano, como uma forma de compensar a falta da proximidade e da relação humana.

É claro que cada um dos personagens irão nos surpreender em seus determinados momentos porque Garland desenvolve com clareza a personalidade de cada um, sendo compreensível o que cada um deles faz, e os motivos que os levam a agir de formas tão diferentes.

Por um lado há Caleb, um jovem extremamente ingênuo, bondoso e solitário. Por todas essas características que ele tem, ele é facilmente manipulável. Depois há Nathan, que tem um pensamento extremamente científico, que analisa e quer dados empíricos sobre aquilo que desenvolve, pouco se importando com os meios utilizados para o fim esperado. Se Ava é um robô ou não, se tem sentimentos ou não, ou se Caleb é um ser humano frágil, ele pouco se importa. O que Nathan quer saber é se o objetivo de transformar Ava no mais humano possível, ao ponto de nem mesmo um humano conseguir distinguir a diferença, foi alcançado. A verdade é que ele consegue atingir esse objetivo porque Caleb responde a Ava como se ela fosse realmente uma humana. Nós, espectadores, respondemos como se ela fosse humana. Até mesmo Nathan, em alguns breves momentos, mostra que isso atingiu ele próprio sem ele mesmo perceber. As breves reações de raiva ou impaciência de Nathan, ou a busca pelo afeto que ele demonstra em algumas partes (e que não cabe dizer em quais circunstâncias para não estragar as surpresas), já demonstram por si só que até mesmo ele se confunde com sua própria criação. E são nesses momentos que o Teste de Turing se comprova definitivamente positivo, já que uma das características para isso é a interação entre o homem e a máquina sem que o homem perceba isso.

Aí temos Ava, cujos sentimentos, sensações, frustrações, desejos, vontades, aspirações e demais sensações aleatórias, existem dentro dela. A forma dela de racioncinar é baseado unicamente como uma barra de pesquisa do Google. Ela raciocina em cima do raciocínio de pesquisa das pessoas. Então ela vive em um conflito constante sendo um robô, mas pensando como um humano; sendo um robô, mas tendo sentimentos; sendo robô, mas com vontades de descobrir o mundo, tal qual o mito da caverna, de Platão.

É necessário compreender que, apesar dos antagonismos levarem a história para um final um tanto óbvio, o importante é que não existem vilões na história. Não existe bem ou mal, porque existem três pessoas e três personalidades agindo não por instinto, mas em cima daquilo que elas acreditam. Caleb tenta proteger Ava a todo instante; para Nathan, Ava é apenas mais um produto em teste; Ava luta para sobreviver, tal qual um humano faria.

O desenvolvimento do filme fecha em um ciclo perfeito. A construção é lenta e prende a atenção porque queremos saber qual será seu fim. As referências, principalmente à mitologia Grega, como o de Prometheus e a mitos, como o já citado de Platão, são sutis, mas presentes de maneira pontuada e proposital. Não empolgará como um filme de ação ou um thriller intenso, mas ele nos leva a uma jornada de conhecimento que mostra que a própria evolução do ser humano é perigosa para ele mesmo.

Claro que não se pode deixar de notar uma certa metáfora existente sobre o controle de informação que a internet gerou e o poder que ela concentrou a algumas corporações. Se começarmos a associar o nível de informações que o Google ou o Facebook tem de todos seus usuários e as mudanças que ocorreram recentemente, como a forma como eles respondem e interagem às pesquisas de seus usuários sobre aquilo que buscam no cotidiano, isso tudo é apenas o princípio daquilo que é Ava propriamente dita. Então, de certa forma, os detentores dessas informações se transformaram nos novos exploradores de petróleo, como diz o próprio Nathan. Eles podem agir da forma que quiserem com você, e você irá interagir, irá acreditar e será manipulado por eles da mesma forma como os personagens neste filme manipulam e são manipulados.

O filme teve um orçamento de US$11 milhões. Por ter uma narrativa incomum ao gosto popular, até que tem se saído bem, arrecadando mais de US$19 milhões em seis semanas de exibição, com média 8 no IMDb baseado na avaliação de mais de 43 mil usuários cadastrados até o momento. Isso significa que a probabilidade de ele ser lembrado nas premiações será grande, porque sem dúvida é o primeiro grande filme do ano e figurará na lista dos melhores.

CONCLUSÃO...
O primeiro grande filme do ano. Com um desenvolvimento que se fecha em um ciclo perfeito. A atenção dada aos mínimos detalhes deste longa o transformaram em uma jornada fascinante e ao mesmo tempo assustadora sobre os avanços tecnológicos e quão longe pode ir o controle da informação, no qual estamos todos vulneráveis.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O MILAGRE DA CRIAÇÃO...

★★★★★★
Título: Grace And Frankie
Ano: 2015
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen, Sam Waterston
País: Estados Unidos
Duração: 29 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Grace e Frankie são duas rivais que são obrigadas a aceitar um fato comum entre elas, o anúncio de seus maridos de que eles estão apaixonados um pelo outro.

O QUE TENHO A DIZER...
Jane Fonda, é Grace, repetindo mais uma vez o papel de aristocrata egocêntrica e egoísta. Lily Tomlin é Frankie, repetindo mais uma vez o papel de mulher excêntrica e espiritualizada. A história começa com as duas se encontrando em um restaurante, e a primeira impressão é óbvia: elas se odeiam. Por qual motivo, não sabemos, só sabemos que é assim. Ambas esperam seus maridos chegarem, e acreditam que o jantar tenha a ver com alguma reunião de negócios, já que os dois são amigos há anos e possuem investimentos juntos. Sol e Robert chegam ao restaurante, interpretados respectivamente por Sam Waterston e Martin Sheen. Assim que eles entram em cena não demora muito para que ambos peçam o divórcio. O fato é que eles são amantes há 20 anos, dos 40 anos que estão casados com suas respectivas esposas.

Claro que o choque é inevitável por várias razões. Primeiro porque é inesperado ver Martin Sheen em um papel como esse, ator que interpretou papéis extremamente masculinizados ao longo da carreira. Segundo, e o mais importante deles, é a situação constrangedora em que os dois colocam suas esposas, como que a dizer que metade da vida que passaram juntos foi uma grande farsa.

Não deve ser fácil para ninguém ter de engolir a seco o fato de que a pessoa com quem se viveu por 40 anos dedicou metade desse tempo em uma vida paralela. Independente da sexualidade ou com quem isso foi feito, o sentimento de impotência e de traição é o mesmo. E a traição aqui não é simplesmente aquela situação casual que poderia eventualmente ocorrer em uma relação tão longa como a dos protagonistas, mas da falta de diálogo, da honestidade, da sinceridade e da confiança que deveria existir em uma parceria tão longa. E foi essa a forma e o tom com que a situação foi abordada. Nem Grace, nem Frankie, apontam com discriminação ou preconceito sobre a verdadeira sexualidade de seus esposos, a indignação e a revolta que toma conta de todos é única e exclusivamente sobre nunca terem prestado atenção em suas relações ou nunca terem se aberto o suficiente para que esta notícia não tivesse demorado 20 anos para ser dada. Isso sem dúvida deixará uma sensação um tanto alcalina entre os casais que assistirem ao seriado, pois irão, em algum momento, mesmo que em silêncio, se questionar se eles realmente conhecem um ao outro como acreditam.

Sim, esse teor satírico sobre os rumos que uma relação de longo termo acaba tomando é um dos pontos fortes desse novo original da Netflix.

A princípio não há muito para se julgar, pois as situações e diálogos são sempre momentâneas, nada que se aprofunde em algum passado, com excessão de um ou dois episódios. Para um seriado de comédia, não há risadas genuínas nos primeiros minutos do primeiro episódio, algo que não se espera quando se reune duas atrizes deste calibre em um gênero como esse. Mas até aí tudo bem porque é um produto Netflix, e como tudo é liberados de uma vez, não há necessidade de impressionar e atirar para todos os lados logo nos primeiros episódios. O grande problema surge quando os episódios vão indo embora, mas a sensação de ser sempre o primeiro não acaba. Parece que não desenvolve nunca.

Criado por Marta Kauffman e Howard Morris, essa comédia diferenciada tenta aproveitar um grupo de atores experientes que andavam bastante subaproveitados por já terem passado dos 60 anos e, ao mesmo tempo, ser uma aposta da companhia de agradar o público mais maduro que assina seus serviços e que está carente de produtos equivalentes em todos os lugares.

O problema aqui é que Marta Kauffman, que também assina o roteiro, tem uma bagagem muito diferente. Suas experiências e habilidades como criadora e roteirista de sitcoms renomadas como Friends ou Veronica's Closet por vezes não se encaixam nessa produção justamente porque o formato é completamente diferente do que ela está acostumada.

Sitcoms, embora também gravadas em estúdio, são geralmente feitas ao vivo para uma platéia real responsável por dar o feedback imediato aos atores e roteiristas de que o material funciona ou não. Então, se acontece de haver alguma entrada errada ou piada mal colocada, o roteiro sofre readaptações até de última hora, coisa que não é possível em um roteiro fechado, como é aqui. E Kauffman na verdade passa a impressão de ter escrito este seriado para uma platéia que faltou, e isso a deixa muito tempo perdida no resultado, e no mesmo fica o espectador.

Nos primeiros episódios as piadas ou diálogos engraçados soam arrastados, como que esperando aquele "saco de risadas" das sitcoms que nunca acontece, gerando um vácuo desagradável. Os diálogos por vezes não são fluidos, e a espontaneidade da lugar a situações marcadas, carentes de uma direção dinâmica que condiziria melhor com a experiência que os atores possuem, principalmente Lily Tomlin, que de longe tem a veia mais cômica de todos eles. Para quem conhece os trabalhos da atriz, a princípio pode até acreditar que ela esteja "enferrujada" ou pouco à vontade, mas essa impressão acaba quando Kauffman finalmente relaxa e os personagens começam a ganhar vida própria. É quando acontece o "milagre da criação" e tudo flui como deveria ter sido desde o princípio.

Se por um lado o roteiro acertou deste o princípio na forma até honesta, delicada e moderna com que toda essa bagunça sentimental dos personagens é lidada, por outro não foi tão feliz nesse desenvolvimento lento. Mais que lento, acretido que tenha sido um desenvolvimento perdido, daqueles que os roteiristas não sabem bem que rumo dar à história ou aos personagens, e subitamente, como em um desbloqueio criativo, todo o universo se abre para eles. Tanto é assim que de repente os personagens, tanto principais quanto coadjuvantes, deixaram de ter conflitos aleatórios e rivalidades desnecessárias, mesquinharias dos primeiros episódios que mais incomodavam do que geravam interesse.

O seriado na verdade deveria levar os nomes de Robert e Sol, já que esses personagens são muito mais interessantes juntos do que a pseudo-rivalidade entre Gracie e Frankie parecia ser. Na verdade, eles poderiam muito bem ter um show só deles. A decisão do casal vivido por Sheen e Waterston de finalmente assumirem sua relação e sexualidade na terceira idade é, de longe, o tema melhor desenvolvido, além do conflito de terem escondido isso por tanto tempo ser muito mais interessante pelo ponto de vista deles do que delas. Até as situações e a química entre os dois atores é muito maior e naturalmente cômica quando, por um lado, há o romantismo e a sutileza de Sol, e por outro a natural rispidez e seriedade de Robert, o qual supreende quando extravasa suas liberdades sexuais em alguns breves momentos de espontânea delicadeza.

Mas claro que a relação das protagonistas também é interessante. Embora as duas tenham 70 anos de idade, de muitas coisas da vida elas se esqueçaram nos últimos 40 anos, como, por exemplo, viver fora da bolha familiar que estavam. Tudo agora será uma redescoberta, como voltar à adolescência. Soferão de paixões, redescobrirão o sexo e cometerão erros típicos de uma época que se apagou com o tempo. Trocarão confidências, farão fofocas e machucarão umas às outras sem intenções, ao mesmo tempo que o próprio tempo mostra cada vez mais que definitivamente o que elas precisam é uma da outra.

É evidente que o seriado não foi polido da mesma forma como ocorreu com os outros originais dramáticos da Netflix. Talvez isso tenha acontecido pela falta de produtos originais cômicos no serviço e a pressa de produzi-los agora, o que é normal, só não pode se tornar um hábito.

Esta nova produção definitivamente não é de toda ruim. Consegue ser leve e divertida. Acima de tudo, é agradável. Uma pena que ela demora muito para encontrar seu tom e os personagens finalmente terem suas personalidades exploradas além do superficial. Como dito, é quando o roteiro deixa a pretensão de lado que tudo passa a fluir. Isso é evidente a partir do quinto ou sexto episódio, quando aqueles raros momentos genuinamente engraçados dos primeiros episódios vão dando lugar para um bom humor cotidiano simples e que funciona. Nada de sarcasmos ou exageradas ironias, a impressão que se tem é que Kauffman e Morris finalmente sacaram que a grande virtude do que criaram é a pura simplicidade.

Ainda que não seja um seriado que realmente prenda a atenção e que faça o espectador devorar tudo em uma única tarde, a árdua tarefa de se arrastar pelos primeiros episódios é compensada por uma repentina magia que toma conta de tudo depois. Os ajustes demoraram para aparecer, e agora que apareceram, que sejam mantidos assim para uma provável segunda temporada.

CONCLUSÃO...
A proposta desse mais novo original da Netflix é interessante, mas derrapa e se arrasta nos primeiros episódios por conta de uma falta de identidade. É quando os roteiristas evidentemente relaxam que o texto flui e o "milagre da criação" finalmente acontece, aquele em que os personagens parecem ganhar vida própria, os atores finalmente se interagem como deveriam e o humor genuíno simplesmente brota sem esforço. Então tudo toma uma outra forma, uma outra cor, e uma simplicidade tão deliciosa que, perto de tanta pretenção atualmente no cinema e na televisão, assistir algo simples é mais que bem vindo.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

VIDA IMITANDO ARTE...

★★★★★★
Título: Bridegroom
Ano: 2013
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos
Direção: Linda Bloodworth-Thomason
País: Estados Unidos
Duração: 68 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
As dificuldades de Shane Bitney Crone em participar do velório de seu namorado e companheiro de seis anos por falta de respaldo legal, já que foi impedido pela família de seu noivo de comparecer por ser gay.

O QUE TENHO A DIZER...
A idéia do documentário surgiu após Shane Bitney publicar um vídeo no YouTube que se tornou viral, até hoje visto por mais de 5 milhões de pessoas, sem contar as repostagens do vídeo por outros usuários. Entitulado It Could Happen To You, a intenção foi homenagear um ano da morte de seu companheiro, Thomas Bridegroom. Foi então que Linda Bloodworth-Thomason propôs realizar um documentário em longa metragem para se aprofundar na história do casal, e a arrecadação teve início no Kickstarter, recebendo mais de US$300 mil em doações, se tornando o documentário que mais arrecadou fundos públicos até hoje.

O longa começa esclarecendo como aconteceu o trágico acidente. O jovem de 29 anos caiu do alto de um prédio de quatro andares por pura desatenção. Fotografando sua amiga durante a noite, às vésperas de anunciar seu noivado com Shane Bitney, ao dar alguns passos para trás, nenhum dos dois percebeu que ele já estava próximo ao parapeito. Então ele caiu.

Foi uma tragédia simples assim. Um acidente cuja probabilidade de acontecer era a mínima possível, mas aconteceu por uma daquelas razões que a vida não consegue explicar, numa ironia da vida que imita a arte que se encaixaria perfeitamente no filme Magnolia (1999), principalmente porque Shane havia pedido alguns momentos antes a Tom, via iMessage, que ele ficasse longe do parapeito. Ouvimos uma inserção do chamado de emergência e logo após Shane aparece em um vídeo pessoal contando sobre as similaridade de ambos. Ele está em prantos, lembrando da música de Garth Brooks que mais gostavam e que se tornou a música "deles". É triste, e a mesma dor sentimos nós que assistismos, claro que não na mesma intensidade. A situação parece cafona e um tanto forçada, mas o sentimento de Shane é genuíno e profundamente sentido, como um buraco sem fundo e nem começo.

Esse início não deixa de ser emocionalmente tendencioso, e já sabemos logo de cara que a função primária do documentário será sensibilizar seu espectador para desarmá-lo o mais breve possível para que a história dos dois seja contada sem a interferência de prováveis preconceitos. E assim tudo é conduzido.

Shane narra cronologicamente diante das câmeras sua infância e adolescência, a dificuldade em aceitar sua sexualidade, o assédio que sofreu na pequena cidade onde morou até o momento em que conheceu Tom. Há declarações de seus pais, amigos e demais pessoas que o amam incondicionalmente e que presenciaram suas crises de pânico, sua profunda depressão e finalmente a sublime felicidade do seu primeiro amor e os seis anos que seguiram.

Realmente, não há como não se sentir impotente diante de uma infância como a vivida por ele e imaginar os prováveis traumas ainda carregados por conta disso. A dimensão se torna muito mais assustadora ao pensarmos que muitas outras pessoas passaram pelo mesmo, e ainda passam. Mas também somos reconfortados por termos a oportunidade de ver que, apesar de breve frente ao tempo de toda uma vida, ele foi recompensado com um amor puro e genuíno, ainda mais nos dias de hoje, em que tudo parece tão efêmero, vazio e esquecível.

Por mais triste que tenha sido sua infância, e por mais dolorosa que tenha sido sua adolescência, a narrativa já havia mostrado logo no início o pior que está por vir. Além da morte de seu noivo, a proibição da família de Tom de que Shane participe dos funerais simplesmente pelo fato dele ser gay é, dentre todas as coisas pelo que ele passou, talvez a mais desrespeitosa delas. A falta de consideração e sensibilidade dos pais do falecido é o que mais choca não apenas o jovem, mas também o espectador, por conta da frieza e calculismo com que fizeram tudo.

Como se nenhum sofrimento fosse o bastante, ele chegou a ser fisicamente ameaçado pelo seu sogro, e para evitar maiores problemas, optou por nada fazer. Sem qualquer respaldo legal, Shane estava à deriva, e presenciou o velório e o enterro por uma distância tão longa que mal pode enxergar o que acontecia. Para concluir seu processo de luto, teve de fazer o seu próprio velório simbólico à parte, com seus amigos. Nada poderia ter sido mais indigno que isso. 

O que torna o documentário algo profundamente verdadeiro e emocionalmente devastador é exatamente os seis anos de relação que Shane e Tom tiveram de constante alegria, sonhos a serem realizados e um amor que muita gente acredita existir apenas no cinema. De repente tudo isso é interrompido precocemente, sem uma causa mais óbvia do que um acidente puramente banal. O sentimento fatalista é inevitável, e embora essa história tenha um teor muito parecido com o filme Direito de Amar (A Single Man, 2009), de Tom Ford, aqui ela não é uma ficção baseada em um livro, mas um fato real contado e documentado por uma pessoa que agora carrega uma profunda cicatriz, juntamente com diversas outras.

Sem dúvida, o excesso de sentimento peca na falta de um conceito mais sólido. O documentário foi promovido tal qual sua sinopse, como uma tentativa de compreender ou minuciar a falta do respaldo legal frente a situação vivida por Shane. Ao invés de uma busca por soluções, o que assistimos de fato não é bem isso. A diretora poderia ter desenvolvido uma discussão paralela sobre quais alternativas Shane poderia ter tido, ou o que ele poderia ter feito mesmo sem apoio legal. Um esclarecimento sobre quais as leis existentes (ou a falta delas) que dificultavam este acesso e quais mudanças deveriam ocorrer seria crucial para que o documentário cumprisse sua função social esclarecedora e modificadora. Relatos de casos similares teriam sido, sem dúvida, importantíssimos para fortalecer dados estatístico que anulasse a idéia de que este é um caso isolado.

Logo, o que vemos são 68 minutos de uma bela história de amor muito bem desenvolvida por conta do vasto acervo pessoal de imagens e vídeos que o casal colecionou ao longo dos anos. Nada que saia da zona de segurança de uma biografia qualquer, ao contrário do vídeo de 11 minutos feito pelo próprio Shane Bitney para o YouTube, que mesmo curto e amador consegue ter um apelo social muito mais forte e condensado do que este longa.

Sensibilizar o espectador é a regra que rege em qualquer documentário dramático, e embora este material celebre a espiritualidade humana e o amor incondicional acima de qualquer coisa, esta celebração também poderia ter sido muito bem aproveitada se circundasse um contexto mais social do que a superfície.

Como a própria bisavó de Shane diz, esta história não é de Romeu e Julieta, mas sim de Romeu e Romeu, e as pessoas devem aceitar isso.

Mas o que fazer ou como fazê-las aceitar deveria ter sido um excelente propósito final do material.

CONCLUSÃO...
Apesar de ser muito mais uma biografia do que um documentário, sim, ainda é muito triste a forma como a sociedade recrimina e discrimina a homossexualidade de forma tão abusiva e chocante. O assédio sofrido por jovens homossexuais traz consequências psicológicas desastrosas, já que a vítima observa a velocidade com que as portas se fecham ao seu redor e não encontra nenhuma outra saída além do seu próprio isolamento. Há a perda de tudo. Da esperança, da juventude, da autoconfiança e, principalmente, da ingenuidade de uma descoberta sexual que não pode ser culpada de existir e acontecer. Muito menos podem ser culpadas as pessoas que passam por isso. É cruel a forma como o ser humano se presta ao trabalho de reduzir a vida alheia na primeira oportunidade possível, ao invés de valorizá-la e parabenizar o próximo por estar vivo, por fazer suas próprias escolhas e buscar a felicidade à sua própria maneira. Ao menos se respeitassem o sentimento mútuo de duas pessoas, algo que nem isso ocorre na maioria das vezes, nem mesmo durante o luto.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A VIDA POR SI SÓ...

★★★★★★★★
Título: Life Itself - A Vida de Roger Ebert (Life Itself)
Ano: 2014
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos
Direção: Steve James
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A trajetória de Robert Ebert, de um jornalista para um dos mais célebres críticos de cinema do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Todos nós somos críticos. Todos nós criticamos algo a todo instante. Não é necessário articulação para opinar sobre algo, e opiniões sólidas nem sempre precisam de valores técnicos, apenas observação. Há valor na opinião leiga, desde que esta seja sensível o suficiente para notar as nuances, mesmo não sabendo como explicá-las tecnicamente.

Para todo bom amante de filmes que se preze, Robert Ebert pode ser considerado um ícone com bastante folga. O jornalista norteamericano, que com apenas 21 anos já era editor de um jornal em Illinois, se transformou, por acaso, em um dos mais célebres críticos de cinema não apenas dos Estados Unidos, como também do mundo.

Segundo ele mesmo afirma no documentário dirigido por Steve James, esse acaso aconteceu quando o editor Robert Zonka ofereceu-lhe a função depois que Eleanor Keane deixou a redação do Chigago Sun-Times, em 1967. Ebert, com 25 anos, já era um escritor respeitado, autoritário e até arrogante, agia assim justificavelmente para impor seu trabalho acima de sua idade. Aceitou o convite e se dedicou integralmente, largando até a faculdade para concentrar seus esforços no trabalho.

"Eu nasci dentro do filme da minha vida... Não sei como entrei nele, mas ele continua me divertindo".

Esta é a frase que efetivamente abre o documentário sobre sua pessoa, e as reticências usadas talvez seja uma alusão às pedras que cruzam os caminhos durante nossa trajetória de vida. Misturando a difícil e particular realidade com o bom humor, ironias como esta marcam consideravelmente a grande personalidade de um homem que, apesar de sempre ter feito questão de dizer que era vencedor de um prêmio Pulitzer, nunca deixou de ser humano e acessível. E também são ironias como essa na qual todo o trabalho de Ebert se justifica, cujas críticas iam além das minúcias técnicas para baseá-las na própria vida como ela é, e nos sentimentos mais profundos que afloravam em cada cena, sequência, trilha sonora ou demais outros fatores que constróem a estrutura de um filme e a conexão emocional dele com as pessoas. Uma linguagem às vezes simples e sensível, sem deixar de ser observadora e verdadeira.

Suas críticas chamavam a atenção por serem simples e certeiras, que transformavam até os filmes mais comuns em obras de arte, e que mesmo quando devastadoras, conseguiam ser generosas. "Condenavam e ajudavam", como afirmou Scorcese sobre o crítico. Ebert tratava filmes como um padrinho, e repreendia diretores tal qual um sobrinho mal educado. Isso em uma época que escreviam críticas aqueles jornalistas que tinham assistido algum filme naquela semana, tudo feito com distância e sem comprometimento para aquilo apenas para preencher a coluna no jornal, tanto que os textos eram assinados por pseudônimos generalistas, como Mae Tinee, do jornal Tribune, pois sua pronúncia lembrava "matiné", e não porque era alguém de fato.

Esse comprometimento de Ebert foi o que chamou a atenção dos leitores. E o que fez dele um grande crítico foi o fato da facilidade que ele tinha em escrever muito bem e gostar do que fazia. Escrever e assistir filmes podia ser uma profissão, mas acima de tudo era um prazer pessoal ao ponto do insubstituível. Escrever o transportava para um mundo particular que lhe dava prazer pela vida e o ajudava a superar dificuldades. E assim foi até dois dias antes de sua morte, no último post que publicou antes de findar seu ciclo no dia 04 de Abril de 2013, por falência múltipla de órgãos, aos 70 anos.

Barbara Heliodora afirmou em uma entrevista para Ana Paula Conde que, para ser um bom crítico, em primeiro lugar, tem que adorar aquilo que irá criticar. Ela disse que o percentual de espetáculos ruins que via a cada ano era tão alto que, se ela não adorasse aquilo, já teria largado a profissão há muito tempo porque, às vezes, era um sacrifício ficar sentada na cadeira.

Barbara era uma crítica de teatro, mas a observação feita é universal, assim como é universal quando a mesma também disse que não é verdade que crítico gosta de falar mal porque não existe motivo para gostar de assistir coisas ruins. O problema está no desleixo e na falta de comprometimento, o "tanto faz" ou a idéia arrogante que alguns diretores tem de que são experientes o suficiente para sairem ilesos de defeitos. Se para ela isso não cabia no teatro, acredite, isso também não cabe no cinema.

E era exatamente desta forma como Robert Ebert se comportava em suas críticas. Acima de tudo, Ebert sabia distinguir os propósitos. Ele não fazia comparações discrepantes entre filmes e estilos, sabia que existia uma relatividade nisso. Cada um deles era direcionado para um público distinto, com propósitos distintos, e suas observações respeitavam isso.

Sem dúvida ele mudou a forma de se criticar o cinema e citações adjetivadas que hoje vemos frequentemente em cartazes, logo acima dos títulos, como "DELICIOSAMENTE INTELIGENTE", "PROFUNDAMENTE EMOCIONANTE" ou "BRUTALMENTE INCOMUM", são derivações que se tornaram corriqueiras depois dele, pois passaram a expressar poeticamente sentimentos comuns e mistos que os filmes sempre proporcionaram, mas pouca gente soube expor. Foi ele também quem popularizou, juntamente com seu colega Gene Siskel, o hoje tão conhecido "thumbs up", a marca registrada da dupla ao classificar um filme. Se era bom, polegares para cima, se era ruim, polegares para baixo.

A subida de Robert do posto de um crítico respeitável para uma celebridade com uma estrela própria na Calçada da Fama aconteceu quando resolveram juntá-lo com seu rival (e quase arqui-inimigo), Gene Siskel, também crítico do jornal Tribune, para apresentarem um programa semanal sobre cinema na emissora local, o que não demorou muito para ter excelente repercursão.

A união dos dois foi proposital e provocativa, com intenções apelativas já que a rivalidade de ambos era conhecida publicamente. Porém, o que ninguém esperava é que, com o tempo, eles descobriram que tinham muito mais em comum do que imaginavam, e embora a rivalidade sempre existisse, ela passou a ser muito mais uma rotina do amor fraternal e incondicional que nasceu, cresceu e se desenvolveu do que uma mera incompatibilidade geniosa de fato. Foi essa conflituosa relação de amor e ódio que fez tudo dar certo, até mesmo em momentos errados. A irredutibilidade de Siskel e a arrogância de Ebert tiveram um perfeito encontro que durou 24 anos, até a morte do colega e amigo em 1999.

"Para mim, o cinema é como uma máquina que gera empatia. O faz compreender um pouco mais sobre diferentes esperanças, aspirações, sonhos e medos. Ajuda você a se identificar com as pessoas que partilham dessa mesma jornada". É assim como se resume a sensibilidade crítica e artística que transcendiam sua personalidade humana e democrática.

É bem isso que vemos no terço final do documentário, quando o diretor infiltra mais ainda, e com sutileza, na vida pessoal e nas dificuldades que o crítico passou nos últimos anos em consequência a um câncer de tireóide que resultou em diversas cirurgias radicais debilitantes. E apesar de tudo, a positividade e esperança presentes em sua personalidade chegam a ser emocionalmente sinceras e relevantes, capazes de transformar corriqueiras insatisfações do dia a dia em episódios insignificantes que insistimos em deixar que nos atinja gratuitamente e tome um precioso tempo de nossas vidas.

Sem dúvida o material reunido por Steve James é honorável. Intimista sem ser invasivo sobre a vida de um homem que conseguiu mostrar que não é preciso sofisticação e requinte para atrair até mesmo aqueles que pouco se interessam pelo assunto, mas que a linguagem universal do cinema se resume na sensibilidade, no prazer pela vida e na sinceridade e respeito naquilo que se faz e pelas pessoas com quem se convive.

Claro que teria sido interessante se o documentário também tivesse focado um pouco mais nos trabalhos de Ebert, nas repercussões e consequências deles para o cinema atual, já que tanto ele, quanto Siskel, passaram a ser temidos pelos produtores e diretores de Hollywood. Mas talvez isso seja material para outro trabalho. E por que tanto o documentário quanto o livro de Ebert se chama Life Itself, como questiona o próprio diretor ao crítico?

A vida por si só já é a resposta.

CONCLUSÃO...
O cinema e a vida se conectam, e por mais que filmes sejam um reflexo da realidade, isso não significa que eles devam ser brutais. A única coisa que deve espelhar a realidade é a nossa face, em relação ao nosso coração. E essas são palavras baseadas naquelas ditas pelo próprio Robert Ebert.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

DARE THE DEVIL...

★★★★★
Título: Demolidor (Daredevil)
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ação, Aventura
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Vincen D'Onofrio, Toby Leonard Moore, Vondie Curtis-Hall
País: Estados Unidos
Duração: 45 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Sobre um cego que volta a Hell's Kitchen para abrir sua firma de advocacia durante o dia e a noite usar o peso da sua justiça para combater o crime.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu não sei como anda o consumo de histórias em quadrinhos hoje em dia, mas na minha época de criança - pelo menos na minha cidade - vendia-se muito. Eu só não via uma pessoa ler além de mim. Parece que as pessoas tinham vergonha em dizer que liam quadrinhos, talvez por isso faziam escondidas. Sei que vendia muito porque esgotava rápido. Era coisa da edição chegar na segunda-feira e eu ter que ir correndo na banca comprar porque na terça-feira já teria vendido tudo.

O que sei é que, com vendas ou sem vendas, a Marvel está dominando o planeta tanto quanto o Google e o Facebook. Seus filmes, em um período de 15 anos, já arrecadaram mais de US$ 10 bilhões no mundo. Isso é um número que alguns grandes estúdios não conseguem somar nos últimos 20 anos com seus principais títulos. A dominação da Marvel no gênero tomou tanta gente de surpresa que demorou os mesmos 15 anos para a DC e a Warner sairem do catatonismo e reagir a esse esmagador fato de que o mundo não é apenas Batman e Superman, e humanos adoram consumir filmes, séries e desenhos de qualquer super herói, mais do que histórias em quadrinhos.

Em uma parceria com a Netflix, o Demolidor virou uma série de 13 episódios. Demolidor será a primeira de quatro séries a serem lançadas pelo serviço entre 2015 e 2016, cada um sobre um herói, antes de uma minissérie especial reunir todos eles. Os demais seriados serão Jessica Jones, Iron Fist e Luke Cage, todos também da Marvel. Isso faz parte de uma estratégia da empresa bastante parecida com a que foi feita com Os Vingadores, em que os personagens primeiro tiveram seus filmes individuais para depois ter o filme com todos reunidos. É também parte da estratégia de expansão do Universo Marvel, que realmente fica cada vez maior e dominante.

A empreitada em Demolidor levou a experiência em adaptações de personagens de quadrinhos para a TV em outra escala. Diferente de Arrow ou The Flash, personagens da DC que atualmente fazem sucesso no canal Warner e produzidos para um público mais juvenil, Demolidor é feito para um outro tipo de público, aquele que gosta de produções caprichadas, histórias densas, climas sombrios e uma experiência cinemática muito maior. Como dito pelo próprio ator Vincent D'Onofrio, que faz o vilão Wilson Fisk, "a experiência não é de um seriado de 13 episódios, mas de um filme de 13 horas de duração". Realmente é essa a sensação que se tem tanto pelos elementos mais técnicos, como a cinematografia, a edição e direção, como também pela construção e desenvolvimento da história e de seus personagens, nos quais é possível notar as referências diretas e indiretas aos quadrinhos e uma progressão bastante linear e coerente de cada um deles, episódio a episódio.

Os episódios não tem qualquer relação com o filme de 2003 que estrelava Ben Affleck, nem ao menos na cronologia. A história mostrará o início de Matt Murdock na sua vida de vigilante solitário durante a noite, e de advogado durante o dia. Tudo terá início de fato em sua vida quando resolve salvar Karen Page, personagem também dos quadrinhos e que será o ponto de partida de todas as tramas e subtramas da série que se desenvolverá no bairro de Manhattan conhecido como Hell's Kitchen, lugar onde Murdock viveu boa parte da infância até seu pai ser morto por capangas da máfia aos 9 anos. É este o trauma principal do personagem, e a razão que o fará combater o crime na tentativa de livrar o bairro e seus moradores dos mafiosos. Será sua vingança de longo termo pela morte do pai.

A alcunha de "homem sem medo" ou de "diabo" que ele carrega não é à toa. Quando criança, Murdock sofreu um acidente no qual seus olhos foram queimados por um produto tóxico e radioativo. Ele ficou cego, mas em compensação a radioatividade deixou seus demais sentidos ultrasensíveis. Qualquer pessoa ou objeto que tenha temperatura, conduza energia, emita som ou faça movimentos, é o necessário para ele conseguir captar todas as formas ao seu redor, como um sonar ambulante. Ele não enxerga, mas seu cérebro consegue criar imagens sobre tudo que está à sua volta apenas pelas variações atmosféricas que esses elementos criam isoladamente ou em conjunto. Seus sentidos são tão aguçados que ele consegue prever ações e movimentos das pessoas apenas pela alteração do ar ou da pressão, ou do ranger dos ossos. Murdock consegue ler livros, revistas e jornais apenas sentindo o relevo da tinta no papel, e sabe se alguém mente apenas pela temperatura que o corpo dessa pessoa transmite, do suor que ela evapora, ou da frequência vocal e cardíaca que atinge. Ele não desvia de balas, mas consegue sair da mira antes do gatilho ser puxado até o fim.

Tudo isso parece impressionante, mas o seriado consegue fazer tudo ser crível ao ponto de conseguirmos imaginar como é essa bagunça na cabeça do herói. Nos quadrinhos houve uma personagem que conseguiu usar seus poderes para entrar na mente de Murdock, mas ela não conseguiu suportar muito tempo tamanha a força com que o cérebro dele trabalha para traduzir tanta informação. No seriado há um momento em que o personagem, ainda na infância, acredita estar ficando louco, quando lhe é dito que, na realidade, são os seus sentidos que se desenvolvem.

Diferente do filme, não são usados efeitos especiais de ponta para mostrar como são as imagens que se formam na cabeça de Murdock, mas a maneira como o diretor utiliza as cenas para demonstrar as sensações ao redor do personagem já conseguem fazer o espectador imaginar tudo isso de forma muito simples e convincente.

Como o seriado é hospedado pela Netflix, que libera seus episódios todos de uma vez, não há necessidade dos primeiros episódios terem o intuito de prender a atenção dos assinantes de maneira muito imediata. O roteiro até tenta soltar algumas cena de ação aqui e alí, mas o que manda, a princípio, é a apresentação dos coadjuvantes e a relação entre eles, sendo lá para o quinto episódio que todas as tramas vão tomando forma e direção.

Tudo vale a pena desde sua abertura, que basicamente ilustra como Murdock "enxerga" o mundo em que vive. A experiência que se tem é tão imersiva quanto a que Christopher Nolan criou com a trilogia Batman, naquela sensação crua e angustiante de que cada vez que o herói acredita estar próximo da solução e do fim, os fatos revelam-se muito maiores do que realmente são. Ou seja, quanto mais se cava, maior o buraco fica. Quando Murdock descobre a dimensão do problema em que se enfiou e as proporções de tudo aquilo que ele terá de combater, dá até vontade de desistir de tudo por ele, só pra facilitar as coisas e popupá-lo de tanto trabalho.

As tramas realmente foram muito bem construídas e caracterizam-no no gênero dramático e não simplesmente na ação vazia de herói combatendo vilões. Claro que qualquer motivo será motivo para o personagem sentar a mão em alguém e fazer da cena um festival de murros e voadoras tão bem coreografadas quanto em Matrix. E por mais que ele pregue que não mata, fica difícil levar isso muito a sério depois de tanta pancadaria - às vezes - gratuita.

Só que o fator mais interessante do universo da Marvel é que seus vilões, tanto quanto seus heróis, possuem razões muito particulares para acreditarem no que fazem e nos fazer compreender os seus lados na história também. É isso que os tornam mais humanos e menos maniqueístas, algo muito bem explorado nessa adaptação que coloca Murdock e Fisk como inimigos, mas com diversas características em comum e constantemente em dúvida sobre as razões de fazerem o que fazem.

Mesmo com tanto cuidado ao desenvolver a história de Karen Page e tudo que se segue a partir dela, há um subaproveitamento dessa personagem que, junto com Foggy, o grande amigo e sócio do protagonista, formam o núcleo responsável por aliviar o clima sombrio e pesado da série. É uma dupla que não tem química e que os roteiristas também não ajudam com os diálogos fracos e que quase nunca funcionam quando tentam fazer deles personagens engraçados. Ao invés de existirem para fortalecer a existência do protagonista, fazem o inverso, e isso não apenas é um dos pontos negativos como é também bastante frustrante. Mas é algo que tem conserto e de forma alguma estraga qualquer coisa, apenas prolonga alguns vazios.

Frustrante também é a presença de Rosario Dawson, que até entra muito bem na série e engrandece as poucas cenas que aparece, mas sai um tanto à francesa e sem muita lógica justamente quando sua função nela parecia ter um sentido muito mais importante e desafiador ao protagonista do que realmente foi. Conhecida pelo codinome de Night Nurse, a personagem também foi adaptada e sua função nos quadrinhos é a mesma que o seriado mostra, só que parece que a produção precisava de um grande nome no elenco, mas o orçamento não era suficiente para pagar mais de dois pares e meio de episódios. Mas isso é apenas outro detalhe que pode-se resolver depois.

Percebe-se o cuidado que tiveram em levar todos os personagens mais marcantes dos quadrinhos para a produção, bem como mostrar o processo de evolução e transformação de cada um deles, principalmente as de Murdock para o Demolidor que conhecemos, simultaneamente com o engrandecimento de Wilson Fisk até se tornar o mais poderoso e temido chefe da máfia, o Kingpin.

Não há como negar que a Marvel tem uma admirável estratégia comercial. Ela poderia ter vendido o seriado para qualquer grande canal aberto ou a cabo, mas preferiu ir para um mercado mais selecionado e em crescimento, no qual a audiência pode ser menor, mas é garantida até mesmo por quem não assistir. Sem falar da liberdade criativa, que deu oportunidade para a marca deixar um pouco de lado algumas limitações exigidas pelo público juvenil que consome seus outros produtos para, finalmente, entrar em um território mais adulto e de conteúdo mais pesado. Para se ter uma idéia, no Netflix o seriado é recomendado para maiores de 18 anos. Claro que isso chega a um certo exagero, mas realmente há cenas que seriam bastante pesadas para menores de 16.

Demolidor teve uma excelente temporada de estréia e ainda há muita coisa a ser explorada para futuras temporadas. A personagem Elektra é indiretamente referenciada em apenas um episódio como "a garota grega" na qual Murdock teve interesse na faculdade, mas poderia ser um forte adendo no futuro.

Para os fãs, uma grande adaptação que compensou a péssima versão cinematográfica de 2003. Para aqueles que não são fãs ou nem ao menos conhecem o personagem, está aí uma excelente oportunidade para conhecer o submundo de Hell's Kitchen e as proezas de Demolidor.

CONCLUSÃO...
Expandindo seu universo para um lado mais sombrio e violento, a Marvel acertou em cheio ao pegar um personagem que nem chega a ser tão complexo ou carismático como outros, mas conseguiu dar uma densidade maior à marca, algo que ela não conseguiria fazer se não utilizasse outras estratégias como a que está usando agora. Além disso, isso só veio para fortalecer mais ainda a proposta do Netflix, que não é um canal e não é um website, mas é um banco de filmes e seriados que está ganhando forças para ter suas próprias produções. Demolidor pode ter suas falhas e algumas subtramas esquecíveis, mas o grande caos em que o personagem se encontra é, sem dúvida, tão imersivo quanto o que Nolan fez com sua trilogia Batman.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

EXPLÍCITO, SIM. PORNOGRÁFICO, NÃO...

★★★★★★★
Título: Interior. Leather Bar.
Ano: 2013
Gênero: Documentário, Drama
Classificação: 18 anos
Direção: James Franco, Travis Mathews
Elenco: James Franco, Travis Mathews, Val Lauren
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
James Franco e Travis Matthews tentam re-imaginar os prováveis 40 minutos nunca vistos do filme Parceiros do Crime.

O QUE TENHO A DIZER...
Por mais absurda e banal que possa parecer a idéia de James Franco e Travis Mathews em re-imaginar os lendários 40 minutos cortados da edição final do filme Parceiros do Crime (Cruising, 1980), chega a ser até incrível a história que eles conseguiram criar usando como referência principal o sexo.

Parceiros do Crime foi um filme de William Friedkin, que estrelava Al Pacino. Baseado em fatos reais sobre um serial killer que escolhia suas vítimas homossexuais no cenário underground de Nova York. Na época de lançamento, o órgão de censura exigiu que o filme fosse re-editado para evitar o forte conteúdo que apresentava. Supostamente foram excluídos 40 minutos, dos quais Franco e Mathews usam como ponto de partida para a história. Não apenas isso, tendo ou não sido proposital - como diz o próprio Franco, o diretor William Friedkin mostrou o ambiente underground como um lugar pesado, obscuro e ruim, como se aquilo subliminarmente mostrasse que tudo aquilo fosse errado e criminoso.

Partindo dessa idéia, Franco, que é assumidamente bissexual, usa essa re-imaginação para tentar mostrar o contrário do que o filme original mostrou, e que, de fato, a expressão sexual e sua diversidade são parte da natureza humana, que deve ser explorada e respeitada, desde que feitas dentro de aspectos mais verossímeis, e não dentro da fantasia vazia criada, por um lado, pela mídia de massa que vende a heterossexualidade como o modo ideal de vida, e por outro lado, pela pornografia, que vende o ato sexual vazio e irreal. Por isso que, para ele, é função dos artistas usarem a sexualidade e suas diferentes manifestações como ferramentas que modifiquem a percepção das pessoas sobre elas.

Há uma sequência em que atores desconfortavelmente dialogam com as câmeras relatando os motivos que os levaram a participar do projeto, sem terem qualquer conhecimento de que o conteúdo sexual do filme chegaria a um ponto bastante explícito. Mas isso acontece porque é exatamente o diálogo que Franco quer desenvolver sobre a exploração saudável do sexo, brincando com os pudores. O que, no fim das contas, deixa até as cenas mais explícitas e fetichistas parecerem muito bonitas dentro de sua total esquisitice. Não chega a ser um pornô artístico, mas um bom ensaio para tal.

Através do estilo documentado, a idéia proposta varia basicamente entre três situações: a dificuldade do ator principal em aceitar a idéia proposta; os bastidores da produção das filmagens; e cenas da edição final do filme.

O espectador que já quiser traçar um perfil crítico nos 20 minutos iniciais do filme irá se enganar redondamente com qualquer aspecto. Não porque seja superficial, mas porque o roteiro de Travis Mathews realmente engana e conduz este mesmo espectador pelas dúvidas da realidade ou ficção, já que a proposta e o estilo da produção automaticamente nos leva a crer que tudo abordado e mostrado é real. São eles novamente brincando com os pré-conceitos, que serão pouco a pouco quebrados nos curtos 60 minutos.

A princípio, a parte mais interessante de todo esse rebusqueio artístico é que ninguém parece confortável diante das câmeras. Isso porque embora todo mundo faça sexo e converse sobre ele, falar abertamente sobre isso é desconfortável, principalmente quando somadas às diferenças sexuais e fetichistas que poluem as mentes mais puritanas.

Desde o momento que Franco aparece argumentando sobre o casamento gay com Travis Matthews, é nítido o nervosismo de ambos em falar sobre o assunto. A situação fica um pouco mais tensa quando o ator principal contratado chega, afirmando "não concordar com a idéia", mas aceita participar por respeito a Franco, seu amigo. Até mesmo o elenco de apoio, independente da orientação sexual, demonstram que ainda existe o desconforto e a dificuldade em tratar do tema da forma mais naturalista possível.

Há ainda algumas cafonices um tanto desrespeitosas, como no momento em que o ator principal ouve uma mensagem de voz de sua mulher, numa intenção clara em reafirmar sua heterosexualidade ao espectador, um tipo de situação que será bastante recorrente nessa primeira metade do longa. Na continuidade desta mesma cena, há a mensagem de voz de uma outra pessoa, que talvez seja seu agente, se referindo ao filme como "o projeto de 'bicha' de James Franco".

Em um filme cuja intenção desde o princípio é que as diferenças sexuais sejam respeitadas e tratadas com igualdade, situações como essa, mesmo que breves, soam forçadas, arranjadas e até um tanto patéticas dentro de todo o contexto. Mas ao mesmo tempo demonstram o contundente atraso social quando esta rotulação consistente se define.

É então que outra crítica também se pontua na história, a de que não há a possibilidade de ser simplesmente um ator interessado em um papel, mas a necessidade de saber a razão de um ator heterossexual se interessar em um papel homossexual.

O constante medo que atores e cineastas vivem ao escolherem papéis que afrontam o conservadorismo.

É como se ter o nome ligado a projetos como esse fosse o suficiente para mancharem uma carreira promissora, como a de James Franco, que ao mesmo tempo que está escalado para um filme da Disney, opta por um projeto paralelo e sexualizado.

É muito comum ouvir relatos de produtores de elenco na dificuldade de encontrarem atores para papéis estereotipados como gays, lésbicas, travestis ou prostitutas pelo medo de terem a reputação profissional diminuída. Por ser um projeto não convencional e sexualizado, a tendência desses atores que aceitam esses papéis é de serem taxados como homossexuais, vulgares, inadequados para a indústria, como se tudo isso tivesse íntima relação uma com a outra. E isso na verdade só resume o nível preconceituoso no qual estão todos inseridos.

Todo esse desenvolvimento mostra aquele desconfroto do protagonista aos poucos se transformar em curiosidade que em alguns momentos nos leva a crer em até um certo desejo, como quando no momento em que ele diz que todo o elenco masculino é muito sexy. Isso justamente debate a idéia expressada por um dos atores de que o desconforto e o julgamento surgem geralmente de pessoas que na verdade tem medo de se sentirem seduzidas por aquilo que temem porque não querem ser julgadas.

Para uma interessante surpresa, em momentos bem pontuais, como quando fica claro que o diálogo que o protagonista está tendo com um ator sendo maquiado é manipulado, e em outra situação em que o protagonista lê exatamente as ações que ele faz no momento, é que o roteiro finalmente esclarece que, sim, tudo é uma encenação. Até mesmo aquilo que víamos e acreditamos ser um documentário é pura encenação. Por isso aquela breve sensação inicial de certo exagero e cafonice no tom, ou de situações forçadas e arranjadas. E não, eu não estraguei nenhuma surpresa, porque essas duas situações são tão sutis que merecem destaque.

Essa sacada só deixa tudo muito mais interessante, porque é o grande turning point de todo o filme, que revela que tudo o que parecia verdadeiro era falso, e o que era suposto ser falso, como o sexo explícito entre alguns personagens, foi verdadeiro. A verdadeira alma do negócio.

É um filme puramente independente e experimental, que condensa diversos temas discutíveis tanto no meio artístico ou sobre a função da arte na sociedade, como também o nível de tolerância das pessoas sobre a sexualidade, sobre o sexualismo, sobre o sexo e suas diversidades. Não há nada que é falado nele que não seja argumentado de alguma forma. Mas o mais interessante de tudo é que, mesmo nesse formato sem qualquer formato - o que passa essa sensação a princípio despretenciosa e amadora - há no fundo disso tudo um trabalho muito consistente, que tal talvez Franco e Matthews também nem tenham feito propositalmente para ser tudo assim, mas que no fim ficou.

CONCLUSÃO...
James Franco e Travis Mathews conseguem fazer um trabalho independente e um tanto experimental bastante consistente, que parece se perder no meio do caminho, mas que termina bem costurado e bem fundamentado. Claro e definitivamente não é um filme para qualquer público, e como ele trata indiretamente de diversos assuntos e discussões ao mesmo tempo, também demanda bastante atenção. Pode fazer a cabeça do público gay por conta do seu tema e de algumas cenas explícitas, mas a verdade é que ele vai muito além disso.

sábado, 4 de abril de 2015

JANELAS DA ALMA...

★★★★★★
Título: I Origins
Ano: 2014
Gênero: Ficção Científica, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Cahill
Elenco: Michael Pitt, Brit Marling, Steven Yeun
País: Estados Unidos
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um cientista que descobre algumas evidências que poderão mudar a forma que as pessoas enxergam a ciência e algumas crenças.

O QUE TENHO A DIZER...
Com um título um tanto esquisito, que aparenta um erro de concordância no inglês, a grafia acontece dessa forma porque a letra "I" em inglês se pronuncia "EYE". Outra curiosidade é que "11" é um número bastante recorrente em todo o filme, e ao associar que a grafia do número "1" também pode ser a letra "I", logo "II" poderia ser "11", ou "dois olhos", porque é sobre isso a origem de toda a trama principal.

Dirigido, escrito, produzido e editado por Mike Cahill, é a segunda colaboração do diretor com a atriz Brit Marling, que havia trabalhado anteriormente com ele, inclusive no desenvolvimento do roteiro, em A Outra Terra (Another Earth, 2011), outro filme que aborda questões existencialistas. Brit Marling, que também tem traçado uma carreira interessante no circuito mais alternativo de Hollywood, também é a roteirista de A Seita Misteriosa (Sound Of My Voice, 2011), que por sinal igualmente aborda esse mesmo paralelo entre a ciência e a religião que são tratados aqui.

I Origins tenta dialogar entre os conflitos científicos, religiosos e espirituais, naquela linha tênue entre até que ponto a ciência se sobrepõe às crenças e até onde crenças podem derrubar a ciência. Não só isso, há espaço para desenvolver a dúvida entre o que é coincidência e o que é sincronicidade, já que a coincidência é utilizada para referir eventos semelhantes, mas sem qualquer relação de causa e consequência, enquanto na sincronicidade existe uma correlação, mas que não conseguem ser comprovadas por testes empíricos porque eles nem sempre oferecem resultados suficientes para isso, como será observado na reta final dessa jornada científica. De certa forma toda a abordagem do filme já foi explicada aqui, e da mesma forma como o protagonista pede ao espectador que "lembre dos olhos" que são mostrados logo nos créditos iniciais, é bom lembrar desse interessante argumento durante todo o filme.

A história aparentemente simples vai girar em torno de um biólogo molecular e sua parceira de trabalho. Eles descobrirão algumas evidências que mudarão a percepção que a sociedade tem sobre algumas crenças e, ao mesmo tempo, as percepções que os cientistas tem sobre a própria ciência, tudo dentro daquele pensamento popular de que "os olhos são as janelas da alma". Essa crença é desenvolvida de maneira interessante quando o protagonista descobre que, embora teoricamente impossível, existe uma probabilidade entre duas pessoas nascerem com íris idênticas.

Apesar do roteiro às vezes tomar rumos um tanto tortuosos, como a forte atenção dada ao romance entre o protagonista e sua mulher (a qual repentinamente tem uma mudança injustificável de humor), ou do forçado caso amoroso que ele desenvolve posteriormente com outra pessoa, e até mesmo o denecessário momento em que ele é flagrado em um momento íntimo consigo mesmo, situações que tornam o filme bastante tedioso e que conseguem desviar a atenção de todo o propósito principal sem qualquer coerência, essa primeira metade vai servir apenas para expor os personagens, mais do que desenvolvê-los. Tudo só vai ganhar mais consistência a partir da segunda metade, quando esta dúvida que paira sobre a exatidão da ciência e da credulidade se define e fortalece. É nesse momento que tudo fica interessante, e mesmo muito curto quando comparado com todo o drama um tanto inútil que intercala o começo e o fim, o resultado pode não chegar a ser surpreendente, mas de toda forma intriga, consegue ser emocionante e muito delicado, um dos poucos momentos realmente bem construídos durante toda a trama e que salvam todo o longa de um trágico resultado.

O diretor afirmou que há uma idéia para uma continuação que se passaria 20 anos após as descobertas feitas pelo protagonista, mas que ainda não há um roteiro ou data de produção para ele. O que seria interessante, já que há um pequeno trecho do filme após os créditos que mostram que a história desenvolvida por Cahill tem fôlego para ser melhor explorada depois dessa grande introdução.

CONCLUSÃO...
Mesmo que sendo um filme aproveitável apenas a partir da sua segunda metade ou em outras esparsas situações, o resultado da trama pode não ser surpreendente, mas de forma bastante original e delicada consegue ser satisfatória, com fôlego para ser melhor desenvolvida em uma provável sequência. Não chega a ser um dos melhores títulos de 2014, mas consegue ter sua ousadia.
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