Translate

terça-feira, 26 de novembro de 2013

QUEM É ELENA?

★★★★★★★★★☆
Título: Elena
Ano: 2011
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Andrey Zvyagintsev
Elenco: Nadezhda Markina, Andrey Smirnov, Elena Lyadova, Aleksey Rozin
País: Rússia
Duração: 109 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Elena é uma enfermeira aposentada que há dez anos se transformou em uma dona de casa dedicada e oprimida, mas agora deverá tomar decisões inadiáveis e necessárias para o seu futuro e o de sua família.

O QUE TENHO A DIZER...
Elena é um filme russo dirigo por Andrey Zvyagintsev que obviamente é desconhecido pelo ocidente, mas chamou a atenção com este filme delicado e ao mesmo tempo denso que muito carrega da própria cultura socio política da Rússia e suas consistentes mudanças no decorrer dos tempos. Foi um dos grandes vencedores no Festival de Cannes de 2011 e de outros prêmios independentes pelo mundo (não confundir com o brasileiro Elena (2012), igualmente bem recebido pela crítica e público).

A construção do filme é lenta e gradativamente se aprofunda na história e na vida da personagem principal e dos demais que estão relacionados a ela que, embora seja até previsível em algumas situações, consegue fornecer uma narrativa surpreendente. O que é válido dizer é que Elena é uma enfermeira aposentada, e hoje uma dona de casa oprimida, de origem pobre e proletária que teve a sorte de cuidar e conhecer alguém que pode oferecer a ela uma melhor qualidade de vida. Talvez ela seja feliz em uma relação que hoje se resume em uma situação arranjada, funcional e codependente, cômoda na rotina e em regras determinadas até mesmo para o sexo em uma vida submissa e subalterna. Porém, a personagem agora se encontra em uma fase de decisões necessárias e inadiáveis, importantes para uma mudança de posições a seu futuro e ao de seu filho casado, que ainda mora em condições precárias no subúrbio e tem como profissão receber mensalmente a aposentadoria que sua mãe religiosamente entrega em suas mãos para alimentar seus dois filhos e a total dependência parasitária de sua família. Elena talvez pouco dê atenção a isso ou se importe, já que acredite estar fazendo bem e contribuindo principalmente para o futuro de seus dois netos, além de ter em si o instinto materno do cuidado e do amor incondicional, ou simplemente sentir-se na obrigação de agir assim.

Os "talvez" dessa história não são em vão, pois o trabalho da atriz se vale principalmente na sutileza e na discrição de uma performance complexa e enigmática de uma personagem que nunca deixa transparecer o que acha ou pensa além do necessário e que precisa estar ao alcance dos outros. Em algumas situações ela deixa transparecer tais dúvida, mas os momentos são tão raros e momentâneos que podem passar despercebidos em um piscar de olhos. Essa maestria da atriz e da direção em tecnicmanete ter total controle sobre a personagem, carregando o espectador em uma constante dualidade de conflitos contidos onde nunca sabemos até que ponto suas ações são calculadas ou espontâneas, não apenas são os pontos altos de todo o filme como a grande razão de se apreciar esta pequena e sólida obra. Como dito pelo crítico Peter Bradshaw para o The Guardian, a cena em que o diretor foca uma foto de Elena, provavelmente tirada dez anos antes e pela própria pessoa com quem ela dividiu esses dez anos, é o momento chave em que nos perguntamos quem é ela? O que ela realmente quer? Quem ela ama?

Mas os detalhes não param por aí, a relação entre Elena e sua familia metaforicamente representam as diferença de classes que agora os dividem, retratando uma imagem brutal e contemporânea da sociedade russa que se dividiu brutalmente com a queda do socialismo e se prendeu em uma estrutura familiar um tanto feudal, onde o direito e o respeito deve ser dado ao patriarca que provê nada além do necessário, estando ele no direito de cobrar pelo ofertado e decidir por aqueles que dependem de seus favores ou auxílios, e isso também se estende a seus descendentes. Mas Elena também existe para metaforicamente atuar como um agente modificador dessa estrutura.

Zvyagintsev é preciso, criando um cenário constante, magnificamente filmado e dirigido em tomadas propositalmente óbvias àqueles que observam e assistem atentamente. Também não podemos deixar de notar um certo estilo hitchcockiano em técnicas cinematográficas clássicas e o abuso do voyerismo que constrói um ambiente igualmente tenso e misterioso tal qual os filmes do clássico diretor. Mas neste filme a câmera atua mais que uma ferramenta de imagem, mas como um narrador vivo, mudo e expressivo que compensa a (talvez) apática vida da personagem principal. Enquanto em ambiente de classe alta, suas tomadas são amplas, longas, frias, distantes e lentas; quando em classe média baixa, as tomadas são curtas, editadas, sem movimentos, inconvenientes e invasivas. O único meio termo encontrado é quando Elena vaga livremente de uma zona da cidade para outra, onde temos apenas um leve esboço de sua real natureza.

CONCLUSÃO...
Um filme magnificamente dirigido e que não peca no excesso de perfeição tecnica, com uma história simples e carregada de simbolismos sociais, políticos e familiares fortes, por vezes surpreendente na frieza e profundidade com que toda a história é silenciosamente narrada.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CADÊ GODZILLA?

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Círculo de Fogo (Pacific Rim)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 12 anos
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Charlie Hunnan, Rinko Kikuchi, Idris Elba
País: Estados Unidos
Duração: 131 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma raça alienígena e parasita migra de planeta em planeta de tempos em tempos, e agora tentam invadir a Terra enviando Kaijus através de um portal em uma fenda tectônica para destruirem os humanos. Cansados de serem constantemente atacados, as nações se unem na construção dos Jaegers, robôs capazes de irem a combate para lutarem e destruirem os monstros.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelo mexicano Guillermo Del Toro, o mesmo de Hellboy (2004/2008) e O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth, 2006), sendo sua volta como diretor depois de cinco anos (nos últimos anos atuou mais como produtor) e também a tentativa da Warner de pegar carona com a franquia Transformers, iniciada em 2007, e lançar seu próprio filme (ou sua própria franquia) de robôs gigantes. Talvez possa dar certo, talvez não, pois o filme custou US$190 milhões e foi um fracasso nos Estados Unidos, arrecadando custosamente um pouco mais de US$100 milhões. Mas curiosamente o filme arrecadou mais de US$300 milhões no resto do mundo, o que garantiu a ele a possibilidade de uma sequencia e talvez, segundo o próprio Del Toro, de uma trilogia.

Conta a história de monstros alienígenas gigantescos que invadem a Terra pelo mar ao atravessarem uma fenda tectônica que é também um portal entre os dois mundos. Chamados de Kaiju (termo japonês dado a monstros desconhecidos), destruiram boa parte das grandes cidades numa sequência de ataques que já duram sete anos, o que fez as nações se unirem para criar os Jaegers, robôs igualmente gigantescos capazes de enfrentá-los de forma equivalente e evitar novas invasões e catástrofes.

A grande diferença dos já mencionado Transformers é que o filme de Del Toro, o qual também trabalhou no roteiro e produção, bebe até em exagero da cultura japonesa e seu fascínio por monstros gigantes de destruição em massa que andam pelas cidades como em um jardim. Enquanto Transformers lida com a guerra entre robôs de diferentes raças, Círculo de Fogo lida com a guerra direta entre humanos e monstros. Por conta disso, não é difícil associar o filme a antigos seriados como Jaspion, Changemam e Flashman por conta de uma equipe de heróis responsável por comandar robôs que irão a campo de batalha contra monstros destruidores. Também é impossível não associar àquele que foi e é a referência maior de todos eles, chamado Godzilla. Há também referências aos mangás e animes japoneses que tratam do mesmo tema, ou até a série de jogos eletrônicos Final Fantasy, já que grande parte dos monstros do filme tem visuais bastante similares aos monstros chamados Weapons nesses jogos.

Uma pena que as grandes e importantes referências utilizadas parem por aí e necessariamente não façam do filme algo tão bom como poderia, porque Del Toro não consegue evitar o uso exacerbado do fator Hollywoodiano, ou seja, do excesso do desnecessário. Da mesma forma que o diretor também não consegue manter a mesma linearidade e aquela mistura mágica e aceitável de ficção, fantasia e realidade que ele já conseguiu com sucesso em títulos anteriores, tanto que ele ficou conhecido justamente pela facilidade em articular esses gêneros como se fosse um só.

Círculo erra naquilo que a maioria dos blockbusters fazem. Exacerba nos diálogos bobos, vazios e cheios de frases heróicas de efeito; atores inexpressivos ou que se expressam caricatamente como feito, por exemplo, por Idris Elba na sua leitura repetitiva e já cansada de chefe áustero e mecânico ou do herói durão feito por Charlie Hunnam; os personagens cômicos e irritantes para cobrir buracos; e um argumento comum para justificar tanta destruição; ou a famosa tensão sexual existente entre o herói e a heroína irritante.

O roteiro é cheio de buracos e situações que não se encaixam ou justificam as razões das coisas existirem e acontecerem, como o fato de serem capazes de criar robôs gigantes cheios de aparatos tecnológicos inimagináveis, mas não de um míssel ou bombas avassaladoras contra eles. Sem contar que, no decorrer da história, supõe-se que os monstros ficariam maiores e mais difíceis, mas o último deles, o temido CLASSE 5, que pode acabar com qualquer coisa a sua frente, é morto numa facilidade como se fosse o primeiro. Aliás, como eles saberiam que é um  Classe 5 se nunca tinham visto antes? Há também o fato dos robôs existirem para evitar a invasão e destruição das cidades, mas durante batalha eles são permitidos destruir mais que os próprios monstros. Então, assim como o intragável O Homem de Aço, me pergunto para que a existência de heróis se eles matam e destróem mais do que os vilões e os monstros?

Portanto, se torna incoerente e sem sentido, desatento a tudo que é mostrado e falado, e uma via única e fácil para produzirem um blockbuster oco para o aumento do consumo de pipoca. Nem podemos dizer que possui efeitos especiais deslumbrantes, pois a maioria do que acontece é no escuro ou na chuva porque é mais fácil esconder os defeitos da produção corrida, ou também dizer que há cenas de ação realmente boas ou de tirar o fôlego, porque todas parecem ser iguais.

Então, novamente é fraco tanto quanto Transformers, e não algo mais polido, articulado e adulto quanto se supunha, deixando aquele gosto de desperdício no ar e da constante carência de cabeças mais amadurecidas por filmes de ação que não necessariamente precisam tacar em nossa cara tanto absurdo de uma vez só e chamar isso de cinema.

E se preparem porque nada vai parar por aí, há também o reboot de Gozdilla chegando ano que vem, como se o absurdo de Roland Emmerich (1997) não tivesse sido suficiente.

CONCLUSÃO...
Prato cheio para aqueles que só querem ver efeitos grandiosos, explosões, batalhas entre monstros ou até mesmo ter apenas um gostinho de nostalgia sobre as referências utilizadas. Está longe de ser um filme bom, e mais ainda de ser memorável. Mas como um todo é um filme robusto na tentativa de impressionar, pesado no exagero e que demora pra entrar em um ritmo tal qual os próprios Jaegers.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

ASS KICKED...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Kick-Ass 2
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Jeff Wadlow
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Jim Carrey
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Kick Ass abandonou seu uniforme, mas o senso de justiça fala mais alto quando descobre que a vida é entediante sem ele.

O QUE TENHO A DIZER...
O primeiro Kick Ass (2010) foi dirigido por Matthew Vaughn, que conseguiu uma difícil junção de linguagem adulta com visual e sonoridades lúdicas para aliviar o peso de tanta violência embutida, conseguindo fazer do filme um cult instantâneo no gênero e um dos poucos absurdos relevantes no cinema nos últimos anos. Politicamente incorreto ao extremo, o filme sofreu para ser produzido ao ponto do diretor angariar fundos por conta própria e produzí-lo indepedentemente. Óbvio que, depois do sucesso de crítica e em home vídeo obtidos, os olhos dos estúdios cresceram e quiseram transforma-lo em uma franquia.

Vaughn saiu da direção e do roteiro e foi para a produção. No seu lugar entrou o pseudo-novato e desconhecido Jeff Wadlow. A mudança foi gritante e visível, e o segundo filme perdeu quase que totalmente a pequena mágica sarcástica que Vaughn conseguiu criar.

Ao invés de se manter dentro das propostas apresentadas no primeiro filme, Wadlow pegou os personagens Dave e Mindy e os colocou em um universo comum e sem graça, cheio de clichés que no primeiro filme pouco existiam ou tentavam ser abolidos. As cenas e seqüências parecem não fluir no meio de uma edição tão exagerada e cheia de cortes, e os dramas dos personagens viraram um grande besteirol que se encaixaria caso o filme de Vaughn não tivesse uma proposta tão incorreta como teve. É aquela velha história de que todo grande estúdio tende a destruir uma grande idéia original, e não foi diferente com essa sequência. Feita para atrair um maior público adolescente, não apenas a violência foi amenizada como a própria rebeldia contida nos personagens. Há uma jorrada de sangue aqui e outra ali apenas para dizer que o estilo do filme se manteve, mas a impressão que se passa é que quanto mais os personagens cresceram, menos ousados eles ficaram.

Talvez o mesmo a ser dito sobre os atores. Em 3 anos que separam um filme e outro, muita coisa mudou para eles. Embora Aaron Taylor-Johnson (Kick Ass) se mantenha no mesmo platô confortável e que não exigiria muito de qualquer ator amador ou não, Chloe Grace Moretz (Hit Girl) agora aparenta sofrer daquilo que outras atrizes mirins sofrem ao crescer, o da perda da espontaneidade e do aumento da atuação ensaiada, deixando a artificialidade tomar conta da naturalidade de antes.

Um filme longo e entediante, pois não tem o mesmo humor e a espontaneidade do primeiro, feito sobre um roteiro bagunçado que tenta se desenvolver em conflitos bobos e comuns como o vilão que quer cegamente vingar a morte do pai, ou a heroína que agora sofre assédio na escola pelas garotas populares e abandona o uniforme porque seu padrasto policial e bonzinho a colocou de castigo, ou o herói que esconde do pai sua identidade secreta (super original) e um mentor vivido por Jim Carrey (irreconhecível) apenas para ocupar o papel que tinha que ser ocupado por um ator mais velho e conhecido tal como fez Nicholas Cage no filme anterior. Como se isso tudo não fosse suficiente, há também os deja vus, com cenas que parecem ter sido simplesmente copiadas do primeiro filme ou a apelação para o exagero escatológico que não podia ser mais apelativo na tentativa do resgate do riso fácil no meio de uma hora e meia de pura chatice.

Não há muito o que ser analisado, pois assim como o filme original nada mais foi do que uma idéia interessante e um produto diferenciado para entreter (algo que faz muito bem), a segunda parte virou apenas um produto qualquer que tenta entreter mas não consegue e se perde numa fórmula que tentaram criar, mas que nunca existiu. Tanto foi assim que o filme foi um naufrágio de crítica e público, e definitivamente não manteve o respeito alcançado com o primeiro, pelo contrário, o denegriu.

CONCLUSÃO...
Realmente o filme de Vaughn é difícil de ser engolido para os mais conservadores ou politicamente corretos, mas quem entende sua ironia e seu sarcasmo dentro de tanta violência absurda e fantasia distorcida, se diverte e vibra sem compromisso, pois o restultado de tudo é, de fato, apreciável. Mas nessa segunda parte dirigida por Wadlow, tudo foi juntado sem sentido ou coerência, resultando numa grande tentativa frustrada e mal planejada de continuar uma história que poderia ter parado onde parou, mas que agora teve uma extensão desnecessária.

UMA VERDADEIRA KRIPTONITA AO HERÓI...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: O Homem de Aço (Man Of Steel)
Ano: 2013
Gênero: Ação
Classificação: Livre
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Diane Lane, Russell Crowe, Kevin Costner
País: Estados Unidos
Duração: 143 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Novamente a história do homem alienígena que se fortaleceu e se transformou em um superherói na Terra.

O QUE TENHO A DIZER...
Embora seja um herói construído unicamente para a cultura norte americana na intenção de enaltece-la como um indestrutível poder político e bélico, além de promover ao mundo a grande filosofia do american way of life e sua garantia ilusória de vida feliz, não podemos negar o fato de que o herói é uma parte viva de uma cultura popular e muito lembrada principalmente no cinema.

Depois de mais de quase 20 anos no ostracismo desde o último filme da série que estrelava Christopher Reeve, responsável por marcar uma geração e ainda ser a referência mais sólida que temos do herói em carne e osso, a Warner resolveu entregar a responsabilidade de retomar a franquia nas mãos do diretor Bryan Singer. Isso aconteceu pelo fato de ter sido este diretor o responsável pelo grande marco divisório que ocorreu nos filmes de ação baseado em heróis de quadrinhos ao ousar adaptar - e também acertar em cheio - os heróis da Marvel conhecidos como X-Men, ainda em 2000.

O que Bryan Singer fez no início da década de 2000 em trabalhar fortemente na releitura dos quadrinhos de maneira acessível para a linguagem do cinema virou uma regra e uma fórmula contemporânea que há muito o cinema buscava, e que deu certo. A Marvel Comics tomou a frente, produzindo adaptações de sucesso, como Homem Aranha, além dos já citados X-Men. Posteriormente teve uma leva de outros heróis já conhecidos como Hulk, Homem de Ferro, Capitão América e Thor, culminando seu reinado na indústria ao pegar essa entourage e produzir o projeto mais ousado da história do cinema chamado Os Vingadores, que arrecadou quase US$2 bilhões no mundo. A DC Comics com a Warner, por outro lado, se mantiveram na zona de conforto, tendo apenas nas mangas os heróis Superman e Batman. Tentaram apresentar ao mercado o Lanterna Verde, que foi um fiasco de crítica e público.

O reboot do herói foi lançado em 2006 e levou o título de Superman - O Retorno (Superman Returns), em analogia às suas quase duas décadas desaparecido. Singer tentou brincar com esse "sumiço" do herói e, inclusive, justificá-lo no filme de forma bastante aceitável, além de tentar se manter fiel à imagem e mito que o herói se transformou. Mas O Retorno não foi o sucesso esperado, além de ter sido um filme mais nostálgico do que inovador, pois ele nada mais foi do que uma reprise do que já havia sido feito e abordado anteriormente quando estrelado por Christopher Reeve na década de oitenta, deixando o público dividido: enquanto os nostálgicos se sentiram satisfeitos logo na abertura com os rompantes da trilha sonora de John Ottman em sua releitura moderna e fiel a de John Williams, os mais conservadores ficaram decepcionados com os mesmos cliches e um grande grau de insatisfação por conta dos atores protagonistas.

Isso fez a Warner novamente engavetar o herói e pensar no que fazer com ele no futuro, acreditando que a safra de filmes baseado em quadrinhos estava perdendo o fôlego (ledo engano), aguardando para analisar o mercado e observar qual seria a tendência nos anos seguintes. A tendência foi óbvia, e com o reboot de Batman, levando o personagem para dentro de um mundo muito mais obscuro e realista, mas sem deixar de ser igualmente fantástico, fez o gênero tomar um ar fresco e que novamente mudou a forma narrativa de se "brincar" com os quadrinhos na tela. O teor mais humano criado por Cristopher Nolan para o homem morcego foi o que a Warner acreditou ser o que faltava no herói da capa vermelha. Correndo contra o tempo para aproveitar o público que ficou carente com o final da Trilogia Batman, Zack Snyder foi contratado para tocar a produção e o sinal verde para O Homem de Aço foi dado.

Snyder ficou conhecido por fazer filmes que ficaram famosos pelo visual que vaga entre os quadrinhos, mangas e vídeo game, como acontece em 300 (2006), Watchmen (2009) e até com exagero em Sucker Punch (2011), portanto ele aparentava ser uma escolha certeira, tanto que o filme foi um dos mais esperados nos dois últimos anos e boa parte da bilheteria foi arrecadada apenas na primeira semana.

O uso de filtros de imagem, característicos do estilo do diretor, embora usados de forma mais sutil dessa vez, estão presentes tal qual em todos seus filmes anteriores, mas ele definitivamente pesa a mão e não consegue oferecer a mesma fluidez como, por exemplo, em 300, seu único filme mais famoso e criticamente bem aceito. Snyder custosamente tenta dar ao filme uma linguagem mais adulta do que a suportada de forma forçada, e a narrativa desconstruída do roteiro que pinga entre o presente e o passado com flash backs desnecessários para quebrar aquela rotineira história de como um bebê alienígena descobriu seus poderes na Terra, desmotiva e chega a até quebrar o clima em momentos chaves, demorando uma eternidade para chegar aos finalmente de apresentar o homem como um Herói. As mais de duas horas de filme se resumem em apenas uma meia hora quiçá interessante e que nem é possível lembrar qual seja frente a tantos acidentes de percurso.

Talvez a grande ganância tenha definitivamente sido a tentativa de seguir os mesmos passos de Christopher Nolan ao dar um tom sombrio a um personagem que não comporta esta abordagem em sua personalidade. Essa tentativa de reprodução é tão forte que igualmente apostaram no sucesso de abolir o nome do herói do título do filme tal qual foi feito com o de Batman em O Cavaleiro das Trevas. Não satisfeitos com isso, acreditaram que criar uma história completamente nova em cima das mesmas fundações seria interessante. A história do herói é novamente e basicamente contada da mesma maneira, mas características e detalhes icônicos que são partes de sua figura tanto quanto sua capa vermelha foram abolidos ou modificados sem coesão. A Kriptonita não existe mais, Kripton deixou de ser um planeta de cristal, Louis Lane agora é loira, a trilha sonora praticamente nem é ouvida e nada carrega do clássico de Williams e o poder do herói agora existe por causa da atmosfera terrestre. Ou seja, nada que valesse realmente a pena ser modificado, mas mesmo assim foi, apenas para dar um ar enganoso de novidade e consumir tempo - e haja tempo - ao ter que, mais uma vez, explicar a razão de tudo ser como é agora.

O filme novamente sofre por um público dividido que não sabe se gosta ou se despreza, e a crítica especializada definitivamente detestou as infames mudanças ocorridas, e fez tanta questão de desprezá-lo que apenas teceu elogios ao porte físico do ator que insistiu unicamente em um rigoroso treino e descartou qualquer hipóstese de ser colocado dentro de um padrão de beleza com uso de anabolizantes ou sessões de depilação. Ou seja... irrelevante.

É um filme que se torna banal e desnecessário, que justifica sua existência apenas com intermináveis destruições que deixam os filmes arrasa-quarteirões de Michael Bay no chinelo. Considerado o pai e o chefe de todos os super heróis justamente por ter um enorme senso de justiça, humanidade e de perda por conta da educação exemplar tida pelos pais adotivos, chega até ser assustador que em momento algum ele tenha se preocupado em derrubar todo e qualquer prédio que aparecesse em sua frente como um Godzilla, e junto matando milhares de civis. Isso tudo deixa no ar essa incoerência de que, para salvar o planeta, ele agora pode destruir cidades inteiras, algo que o herói sempre evitou, seja nos quadrinhos, seja nas telas (incluindo no filme anterior de Bryan Singer).

O vilão Zod até chega a roubar a cena algumas vezes, mas isso também não espanta porque o nível das atuações, em um todo, chega a ser vergonhoso. Até mesmo Diane Lane (Martha Kent) ou Amy Adams (Louis Lane) não seguram as pontas como conseguiriam normalmente. Louis e Martha estão totalmente perdidas, aparecendo em cena sem motivo algum, apenas para serem lembradas de que fazem parte de algum ponto da história. O pior dos momentos sempre sobra para Amy Adams, que na maioria das vezes entra correndo em cena como que atrasada na gravação, e sai andando pra trás à francesa como se fosse excesso de contingência porque nem diálogo que valha a pena ela tem. Enquanto isso Diane Lane só aparece para resmungar de alguma coisa, como a bagunça que a casa ficou depois de ser destruída, ou a panca de mãe durona ao peitar um homem alienígena que ela encara louvavelmente e sem borrar as calças como se fosse um vizinho qualquer. Como se não bastasse ter Russell Crowe, ainda houve espaço para Kevin Costner. Ou seja... está tudo errado. Um elenco que não funciona em uma história pra lá de furada com uma direção que não sabe para onde atirar. Novamente Superman não teve um filme que fizesse jus ao peso de seu nome.

A versão de Bryan Singer pode não ter sido a das melhores, mas os ícones e todo o universo que caracterizam o herói foram mantidos. Não apenas isso, Singer tem uma grande habilidade de conseguir trazer à tona questões e questionamentos humanos em personagens heróicos e fictícios, coisa que em momento algum Snyder consegue fazer. Pelo contrário, Snyder causou uma enorme revolução para, no fim, enfiar um par de óculos no personagem e ainda insistir em chamar aquilo de disfarce. Ele fez a mesma coisa com seu filme anterior, Sucker Puch, promovendo-o sob um enorme barulho para, no fim, ser decepcionante na mesma medida. Snyder está se mostrando um diretor perdido, ruim e sem foco, que começou a carreira utilizando todos seus cartuchos, e hoje em dia não tem uma bala sequer para acertar ao menos uma vez.

Com um orçamento de mais de US$220 milhões, arrecadou mundialmente um pouco mais de US$370 milhões, nada muito surpreendente perto do tanto que foi gasto, mas foi o suficiente para Warner dar sinal verde para uma continuação já entitulada Superman vs. Batman. Ou seja...

CONCLUSÃO...
Fraco, sem foco, perdido e uma verdadeira Kriptonita ao herói. Consegue ser o pior de todos e dificilmente conseguirá se recuperar no futuro. Filme para impressionar aqueles que não conhecem o herói ou para aqueles que simplesmente adoram uma grandiosa destruição sem sentido na tela.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"I CAN'T BREATH..."

★★★★★★★★★★
Título: Gravidade (Gravity)
Ano: 2013
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney
País: Estados Unidos
Duração: 91 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dois astronautas devem confiar um no outro para sobreviverem no espaço após sua nave ser atingida por destroços de um satélite russo que fora destruído.

O QUE TENHO A DIZER...
Em produção desde 2009, o filme foi apenas anunciado em 2010. É dirigido, produzido e escrito por Alfonso Cuarón (o roteiro em parceria com seu filho, Jonas Cuarón), e causou grande expectativa principalmente depois que seu teaser foi lançado no meio do primeiro semestre de 2013 e após a excelente receptividade pelo YouTube a distribuidora encontrou alí um forte caminho para o marketing, lançado logo em seguida o trailer e mais alguns vignettes, que foram imediatamente assistidos em massa. O grande diretor Mexicano e amigo pessoal de James Cameron (o qual também se considera um grande fã de Cuarón), conseguiu esta grande e rara oportunidade após dirigir os bem elogiados Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter And The Prisioner Of Azkaban, 2004) - considerado pelos críticos o melhor da série - além da também bem elogiada ficção Filhos da Esperança (Children Of Men, 2006).

Mas o excelente currículo do diretor não é válido apenas por esses dois filmes. Sua grande estréia foi com o lúdico e emocionante A Princesinha (A Little Princess, 1995), que embora infantil, foi muito bem apreciado principalmente pelos mais velhos. Depois dele veio a refilmagem do clássico de Charles Dickens, Grandes Esperanças (Great Expectations, 1998), seguido por E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También, 2001), filmado em terras natais no qual ele concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Portanto, Cuarón é atualmente um nome estrangeiro forte no cenário cinematográfico nos EUA, se estabelecendo em uma lista de diretores naquilo que vem sendo uma discreta mudança de paradigmas em Hollywood, principalmente na última década, em expandir suas fronteiras com talentos estrangeiros que não a descaracterize totalmente.

Cuarón aparentemente escolhe a dedos seus projetos ao invés de simplesmente sair fazendo filmes para que seu nome seja reconhecido pela quantidade, por isso acaba surpreendendo mais do que o esperado, pois seu nome não é alarmante como é, por exemplo, como o do seu amigo Cameron, portanto o elemento surpresa é sempre mais impactante, e por isso Gravidade supera ou, no mínimo, corresponde qualquer expectativa.

Há muito o que se falar sobre o filme, mas pouco que deve ser dito para não estragar qualquer experiência, pois sem dúvida é um dos melhores dentro do gênero de ficção espacial realizado nas duas ou três últimas décadas, e isso não é exagero. Temos uma lista de grandes títulos de odisséias que em hipótese alguma devem ser ignorados, que claramente tem seu início com o pai de todos, chamado 2001 (1968), de  Stanely Kubrick. A lista de referências segue com Solaris (1974), do russo Andrei Tarkovsky e Alien/Aliens (1979/1986), respectivamente de Ridley Scott e James Cameron. Há outros, com certeza, mas é notório que filmes relevantes neste tema são raros. Poucos atualmente conseguem ter uma originalidade relevante, mesmo que concebidos através de outras referências (principalmente de Kubrick), como ocorre com os excelentes e ignorados Sunshine (2007), de Danny Boyle e Lunar (Moon, 2009), de Duncan Jones. A maioria são tentativas frustradas e pretenciosas fadadas a caírem na mesmice e no cliché de reproduções mal feitas que não acrescentam nada, como o atual e até ridículo Oblivion (2013). Felizmente temos a felicidade de, vez ou outra, sermos agraciados com jóias raras como é o filme de Cuarón. Mas o melhor de seu filme é exatamente se abster dessas referências e criar - na medida do possível - uma narrativa própria e que, por isso, o anula de qualquer comparação, mesmo que o enredo seja simples. O que o difere dos anteriores é a idéia única e principal do diretor em manter toda a situação bem próxima do nível de realidade daquilo que hipoteticamente seria uma verdadeira tentativa de sobrevivencia em uma cadeia de situações catastróficas no espaço, colocando até cenas em primeira pessoa para causar um impacto mais subjetivo em determinadas situações. Metaforicamente, segundo o próprio diretor, seria o renascimento depois de uma diversidade de fatos desastrosos vividos dentro das leis da vida e da sobrevivência. Tanto é assim que o filme se desenvolve em referências à geração, à gestação e ao nascimento, demonstrados claramente em cenas chaves.

Tecnicamente o filme chega aos limites da perfeição em um espetáculo visual e sonoro impressionantes, o que é até paradoxal no último quesito, pois o filme se abstém do som, já que no espaço ele não existe e é dito logo na abertura - o contrário do que é mostrado no trailer, onde a sonosplastia foi utilizada apenas como um truque para causar maior impacto no espectador fácil, mas nem por isso o engana dentro de um resultado total. Preconceitos surgiram quando foi divulgado pelo boca a boca que o filme não teria sonoplastia, fazendo algumas pessoas acreditarem que seria algo tedioso, antiquado e ruim, ou seja, fora do exemplo comercial comumente esperado. Mas para driblar essa ausência, o diretor utilizou fortemente (e de forma bastante inteligente) uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente nas situações, e embora o barulho de explosões e de ações em deriva espacial não exista (o pouco que se ouve é apenas o que os astronautas ouviriam dentro de suas roupas), a trilha sonora os substituem e impactam da mesma forma, pois obviamente Cuarón não teria sido tolo o suficiente de realizar um projeto desse porte da maneira mais alternativa que pudessem imaginar, por mais alternativo e até experimental que ele já naturalmente fosse, jogando pela janela US$100 milhões investidos. Isso tudo volta a seu favor, conseguindo unir a linguagem popular com a alternativa, levando para o público comum o moderno e fácil sem precisar se abster de detalhes óbvios que fizeram total diferença e agradam - até em excesso - o público tecnicamente mais exigente. 

A ousadia não para por aí. Cuarón fez questão de que as tomadas fossem longas. A sequencia inicial, por exemplo, tem mais de dez minutos sem cortes, e essa método pouco utilizado no cinema por conta de limitações técnicas e até mesmo falta de interesse dos diretores em explorar este estilo, é desenvolvido repetidamente durante todo o filme, dando uma sensação de continuidade fluida e realista, praticamente em tempo real. Sim, isso não é novidade. Diretores como Hitchcock, Kubrick, Brian DePalma, Woody Allen, Von Trier, Martin Scorcese e até Spielberg, são grandes fãs e realizadores desse método, mas a grande diferença é que neste filme não havia cenários, não havia elenco ensaiado e marcado, havia um espaço qualquer e um ator (ou dois) em cena contracenando em um chroma key que resultou naquilo já dito por outros críticos como interpretações que aparentam espontâneas, mas que foram exaustivamente ensaiadas e coreografadas em um verdadeiro balé espacial, que se mostra natural por conta do excesso de perfeição e treinamento. Realizar a junção perfeita de cenas inteiramente realizadas em computação gráfica juntamente com cenas e atores reais em sequencias longas e sem cortes como as que são vistas não apenas abraça o espectador para o momento como também faz dessa uma das melhores experiências em assistí-lo. Embora curto (apenas 90 minutos), as tomadas longas, toda a ação lenta e meticulosa e a total ausência de referências temporais e espaciais passa a sensação de ser um filme de duração maior, e de forma alguma tedioso ou cansativo.

O mérito também se vale nas atuações. Embora George Clooney ofereça aquele mesmo arquétipo do ator canastrão, que surge em cena apenas para aliviar as cargas dramáticas, Sandra Bullock novamente consegue carregar o filme com absoluta noção técnica e total coerência com os conflitos vividos pela personagem tal como vem demonstrando nos últimos anos nos poucos filmes mais dramáticos que participou. A maior preocupação da atriz foi em como representar as sensações e emoções da personagem com tão pouco. Ela se preparou fisicamente para o filme por seis meses enquanto revisava o roteiro com o diretor em minúcias. Eles chegaram então a um ponto crucial de como deveria ser a entonação e a frequencia respiratória da personagem em cada situação, já que seria a mesma respiração que ofegaria por conta do stress em alguns momentos e pela falta de oxigênio em outros, ou a respiração que oscilaria entre a euforia, o medo, angustia e sofrimento, já que boa parte do filme é apenas isso que se ouve da personagem Ryan Stone. Foram semanas ensaiando exaustivamente com o diretor em como realizar os momentos de forma precisa ao ponto dele mesmo comparar os ensaios como uma rotina de dança, que no fim resultou em puro realismo e emoção, tanto que James Cameron considerou a atuação da atriz mais impressionante do que qualquer tecnologia que suporta todo o filme.

A contratação da atriz para o papel foi praticamente por acidente, já que Angelina Jolie havia sido originalmente contratada, mas abandonou o projeto ainda em pré-produção. Natalie Portman era a segunda opção, mas desistiu logo depois de anunciar que estava grávida. Sandra foi escolhida depois de uma fila de outras atrizes gabaritadas serem testadas para o papel como Marion Cotillard, Carey Mulligan, Rachel Weisz e Naomi Watts. E não há dúvidas de que a sutileza de sua atuação e seu comprometimento no papel são impressionantes e dificilmente teria atingido um nível equivalente por alguma outra.

Novamente 2013 se repete como o ano da atriz, assim como foi em 2009, já que Gravidade foi uma produção que não havia pretensões em ser o sucesso de crítica e público que tem sido tal qual foi o drama Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e que também foi lançado logo após outro filme feito para ser sucesso comercial e que ainda está nos cinemas, a comédia As Bem Armadas (The Heat, 2013), igualmente como ocorreu com A Proposta (The Proposal) em 2009. Até o momento, o filme já arrecadou mais de US$615 milhões no mundo, impressionante para um gênero que anda em baixa e está sofrendo pela falta de público nos últimos anos. No IMDb o filme já foi avaliado por mais de 168 mil usuáros (a avaliação não pode ser repetida por um mesma pessoa) e atingiu uma pontuação média de 8,5. Ou seja, estatísticamente a aprovação é quase unânime.

É um filme tenso do início ao fim, desesperador e até claustrofóbico, que atiça a curiosidade por ser imprevisível, além de visualmente deslumbrante. Vale ser visto em cópias 3D (o filme foi feito para essa tecnologia), para conseguir ter apenas o mínimo possível e imaginável da sensação de imensidão espacial e profundidade por nós, meros terráqueos. Claro que o roteiro sofre de poucos clichés hollywoodianos em frases heróicas de efeito, que poderiam ter sido evitadas, mas são tão poucas que se ofuscam frente a tanta perfeição tecnica e cuidado. Teria sido impossível realizar o longa em outra época, e dificilmente terá uma qualidade superada em um futuro próximo.

Atenção para a temporada de premiações que começará no final de Novembro, sem dúvida alguma Gravidade é o primeiro grande e forte candidato do ano, e um filme marcante que já é uma referência para filmes futuros.

CONCLUSÃO...
Finalmente uma grande odisséia espacial atual e que impressiona por tratar tudo da forma mais realista possível dentro do fantástico. A perfeição técnica da direção e pós produção, bem como da atuação ímpar da atriz fazem do filme um dos melhores do gênero, e muito possivelmente o melhor do gênero das últimas duas décadas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

QUANTO MAIS FEIAS MELHOR...

★★★★★★★☆☆☆
Título: As Bem Armadas (The Heat)
Ano: 2013
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Paul Feig
Elenco: Sandra Bullock, Melissa McCarthy
País: Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sarah Ashburn é uma agente do FBI arrogante e metódica que não consegue trabalhar em grupo já que ninguém segue e trabalha dentro dos mesmos procedimentos que ela. Ela é então transferida para investigar um crime em Boston, onde conhece a durona e egoísta agente do departamento local Shannon Mullins.

O QUE TENHO A DIZER...
Obviamente o filme foi realizado com intenções de ser sucesso de alguma forma, já que conta com a direção e produção de Paul Feig, que havia dirigido anteriormente Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011). Também tem aquela antiga fórmula de comédias que juntam uma dupla de atores famosos em situações absurdas para gerar o riso fácil dentro dos clichés. Mesmo atualmente essas comédias abraçarem um confortável "politicamente incorreto" com o uso exagerado de palavrões, piadas escatológicas e/ou sexualizadas, e personagens exageradamente estranhos e caricatos, isso também já se transformou em uma fórmula que raramente surpreende.

É o primeiro filme de Sandra Bullock em um hiato de dois anos depois de redescobrir o sucesso com o seu Oscar pelo filme Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), e o quinto filme de Melissa McCarthy em apenas dois anos depois do sucesso alcançado por Missão Madrinha.

Quando o trailer do filme foi lançado, comparações com Miss Simpatia/Miss Simpatia 2 (Miss Congeniality/Miss Cogeniality 2, 2000/2005), foram inevitáveis, e muita gente chegou a considerá-lo uma terceira continuação não autorizada, já que aparentemente Sandra reprisaria um mesmo tipo de papel e McCarthy seria a coadjuvante durona tal qual Regina King fez no segundo filme. A verdade é que essas pessoas não estão erradas, pois grossamente nenhuma das duas atrizes fazem algo diferente do que já foi feito na franquia mencionada, e nenhuma das atrizes também criaram personagens muito diferentes das que já fizeram antes.

O roteiro bobo e furado, e a direção que só leva um nome pois tecnicamente não foge do trivial, são todos compensados unicamente pelas atrizes principais, em situações e diálogos hilários trocado entre ambas como chumbo. Geralmente filmes que unem dois grandes nomes estão fadados a cair no pastiche e no bocejo, mas o mérito (ou demérito) nesses casos são muito mais pelos próprios atores do que de qualquer outro elemento técnico. Todos já sabem que Sandra Bullock é talentosa, talento que ela teve que provar a duras penas numa trajetória com tantos altos e baixos, enquanto Melissa foi ter o talento reconhecido há apenas dois anos atrás, sendo finalmente reconhecida mundialmente como uma atriz e persona naturalmente cômica depois de tantos anos no mercado. Sandra também é uma atriz de comédias, e as faz muito bem, mas aqui ela realmente mostra que seu status de estrela não é em vão, pois ela brilha e oferece situções hilárias com pouco, além de se manter respeitosamente em seu lugar sem qualquer pretensão de roubar a cena ou ofuscar o show particular de McCarthy, que brilha dentro de sua espontaneidade exagerada e bem explorada também sem invadir o espaço da colega. E é exatamente isso que faz o filme funcionar e ter um nível elevado, pois a parceria de ambas gera uma química convincente e equilibrada, e não funcionaria mais com uma do que com outra, tanto que desde a primeira cena juntas, elas não se separam mais nem mesmo nos créditos finais. O interessante é que, embora o filme queira ter uma alto teor feminista, ele não é encarado como um filme de gênero, atraindo tanto o público masculino quanto o feminino em igual medida e agradando ambos por também ter esse equilíbrio entre os dois gêneros tanto na personalidade das personagens quanto pelas situações que elas se encontram.

Como dito, foi um filme feito para ter sucesso comercial por utilizar elementos manjados para conquistar o objetivo de forma fácil. E conseguiu. O filme arrecadou mundialmente US$226 milhões (US$150 mi só nos Estados Unidos, já que é uma comédia tipicamente norte-americana), mas apesar do sucesso e do grande desempenho das atrizes, não chega a ser um filme marcante por não ter um enredo que se destaque, e por ter personagens que soam reprisados, mesmo que bem construídos. Ele nem bem havia sido lançado e uma continuação já foi anunciada. Se Sandra Bullock aprendeu com a experiência, ela saberá que por mais tentador que possa ser, isso não soa uma boa idéia.

CONCLUSÃO...
Uma reunião bem realizada entre Bullock e McCarthy, mas não chega a ser um filme marcante e memorável justamente por se manter dentro de uma fórmula segura de se produzir um sucesso. Um tanto longo nas suas mais de duas horas, um exagero em um filme desse gênero. Os pontos altos da comédia são nas piadas espontâneas e internas que obviamente puderam ser aproveitadas e que fogem do óbvio, e também quando as personagens fazem piadas de si próprias ou são chacotadas pelos outros, como quando no momento em que é dito que a cada vez que elas aparecem, elas estão mais feias. O que é verdade, e talvez um dos poucos elemento mais originais de toda e qualquer piada do longa, que deve ser visto e apreciado pelo talento do elenco.

KICKING ASSES POR AÍ...

★★★★★★★★☆☆
Título: Kick Ass - Quebrando Tudo (Kick Ass)
Ano: 2010
Gênero: Ação, Comédia
Classificação: 16 anos
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloë Grace Moretz, Nicholas Cage, Mark Strong
País: Reino Unido, Estados Unidos
Duração: 117 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Dave Lizewski é um adolescente comum, que gosta de histórias em quadrinhos, apaixonado por sua colega de escola, que passa seu tempo com os amigos ou vendo pornografia na internet. Inconformado com a falta de senso de justiça das pessoas, ele resolve sair por aí combatendo a justiça com as próprias mãos impulsionado pelos seus heróis.


O QUE TENHO A DIZER...
Foi o terceiro filme do diretor Matthew Vaughn, que já havia feito uma adaptação de quadrinhos com o bem elogiado Stardust (2007). Basicamente o filme não foi um estrondoso sucesso (custou US$30mi e arrecadou um pouco mais de US$45 apenas nos EUA), mas se tornou um cult mundial entre os adolescentes tal qual Scott Pilgrim (ambos de 2010).

O filme não apenas alavancou a carreira do diretor como também revelou a atriz Chloë Grace Moretz (que na época tinha apenas 13 anos), e hoje é uma das grandes apostas da nova geração de talentos de Hollywood.

Não há como negar que o filme é um bombardeio de elementos politicamente incorretos (e até mesmo chocantes para os mais conservadores), principalmente nos Estados Unidos. Também não é à toa que a produção do filme foi rejeitada por todos os grandes estúdios, levando o diretor a arrecadar fundos e produzi-lo de forma independente. Apenas depois de pronto o filme conseguiu ser vendido para a Universal por mais do que o diretor havia originalmente solicitado para produzir.

É puramente para entreter. Não tem uma história fabulosa e também não ergue questões fundamentais, existencialistas ou políticas com uso de metáforas. Na verdade é um filme simples, com uma proposta simples e que funciona em todos os aspectos, desde os técnicos até os mais abstratos dentro de linguagens visuais e sonoplastias lúdicas (até quase infantis) para contrabalancear, quebrar e aliviar a seriedade e a violência, que são bastante fortes muitas vezes, principalmente em situações como a de uma menina de apenas 13 anos de idade, que prefere armas do que bonecas, cometer múltiplos homicídios em apenas um piscar de olhos.

A junção de todos esses elementos torna tudo tão absurdo e surreal que é impossível qualquer pessoa leva-lo a sério. Se tem uma coisa que esse filme prova é que o cinema não é e não deve ser culpado pelo aumento da violência, ou ser taxado pela mídia como fonte influenciadora, pois embora a censura seja 16 anos (até 18/19 anos em alguns países), a maioria dos fãs tem menos do que isso, e nem por isso sairam pelas ruas com roupa colorida gritando "eu tenho a força", porque assim como filme mostra, isso tudo soa muito ridículo e até patético, e o público compreendeu essa idéia muito bem.

Para não exagerar na afirmação de que o filme não ergue questões importantes, ele até consegue pontuar uma vista interessante exatamente sobre a falta do senso de justiça, da passividade e da observação inútil e calada de grande parte das pessoas frente a qualquer tipo de crime, sendo este o crime maior e mais grave que qualquer outro, pois deixa claro que a sociedade, em um ponto de vista generalizado, é doente com tanta maldade e oportunismo.

Sem dúvida o grande trunfo do filme é o roteiro, que conseguiu uma rara junção de linguagem adulta dentro de elementos característicos da cultura infanto-juvenil como histórias em quadrinhos e desenhos animados (como no momento em que é contada a história de Bid Daddy), vídeo game (a cena em primeira pessoa de Hit Girl é uma clara referência a jogos do gênero) e uma reconstrução básica do dia a dia comum de todos eles. E para isso nem foi necessário grandes efeitos especiais ou tratamentos de imagem, simplesmente uma boa idéia maturada e bem construída.

CONCLUSÃO...
Como um todo, o filme do inglês Matthew Vaughn pode figurar facilmente na lista dos melhores filmes de ação dos últimos anos, principalmente por ser inesperado e brincar com absurdos que raramente Hollywood teria ousadia de naturalmente fazer. A segunda parte do filme, dirigida por Jeff Wadlow, teve estréia em 2013. Foi praticamente ignorado nos cinemas, mas embora a direção seja diferente, a produção ainda é de Matthew Vaughn.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A NOVA FACE DA TRANQUILIDADE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Enlightened
Ano: 2011/2013
Gênero: Drama, Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Laura Dern, Mike White, Diane Ladd, Luke Wilson, Sarah Burns
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Amy Jellicoe deixou pra trás suas dores do mundo e agora tem o objetivo de se tornar uma agente de mudanças. Mas ninguém está preparado para isso, nem mesmo ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Enlightened foi um seriado diferente - e também um tanto quanto desconfortável - dentro de suas grandes intenções. Criado por Laura Dern e Mike White (ambos atores principais e também produtores do seriado), o roteiro foi escrito inteiramente por White, sem falar da direção, que contou com nomes importantes como Jonathan Demme e até o próprio ator/roteirista. O seriado começou a ser desenvolvido ainda em 2010, e foi ter sinal verde da HBO em 2011, quando estreou no final do ano e agora, em 2013, foi cancelado após 2 temporadas, em um total de apenas 18 episódios.

Basicamente conta a história de Amy Jellico (Laura Dern), uma empresária que dedicou 15 anos de sua vida na empresa Abbaddon Industries e que, depois de aguentar as constantes piadas, gozações e assédio sofrido no seu trabalho por ter sido a "amante abandonada do chefe", tem uma crise nervosa que resulta em um surto histérico e quase psicótico dentro do ambiente de trabalho. A empresa, por medidas óbvias, afasta Amy de seu cargo, e ela se interna em um centro de recuperação mental e espiritual no Havaí, onde fica por aproximadamente 3 meses. Lá ela descobre um novo sentido da vida, e passa a acreditar que sua missão no mundo é transformar as pessoas que vivem a sua volta e curá-las daquilo que ela considera doenças sociais. Empenhada em retomar seu cargo e fazer a diferença, ela volta para a empresa cheia de idéias inovadoras, totalmente transformada e engajada em filosofias espirituais e sustentáveis em um total desajuste com a realidade das outras pessoas e do trabalho realizado por elas. Sua insistente vontade de ser prestativa, amiga e colega, juntamente com o intenso positivismo frente às coisas e sua inesgotável vontade de ser alguém notada e importante para os outros - principalmente para aqueles que a desdenham - causam estranhamento. Junto a isso soma-se a sombra do complexo de inferioridade e da imensa carência afetiva que a acompanha pela ausência familiar e de um ex-marido autodestrutivo, desencadeando uma grande necessidade de atenção numa ingênua dificuldade de nunca saber onde termina o seu espaço e onde começa o dos outros, se tornando uma pessoa inconveniente por acidente. Amy passa a ser vista como uma ameaça, e a discriminação por parte de todos se torna um hábito. Por conta disso ela é transferida para o subsolo da empresa, em um setor onde nem mesmo as próprias pessoas que trabalham em Abbaddon sabem que existe, pois é lá onde são realocados todos aqueles empregados que um dia causaram algum tipo de problema ou constrangimento e não se encaixam em um perfil considerado normal para o ambiente, e por razões legais não podem ser demitidos. Lá ela descobre um outro mundo, o do isolamento, do abuso do poder e de tudo aquilo que movimenta a pior natureza de qualquer ser humano. É lá também que ela vai conhecer sua verdadeira missão e o lugar o qual será o ponto de partida para uma grande transformação.

Tudo em Amy Jellico é um exagero, e é por isso que ela é uma daquelas raras personagens complicadas que conseguem cativar e repelir. Ao mesmo tempo que ela empurra com seus constrangimentos constantes e vergonhas alheias imensuráveis sem intervalo ou descanso, ela conquista o espectador que a compreende, levando-o para dentro de um mundo particular e confuso de compaixão e sentimentos que ela não consegue lidar por conta de uma ingenuidade intrínseca e latente que não se encaixa no mundo sarcástico e plástico no qual vive, onde o humor deixou de ser um alívio e a falsidade virou um pré requisito, e ambos juntos se transformaram em uma arma apontada e pronta para ser disparada na cara de cada um daqueles que temos vontade de ferir, muitas vezes sem nem saber o porquê.

O seriado foi considerado de forma bastante justa como um dos melhores das temporadas de 2011 e 2012, mas o barulho que ele causou não foi suficiente para ser mantido, e sua produção foi cancelada por conta da baixa audiência. A verdade é que, assim como suas produções, por mais que o público da HBO seja diferenciado, ele não conseguiu compreender o sentido e a grande moral que Amy tentou trazer a tona. A vida desajustada, a falta de senso de realidade, a dificuldade de interagir socialmente e de ser compreendida faz existir um grande abismo entre o mundo que ela vive do mundo em que habita. Isso claramente desperta um desconforto imediato a quem não tem paciência o suficiente de compreender toda essa confusão e de onde vem toda essa natureza.

Isso tudo aconteceu de forma bastante similar como o ocorrido com o brilhante seriado The Comeback (2005), uma produção também da HBO de apenas oito episódios e que lidou com uma personagem igualmente desarticulada dos padrões, vivida por Lisa Kudrow. Além de serem igualmente constrangedoras, Valerie Cherish e Amy Jellico compartilham outras características importantes. Além de sofrerem dos mesmos dilemas, como a contida histeria, a dificuldade de sociabilização e compreensão, a falta de equilíbrio entre o excesso de ingenuidade e a falta de malícia, a passividade frente a grandes problemas e conflitos, elas também são vítimas de uma sociedade maldosa e indiferente, que pisa, maltrata, zomba e fere gratuitamente para se sentir superior de alguma forma, sendo falsos exemplos e despertando em suas personalidades a ignorante idéia de que, para serem respeitadas, é necessário ser alguém notado, importante e que aja de maneira igualmente imoral. Sim, elas são os exemplos da imagem da ingenuidade corrompida e determinista de que o meio transforma o homem, e não o inverso.

"Você sente, mas não pensa... atazana e lamenta, mas não compreende nada", é o que diz o presidente da empresa para Amy no último episódio. Esse discurso soaria um argumento um tanto infantil, mas é o que resume todo o seriado. Amy Jellico é isso, emocional e impulsiva, e ninguém está interessado em saber se ela tem intenções de compreender tudo aquilo que não sabe ou desconhece.

Dentro de uma realidade idealista, sim, Amy não é somente uma grande heroína cheia de boas intenções - mesmo que muitas vezes pessoais e egoístas para suprir necessidades, vazios e carências geradas por uma sociedade interesseira e individualista - mas uma metáfora de tudo aquilo que temos vontade de ser e fazer, porém somos constantemente interrompidos por conta de um cabresto que nos guia e nos freia o tempo todo.

Embora um seriado que pese no constrangimento e na perda de oportunidades da personagem ficar calada ou evitar situações piores, ele é extremamente sutil, motivador e emocionante na hora de tratar de valores respeitáveis como o companheirismo, a honestidade, a sinceridade e objetivos de vida que nos façam crescer e nos elevar como indivíduos, mental e espiritualmente, mesmo que cometendo erros e enfrentando caminhos tortuosos, uma filosofia budista propriamente dita e um seriado repleto de simbolismos verdadeiros e humanos sem ser piegas ou cliche.

CONCLUSÃO...
Vida longa às poucas e valiosas lições que esta grande personagem proporcionou em um seriado que definitivamente mercia mais atenção e espaço do que teve.

sábado, 31 de agosto de 2013

O INTELIGENTE E SARCÁSTICO BESTEIROL...

★★★★★★★★★☆
Título: Romy & Michele (Romy & Michele's High School Reunion)
Ano: 1997
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: David Mirkin
Elenco: Mira Sorvino, Lisa Kudrow, Janeane Garofallo, Alan Cumming, Julia Campbell, Elaine Hendrix
País: Estados Unidos
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Duas amigas descobrem que haverá um reencontro de 10 anos do grupo de colégio, o qual não foram convidadas. Intencionadas a aparecerem no encontro para surpreender e mostrar a todos como suas vidas estão muito melhores e interessantes que a de todos aqueles que um dia zombaram delas no colégio, jogam si mesmas em uma cilada ao inventarem uma inofensiva mentira.

O QUE TENHO A DIZER...
Romy & Michele foi o primeiro longa metragem dirigido por David Mirkin, que posteriormente realizou apenas mais um longa, o fraquíssimo e esquecível Doce Trapaça (Heartbreakers, 2001) e nunca mais ousou ir por trás das câmeras como diretor outra vez. Isso não significa que o filme é mau dirigido, o diretor apenas não teve muita sorte.

O mesmo a ser dito sobre o roteiro, que é assinado por Robin Schiff, que por sinal é baseado em sua própria peça teatral chamada Ladies Room, de aproximadamente 1988, e que foi uma febre em Nova York por 5 anos. Para o filme, Robin manteve as personagens criadas na peça, além da enxurrada de diálogos banais. A roteirista chegou a afirmar que a idéia da peça surgiu em uma sala de espera quando de repente se viu prestando atenção naquilo considerado a quintessência da futilidade e da falta de solidez em um diálogo entre duas mulheres tipicamente californianas. Segundo Robin, a conversa era tão ínfima que acabou se tornando uma das coisas mais divertidas e ao mesmo tempo bizarras que ela já ouviu, não somente pela absoluta e total falta de conteúdo, mas principalmente por terem ficado 10 minutos apenas elogiado os cabelos uma da outra e coisas do tipo.

Outra coisa interessante é que Lisa Kudrow já interpretava o papel de Michele Weinberger na peça teatral muito antes de ficar famosa no seriado Friends. Segundo a roteirista, Lisa foi responsável por dar uma personalidade tão realista e hilária à personagem que era impossível imaginar outra atriz em seu lugar.

Curiosamente o filme fez um razoável sucesso quando foi lançado, arrecadando um pouco mais de US$ 30 milhões apenas nos EUA, onde permaneceu em cartaz por poucas semanas. Foi lançado nos cinemas apenas por lá, nos demais países o filme foi lançado diretamente em home vídeo e aos poucos se tornou um cult de momento que foi esquecido com o tempo e ganhando pó nas prateleiras.

A história do filme é bem simples, mas um tanto diferente da peça teatral, já que a roteirista quis dar profundidade às personagens e oferecer situações em que elas pudessem ter maiores liberdades cômicas e variações dramáticas numa mistura entre o lúdico e o absurdo. Romy White (Mira Sorvino) e Michele Weinberger (Lisa Kudrow) são duas amigas inseparáveis, que moram juntas e se conhecem desde a época de escola. Um belo dia são pegas de surpresa ao descobrirem que haverá uma reunião de 10 anos do seu grupo de colégio, ao qual não foram convidadas. As duas orquestram uma aparição surpresa para esnobarem seus ex-colegas que um dia as esnobaram. Mas enquanto analisam os motivos por não terem sido convidadas, finalmente percebem que suas vidas não são tão interessantes quanto imaginavam. Com isso em mente, para passarem a imagem de que hoje são grandes mulheres de negócio, arquitetam uma mentira pra lá de furada e absurda de que ambas inventaram os Post-Its (os papéis amarelos autoadesivos de anotação).

É uma pena que Romy & Michele seja um filme injustiçado e pouco lembrado, pois abocanhou um público do qual poucos entenderam o tom da comédia desenvolvida, colocando esse título no ostracismo total e praticamente em extinção das prateleiras e dos canais. A princípio as pessoas que o assistem prestam atenção aos chamativos clichés, ou assistem no desinteresse preconceituoso de acreditar ser mais uma história sobre conflitos adolescentes comuns ou do arquétipo das louras burras (deixando claro que as personagens são oxigenadas, o que rende uma excelente frase de Lisa Kudrow sobre isso em uma das sequencias). Só quando o filme está perto do fim é que o espectador tem um insight e nota que os clichés utilizados foram apenas ferramentas utilizadas contra os próprios clichés, pois há sempre um elemento ou outro que os distorcem ou quebram sua construção habitual. Assim como a série Pânico (Scream, 1996/1997/2000/2011), de Wes Craven, tirou sarro dos clichés dos filmes de horror adolescente, Romy & Michele tira sarro dos clichés de comédias adolescentes e pastiches, e isso é nítido quando todos os personagens, cada um em seu momento, zombam de suas próprias situações.

O grande atrativo do filme é toda a química homogênea e a fluidez que raramente se concretiza em filmes desse gênero. Além da parceria excepcional e convincente das atrizes (e de todo o elenco), há uma trilha sonora com grandes referências aos ícones oitentistas que é utilizada em total sincronia com o roteiro. Além de serem grandes personagens ocultos e até responsáveis por dar cronologia e profundidade, os versos falam exatamente do momento vivido e/ou tentam complementar o que não foi dito propriamente, como a dar uma moral para suas respectivas cenas. O figurino também tem seu valor não apenas no registro da cultura e da moda dos anos 80/90, mas ao transpor a essência de cada uma das personagens. Enquanto Michele, que é mais passível, utiliza cores mais lúdicas e despretenciosas, Romy, mais dominadora e determinada, utiliza cores mais quentes e fortes, e ambas são o exemplo do exagero californiano e da bagunça cultural e turística dessa região. Soma-se a isso os diálogos que entram em um paradoxo de futilidade em situações inteligentes, resultando em cenas substanciais por conta do brilhante desempenho das atrizes, sem situações forjadas ou marcações. É fácil fazer um filme com diálogos fúteis e que abusem de absurdos sem causar impacto, deixando aquele vácuo inexpressivo, mas é difícil realizar o contrário e ainda manter o tom do humor sem esboçar o tédio, como acontece nesse filme.

Não há dúvidas de que as personagens são cativantes, pois a ingenuidade transmitida nada mais é do que uma ridicularização exagerada da nossa própria ignorância, além do grande paradoxo de ambas serem e fazerem exatamente aquilo que elas dizem não gostar nas outras pessoas. Elas fazem isso pois é exatamente esta a tendência da maioria daqueles que já se sentiram excluídos ou ultrajados por algum determinado grupo ou situação, acreditando que aquela minoria mais dominante seja exemplo a ser seguido, ou suas ações devem ser exemplos a serem reproduzidos. Enquanto Romy e Michele podem parecer bastante ignorantes sobre a vida, a história delas é contada por um ponto de observação bastante realista e detalhado que se torna crível e hilário justamente pela despretensão exagerada de ambas. Hilário quando observado de longe no escopo sarcástico, mas triste e uma engolida seca quando visto de perto, principalmente por aqueles que se identificam com a trajetória da dupla ou de qualquer um dos demais personagens.

CONCLUSÃO...
Romy & Michele, embora tenha essa aparência pastiche, possui um humor raro e inteligente e de indiretamente atingir e constranger todos, mas sem ferir e sem deixar o hilário ser ofuscado. Filme para ser visto, revisto e apreciado de forma diferente a cada nova vez.

DIFERENTE, MAS NÃO NOVO...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Sem Perdão (Dead Man Down)
Ano: 2013
Gênero: Ação, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Niels Arden Oplev
Elenco: Colin Farrell, Noomi Rapace, Terrence Howard, Isabelle Huppert
País: Estados Unidos
Duração: 118 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem e uma mulher se conhecem e descobrem que possuem um objetivo comum, se vingarem daqueles que lhe causaram dores e não foram punidos.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido por Niels Arden Oplev, diretor norueguês que descobriu a fama após ter dado início na adaptação original da trilogia Millennium, quando dirigiu o primeiro deles, Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (Män som hatar kvinnor, 2009). O filme teve reconhecimento mundial após os livros do falecido autor Stieg Larsson terem virado febre nas prateleiras, tanto que Hollywood abocanhou a idéia com unhas e dentes e fez um remake superproduzido, inferior e desnecessário dirigido por David Fincher.

É o primeiro filme do diretor em solo norte-americano, e também o primeiro reencontro de Oplev com a atriz Noomi Rapace, que agora é famosa e reconhecida em Hollywood por causa do diretor e também por sua interpretação viceral da protagonista Lisbeth Salander em Os Homens, e ao contrário da sua personagem anterior, aqui Noomi está irreconhecivelmente feminina, discreta e até muito sexy dentro de sua beleza norueguesa um tanto peculiar.

Embora realmente pareça um filme feito para norte-americanos, ele deixa a desejar para este público que dá preferência a um monte de bombas do que a uma história bem contada, tanto que o diretor reprovou publicamente a publicidade do filme nos EUA justamente por deturpar a imagem do filme e a história contada.

Sem Perdão é um filme até curioso, que não segue a premissa do filme de ação apenas pela ação. Ele pega uma história de vingança comum para usar como pano de fundo para pintar e se aprofundar no psicológico dos personagens, seus conflitos internos e sentimentos oprimidos. Mas mesmo que bem feito, a impressão que se tem é de que algo falta. Nem por isso deixa de ser um filme interessante e, dentro de toda sua brutalidade, até delicado na forma como trata e desenvolve a relação entre os personagens.

Victor (Colin Farrell, ótimo como sempre), é um homem que trabalha para um chefe da máfia com a intenção de se vingar da morte de sua mulher e filha. Ele é um homem quieto, de poucas palavras, contido, introspectivo e solitário, que mora em um apartamento de esquina, cuja janela de sua sala dá diretamente para o mesmo andar da sacada de um apartamento igualmente de esquina, onde vive a complexada Beatrice (Noomi Rapace). Ambos se vêem frequentemente pelas janelas ao acaso, mas nunca tiveram coragem de se apresentarem ou ao menos trocar palavras. Até que Beatrice, incentivada por sua mãe, resolve enviar um bilhete com seu telefone. Indeciso, mas impulsionado pela curiosidade e um certo desejo, ele liga para ela, e ambos resolvem se encontrar. O que Victor não esperava é que Beatrice já o observava há algum tempo, sabendo de segredos da vida do vizinho que ele não imaginava.

Essa relação voyerista que os personagens vivem chega até a ser uma referência interessante - proposital ou não, direta ou indireta - a Hitchcock e sua Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), mas a verdade é que o filme é um thriller denso, violento e cru, que se mistura a um drama psicológico que por momentos é até bastante cliché, mas que se justificam com o desarrolar da história. Há tabém uma grande tensão sexual entre os personagens e que nunca se concretiza da forma que o público comumente espera, o que é até um grande alívio, pois deixa de ser um grande cliché a menos. 

Oplev sem dúvida está bastante seguro e confortável ao novamente tratar de um tema que lhe agrada: a vingança e as dificuldades que vem juntas com esse pacote. Essa discussão no filme é constante. Por uma parte vemos os personagens querendo se vingar dos respectivos causadores de suas dores, traumas e complexos, mas em uma segunda parte vemos o sofrimento dos personagens ao perceberem que o alívio da dor não acontece gerando mais dor, e sim uma condição consciente de superação e até mesmo redenção.

CONCLUSÃO...
Uma pena que toda a moral que o filme constrói acabe perdendo o tom em situações bastante surreais e inverossímeis que vira e mexe aparecem, mas que estão lá pra chamar a atenção e agradar os muitos que só esperam esses tipos de sequência de grande impacto e fácil absorção. Não foi dessa vez que Oplev conseguiu conquistar o público norte-americano, e acredito que ele nem deva ter interesse. Melhor continuar na Noruega produzindo filmes que não sejam obrigados a se enquadrar em padrões emburrecentes.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

MINHA MÃE NÃO É UM FILME...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Minha Mãe É Uma Peça - O Filme
Ano: 2013
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Direção: Andre Pallenz
Elenco: Paulo Gustavo, Ingrid Guimarães, Herson Capri
País: Brasil
Duração: 80 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Hermínia é uma dona de casa desquitada, mau humorada, boca suja e esculachada, porém dedicada a vida doméstica e a seus filhos que não aguentam mais tanta histeria. Tudo muda quando ela resolve dar um tempo de tudo e de todos, e pensar mais em si, coisa que não fez desde quando seu primeiro filho nasceu.

O QUE TENHO A DIZER...
Minha Mãe É Uma Peça - O Filme (2013), como o título logo deixa claro até mesmo por conta de seu duplo sentido, é um filme baseado em uma peça teatral de enorme sucesso. Tanto a peça, quanto o filme, são atuados e escritos pelo próprio ator Paulo Gustavo, que baseou a personagem Hermínia em sua própria mãe de forma potencializada (se é que isso seria possível).

Infelizmente é necessário e um tanto obrigatório começar dizendo que o filme é produzido e distribuído pela Globo Filmes justamente para justificar todo e qualquer defeito, já que levar esse selo nunca é um mérito quando a produtora não é um braço, mas uma irmã gêma da própria Rede Globo de televisão, mantendo no cinema os mesmos moldes idênticos aos televisivos na fadigada intenção de, a todo custo, querer atingir apenas uma determinada classe populesca, o que nunca tira aquela impressão de se ver um episódio folhetinesco extendido ao invés de um filme para o cinema. Tanto é assim que novamente vemos a mesma meia-dúzia de atores de novelas sendo contratados como coadjuvantes para os mesmos tipos e participações especiais, além do desenvolvimento óbvio das histórias que segue com crises dramáticas desnecessária ou o exemplo do que existe de mais televisivo e desnecessário em um longa: os inserts de fachadas, aquelas cenas breves que aparecem mostrando o prédio ou a casa onde os personagens farão a cena seguinte. Chega a ser cansativo o exagero com que tudo isso é utilizado.

Toda essa grande bola defeituosa não é auxiliada pela direção bem pobre e igualmente televisiva e limitada de Andre Pellenz, que parece não se esforçar pra dirigir além de simplesmente movimentar a câmera de um lado para o outro (quando movimenta). Ele nem ao menos sequer se atentou em aliviar os ping-pongs nos diálogos ou as marcações teatrais automáticas de Paulo Gustavo, o que por um lado é até compreensível, já que o ator interpreta a mesma personagem há 8 anos em cima de um palco, mas é função de um diretor de cinema quebrar esse vícios, já que a linguagem é outra. Também temos o problema constante no cinema nacional dos atores interpretarem as falas que decoram, o que resulta em cenas artificiais, com zero de espontaneidade. Raras excessões quando partem dos atores mais gabaritados, como o próprio Paulo ou Ingrid Guimarães.

A história do filme não é muito diferente da do teatro. Se for pensar bem, não é nada diferente do teatro. A diferença é que agora Hermínia deixou de ser uma mistura de monólogo com stand up comedy para se transformar em uma personagem central de uma família perturbarda por suas histerias e manias, e os demais personagens, que no teatro eram ocultos e indeterminados, tomaram forma, ganharam falas e ações que não acrescentaram muita coisa além de ilustrar e desenhar ao público fácil algo que anteriormente era apenas criado, imaginado e fantasiado pelo próprio espectador.

Assisti a peça pela primeira vez em meados de 2009, antes mesmo de Paulo Gustavo se tornar o fenômeno que se tornou, e voltei a assistir no final de 2012, depois de se transformar no fenômeno que se transformou. Com o passar dos anos o ator Paulo não mudou absolutamente nada e se manteve o mesmo ator acessível e sem estrelismos de quando assisti a primeira vez, mas na peça notei algumas mínimas mudanças que não me fizeram achar tão hilária quanto achei ao assistir pela primeira vez, e ao assistir o filme, senti que ele me frustrou mais do que quando assisti a peça pela segunda vez. Ou seja, para quem já conhece, parece que tudo vai perdendo o fôlego e o anseio com o passar do tempo.

Mesmo com tantos defeitos habituais do cinema nacional, do sistema Rede Globo de produção e da direção quase amadora, o filme vale a pena ser assistido pois o show é sempre de Paulo Gustavo, e a impressão será completamente diferente e mais satisfatória principalmente para aqueles que não conheciam a personagem ou pouco sabiam sobre ela.

Paulo Gustavo brinca com os exageros o tempo todo e sem vergonha alguma ao hiperbolizar situações do cotidiano. Ele também consegue fazer situações que soariam constrangedoras e ofensivas serem hilárias até mesmo para os mais púdicos ou conservadores justamente por conta dessa aparência e linguagem desconexa com a realidade que é construída. Embora exagerado, tudo é crível quando o ator abre a boca por conta da espontaneidade, do improviso e do tom de esculacho utilizado ao ponto de nunca ser considerado que por baixo daquela peruca cheia de bobes e daquele vestido de estampa padronizada, existe um homem corpulento e completamente careca.

A conclusão do filme é bastante fora de todo o contexto, e se transformou em uma extensão de piada que podia ter sido evitada, mas que, se for bem usada e aproveitada, pode render uma segunda parte muito mais interessante para uma personagem que merece ser explorada além do habitat domiciliar e de piadas prontas e de risada fácil. O mérito do ator é válido em conseguir o mesmo sucesso da personagem no cinema tanto quanto no teatro e a grande satisfação que o filme passa é de sentir claramente o gosto que ele tem por interpretar Hermínia. Ponto positivo para os créditos finais que mostram a verdadeira mãe do ator de forma muito breve, mas o necessário para provar para qualquer espectador que duvidou que a personagem em si não é um exagero.

CONCLUSÃO...
O filme não evita cair em clichês e cafonices que, volto a dizer, não são problemas do ator, da história ou da personagem, mas do cinema nacional em geral, que insiste em AINDA se manter nos padrões e nas experiências televisivas, o que é outro sistema de linguagem tal qual é o teatro. Portanto, levar uma peça teatral para o cinema já é algo extremamente perigoso, e se torna uma bomba quando é adaptado para o cinema com os moldes de televisão. Quer dizer... é simplesmente pegar defeitos e enfiar embaixo de uma lupa. A salvação é o ator, que carrega o filme nas costas da mesma forma como faz na peça. Então, já que isso acontece da mesma forma, se houver a opção de escolha, fique com a peça.
Add to Flipboard Magazine.