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terça-feira, 30 de junho de 2020

O CINEMA NACIONAL NO SEU PAPEL...

★★★★★★★★★☆
Título: A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão)
Ano: 2019
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Karim Ainouz
Elenco: Julia Stockler, Carol Duarte, Gregório Duvivier, Barbara Santos,
País: Brasil, Alemanha
Duração: 139 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A história de duas irmãs inseparáveis, porém separadas pela vida e pela vontade dos homens.

O QUE TENHO A DIZER...
A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão) é uma filme de mulheres, para as mulheres, e para ser assistido por todos os homens ao lado de mulheres.

É o cinema nacional exercendo o seu papel conscientizador que tão bem consegue fazer, escancarando os defeitos de sua sociedade através de metáforas que não tem medo de mostrar as engrenagens tortas, desdentadas e enferrujadas da hipocrisia que a movimenta e da violência perturbadora que a amordaça. No caso dessa obra, especificamente sobre a relação dessa sociedade que está sempre com/contra as mulheres, estas constantemente diminuídas, reduzidas às necessidades patriarcais e manipuladas a exercerem os sonhos e as vontades de todos, menos os próprios.

O filme do diretor Karim Ainouz, baseado no livro da pernambucana Martha Batalha, é de um niilismo sufocante sobre o destino de duas irmãs muito unidas que se separam ainda jovens. Enquanto Guida foge para a Grécia com um marinheiro por quem se apaixona, Eurídice permanece no Rio de Janeiro com seus pais e um casamento marcado. Eurídice sonha em entrar para o famoso Conservatório de Viena, mesmo que a contragosto de sua família. Mas o maior medo dela é uma gravidez precoce, e o impecilho que isso seria para seus objetivos, tomando o máximo de cuidado possível. Mesmo assim não adiantou por conta das constantes investidas sexuais de seu marido em intercursos muito mais violentos do que românticos e naturais, como se seu objetivo fosse engravidá-la a qualquer custo para provar à sociedade seus valores machistas e igualmente boicotar os sonhos de sua mulher.

E é nesse meio tempo, entre a ida de Guida para a Grécia e seu retorno inesperado, que a vida começa a mostrar para essas duas mulheres que a sociedade não permite que no mundo haja lugar para construirem as coisas às suas vontades. E que tudo não passa de uma farsa construída pelo poder dos homens que as oprimem, as culpam, as responsabilizam, as fazem voltarem-se umas contras as outras, as separam e as isolam, como propriedade. Objetos de servidão cercados, terrenos férteis dos senhores possessivos e privadores.

A história não nos poupa dos constantes apedreijamentos que as irmãs levam do meio que vivem e da violência constante da sociedade masculinizada. Da violação física à psicológica, vemos de tudo um pouco em doses constantes e intensas o bastante para não termos oportunidade de vislumbrar qualquer esperança de que a vida das protagonistas possa ser diferente ou recompensadora.

É um filme que deixa um gosto amargo, e termina com um buraco no peito. Melodramático, mas necessário, e nem por isso deixa de ter sua sutileza, mesmo que violenta e sufocante.

domingo, 28 de junho de 2020

CATIVANTE E HONESTO...

★★★★★★★☆
Título: Eurovision: A Saga de Sigrit e Lars (Eurovision: The Story Of Fire Saga)
Ano: 2020
Gênero: Comédia
Classificação: 10 anos
Direção: David Dobkin
Elenco: Will Farrel, Rachel McAdams, Dan Stevens, Pierce Brosnan
País: Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
A saga de Sigrit e Lars para chegarem ao maior festival de música da Europa, o famoso e excêntrico Eurovision.

O QUE TENHO A DIZER...
Eurovision é o maior e mais famoso festival de música europeu que existe. É uma competição musical que anualmente reúne todas as nações européias para os países participantes escolherem uma nacionalidade para representar o continente.

É um evento popular que obviamente mescla talento com exageros performáticos que agregam culturas e caracteristicas nacionalistas que já revelaram inúmeros artistas talentosos e bastante excêntricos quando comparados com os padrões da indústria pop do extremo ocidental. É um evento ultrapop por excelência que, aos olhos estrangeiros, pode parecer antiquado e cômico, porém levado a sério por lá ao trazer consigo a importância de pequenas nações terem seu momento de reconhecimento e destaque por meios que tradicionalmente não teriam com facilidade.

A Eurovision é um evento agregador que promove culturas nacionais, incentiva reconhecimento de nações, promove o turismo, a irmandade, a paz, e festeja a cultura de maneira democrática e emocionante.

E é válido dizer que esse é um projeto pessoal de Will Farrel. O ator e comediante foi apresentado a este festival de música em 2009 pela sua mulher, que é finlandesa, por isso a história parte daquele país. Desde então é apaixonado pelo evento, não perdendo uma edição.

O roteiro, escrito por ele e Andrew Steele, começou a ser desenvolvido em 2017. Foi nesse ano que Farrel conseguiu ter acesso irrestrito aos bastidores para o laboratório que o levaria a colocar no filme, de maneira satírica, muito das experiências que absorveu.

O interessante é que Farrel conseguiu criar uma biografia fictícia que, a princípio, até parece não ser, tamanha a autenticidade com que ele, bem como Rachel McAdams, interpretam o casal de heróis da história. Uma autenticidade que carrega todos os elementos necessários para serem verdadeiros concorrentes do concurso musical.

Essa dúvida cai por terra exatamente pelos exageros das situações, anacronismos e confusões temporais, mas que passam batidos frente a todo o espetáculo constrangedor que Lars faz questão de colocar a dupla a todo momento.

Farrel é um ator, roteirista e produtor que adora lidar com a comédia de absurdos, e aqui ele se sente bastante confortável numa química até surpreendente com a versatilidade de McAdams, que constrói a personagem Sigrit de maneira tão convincente quanto ele.

É uma sátira, com pitadas de paródia, mas respeitosa o suficiente para ser considerada uma homenagem tal qual o ator e roteirista assim desejou. Um musical que tem uma essência interessante, que inclusive até quebra determinados padrões do gênero ao fazer essa jornada da dupla Fire Saga, em buscar um sonho e nada mais, usar esquetes musicais como elementos empolgantes mais do que dispersivos ou entediantes, agradando até mesmo aqueles que não gostam do estilo.

Uma pena que as piadas ou situações cômicas sejam frequentemente esticadas além do necessário fazendo do filme algo mais longo do que poderia, e o egocentrismo megalomaníaco de Lars acaba testando também a paciência do espectador, fazendo o personagem cair no perigo maior da comédia constrangedora, a de a todo momento se tornar vítima de suas próprias ações sem muita necessidade, se desconectando fácil e constantemente da empatia que ora consegue desenvolver, num puxa-e-empurra exaustivo.

E são nesses momentos que o roteiro tropeça, e quanto mais o personagem se esforça para querer provar seu mérito, mais ele sai ofuscado, e no fim é McAdams e sua personagem quem roubam as cenas, a empatia, e a torcida pelo sucesso, e o filme como um todo. Talvez tenha sido uma construção proposital, e a hilária - e ao mesmo tempo assustadora - cena do echarpe ser a metáfora resumida disso tudo, de Sigrit ser constantemente arremessada para trás toda vez que tenta se distanciar da obsessão inconsequente de seu parceiro. É uma pitada dramática que poderia ter sido bem explorada, mas que só vai ficar clara perto do fim, dando a sensação de uma reviravolta repentina pela mera obrigação de se ter o conflito dramático que se oponha à comédia.

Apesar dos tropeços dessa imprecisão de momentos que se opõem, a Saga de Sigrit e Lars é bastante familiar, leve e até comovente pela humanidade que ambos conseguem dar aos seus respectivos papéis, e que funciona na sua despretenção. Um filme estranho, com personagens esquisitos e cativantes, que no fundo traz uma mensagem que até pareça cafona e clichê, mas honesta e reconfortante.

E assim deve ser assistido, sem muitas expectativas, e sem muita exigência. E dessa forma a dupla conquista.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

JÁ ESTÁ CONSTRANGEDOR...

★★★★
Título: O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (Terminator: Dark Fate)
Ano: 2019
Gênero: Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Tim Miller
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Mackenzie Davis, Linda Hamilton
País: China, Espanha, Hungria, Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Após os eventos do segundo filme, mais de 20 anos se passaram e a história volta a se repetir para Sarah Connor.

O QUE TENHO A DIZER...
O sexto filme da franquia, mas o terceiro na ordem cronológica de sua história, como o diretor James Cameron o categoriza, é sem dúvida uma piada suja e sem graça.

Em primeiro lugar porque, embora Cameron tenha apoiado os demais filmes que ele não dirigiu, ele nunca participou deles de outra forma, e sempre esteve insatisfeito com todos. Ao mesmo tempo, relutante em dirigir um terceiro filme, alegando que poderia cair na sua própria repetitividade por falta de idéias melhores (e vejam só o que deu a franquia, ou no que dará Avatar e suas infinitas continuações já agendadas até 2027).

De fato, era difícil existir alguma história que superasse Julgamento Final (1991), uma sequência que conseguiu ofuscar até mesmo seu antecessor de tal forma que hoje é considerado um clássico dos clássicos do cinema de ação. Ao mesmo tempo, era difícil também superar o plot twist que conseguiu transformar T-800 de um implacável ciborgue caçador de humanos para um defensor deles, tirando a consagrada imagem de vilão que Schwarzenegger conquistou no primeiro filme e recolocando-o na imagem de herói por excelência que construiu ao longo de toda a carreira sem cair em bobagens narrativas que fizessem isso gratuitamente para manter a imagem positiva de um astro. Um marketing muito bem jogado ao ponto de fazer tanto o ator, como o icônico personagem, catapultarem extratosfericamente na lista dos mais idolatrados e carismáticos da história do cinema com bordões inesquecíveis para qual seja a geração.

A Revolução das Máquinas (2003) não chega a ser um filme ruim, mas foi naturalmente inferior desde sua concepção por terem riscado Sarah Connor da história e de qualquer possibilidade de retorno, personagem que foi a verdadeira manivela e o epicentro de existência de toda a série. Foi imperdoável. Mas perto de Destino Sombrio (2019), o terceiro filme, o de 2003, chega a parecer até uma obra prima.

Mesmo se, de fato, ignorássemos a existência das sequências anteriores, como assim James Cameron quer (ou praticamente obriga), o atual filme não traz nenhum elemento que possa ser considerado de grande importância para a história, muito menos para sua existência.

A sequência inicial consegue até enganar ao reutilizar cenas do segundo filme, de uma Sarah Connor aparentemente fora de si, no ápice de uma suposta esquizofrenia durante um interrogatório no manicômio em que estava internada. Sua narrativa então leva a outro espaço temporal, naquele em que um flashback mostra o que realmente aconteceu após o segundo filme: John Connor finalmente é executado por um exterminador (e isso não é um spoiller). O efeito "deaging" que usaram tanto em Linda Hamilton quanto em Schwarzenegger para rejuvenecê-los são de cair o queixo, e mais realistas que qualquer outro filme que já tenha utilizado essa tecnologia. Nem O Irlandês (2019), de Scorcese, conseguiu isso. E essa cena talvez seja a única a ser levada com seriedade.

É nesse momento que bate aquela nostalgia do perene conflito entre Sarah e T-800 no primeiro filme, ou o reencontro assustador que ambos tiveram nos corredores do manicômio, no auge do trauma de Sarah sobre os eventos do primeiro filme. Paralelamente bate também um sentimento entristecedor de como o tempo é injusto com nossos corpos, de como nossas referências no cinema também envelhecem. Essa tristeza aumenta com o decorrer do filme, quando percebemos quantas boas idéias foram tão desperdiçadas aqui, desrespeitando aqueles que assistem, e também a carreira e o tempo dos atores que contribuíram para essa mágica do cinema de criar universos e personagens que marcaram nossas lembranças e experiências.

O roteiro tenta fazer uma releitura da história do primeiro filme sem trazer nada novo ou agregador, transformando-se num cliche de si mesmo o tempo todo. Há um excesso de coisas que não se conversam entre si. Muita gente do futuro agregada, muita gente aparecendo em cena sem propósito, muitos personagens querendo ser heróis de algo ou alguma coisa ao mesmo tempo, e muitas, mas muitas cenas de ação que extrapolam os absurdos além de qualquer Indiana Jones sobrevivendo a uma explosão nuclear dentro de uma geladeira. A sequência do avião, que supostamente deveria ser o ápice do filme, é um tédio sem fim, e nem no filme de ação mais absurdo um cargueiro daquele demoraria tanto para cair como demora esse, para citar o mais básico dos absurdos que nem o cinema do absurdo suportaria.

Não há química entre os personagens, e Linda Hamilton assustadoramente parece mais robótica que Schwarzie no primeiro filme, e Schwarzie nesse filme aparenta mais humano e expressivo que ela. Poderia ser um contraste metafórico interessante se tudo em volta não fosse tão reciclado e feito sem qualquer coesão pois, pior do que esses defeitos, é o roteiro não ter uma história descente, já que é apenas a tecla de preservar o presente para não se alterar o futuro sendo batida incessantemente. Um enredo outrora explorado das mais diversas formas em todas as sequências que James Cameron hoje considera "não oficiais", ou de uma "realidade paralela".

Poderíamos facilmente culpar o diretor Tim Miller se ele não tivesse exposto os conflitos que surgiram entre ele e James Cameron durante a produção. Miller assim bem fez para preservar-se do desastre anunciado que Destino Sombrio estava fadado, ao ponto de afirmar que nunca voltaria a trabalhar com Cameron novamente. Segundo ele, Cameron tolhou qualquer liberdade ou exploração criativa que tentasse atualizar a história, ou dar a ela elementos que a diferenciasse sem descaracterizá-la do universo que faz parte.

A intenção do diretor era desenvolver a idéia de que os esforços foram em vão, e a humanidade realmente havia perdido a guerra para as máquinas, sendo a solução enviar humanos ao passado para tentarem descobrir o que é que deu errado no caminho e construir-se a ação a partir disso. Cameron rejeitou por completo um enredo que rinha tudo para funcionar até mesmo para filmes posteriores, embora tenha gostado da idéia de uma personagem humana, mas aprimorada tecnologicamente, de ser incluída, resultando na inclusão de Grace (Mackenzie Davis), talvez a única que leve tudo a sério do começo ao fim. As constantes interferências de Cameron foram tantas que ele mesmo chegou a pessoalmente editar boa parte do filme, razão que intensificou a animozidade de ambos porque ele estava indiretamente interferindo no roteiro ao excluir ou alterar a ordem de cenas que, para Miller, eram de grande importância narrativa.

O resultado dessa discordância entre direção e produção é evidente, num filme vazio que tenta compensar sua falta de identidade apelando nos absurdos óbvios, de elementos já usados em todos os filmes anteriores, da ação por obrigação e na força de personagens que perderam suas relevâncias pelo mal uso, sendo agora nada além do que figuras inexpressivas.

Eu mesmo já ouvi a teoria de que John Connor nunca foi o revolucionário do futuro, mas um grande laranja na história, manipulado para não apenas enganar os exterminadores como também motivar Sarah Connor a permanecer viva através de seus instintos maternais, já que ela mesma seria a grande responsável por toda a transformação do futuro sem saber disso, e por isso a humanidade conseguiu ser salva. E seu filho, apenas um reles mortal que herdou seus feitos.

Enfim, qualquer enredo poderia ter sido melhor do que fusquinhas que tem que empurrar sendo perseguidos por caminhões conduzidos por um exterminador invencível. Quem já não está cansado de ver e rever essas cenas na franquia? E James Cameron, que nunca pisou no set de filmagem, dando pitacos e interferindo de maneira inapropriada para manter a história no mesmo platô que todas as sequências se mantiveram.

Melhor teria sido se ele nunca tivesse se dado a esse trabalho. Um diretor que coleciona sucessos, mas nem por isso deveria ser superestimado como é.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

INTERESSANTE, MAS ESQUECÍVEL...

★★★★★
Título: Hebe: A Estrela do Brasil
Ano: 2019
Gênero: Drama, Biografia
Classificação: 14 anos
Direção: Maurício Farias
Elenco: Andrea Beltrão, Marco Ricca, Danton Mello, Caio Horowicz
País: Brasil,
Duração: 112

SOBRE O QUE É O FILME?
As dificuldades pessoais e profissionais de Hebe no período de transição da ditatura militar para a democracia no Brasil, ao mesmo tempo em que deixa uma emissora para ser contratada por outra.

O QUE TENHO A DIZER...
Começando pelo título, o filme deveria levar apenas o nome dela. Hebe era uma figura tão única que não precisava de alcunhas. Embora tivesse várias, usadas apenas para reforçar sua importância no entretenimento como a primeira comunicadora a alcançar o status que conquistou em um cenário comandado por homens e seu machismo, a verdade é que sempre foram desnecessários. O subtítulo remete a idéia da nossa curta memória cultural, de que não sabemos quem ela foi, ou de que tenhamos esquecido quem ela possa ter sido. Junto a isso, também reduz a qualidade do projeto como um todo nesse apelo popular do uso de referentes, algo costumeiro na TV, mas inadequado no cinema porque habitualmente predispõe a noção de que a qualidade do filme, por si só, não sustenta ou garante seu sucesso.

A história se desenvolve no fim dos anos 80 e começo dos anos 90, episódio importante tanto para a apresentadora, de sua transição da Rede Bandeirantes para a Rede TVS/SBT, quanto para o país, pegando o fim da Ditadura e o começo da redemocratização, a reminiscência da censura e a guerra que Hebe travou publicamente com ela. Junto a isso as subtramas da relação abusiva que sofreu por anos com Lelio Ravagnani (Marco Ricca), sua relação com a diversidade sexual e de gênero, além da abordagem superficial de sua proximidade amorosa e liberal com seu filho e sobrinho, complementam os arcos dramáticos.

O problema é que o diretor, Maurício Farias, muitas vezes parece esquecer da personagem, tentando forjar mais o espetáculo em volta dela do que nos pormenores, dando uma sensação fria e distante, um tanto artificial, quando deveria ser o contrário. Isso é, talvez, o velho problema recorrente da produtora Globo Filmes, que insiste em manter padrões televisivos no cinema, com design artístico e a já cansada fórmula tradicional de decupagem feitas mais para criar cenários de situações do que fazer deles extensões ou complementos dos personagens e das narrativas que os guiam.

Casado com a atriz na vida real, os dois já trabalharam juntos anteriormente em diversos projetos para a TV, como também no filme Verônica (2008), bastante elogiado na época. Essa relação pessoal e profissional de longa data com a atriz evidentemente atrapalha todo o resultado que se espera, principalmente na construção de uma personagem tão singular, porque atinge aquela zona de conforto complicada que, de tão familiar, deixa de ter trocas, apenas somatórias do mesmo modus operandi de sempre. É como se Farias já estivesse bastante habituado com o processo da atriz e vice-versa, num excesso de confiança que agora interfere na sua capacidade crítica do que deveriam aceitar de fato, ou não. E essas rédeas frouxas do diretor também são sentidas na maioria das cenas, principalmente quando envolvem coadjuvantes menores ou menos experientes, como no caso de Caio Horowicz, que interpreta Marcelo, o filho de Hebe. A interpretação do ator é sofrível, e sua presença em cena é tão apagada que até em momentos onde deveriam ser mais necessárias e impactantes, como em dois momentos dramáticos cruciais entre Beltrão e Marco Ricca, acabam perdendo toda a força que é construída, ao ponto de que tê-lo ou não tê-lo nessas cenas não faz a menor diferença. Mais que o próprio personagem, é como se o ator lá estivesse apenas como um bibelô.

O filme é incômodo porque é mau executado em diversos aspectos. Sua premissa é interessante, sua história e construção não são ruins, mas o roteiro escorrega em fatos que deixam de ser liberdade narrativa para se tornarem falta de atenção e pesquisa. Roberto Carlos e Chacrinha, por exemplo, nunca participaram de qualquer programa que ela teve porque ambos eram exclusividade da Globo. Roberto já apareceu em seu programa, mas numa entrevista externa, cuja gravação foi negociada por meses. Outra situação, bastante controversa por sinal, é em um breve diálogo que nos dá a entender que ela nunca foi para a emissora concorrente porque nunca quis, quando, na verdade, esse sempre foi seu maior sonho profissional e uma expectativa que nutriu calada até antes de sua morte, em 2012. Segundo as entrevistas que a apresentadora já concedeu, ela nunca foi convidada pela Globo, talvez porque achavam-na inadequada. Dizia isso com certo pesar, seguido da característica gargalhada para desviar a atenção de uma frustração quiçá superada ao longo de tantos anos. Foi um diálogo conveniente para a empresa que contraditoriamente assina a produção, criando essa deliberada distância desnecessária entre a ficção e realidade para não expor sua histórica indiferença sobre o assunto.

Essas tais liberdades narrativas poderiam ter ocorrido de outras formas no roteiro, como um sonho. Teria sido mais delicado e respeitoso. Mais condizente com a realidade que sempre expôs, mesmo que de maneira bastante subjetiva e contida ao longo de sua carreira pela postura ética e profissional que prezava frente as câmeras.

Por outro lado, há acertos, como no breve momento em que separa com cuidado os presentes de natal a Paulo Maluf e sua mulher. Uma cena bem simples, mas que clareia essa controvérsia que existia entre a Hebe política, indignada com a corrupção, o desprezo às diferenças e desigualdades sociais do país, e a Hebe pessoa, que ostentava os frutos de seus méritos e defendia com unhas e dentes aqueles que considerava amigos pessoais, independente de suas condutas.

Por fim, chegamos a interpretação de Andréia Beltrão, que em entrevistas promocionais do filme disse nunca ter tido a pretensão de imitar a figura de Hebe para não parecer caricata, já que a Hebe real era exagerada por natureza. Compreensível, ao considerar que a maioria dos papéis de Beltrão sempre foram mais cômicos que dramáticos, e cair na caricatura era um risco possível. A insegurança que Beltrão também afirmava ter quando foi convidada para o papel é maquiada pelo excesso de iluminação e do abuso do figurino extravagante do próprio acervo pessoal da apresentadora que, mais do que tentar ser fidedigno, é usado aqui como elemento de dispersão porque muitas vezes não tem uma composição coerente com toda a mise-en-cene.

Ao mesmo tempo que a atriz tenta manter certas essências da personalidade de Hebe, ela derrapa em detalhes importantes no comportamento físico e nos maneirismos que ora ou outra são usados quando lembra, mas esquecidos quando mais deveriam ser explorados. É a interpretação sendo constantemente limitada pela consciência, criando uma desconexão no processo imersivo. A inconstância de Beltrão no sotaque paulistano, dos floreios fonéticos 40tistas herdados por Hebe da cultura radialista da qual fez parte, é um exemplo. Nos raríssimos momentos que Hebe escorregava, era pra cair no sotaque interiorano de Taubaté, onde nasceu, e não para o carioca, como acontece com a atriz. A fala serrada é outro elemento esquecido, lembrado às vezes, e que, aí sim, nesses momentos, cai na caricatura tão evitada exatamente pela sensação artificial que propaga. Se Beltrão tivesse se preparado um pouco mais, indo além de sua visão pessoal da construção, teria sido incrível porque seu esforço é perceptível, e sua competência também, mas falta aquela mesma alma da qual sofre a direção, aquele laboratório mais intenso, compreensivo, de nuances bem estudadas e elaboradas ao ponto de se tornarem naturais.

Os defeitos não evitam, entretanto, de ser um longa interessante, mas quando visto como tal, e não expressamente como uma cinebiografia. Funcionaria na TV, como poderá funcionar na minissérie a estrear na Globoplay em breve. Mas como um produto para o cinema, ele falha nas intenções.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

NÃO PRECISAMOS DE BATMAN...

★★★★★★★★★☆
Título: Coringa (Joker)
Ano: 2019
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Todd Philips
Elenco: Joaquim Phoenix, Leigh Gill, Zazie Beetz, Robert De Niro
País: Estados Unidos, Canada
Duração: 122 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O comediante Arthur Fleck não consegue se socializar na Gotham em que vive, uma cidade perturbada por corrupção e miséria da classe trabalhadora. Desistindo de lutar contra si mesmo e seus delírios, sua verdadeira personalidade começa a finalmente evoluir e tomar conta.

O QUE TENHO A DIZER...
Ao longo das décadas, Coringa sempre foi visto como um vilão caricato. Seu lado cômico sempre teve mais exposição do que o seu lado trágico. Das histórias em quadrinhos mais amenas, do seriado dos anos 70, até mesmo na interpretação de Jack Nicholson no filme de Burton, sua caricatura jocosa roubava mais as cenas do que suas crueldades mambembes.

Com o tempo ele foi ganhando outras densidades e camadas, ao ponto de ser considerado o vilão mais controverso e o mais complexo de todo o universo dos quadrinhos.

Batman sempre foi um coadjuvante de seus vilões, o que justifica Heath Ledger roubar cada frame de O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), numa caracterização sombria do Coringa até então inédita no cinema, mas nos quadrinhos e nos video games já existia.

Depois de Ledger, a Warner ficou receosa em trazer o personagem de volta tão cedo, demorando 8 anos para resgata-lo em Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016). A caracterização ultra exagerada de Jared Leto causou mais constrangimento do que satisfação, um revés na vida de um personagem que, até aquele momento, só havia colhido louros do público.

Com um Universo Cinematográfico feito às pressas e que afundou tão cedo quanto foi criado, Warner/DC aboliu a idéia e decidiu voltar à velha forma de produzir filmes com histórias independentes que possam virar uma franquia própria. E para retomar esse cenário, nada tão esperto do que dar a Coringa essa função, porque o Universo Batman sempre foi e será a carta na manga do estúdio toda vez que se encontrar em um beco sem saída.

Quando Joaquin Phoenix foi anunciado como o novo responsável pela encarnação do personagem, muitos torceram o nariz. Com Ledger aconteceu o mesmo. Na época muita gente o achava novo demais e inexperiente demais para dar uma densidade mais sombria e violenta, e todos se enganaram. Alguém também lembra de como Hugh Jackman foi atacado sem causa quando o escolheram para Wolverine no primeiro X-Men? Ou Gal Gadot para ser a Mulher-Maravilha? Pois bem... O preconceito é sempre derrotado no fim.

Tanto é assim que, Jared Leto, que parecia perfeito para interpreta-lo, com uma base de fãs que estouraram rojões quando o papel foi dado a ele, de repente viram suas bexigas de festa murcharem sem qualquer assobio.

Mas para quem já conhece Joaquin Phoenix de outros carnavais, sabia que podia esperar o melhor. Um ator sempre muito introspectivo e completamente fora dos padrões hollywoodianos, longe da imagem estrelista de seus outros colegas, é considerado por mérito um dos melhores de sua geração, se não for o melhor. A própria figura do ator, bem como sua biografia cheias de altos e baixos, trazem embutidos pesos de uma sociedade exigente e alienada, ignoradas e vencidas com seu talento. Era praticamente impossível não esperar do ator nada menos do que uma interpretação digna e respeitosa. Mas como disse, era algo esperado para quem já o conhece. Um conceito de fato.

Ele consegue ir além. Sua rendição a Coringa ultrapassa o visceral, e o ator simplesmente desaparece, e em cena há apenas Arthur Fleck, um homem pobre, solitário, incompreendido, explorado e violentado diariamente das mais variadas formas numa Gotham City muito longe de ser aquela futurística e próspera metrópole que conhecemos, apesar de sempre corrupta e violenta.

No meio de uma crise social que se estabelece na cidade, onde a maioria da população se rebela contra os privilégios da burguesia, doenças sociais se estabelecem, como a polaridade, o individualismo, a falta de empatia e a capacidade de discernimento da realidade. Sim, parece um retrato muito familiar do que estamos vendo hoje na realidade, o que soa como um alarme às consequências do nosso extremismo.

Arthur se torna uma vítima disso tudo, desencadeando conflitos pessoais que alimentam uma psiquê naturalmente perturbada, a qual ele trava uma batalha diária consigo mesmo para manter o resto de sanidade que lhe resta com auxílio de medicamentos gratuitos cuja distribuição foi interrompida pela Assistencia Social na falsa justificativa de contenção de gastos.

É quando o personagem entra num vórtice que o levará sem volta ao mais profundo abismo de si mesmo, e num paradoxo, e lá que encontrará a própria liberdade ao não mais oprimir o que é, ou a não mais se sentir preso a obrigações impostas. E se aceitar de fato como é, por pior que ele saiba que assim será.

No momento que o personagem abraça a existência de Coringa, é quando descobrimos que Arthur era um alter-ego que oprimia um ego dominante, anarquista e psicótico que sempre esteve presente, mas não encontrava motivações para reinar em si.

E como numa metainformacao, o filme autojustifica sua violência e o comportamento cruel e violento do personagem a partir daí, como a querer explicar que a violência e a perversidade das pessoas não ocorre por influência de algo, ou alguém, mas é motivada por um agregado de fatores que apenas engatilham algo que já está latente no psiquê.

A pessoa que já tem tendências a ser violenta ou psicótica, assim o será. Não é um filme, uma música, ou uma influência qualquer que o fará, da noite para o dia, agir dessa forma. Qualquer motivo é um motivo e uma motivação para isso. Por isso que atribuir a filmes a culpa por surtos violentos é leviano, porque é justificar de forma simplista e superficial problemas sociais muito mais sérios e profundos ignorados, banalizados e negligenciados pela própria sociedade. Por essas e outras que enxergo, dentro dessas razões, a metainformação implícita no longa, algo que psicólogos e psiquiatras pelo mundo já bem explicaram a respeito.

Coringa é um filme perturbador e provocativo como há muito tempo o cinema estadunidense - não necessariamente hollywoodiano - não fazia. De forma implícita e explícita encontramos nele material para inúmeras discussões. O diretor Michael Moore chegou a considerar o filme uma obra de arte próxima aos controversos filmes de Kubrick, como Laranja Mecânica, algo que, dentro de suas devidas proporções, não é exagero.

O diretor Todd Philips, que ficou famoso na comédia com a trilogia Se Beber Não Case, consegue fazer algo brilhante e desafiador que poucos diretores ousaram depois do próprio Kubrick. Além de uma fotografia belíssima dentro de sua esquisitice, que evita o desfoque de segundos planos assim como Kubrick o fazia, a composição de muitas cenas chega a ser até poética, como no momento em que Arthur está travestido de palhaço, caído ao chão em um beco, e da flor de seu paletó escorre a água suja de sangue. A morte de um palhaço, o fim da graça, a ingenuidade que se esvai. E cenas memoráveis como essa, e outras até mais complexas, são vistas constantemente.

O mais interessante é como o diretor desafia a seriedade e a (in)capacidade do espectador de fazer analogias com a própria realidade. Todd traz para o filme suas experiências da comédia pastelão, mas sem banaliza-las. Muitas são as vezes em que as cenas tem construções cômicas, mas cujos elementos que as constróem contemplam a crueldade, a tragédia ou preconceitos latentes do ser humano. Ele desafia as pessoas a absorverem as mensagens além do entretenimento óbvio. Todo surto do personagem não é em vão, e toda violência não é gratuita naquilo que o filme desenvolve ao mesmo tempo que critica.

Não é à toa que há um momento em que Arthur entra em um cinema durante a exibição de Tempos Modernos. Enquanto toda a burguesia de Gotham gargalha com as palhaçadas de Chaplin, do lado de fora uma rebelião proletária acontece. Tempos Modernos, quando assistido com seriedade, não é um filme cômico. Ao se isolar a caricatura e a performance circense de Charles Chaplin, temos um filme triste e trágico sobre uma realidade brutal que nos atinge há séculos.

Coringa segue esse mesmo princípio, porém atualizado. E de uma forma até assustadora, presenciei uma reprodução desta mesma situação no momento em que Arthur assassina friamente seu ex-colega de trabalho na frente de outro ex-colega. A cena levou mais da metade da platéia a gargalhadas, e o resto a olhar com perplexidade os que gargalhavam, chocados com a falta de sensibilidade e com a frieza com que interpretaram uma cena na qual todos elementos isolados não tinham a menor graça. Situação que se repetiu ao longo de todo o filme. Tão chocante quanto as gargalhadas sociais dos burgueses de Gotham, foram as gargalhadas de uma platéia sádica e preconceituosa, tudo aquilo que Arthur se rebela ao longo de sua tortuosa jornada.

Propositalmente ou não, o diretor conseguiu fazer com que o comportamento humano das pessoas frente ao filme se tornasse mais chocante e perturbador do que o próprio filme em si. E se apenas por isso o filme não for visto como um produto que desafia o seu público a enxergar a sua própria realidade e comportamento por outros ângulos, então o propósito do cinema como algo além do entretenimento definitivamente está a beira do fim.

A dor que Phoenix expressa no personagem através de uma gargalhada gutural sofrida e dolorosa, é a expressão do fardo que ele carrega em ser o que é, e que a sua existência, assim como a de Batman, o maniqueísmo do herói e do vilão, do bem e do mal, só existe porque nós os alimentamos diariamente, porque no fundo, tanto um, quanto o outro, compartilham das mesmas dores e problemas.

terça-feira, 23 de julho de 2019

PARA RÁPIDO CONSUMO, E SÓ...

Título: Cavaleiros do Zodíaco (Knights Of The Zodiac)
Ano: 2019
Gênero: Desenho Animado
Classificação: Livre
Direção: Vários
País: Estados Unidos
Duração: 15 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Readaptação da clássica série anime onde cinco jovens são escolhidos para defender uma garota que afirma ser a reencarnação da deusa Atena.

O QUE TENHO A DIZER...
A readaptação de Cavaleiros do Zodíaco pela Netflix foi anunciada há 2 anos atrás, e desde então muito se especulou, muito se falou e se criticou negativamente com antecedência, principalmente a respeito das mudanças que a nova versão traria.

A produção nunca escondeu duas coisas novas e principais que viriam com a série. A primeira é que a história seria atualizada para os tempos atuais, dando uma localização temporal na qual a original nunca deixou evidente. A segunda seria a ocidentalização do desenho, feito inteiramente digital, perdendo, assim, características marcantes do mangá, no qual o anime original se baseou. O objetivo dessas mudanças também sempre foi muito claro, conquistar principalmente a geração atual de crianças e adolescentes conectados e envoltos por bugigangas eletrônicas, abrangendo o maior número possível dessa faixa etária coberta pela plataforma nos 190 países que está disponível, cujo maior público, obviamente, vem a ser o ocidental.

E quem critica a ocidentalização da animação precisa compreender que grande parte das referências utilizadas, além das mitologias abordadas, em sua grande maioria, são de origem ocidentais. Na verdade, há uma mistura muito bagunçada entre oriente e ocidente, e só isso já daria liberdade para diversas interpretações e adaptações.

A questão é que, de tudo o que os "juízes de internet" criticaram previamente, cujas opiniões eram muito mais movidas por preconceitos a certas mudanças e fanatismos em relação ao anime original, poucos foram os argumentos que realmente se encaixam nos reais problemas que a produção apresenta. Acabou acertando aqueles que simplesmente acreditaram que a série não prometia ser tão boa quanto a original, aqueles se apoiaram no ceticismo do "esperar pra ver".

A readaptação poderia oferecer muitas coisas boas, eletrizantes e empolgantes para quem esperou tanto tempo, mas definitivamente não consegue. Nos curtos seis episódios disponibilizados para esta primeira temporada, é mais do que uma frustração para quem esperava mais, e apenas algumas gotas de nostalgia pra quem hoje já é velho, mas cresceu chegando em casa correndo pra assistir as épicas sagas dos heróis na TV.

Os erros e defeitos da readaptação são puramente técnicos, problemas de concepção de uma produção que pode até conhecer bem o material original, mas se atentou apenas àquilo que seria facilmente assimilado pelo público. A começar pelo roteiro, que corre mais rápido do que as pernas poderiam aguentar para explicar tudo em apenas alguns minutos, e com outros minutos criar imediatas relações de amizade e confiança entre os personagens, além de explicar de maneira bem confusa as motivações dos inimigos existirem. Sem falar do desenvolvimento capenga da história ao abordar a origem de cada um dos personagens e a superficialidade com que justificam o repentino juramento de honra a Saori Kido/Atena que, convenhamos, não convence nem criança.

No anime original, tudo era construído em cima de muitos diálogos e narrativas paralelas que realmente criavam um universo imaginário muito poderoso em cima de toda a mistura mitológica orienta e ocidental presente (se engana quem acredita que apenas a Grega foi referência), conseguindo até mesmo o impossível, o de criar uma outra mitologia própria de maneira bastante imersiva, já que o espectador acompanhava todos os passos dessa construção.

Os diálogos, muitas vezes intermináveis, eram recheados de um sentimentalismo até cafona, ou de tragédias exageradas, sempre acompanhados de trilhas sonoras simplórias e chorosas que apelavam num dramalhão quase "mexicano", mas que funcionavam porque sustentavam as histórias e criavam as bases sólidas de todas as narrativas. E assim os momentos eram construídos antes de culminarem para suas conclusões surpreendentes, reviravoltas marcantes e, claro, as batalhas individuais ou em grupo, sempre cheias de frases de impacto antes de cada golpe deferido e vilões que engajavam em monólogos sem fim sobre como estavam surpreendidos pelo poder do Cosmo dos heróis antes de cairem mortos e duros no chão. Era hilariamente constrangedor, porque era de se ficar imaginando o que se passava na cabeça do roteirista para tantos rodeios verbais. E no contexto, tudo isso tinha seu charme.

Que os heróis sempre sofriam mais do que deviam, isso era inevitável, mas que nunca seriam derrotados, era um fato. Não tinha como crianças ou adolescentes não se identificarem particularmente com um ou com todos, já que o quarteto de heróis representava muita coisa para eles (posteriormente vem a se tornar um quinteto com Ikki, de Fênix). As crianças se identificavam porque era a realização do fantástico, e material de sobra para criarem as suas próprias fantasias e histórias. Para os adolescentes, era quase que uma identificação espiritual, onde os personagens e seus poderes significavam frases motivadores, como gritos particulares para superar aqueles conflitos tontos da idade, ou às vezes impersonando o herói favorito para enfrentar dificuldades reais, seja como escapismo, seja como fonte inspiradora de coragem.

A nova produção não chega nem próxima de todo esse misto de significantes e significados do original, que muito mais do que batalhas entre o bem e o mal, traziam consigo valores muito cultivados como a amizade, o respeito, a fidelidade, a sinceridade e sensos de justiça que eram possíveis de serem filtrados no meio das violências acrobáticas. É uma produção vazia, sem alma, que esqueceu desses importantes elementos para dar atenção simplesmente ao peso da marca e aos ícones embutidos nele, como se apenas isso bastasse para sua aceitação e sucesso.

A produção acertou ao respeitar as características físicas, psicológicas e comportamentais dos personagens. Mesmo que em uma animação 3D ocidentalizada, consegue ser bastante apreciada pelos fãs mais liberais. No Brasil o acerto foi maior ainda ao manter a mesma equipe principal de dubladores. Mas de nada serve ter Seiya, Shun, Shiryu, Yoga e Ikki deflagrando seus bordões clássicos se o mais importante, que é a conexão que toda a série animada criava com as pessoas, não existe mais.

É um produto puramente comercial, que tinha tudo pra ser tão bom e relevante como o original, mas cuja produção se atentou demais a uma modernidade que não cabe nesse universo. Aumentar a rapidez dos acontecimentos para corresponder com a atual falta de paciência de um público que a cada dia que passa quer consumir as coisas com a maior velocidade possível custou muito caro, um crime que derrubou o pilar central de tudo de tal forma que nem Saori consegue segurar.

Perderam mais tempo definindo uma época atual na história do que em criar cenas com cuidado, muitas delas sem sentido, parecendo inacabadas para os olhos mais atentos, que nem mesmo a edição conseguiu evitá-las. Desnecessário mostrar celulares, aparatos tecnológicos e transformar os Cavaleiros Negros em soldados militarizados para dizer que a historia é moderna quando a própria produção, feita integralmente em 3D, visualmente já demonstra isso.

Não é à toa que a série original, até o momento, não está disponível no serviço, pois é garantido que ela seria mais assistida que a readaptação, além de um material comparativo injusto com a nova versão.

Não deixa de ser um produto divertido, e visualmente bem feito, lembrando bastante os jogos recentemente lançados, e como dito, fácil e rapidamente consumível pra quem não teria paciência para os longos bla bla blás do original. Mas não tem consistência, nem relevância.

Só espero que a Netflix não demore 1 ano pra disponibilizar sua segunda temporada, ou sua segunda parte. Frente ao produto final que entregaram, tão pouco, tão curto e tão vazio, ao menos, para o bem do entretenimento, seria respeitoso aos fãs um intervalo mais breve.

domingo, 16 de junho de 2019

A OUTRA MULHER MARAVILHA...

★★★★★★★
Título: Capitã Marvel (Captain Marvel)
Ano: 2019
Gênero: Ação, Super-Herói
Classificação: 12 anos
Direção: Anna Boden, Ryan Fleck
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law
País: Estados Unidos, Austrália
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Carol Denvers sofreu um acidente no espaço e foi recrutada por uma civilização extraterrestre, agora ela volta para a Terra para descobrir suas origens e que sua terra natal está correndo um iminente perigo.

O QUE TENHO A DIZER...
Capitã Marvel surge com um certo atraso não apenas no Universo Cinematográfico da Marvel, mas no cinema em geral, sempre relutante em adaptar histórias em quadrinhos com protagonistas femininas desde quando o gênero emergiu, no início de 2000.

Não que filmes com heroínas ou filmes de ação com protagonistas mulheres não existissem, mas na História do Cinema, a quantidade de produções com esse enfoque sempre foi infinitamente inferior, e mais oprimido ainda nas adaptações de quadrinhos.

Hollywood sempre deu muito mais ênfase no chamado "cinema testosterona", no intuito de manter incólume a idéia de que mulheres são frágeis e incapazes de protagonizar filmes bate-e-arrebenta como os homens, e da mesma forma são caracterizadas a maioria das coadjuvantes em cena nesses filmes: frágeis, vítimas que precisam de um braço forte para a abraçá-las e defendê-las. Pode? Pode. Mas esse excesso ditou uma regra que deve ser quebrada.

De Ripley a Sarah Connor, de Thelma a Louise, exemplos existem, mas são poucos, e se tornaram icônicos justamente por serem raros. Mas nas últimas décadas tivemos produções muito interessantes que provaram que o cinema "estrogênio" é tão forte quanto, como a saga de vingança de Beatrix Kiddo em Kill Bill (2003), de Quentin Tarantino, com um elenco predominantemente feminino. Podemos citar até a pancadaria gratuita e bem produzida que Steven Soderbergh fez com Haywire (2011), transformando a ex-lutadora de MMA, Gina Carano, numa referência direta a produções antes estreladas por Chuck Norris por um lado, e Cynthia Rothrock por outro, nos anos 80 e 90.

Mas no Universo dos quadrinhos tudo começou na contra-mão, e as infames adaptações de Mulher-Gato (2004) e Elektra (2005) soaram muito mais como um descaso quase proposital do que qualquer outra coisa. Como um autoboicote dos próprios estúdios, para dar a deliberada impressão ao público que heroínas baseada em quadrinhos não oferecem boas histórias, e por isso não valia a pena investir nelas. E a essas atrizes nunca mais foram lhe dadas oportunidades de continuarem no gênero, ao contrário dos homens.

De lá pra cá quase 15 anos se passaram e, no meio desse tempo, mulheres da indústria começaram a questionar a ausência de protagonismo nas tais adaptações, fora outras revindicações legítimas de igualdade numa indústria que historicamente sempre foi desigual em relação a gêneros e raças.

Foi então que a indústria resolveu abraçar esta pauta feminista para seu benefício comercial, e Mulher Maravilha (2017) se tornou o carro chefe dessa nova e atrasada safra, onde a heroína roubou a cena em Batman V Superman (2016). O mesmo havia feito Margot Robbie em Esquadrão Suicida (2016), que embora cheio de defeitos e equívocos, além de um elenco predominantemente masculino, fez de Harley Quinn (Margot Robbie) a verdadeira protagonista, mesmo que o sexismo construído sobre a personagem no filme tenha sido mais presente que sua caricatura. Porém, Robbie consegue driblar esse senso e inverter a situação com classe, e é ela quem protagonizará seu próprio filme agora, ao lado de outras personagens tão fortes quanto do Universo DC.

Em sequência veio Charlize Theron na adaptação de Atômica (Atomic Blonde, 2017), baseado na novela gráfica The Coldest City, apanhando, levantando e batendo, deixando outra vez claro que não existe sexo frágil. E por fim, mas não último, a rendição da Marvel a Capitã Marvel, que finalmente não apenas viu a luz do dia, mas também é a personagem chave para a conclusão de uma era e início de outra nesse Universo criado pelo selo.

A mídia taxou o filme como uma grande representação feminista nos cinemas tal qual Mulher Maravilha. Essa discussão, feita de maneira mais incisiva do que sobre a outra heroína, ocorreu talvez porque a popularidade que a Marvel tem nos cinemas é maior.

Não deixa de ser. Mas feito de maneira bastante discreta e discutida nas entrelinhas do roteiro, que evita explorar o passado da personagem de maneira mais consistente justamente para não erguer bandeiras explícitas e despertar a ira dos conservadores que veem no feminismo uma ameaça ao histórico patriarcado.

A história da personagem é nada além de um retrato muito comum das mulheres na sociedade pelo mundo, que sofrem opressões sociais por todos os lados, até dentro de suas próprias famílias.

Carol Denvers, quando jovem, sonhava em seguir carreira acadêmica, sendo impedida por seu pai, que dava preferência as decisões de seu filho homem. Carol engressou na Universidade sem conhecimento do seu pai e posteriormente se alistou na Força Aérea Americana escondida, só revelando o segredo quando abandonou sua casa para viver na academia aérea, o que gerou desconforto e repúdio de seu pai. Esse desprezo que sofre é o grande motivador de Denvers em querer ser a melhor, acreditando que algum dia seu pai se orgulharia disso e essa barreira machista que existia entre a relação dos dois fosse quebrada algum dia. A necessidade de aprovação dos filhos por seus pais, uma pauta constante nas histórias fantásticas da Marvel.

Essa história pregressa é usada no filme apenas em rápidos flashbacks para justificar sua personalidade de maneira simbólica e resumida, também sobre seu comportamento impositivo e decisões pessoais que emergem ao redor da própria trama. Mas como dito, bastante superficial para não inflamar o ego machista da platéia.

Embora expressa, essa introdução é essencial para compreendermos todo o processo da construção de sua personalidade ao longo dos anos, mas o roteiro desconstruído, ora mostrando o presente, ora o passado, deixa a desejar porque não explora essa fase tão importante da vida da personagem, ficando um tanto vago em esclarecer ao espectador porque Denvers tem posições bastante firmes sobre suas decisões, ou até mesmo seu humor sarcástico ser tão contundente, num oposto ao humor jocoso de Tony Stark, por exemplo.

Para um filme que pretende mostrar a origem da heroína, o roteiro o faz apenas para Denvers como heroína, mas não para Denvers como pessoa e mulher, deixando de construir uma narrativa linear sobre seu passado, deixando de dar uma exclusiva atenção a todas as barreiras e dificuldades que teve de enfrentar na adolescência, que teria sido importante.

Sempre criticada durante seu treinamento no espaço pelo excesso emocional e sentimental por ser humana, ela é a todo momento instruída e motivada a suprimí-los para ser mais poderosa e capaz. E essa crítica é posta a prova e pauta do início ao fim do filme. Isso nada mais é que um paralelo que o roteiro constrói sobre a cultura popular da fragilidade feminina, e que, pelo equivocado senso machista, o lado mais emocional e sentimental das mulheres tende a colocar em risco o sucesso de uma missão.

Esse é o grande conflito interno que Denvers se depara ao longo da trama, que se resolve de maneira muito simples e simbólica e, de fato, desconstrói esse mito popular secular alimentado para inferiorizar a figura feminina. Ser emotivo e sentimental não é um defeito, mas grandes qualidades inerentes do ser humano, oprimidos pelos fracos que não sabem lidar com essas complexidades e usá-las para se tornarem mais fortes.

E é isso que Capitã Marvel significa, se tornando uma resposta contundente de que o sendo comum da fragilidade é apenas uma construção social.

No mais, o filme segue como se deve dentro da proposta da ação. Um tanto lento em sua primeira metade para quem espera aquele ritmo alucinante de outros filmes da Marvel, mas que depois recompensa o público com o festival de efeitos especiais que todo mundo gosta. Recheado de diálogos inteligentes e de um humor refinado tal qual o encontrado em Pantera Negra, o resultado é satisfatório. Para um filme que tem a intenção de contar uma origem, poderia ter sido mais consistente nos quesitos abordados acima.

Enquanto Mulher Maravilha apresenta a força feminina sem sucumbir ao clichê, Capitã Marvel pega o clichê e tira dele o melhor proveito.

sábado, 20 de abril de 2019

HÁ POTENCIAL...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Hanna
Ano: 2019
Gênero: Ação, Supense, Drama, Policial
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Esme Creed-Miles, Mireille Enos, Joel Kinnaman, Rhianne Barreto
País: Estados Unidos
Duração: 60 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
A jornada de uma garota altamente treinada que, ao mesmo tempo que terá de encontrar meios para sobreviver uma perseguição de uma organização que pretende capturá-la, também terá de lidar com descobertas que os 14 anos isolada da sociedade lhe privaram de compreender além da teoria.

O QUE TENHO A DIZER...
Hanna, como bem se sabe, é uma série baseada no aclamado filme homônimo de 2011, dirigido por Joe Wright. No filme, a protagonista era interpretada por Saoirse Ronan. Eric Bana fazia o papel de seu pai, e a grande vilã da história, Marissa Wiegler, tomou forma através da indiscutível Cate Blanchett.

Wright fez do filme um thriller controverso por transformar uma adolescente em uma assassina rigorosamente treinada por seu pai desde os dois anos de idade para poder sobreviver em qualquer situação de iminente perigo. Não que ela tenha sido treinada para ser uma assassina de fato, mas matar faria parte da sua cartilha de sobrevivência, já que os humanos serão seus maiores inimigos, como é deixado claro nos diálogos.

Não há muitas difenças na linearidade da história entre o filme e a série. Claro que, no filme, por uma questão de formato e duração, muitos detalhes são deixados de lado e que a série até tenta desenvolver de maneira um pouco mais efetiva ao longo dos oito episódios.

A grande diferença entre o material original de sua adaptação é que o tom do filme era muito mais denso e violento, além do ritmo ser mais acelerado e as cenas de ação muito mais impactantes, havendo uma característica muito peculiar e bastante interessante: Wright trabalhou muito com o contraste de situações sérias e lúdicas para causar impactos mistos e desenvolver uma história que se situa num complexo meio termo, transpondo ao espectador os mesmos sentimentos conflitantes da protagonista de maneira visual e sinestésica, deixando-nos confusos sobre alguém tão jovem ter que agir de maneira tão cruel para sobreviver no meio da crueldade dos outros.

Por exemplo, quando a situação exigia mais maturidade da personagem e um comportamento mais adulto e tático, o cenário muitas vezes era mais lúdico e neutro, causando maior impacto na violência junto com a trilha sonora mais estridente e complexa. Quando a situação exigia um comportamento mais delicado e condizente com a idade da personagem, o cenário era mais sério e ameaçador, intensificando uma fragilidade na personagem que ela constantemente oprimia. Essa contradição entre a ação e o visual, em outras palavras, mostrava os dois lados de sua mesma moeda: o lado adulto que ela teve de desenvolver tão precocemente, e o lado infantil que ela teve de abandonar tão cedo.

No seriado essas nuances não são tão visualmente importantes porque há espaço para desenvolver melhor todos esses conflitos que Hanna se depara ao longo de sua jornada pessoal de sobrevivência, bem como a relação com seu pai é melhor explorada nos momentos de codependencia e nos momentos de negação que surgem conforme as subtramas se revelam.

O seriado oferece aquilo que um thriller de ação deve oferecer e que muitas pessoas pretendem encontrar. Há uma trama principal consistente, drama e certos momentos de alívio cômico, tudo como manda a cartilha. Os personagens são muito bem explorados pelos atores, e não fogem muito da proposta do material original. Claro que preferimos Eric Bana, mas Joel Kinnaman (o mesmo do hit Altered Carbon) tem seus momentos de consistência. Mireille Enos talvez seja o grande destaque, roubando a atenção em todas as cenas que aparece. A sua versão de Marissa não apenas se equivale ao de Blanchett como também explora outras nuances que permitem a ela momentos de redenção sem soarem forçados ou clichés, e momentos bastante sutis de intensa crueldade de uma pessoa condicionada no trabalho desumano que exerce.

A novata Esme Creed-Miles pode não ter a mesma experiência e bagagem de Ronan, atriz que começou sua carreira no cinema aos 13 anos de idade e que com 23 já concorreu a 3 Oscars, enquanto Esme está sendo protagonista pela primeira vez aos 18 anos. Mas ela consegue expressar os sentimentos mistos de maneira efetiva e momentos de sobriedade, doçura, fragilidade e descobertas que o filme não tinha espaço e nem tempo para explorar tão a fundo. Claro que em algumas situações e outras é explícita a inexperiência da atriz, como nos três momentos de quebra cênica que ocorre em três episódios distintos onde ela acidentalmente olha diretamente para a câmera. Não é nada que atrapalhe muita coisa, mas evidencia uma certa falta de cuidado da direção e a inexperiência cênica já citada.

São detalhes que poucas pessoas poderão dar atenção, mas estão lá, e que no fim comprometem o resultado de tudo como um todo, como o excesso de uso de dublês nas cenas de ação com a protagonista, que definitivamente quebram qualquer realismo que a história tente construir, ao contrário do filme, em que Ronan realizou grande parte das cenas de ação e que estão longe do resultado plástico e artificial do seriado.

O roteiro também sofre no decorrer dos episódios, apressando eventos que poderiam ter ocorrido de maneira mais lenta e natural, como a relação de amizade entre Hanna e Sophie (Rhianne Barreto). A relação de amizade incondicional que elas criam da noite para o dia é grosseira, e não sutil como é quando Hanna tem contato com o primeiro garoto assim que sai dos limites do território em que foi criada.

Muitas vezes os diálogos também são sofríveis, numa preocupação óbvia dos roteiristas em criarem mais frases de impacto para impressionar o espectador de forma fácil do que evitar resultados tão caricatos como os de folhetins televisivos.

Portanto, ao contrário do excesso de elogios que a série tem recebido, há defeitos relevantes que tiram da produção toda a consistência que demonstrou ter nos primeiros episódios. A produção também não se atenta a detalhes que em pleno século XXI não fazem o menor sentido, como um grupo tático altamente treinado, armado com metralhadoras, não acertarem uma bala sequer no carro durante um resgate, ou colocar uma personagem enfrentando todos eles com uma mera pistola.

Sim, o material entretém, mas nem por isso devemos fechar os olhos para problemas e defeitos que, caso se tornem recorrentes, podem comprometer e muito o futuro promissor que a série tem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

DOSES DE PERFEIÇÃO...

★★★★★★★★★☆
Título: Homecoming
Ano: 2018
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Sam Esmail
Elenco: Julia Roberts, Bobby Cannavale, Stephan James, Shea Whigham, Sissy Spacek, Dermot Mulroney
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma assistente social é contratada por um estabelecimento privado que tem como objetivo ressocializar soldados recém repatriados.

O QUE TENHO A DIZER...
Homecoming é mais uma prova do que tem sido dito há muito tempo sobre os serviços de streaming, de ser o nicho que a indústria do entretenimento precisava para expandir suas ambições de uma forma mais produtiva que o cinema e canais de TV não oferecem com frequência.

Novos diretores e escritores estão saindo das sombras com essa tendência que só tem crescido nos últimos anos, e outros importantes estão migrando para esses serviços pela liberdade criativa oferecida. O mesmo a ser dito sobre uma grande lista de importantes atores descobertos ou já estabelecidos no mercado.

TV deixou de ser um lugar onde atores de Hollywood são contratados por terem sido esquecidos pela indústria como aconteceu nas décadas de 90 e 00 (lembram quando Alicia Silverstone estreou em Miss Match, ou Gleen Close em The Shield?). Também deixou de ser um lugar onde importantes nomes eram contratados para incrementar os valores de produção, como acontecia com frequência em seriados como Plantão Médico e Friends, por exemplo.

Ao invés disso, atores encontraram nesses serviços um importante aliado para enriquecer uma carreira que agora pode ter atingido uma zona de conforto, ou que agora sentem que projetos desafiadores se tornaram raros depois de atingirem certa idade ou patamar de estrelato na profissão. É por isso que nomes importantes como Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Emma Stone, Sandra Bullock, e Julia Roberts (apenas para nomear alguns), estão se tornando frequentes em produções como essas, porque agora encontraram espaço e oportunidade de explorar papéis complexos e projetos desafiadores que não seriam possíveis - ou difíceis - de serem produzidos pelos meios comuns.

Esse seriado dirigido por Sam Esmail (Mr. Robot) e disponível no Amazon Prime, é uma adaptação de um podcast homônimo e fictício produzido pela Gimlet Media, cujo brilhantismo é expressado de diversas formas. Julia Roberts afirmou ser uma grande fã do podcast, e demonstrou interesse imediado em participar da produção assim que ficou sabendo que Esmail tinha intenções de dirigí-lo, diretor o qual também é grande fã, tanto que sua única exigência foi que Esmail dirigisse todo o projeto, e que nenhum outro diretor se envolvesse para que a linearidade não fosse comprometida.

Demora alguns episódios para os espectadores compreenderem seu conceito como um todo, mas essa lentidão é a maneira inteligente do roteiro construir pedaço a pedaço uma atmosfera apreensiva de acontecimentos obscuros que envolvem Heidi Bermgan (Julia Roberts), uma assistente social contratada por um estabelecimento privado pertencente a Geist, uma empresa gigante liderada por Colin Belfast (Bobby Cannavale).

Este é o enredo principal, e é interessante não se aprofundar mais diretamente sobre ele para não estragar qualquer experiência que os 10 episódios de 25 minutos cada tem a oferecer.

A atmosfera aqui é construída sobre mínimos detalhes. Da trilha sonora minimalista e progressiva à estranha simetria fotográfica; das performances certeiras dos atores à perfeição artificial do design de produção. A maneira como as câmeras são conduzidas para mistificar um futuro próximo, a edição que nunca se sobrepõe ao ritmo da história, ou até mesmo as mudanças do tamanho da tela que, muito mais do que situarem o espectador nos diferentes tempos, também cria uma impressão efetiva de consciência e espaço limitados do presente. Elementos simples que funcionam em suas formas mais singulares.

Esmail afirmou que Hitchcock e De Palma foram suas maiores inspirações para construir o suspense baseado solidamente no desenvolvimento dos personagens e de suas personalidades, e os acontecimentos que os envolvem serem elementos complementares a isso, e não principais. De Palma é homenageado sem floreios quando a clássica divisão de telas acontece, conduzindo o espectador a dinâmicas paralelas e diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato, intensificando assim a sensação de passagem de tempo e de que a vida na tela não se resume apenas àquilo que os personagens são conduzidos.

Toda essa fantástica percepção é sentida e compreendida como um todo conforme os episódios finais se aproximam, tal qual a premissa principal do seriado, de que as boas intenções estão espalhadas em todos os lugares, mas quanto mais nos aproximamos delas, mais assustadoras se tornam.

Para aqueles que assistiram Maniac (2018), produção da Netflix, Homecoming poderá não parecer tão original quanto pareceria, mas definitivamente é muito mais sólida e contemporânea, além de um ponto de vista bastante crítico de como os Estados Unidos sempre procura formas de economicamente explorar eles mesmos e aqueles que não se atentam às suas intenções e comportamentos perniciosos, mesmo que o preço disso seja a reinvenção da escravidão para seu próprio benefício, negligenciando a vida humana a favor do tão cobiçado, desconhecido e invisível "bem maior", a base fundamental de sua ultrapolítica. E sobre "escravidão", digo no sentido de obrigar cidadãos a fazerem coisas contra suas vontades, e não na histórica relação entre brancos e negros.

Esmail faz tudo ser desconfortável de alguma forma desde o primeiro episódio. Em uma primeira impressão, muita gente não irá achar nada estranho ou ameaçador mesmo que a sensação esteja presente, e tudo soará como um drama analítico tal como Em Terapia, mas dessa vez entre uma conselheira e ex-soltados que acabaram de retornar ao país e suas dificuldades de transição para a vida civil comum. Mas mesmo assim, como dito, o desconforto é sentido e ouvido da mesma forma, dando a impressão de que há muito mais por detrás além do esperado.

Por diversas vezes me encontrei prendendo a respiração como em um filme de terror, por causa da produção que, cheia de truques técnicos, consegue brincar com todo aspecto emocional e sinestésico de seus espectadores. De repente é possível se sentir confuso, desconfortavelmente tenso, às vezes nervoso, assustado ou apreensivo sem saber ao certo o por quê já que nada está visivelmente óbvio ou explícito. A resposta para isso é que Esmail se utiliza de elementos visuais coadjuvantes e sonoros para engatilhar esses sentimentos sem que o espectador sequer perceba. Algo brilhante porque são diferentes técnicas a favor dos caminhos que o roteiro propõe para construir seu enredo e enfiar as pessoas dentro dele. E quando todos os elementos da história são finalmente revelados, encontramos nossa sanidade um tanto fragmentada por consequência de todo esse desenvolvimento emocional e sensorial criado.

De tempo ao tempo para apreciar essa fantástica produção. Pode não ter a história mais original, mas é desenvolvida de uma maneira que pouquíssimas produções são. É delicado ao mesmo tempo que é denso, esclarecedor mais ao mesmo tempo que é duvidoso. Doses perfeitas de cada, e doses perfeitas de uma perfeição quase metódica.

sábado, 20 de outubro de 2018

PRATO CHEIO PRA QUEM GOSTA...

★★★★★★★★☆
Título: Deadpool 2
Ano: 2018
Gênero: Ação, Comédia, Super Herói
Classificação: 16 anos
Direção: David Leitch
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Josh Brolin, Julian Dennison, Zazie Beetz
País: Estados Unidos
Duração: 119 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Deadpool agora se engaja em montar sua própria equipe para proteger um garoto poderoso de um exterminador do futuro.

O QUE TENHO A DIZER...
Deadpool é a paródia e a sátira, o chulo e o escracho. Por esses motivos, consegue ser uma das adaptações de quadrinhos mais fiéis, com os personagens mais fiéis, porque tem a liberdade de ser exagerado na tela sem a necessidade daquela releitura mais realista e humanizada que a linguagem do cinema muitas vezes pede para não soar absurda, por mais absurda que possa ser. Esse é, indiscutivelmente, o maior mérito tanto deste filme, como do anterior.

Desde o primeiro filme, a produção evita ser séria demais e perder suas características, ou ser leve demais e perder todo o teor politicamente incorreto que é a razão de sua existência. Muito questiona-se a necessidade da linguagem chula ou do excesso de violência, mas isso acontece porque Deadpool é, em sua essência, a voz dentro desse universo daqueles que não gostam do estilo, ao mesmo tempo que também expressa o lado pseudo-crítico daqueles que gostam. A metacrítica propriamente dita. Por isso a paródia, o desdém, a sátira e a incredulidade tão presentes.

Mas é possivel sentir nesta continuação que, embora o primeiro filme tenha sido um sucesso inesperado, garantindo esta sequência, não foi possível evitar um banhinho de sutileza.

Quando comparado com o primeiro filme, a boca era muito mais suja, a violência era muito mais explícita e sanguinolenta e absolutamente nada era sério o bastante. Dessa vez, mesmo tendo tudo isso, o volume diminuído. Bem pouco, mas foi. É como dizer: podemos ouvir alto, mas não precisamos ficar surdos.

Para quem esperava mais do mesmo excesso do primeiro, poderá ter alguma decepção. Mas acredito que se a sequência tivesse mantido elevado os mesmos elementos, seria como uma piada contada mil vezes, ao contrário de uma renovação da fórmula que deu certo, que é o que ocorre aqui, pegando o espectador de surpresa muitas vezes.

Reynolds novamente produz, mas agora é creditado como roteirista, coisa que ele não foi no primeiro, mesmo tendo sido peça fundamental. Apesar de pouca coisa ter mudado no comportamento do anti-herói, ele nunca é descaracterizado, e esse é outro mérito.

Não se pode falar muito sobre a história porque qualquer coisa a ser falada é estragar as surpresas mesmo já tendo um bom tempo que o filme foi lançado porque Reynolds fez um trabalho novamente cheio de piadas com referencias diretas e indiretas, seja dentro do universo Marvel, seja no DC, ou da cultura popular em geral. É impossível não achar interessante as referências feitas pois, além de serem bem colocadas, mostram como a própria cultura (util ou inútil) é sempre vulnerável ao humor, algo que até então parecia um tabu em filmes que não fossem estruturalmente uma sátira. Sim, como falei no princípio, Deadpool também é uma sátira, mas ele sobreviveria sem isso, o que não aconteceria com filmes desse gênero, como a série Todo Mundo Em Pânico, Top Gangue, ou a clássica Corra Que a Policia Vem Aí.

O filme perde um pouco do tom em sua primeira parte, pois cria um quase-drama justificável na vida do personagem. Não estraga a história ou a experiência, mas definitivamente a mudança de direção do primeiro para o segundo filme impactaram na dinâmica de algumas coisas.

A princípio poderá parecer que não estamos assistindo a mesma coisa, mas é na segunda metade que o festival recomeça. As sequências de ação crescem, o humor fica mais universal e os personagens apresentados são tão bem feitos nesse sentido que dispensam desenvolvimento ou profundidade, como é o caso de Cable e Domino. O incômodo é que Colossus não precisava ser um personagem digital o tempo todo. O que salva é sua dublagem e o humor carrancudo do seu texto. Sem isso ele podia ser dispensável. 

Apresentar novos personagens fez outros serem deixados de lado, como é o caso de Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), que conquistou uma legião de fãs no primeiro filme, mas agora só aparece em uma cena ou outra apenas para dizer que está lá. E só não deixou muita gente desapontada porque Firefist (Julian Dennison) é espetacular e tem presença tal como Negasonic foi no primeiro.

Se tem uma coisa que Deadpool conseguiu fazer é revolucionar o gênero e criar infinitas possibilidades para a história se extender por anos e por sequências sem fim. Conseguiu, principalmente, corrigir erros do passado dentro de sua metacrítica, como na interessantíssima sequência pós-crédito, uma das mais hilárias para os fãs. Sem dúvida a cena que fez a sessão de cinema delirar nas auto-referências tão características do personagem e que Reinolds consegue fazer de maneira certeira.

Nos quadrinhos, o herói surgiu para quebrar a monotonia e tirar a indústria da zona de conforto de maneira desconfortável. Foi uma sacada de gênio dos criadores Fabian Nicieza (escritor) e Rob Liefeld (desenhista), e Reynolds conseguiu se apropriar dessa essência e levá-la com a mesma consistência para a tela.

Deadpool é a diversão do universo mutante que X-Men não foi quando adaptado. Não que os méritos de X-Men não existam. A época era diferente, os receios de adaptações como essa também. Mas não podemos ignorar que seria interessante se algum dia pudéssemos vê-los juntos a Deadpool dessa forma mais cartoonizada e despretenciosa.

Talvez aconteça.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

VARIAÇÃO DAS VARIAÇÕES...

★★★★★☆
Título: Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom)
Ano: 2018
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 12 anos
Direção: J. A. Bayona
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith
País: Estados Unidos
Duração: 128 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Ameaçada por um vulcão adormecido, uma cientista é incumbida a voltar para a Ilha Nublar e resgatar o maior número de espécies que conseguir para que uma nova extinção seja evitada.

O QUE TENHO A DIZER...
De volta em 1993, era um tanto óbvio que Jurassic Park se tornaria uma franquia. Mas a primeira trilogia mostrou que, embora o universo seja cativante, não havia história suficiente para tanto. O terceiro filme sofreu enormes críticas negativas, e a promessa de uma quarta aventura foi enterrada junto com o falecimento do autor Michael Crichton, em 2008.

Somente em 2010 as coisas voltaram a ser discutidas, e o sinal verde foi dado depois do 20º aniversário do primeiro filme. Foi então que Jurassic World surgiu, trazendo uma mudança emblemática no nome, pois era tanto uma continuação direta da série, como também um reboot.

O sucesso foi além do imaginado, e o filme arrecadou mais de US$ 1,6 bilhões no mundo todo, superando as expectativas e fazendo tanto estúdio, quanto produtores, confirmarem uma continuação em menos de um mês de exibição.

A tão aguardada continuação se deu principalmente pelo sucesso e química dos protagonistas, interpretados por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. A história em si, que sofreu transformações interessantes, agora partia do princípio que o tão sonhado parque finalmente havia se tornado realidade, e dava um ar de frescor a tudo que já havia sido abordado até então.

O melhor de Jurassic World foi em conseguirem fazer tudo parecer novo mesmo tendo muitas idéias requentadas. As referências constantes, principalmente aos dois primeiros filmes, conseguiram fazê-lo parecer inédito aos olhos dessa geração, mas uma grande homenagem aos olhos da geração que assistiu ao primeiro filme nos cinemas e saiu de queixos caídos com o festival de efeitos especiais e práticos que mudaram para sempre a História do Cinema e de quem presenciou uma experiência que foi única.

A empolgação que cresceu nas pessoas assim que os créditos finais de Jurassic World rolaram, foi a mesma empolgação com a qual Reino Ameaçado foi aguardado ao longo dos três anos que separa um do outro. Mas quando ele foi lançado, muita gente pareceu não ter tido tanta expectativa correspondida como se esperava.

Só que vamos ser verdadeiros e aceitar que já era esperado que, com tanta reciclagem de situações ao longo da série, era inevitável cair nas mesmas fórmulas e nos mesmos clichés que a própria série criou ao longo dos filmes. Aquela impressão de novidade que se teve no filme anterior, agora deu lugar a uma recorrência de deja vus que mais transformaram este segundo filme em uma refilmagem do que qualquer outra coisa.

A repetição de situações, cenas e idéias é tão grande quanto criar uma nova ilha quando a idéia acaba (como eles propõem aqui), ou destruir uma ilha com algum desastre natural para ter um novo ponto de partida na história (como fazem com o vulcão na Ilha Nublar agora, ou como já fizeram com o furacão na Ilha Sorna).

Aquela química interessante que existia entre os protagonistas se foi no momento que Bryce Dallas abandonou os saltos por um par de coturnos. O que acontece entre eles agora é uma tensão sexual infantil e absolutamente sem graça porque o número de personagens é tão grande quanto o número de situações paralelas para, assim, a impressão de dinamismo e ritmo acelerado da história seja mantido mesmo que não se tenha conteúdo suficiente para isso.

Sem falar dos diálogos óbvios na maior parte do tempo, como se o espectador fosse uma pessoa completamente demente e incapaz de assistir um filme sozinho, sem que seja carregado pela mão o tempo todo. Momentos onde muitas vezes só falta um saco de risadas no fundo para sinalizar a hora do espectador achar a situação engraçada, de tão sem graça que era.

Os dinossauros agora também são muito mais simpáticos e não mais répteis de comportamento primitivo. Tem cenas cômicas com dinossauros, cenas fofas com dinossauros, cenas tristes com dinossauros, cenas dramáticas e até uma lágrima de dinossauro que escorre. Dinossauros agora fazem graça, se comunicam com a câmera como se estivessem em um stand up, fingem que estão dormindo e desdenham de suas prezas com um sorriso maroto. Um verdadeiro festival de propagandas clássicas de como enfofar esses animais e fazer as pessoas morrerem de vontade de correr no pet shop mais próximo de casa para comprar um assim que o filme acabar.

Uma ridícula gourmetização para espremer emoção do espectador, risos fáceis daqueles que gostam de humor tonto e assim termos a idéia de que os bichos não são tão ruins assim. Eleva-se o tom cômico e fantasioso e ameniza-se o lado aterrorizante dos dois primeiros filmes originais, e dessa forma cria-se uma fantasia familiar inerte e desinspirada.

Existem momentos intragáveis por conta deste excesso de açúcar. Tudo isso acontece porque, no decorrer da série, os animais passaram a ser tratados como vilões, e não como espécies que simplesmente reagem ao se sentirem ameaçados. E assim como vilões, eles agora precisam de momentos de redenção, como agora ser de praxe o T-Rex sempre salvar o protagonista do perigo (resultando na manjada cena do "rugido do rei"), ou quando o Velociraptor adestrado resolve ficar "do lado do bem" e combater o "dinossauro do mau".

Esse maniqueísmo foi o que definitivamente estragou a série, sua narrativa e várias propostas interessantes que pudessem surgir. Algo que não ofendeu diretamente o que o primeiro Jurassic World apresentou, mas que aqui ofende porque é usado como saída fácil, e não como uma alternativa, um elemento de dispersão raro.

Os verdadeiros vilões da história, que são os humanos, aqui são tratados como cientistas malucos, inescrupulosos, dominados pela ira da ambição capitalista. Exagerados na caricatura, quase memes deles mesmos para serem mais engraçados do que vilões de fato.

Para quem resolver assistir ao menos os dois primeiros filmes originais para relembrar de como foram bons, irão perceber as inúmeras cenas similares que existem entre eles. Na época que foi lançado, o segundo filme já havia sido taxado como uma variação do primeiro, pois tanto seu desenvolvimento quanto diversas cenas eram muito similares. Mas aqui não existe vergonha nisso, sequer na composição do elenco, sempre tendo crianças para darem trabalho, sempre tendo aqueles que ficam pra trás, sempre tendo aqueles que ferem a perna, e (quase) sempre tendo apenas um ator negro para dizer que existe diversidade.

Mas outras referências boas também são perceptíveis, como Indiana Jones e o Templo da Perdição, (o momento em que estão escondidos, assistindo o leilão do alto, assim como vários acontecimentos posteriores, são muito parecidos com a cena em que Indiana assiste ao sacrifício no Templo). Talvez esta seja a referência mais (propositalmente ou não) óbvia delas porque o próprio personagem de Chris Pratt é uma releitura do Professor Jones. Também não pude evitar encontrar similaridades até mesmo nos jogos Resident Evil/Dino Crisis, por levar a situação de sobrevivência para dentro de uma mansão com laboratórios e outras instalações subterrâneas, como acontece nesses jogos, o que deixou a situação interessante.

Como um todo, é o mais fraco filme da franquia. Ainda consegue ser um evento grandioso como sempre é, cheio de espetáculos visuais e assim divertir como pode. Mas tal qual os anos, conseguiu também se distanciar do misto sutil entre ação e fantasia que os primeiros conseguiram ser, ao mesmo tempo que nenhuma, ou qualquer sagacidade deles foi mantida. Tudo poderia ter sido melhor, ou mais palatável, se não tivesse uma linguagem verbal e visual tão infantilizada e didática, elementos que sempre empobrecem filmes que tem o objetivo de atingir o maior número de pessoas possível.

É complicado quando é nítido que algo foi feito em cima de idéias esgotadas e de uma forma que tenta forçar uma conexão com o público que em nenhum momento consegue desenvolver naturalmente, porque todo o encanto se quebra, e a expectativa se afoga. Isso só fortaleceu a idéia de que Michael Crichton deixou um legado importante na ficção científica, mas que não consegue ser longevo.

O terceiro filme desta nova trilogia já foi anunciado, e agora resta saber o que de novo eles podem apresentar, ou se será apenas mais um festival de variação das variações.
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