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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

STEPHEN KING OUTRA VEZ...

★★★★★★★★☆☆
Título: 1922
Ano: 2017
Gênero: Horror, Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Zak Hilditch
Elenco: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Shmid, Neal McDonough
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um fazendeiro arquiteta um plano macabro de assassinar sua mulher, convencendo o próprio filho a fazer parte disso.

O QUE TENHO A DIZER...
Que 2017 é o ano das atuais gerações (re)descobrirem Stephen King, isso já está mais do que claro. E depois da Netflix produzir a (péssima) série O Nevoeiro (The Mist, 2017), mas em contraponto também produzir o interessante Jogo Perigoso (Gerald's Game, 2017), o público foi pego de surpresa com essa nova e fresquinha adaptação, que também leva o selo do serviço.

Stephen King rende bons filmes quando bem adaptado, mas o difícil é encontrar quem o faça com categoria, pois suas obras são cheias de nuances, referências e metáforas embrenhadas em toda sua cabeça fantástica e macabra. Eclético e variado, por mais que alguns temas sejam recorrentes em suas obras, se distanciam umas das outras pelas diferentes abordagens, pela narrativa, pelas referências e analogias distintas. Enfim, é um autor que possui qualidades até mesmo nos menores contos, ou nos livros menos conhecidos.

1922 chega para provar que suas melhores adaptações são aquelas sem pretensões de impressionar ou serem grandes blockbusters. Baseado em uma história publicada na coletânea Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars, 2010), a adaptação é uma produção pequena e contida, dirigida, escrita e produzida pelo desconhecido australiano Zak Hilditch, um filme considerado pelo pelo próprio autor uma das melhores adaptações de suas obras em 2017.

Não é por menos. A produção é recheada de qualidades que faltam em muitos de seus outros títulos já adaptados, extraindo da história todos os elementos e características do autor de uma forma bastante homogênea, linear e densa, diferente, por exemplo, de Jogo Perigoso, que tropeça várias vezes, mas sem cair.

Aqui a história gira em torno de Wilfred (Thomas Jane) e Arlette (Molly Parker), e da dificuldade de ambos em levar adiante uma relação infeliz e indesejada, já que cada um deles possuem objetivos e vontades diferentes, mas continuaram juntos apenas para criarem e educarem o único filho, a verdadeira razão de terem se casado.

Enquanto Arlette quer vender os 100 acres herdados de seu falecido pai e abandonar a vida rural que tanto detesta, Wilfred deseja agregar a herança de sua mulher à fazenda que já possuem, e assim terem um território generoso e produtivo que garantirá o futuro de seu filho e de futuros netos. Arlette recusa a proposta e ameaça seu marido com o divórcio e também em levar seu filho com ela para a cidade caso ele persista na idéia de permanecer na fazenda. Desesperado, Wil quer tanto manter a fazenda como seu filho por perto, o qual também não tem vontades de se mudar para a cidade principalmente porque está apaixonado por sua vizinha. Sem encontrar alternativas, Wil começa a voltar seu filho contra sua própria mãe, e assim cultivar nele o ódio necessário para que ele o ajude em um cruel e diabólico plano de assassiná-la.

A década de 20 nos Estados Unidos foi marcada por um extenso crescimento industrial que avançava com bastante força e rapidez para o oeste e sul do país, ainda consequências da Guerra Civil (Secessão) e da Primeira Guerra Mundial, marcando a ascensão americana como grande potência não apenas bélica, mas política e econômica até a Grande Depressão devastar o país em 29 e perdurar pela década de 30. Na parte central, no interior do estado de Nebraska, onde a história se passa, a chegada de fazendeiros corporativistas e de indústrias alimentícias marcava o fim da vida pacata e autosuficiente dos fazendeiros e da vida rural simples e comum, mostrando a todos que o futuro finalmente havia chegado e, junto com ele, o progressismo comercial e suas consequências.

A princípio, e de maneira bastante superficial, pode parecer que o enredo se trate apenas de um jogo macabro de interesses e oportunismos, porém é aí que a mente brilhante de King começa a tomar forma, porque podemos enxergar nos personagens o conflito que o avanço tecnológico e industrial trouxe para aquela época. Não é à toa que Arlette quer abandonar a vida rural para ir atrás de um futuro promissor, no sonho de ter sua própria boutique, numa época que a moda começava a abandonar sua rigidez e a modestamente mostrar uma personalidade mais ousada e consumista (como no momento em que são citadas as calças jeans, por serem mais confortáveis às mulheres em "longas viagens"), enquanto Wil pretende a todo custo manter sua tradição enraizada no mesmo lugar, longe de coisas que possam corromper seu bucolismo (como no momento que sente ter inveja de seu vizinho pelas coisas que possui). E o filho, no meio de tudo, ligado a meros valores ingênuos que serão interrompidos com a cruel realidade em algum momento, tão rápido e fácil quanto dar a partida em um carro.

A resistência de Wil em migrar para a cidade é de igual intensidade a Arlette em permanecer com ele, algo que, quando visto por essa metáfora, se reflete na brutal cena de seu assassinato, na dificuldade de Wil em matá-la e na resistência dela em morrer, como a querer mostrar que o futuro pode ser postergado, mas é inevitável, e o lado mais forte sempre vence. Tanto que Wil é constantemente obrigado a ceder a necessidades mais cosmopolitas, aos poucos deixando suas origens e cortando (literalmente) suas raízes e ferramentas de trabalho, chegando a um triste fim, preso em um quarto de hotel, refém de suas próprias escolhas.

O diretor e roteirista tem êxito a transpor para a tela essas delicadas referências responsáveis por dar razões subliminares aos conflitos sem parecerem que foram simplesmente jogados na história sem qualquer razão. E a partir dessas sólidas fundações, o horror, o sofrimento psicológico e a punição passam a ser construídos. E Tomas Jane, numa caricatura um tanto similar a de Duke Mantee, imortalizado por Humphrey Bogart no clássico A Floresta Petrificada (1936), embarca numa jornada quase cíclica de consequências e culpas, e como o peso de um homicídio gradativamente retorce a consciência e consome a alma de quem o comete.

Ao contrário de nos depararmos com um protagonista tendo atitudes heróicas, como aconteceu com o próprio Jane na adaptação de Frank Darabont de O Nevoeiro (2007), aqui presenciamos totalmente o inverso: o nascimento de um genuíno vilão concebido pela sua própria ambição, do qual somos incapazes de encontrar qualquer simpatia até mesmo nos momentos de honesto e tardio arrependimento, e dessa forma, toda a atmosfera sombria se desenvolve como delírios de Edgard Alan Poe, autor também bastante referenciado, já que o conto de King também é visto por muitos como uma releitura de O Coração Revelador (The Tell-Tale Heart, 1843), por possuir os mesmos elementos góticos.

Hilditch conduz tão bem a narrativa e seus pormenores que a sensação de assistir a adaptação de um conto é nítida. Não pelo seu tempo ou aparente simplicidade, mas pela forma condensada como é construído, focado em um pequeno número de personagens, em espaços sucintos, sem obviedades desnecessárias ou qualquer outro elemento que desvie a atenção do espectador. E embora a fotografia seja belíssima até mesmo nos momentos mais indigestos, a saturação da imagem não favorece a sensação de época que o longa poderia ter tido. E por alguns momentos o filme se estende demais em situações que poderiam ter sido mais curtas, e assim ter dado oportunidade para os personagens nos darem maiores motivos para entendermos melhor suas intenções.

De qualquer forma, como um todo, é sem dúvida uma das melhores adaptações de King até hoje, que obviamente poderá não agradar aqueles que preferem os filmes baseados em suas histórias de terror mais físicas e óbvias. Não causa medo e nem sustos baratos, mas há material de sobra para ser apreciado como um genuíno conto macabro que progride de maneira bastante correta em sua proposta, além de bastante ousado numa época em que os filmes mais comerciais tem abusado de clichés levianamente para se manterem confortáveis e igualmente sem surpresas.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

TOSQUICE BEM FEITA...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: A Babá (The Babysitter)
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Terror, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: McG
Elenco: Samara Weaving, Judah Lewis, Bella Thorne, Hana Mae Lee, Robie Amell
País: Estados Unidos
Duração: 85 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto descobre que a babá por quem é perdidamente apaixonado não é exatamente tudo aquilo que imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
Não, este não é um remake do pseudo-clássico fetichista de 95, com Alicia Silverstone. E, ainda bem, está longe disso.

Mas, pra quem ver o título, provavelmente não vai se interessar. Quem ler a sinopse, talvez menos ainda. E se mesmo assim a pessoa insistir, a vontade será parar logo nos primeiros minutos. 

Mas persista. Persista porque haverá um determinado momento que algum diálogo ou alguma situação irá puxar sua atenção como a querer dizer que toda a tosquice presente é atraente.

Entupido de clichés e estereótipos, o propósito é exatamente esse, brincando com um tema sério e transformando o assédio moral (bullying) em argumento para um terror escrachado com final feliz. 

Por incrível que pareça, esse filme um tanto inusitado fez parte da blacklist de 2014, lista sobre os melhores roteiros que não foram produzidos, publicada anualmente. E como já é de tradição produzir aquilo que ninguém quer, coube à Netflix pegá-lo da prateleira empoeirada e colar seu selinho. 

Classificado como uma comédia gore, também tem diversos elementos do terror slasher, gênero de carreira duvidosa, cheia de altos e baixos, muito produzido nos anos 80 até saturar e desaparecer, voltar a virar moda nos anos 90 e decair novamente com sua nova saturação no começo de 2000. 

Hoje em dia este tipo de filme gera mais risadas do que qualquer outra coisa, causando zero espanto ou surpresa, o contrário do que a própria sequência de abertura de Pânico (Scream, 1996) um dia fez, revolucionando a maneira de se introduzir filmes no cinema mais atual. E embora A Babá se inspire em todos os títulos que incansavelmente reproduziram as mesmas fórmulas ao longo das décadas, ao mesmo tempo ele se destaca por não ser apenas uma repetição do mesmo tema. 

Que depois de Pânico nenhum filme do gênero foi levado mais a sério, isso é sabido de frente pra trás, já que o saudoso diretor Wes Craven, junto com o roteirista Kevin Williamson, transformaram a franquia em uma grande bíblia dos clichés com as tais "regras" que doutrinavam o comportamento dos filmes de terror adolescente e sua incrível previsibilidade. Sabiamente eles utilizaram a metainformação a favor do entretenimento e inovaram um estilo que estava estagnado enquanto o desconstruíam sem medo, causando a indignação e o ódio de muitos produtores. Era como Mister M revelar segredos mágicos, revoltando aqueles que viviam do negócio. Logo, quem conhece essa franquia, nunca mais conseguiu assistir um slasher movie da mesma forma, e nem o próprio cinema conseguiu fazê-lo da mesma forma.

Mas aqui a intenção não é fazer algo diferente, mas fazer o mesmo do mesmo. E mesmo SEM qualquer referência direta ao clássico de Wes Craven ou de qualquer outro diretor, o roteiro não tem vergonha alguma de explorar tudo aquilo que Pânico algum dia já satirizou, como o protagonista sempre buscar alternativas muito mais complicadas para se safar de um grupo de adolescentes integrantes de uma seita que sacrifica nerds para superarem suas fraquezas e conquistarem objetivos pessoais através das forças ocultas. 

Aqui a regra não tem metainformação, não tem a vontade de desconstruir gêneros, não tem vontade de inovar ou sequer fazer lago diferente, e esse excessivo uso do óbvio, em uma linguagem fácil e acessível, mas sem ser totalmente estúpida, tem um volume tão alto que se torna engraçado.

Poderia ser um filme péssimo em todos os sentidos porque o aglomerado de coisas que poderiam dar errado é muito grande. Mas ao contrário, ele diverte sem pretensão alguma. Talvez, a grande fórmula aqui seja não ter fórmulas e nem menos pretensão, mas qualidade no pouco necessário, como o do elenco, formado basicamente por novatos aspirantes a novas estrelas de Hollywood, atores que não carregam apenas rostinhos bonitos, mas também possuem talento e conseguem acertar em cheio nas interpretações debochadas, como acontece com Bella Thorne ou Samara Weaving, que hipnotiza com aqueles enormes olhos, maiores até mesmo que os de Emma Stone.

A linguagem dinâmica e às vezes um tanto cartoonizada, cheia de grafismos, efeitos e situações às vezes surreais, são características do diretor McG (lê-se "mékgee"), assim como é na maioria daqueles que começaram a carreira por trás das câmeras fazendo vídeo clipes, como ele. McG foi bastante criticado quando estreou nos cinemas com As Panteras (Charlie's Angels, 2000), sendo taxado de vazio, valorizando excesso visual para esconder falta de talento. A verdade é que não é bem assim. Ele é um diretor competente e diferente, carregado de linguagem pop e atual, o problema é que seu estilo não se encaixa em qualquer tipo de produção, e assim como As Panteras (principalmente sua sequência) se torna um material divertidíssimo para quem quiser apenas se divertir com aquilo que vê sem a necessidade de pensar, aqui ele consegue fazer até melhor porque mesmo sendo um filme cheio de cenas violentas e explícitas, é essa facilidade que o diretor tem de trabalhar com imagens e linguagens populares que faz tudo soar como uma verdadeira zombaria: escrachado, mas sem cair no pastelão. Seu grande acerto é nunca exagerar no tempo de uma cena, ou tentar fazer uma situação chegar ao ponto de ser um extensão de piada. Extensão de piada é aquilo que vem depois do gatilho da risada, geralmente acompanhada de uma moralzinha irritante ou uma explicação para garantir quem não tenha entendido de entender. Aqui isso não acontece, e é por isso que as cenas, por muitas vezes, são hilárias, principalmente durante as cenas de sofrência e agonia da cheerleader Allison (Bella Thorne), das sequencias de mortes bizarras, ou até mesmo da constante insistência do protagonista correr e fugir, mas sempre parar nos mesmos lugares, exatamente como Pânico um dia disse que é assim como acontece em todo filme de terror. E nessa edição bem precisa, o filme crava perfeitos 85 minutos, sem ser curto demais ou longo o bastante.

A Babá não é um filme brilhante e seu final poderia ter sido muito mais interessante se tudo parecesse fruto da imaginação do protagonista, como em vários momentos a evolução da história dá a entender, mas infelizmente acaba em uma mesmice que, mesmo em um filme cheio de mesmices que funcionam, este é um dos poucos que se tivesse saído do trivial, teria dado um melhor sentido para tudo. O que até parece que originalmente poderia ter sido, mas que de última hora resolveram mudar de idéia na velha intenção de vitimizar vilões em momentos de redenção, e assim a bela protagonista não parecer tão feia dentro dos valores morais hollywoodianos.

domingo, 8 de outubro de 2017

TENSO...

★★★★★★★★☆☆
Título: O Convite (The Invitation)
Ano: 2015
Gênero: Suspense, Horror, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Karyn Kusama
Elenco: Logan Marshall-Green, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Emayatzi Corinealdi, Michelle Krusiec, Mike Doyle, Jordi Vilasuso,
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um homem acredita que sua ex-mulher e seu novo marido tenham outras intenções com seus convidados além de simplesmente celebrar um encontro no qual foi convidado.

O QUE TENHO A DIZER...
Conversando com um amigo, chegamos à óbvia conclusão de como extremistas são perigosos à sociedade, e como o poder de influência deles sobre outras pessoas é preocupante.

Pessoas sofrem de perdas, faltas, dores e ausências. De compreenderem e serem compreendidas. Sofrem de descrença também, e não falo de religião, mas da descrença de si e de suas capacidades.

Sentem sintomas de um vazio que não se sabe onde está e como preenchê-lo, substituindo a racionalidade por coisas mais fáceis e simples, que possam, de alguma forma, darem explicações a seus sofrimentos de maneira instantânea, principalmente numa sociedade moderna e escrava da tecnologia, dos retwites, das curtidas no Facebook, das correntes de Whatsapp, etc. Todas geralmente mal informadas, absolutamente ausentes de fontes seguras. Mas o fato é que, desde que se conecte de imediato com aquilo que é esperado, ou explique banalmente aquilo que desconhecem, não importando a veracidade, o falso se torna verdadeiro em um estalar de dedos para quem quer acreditar em qualquer coisa.

É a constante busca da compensação de frustrações, e são pessoas assim os grandes alvos daqueles que necessitam da fragilidade alheia para fortalecerem idéias distorcidas de um mundo que demanda tempo, paciência e determinação para ser compreendido, elementos há muito abandonados por uma sociedade que tem se construído simplória demais para pensar com sua própria cabeça e andar com suas próprias pernas.

E é exatamente sobre isso que esse filme tenta argumentar dentro de seu roteiro que constrói uma atmosfera densa e difícil desde seu início. A construção dúbia das situações coloca em teste alguns personagens, além de brincar com o psicológico do espectador, que ora se sente desafiado, ora apreensivo, ora aterrorizado, e quando acreditamos que o clímax é atingido, o final aparentemente simples, direcionado propositalmente a uma resolução cliché do gênero, acaba se estendendo um pouquinho mais para concluir todo o filme de maneira inesperada e, quiçá, chocante.

É impossível não associar este filme a outros que fazem uso do mesmo enredo: um jantar como ponto de partida para as tramas se desenvolverem, como no clássico Festim Diabólico (Rope, 1948), de Hitchcock; na releitura do mesmo em Cova Rasa (Shallow Grave, 1994), de Danny Boyle; no cinema mais alternativo do movimento Dogma 95 do Velho Mundo, como Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Vinterberg; ou até mesmo na literatura, no clássico dos clássicos do estilo "jantar infernal" em O Caso dos 10 Negrinhos (And Then There Were None, 1939), de Agatha Christie.

Nota-se que aqui a diretora Karyn Kusama, juntamente com os roteiristas Phil Hay e Matt Manfredi, fazem uma junção inteligente dos diferentes elementos presentes nesses filmes individualmente. Propositalmente ou não, tudo funciona como se deve, e o impacto dos diferentes momentos de tensão, e de momentos emocionalmente densos, consegue atingir em cheio tal qual os títulos mencionados, mas à sua própria maneira.

O drama aqui não chega a ser tão abrangente e realista como em Festa de Família, tampouco tem as boas doses de humor negro do filme de Hitchcock ou de Boyle, mas possui um arco, uma construção, bastante forte, que se torna convincente pela competência dos atores, principalmente de Logan Marshal-Green e seu "quê" Tom Hardy de ser, e Tammy Blanchard, que constrói uma personagem enigmática e fria, bizarra e comedida, propositalmente incômoda em todas as cenas. Um elenco de personagens bem construídos, desde aquele que aparenta ser menos relevante até aqueles que são as verdadeiras engrenagens de todas as desastrosas consequências. Personagens estes que, como dito, tentam preencher seus vazios e compensar suas frustrações através de extremos ditados pelo desespero de não conseguirem lidar com seus fardos particulares, deixando expostas suas vulnerabilidades para aqueles que querem se apropriar delas.

Claro que revelar diretamente qualquer detalhe da história seja como abrir um forno fora de hora. Ela não se aprofunda em detalhes da dor comum dos personagens de Marshal-Green e Blanchard, e nem de como tudo aconteceu de fato. Mas o fato em si já se justifica como um grande motivo para demonstrar que, apesar das dificuldades de superarem o ocorrido, ambos lidam com as situações de maneiras bastante diferentes, e é isso que será explorado ao longo de todo o desenvolvimento.

Kusama, que até este longa não tinha lá um currículo muito interessante, sem dúvida conseguiu se redimir de desastres como Æon Flux (2005) e Garota Infernal (Jennifer's Body, 2009), ambos ruins não por incompetência, mas por roteiros sofríveis, o que não é o caso dessa vez. Pelo contrário, ela consegue fazer desse suspense algo intenso e assustador, tanto em seu tema, como também nas reviravoltas que o filme oferece, pegando o espectador desprevenido até mesmo quando já se espera alguma coisa.

Um filme independente que mostra como o total controle criativo da diretora e dos roteiristas fez absoluta diferença em seu resultado, e mesmo dentro de um gênero um tanto fictício, nos faz pensar que não há ninguém capaz de nos fazer encontrar soluções para nossos dilemas além de nós mesmos.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

COMPETENTE, MAS NÃO MARCANTE...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Jogo Perigoso (Gerald's Game)
Ano: 2017
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas
País: Estados Unidos
Duração: 103 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Aqueles dias que pareciam ser os momentos ideais para romantismo e realização de fantasias sexuais se transforma em um grande pesadelo de confrontos e sobrevivência.

O QUE TENHO A DIZER...
Realmente Stephen King é como jeans: pode passar despercebido, mas de tempos em tempos volta à moda.

Depois das adaptações de A Torre Negra (The Black Tower, 2017), o remake de It (2017) e da (péssima) adaptação de O Nevoeiro (The Mist, 2017) como uma série para o Netflix, o serviço agora carimba seu selo outra vez em Jogo Perigoso, adaptação do livro homônimo do autor, publicado originalmente em 1992.

E como falei na análise sobre a série O Nevoeiro, King é um autor que faz uso de metáforas sociais e/ou políticas para construir suas obras de horror e fantasia. Aqui não seria diferente, e a obra original constrói sua história em cima de algumas das perversões mais comuns e recorrentes no sexo masculino, como o incesto, a pedofilia e a cultura do estupro, desde o sadismo do fetiche à sua realização (ou a tentativa dele). Etapas que consequentemente levam à concretização da violência e também o feminicídio. Violências que, além de físicas, são psicológicas e perturbadoras às suas vítimas.

Temas recorrentes nas obras de King, direta ou indiretamente, Jogo Perigoso era para ser uma história que acompanhasse o livro Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992), brilhantemente adaptado para o cinema em 1995, e que conta a história de Dolores, uma mulher que planeja o assassinato do marido violento e incestuoso justamente no dia do eclipse solar de 1963. E é o citado eclipse que conectaria a história de Dolores com a história de Jesse, duas mulheres em crise, cujas reviravoltas em suas vidas ocorrem exatamente no momento do espetáculo astronômico. Respectivamente, uma tendo seu momento de resolução e libertação, e a outra, seu momento de negação e aprisionamento. Porém, ambos acabaram sendo lançados separadamente, sobrando apenas o eclipse como uma referência de que as duas histórias ocorrem dentro de um mesmo universo e situação.

Jesse (Carla Gugino), a protagonista da história, é casada com um importante advogado. Ambos resolvem passar alguns dias sós em sua casa de veraneio para tentarem renovar um casamento estagnado e uma vida sexual fria, acomodada com o tempo. Porém, os momentos que eram para ser de perfeito romance e fantasias inofensivas, se torna um verdadeiro pesadelo quando Gerald (Bruce Greenwood) começa a expor um comportamento violento e oprimido, e enquanto Jesse tenta se defender, seu marido sofre um ataque cardíaco e morre. Algemada na cama e sem maneiras de pedir socorro, Jesse embarca em uma situação histérica, desencadeando alucinações conflitantes vindas de diferentes partes de sua personalidade, trazendo à tona traumas passados esquecidos e que justificam todas as dúvidas e questionamentos tanto por parte da personagem quanto por parte do espectador.

Dirigido por Mark Flanagan, diretor que tem construído uma interessante trajetória em filmes como Absentia (2011), O Espelho (Oculus, 2013) e Ouija (2016), aqui o enredo tem tudo aquilo que faz parte de seu estilo, principalmente no conflito entre a realidade e o sobrenatural. E assim como o excelente filme Quarto 1408, de 2007, livremente adaptado de um conto de King por Mikael Håfström, a história também se passa dentro de um quarto, em uma narrativa lenta, igualmente progressiva e que leva a protagonista a confrontar seus mais profundos medos, moral sempre presente nas obras do autor.

A vulnerabilidade de Jesse a obriga tomar decisões radicais que a empoderam como pessoa, como vítima, e como mulher. É então que as metáforas se personificam no filme: o marido tomando a forma da violência; a personalidade da protagonista se fragmentando em dúvidas e respostas; o cachorro que simbolicamente se alimenta vagarosamente das dores da personagem; uma figura misteriosa que representa todas as diversas perversidades oriundas da personalidade masculina dominante; as algemas que mantém Jesse aprisionada a um passado traumatizante; uma corporação que evita o fato se transformar em um escândalo midiático, como a querer novamente calar a personagem e transformar mais um episódio traumatizante de sua vida em algo pueril. Dentre outras...

Infelizmente, apesar de tantas nuances e situações de interpretações livres e mistas, o filme, como um todo, merece atenção, mas sofre por não ter um ritmo coerente, principalmente nos momentos de flashback em que revisitamos o passado de Jesse quando criança. Diferente da maneira extremamente bem construída de Eclipse Total (filme que também se utiliza de flashbacks para desenvolver o arco dramático), aqui a conexão entre o presente e o passado não são feitas da maneira fluida como foi no filme de Taylor Hackford. Os cortes bruscos e a repentina mudança de situações quebra as alucinações e devaneios da personagem junto com toda a atmosfera apreensiva que é muito bem construída em diversas sequências, ao ponto do espectador se encontrar ofegante em várias delas, mas nunca levado a um ápice narrativo de fato. A total ausência de trilha sonora também se torna um tanto incômoda, pois há vários momentos em que ela poderia agir como um excelente elemento para fortalecer os momentos que se enfraquecem sem precisar se sobrepor, e o ritmo oscilar de maneira positiva.

O roteiro também não entra em detalhes sobre a personalidade de Gerald, que no livro tende a ser dominante e agressivo na sua vida profissional, o que justificaria de maneira coerente suas fantasias. E, talvez, para facilitar a narrativa, as alucinações de Jesse e as vozes que ela ouve de uma personalidade que se fragmenta, gira em torno de outras figuras no livro além das diferentes versões dela mesma e de seu marido. Embora no filme haja apenas essas duas figuras, as mesmas acabam atuando como uma junção das demais que foram omitidas. E para aqueles que conhecem as principais obras de King, também é impossível não reparar nas referências diretas existentes a Cujo, Saco de Ossos, ou até Rose Madder.

Na construção, o que mais chama a atenção é o fato dos papéis sexistas se inverterem entre os atores, finalmente. Em um filme qualquer, Carla Gugino dificilmente estaria de camisola, mas sim de lingerie. Mas ao contrário, é Bruce Greenwood quem fica o filme todo de roupa íntima, ator que, aos 61 anos, acabou se tornando o verdadeiro DILF (procure no Google) de muitos comentários por aí. Interessante em uma indústria que tende a sexualizar apenas as mulheres, e algo bastante relevante em um filme cujo tema feminista esteja bastante presente. 

Para um livro que, ao mesmo tempo que é um dos preferidos dos fãs de King, na mesma proporção também é considerado um dos seus livros menos inspirados, o filme tem sido bastante elogiado por aqueles que conhecem a obra original, principalmente porque seus elementos chaves foram mantidos, bem como muitos diálogos. Um roteiro fiel à história, sem mudanças principalmente em sua conclusão, coisas que King sempre reprovou nas adaptações cinematográficas de suas obras. Uma conclusão que, diga-se de passagem, se transforma em uma explicação um pouco mais didática de toda a história para aqueles que provavelmente tiveram dificuldade de compreender suas referências e associações até então, algo que no livro pode vir a calhar depois de 400 páginas, mas que no filme acaba não evitando a sensação de excesso, muito embora a cena final tenha um simbolismo importante ao mostrar que os homens só se sentem poderosos e vitoriosos através da violência e do abuso, e sem isso, se tornam tão pequenos quanto próprio desprezo que esses tipos merecem.

Jogo Perigoso trata de assuntos bastante interessantes que, mesmo se tratando de uma adaptação de uma obra de 1992, por incrível que pareça, estão mais atuais do que nunca. Como um suspense com pitadas de horror, como bem é o estilo de King, consegue ter seus momentos de tensão e até outros bastante indigestos, mas não deixa de ser um filme para os fãs do livro. E para aqueles que não conhecem a obra original, provavelmente ficará difícil compartilharem da mesma opinião. Um filme competente, mas não marcante como poderia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

INTRAGÁVEL...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Desenrolados (Disjointed)
Ano: 2017
Gênero: Comédia
Classificação: 12 anos
Direção: Vários
Elenco: Kathy Bates, Aaron Moten, Tone Bell, Dougie Baldwin, Elizabeth Alderfer, Elizabeth Ho, Nicolle Sullivan
País: Estados Unidos
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ruth Feldman (Kathy Bates) é dona de uma loja especializada em Canabis e seus derivados que tem que lidar com as dificuldades de ter contratado um bando de jovens irresponsáveis a tocar seu negócio.

O QUE TENHO A DIZER...
Todos sabemos hoje em dia que, tanto a plantação de maconha, como a comercialização legal já é possível em diversos estados norteamericanos, tanto no seu uso recreativo, como o medicinal. Devido a isso, maconha deixou de ser um assunto tabu para se tornar uma discussão social e comportamental presente. Deixou de ser um mero tema politicamente incorreto e de piadas resultantes de seu proibicionismo para se tornar um estilo de vida presente e possível.

Sabendo-se disso, é de se duvidar que este tema funcione como deveria nessa parceria entre a Netflix e a Warner porque, ultimamente, o serviço tem investido em produções bastante aguadas, sem o mesmo apelo inovador ou ousado de suas primeiras produções originais. Pro lado da Warner, sabemos que é um estúdio muito tradicionalista e conservador quando trata-se de produções para a TV, com grandes investimentos - em sua maioria - a comédias de situações cheias de clichés, estereótipos e saco de risadas (aquelas gargalhadas que ouvimos ao fundo que dita ao espectador a hora de rir de algo, como se burros fossemos nós que não achamos graça). Tudo direcionado para a família, ou para aqueles que facilmente acham graça de piadinhas que adoram zombar de assuntos que ora foram polêmicos na sociedade. A típica irreverência superficial norteamericana.

Por conta de todo o histórico da legalização, e da mesma tendência que muitos países do mundo chegarão a seguir, isso faz o uso da substância hoje em dia ser bastante comum. Junto a isso, temos as derrapadas da Netflix em suas atuais produções, além da já citada tradicional caretice da Warner. Somando-se tudo, fica um tanto óbvio que esta nova comédia de situações está longe de ter situações interessante e mais longe ainda de ser engraçada.

O tema cansado, batido e antigo se tornou antiquado, virando a típica situação da piada desajustada e sem graça. Se o seriado tivesse sido lançado há 10 ou 15 anos atrás, talvez pudesse ser hilário, ao invés de soar tão deslocado em tempo e espaço como hoje.

Obviamente, usando como grande fonte de inspiração e reciclagem o falecido seriado Weeds (2005-2012), a semelhança começa na própria abertura. Mas, enquanto na abertura de Weeds o que víamos era uma crítica à sociedade careta e metódica incapaz de lidar com mudanças, tanto através do vídeo, quanto pela música Little Boxes, de Malvina Reynolds, aqui fazem uma alusão de como a maconha é mais comum na sociedade do que a própria sociedade imagina, utilizando cenas do filme Marijuana (1936), conduzidas pela canção Jack, I'm Mellow, de Trixie Smith, gravada originalmente em 1938.

É, por um bom ponto de vista poderíamos entender que Desenrolados seria aquele tal futuro que Weeds previu ao longo de suas temporadas. Um futuro que chegou de fato, algo que faz as premiadas primeiras temporadas do seriado de Jenji Kohan se tornarem grandes referências sobre o assunto de maneira cômica e crítica. Mas a comparação positiva acaba por aí. Ao contrário disso, Desenrolados não consegue ser mais do que uma enxurrada de situações constrangedoras e vazias, num enredo sem pé nem cabeça tanto quanto os personagens que fazem nenhum sentido de existirem, assim como as desinspiradas gargalhadas gravadas que se ouve. E se Weeds fosse para ser sem graça (assim como foram suas fatídicas duas últimas temporadas), ele seria exatamente assim.

Impressiona o fato de Kathy Bates aceitar um trabalho que soa tão amador quando a atriz sempre foi muito enfática em entrevistas ao afirmar que tem dificuldade de trabalhar com amadores, sentindo que seu potencial não é explorado da mesma forma como quando rodeada por pessoas mais experientes e gabaritadas. Sim, uma afirmação um tanto presunçosa para uma atriz de poucos sucessos, mas respeitada por seu Oscar em Louca Obsessão (Misery, 1990), e alguns pares de outras indicações ao Oscar, Emmy e Globo de Ouro ao longo da carreira.

Me lembro que no seriado The Comeback (2005/2015), no qual Lisa Kudrow interpreta Valerie Cherish, uma atriz que já passou de seus 40 anos e agora faz de tudo para ficar famosa outra vez, há um momento que, por uma obrigação contratual, Valerie é enfiada em uma série de TV onde todos os demais atores tem mais da metade de sua idade. Os roteiristas, para contornar a discrepância, resolvem transformar a personagem em uma tia chata (a tia Sassy), que mora no andar de cima e que nunca consegue se ajustar com o comportamento dos jovens e seus hormônios incontroláveis, gerando uma sucessiva sucessão de situações constrangedoras.

A impressão que tenho assistindo Desenrolados, vendo o esforço hercúleo de Kathy Bates em se adequar a um elenco tão novo e amador, é praticamente a mesma sensação que tinha ao ver Valerie se humilhar para se adequar a algo que ela não se adequava mais. Não por ser mais velha, mas pela experiência e por um estilo de vida completamente oposto dos demais.

E nesse mesmo nível de incoerência, ver um seriado com personagens chapados, com um bagulho entre os dedos em todas as cenas, disparando diálogos sem qualquer efeito, tendo alucinações, comportamentos exagerados e estereotipados, deixou de ser engraçado para se tornar deturpado em uma época em que a maconha anda mais popular do que nunca tanto quanto cerveja de boteco.

Piadas que hoje são fora de hora porque sabemos que ninguém que comercializa legalmente o produto, ou que consome o produto, vive em uma viagem interplanetária constante como se estivesse à beira do retardo mental, exageros que antigamente eram engraçados, e eram engraçados justamente porque sempre é engraçado falar do proibido e rir do desconhecido. Mas hoje, falar de maconha, ou fazer piada sobre ela ou sobre quem usa, já se tornou tão batido e sem qualquer efeito quanto a piada do "elefante caiu na lama".

Nem mesmo Weeds se atrevia a zombar do assunto dessa forma, nem mesmo com personagens tão infames como Doug Wilson (Kevin Nealon) ou Andy Botwin (Justin Kirk), que mesmo chapados não chegavam a ter piadas tão sem graças ou forçar caras de chapado para obrigar o riso fácil.

Desenrolados nada mais é que mais um seriado fraco para cobrir buracos da Netflix sem qualquer conteúdo relevante. Uma perda de tempo tão grande quem nem mesmo para dormir serve. Talvez, pudesse ser interessante se não fosse levado como uma sitcom nos moldes tradicionais e o roteiro desenvolvesse suas histórias de maneira mais linear e não em esquetes. O que não é o caso.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SE PERDE COMO FUMAÇA...

★★★☆☆☆☆☆☆☆
Título: O Nevoeiro (The Mist)
Ano: 2017
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Horror
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Frances Conroy
País: Estados Unidos
Duração: 42 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Um estranho nevoeiro atinge uma pequena cidade, e com ele, acontecimentos sobrenaturais começam a ocorrer.

O QUE TENHO A DIZER...
Existe uma dificuldade praticamente incompreensível de adaptar as obras de Stephen King para a TV ou cinema. Historicamente sabemos disso.

Raramente uma ou outra produção consegue surpreender, e levar para as telas uma experiência rica e gratificante de um dos maiores escritores norteamericanos da atualidade. Mas acredite... além de um feito raro, também demora.

King é conhecido como o "mestre do horror e da fantasia" porque ele conseguiu o feito de fazer esses gêneros se tornarem relevantes na literatura contemporânea. Mais do que desenvolver histórias tensas, às vezes macabras, violentas ou sobrenaturais, o autor é um grande crítico social e político, que se utiliza desses estilos para criar metáforas que se tornam atemporais com sua literatura.

Mas não apenas de horror e suspense. King também já escreveu dramas bastante densos, como a abordagem da violência doméstica em Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1992) e Rose Madder (1995), bem como também já se aventurou em fantasias mais juvenis e leves com a mesma maestria, como em Olhos do Dragão (The Eyes Of The Dragon, 1987).

A riqueza descritiva do autor sempre foi sua marca registrada, por vezes até massante ou cansativa, pois se atenta a pormenores até pouco relevantes. Assim é porque ele quer ter certeza de que a idéia visual e a mensagem daquilo que ele imagina chegue ao leitor de maneira completa. E chega. Porque embora suas obras utilizem constantemente elementos sobrenaturais, no fundo ele está lindando é com sentimentos humanos e suas complexidades. Não é à toa que seus livros comumente ultrapassam 400 ou 500 páginas, daí para mais. Foi o que aconteceu quando terminou de escrever Saco de Ossos (Bag Of Bones, 1998), livro que encontrou um entrave para sua publicação pela sua quantidade de páginas divulgadas na época (mais de mil), mas que na sua versão final acabou sendo bem menos que isso.

Sem dúvida ele é um dos autores mais adaptados. Melhor dizendo, um dos autores cujas produções mais tentam adaptar. Nem mesmo ele, como roteirista, já conseguiu salvar filmes ou seriados do seu próprio desastre, como aconteceu com Sob A Redoma (Under The Dome, 2013-2015), seriado que teve alguns episódios escritos e produzidos por ele, mas morreu na terceira temporada por conta da saraivada de críticas negativas e a desastrosa queda de audiência.

De tempos em tempos King vira moda, e o hype em cima de seus trabalhos voltou ultimamente com a adaptação do recém lançado A Torre Negra (que está mal das pernas nos cinemas) e o remake de um de seus maiores clássicos (e bem adaptado no passado): IT.

Portanto, em uma produção visualmente e tecnicamente parecida com Sob A Redoma (mais nos defeitos que em qualidade), a tentativa de transformar O Nevoeiro em uma nova série parecia calhar.

A série é livremente baseada em um conto homônimo publicado em 1982 como parte de uma antologia de contos de horror do autor. O conto já foi adaptado ao cinema por Frank Darabont em 2007, o mesmo diretor que adaptou os sucessos Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994) e A Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1999), ambos de King. Embora O Nevoeiro não tenha tido sucesso comercial, é considerado uma das melhores adaptações do escritor, além de ter cativado o público (para o bem e para o mal) por conta de seu surpreendente e inesperado final que foi contra qualquer dogma Hollywoodiano de se concluir uma história.

Enquanto em Sob A Redoma o autor trabalha na dificuldade dos personagens lidarem com o confinamento, extraindo de cada um deles o seu melhor e seu pior nesta situação, dessa vez é o nevoeiro do título que irá arrastar o caos por onde passar, trazendo consigo aquilo que irá fazer os personagens entrarem em conflitos com suas crenças, seus valores, suas diferenças, suas dificuldades de comunicação, e a reflexão daquilo que somos como indivíduos, como sociedade e como unidade familiar.

O filme de Darabont conseguiu abordar todas essas nuances de maneira coerente e brilhante, e transformar o nevoeiro da história tanto como a ferramenta de realização dos nossos desejos mais sórdidos e obscuros como também daquilo que mais queremos evitar. Mas a série não consegue ter a mesma delicadeza de abordagem. Aliás, não há abordagem alguma nesse aspecto.

Com um primeiro episódio bastante fraco, que tenta se construir em intermináveis clichés e determinar ao espectador por A+B quem são os mocinhos, os vilões e quais são as intrigas chochas, o roteiro raso não consegue desenvolver a surpresa e o terror dessa metáfora que o nevoeiro significa conforme se aproxima da pequena e pacata cidade de Bridgeville, no interior do Maine.

O defeito é sempre ser muito didático. E aqui há um extremismo ao didatismo em níveis hiperglicêmicos. Mesmo produzido pelos independentes irmãos Weinstein (da The Weinstein Company), e também levar o selo Netflix de "qualidade" carimbado acima do título, a impressão de se assistir uma nova serie da TV aberta para a massa desprovida de intelecto é a mesma. Não há ousadia, não há crueza nas situações como há no filme. Tudo é desperdiçado para o fácil e óbvio ao ponto de uma criança de seis anos conseguir compreender, mesmo que o seriado seja indicado para maiores de 14 anos.

"Temos que fazer", "temos que correr", "temos que fugir"... E temos que incansavelmente acreditar que a polícia vai salvar o mundo, mesmo oito episódios depois. É difícil considerar se diálogos como esses sejam excesso de ingenuidade ou de estupidez. Com roteiro simplório e previsível como uma linha de trem, as situações de tensão, medo e horror nunca decolam porque nunca há construções convincentes para isso. As coisas podiam ser menos óbvias, superficiais ou exageradas, mas Netflix parece que cada vez mais tem facilitado sua linguagem para evitar o máximo a dispersão de seu público, investindo pesado na fácil assimilação, daí a impressão da brusca queda de qualidade de suas últimas produções. Uma pobreza de idéia sem fim, onde todo mundo sempre entrava um episódio porque tem uma história pra contar, mas nenhuma história é interessante o bastante para sustentar seus minutos, dando a sensação de que nada vai a lugar algum.

Os atores também não ajudam. Assim como em Sob A Redoma, que tinha personagens adolescentes e adultos que mais irritavam do que causavam empatia, a situação se repete aqui com a filha do casal protagonista (vivida por Gus Birney), que se martiriza por conta de um abuso sexual mal desenvolvido, e uma mãe protetora (Alyssa Sutherland) que mais parece uma colega de classe emburrada do que uma chefe do lar. O desenvolvimento do pai (Morgan Spector) também está longe de ser o mesmo do construído por Thomas Jane no longa. E sempre que houver oportunidade, o seriado irá pecar ao focar mais em cenas chocantes de morte e dilaceramento ao invés do drama dos personagens e seus respectivos conflitos, os grandes e reais vilões de tudo.

Até mesmo o único peso pesado da série acabou sendo submetido a um personagem retilíneo, aquele para ser usado quando o roteiro não tiver mais argumentos para alguma reviravolta. Frances Conroy, conhecida por Six Feet Under e suas participações em American Horror Story, aqui interpreta uma senhora hippie que presencia o assassinato de seu marido. Sua esquisitice nunca chega ao transtorno pós traumático que deveria, ao contrário disso, beira ao retardo mental, anos luz distante do maquiavélico fanatismo e da inesgotável obsessão de Marcia Gay Harden no longa, já que ambas acabam tendo um desenvolvimento similar na história. Mas a péssima construção da personagem não é um privilégio apenas dela, há também o policial que se deprime porque perdeu sua arma, numa metáfora à perda do poder e do arbítrio de maneira tão emocionalmente ridícula que beira o constrangimento.

Nem divertido o seriado consegue ser. Talvez seja se for para apenas prestar atenção aos defeitos, como os de maquiagem, tão ruins que é possível notar a pincelada de tinta na pele.

Confesso que assisti os 10 episódios, um a um, entediado, só pra garantir que tudo aquilo que imaginei no primeiro episódio se concretizasse. Contava minutos para cada um deles acabar. Para não dizer que nada seja interessante, há um par de reviravolta na história em seus dois últimos episódios que irá justificar algumas coisinhas, mas a gente já está tão cansado de la-la-ris e la-la-rás, que ao invés de surpreender, causa bocejo e zero espanto. Uma pena.

O nevoeiro de King nada mais seja do que o gatilho de todos os medos, temores e conflitos internos e externos de uma sociedade pacata e hipócrita, culturalmente condicionada a um platô confortável, incapaz de sobreviver a mudanças e situações avessas às que estão acostumados. Mas infelizmente toda essa profundidade é perdida num produto cuja única real e rasa metáfora seja se perder como fumaça.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PARA O PÚBLICO EXAGERADO...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: Onde Está Segunda? (What Happened To Monday?)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Ficção Científica, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Tommy Wirkola
Elenco: Noomi Rapace, Gleen Close, Willen Dafoe, Marwan Kenzari
País: Reino Unido, França, Bélgica, Estados Unidos
Duração: 123 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sete irmãs gêmeas deverão sambar sobre tamancas para sobreviver em um mundo superpopulado e sem recursos, onde apenas filhos únicos são permitidos,

O QUE TENHO A DIZER...
Com o fim do seriado Orphan Black, onde Tatyana Maslany interpretou, ao longo de cinco temporadas, cinco personagens fixas distintas (fora outras não fixas), o lançamento do novo longa também assinado pela Netflix, Onde Está Segunda?, pareceu bastante estratégico, já que Noomi Rapace igualmente oferece multiplas interpretações em o número absurdo de sete personagens. Absurdo porque o que Maslany fez em 50 episódios, Rapace fará em apenas 2 horas. Capiche?

Em Orphan Black, o tema era a clonagem humana, o que justificou a ousadia de tantas personagens interpretadas pela mesma atriz. Neste filme, o tema soa um pouco mais interessante e original dentro da fantasia científica que se propõe. Em um mundo superpopulado e com falta de recursos, domina uma lei de controle de natalidade, onde todos devem ser filhos únicos. Mas para as famílias que tinham uni ou bivitelinos, os governos optaram pela criogenia dos excedentes, os quais seriam trazidos de volta em um futuro onde a população já estivesse controlada e abaixo dos níveis de emergência.

Dirigido pelo noruegues Tommy Wirkola, conhecido pelos divertidos Zumbis Na Neve 1 e 2 (Dead Snow, 2009/2014), a trama começa quando vemos Terrence (Willem Dafoe) em um berçário, recebendo a notícia de que sua filha, a grávida de Taubaté do filme, não havia resistido ao parto de sétuplos. De maneira muito prática, ele resolve dar às suas netas órfãs o nome de cada dia da semana. Muito inteligente e esperto para seus planos futuros, que não demoram para serem revelados ao espectador.

Não há dúvida de que a idéia do filme seja interessante, já que embarca numa onda parecida não apenas com o seriado protagonizado por Maslany, mas também por outro longa aclamado no passado do diretor Alfonso Cuarón, Filhos da Esperança (Child Of Men, 2006). Enquanto no filme de Cuarón a infertilidade da população levou ao colapso, aqui é o inverso.

Mesmo sendo um avô, a imagem do "pai herói" que Dafoe constrói, naquela linha tênue entre o cândido e o carrasco, onde todas ações se justificam para salvar a vida de suas netas em um mundo cruel e injusto, consegue ter uma construção interessante, e a idéia de que todas adotem uma identidade única também. Mas quando a segunda parte do filme começa, com as irmãs já adultas, em um cena pra lá de batida, onde interagem em uma mesa de jantar para serem apresentadas individualmente de maneira bastante didática ao espectador a partir de suas distintas personalidades e caracterizações, já é possível perceber que a produção tenta usar, a todo custo, um cafona exagero como atrativo.

E no clássico erro do cinema comercial, esse exagero se sobrepõe a uma idéia interessante, ofuscada pelo excesso de personagens que estão lá não para desenvolver a história de maneira consistente, mas para impressionar desnecessariamente, cobrindo buracos e pulando saliências.

Quando Nicolette Cayman (Gleen Close) é apresentada como a grande vilã, não dá para evitar lembrar da atriz em Mulheres Perfeitas (Stepford Wives, 2004), refilmagem de um clássico de 1975 que se tornou uma referência do cult trash moderno, já que é tão ruim, mas tão ruim, que se torna divertido por isso.

E realmente, Nicolette tem muito de Claire Wellington. O perfeccionismo da personalidade maníaca se destacam novamente, não porque Gleen Close se repete, mas porque o estigma que a atriz carrega de "eterna vilã" faz papéis parecidos e rasos sempre caírem em suas mãos e ela aceitá-los pela falta de algo melhor.

Noomi Rapace também não consegue ter uma articulação convincente como Maslany. Não que eu queira comparar ambas, que são extremamente diferentes, mas porque o trabalho exercido por elas é bastante similar. A atriz sueca, revelada em 2009 na trilogia original Millennium, baseada nos livros de Stieg Larson (que tentou ser adaptada por Hollywood com o ridículo Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, de David Fincher), pode ser talentonsa e expressiva, mas deixa a caracterização prática (figurino, maquiagem e cabelo) ser mais importante que a caracterização física. Quando um ator se rende a isso, o resultado deixa de ser convincente e se tornar caricato. É evidente.

Culpas do exagero.

Se o roteiro tivesse reduzido o número de personagens na trama a apenas um par de gêmeos, Rapace certamente teria oferecido um trabalho mais consistente, menos estereotipado, e o filme teria tido oportunidade de explorar com maior efetividade o suspense de sua ficção-científica e usado as cenas de ação como complemento eficiente e não como um espetáculo pirotécnico para tirar a atenção dos inúmeros defeitos que ele se permite sem vergonha alguma.

O resultado de tudo isso é um filme esquisito e um tanto bizarro. Os péssimos enquadramentos, as composições caóticas das cenas, uma edição igualmente confusa que se limita a mostrar a expressão de uma, depois de outra e de outra em um loop infinito em diversas sequências cansativas e sem qualquer propósito, faz dele algo esteticamente feio, rendendo umas boas gargalhadas pelos clichés, defeitos, exageros cênicos e figurantes esquisitos para aqueles que prestarem atenção. Sem falar da história em si, que começa na interessante idéia de explorar como as sétuplas sobreviveriam nessa distopia, mas (SPOILER) com o roteiro matando uma a uma sem misericórdia, não apenas acaba contradizendo e emplodindo toda a narrativa inicial, como também se torna uma grande bobagem que nos faz finalmente questionar a redundância: para que tantas personagens, então?

Sem dúvida é um filme perdido, cheio de técnicas manjadas para impressionar o espectador de maneira forçada, como dar maior atenção à ação do que ao resto. Trash ele consegue ser, mas é um produto irrelevante por nem visualmente agradável ou divertido conseguir ser. Para aquele público que adora um exagero e que sempre acha que "quanto mais melhor", este filme tem de monte, menos qualidade, algo que definitivamente esse público pouco se importa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A ÚLTIMA TEMPORADA DE ORPHAN BLACK...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Orphan Black (Última Temporada)
Ano: 2013
Gênero: Drama, Ação, Ficção Científica, Policial, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Tatyana Maslany, Jordan Gavaris, Maria Doyle Kennedy, Kristian Bruun, Kevin Hanchard, Dylan Bruce, Evelyne Brochu
País: Canadá
Duração: 44 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Ao ver uma sósia idêntica se suicidar em sua frente, uma mulher rouba sua identidade para fugir da polícia e dar a ela e sua filha uma nova vida, mas isso foi apenas o gatilho de uma grande conspiração no qual será o grande pivô.

O QUE TENHO A DIZER...
Orphan Black nunca foi um fenômeno, mas teve uma base sólida de fãs. Por isso conseguiu ter seu começo, meio e fim ao longo de cinco temporadas.

Cinco temporadas que, segundo seus criadores, já estavam no cronograma para contar a épica e contemporânea batalha entre a protagonista e uma grande corporação que comercializa experimentos biogenéticos, da qual ela descobre ter sido vítima. O seriado começou com um enredo que envolvia exageros desumanos a respeito da clonagem humana, e posteriormente a trama se desenvolveu para revelar que as explorações científicas em cima disso - envolvendo alguns milhares de inocentes - era a base para aquele fascínio que sempre existiu tanto na ficção científica, como também na realidade: a busca da fonte da juventude eterna.

Já fiz uma análise sobre a série AQUI, e embora toda a trama tenha se desenvolvido de maneira respeitável e empolgante, é impossível negar que o grande atrativo de tudo era muito mais pela versatilidade de Tatiana Maslany do que pelo roteiro em si. Maslany interpretou, ao longo de toda a série, outras três personagens principais além da protagonista. Sem contar outras que apareciam entre uma episódio e outro apenas para dar maior densidade nas situações ou uma maior consistência momentânea, ora dramática, ora cômica.

Em uma entrevista dada a Chelsea Handler em 2016, Maslani afirmou ser um trabalho exaustivo representar tantos papéis, tanto para ela quanto para a equipe técnica, mas um desafio que vale a pena, e talvez uma experiência única a qualquer ator. Tanto valeu a pena que a atriz, finalmente, conseguiu o tão aguardado Emmy. Aguardado não por ela, mas pelos fãs e pela crítica, rendendo até uma piada (com fundo de verdade) de Jimmy Fallon a respeito disso, dizendo que se Maslani concorria por ter interpretado 5 personagens, a categoria deveria ter sido apenas dela.

De fato, a dedicação e o talento de Maslani são inquestionáveis, ultrapassando os poderes da maquiagem e cabelo na hora da caracterização, oferecendo uma interpretação física, vocal e comportamental tão convincentes que conseguimos diferenciar cada uma das personagens só de olhar para elas. Tanto que os momentos mais interessantes são quando alguma das personagens finge ser alguma das outras personagens, algo que acontece diversas vezes ao longo das cinco temporadas.

Era de se esperar que a quinta e última temporada não pudesse ser tão grandiosa quanto as anteriores, já que a história obviamente focaria na revelação de fatos ainda abertos e na conclusão de pontas soltas.

Infelizmente os 10 episódios pareceram curtos para tanta coisa, caindo em clichés um tanto óbvios e soluções "práticas" para surpreender o espectador e dar conclusões repentinas. A redenção de personagens que desenvolveram sua vilania ao longo de toda a série, ou a perda de outros que se tornaram imprescindíveis na história, são alguns desses exemplos, não causando tanto impacto como deveria, deixando no ar aquela estranha sensação de que certas coisas poderiam ter sido diferentes, mas foram como foi por serem mais fáceis.

O desenvolvimento da última temporada não foi tão bem pensado ou articulado como deveria. Definitivamente não causou a impressão de que tudo já estava tão bem resolvido na cabeça dos criadores como eles afirmaram ao longo dos últimos dois anos. Muitas pontas soltas permaneceram, bem como outros personagens continuaram de lado e só apareceram em momentos oportunos para afirmarem aos espectadores que eles ainda existiam e não haviam sido esquecidos, mas que voltaram a ser dispensados depois de suas participações.

A situação de evitar que as personagens interpretadas por Maslany se encontrassem com frequência também era evidente para evitar complicações técnicas, principalmente com a repentina "saída de cena" de algumas delas, com uma se enclausurando em um convento (e lá ficou esquecida), bem como outra que foi atrás de um certo "retiro espiritual" (e lá ficou esquecida também). Artifícios utilizados com frequência na televisão quando há excesso de personagens e ausência de eficiência deles nas tramas e subtramas.

Uma última temporada simples, que permaneceu numa zona de conforto que não superasse expectativas, mas que também não desagradasse os fãs. Há um momento em que Cosima reage com bastante emoção à perda de outra personagem, mas pra mim foi inevitável interpretar a situação como um choro de alívio da atriz de que todo o trabalho e esforço foram válidos, e que o peso de carregar todo um seriado em cima das próprias costas finalmente chegou ao fim. Isso não é um ponto de vista negativo, pelo contrário, tudo na vida há prazo de validade, e Orphan Black encerrou sua trajetória de maneira respeitável, sem precisar mofar ou apodrecer na prateleira para que isso acontecesse.

domingo, 9 de julho de 2017

NOVELÃO DA PORRADA...

★★★★★★★★☆☆
Título: GLOW
Ano: 2017
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Marc Maron, Chris Lowell
País: Estados Unidos
Duração: 35 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Os bastidores das vidas pessoais e profissionais da primeira liga de Luta-Livre feminina de Los Angeles.

O QUE TENHO A DIZER...
Depois de Stranger Things e sua incrível homenagem aos anos 80, a filmes clássicos e estilos que marcaram essa época, a Netflix dá continuidade a essa "sessão nostalgia" com GLOW, um acrônimo de Gorgeous Ladies On Wrestling, algo como "lindas mulheres na luta-livre".

A série se baseia livremente no documentário GLOW: A História das Lindas Mulheres na Luta-Livre (GLOW: The Story Of Gorgeous Ladies On Wrestling, 2012), e na série televisiva original, que foi ao ar entre 1986 e 1989. Mas ao contrário dos materiais originais, aqui narra de maneira mais fictícia e cômica o início da modalidade feminina de Luta-Livre em Los Angeles, um esporte encenado para o puro entretenimento da platéia e que já fazia muito sucesso na modalidade masculina. Não é à toa que, por conta disso, todas as personagens da série, embora levem nomes distintos, sejam referências diretas às personagens da verdadeira liga de luta-livre, inclusive o próprio personagem Sam Sylvia, baseado em Matt Cimber, o diretor original da equipe. 

Marcando a estréia de Liz Fahive e Carly Mensch como criadoras, ambas foram produtoras de sucesso de seriados como Homeland e Weeds, respectivamente. Elas também assinam a produção e o roteiro, e trazem junto Jenji Kohan como produtora executiva, a mesma criadora de Orange Is The New Black e Weeds.

Claro que, com uma equipe dessas, não tinha como a produção dar errado, e tudo funciona como deve, mostrando de maneira convincente os bastidores e as dificuldades que as mulheres encontraram em uma modalidade esportiva dominada pelos homens e pelo público masculino. Assim como Flahive chegou a afirmar em uma entrevista a Rolling Stone, sem dúvida a história pega carona no movimento de liberação feminina que ocorreu nos anos 70, questionando as consequências e os resultados disso nos anos posteriores, e até que ponto o surgimento de ligas femininas explorava ou empoderava as mulheres.

Esse questionamento emerge o tempo todo principalmente por conta do personagem Sam Sylvia (Mark Maron), um tipo que muito se assemelha aos personagens canastrões de Robert De Niro ao longo de sua carreira. Um diretor excêntrico e mal compreendido, com sérios distúrbios de humor, dotado de uma pungente ironia e arrogância para encobrir a auto-confiança abalada por uma carreira decadente, fadada ao fracasso.

Sylvia aceita a proposta de um jovem rico de dirigir uma série de luta-livre apenas com mulheres, e desde o processo de seleção do elenco, ele não esconde que sua principal intenção é explorá-las através de estereótipos sexistas para atrair o público e a audiência televisiva. O comportamento primariamente um tanto machista do diretor são os pontos altos da série, pois é através dele que o roteiro caminha na linha entre a exploração e o empoderamento. Elementos usados principalmente para o desenvolvimento das demais personagens, que mesmo aceitando se submeterem a essa exploração visual e sexual, também se empoderam ao tomar as rédeas criativas do processo e moldarem o produto final em um formato onde elas utilizam essa exploração como uma ferramenta de fortalecimento feminista em cima dos estereótipos, seja em suas vidas pessoais, seja na vida profissional.

A história começa apresentando Ruth Wilder (Alison Brie), a heroína da história, uma atriz determinada "que só faz pontinhas", igualmente abalada por nunca ser escolhida nos diversos processos de seleção de elenco nas quais se inscreve, ou nunca conseguir papéis realmente interessantes, ou que explorem sua capacidade artística além de papéis de dona de casa ou de secretária. Falida e sem dinheiro para sequer comprar comida, é assim que acaba entrando para o elenco de GLOW. Tal como ela, as demais personagens também não se encaixam em perfis profissionais esperados, incluindo sua melhor amiga (que também virá a se tornar uma inimiga), que largou a profissão de atriz para casar com uma homem bem sucedido e assim garantir seu sustento, mas que tem o benefício de ser loira, o que facilita seu protagonismo, como é dito em um determinado episódio.

Assim como Sylvia deixa evidente logo no começo, a série se aproveita de auto-referências para igualmente construir cada personagem em cima de estereótipos sociais, e Ruth se torna a metáfora da dificuldade feminina de sobreviver à independência e ao mercado de trabalho numa época em que o sexo feminino era taxado como frágil. Não é à toa que a grande força motriz é a união de tipos socialmente excluídos, assim com também acontece com os personagem de Stranger Things, resultando em conclusões épicas e engrandecedoras para provar que, assim como a personagem Sheila (Gayle Rankin) diz sobre ela mesma - mas que pode ser interpretado de maneira geral - todas elas são humanas e capazes, mas precisam encontrar artifícios extras para se sobreporem em uma sociedade preconceituosa e segregadora.

Infelimente Ruth não parece ser bem desenvolvida como poderia ser, ou como a princípio parecia ser. Seu excesso de determinação, confiança e indulgência acabam prejudicando seus momentos ora cômicos, ora dramáticos, se tornando uma personagem cansativa, perdida entre no limbo entre o humor e a tragédia, sendo sempre vítima dela mesma em diversos momentos que ao invés de serem cômicos, se tornam humilhantes. Seus momentos de humilhação e vergonha alheia se assemelham em número e grau com a personagem Valerie Cherish, vivida por Lisa Kudrow em The Comeback. Há até mesmo momentos para suas persononificações tal qual a personagem de Kudrow constantemente faz, como no momento em que está em seu quarto e mostra a Sheila sua mais "nova" personagem, que nada mais é do que uma imitação de Katherine Hepburn, atriz a qual tanto admira que possui até um poster em sua parede, seu único objeto de valor. Não é à toa que este poster está estrategicamente atrás dela nesta cena. Mas ao contrário de Valerie, cuja proposta desde o princípio é mostrar os constantes esforços de uma atriz decadente a retomar o sucesso em um arco dramático coeso, Ruth não tem uma razão muito clara para ser como é pois ela não tem um passado ou um futuro já exposto, seu pedantismo excessivo dificulta atrair a simpatia do espectador. É quando a personagem é aliviada desses excessos que ela finalmente se torna relevante, mesmo explorando com exagero igualmente cansativo seu alter ego russo, igual aquelas pessoas que não param de contar piadas, e no fim todo mundo já está dando risada mais por educação do que por ser engraçado.

Talvez a intenção tenha sido proposital para que, a princípio, a atenção seja voltada às demais personagens, que mesmo em participações menores, conseguem ser muito mais interessantes e consistentes. Há até um momento em que Sylvia ameaça demitir algumas atrizes, dizendo que seria até bom, já que há excesso de personagens. Isso poderia ser visto como uma auto-crítica dos próprios roteiristas, mas que felizmente é contornado porque há espaço para todas, mesmo que alguma delas às vezes sejam um pouco esquecidas, subutilizadas, ou estejam lá apenas para cobrir buracos, como é o caso de Cherry (Sydelle Noel) e da dupla Stacey e Dawn (Kimmy Gatewood e Rebekka Johnson).

O comprometimento das atrizes é notório. Todas elas foram realmente treinadas durante as filmagens pelo lutador Sam Guerrero, sobrinho de Armando Guerrero, treinador da equipe original, e mesmo com muitos truques de câmera e algumas situações onde evidentemente se usam dublês, muitas das cenas foram feitas pelas próprias atrizes. Com excessão de Kia Stevens, que faz a personagem Welfare Queen, a única lutadora na vida real.

No geral é uma série que se constrói de maneira interessante, que gradualmente mostra sua consistência em uma trama principal simples, empolgante e convincente, com diálogos inteligentes, personagens cativantes (como não se apaixonar por Melrose, Rhonda, Tammé, Carmem ou Arthie?), abraçando referências a filmes do gênero e a uma trilha sonora igualmente nostálgica, escolhida a dedo. Como não associar o intensivo treinamento de Ruth e Debbie (Betty Gilpin) à clássica cena de ensaio em Dirty Dancing entre Baby e Johnny (Jennifer Grey e Patrick Swayze)? Há até igual similiaridade ao mesmo filme quando Debbie desiste de realizar o movimento mais marcante, tal como Baby quando desiste de ser erguida por Johnny quando se apresentam juntos pela primeira vez. Pode-se dizer o mesmo, em igual consistência, às sub-tramas, havendo até um momento bastante dramático entre Sylvia e Justine (Britt Baron), que é tão bem desenvolvido ao longo dos episódios que pegará qualque um de surpresa.

GLOW é exagerado na sua produção como foi os anos 80. Não chega a ter o mesmo nível de fidedignidade como nos filmes Cegueira Histérica (Hysterical Blindness, 2002) ou 200 Cigarros (200 Cigarettes, 1999), mas ainda  consegue ser um produto essencial para os mais saudosistas, e principalmente para aqueles que pouco (ou tudo) desconhecem sobre o ingresso das mulheres nesta modalidade esportiva, e porque, ao mesmo tempo, ele é considerado um "novelão da porrada".


segunda-feira, 3 de julho de 2017

ABRA SEUS OLHOS, NETFLIX!

Era esperado que a hegemonia da Netflix algum dia chegasse ao fim. A empresa, responsável por popularizar o novo segmento streaming como um abre alas da independência daqueles insatisfeitos com os canais a cabo nos últimos anos, além de oferecer maior liberdade de escolha à sua audiência por um preço baixo e justo, chegou a ser ponto de polêmicas e alvo de ataque da indústria do entretenimento e também debate nas escalas políticas, como aconteceu no Brasil, sobre a taxação tributária específica de um serviço não legislado por não ter categoria específica, e assim haver aumento do preço do serviço para restringir consumidores. Até mesmo as empresas de telefonia resolveram voltar a restringir o uso de dados, cuja uma das principais alegações foi o grande tráfego - e consequente congestionamento - que o excesso de streaming causava, impactando na qualidade do serviço móvel.

E no fundo, o que se viu foi diferentes setores que se beneficiam entre si se unirem para tentar reduzir o impacto da democrática escolha que o serviço causou. Em resumo, ao invés desses setores resolverem concorrer de maneira honesta, melhorando seus conteúdos e serviços, preferiram encontrar a via mais fácil da sabotagem para permanecerem nas suas zonas confortáveis. 

Não há como negar que o serviço conseguiu pisar em calos alheios, mesmo que essa nunca tenha sido a real intenção. Mas sempre que algo bom surge em qualquer área que seja, os incomodados se armam até os dentes para guerrear pela manutenção do seu espaço e domínio.

Polêmicas à parte, pelo menos no Brasil, o serviço ainda se mantém da mesma forma como veio. Os humores exaltados se normalizaram e felizmente as coisas ainda correm bem.

A história da Netflix começou de maneira modesta em 1997, como uma empresa desenvolvedora de conteúdo digital, ganhando popularidade a partir do momento que começou a oferecer vídeos por demanda, em 2007, serviço que atualmente conhecemos e consumimos. Com o passar dos anos, o número de assinantes pelo mundo só veio a crescer, gerando lucro suficiente para, em 2013, começar a produzir seu próprio conteúdo, ou pagar para que o conteúdo seja exclusivo e leve seu carimbo.

Só que, da mesma forma que novidades incomodam alguns, também abrem novas oportunidades no mercado para outros, e o que se vê é um crescente número de concorrentes, como a Amazon, a HBO Go, Crackle (recentemente comprado pela Fox para esse fim), dentre outros. E junto a tudo isso, a Netflix agora tem que também evitar de se tornar ameaça dela mesma.

Nos últimos quatro anos, houve um crescimento absurdo de novas produções. Longas metragens aclamados, e outros nem tanto; seriados que apostavam em conteúdos diversos, mas nem sempre tão bons. Uma enxurrada de produtos que deixaram no ar se ela seria capaz de mantê-los conforme outros lançamentos chegassem e integrassem a vasta videoteca que só crescia, mas que nunca soube ao certo para que rumo ir.

A ousadia sempre fez parte da proposta do serviço, o que é admirável. O que não é tão admirável assim é a sensação de que a direção de conteúdo apenas "rapeava" aquilo que outras produtoras e estúdios pretendiam jogar no lixo, dando aval a produções pensando mais no incremento de conteúdo do que pela qualidade, atirando para todos os lados na pressa de ter produtos originais e aos poucos trocar os produtos da prateleira virtual.

É desnecessário citar seriados e filmes que deram certo ou não. Cada um de seus assinantes consegue ter uma noção, mesmo que bastante superficial, daqueles que funcionam e daqueles que não fazem qualquer diferença, como acontece, como exemplo, na maioria do conteúdo de comédia, que muitas vezes sequer arranca um sorriso genuíno do espectador.

Em um relatório recentemente divulgado pela 7Park Data, observa-se que, dentre os 10 conteúdos mais assistidos entre 2016/17, apenas Orange Is The New Black e Stranger Things levam a marca Netflix, respectivamente em 6º e 10º lugar. Isso veio à tona como uma bomba. Afinal, de que vale gastar dinheiro com conteúdo original se as pessoas não tem interesse por ele? É a pergunta que surge após a entrevista concedida pelo Diretor Executivo, Reed Hastings, à CNBC, canal por assinatura sobre finanças e negócios.

A solução que a empresa agora encontrou foi de fazer aquilo que os canais de televisão mais fazem: cancelar suas produções sem qualquer aviso, o que impacta diretamente na produção de séries. Isso prejudica o conteúdo, que é interrompido sem conclusão, o que historicamente desagrada e revolta a audiência, que aos poucos tende a perder a confiança. E independente de ser um conteúdo recente ou já consagrado na casa, qualquer um deles se tornou alvo, gerando muita apreensão por parte dos assinantes.

É o que aconteceu recentemente com o inesperado cancelamento de Sense8, série bastante popular no Brasil, cujo fim foi anunciado logo após o lançamento de sua segunda temporada, a qual não possui um final conclusivo. A revolta de fãs e assinantes chegou no escritório de conteúdo, que resolveu dar um passo atrás e anunciar, na última semana de Julho, que a produção de um especial de duas horas foi encomendada para encerrar a trama como se deve.

Sense8 foi apenas um dos escolhidos de Ted Sarandos, Diretor de Conteúdo, a cancelamento pelo seu alto custo. Marco Polo é outra, e The Get Down também não chegará a ver a luz de uma segunda temporada pelas mesmas razões. A baixa repercussão de Girlboss também levou ao seu precoce cancelamento, e o cancelamento de Hemlock Grove não foi uma grande surpresa, mas gerou certo buzz entre a base de fãs. E como dito, todos os outros títulos já estão na berlinda, salvo algumas excessões consagradas, ou que são interessantes serem mantidas para o marketing positivo da marca ao levantar disscussões de relevâncias sociopolíticas, com no caso de House Of Cards, ou o recente Dear White People.

O inchaço de produções foi o grande problema, principalmente com o excesso de stand-up comedies, formato muito mais popular nos Estados Unidos do que em outros países. A ousadia se sobrepôs ao planejamento de longa data, a atenção a excessos com megaproduções para chamar a atenção (como o caso de Sense8 ou Marco Polo) se sobrepuseram ao planejamento financeiro. E agora a Netflix passa por uma reformulação forçada.

A atenção a isso agora é primordial, ao mesmo tempo que o cuidado nas decisões e um maior foco ao planejamento se tornaram quesitos fundamentais à sua sobrevivência. E a empresa irá sambar na corda bamba, pois deverá encontrar alternativas para manter o interesse de seus assinantes mesmo com conteúdos indo embora, e novos outros serviços de streaming aparecendo com conteúdos até mais interessantes.

Inchar o carrossel do aplicativo com produções baratas e de qualidade duvidosa apenas para levar o selo de LANÇAMENTO ou NOVOS EPISÓDIOS não segura ninguém. Ela deveria ter se atentado a isso desde o princípio. O mérito da existência da Netflix é poder ousar, mas isso não significa fechar os olhos para a qualidade. A direção de conteúdo de Sarandos não parece ser uma das melhores, já que poderia ser mais peneirada, evitando produções como o horroroso The Farm, ou até mesmo na insistência em parcerias milhonárias como a de Adam Sandler, que trazem pouco retorno. De igual medida, apenas investir na hospedagem de produções não inéditas também não atrai mais pessoas da mesma forma como atraiu no começo do serviço em demanda, quando era novidade ter temporadas disponíveis para usuários fazerem suas maratonas sem terem que esperar a boa vontade dos canais abertos.

A Netflix não precisa ter o mesmo punho de ferro comercial e industrial de estúdios. Ela deve continuar sendo ousada na escolha de seus produtos, pois esse sempre foi seu diferencial. Mas deve ter uma equipe de análise de conteúdo mais competente, onde seja avaliado a qualidade de sinopses e roteiros antes de serem aprovados. E mesmo em produções tercerizadas, o acompanhamento deveria ser mais rígido para o controle de qualidade. E principalmente, na dúvida de não saberem se um novo lançamento chegará a ter uma nova temporada ou não, exigir que os últimos capítulos tenham mais conclusões do que pontas soltas para não desagradar a audiência e perder a sua confiança. E para as produções já existentes, o planejamento a longo prazo deve ser primoridal, como aconteceu com Orphan Black, cujo fim foi anunciado com bastante antecedência, dando tempo para a construção de sua conclusão para a quinta temporada.

Qual seriado deve ser mantido mesmo que não gere muito lucro? Qual conteúdo deve ter oportunidade para os próximos dois anos? Qual produção deve ser cancelada para a próxima temporada sem afetar o público? Há necessidade de determinado conteúdo ter mais do que um número X de episódios? Qual a relevância de um longa metragem, independente de seu gênero?

Planejamento, Netflix! Puro planejamento e respeito a seus assinantes.

Agora basta esperar para saber se o serviço terá a vida longa que tão de início parecia ter, mas que agora se tornou algo de futuro nebuloso.
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