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terça-feira, 4 de setembro de 2012

TERROR SEM PRETENSÕES...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: O Túnel (The Tunnel)
Ano: 2011
Gênero: Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Carlos Ledesma
Elenco: Bel Deliá, Andy Rodoreta, Steve Davis, Luke Arnold
País: Austrália
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um grupo de jornalistas resolve investigar os mistérios que envolvem o governo e os túneis de metrô abandonados no subsolo de Sydney.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro longa metragem tanto do diretor quanto dos roteiristas (que também são os produtores). Confesso que houve até uma certa coragem para realizarem esse filme, que não é muito diferente de outros do gênero. É também um tanto ousado, pois é um filme independente e que foi produzido através do Projeto 135K criado pelos próprios produtores do filme para captar fundos para a produção. A idéia do projeto era vender cada frame do filme por $1,00 (1 segundo de filme tem 25 frames, ou seja, 25 fotos). Para 90 minutos de filme seria necessário 135.000 frames vendidos, ou seja $135 mil. O comprador não estava limitado a comprar apenas 1 frame, podendo ele comprar quantos quisesse, ou até mesmo comprar o filme todo. Conseguiram apenas em torno de $38 mil, e tiveram que fazer o uso da criatividade para finalizarem e promoverem o filme com esse dinheiro, e inclusive o pôster do filme é feito com os nomes de todos os compradores que participaram do projeto. Por fim ele foi lançado em alguns cinemas locais na Austrália, através do canal Showtime australiano e também via torrent, sendo a primeira vez que um filme é distribuido legalmente via sistema peer-to-peer.

A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007), REC (2007), Coverfield (2008), Contatos de 4º Grau (The 4th Kind, 2009), A Casa Muda (La Casa Muda, 2010), Fenômenos Paranormais (Grave Encounters, 2011), Apollo 18 (2011), 388 Arletta Avenue (2011), O Diário Chernobil (Chernobyl Diaries, 2012), dentre alguns outros esquecíveis... Todos eles tem em comum a mesma filmagem em primeira pessoa, naquele esquema de "salvem a câmera custe o que custar" (com raras excessões), mas no fim a proposta é sempre a mesma, tentar inovar um estilo que já está cansado.

Claro que O Túnel não seria diferente, e já assisti esperando tudo que eu já conhecia de todos esses filmes anteriores, sendo que alguns ainda me assustam como se fosse a primeira vez. Não é um filme bem desenvolvido e construído em boas idéias, boas atuações ou um grande final como algum dos anteriores do gênero, mas funciona como um filme de terror dentro desse estilo "sobrevivência" e chega a ser uma mistura de Abismo do Medo (The Descent, 2005) com REC.

O filme tenta com muito esforço nos fazer acreditar que tudo é baseado em fatos reais, como a maioria desses filmes faz. Eles usam gravações de telefone, gravações de vídeos de segurança e alguns depoimentos pessoais para fortalecer essa tese, mas é óbvio que tudo é ficcional. Às vezes parece que os personagens simplesmente não ligam para o que aconteceu, mas isso é por conta do nível amador de atuação. Há também o problema das filmagens dentro dos túneis, que muitas vezes funciona, mas em outras parece que estão usando os mesmos lugares, apenas mudando os ângulos ou entulhos de lugar. Um pouco claustrofóbico pelo excesso de visão noturna nas imagens e tomadas fechadas. Mas de qualquer forma, é um tipo de filme que dá liberdade para os erros e para a falta de qualidade, salvando ele mesmo de sérias análises.

Apesar de tudo é um filme sem pretensões e até oferece alguns sustos e surpresas. Uma continuação já está em pré-produção pela mesma equipe.

CONCLUSÃO...
Se você aguentou todos os outros filmes citados acima, esse vai ser algo fácil de assistir. Não é o melhor filme do mundo, nem o pior. Também não é um filme B, se considerar o fato de que é um filme australiano de horror, um país que não tem uma presença muito sólida no gênero e é mais conhecido por produzir os piores filmes de horror na indústria, fazendo O Túnel algo até acima da média até mesmo por conta dos esforços da produção, e só por isso ele vale a pena ser assistido.

"I WANT AN iPHONE!"

★★★★★★★☆☆☆
Título: God Bless America
Ano: 2011
Gênero: Comédia, Ação
Classificação: 16 anos
Direção: Bobcat Goldthwait
Elenco: Joel Murray, Tara Lynne Barr, Melinda Page Hamilton
País: Estados Unidos
Duração: 105 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Frank sofre de enxaqueca e insônia, não aguenta mais seus vizinhos da casa germinada onde mora, tudo na televisão é estúpido, no seu trabalho todos só falam do que está na moda e ainda conseguiu ficar desempregado e descobrir um tumor no cérebro. Ele conhece Roxy, uma adolescente madura para sua idade, porém com pensamentos homicidas, que consegue convencê-lo a sair por aí eliminando maus elementos da sociedade, aqueles responsáveis por deixar as pessoas mais estúpidas e ignorantes.

O QUE TENHO A DIZER...
Sim, o mundo está ficando ignorante, a população está emburrecendo e somos todos nós os responsáveis por isso. Se alguém ainda tem duvida disso não vai precisar de muito pra descobrir a verdade e nem mesmo uma citação importante do Facebook para aumentar a credibilidade desse texto. É só olhar à sua volta, com muita atenção.

"As pessoas não conversam mais além de simplesmente reproduzir o que vêem na TV, lêem nas revistas de fofoca ou ouvem nas rádios", é o que Frank (Joel Murray) diz, enquanto seus colegas de trabalho assistem seu discurso assustados, como se ele estivesse louco. Logo em seguida ele é demitido, pois é assim como as coisas sempre foram com todos aqueles que questionam a ignorância e a atitude da massa. Quanto mais pessoas pensarem igual, mais fácil é das coisas serem controladas. Em outros exemplos, é a exploração do ponto fraco de um grupo, de uma sociedade, ou população, como o filme deixa bem claro. Se é uma população amedrontada, venderemos armas e serviços de segurança. Se é um grupo ignorante, daremos informações erradas. Se é uma população xenofóbica, promoveremos o nacionalismo.

Há uma parte em que o personagem Frank também diz que alguns poucos anos atrás sentíamos nojo ao ver alguém comendo carne crua em reality shows, e hoje isso não faz nem cócegas. Essa afirmação é tão interessante por resumir o ponto em que a sociedade e sua cultura chegou, porque eu lembro bem a primeira vez que vi uma pessoa comer um testículo de bode ao vivo na televisão, e lembro porque aquilo foi chocante naquela época. Hoje não é, não porque nos acostumamos, mas porque a banalidade se supera cada vez mais, fazendo muitas das coisas perderem seus sentidos e valores.

Foi interessante assistir este filme logo depois de ter assistido Confissões (Kokuhaku, 2010), pois os dois filmes se complementam muito bem de alguma forma. God Bless America é um alerta ao excesso do cultivo da ignorância, e Confissões é sobre os resultados e as conseqüencias da constante alienação e da insistência das pessoas em ignorarem os problemas. Um filme é norte-americano, o outro é japonês, apenas para se ter uma noção de que não existem barreiras ou distância que impeça problemas comuns de existirem e que dizem respeito a todos nós.

Também se assemelha bastante a filmes como Um Dia De Fúria (Falling Down, 1993), Assassinos Por Natureza (Natural Born Killers, 1994) ou até mesmo ao mais recente Tiranossauro (Tyrannosaur, 2011), mas ao contrário desses filmes, God Bless America é uma comédia de um humor negro, pois é esse tom que faz a idéia ser assimilada. O acesso da mensagem por esse caminho é sempre mais fácil e menos chocante.

O filme foi escrito e dirigo por Bob Goldthwait, que logo no começo oferece uma sequencia extremamente violenta, não poupando nem um bebê, mas tudo é feito de forma tão satírica que o choque pode até acontecer, mas a gargalhada será inevitável. É importante entender que toda essa violência do filme não passa de uma metáfora, e todos os personagens são alegóricos, represantando os elementos intolerantes e repulsivos aos quais Frank e Roxy (Tara Lynne Barr) saem à caça, limpando os lugares de doenças sociais e exemplos negativos. Compreender isso é essencial para a mensagem ser válida.

Mesmo assim o filme não foge de alguns problemas de desenvolvimento. A força narrativa e a ousadia mostrada no início vão perdendo um pouco o fôlego, mas nada disso impede o objetivo principal da história, a de criticar o consumismo vazio, a superficialidade de idéias e o excesso do inútil. Goldthwaith foi certeiro na pontuação dos fatores intolerantes, pois são comuns à maioria das pessoas. Foram citados tantos exemplos que é impossível alguém não se identificar em nenhum momento, da mesma forma como ninguém vai terminar o filme sem pensar em outros. As semelhanças do que é mostrado ou citado com a realidade é tão grande que chega a ser assustador. Sim, é assustador pensar que qualquer pessoa do mundo possa se identificar com esse filme, pois só assim para termos noção da proporção gigantesca que as coisas estão tomando, e como tudo está igual em todo lugar, e porque tudo estão tão difícil, e porque a impressão que temos é que o mundo está acabando, e porque as pessoas estão pirando, e porque ninguém consegue mudar nada.

O caos é o limite, mas não há limite para o caos. O fim é previsível porque é assim como ele tinha que ser, pois é o fim de tudo que questiona ou tenta mudar o pensamento comum. A típica situação que é trágica se não for engraçada.

CONCLUSÃO...
Excelente discussão sobre os rumos que o pensamento comum tem dado às pessoas, e a desvalorização intelectual que está atingindo níveis inaceitáveis e intolerantes. Um filme que não deve ser ignorado e deveria ser obrigatório até mesmo em currículos escolares.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A INCANSÁVEL BUSCA PELO REMORSO E A AUTO-REPARAÇÃO...

★★★★★★★★★☆
Título: Confissões (Kokuhaku)
Ano: 2010
Gênero: Drama, Suspense
Classificação: 16 anos
Direção: Tetsuya Nakashima
Elenco: Takako Matsu, Ai Hashimoto, Yukito Nishii, Kaoru Fujiwara, Yoshino Kimura,
País: Japção
Duração: 106 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
No último dia de aula antes das férias, e também o seu último dia de trabalho, a professora Yuko Moriguchi (Takako Matsu) resolve se desperdir de seus alunos dando uma aula diferente, contando a história de como sua filha de 4 anos foi assassinada por dois de seus alunos que se encontram na sala.

O QUE TENHO A DIZER...
Norte-americanos adoram um drama cliché, europeus adoram dramas realistas, e japoneses adoram o drama chocante. Eles tem essa tendência de serem visualmente exagerados, talvez como uma forma de exteriorizar sentimentos culturalmente contidos ao longo dos séculos. Os filmes de horror japoneses, por exemplo, abusam de todas as fórmulas do medo com o uso excessivo do sangue e do bizarro, mas nem por isso deixam de ser poéticos. O mesmo ocorre nesse drama com cargas psicológicas fortíssimas. O excesso de seqüencias em câmera lenta dá sutileza até mesmo quando há jorros de sangue nas cenas, dando um tom surrealista ao sofrimento, a dor e à confusão, conseguindo ser bonito até mesmo nos momentos mais brutos e chocantes por conta da fotografia apagada, numa perspectiva sempre muito horizontal e limitada, sem profundidade ou grandes perspectivas, tal qual as personagens. Mas essa sutileza e beleza não evita o clima pesado e depressivo, só alivia o impacto da violência.

Confissões é sem dúvida uma ode a todos os sentimentos e fatores negativos que transformam os humanos em seres psicóticos, obsessivos e perversos, seja em menor ou maior grau; seja da simples vontade até as duras conseqüências da realização. É um filme duro, pesado e bruto que nos mostra pontos bastante realistas que dão corda suficiente para muita reflexão do início de um efeito dominó até a sua última peça.

Leva esse título porque a história é contada por 5 pontos de vista de maneira bastante particular e honesta, como em um confessionário de fato. As narrativas (ou confissões) muitas vezes se intercalam para desenvolver a história linearmente, explicando no momento correto as razões ou motivos que cada um teve, e o espectador literalmente se transforma em um ouvinte, como se estivesse em uma mesa redonda com todos eles. Há também espaço para que as histórias individuais tomem forma e arestas para ter maior noção das razões de cada um ter pensamentos negativos da vida, e que os levaram às infelizes consequências. As imagens apenas ilustram o que muitas vezes já imaginamos conforme a história é narrada, e talvez essa função passiva do espectador não seja tão efetiva pelo filme ser falado em japonês, perdendo muito mais tempo lendo as legendas e assimiliando o que é mostrado do que simplesmente ouvir o que é contado e deixar a imaginação entrar em sintonia com as imagens, o que seria uma experiência muito mais impressionante.

O filme mostra de forma sutil que problemas e traumas pessoais se manifestam na sociedade e no convívio, do contato entre as pessoas e dos choques que essa necessidade traz ao querermos sempre responsabilizar alguém pelos nossos sofrimentos individuais. Mostra de forma clara a fixação que todos os humanos tem em comum por tudo aquilo que choca e causa sofrimento ao outro, como se isso aliviasse os nossos. O diretor, e também roteirista, Tetsuya Nakashima, mergulha por vários fatores sociopsicológicos para justificar esses comportamentos traumáticos. Ele varia desde os abusos e abandonos, do assédio moral, do sensacionalismo midiático, da intransigência jurídica, do uso abusivo do anonimato, da inconsequência das modernas redes sociais, da ignorância popular, até a vulnerabilidade das pessoas frente a todas essas armas que são utilizadas sem qualquer remorso pela personagem principal. A manipulação dos alunos feita por Moriguchi é uma crítica ao comportamento e ao pensamento limitado, e à fraqueza que os humanos demonstram ao se comportarem como uma massa, e não como indivíduos. É um filme fatalista, por isso os únicos personagens que agem e pensam diferente são exatamente aqueles que são punidos.

O maior conflito de Moriguchi, como professora e humanista, foi ter finalmente percebido que a crueldade não está apenas nos adultos, mas que ela surge naqueles que ela acreditava serem incorrompidos e inocentes, resultando em um esforço e futuro perdidos, causando a destruição de todos apenas puxando o fio da fraqueza de cada um, com o único objetivo de não apenas preencher sua perda com o remorso e o arrependimento de quem lhe inflingiu a dor, mas de ensinar que a crueldade dos humanos não leva a nada além da sua auto destruição.

CONCLUSÃO...
Um filme fantástico e impressionante do início ao fim. Uma ironia cruel e perversa da realidade e do lado sombrio do ser humano. A busca incessante da causa e da consequencia, do remorso e da auto-reparação.

sábado, 1 de setembro de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU, EXISTE ALGUM FILME MAIS BOBO DO QUE O MEU?

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Branca de Neve e o Caçador (Snow White And The Huntsman)
Ano: 2012
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Classificação: 14 anos
Direção: Rupert Sanders
Elenco: Kristen Stuart, Charlize Theron, Chris Hemsworth
País: Estados Unidos
Duração: 127 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma versão um pouco mais adulta da história de Branca de Neve.

O QUE TENHO A DIZER...
2012 foi o ano de Branca de Neve. Em Março estreiou a versão de Tarsem Singh da princesa injustiçada, estrelando Julia Roberts como a rainha má e Lily Collins como Branca de Neve, que havia originalmente feito testes para estrelar nesta versão do conto de fadas, mas Kristen Stuart quem acabou ficando com o papel, e o filme de Rupert Sanders estreiou em Junho. Os dois filmes foram bem nos cinemas, tanto que uma continuação para Branca de Neve e o Caçador estava em planejamento, mas agora é incerto devido às peripécias amorosas de Kristen Stuart com o diretor Sanders e toda a polêmica do traído Robert Pattinson.

Embora os dois filmes obviamente contem a mesma história, os pontos de vista são diferentes. No filme de Tarsem a história é contada pelo ponto de vista da rainha, enquanto no filme de Sanders, a história (a princípio) é narrada pelo Caçador sem nome, mas que por alguma razão desconhecida essa narrativa some e nunca mais volta. Talvez tenham esquecido. Acontece.

É difícil dar um tom sério ao conto dos irmãos Grimm quando ele foi incansavelmente recontado para um público infantil. Espelho, Espelho Meu (Mirror, Mirror, 2012) conseguiu ser fiel à sua proposta, e em nenhum momento Tarsem tenta nos enganar. O filme novamente foi feito para o público infantil, é fantasioso, colorido, leve, engraçado, bobo e com figurinos e fotografias deslumbrantes. Ao contrário de Branca de Neve e o Caçador que, apesar dos esforços, não consegue ser o filme adulto e maduro que eles tanto queriam. Cenas e algumas seqüencias chegam a ser de um amadorismo até vergonhoso e os diálogos são quase sempre infantis, porém floreados com uma pompa poética shakespeariana e um sotaque meio-britânico-ou-seja-lá-o-que-for para fazer de conta que são pessoas sérias e adultas conversando ou discutindo. Isso só serve pra convencer o público adolescente e os fãs de Kristen Stuart, que no fim das contas acaba sendo (ou tendo) quase o mesmo nível intelectual.

O roteiro é assinado por 3 pessoas: John Lee Hankcock, Hossein Amini e Evan Daugherty. O primeiro escreveu e dirigiu o filme que deu o Oscar e dezenas de outros prêmios de Melhor Atriz a Sandra Bullock, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2010); o segundo foi o consagrado escritor e diretor do excelente e oitentista Drive (2011); e o terceiro... bom, ele é desconhecido mesmo, sendo este filme seu primeiro trabalho. Obviamente os dois primeiros serviram apenas com roteiristas de apoio, corrigido e alterando erros brutais porque é impossível imaginar que, por exemplo, o mesmo roteirista de Drive tenha sido capaz de trabalhar efetivamente em um roteiro tão pobre quanto o de Branca de Neve e o Caçador.

Kristen Stuart definitivamente se esforça. É notável que ela se doa de corpo e alma para a personagem e tenta provar que ela não é uma atriz insossa e mentalmente limitada, como ela demonstrou em toda a Saga Crepúsculo. Mas mesmo assim ela não convence, e eu gostaria muito de saber em qual escola de artes ela estudou para ter aprendido que expressar felicidade, surpresa, medo ou raiva, é deixar a boca aberta. Chris Hemsworth, que faz o Caçador sem nome, é tão ruim quanto. Nada aqui é diferente do que ele fez em Thor, a diferença é que ele está mais sujo e de cabelo preto. Com todo aquele tamanho, além do personagem dele ser um monte de nada e não acrescentar absolutamente qualquer coisa à história (o que é um absurdo já que o personagem é principal), não dá pra entender porque ele usa um sotaque estranhíssimo e sempre mais apanha do que bate.

Claro que os únicos créditos do filme vai para Charlize Theron, que além de ser linda é sempre uma excelente atriz e a verdade é que vê-la como uma rainha má é o que irá atrair o público mais adulto. E o tom que ela dá à personagem fica em um meio termo entre sentirmos ódio e compaixão. Os diálogos dela também são sempre fracos, mas quem é bom de verdade consegue ser MacGayver e construir um Shopping Center com um palito e um chiclete. Os atores que fazem os anões também levam crédito, valendo lembrar que eles não são anões de verdade, o tamanho dos atores foi alterado em computação gráfica na mesma técnica que diminuiu o tamanho dos atores que representaram os hobbits na trilogia Senhor dos Anéis.

Inclusive, Senhor dos Anéis é uma grande inspiração no filme. Além de todos os elementos fantasiosos e míticos, Sanders exagera nas tomadas aéreas para deslumbrar e nas tomadas fechadas de batalha para impressionar, tal qual Peter Jackson fez à exaustão em sua trilogia, o que não causa nada além de um "oh, que legal".

Apesar de tudo, o filme não é tão ruim do que poderia ter sido, mas também não é bom quanto haviam prometido.

CONCLUSÃO...
Mais engana do que faz o que promete. Bobo e infantil, mas disfarçado de intelectual e adulto, e Charlize Theron dominando todas as cenas e segurando o filme nas costas. Claro que existem filmes piores, mas não é dessa vez que um conto de fadas poderá ser levado a sério.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE MARTHA...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Martha Marcy May Marlene
Ano: 2011
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Sean Durkin
Elenco: Elizabeth Olsen, Hugh Dancy, Sarah Paulson, John Hawkes
País: Estados Unidos
Duração: 102 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Martha é uma garota estranha e ninguém sabe o que se passa com ela.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido, escrito e também filme de estréia do diretor Sean Durkin, que chamou a atenção do circuito independente por contar uma história estranha de uma menina esquisita e com um passado enigmático chamada Martha, às vezes Marcy May e raramente de Marlene. O filme estreiou no Festival de Sundance, um dos mais importantes do circuito não comercial mundial, e acabou ganhando o prêmio de Melhor Direção. Foi indicado e ganhou outros prêmios que, em sua maioria, consagraram o diretor/roteirista e a atriz Elizabeth Olsen, que por sinal é irmã mais nova das gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, além de também ser sua estréia como atriz. Chega a ser impressionante porque a atuação que suas irmãs gêmeas não ofereceram em todos os filmes que trabalharam, Elizabeth oferece em um único filme.

A única coisa que sabemos de Martha é que por alguma razão desconhecida ela passa a morar em um tipo de sociedade alternativa, naturista e sexista que realiza cultos espirituais e sexuais com garotas virgens. O grupo é liderado pelo enigmático Patrick (John Hawkes), e possuem uma lista de regras rígidas e outras mais adaptáveis. Cada uma das garotas acaba descobrindo sozinha sua função no grupo, mas basicamente devem servir sexualmente o líder. Elas só podem engravidar dele, e só podem ter filhos do sexo masculino. Elas dividem as mesmas roupas, os mesmos cômodos, compartilham sexo entre si, são constantemente abusadas, moral ou sexualmente. Perdem a vergonha, os pudores, o apego por bens materiais e todas as regras sociais e morais importantes na sociedade convencional, se transformando em pessoas livres que fazem o que querem, do jeito e na hora que quiserem, perdendo o senso de julgamento e adaptação. Além do comportamento machista dos homens e submisso das mulheres, regularmente o grupo também invade mansões por razões que também não são claras, e eventualmente situações mais graves e sérias podem ocorrer, como o filme deixa implícito.

Nunca sabemos como Martha foi parar lá, como ela achou o lugar, se ela foi por espontânea vontade, se foi sequestrada ou coagida, ou quais as regras de aceitação do grupo. Isso tudo é um mistério. O filme começa com sua fuga desesperada, cujas razões, a princípio, não são claras. Sem ter a quem recorrer, Martha resolve procurar sua irmã Lucy (Sarah Paulson), que imediatamente oferece ajuda. Martha passou 2 anos vivendo com o grupo e a perda de senso crítico, julgamento e adaptação são os grandes responsáveis pela dificuldade que ela tem de se inserir novamente dentro das regras éticas e convencionais de uma sociedade que ela foi convencida e condicionada a esquecer.

Esse nome tão extenso não é por acaso, ele também tem um significado importante no filme. Martha é como ela é chamada por sua irmã e cunhado, seu nome de batismo. Marcy May é como ela chamada pelas pessoas da "sociedade alternativa" em que ela foi morar. Marlene é o único nome que não é citado durante o filme todo, mas pode ser visto como uma lista de regras anotadas na parede da casa, acima do telefone, pois Marlene é o nome comum que todas as garotas devem usar ao atender o telefone, assim como os rapazes devem fazer com o nome Michael.

É um filme confuso, que em momento algum esclarece o que se passa com a personagem principal, como se o diretor/roteirista quisesse que o espectador tivesse a mesma sensação e impressão que Lucy e seu marido, Ted (Hugh Dancy), tem: a de dúvida, desconfiança e insegurança. As interpretações, principalmente de Elizabeth Olsen, chegam a ser impressionantes e bastante impactantes. É um filme do subgênero suspense dramático. O drama se desenvolve pelas dificuldades pessoais de Martha se adaptar fora do grupo e de sua família compreender seus problemas, enquanto o suspense gira em torno do mistério de seu passado e da imprevisibilidade da personagem.

Não há o que discutir sobre a direção do filme. Sean Durkin consegue de forma constante manter a distância e o desconforto, bem como nunca deixar o espectador saber de fato o que aconteceu. Tudo é dedutível, e a sensação de frustração, raiva, angústia e desespero é construído em cima da falta de informação, e são esses buracos do filme que faz quem assiste terminar no mesmo sentimento que Lucy e Ted, de impotência e desistência. A trilha sonora aparece apenas em momentos cruciais, e o som do violino distorcido chega a ser ensurdecedor de tão caótico, exatamente como deve estar o psicológico de Martha.

Não é fácil de ser digerido por causa da sua história desconstruída e lenta. É um daqueles filmes que mostram muito mais do que simples conflitos internos ou entre personagens, mas que se desenvolvem em cima de bases sólidas e exemplos realistas e não fantásticos de distúrbios psiquiátricos, como acontece com o distúrbio de personalidade em Possuídos (Bug, 2006) ou a sociopatia psicótica em Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need To Talk About Kevin, 2010). Por isso filmes como esse se tornam muito melhor apreciados depois do conhecimento das doenças em questão, porque aí toda a história e as condições das personagens se justificam por completo. Neste filme a história foca apenas nos gatilhos que levaram a personagem a desenvolver os delírios que caracterizam a paranóia aguda que ela desenvolve, numa confusão entre aquilo que está na sua cabeça com a realidade. Por isso a edição do filme consegue mesclar a realidade com as lembranças tão bem, pois o indivíduo paranóico não consegue dissociar a realidade do stress vivencial sofrido. Talvez a personagem principal já sofresse de predisposições para a doença e que posteriormente se agravaram com os abusos sofridos, mas essa dúvida também é uma das chaves do filme.

CONCLUSÃO...
É um filme alternativo por lidar com temas que são difíceis de serem assimilados por quem não tenha conhecimento ou interesse em esmiuçar as condições da personagem e do ambiente determinante, mas se transforma num material interessante para quem queira mais do que algo óbvio ou didático. Também é um quebra-cabeças com peças faltando e um final sem conclusão, o que pode ser bastante irritante para muitas pessoas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

FRACO, COMUM E PREVISÍVEL...

★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Título: Código Vermelho (State Of Emergency)
Ano: 2010
Gênero: Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Turney Clay
Elenco: Jay Hayden, Scott Lilly, Tori White, McKenna Jones
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma explosão de uma indústria de produtos químicos libera uma toxina que contamina habitantes de um condado, afetando o sistema nervoso e deixando-os violentos.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme começa bem e os créditos enfatizam bastante que o filme foi produzido pelos "Irmãos Clay, bem como o roteiro foi escrito e dirigido por Turney Clay. A maneira como é apresentado é como se Turney Clay ou os "Irmãos Clay" já fossem famosos por alguma coisa, o que não são.

Depois que filmes desse estilo surgiram com tudo nos anos 2000, vários lançamentos excelentes pipocaram, como os remakes das obras de Romero, Madrugada dos Mortos (Dawn Of The Dead, 2004) e A Epidemia (The Crazies, 2010), ou a série de Danny Boyle, Extermínio (28 Days Later, 2002) e Extermínio 2 (28 Weeks Later, 2007). Levando isso em consideração, o filme poderia ter sido interessante se tivesse fugido do óbvio, o que não faz em momento algum.

É cheio de momentos clichés, e não tiveram nem preocupação em ao menos mudarem a ordem dos acontecimentos. Tudo piora quando entra uma personagem chata e metida a garota revoltada enquanto ninguém sabe se o mundo está acabando de verdade ou se vão jogar uma bomba em tudo pra conter a contaminação.

Ou seja, incoerente só pra criar clima.

CONCLUSÃO...
Ruim e fraco. Fique com os outros citados.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

NÃO COLA E NEM DECOLA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: 2 Dias Em Nova York (2 Days In New York)
Ano: 2012
Gênero: Comédia, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Chris Rock, Albert Delpy, Alexia Landeau, Alexandre Nahon
País: Alemanha, França, Bélgica
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Marion agora está casada com outra pessoa, o locutor de rádio Mingus. Dessa vez, ao invés de ela ir a Paris visitar sua família, são eles quem vão para Nova York passar dois dias em sua casa. O resultado é uma confusão de línguas e informações somados ao caos de uma das maiores cidades do mundo.

O QUE TENHO A DIZER...
Que Julie Delpy tem talento, isso é inegável. A diretora, escritora, produtora, atriz e compositora já fez inúmeros filmes memoráveis, seja como atriz ou diretora. Entre eles estão os conhecidos e adorados Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), filmes que elevaram o nível e conseguiram inovar o gênero "comédia romântica", caindo no gosto até mesmo dos mais críticos e preconceituosos sobre um estilo que é constantemente taxado por clichés, mas que recebeu um ar diferenciado com essas duas obras do diretor Richard Linklater e que, por sinal, também foi anunciada uma terceira parte prevista para 2013.

Esses dois filmes foram a grande fonta de inspiração de Delpy, mas enquanto nos filmes de Linklater as personagens construiam uma relação de confidência e companheirismo apenas em diálogos, desenvolvendo discussões fundamentalistas ou existencialistas sobre temas simples do cotidiano, em 2 Dias Em Paris, Julie Delpy resolveu contar uma história similar, mas por uma outra perspectiva: a de uma relação já construída pelos pontos de vista cômicos e dramáticos do cotidiano. As diferenças de personalidade entre a francesa Marion (Julie Delpy) e o norte-americano Jack (Adam Goldberg) era o que alimentava a relação desfuncional e exagerada que entrou em uma situação de risco quando Jack foi a França conhecer os amigos e familiares de Marion, numa dificuldade de comunicação e num choque de culturas que foi responsável para colocar a prova a relação dos dois.

2 Dias Em Nova York a situação é um pouco diferente. Alguns anos se passaram, Marion teve um filho com Jack, mas a relação terminou enquanto ela ainda estava grávida. No lugar de Jack entrou Mingus (Chris Rock). Ambos começaram a namorar e um dia resolveram morar juntos. Os dois são parecidos e tem gostos em comum, mas Mingus fica intolerante com os parentes de Marion que resolveram visitá-la em Nova York e que são os mesmos que fizeram da vida de Jack um inferno no passado, com excessão da mãe que faleceu (por sinal, uma homenagem muito bonita, já que a mãe de Marion era interpretada pela mãe de Julie Delpy, a atriz Marie Pillet, e que veio a falecer em 2009).

A grande graça de 2 Dias Em Paris, e o que faz dele uma comédia romântica tão interessante quanto os filmes de Linklater, é o ponto de vista de Marion sobre a relação e as dificuldades que as pessoas têm de aceitar umas às outras com todos seus defeitos e bagagens. Delpy mostra no primeiro filme uma realidade moderna comum, apontando críticas, defeitos e reflexões que muitas vezes faltam entre duas pessoas, mas principalmente mostrando que o grande problema é a falta de confiança e de comunicação, independente de qual ela seja, ou como ela seja feita. Já em 2 Dias Em Nova York isso não acontece e esse ponto de vista pessoal, introspectivo e reflexivo da personagem não existe mais, soltando na tela apenas um caos entre franceses e americanos sem qualquer relevância ou fundamento. Assim, o filme deixou de ser um olhar objetivo e com reflexões subjetivas sobre as relações para se tornar um filme com um teor socioantropológico que não cola e nem decola.

Dessa vez Julie Delpy divide o roteiro com Alexia Landeau, que também atua nos dois filmes no papel de sua irmã mais nova, Rose. O ponto de vista cômico e o tempo de comédia afiado que Julie Delpy criou no primeiro filme deu lugar ao exagero e a situações forçadas, e a ironia constante nos diálogos sincronizados e inteligentes deram lugar a discussões tolas e fúteis numa bagunça francesa que mais irrita do que entretém. Talvez esse caos ambiental que Delpy criou tente ser uma metáfora ao caos, a futilidade e a caretice norte-americana, mas de forma alguma essa continuação manteve as qualidades e os prazeres que o primeiro filme desperta ao assistir. Até mesmo a narrativa corrida em sincronia com imagens editadas que ilustrava o pensamento da personagem de forma ágil e acessível viraram apenas um esboço. Em Paris o roteiro desenvolve numa constância fluida pelas ruas e pontos turísticos franceses, fazendo da cidade uma personagem ativa na história, mas em Nova York as cenas são desconexas, beiram o ridículo e sempre em locações internas, apenas para intensificar a bagunça familiar, levando a cidade apenas no título.

Sem dúvida o filme falha ao dar continuidade a uma comédia romântica que Delpy conseguiu criar um diferencial e se manter à altura dos filmes de Linklater. Sem dúvida é uma continuação incomum e sem pretensões de ser superior ou inferior, mas falha ao tentar mostrar uma personagem mais madura quando suas incertezas e neuroses se mostram mais presentes do que antes, além do foco ser perdido toda vez que a família da personagem entra em cena, não acrescentando muita coisa consistente como no primeiro filme.

CONCLUSÃO...
Esta continuação se mostrou desnecessária e aquém às expectativas positivas que geraram quando foi anunciada e causará estranhamento e, talvez, frustração àqueles que conheçam o primeiro filme. E caso não conheçam, devem. E depois de conhecer, fique apenas com ele.

domingo, 26 de agosto de 2012

A CASA É MUDA, MAS RECLAMA...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: A Casa Muda (La Casa Muda)
Ano: 2010
Gênero: Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Gustavo Hernandez
Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso
País: Uruguai
Duração: 86 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre um pai e uma filha que vão trabalhar e colocar em ordem uma casa no meio da floresta para que ela seja vendida, mas dentro da casa coisas estranhas começam a acontecer.

O QUE TENHO A DIZER...
Eu não gosto muito de clichés, mas às vezes eu gostaria que o filme fosse apenas baseado nisso do que tentar fazer algo muito mirabolante e que não dá certo. É o caso desse filme, que ao mesmo tempo que tenta fugir deles acaba caindo em outros de uma forma tão ruim que a história se torna intragável. O ponto negativo do filme já começa dizendo que é baseado em fatos verídicos, e eu não sei porque ainda insistem em tentar convencer o espectador de uma coisa que ele sabe que não é verdade.

A Casa Muda teve grande repercurssão no circuito alternativo de cinema principalmente porque foi um dos longa metragens mais baratos já produzidos, custando em torno de apenas US$6 mil, e também porque foi promovido como um filme sem corte, ou seja, realizado em uma única tomada. Mas quem ficar atento vai perceber que isso também não é verdade e que os cortes existem, mas estão muito bem disfarçados. Há quem diz que há cortes a cada 10 minutos, há quem diz que ocorre a cada 12 minutos. Independente do tempo entre uma tomada e outra, elas existem, mas o interessante é a sensação de como se realmente não tivesse. O filme acabou ganhando uma versão norte-americana inferior (se é que é possível ser mais), A Casa Silenciosa (Silent House, 2011).

Essa experiência e tentativa de realizar um filme em uma única tomada já foi feita em 1948 no filme Festim Diabólico (Rope, 1948), de Alfred Hitchcock, a diferença é que no filme de Hitchcock, baseado em uma peça teatral, o cenário é uma única sala. Festim também possui cortes disfarçados, tendo sido feito em 10 tomadas de 10 minutos cada, já que era a capacidade máxima de tempo de cada rolo de filme na época. Brian De Palma, admirador e copiador extensivo de Hitchcock, também tentou essa façanha, mas apenas nos 15 minutos iniciais do filme Olhos de Serpente (Snake Eyes, 1998), numa seqüência pra lá de ousada e coreografada, já que a câmera acompanha o ator principal (Nicholas Cage) por vários níveis de um ambiente público e movimentadíssimo. Quentin Tarantino e Scorcese também são fãs de tomadas longas, assim como todo diretor que gosta de ousar.

Filmado com uma câmera digital, essa tentativa de querer inovar o gênero de filmes de horror em primeira pessoa, embora não soe muito original, consegue dar um tom de novidade. O clima de suspense é proporcional à constância da filmagem, brincando com o medo nato do escuro e daquilo que não podemos ver, sem truques de edição ou câmera, tudo em tempo real, muito simples e funcional. As cenas são bem realizadas e dirigidas muitas vezes com precisão para as gafes não surgirem. A iluminação bastante escura acaba contribuindo bastante o clima sombrio e de observador que o espectador experimenta. O filme não consegue assustar tanto, mas deixa o clima de tensão constante.

Mas enquanto temos grandes qualidades técnicas dentro do baixo custo, há o pecado da falta de uma história adequada. Aliás, não há uma história, só existe um argumento tolo e confuso para dizer que o filme tem um roteiro. A personagem principal apenas anda e anda pela casa com um lampião elétrico, e ao invés de se preocupar com o que pode estar atrás e no escuro, ela se preocupa em observar detalhes, objetos e a procurar coisas em lugares que não caberia como, por exemplo, quando ela está procurando e chamando por seu pai enquanto verifica uma estante de livros (???).

Claro que isso pode fazer algum sentido no final, quando descobrimos que a personagem sofre um misto de síndrome de ilusão pós-traumática com um surto indefinido de amnésia e que acaba resultando em um ataque psicótico. Mas essa conclusão de soltar falsas pistas para o espectador e posteriormente justificar com alguma(s) doença(s) psiquiátrica(s) se transformou numa recorrência do cinema atual, um novo cliché, como acontece em filmes como Identidade (Identity, 2003), Possuídos (Bug, 2006), 1408 (2007), ou até mesmo Ilha do Medo (Shutter Island, 2010). Esses filmes trabalharam bem em cima dos argumentos, mas nesse filme essa conclusão é dedutiva e fica no ar, deixando quem assiste perdido em acontecimentos sem pé e nem cabeça, confuso na hora de encontrar uma explicação. É aí que digo que são nessas horas que o uso dos clichés comuns seriam bem vindos, não porque o filme seria mais fácil, mas porque ele seria mais coerente em seu propósito e menos propenso a erros.

É uma ficção que passa a deixar de convencer depois de tentar sair da trivialidade com medo de se tornar mais um filme comum do gênero. E veja só, não apenas continuou sendo mais um, como também não conseguiu impressionar tanto quanto poderia.

CONCLUSÃO...
Uma idéia interessante e dentro um argumento fraco. Como um um pão bolorento, bonito por fora, mas estragado por dentro.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

TÉCNICA NÃO TEM PREÇO...

★★★★★★★★☆☆
Título: Absentia
Ano: 2011
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Classificação: 14 anos
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Courtney Bell, Katie Parker, Dave Levine, Justin Gordon, Morgan Peter Brown
País: Estados Unidos
Duração: 87 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Depois de 7 anos a procura de seu marido desaparecido, com a ajuda de sua irmã recém chegada na cidade, uma mulher decide simplesmente aceitar o fato de que seu marido morreu e dar andamento na sua vida e no filho que espera. Mas sua irmã passa a se deparar com fatos que mostrarão que o desaparecimento de seu marido não é apenas um fato isolado como também é similar ao de muitas pessoas.

O QUE TENHO A DIZER...
Ainda inédito no Brasil, achei esse filme por acaso em um site (é fácil achá-lo), fiquei curioso com a sinopse e fui pesquisar a respeito no IMDb. A nota oferecida pelos avaliadores é baixa, com uma média de 5,7, mas em compensação os comentários foram bastante favoráveis e percebi que esse era mais um daqueles filmes que muitas pessoas assistem e acabam subjulgando o produto porque não oferece aquilo que esperam, porque ele não é um filme de horror como a expectativa de muitos pode achar.

Este filme faz parte dessa nova safra de filmes de um subgênero que poucas pessoas estão dando atenção, o suspense dramático ou horror dramático, filmes que abusam de um enredo dramático familiar ou pessoal, e se desenvolvem como um filme desse gênero, mas que acaba tendo reviravoltas ou conclusões com características do suspense ou terror. Uma atmosfera similar a de filmes como Os Outros (The Others, 2001), O Orfanato (El Orfanato, 2007), Os Olhos de Julia (Los Ojos de Julia, 2010), e os mais recentes O Despertar (The Awakening, 2011), e o sem título nacional definido, The Tall Man (2012). Este último filme com uma temática até bastante similar, mas ao invés de falar de adultos, fala do desaparecimento de crianças.

É um estilo que notei ser mais comum em filmes europeus e particularmente assisti mais filmes espanhóis assim, talvez porque o público norte-americano goste de coisas fáceis e definidas, porque não me lembro de ter assistido alguma produção americana desse gênero que tivesse feito sucesso, com excessão de Os Outros, mas que é um filme que nem segue muito as características que definem esse estilo. Confesso que esperava um filme insosso e tedioso, mas quando acabou me encontrei tenso, com respiração curta e ao mesmo tempo lágrimas nos olhos.

O filme é dirigido, escrito, editado e produzido pelo desconhecido Mike Flanagan, e o mesmo pode ser dito sobre os atores, também pouco conhecidos e com poucos trabalhos relevantes no currículo, mas o talento de todos é evidente. Filme independente, custou apenas a bagatela de US$70 mil, uma produção muito barata pelas qualidades que ele oferece, mesmo com alguns defeitos como imagem granulada pela baixa qualidade da câmera, mas que combinam perfeitamente com o enredo do filme. Mike Flanagan participou e ganhou diversos festivais de cinema de horror espalhados pelos EUA com este filme, o que demonstra a boa aceitação e que existe um público cansado do gênero cru e comum de suspense ou terror. As pessoas não estão mais interessadas em levar apenas sustos, elas querem uma história apreensiva e que surpreenda pelo misto de sensações.

A história tenta dar razões para o sumiço de Daniel (Morgan Peter Brown), marido de Tricia (Courtney Bell), que está desaparecido há 7 anos e sem deixar qualquer pista. O clima criado pelo diretor é de solidão, confusão e distanciamento até mesmo quando Callie (Katie Parker), a irmã mais nova, chega na cidade depois de anos viajando, para ajudar Tricia com mudanças que acontecerão por conta da sua gravidez.

As coisas começam a mudar quando Callie encontra um homem estranho em um túnel que liga o bairro à cidade, e ao voltar para dar comida ao estranho, ele desapareceu. Posteriormente a isso, objetos estranhos começam a aparecer, como em um jogo de trocas, chamando a atenção de Callie para outros fatos que vem a acontecer.

Não estragaria muitas surpresas se eu contasse mais sobre o filme, porque ele não tem grandes mistérios, mas mesmo assim acho bom mantê-los de lado por conta das surpresas dramáticas, que é o grande atrativo do filme junto com o clima de suspense mantido na expectativa que criamos frente aos acontecimentos de cada uma das personagens. As atuações são bastante convincentes e a direção consegue deixar a tensão suspensa o tempo todo, desde a forma como o roteiro e os atores são conduzidos durante o processo, realizando cenas certas nas horas certas, até o uso de diferentes estilos de filmagens em momentos adequados, em sequencias subjetivas e objetivas, câmeras livres e enquadramentos fechadas, opacos, claustrofóbicos. Mike Flanagam também abusa de diferentes lentes de filmagem, principalmente em momentos de tensão, objetivando a sensação de foco e atenção. São truques manjados, mas que quando usados de maneira correta e em momentos certos é quase imperceptível, ao mesmo tempo que consegue causar o impacto pretendido em quem assiste. Portanto, para tirar do espectador sensações e sentimentos, basta saber utilizar as técnicas. E técnica não tem preço, muito menos boas idéias.

Absentia tenta dar explicações sobrenaturais para os acontecimentos, mas ao mesmo tempo o roteiro não desvia da realidade ao dar outras breves alternativas e deduções mais plausíveis, o que dá a livre escolha a quem assiste de acreditar mais em um ponto de vista do que outro, ou apenas aceitar os dois lados.

CONCLUSÃO...
Uma das grandes surpresas que assisti esse ano e que recomento àqueles que desejam sair um pouco do óbvio e do susto encomendado. Como disse antes, o filme tem um teor muito mais dramático, e o clima de horror e suspense são criados exatamente por explorar diferentes pontos de vista dramáticos que raramente costumamos ver. Definitivamente merece ser assistido por quem quer mais do que susto gratuito e procura uma história simples, porém densa e que se desenvolve por vários lados.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PRAZER, SOU UM EXCELENTE FILME NORUEGUÊS...

★★★★★★★★☆☆
Título: Headhunters (Hodejegerne)
Ano: 2011
Gênero: Crime, Suspense
Classificação: 14 anos
Direção: Morten Tyldum
Elenco: Aksel Hennie, Synnove Macody Lund, Nikolaj Coster-Waldau, Eivind Sander, Julie Olgaard
País: Alemanha, Noruega
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um poderoso chefe de uma empresa especializada em recrutamentos de alto escalão esconde um segredo bastante incomum para complementar a renda familiar, ele também é um meticuloso ladrão de obras de arte. Mas tudo dá errado quando ele descobre que sua próxima vítima também é o amante de sua mulher.

O QUE TENHO A DIZER...
Obviamente que todos os envolvidos nesse filme são desconhecidos por esses lados de cá do mundo, o que não é de se espantar, já que são poucas as produções de países como Holanda, Bélgica, Alemanha, Noruega e Suécia que conseguem chegar por aqui sem se perder no meio do caminho. E isso não significa que o cinema desses países seja ruim, muito pelo contrário, o cenário é bastante expressivo, mas apenas no continente europeu. Alguma atenção é dada quando alguma produção recebe alguma indicação na categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, ou quando, mais raramente, é baseado em alguma coleção que se transforma numa febre mundial, como aconteceu com a trilogia Millennium, de Stieg Larsson.

Não é à toa que esse filme é produzido pela mesma produtora das adaptações cinematográficas suecas da trilogia Millennium, a Yellow Bird, o que deu liberdade para que várias cenas aéreas utilizadas anteriormente na trilogia fossem reaproveitadas nessa produção (com apenas algumas alterações digitais), além de outras referências diretas à trilogia baseada nas obras de Larsson.

O filme é baseado no livro homônimo do autor norueguês Jo Nesbo e que teve sua primeira publicação em 2008. Mas o autor de 52 anos já possuia vários títulos de sucesso anteriormente, incluindo uma série de (até o moment0) 9 livros de investigação centrados sempre no mesmo personagem, o policial Harry Hole. Headhunters teve excelente receptividade, e no mesmo ano de sua publicação o autor também inaugurou uma organização filantrópica que tem como objetivo diminuir o analfabetismo infantil em países de terceiro mundo, levando o nome do personagem de sua famosa série de livros, a Harry Hole Foundation. Jo Nesbo fez questão que todos os lucros gerados pelos livros, independente da edição ou dos formatos, fossem revertidos para sua organização. A mesma exigência foi feita aos lucros gerados pelo filme. Essa atitude chamou a atenção da mídia e de muitas pessoas, fazendo do livro um sucesso e o filme ter se transformado no segundo de maior bilheteria da Noruega e o primeiro filme mais bem sucedido do país, pois até o seu dia de estréia, os direitos de exibição já havia sido vendido para mais de 15 países. O livro ganhou o prêmio de melhor publicação do ano em 2008 e atualmente há uma adaptação Hollywoodiana sendo escrita.

Curiosidades à parte, o filme viaja no argumento policial e no suspense, naquele estilo de enganar quem assiste o tempo todo, surpreendendo e dando reviravoltas na história que ninguém esperaria. Portanto, falar muito sobre o filme é estragar a experiência, por mais que em alguns momentos essas reviravoltas possam parecer um pouco forçadas. Mas essa é a graça do estilo policial moderno, fazendo de um gênero que antigamente era o clássico e batido polícia-ladrão atingir outros níveis ao ser mesclado com outros gêneros, como o suspense e o drama, criando um subgenero simpeslmente chamado de CRIME, pois nele já sabemos que envolve o gênero policial, a investigação e todas as surpresas que obviamente surgirão no decorrer da história.

Nessa história o roteiro começa nos mostrando a elite financeira e industrial, seguindo para o submundo dos caçadores de recompensa, dos jogos de trapaça e assassinatos. É aí que somos apresentados ao charmoso vilão, Roger Brown (Aksel Hennie), que de um poderoso, bem sucedido e respeitado empresário, se transforma em um fugitivo. Daí o título do filme ter duplo sentido, já que ele se refere tanto aos headhunters que procuram talentos e profissionais únicos, como também aos assassinos profissionais e caçadores de recompensa. E naquele velho ditado de "ladrão que rouba ladrão, sete anos de perdão", a trama se desenvolve.

É um filme com uma narrativa diferente da que costumamos ver em produções hollywoodianas do gênero. Não há perseguições mirabolantes, não há atiradores de elite, não há cenas de luta, explosões e nem um plano definido. Muito pelo contrário, são pessoas comuns que seguiram caminhos errados, atolaram o pé na lama e agora devem viver ou se deixar render. Tudo corre naturalmente, havendo espaço até para as burrices dos personagens, mas no geral nada é além daquilo que um cérebro inteligente e pensante não faria, claro, dentro das proporções de um filme, já que estamos falando de ficção.

Chega a ser até um filme engraçado em alguns momentos, pois as situações só parecem piorar a cada instante, dando outro elemento de interesse, suspense e surpresa para quem assiste e, sem dúvida, termina tirando uma deliciosa satisfação de que o tempo foi bem gasto.

CONCLUSÃO...
Bem construído, é mais uma produção para podermos dizer que o cinema de ação do norte europeu deve ser respeitado, bem como os materiais pelos quais eles são baseados. É uma história intrigante e que chama atenção por ser feito de forma simples e que segura a atenção apenas pela sua história e personagens bem construídos. Uma excelente surpresa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

UMA TERRÍVEL BOBAGEM...

★★★☆☆☆☆☆☆☆
Título: O Segredo da Cabana (The Cabin In The Woods)
Ano: 2011
Gênero: Horror, Comédia, Ficção
Classificação: 14 anos
Direção: Drew Goddard
Elenco: Kristen Conlly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins, Bradley Whitford
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Cinco amigos vão passar um final de semana em uma cabana no meio da floresta, ao chegarem lá descobrem que a cabana esconde coisas sobre um passado misterioso e que poderão acordar seres que apenas trarão destruição.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro filme dirigido por Drew Goddard, que anteriormente havia trabalhado como roteirista e produtor de seriados como Buffy e Angel (ambos criados por Joss Wedon), Alias e Lost (ambos criados por J.J. Abrams). Ele também foi roteirista do inesperado sucesso Cloverfield (2008), e tem mais dois roteiros prontos e já em fase de pré-produção: o próximo filme do lendário Steven Spielberg, Robopocalypse, e a também há-muito-tempo-anunciada seqüência de Cloverfield.

Só por este breve currículo do roteirista e diretor já é possível perceber que o cara é bem influenciado na indústria, tendo braços fortes como Joss Wedon (que também assina o roteiro e é atualmente responsável pela terceira maior bilheteria do mundo por Os Vingadores), J.J. Abrams (famoso criador de séries que agora se tornou um poderoso diretor e produtor de Hollywood), e também caiu nas graças de ninguém mais que Steven Spielberg (que "por acaso", junto com Abrams, também foi produtor de Cloverfield e Super 8). Ou seja, Drew Goddard pode não ser excelente, mas está bem engrenado e cheio de oportunidades.

Confesso que tentei gostar de O Segredo da Cabana porque, apesar dos defeitos, ele tem elementos e idéias boas, mas os defeitos são ruins mesmo. O filme é uma baderna e uma bagunça que eu não me lembro de ter visto anteriormente em nenhuma época.

Imagine todos os filmes de horror, terror adolescente, fantasia e ficção científica que você já assistiu, bata tudo no liquidificador. Aquilo que você jogar no copo é o filme. E se você não quiser saber mais, então pare de ler aqui, porque eu não vou falar do filme em metáforas só pra não "estragar" surpresas, porque isso não vai amenizar o fato do filme ser desagradável.

Usa como referência direta o filme de Clive Barker, Hellraiser (1987) (tanto que o cartaz do filme é uma referência ao cubo do filme de Barker), e também os filmes da trilogia de Sam Raimi, Uma Noite Alucinante (The Evil Dead, 1981/1987/1992). Com essas referências básicas ele tenta ser um horror diferenciado, misturando os sustos e a direção clássica de Raimi com os seres bizarros e o medo maniqueísta de Barker, de que tudo que é do mal vem do inferno, é esquisito, causa dor, sofrimento e angústia. Pavores natos do ser humano.

Ele tenta dar uma explicação boba para a existência de todos os fenômenos e seres paranormais, místicos, surreais, infernais, lendários, bizarros e fantasiosos sem foco algum, para dar a falsa sensação a quem assiste de que essa confusão toda é algo muito original, pois é isso que fazia os filmes de horror clássico terem se tornado cults no gênero. Infelizmente o público acreditou nisso, e o filme atingiu um pico de 7.8 no IMDb e 79% de aceitação no Rotten Tomatoes. Mas naquela época pouco ainda havia sido explorado e tudo realmente parecia novidade, e o público adolescente atual pouco conhece as referências que movimentavam legiões na década de 80, com reuniões nerds e cosplayers para assistirem e discutirem sobre nada.

Chris Hemsworth ainda nem pensava em virar Thor quando o filme foi filmado, ainda em 2009. O filme foi lançado apenas este ano, e esse atraso de quase 3 anos quase o engavetou. Depois do lançamento de Thor, o estúdio achou que seria uma boa repensar no lançamento do filme, e através de uma campanha maciça de uma "revolução no gênero", como tentaram promover, o boca a boca atingiu proporções mundiais. O filme foi lançado e resultou numa bilheteria favorável por conta dessa expectativa, arrecadando (até o momento) mais de US$65 milhões no mundo, um pouco mais do dobro do que custou. Ainda continua inédito no Brasil, mas é fácil assistí-lo.

Diferente de Hellraiser (onde um cubo místico seria capaz de abrir as portas do inferno e a história giraria em torno do imaginário comum do ser humano de que o mundo das trevas é habitado por seres bizarros e mutilados cuja única função é torturar a carne e transformar a vida numa eterna dor), ou até mesmo de Uma Noite Alucinante (que um livro de ocultimo seria capaz de abrir um portal capaz de trazer os demônios para a terra), O Segredo da Cabana tenta usar uma fajuta justificativa de que os seres humanos são marionetes comandadas por uma "organização secreta" existente para saciar a vontade de "deuses" sádicos (chamados de anciãos). Esses tais "anciões" assistem televisão e gostam de reality shows, e para deixarem o mundo continuar rodando como deve, eles precisam constantemente se alimentar do sofrimento humano, sendo obrigação dessas organizações manter uma gigantesca estrutura tecnológica e virtual para esta finalidade. Essa estrutura ainda conta com uma coleção de todas as criaturas sobrenaturais já vistas ou imaginadas em caixas que se organizam automaticamente numa ordem infinita, como no cult de ficção e horror de Vincenzo Natali, Cubo (Cube, 1997). Se esses deuses não forem agradados como devem, eles ficam nervosinhos e resolvem destruir tudo e fazer tudo de novo. Uma bobagem sem tamanho.

Li muita gente considerando o filme uma sátira bem feita do gênero, mesclando horror moderno com clássico. Mas não é. Sátiras já foram feitas aos montes, e geralmente elas sempre caem no ridículo, ao invés de ser inteligente. O grande defeito é sempre a prepotência de fazer um filme ser bom em mais de um gênero e, no fim, não conseguir ser nem uma coisa, nem outra. Os personagens são clichés logo de cara, em situações clichés, para depois repetir o que outros filmes já fizeram dentro desse argumento absurdo de um ritual pra lá de tecnológico que vira e mexe entra em pane. Essa absurdez não convence nem dentro do argumento do filme. Não é nada agradável ver esses personagens tentarem convencer que a situação é assustadora e depois tirarem sarro disso. Isso é chamar a audiência de imbecil.

Se tudo é pra ser uma piada, então porque inventar tanto? Essa é a pergunta.

A idéia básica do filme é muito boa, mas apenas se a história tivesse sido levada para um caminho mais sobrenatural, ocultista e sério, sem esses elementos futurísticos que não acrescentam em nada. Mas se isso tivesse acontecido o público ignorante não teria apreciado.

CONCLUSÃO...
Uma grande besteira. Uma hora e meia de pura bobagem. Nem mesmo os monstros que aparecem chegam a convencer. Mais um filme para os adolescentes do fundamental que querem fazer um programinha "pra galera" no final de semana ou para aqueles sem um pingo de senso crítico e que adoram tudo que vira moda. E só esse público pra gostar mesmo. Quem gosta de filme de horror de verdade, ou de uma sátira bem feita, ou de uma comédia realmente engraçada, ou de uma ficção científica bem construída, não vai achar nesse filme nada, mesmo ele tentando ser tudo isso.

sábado, 11 de agosto de 2012

LÁ VEM ELE COM SEU PANDEIRO...

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close)
Ano: 2011
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sydow, Viola Davis,
País: Estados Unidos
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um garoto de nove anos que sofre de um transtorno autista e com fortes inclinações políticas e sociais, encontra uma chave que pertencia ao seu pai, uma das vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Acreditando que esta chave pode ter um sentido maior, ele desesperadamente sai em busca da fechadura que ela possa abrir e, talvez, manter a memória e a presença de seu pai.

O QUE TENHO A DIZER...
Este filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor Jonathan Safran Foer, escritor que com apenas 35 anos já tem dois títulos de grande sucesso. Seu outro livro, Uma Vida Iluminada (Everything Is Illuminated), também ganhou uma excelente adaptação em 2005 e que infelizmente passou despercebido pelos cinemas (é fácil encontrá-lo em home video), filme que foi escrito, dirigido e produzido pelo ator Liev Schreiber, que se identificou com a história e a tragetória do personagem principal (que é até bastante similiar com a do personagem de Tão Forte e Tão Perto, mas em uma situação e em um conflito bastante diferente).

Dirigo por Stephen Daldry, mais conhecido por dramas como o delicado Billy Elliot (2000), por ter dado o papel que premiou Nicole Kidman por As Horas (The Hours, 2002), e por ter feito o mesmo com Kate Winslet por O Leitor (The Reader, 2008). Daldry chegou a concorrer na categoria de Melhor Direção por todos esses mesmos filmes, o que o faz encabeçar a lista não de melhores diretores atuais, mas dos respeitáveis, pois seus filmes costumam ser conduzidos com uma sutileza que poucos diretores conseguem em um gênero que é muito fácil pesar a mão e transformar em um dramalhão comum. Óbvio que, assim como Tão Perto e Tão Forte, todos seus filmes possuem seqüencias que chegam a ser apelativas às lágrimas, principalmente porque ele gosta de escolher mártirs, focalizando suas dores, ou isolando-os no cenário para transpor o sentimento de sofrimento e incompreensão. Tudo sempre muito regado a uma trilha sonora simples, com notas chorosas de piano e/ou violino. Apesar de tudo são cenas que funcionam no propósito e poderiam ser um desastre em mãos mais pesadas.

Demorei muito tempo para assistir o filme por puro preconceito mesmo, pois sendo uma adaptação de um livro que foi muito bem aceito pelo público, principalmente o norte-americano, o filme teve recepção muito mista tanto pela crítica especializada quanto pela leiga. Eu não li o livro, então não poderia traçar um paralelo bom entre ambos, mas por diversos materiais que li, cheguei à conclusão de que o grande defeito que encontrei no filme também é a grande insatisfação da maioria dos que leram o livro. Os críticos (especializados e leigos), em sua maioria alegam que, embora o filme tenha sequências bastante emocionantes, é difícil se sentir completamente conectado a elas, como se ouvesse um obstáculo o tempo todo.

O grande obstáculo entre a mensagem e o sentimento é, sem dúvida, o ator Thomas Horn, que interpreta o personagem principal de 9 anos e que sofre de um transtorno autista conhecido como Síndrome de Asperger. Por isso a dificuldade de socialização e comunicação, que são descritos logo no começo do filme, do comportamento ora atencioso e carinhoso, ora nervoso e agressivo, e da obsessão por tarefas metódicas e repetitivas até sua conclusão e o auto-flagelamento quando ele não consegue atingir seus objetivos da forma esperada.

O filme desmonstra os transtornos do personagem muito bem, mas pouco explica sobre isso (porque obviamente não é o tema central da história). Para quem não conhece a doença ou pouco deu atenção nos raros momentos em que ela foi citada no filme, acabarão encontrando em Oskar um personagem chato, mimado e irritante, mas por demérito do próprio ator. Ele não consegue atingir um ponto de transição convincente entre o comportamento infantil e os repentes do transtorno que o personagem sofre, simplesmente tentando imitar uma atuação adulta conforme o roteiro indicava. Isso é justificável pelo fato de Thomas ser um ator novato e o filme ter sido seu primeiro trabalho em atuação. Portanto, sua interpretação é crua e baseada naquilo que ele acreditava ser uma atuação e não no que ele acreditava que o personagem estivesse passando e sentindo, oferecendo uma presença petulante e inconveniente em várias situações, chamando mais a atenção de quem assiste pelo tom arrogante que ele impõe do que pela tragetória de adaptação e superação de traumas que o personagem está passando. Para piorar, o personagem anda o filme todo com um pandeiro barulhento e irritante, que ajuda mais ainda na antipatia pelo ator, que poderia ter usado o instrumento apenas em situações simbólicas e não durante as duas horas de filme.

De qualquer forma, o filme tenta ser sutil na abordagem dos atentados de 11/09 para não usar os fatos de forma abusiva e apelativa, já que ainda é um assunto delicado para muitos norte-americanos e sempre impactante para muitas pessoas. Os curtos momentos em que há a relação direta dos personagens com o fato são suficientes para ter apenas um traço do sentimento de impotência, desespero e fragilidade das pessoas que vivenciaram isso. A condição traumática de Oskar e de sua mãe, e a relação difícil que ambos desenvolveram após o incidente, são apenas um exemplo da confusão e reação psicológica que inflingiu milhares de famílias.

As demais atuações são brilhantes. Sandra Bullock se mantém em um nível seguro e comedido, e sua presença é sempre forte o bastante com pouco. Para quem não assistiu seu filme anterior pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz, Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009), ou até mesmo seus outros poucos papéis dramáticos como em Confidencial (Infamous, 2006) ou Crash (2004), pode ficar um pouco surpreso caso esteja acostumado com as comédias românticas pelas quais ela ficou estereotipada, mas quem já assistiu sabe que sua atuação dramática é sutil, e nesse filme, mesmo se escondendo em uma cabeleira mal cuidada ou com as mãos no medo da personagem expressar suas fraquezas, confesso que o filme encontra o tom exato que buscou o tempo todo apenas próximo ao fim, quando sua personagem entra efetivamente na história e conta a sua perspectiva sobre o que estava acontecendo. Max Von Sydow, que faz um velho mudo e rabugento, tem presença bastante coadjuvante e todas suas cenas juntas não somam 20 minutos, mas ele é genial e com certeza subutilizado em uma adaptação em que ele poderia ter tido uma participação maior. Mas nem por isso isso o diminui e suas poucas cenas são gratificantes e emocionantes, naquele balanço entre a sutileza, o drama e a sinceridade típicos de experientes atores como ele. O mesmo pode ser dito sobre Viola Davis, que em apenas 10 minutos de cena eleva o filme de maneira que o ator principal nunca consegue. E o show do filme são mesmo os coadjuvantes e suas histórias paralelas, algumas poucas surpresas e o desfecho que parece decepcionante no propósito egoísta do personagem, mas que agrada com a excelente moral.

CONCLUSÃO...
É um filme que mostra uma jornada que poderia ter sido muito mais gratificante se o personagem principal tivesse sido interpretado de forma mais delicada e complacente. Mas quem não prestar atenção nisso vai conseguir ver uma história emocionante, simples e com muitos significados numa perspectiva dentro de um tema delicado como é os atentados de 11/09 em Nova York. A maioria dos comentários por aí de pessoas que leram o livro dizem que a experiência literária é melhor, mas como disse antes, os atores coadjuvantes e suas pequenas participações elevam o nível de um filme que por muitas vezes é difícil de encontrar uma conexão por conta da falta de simpatia não do personagem principal, mas da forma como ele é interpretado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

"NOBODY LIKES A DIRTY GIRL!"

★★★★★★★★☆☆
Título: Dirty Girl
Ano: 2010
Gênero: Comédia, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Abe Sylvia
Elenco: Juno Temple, Jeremy Dozier, Milla Jovovich, Mary Steenburgen
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Sobre uma adolescente rebelde que, junto com seu mais novo amigo gay que fugiu de casa por seus pais terem descoberto sua orientação sexual, resolve ir atrás de seu pai que ela não conhece.

O QUE TENHO A DIZER...
É o primeiro e (por enquanto) único longa metragem escrito e dirigido pelo promissor Abe Sylvia, que demorou sete anos para tirar o projeto do papel. O roteiro já estava pronto, mas ele não conseguia financiamento até que uma produtora independente, a Killer Film, aceitou financiar o projeto. Com ele pronto, o filme foi lançado no Festival de Toronto em 2010, e alguns dias depois a Weinstein Company, dos famosos irmãos Weinstein (fundadores da antiga Miramax), adquiriram os direitos, e apenas em 2011 ele foi lançado em pequeno circuito nos cinemas. Segundo Abe, o roteiro foi escrito na sala de aula, quando ele ainda cursava Cinema, sendo a personagem de Daniele (Juno Temple) baseada numa colega de sala que ele teve ainda no ensino médio, e o personagem Clark (Jeremy Dozier), baseado nele mesmo.

Além dos méritos já existentes Dirty Girl também conta com o figurino assinado por Mary Claire Hannan, a mesma dos filmes de Tarantino, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), Pulp Fiction (1994) e Jackie Brown (1997). O figurino, junto com a direção de arte e a fotografia reproduzem com bastante similaridade o final dos anos 80 sem dar a sensação, em momento algum, de que o filme é uma produção pequena e independente. Mas a nostalgia também atinge a trilha sonora, importantíssima em filmes que retratam épocas como os anos 80 justamente pelo cenário musical ter sido tão influente na moda e na vida das pessoas de maneira tão distinta e característica. Quando falamos dessa época automaticamente lembramos de Cyndi Lauper, Madonna e Michael Jackson, os nomes top of mind da época. Tentando manter essa obviedade de lado, Abe Sylvia escolheu a dedo as canções. Fugindo do cliché, o repertório se baseia em músicas que provavelmente muita gente já vai ter esquecido, mas no momento que ouvir será imediatamente transportado para algum momento daquela época em que a música estava tocando.

Felizmente, vez ou outra somos agraciados com filmes adultos sobre adolescentes, traumas de infância ou disputas de sala, como o humor negro e depressivo de Bem-Vindo À Casa de Bonecas (Welcome To The Dollhouse, 1995), o inesquecível O Casamento de Muriel (Muriel's Weddin, 1994), o escrachado e oitentista Romy & Michele (1997), ou até mesmo o moderno e inteligente Meninas Malvadas (Mean Girls, 2007). Dirty Girl com certeza complementa esta pequena lista de bons filmes sobre a adolescência rebelde com causa(s) justificada(s).

Juno Temple, considerada umas das novas estrelas em ascenção da atualidade, ainda era uma jovem atriz britânica pouco conhecida quando fez esse filme. Independente disso, o talento dela é inegável. Ela consegue dar a personagem Danielle um misto de rebeldia punk e futilidade adolescente de maneira impressionante. Ela não é uma aluna qualquer do colégio e muito menos uma adolescente que se importa em ser a rainha do baile, ela quer é ser notada e demonstrar poder e independência a todo custo. Inteligente, afiada, boca suja e sarcástica, cria inimizades e é falada por onde passa por extravasar ao invés agir como a maioria das outras garotas de sua idade: conter. Tudo isso por conta da ausência de um pai que ela não conheceu e por uma mãe submissa que outrora também era transviada e motivo de fofoca da boca pequena, mas agora, adulta e solitária, é preocupada com a imagem social e vive sob a sombra do medo de não encontrar um marido e constituir uma família que ela, nem sua filha, tiveram. Com isso Danielle constrói uma imagem e postura impositora e provocativa como forma de se proteger da hostilidade alheia.

Como antagonista temos o adolescente tímido, incompreendido e que, por ser gay, sofre constantemente abusos físicos tanto na escola quanto do pai que não aceita a orientação do filho. Mas ao contrário de Danielle, ele é introspectivo e tímido, pois tem medo de expressar seus gostos e vontades no medo de ser julgado pelos outros e principalmente por seu pai, que o ameaça e constantemente o coage a ser algo que ele nunca será. E ao contrário de Danielle, a presença paterna em sua família é forte, mas ignorante, e o que falta é a materna, já que a mãe é igualmente submissa e teme as repreensões e a personalidade estúpida do marido. A interpretação de Jeremy Dozier é bastante delicada, transpondo dramas e dúvidas típicos e bastante comuns em jovens que se encontram na mesma situação que ele.

É o típico Complexo de Édipo: por um lado Danielle maltrata e despreza a mãe na ilusão de que é com o pai que ela ficará assim que encontrá-lo. Do outro lado Clark gostaria que o pai não existisse para que ele possa ser feliz apenas com sua mãe. Durante a tragetória desses dois exemplos do cotidiano, eles acabam descobrindo que nem sempre as coisas são como imaginadas e que a realidade muitas vezes é mais dura do que poderia parecer.

Danielle e Clark, aos trancos e barrancos, se tornam amigos por identificarem um no outro suas próprias dores e angústias, além de completarem suas faltas. A química dos dois atores é um dos outros raros momentos que esquecemos que estamos assistindo a um filme e somos convencidos de que aquela amizade e conexão são reais, e não uma interpretação. Por também ser um road movie, a dupla facilmente seria Thelma & Louise aos 17 anos.

A construção dos personagens e de suas personalidades é bastante definida com todos e não há deslizes em nenhum momento, dando espaço para os acontecimentos e uma história que a cada minuto que passa apenas cresce e se desenvolve com momentos muito engraçados e outros que é impossível não chorar, chegando a um final óbvio e intencionalmente cafona, mas motivante e sincero. É impossível não se identificar e comover não apenas com a dupla principal, mas com os demais personagens que sofrem, como as mães interpretadas por Mary Steenburgen (fantástica como sempre) e Milla Jovovich, que me pegou de surpresa (eu não sabia que ela estava no filme) e que pela primeira vez a vejo sendo bem dirigida e atuando decentemente, o que já demonstra bastante que, para conseguir isso, o filme é realmente bom.

CONCLUSÃO...
Sincero e delicado, acho que são as duas palavras mais honestas pra descrever esse pequeno filme, porém grandioso nas qualidades.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A LENDA TENTA SER EXPLICADA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: O Homem das Sombras (The Tall Man)
Ano: 2012
Gênero: Suspense, Drama
Classificação: 14 anos
Direção: Pascal Laugier
Elenco: Jessica Biel, Jodelle Ferland, Stephen McHattie, Samantha Ferris
País: Estados Unidos, Canadá
Duração: 105 min

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma pequena cidade é atormentada pelo desaparecimento de crianças que, segundo alguns moradores, são levadas pelo Homem Alto. Essas crianças nunca mais são encontradas, e os esforços de uma mãe em descobrir o paradeiro de seu filho levam-na de encontro a lenda.

O QUE TENHO A DIZER...
Escrito e dirigo pelo francês Pascal Laugier, que dirigiu dois títulos de terror anteriormente, os desconhecidos Saint Ange (2004) e Martyrs (2008), mas que teve seu nome no topo dos trend topics dos fóruns de filmes de horror quando a responsabilidade do remake de Hellraiser caiu sobre suas costas. Mas por diferenças criativas (desculpa que sempre é dada em casos onde o barraco com certeza quebrou), ele largou o projeto.

Ao invés de Hellraiser, ele embarcou no projeto deste filme, que ainda é inédito no Brasil, mas provavelmente passará despercebido ou será lançado diretamente em home video por razões óbvias. É um filme construído em cima da lenda que é por nós conhecida como a lenda do Homem do Saco, que sequestra criancinhas que nunca mais aparecem. Isso fará com que ele certamente seja promovido como um filme de terror para ser vendido mais fácil, mas na verdade é um suspense que chega a ser tenso em vários momentos, mas o conflito principal, e a linha guia, é o drama. Além disso, ele possui uma temática difícil de ser digerida para muita gente, e que provavelmente não encontrarão moral definida e sairão atirando para todos os lados que o filme é ruim.

O filme não é uma obra de arte, mas também não é ruim. Ele só é diferente e confuso por ter uma mistura brusca de gêneros, e Pascal se utiliza de todos os recursos do suspense sem medo de errar, tanto na direção quanto no desenvolvimento de roteiro, para prender a atenção e contar de maneira incomum uma história com um ponto de vista diferente e, talvez, uma grande realidade, com surpresas e reviravoltas que me impedem de ser mais claro a respeito para a experiência não ser quebrada.

Encabeçado por Jessica Biel, que oferece uma atuação pra lá de convincente, a história vai surpreender bastante principalmente nos primeiros 40 minutos, perderá o fôlego próximo ao fim, mas vai deixar uma sementinha plantada na cabeça. As surpresas surgem não por pistas falsas, mas por detalhes que são revelados apenas nos momentos certos, ora pelos acontecimentos, ora pela narração feita pela personagem de Jodelle Ferlan, a mesma atriz mirim que fez a encarnação do demônio no filme de Renée Zellweger, Caso 39 (Case 39, 2008). Esses elementos oferecem seqüências bastantes tensas, e as dúvidas e os mistérios ficam no ar até o último momento.

O final poderá ser um pouco decepcionante para aqueles que esperarem algum cliché do gênero, pois a conclusão é tipicamente dramática e dará a impressão de que a situação não se encaixa muito em todo o contexto misterioso, mas aí vai depender da absorção e percepção de cada um. A idéia do filme é interessante, mas a argumentação dada é fantasiosa demais para um assunto delicado, sendo o grande atrativo apenas a forma como ela é contada e desenvolvida.

No fim das contas deve ser assistido por um ponto de vista infantil e os desejos que as crianças acabam alimentando na infância por dificuldades familiares e sociais, as lendas que esses desejos criam e a ilusão de que tudo poderia ser melhor se fosse diferente. Também é uma crítica, e uma forma de colocar os pais a pensarem sobre o rumo e as proporções que a relação pais/filhos tem tomado, e também imaginarem o pesadelo que poderia ser se as coisas não chegassem a ser diferentes, mas dessem errado.

CONCLUSÃO...
Com uma idéia bastante interessante e incomum, essa diferença entre o clima pesado de suspense e o tema dramático pode acabar sendo um choque que deixará muita gente com uma carinha de "acho que não gostei". Mas vale ser assistido pelas atuações, pela maneira como o clima é construído e pelo sentimento, mesmo que breve, de como é bom ser bem enganado.
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