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segunda-feira, 12 de março de 2018

PRETENSÃO MAIOR QUE A IDÉIA...

★★★★☆
Título: Os Defensores (The Defenders)
Ano: 2017
Gênero: Ação, Super Herói
Classificação: 16 anos
Direção: Vários
Elenco: Charlie Cox, Krysten Ritter, Mike Colter, Finn Jones, Elodie Yung, Sigorney Weaver
País: Estados Unidos
Duração: 47 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Assim que Nova York começa a ser ameaçada por uma organização secreta chamada Tentáculo, quatro heróis acabam tendo seus caminhos cruzados e descobrem que para salvar a cidade precisarão uns dos outros.

O QUE TENHO A DIZER...
Os Defensores foi um projeto ambicioso, pois tinha a intenção de ser o primeiro maior crossover de heróis na televisão, e o segundo maior da Marvel depois de Os Vingadores. Não foi à toa que ele seguiu à risca o mesmo caminho traçado pela Marvel nos cinemas, apresentando os heróis individualmente em suas respectivas séries para, só depois, a mini-série de oito capítulos ser oficialmente lançada.

Demolidor (2015) foi um enorme sucesso, o primeiro herói do selo a ter um conteúdo adulto, e por isso abordou muito bem a violência urbana e a máfia novaiorquina em meio à sua fantasia. A crítica foi extremamente positiva outra vez com Jessica Jones (2015), cheio de metáforas feministas e empoderadoras que carregam a história para um suspense psicológico às vezes até perturbador. Luke Cage (2016) foi igualmente bem recepcionado, resgatando o gênero blaxploitation que engrandece qualquer intenção do personagem em trazer para o primeiro plano a cultura negra e hip-hop.

Mas quando Punho de Ferro (2017) chegou, a parceria da Netflix com a Marvel levou seu primeiro tombo. Depois de três séries aclamadas, a expectativa para o quarto e último personagem era muito alta. Mas a história fraca, personagens mal construídos e uma trama inconsistente fizeram a decepção do público ser maior. Isso teve um impacto direto no lançamento d'Os Defensores porque o público já estava com um senso crítico muito elevado, e depois de Punho, tudo apontava que a reunião dos heróis não poderia ser tão boa quanto se imaginava.

E realmente não foi. A recepção foi morna, a crítica foi mista, e falharam ao entregar aquilo que cultivaram por três anos.

Quando o último episódio chega ao fim, nos perguntamos qual a razão da tentativa de todo esse grande espetáculo, já que o resultado final mostrou que nada daquilo era necessário, pois não evoluiu para qualquer lado a história de cada um dos heróis, e muito menos teve uma grande trama que justificasse a presença ativa de todos.

Seu grande erro foi tentar enfiar muitos conflitos ao mesmo tempo de uma vez só. Tem os heróis com seus conflitos pessoais e individuais, os conflitos que criam entre si, os conflitos de interesse que a trama cria, os conflitos que terão com seus antagonistas, os conflitos entre os antagonistas, e por aí vai. São cenários com muita hostilidade para serem diluídas ou resolvidas, caindo em situações clichés inócuas e aquilo que foi o maior desastre de toda a produção: tentar desenvolver em cima de tudo isso alguma química entre os protagonistas.

Sabe-se que nos quadrinhos Os Defensores foi um grupo com diversas formações, assim como Os Vingadores. Não havia necessidade de fazê-los aqui um grupo conflituoso, em meio a tantas tramas paralelas que naturalmente desenvolveriam isso por eles. Até mesmo a tentativa de fazer Luke Cage e Punho de Ferro serem uma dupla foi um fiasco, já que nos quadrinhos eles são amigos, sendo a relação entre personagens mais aguardada pelos fãs e um banho de água fria para os mesmos.

O que se vê com a mini-série é um festival de papo-furado entre quatro pseudo super-heróis com personalidades difíceis e irredutíveis que se chocam com personalidades individualistas e mau-humoradas o tempo todo, deixando evidente que eles estão desconectados uns dos outros e que em nenhum momento o contrário vai acontecer porque os diálogos sofríveis e a relação que o roteiro cria entre eles não vai deixar isso acontecer em momento algum.

E desconectados eles também estão do universo que estão inseridos. A maioria dos acontecimentos do universo Marvel ocorrem em Nova York, que é onde todos eles estão e onde toda a trama principal se desenvolve, mas a constante negação dos personagens daquilo que são e daquilo que podem fazer não convence que a Nova York que estão é a mesma que foi defendida por Homem de Ferro e seus amigos, já que os eventos de Demolidor, e das séries seguintes, ocorrem um ano após os eventos de Os Vingadores.

Explico.

É muito cansativo eles constantemente duvidarem que neste mesmo universo em que vivem podem existir coisas estranhas e bizarras, ignorando completamente que eles mesmos não são normais. Um exemplo disso é quando Danny explica como se tornou o Imortal Punho de Ferro, e Luke Cage reage com cinismo por achar a história absurda demais. Danny responde simplesmente dizendo que a história é tão absurda quanto Luke ser à prova de balas. Essa resposta sai até como um desengasgo do próprio espectador, porque neste mesmo cenário temos dois cegos que "enxergam" e uma mulher com super força. E no mesmo teor todas as vezes que a policial Misty Knight entra em cena e nunca acredita que coisas muito mais poderosas do que uma simples arma de fogo podem existir, enquanto um homem indestrutível não só está em sua frente como salvou a sua vida diversas vezes.

Ignorância contextual a níveis extremos.

Essas situações são tão incoerentes por si só que não conseguem sequer ser o alívio cômico que pretendiam, transformando-se em momentos extremamente patéticos não só para toda a série, como para os próprios personagens. O pior é que esse é o comportamento que eles terão ao longo de boa parte dos oito episódios.

Não dá para levar a sério um roteiro que remói o mesmo assunto em todo episódio e que sempre coloca um personagem achando aquilo que o outro diz um absurdo, uma mentira, ou um produto imaginário só para criar conflitos fáceis. As constantes idas e vindas das tramas, principalmente nas decisões individuais de trabalharem ou não em equipe, chega a ser de uma repetitividade dolorosa.

Esses conflitos pobres de personalidade unidimensional não ajudam a dar densidade na história em momento algum, aliás essa irredutibilidade de cada um, e que já poderia ser bem mais amena, considerando que cada um deles já apresentou essas personalidades e já trabalhou com seus traumas e problemas pessoais antes em suas séries individuais, é apenas uma estratégia dramática de atrasar a história e retardar eventos porque toda vez que a história tenta avançar, ou uma relação tende a criar algum vínculo afetivo, alguém puxa ela pra trás. Seja Jessica Jones que sempre vai fazer um comentário grosseiro e mau humorado ou Luke Cage que sempre vai repelir alguma proximidade, ao invés do roteiro evoluir esses elementos, acontece o contrário e eles ficam estagnados.

As gafes aqui também são monstruosas por diversas vezes, como no momento em que Sticky usa um incenso para intoxicar Luke Cage. A fumaça é tão seletiva que não atingiu ninguém mais além dele, e só foi atingir apenas Punho de Ferro porque o roteiro assim quis. E demais outros momentos nas cenas de ação que não condizem com os poderes de cada personagem, numa igual seletividade usada apenas para justificar uma ação ou uma reviravolta forçada.

Enfim, em sua boa parte, a mini-série é uma grande decepção. As atuações são ruins, os atores parecem desinspirados e apenas cumprindo uma obrigação contratual. Salvo exceções, não dá pra não enjoar dos cacoetes de Charlie Cox e as caretas que faz para fingir que é cego, da boquinha apertada de Finn Jones pra mostrar que está... sentindo qualquer coisa, ou Elodie Young, que novamente oferece a pior Elektra que a personagem um dia poderia ter.

É inacreditável que os roteiristas tenham feito de heróis tão interessantes um grupo tão fraco e patético, e de uma organização com membros que, em um determinado momento dizem que na última vez que se reuniram ocorreu uma chacina, mal conseguirem se manterem em pé por muito tempo. De todos só sobra a velhinha chinesa que sempre vence apenas com o poder do "rá", enquanto Sigourney Weaver nunca se mostra tão poderosa quanto diz ser, até porque a própria história não consegue explicar ou desenvolver um grande agente motivador que convença o espectador de que o objetivo dos vilões tenha um propósito consistente o suficiente para destruírem uma cidade.

Levando um grande nocaute, Os Defensores não consegue se manter em um ringue onde os heróis se dão melhor sozinhos, em suas próprias séries. O mais revoltante de tudo é que a produção teve uma janela de três anos para projetar tudo até seu lançamento, e a impressão que se tem é de tudo ter sido feito em cima da hora, com os roteiristas escrevendo, literalmente, em cima das coxas.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

BLAXPLOITATION ATUALIZADO...

★★★★★★★
Título: Luke Cage
Ano: 2016
Gênero: Drama, Policial, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Mike Colter, Simone Missick, Mahershala Ali, Alfre Woodard, Theo Rossi, Rosario Dawson
País: Estados Unidos
Duração: 42 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
5 meses depois dos eventos de Jessica Jones, Luke agora tenta construir uma nova vida anônima no bairro Harlem, em Manhattan, mas descobre que evitar ser um herói é impossível.

O QUE TENHO A DIZER...
Luke Cage é a terceira parte da empreitada da Marvel em expandir seu universo em parceria com a Netflix. Assim como fez com Os Vingadores no cinema - lançando filmes individuais dos heróis para depois reuní-los em um único filme - agora é a vez de experimentar o mesmo no serviço streaming. A idéia começou com Demolidor e Jessica Jones em 2015, segue agora com Luke Cage e continuará com Iron Fist, previsto para o primeiro semestre de 2017. Os quatro heróis serão reunidos na série especial Defenders, previsto para o segundo semestre de 2017, um projeto tão ambicioso quanto foi Os Vingadores no cinema.

Se enganará quem achar que Luke Cage tem a mesma ação bate-arrebenta de Demolidor, ou um conteúdo dramático e metafórico tão forte quanto em Jessica Jones. Seguindo a espetacular idéia de construir cada herói e desenvolvê-los de maneira mais humanista, condicionados ao ambiente transformador em que vivem, aqui o teor é muito mais sociocultural do que os anteriores, resgatando o estilo policial do blaxploitation da melhor forma possível, um movimento cinematográfico ocorrido nos anos 70 onde os filmes eram dirigidos, protagonizados e produzidos por negros e para serem consumidos pelos negros, o que posteriormente se transformou em um subgênero com adoradores de diversas etnias. Tanto é assim que há apenas um antagonista branco em toda a história, Shades (Theo Rossi), além de uma pequena participação de Sonia Braga, como a mãe de Claire Temple (Rosario Dawson), esta que se consolidará como a conhecida Enfermeira Noturna nos quadrinhos, já que socorre os heróis durante as madrugadas, como fez nos dois seriados anteriores.

O blaxploitation foi um movimento anti-racista, que protestava contra a segregação e o preconceito sofrido pelos negros, tanto socialmente quanto no cinema hollywoodiano que, historicamente, sempre foi mais branco que de qualquer outra cor. Os filmes dessa época, e que se enquadram neste estilo, tinham a intenção principal de empoderar a raça, colocando atores afro-americanos como protagonistas e heróis das tramas, como em Shaft (1971), clássico que é referências constante nesse seriado. Tarantino mesmo chegou a revisitar e homenagear o estilo no filme Jackie Brown (1997), trazendo do ostracismo a musa, Pam Grier, a eterna Foxy Brown (1974), outra grande referência a ser usada pelo criador da série, Cheo Hodari Coker.

A história de Luke (Mike Colter) tem início cinco meses após os acontecimentos de Jessica Jones, e logo no primeiro episódio ele revela ser indestutível, mas relata que um tiro de escopeta no queixo e a queima roupa, dado pela própria ex-namorada (Jessica), conseguiu deixá-lo em coma por alguns dias. Ele se mudou para Harlem, um bairro próximo a Hell's Kitchen, para tentar recomeçar uma vida anônima e longe de problemas, trabalhando principalmente como faxineiro de uma barbearia durante o dia, e como lavador de pratos da Harlem's Paradise a noite, a boite mais conhecida do bairro e o QG da máfia liderada por Cornell Stokes (Mahershala Ali), popularmente conhecido como Boca de Algodão.

O desenvolvimento da história é bastante lento, mais lento quem em Jessica Jones, pois tem a intenção de enfatizar a cultura afro-americana, difundindo-a por todos os lados através da linguagem, do comportamento e da música, além de se aprofundar na personalidade dos personagens e construir sem pressa a atmosfera hostil da máfia suburbana que toma conta das ruas de Harlem e do controle político da corrupta vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard), prima de Cornell. Apesar de tanta diferença etnica e cultural, a direção e o tempo de câmera deixa tudo bastante familiar ao outros dois seriados, contribuindo para a sensação de que tudo realmente acontece em uma mesma parte da cidade. Até a abertura segue esse mesmo padrão, enfatizando o aspecto de continuidade e conexão entre as produções.

A grosso modo, podemos dizer que Luke Cage está para Harlem assim como Demolidor está para Hell's Kitchen, e o que difere cada um deles é exatamente a diferença etnica e cultural: enquanto Hell's Kitchen é tipicamente habitada por imigrantes latinos e europeus foragidos da Segunda Guerra, Harlem é um importante centro cultural e comercial afro-americano que se fortaleceu após os movimentos sobre os Direitos Civis, se tornando um reduto da cultura negra e Hip-Hop. Por conta disso, foi muito interessante o lançamento ocorrer após The Get Down (2016), já que o seriado de Baz Lurhman da uma excelente introdução à importância da cultura negra nos Estados Unidos a partir dos anos 70, e Luke Cage complementa isso muito bem com as mesmas características. Mesmo que sua história ocorra em um período mais atual, evidencia que as dificuldades do subúrbio novaiorquino ainda continuam sendo as mesmas, obrigando seus moradores a criarem seus próprios métodos e maneiras de sobrevivência para diblarem o descaso que sofrem. 

Com excessão de Demolidor, e assim como Jessica, Luke não é um herói comum e uniformizado, e suas atitudes heroicas só afloram pela motivação dada por Henry (Frankie Faison), de que os poderes que ele tem devem ser usados para tirar o bairro das garras da máfia, trazer a paz entre seus moradores e a prosperidade. No decorrer dos episódios descobrimos quem Luke Cage realmente foi, e mesmo que explicado de forma muito superficial e pouco convicente, também mostra como ele adquiriu seus poderes.

Sua ascenção até um herói propriamente dito não tem a mesma sutileza e construção dos seus outros dois colegas, até porque há uma relutância interna do personagem para isso, que passa a sentir as pressões dessa decisão no momento em que revela a todos quem ele é, ao invés de se esconder sob pseudônimos e disfarces. Ele se recusa ver a sociedade em que vive regredir aos tempos escravistas quando subordinados a poderes sociais, e ao invés de lutar contra vilões e bandidos, Luke luta contra sistemas e poderes invisíveis e opressores. Tanto que o personagem se recusa a ser chamado de "nigga" ou "nigger", um termo incorreto de conotação negativa e preconceituosa, que mesmo sendo popularmente usado nos guetos entre os próprios negros (e repudiado quando usado por brancos), independente de seu locutor, o termo historicamente remete ao período escravocrata, já que surgiram e foram popularizados por aqueles que os escravizaram e os consideravam inferiores e ignorantes. E Luke Cage traz consigo essa responsabilidade de quebrar paradigmas e heranças culturais negativas ou retrógradas, sendo, além de um herói, uma importante referência de que a cultura afro-americana não deve esquecer de seu passado, mas também não deve viver sobre ela para construir um melhor futuro.

Só que embora tenha um bom conteúdo, não dá para negar que sua trama seja um pouco mais do mesmo. Como dito, é a fórmula de Demolidor transportada para outro bairro, com outra roupagem. Mesmo assim, não importa se, apesar de tudo, Luke Cage seja mais uma fantasia em cima do universo dos heróis. Sem dúvida o que o diferencia é o largo passo que o distancia da metáfora, se aproximando mais da realidade vivida, enaltecendo a cultura negra tanto quanto The Get Down faz, principalmente quando traz a música mais próxima à história, com participações de artistas que performam aquilo que de melhor existe do Jazz, Soul e Funk. E assim percebemos como essa cultura é tão rica, diversificada e influente no mundo todo, por mais que seja negligenciada ou deturpada, sendo dever e obrigação ser respeitada.

CONCLUSÃO...
Enfim, é o estilo blaxploitation atualizado, revitalizado, e tranformado, onde o herói principal não usa mais armas de fogo, mas o corpo indestrutível e a força de seu caráter, que surge em um excelente momento de novas revindicações e espaço.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

JÁ ACABOU, JESSICA?

★★★★★★★★★☆
Título: Jessica Jones
Ano: 2015
Gênero: Drama, Ação
Classificação: 14 anos
Direção: Vários
Elenco: Krysten Ritten, Rachael Taylor, David Tennant, Carrie-Anne Moss, Mike Colter
País: Estados Unidos
Duração: 50 min.

SOBRE O QUE É O SERIADO?
Uma detetive particular com super poderes descobre que um homem responsável por vários traumas de seu passado está de volta, deixando mais um rastro de vítimas por onde passa.

O QUE TENHO A DIZER...
Jessica Jones é parte da empreitada da Netflix em investir em super herois subaproveitados da Marvel. O primeiro foi Demolidor, lançado no começo do ano e que superou as expectativas tanto do serviço quanto de seus assinantes. Jessica Jones é o segundo, enquanto Luke Cage e Iron Fist estão previstos para 2016. Esses quatro heróis fazem parte do mundo de Demolidor, que estão inseridos no universo da Marvel.

A idéia da Marvel é explorar heróis que, de alguma forma, não tem espaço para serem explorados no cinema, e assim expandir sua proposta para outras mídias e dar continuidades paralelas aos acontecimentos dos filmes, já que todos eles ocorrem dentro de uma mesma época, mesmo que não estejam conectados. Por isso que a estratégia da Marvel com a Netflix será a mesma que foi na telona, apresentando os heróis com seus seriados individuais para depois reuní-los em um especial que se chamará The Defenders, previsto para 2017.

Jessica (Krysten Ritter) é uma mulher independente, com super poderes e uma personalidade um tanto auto-destrutiva, inferiorizada por conta de acontecimentos traumáticos no passado, tanto na sua infância quanto os causados por um homem misterioso e muito perigoso conhecido como Killgrave (David Tennant).

Killgrave possui o poder da persuasão e do controle da mente, e Jessica foi uma de suas vítimas, conseguindo escapar com diversas sequelas psicológicas que a fizeram abandonar a vida fracassada de heroína. Para alimentar seus vícios e pagar o aluguel de um horroroso apartamento, ela agora trabalha como detetive particular. Dessa forma também se sente útil sem precisar estar em evidência e muito menos ter um pseudônimo e uma identidade secreta, já que vive pelas sombras da cidade e da sua autodepreciação, sabendo que ninguém dará atenção a isso.

Logo no primeiro episódio ela é contratada para descobrir o paradeiro de uma garota desaparecida, e durante as investigações percebe que Killgrave está envolvido, fazendo-a reviver novamente o pesadelo do passado, piorando suas crises ao ponto de decidir fugir.

Mas é durante o desespero que percebe que fugir nunca será a solução. A solução é, na verdade, neutralizar o responsável por tudo. Então a heroína adormecida ressurge, não apenas para impedir o vilão de fazer outras vítimas, mas para superar seus traumas e se livrar da obsessão de um homem que a aprisionou e acredita dominá-la.

Ao contrário do desenvolvimento de Demolidor, aqui a história engata para um suspense dramático mais psicológico, embora a fórmula seja basicamente a mesma, começando com a trilha sonora progressiva de abertura, bastante similar com a do seriado anterior.

A melhor parte desta fórmula é que novamente nada é tratado como um seriado de ação cuja única proposta seja um super herói combater vilões poderosos. E o ingrediente diferenciado aqui é que ele não é recheado de pancada e perseguições miraboltantes na tentativa de impedir o caos e a destruição em massa de uma cidade, como muita gente pode esperar. Assim como no seriado de seu colega de bairro (já que ambos são ambientados no bairro novaiorquino Hell's Kitchen), mesmo havendo o lado fantástico dos quadrinhos naturalmente embutido, o assunto é levado a sério, de maneira envolvente, adulta e, por vezes, pesada demais, bastante diferente do universo mais lúdico que a Marvel levou aos cinemas, de classificação etária mais acessível.

Se em Demolidor a máfia foi abordada de forma crua e violenta, aqui o tom não é diferente. Mas ao invés do sangue escorrer pela tela, o que realmente aflige o espectador é a proximidade amarga com a realidade ao tratar de assuntos delicados e recorrentes, como a discriminação, o assédio, a violência contra mulheres e o estupro. De forma indireta também lida com o sexismo e a misoginia, já que o seriado é liderado por um elenco feminino, de personagens poderosas que fogem de estereótipos frágeis e submissos para agradar o público masculino. Tudo a calhar numa época em que as mulheres voltaram a questionar seus valores e a sua importância no mundo atual.

Sim, são todos assuntos válidos e que chegam a dar um nó na garganta, como no sexto episódio, em que Jessica visita na enfermaria da prisão uma das vítimas de Killgrave. É quando outro assunto mundialmente discutido entra em pauta e de maneira bastante discreta e impactante. São momentos como esse que percebemos como as metáforas no mundo Marvel sempre foram muito fortes, e que heróis e poderes são ferramentas relevantes para mostrar através da fantasia como é a realidade que vivemos, nos mantendo atentos enquanto a mensagem disfarçada de diversão e passa tempo é absorvida.

As atitudes duronas de Jessica são apenas para camuflar seus medos e receios. Por dentro ainda é uma mulher que se sente fragilizada e inferiorizada, que agora luta para se livrar desse sentimento opressor e dominador custe o que custar, como a emergir do fundo do mar. Os poderes de Jessica se tornam bastante coadjuvantes, esquecíveis até. Estão lá apenas como um adorno, para nos lembrar de que ela é uma personagem adaptada dos quadrinhos e para reforçar a idéia de que ela é uma metáfora da mulher que se fortalece para lidar com qualquer problema.

Sim, é um seriado com tons feministas, mas tudo muito bem construído e abordado. Nada panfletário, mas óbvio em sua proposta, o que deixa evidente a boa qualidade do roteiro que consegue inserir e desenvolver todos esses assuntos em forma de tramas e não de discussões impositivas.

Claro que também há espaço para os alívios cômicos. O próprio temperamento da protagonista já é um por si só, rendendo algumas situações engraçadas até quando o assunto é sério, como quando sofre hostilidade de um casal preconceituoso que acusa pessoas com poderes de terem destruído Nova York e matado pessoas inocentes (em referência aos acontecimentos de Os Vingadores), e Jessica se defende dizendo que ela nem estava lá, e que se é para acusar alguém, que acusem "o homem verde e o outro que se veste de bandeira" (referindo-se a Hulk e Capitão América). Alívio cômico certeiro que brinca com as próprias referências do universo Marvel, assim como quando ela recomenda uma outra investigadora, chamada de Angela Del Toro, outra personagem dos quadrinhos e do mesmo universo de Demolidor.

Essas metacríticas em tom de piada são recorrentes em qualquer adaptação da Marvel porque são formas bem humoradas de fazerem referências diretas aos materiais originais e especialmente feitas para o delírio dos fãs. Claro que em Jessica Jones não seria diferente, havendo referências diretas à própria imagem da personagem nos quadrinhos quando, em um flashback, Trish propõe que Jessica use um horroroso uniforme branco e adote o pseudônimo Jewel, nome e uniforme que a personagem utilizou nas publicações antes de abandonar a carreira de heroína.

Como acontece na maioria das produções originais do Netflix, demora alguns episódios até tudo engatar o ritmo que o espectador realmente espera, e o clima neo-noir apenas contribui para dar mais ênfase ao suspense psicológico do que na ação. A situação fica cada vez mais aterrorizante quando a obsessão de Killgrave mostra-se tão sufocante ao ponto de não termos mais certeza se ela será capaz de se livrar, ou se continuará submetida a ele. Pois é... a grosso modo pode ser apenas uma história sobre Jessica, mas que na verdade representa várias Jessicas pelo mundo afora.

Há até momentos para um romantismo cheio de obstáculos e dificuldades típicas do Universo Marvel entre Jessica e Luke Cage, já que esta também é a oportunidade de apresentarem o personagem antes dele ter seu próprio seriado (valendo dizer que ambos são casados nos quadrinhos). A boa química entre eles já nos faz perceber porque no meio de tantos erros, tudo no fim dará certo.

Algumas mudanças foram feitas para se encaixarem melhor na adaptação. O nome verdadeiro do vilão nos quadrinhos é Zebediah Killgrave, e ele é croata, mas no seriado é Kevin Thompson e ele é britânico. Nos quadrinhos, por conta de sua pele cianótica depois de um acidente, seu pseudônimo passou a ser Purple Man (Homem Púrpura) e no seriado se tornou Killgrave. Embora na série sua pele não seja roxa, suas roupas são, sejam acessórios ou até mesm o terno completo, como em alguns episódios. Seus poderes nos quadrinhos são hormônios que afetam a decisão das pessoas, no seriado é um vírus. Jessica também não tem os poderes tão desenvolvidos como nos quadrinhos, e no seriado sua força é limitada, e ela é bastante vulnerável, além de não voar. Jeri Hogarth é um homem nos quadrinhos, mas no seriado é uma mulher justamente para intensificar essa atmosfera feminina mais dominante.

Apesar de não chegar a ser uma anti-heroína como é Elektra, outra personagem também do mesmo cenário de Demolidor (e que fará sua aparição na segunda temporada do herói em 2016), sua personalidade um tanto auto-destrutiva a faz chegar bem próximo, além de ser tão bem justificada quanto da outra personagem. A diferença é que Jessica, como ela mesma chega a dizer, tem a piedade como seu maior defeito. E assim o Netflix oferece mais uma decente adaptação de uma heroína que realmente já estava na hora de todos conhecerem.

CONCLUSÃO...
O Netflix acerta mais uma vez adaptando uma história em quadrinhos da Marvel que faz parte do mundo de Demolidor, mas dessa vez por um ponto de vista muito mais feminino do que antes, e nada frágil, abordando temas delicados e desenvolvidos como tramas e subtramas, e não como discurso panfletário e impositivo em uma história de uma heroína cujos seus poderes ficam até esquecíveis perto da história que se desenvolve lenta, mas com intensidade e relevância.
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