Translate

sábado, 20 de setembro de 2014

FILME... SERÁ?!

★★★★★★☆☆☆☆
Título: Garota Exemplar (Gone Girl)
Ano de publicação: 2012
Gênero: Suspense, Policial, Drama
Classificação: 14 anos
Páginas: 426

SOBRE O QUE É O LIVRO?
Nick e Amy é um casal de escritores tentando superar as dificuldades depois de uma dura fase desastrosa na qual ambos perderam o emprego por conta da recessão e se sentiram obrigados a mudar de um grande apartamento em Nova York para a cidade natal no interior de Missouri, em um bairro de mansões abandonadas que sofreram com a crise imobiliária e agora são alugadas pelo governo a preços muito inferiores. Nick abre um bar, que também é administrado por sua irmã gêmea, Margot. Eles já estão acostumados com a rotina do dia a dia de casados, mas a readaptação na pequena cidade é difícil, principalmente para Amy, que adorava sua vida em Nova York. Para Nick, tudo é indiferente, inclusive nos esforços de Amy na sua constante tentativa de reerguer a relação. No dia do 5º aniversário de casamento, Amy desaparece deixando várias pistas, mas nenhuma que leve diretamente a ela. Ao mesmo tempo que a polícia investiga os fatos, a mídia cria um grande espetáculo em cima do desaparecimento, e tudo passa a indicar que Nick não é tão inocente quanto parece.

O QUE TENHO A DIZER...
Hoje resolvi fazer algo diferente e falar sobre o livro de Gillian Flynn, publicado originalmente em 2012 e que em apenas três semanas entrou para a lista de best sellers. Vendeu mais de 3 milhões de cópias pelo mundo, é considerado um fenômeno e elogiado pela crítica. Não é ainda muito conhecido no Brasil, mas a tendência é que isso mude nos próximos meses porque, claro, ele ganhará uma adaptação cinematográfica. A adaptação do diretor David Fincher terá estréia dia 26 de Setembro nos Estados Unidos e no dia 02 de Outubro no Brasil. O filme marca também a estréia da própria autora como roteirista.

Os motivos que me levam a escrever sobre ele é justamente por isso, e me antecipei na leitura para me preparar e verificar se Fincher novamente fará um trabalho tão horroroso e desnecessário quanto foi a adaptação norteamericana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011).

À primeira vista o tema não é tão complexo assim, e nem parece ser o livro. A narrativa em primeira pessoa a princípio apenas reafirma ser o estilo mais apreciado entre os best sellers populares nos Estados Unidos, mas não me pergunte por quê. Se não for bem cuidada, esse tipo de narrativa tende a cair em uma simplicidade desastrosa caso a descrição subjetiva seja pobre e limitada apenas em ações mal detalhadas como é, por exemplo, com a série juvenil Jogos Vorazes de Suzanne Collins. Felizmente não é o que acontece, e a autora não apenas utiliza este tipo de narrativa com muita densidade como também o divide em dois pontos de vista. O primeiro é o de Nick, que descreve a história a partir do dia do desaparecimento de sua mulher, enquanto o segundo ponto de vista lemos trechos do diário de Amy até o dia anterior de seu desaparecimento. Óbvio que os sete anos de anotações do diário são resumidos, e o enfoque acaba indo para os últimos dias que antecedem o acontecimento.

Gillian consegue a difícil arte de dar riqueza descritiva mesmo em primeira pessoa, além de prender a atenção do leitor quando a narrativa de um personagem é interrompinda em um momento crucial para dar continuidade a narrativa do outro, igualmente interrompida em um momento crucial antes. E dessa forma as duas narrativas se intercalam em pontuais interrupções que agem efetivamente como término de capítulos, dando uma boa sensação folhetinesca dentro de uma estrutura policial clássica de entreter o leitor e apreendê-lo para conclusões dramáticas. Portanto, não é uma novidade, mas a forma como ela desenvolve os dois pontos de vista e a atmosfera misteriosa criada por conta da estrutura paralela que se intercala é feita de maneira bastante inteligente.

A linguagem é igualmente rica e moderna, explícita, sem muitos floreios ou demasiada informalidade, e por conta do personagem principal ter sido jornalista de uma revista de cultura pop (a própria autora também foi), há muitas citações espalhadas no livro, tanto sobre música, quanto cinema, oferecendo uma experiência mais interativa caso o leitor esteja perto de um computador e vá atrás dessas referências assim que elas surgirem, algo bastante agradável e imersivo. Por muito momentos o livro embarca em um estilo sombrio, e mesmo o personagem principal sendo um cara sem graça e apático, a ironia da autora transforma sua constante autodepreciação em um humor bem único de grande auxílio na fluidez da leitura.

Mas é quando o livro atinge o seu meio, um meio quase exato tanto quanto no número de páginas, que o leitor se deparará com uma mudança muito repentina e brusca na história. Eu mesmo reli a primeira frase dessa segunda parte duas vezes para ter certeza de que aquilo estava certo ou se era erro da tradução. Chacolhei a cabeça, cocei o olho pra me certificar de que não estava com sono ou vista embassada e até soltei um "ahn?!" de quem não entendeu muito bem a idéia. Foi algo inesperado porque até este ponto o leitor está tão imerso nas tramas e pensando em tantas possibilidades que definitivamente ele é surpreendido. Mas a surpresa só não foi tão agradável porque ao mesmo tempo uma sensação tola de ter sido gratuitamente enganado por 200 páginas toma conta. A partir daí entramos para uma segunda parte que foge da imprecisão de antes e tenta esclarecer melhor todos os fatos. Confesso que a segunda parte infelizmente se torna previsível, e conforme o número de páginas está prestes a acabar o leitor fica se perguntando onde é que o fim vai caber em tão pouco espaço. E então ele aparece tão repentinamente que decepciona.

É difícil não ser claro nos pontos negativos sem revelar partes muito importantes da trama, por isso ele vai ser aquele tipo de livro que intrigará na primeira parte, segregará seu público na segunda parte, mas todos lerão até o fim por pura curiosidade. As reviravoltas são tão mirabolantes e surreais que, mesmo dentro da ficção, há um ponto em que fica muito, mas muito difícil aceitar, e todas as justificativas mais parecem improvisos da autora para dar logo um fim a tudo do que uma atitude realmente inteligente e pensada para os personagens, sejam eles principais, coadjuvantes, ou aqueles introduzidos na história como grandes peças chaves, mas que se tornam inúteis ou descartados para a conclusão da trama, como Bill Dune, Andie ou Tanner Bolt, este último sem qualquer relevância em toda a trama, entrando e saindo sem muitos propósitos. Ou seja, há excesso dos chamados red herrings, termo utilizado para as pistas falsas utilizadas para enganar ou desviar a atenção do leitor (ou espectador) sem motivos claros e que, vale dizer, geralmente não são muito bem vistos por conta da proeminência vazia e que empobrece a obra, seja literária ou cinematográfica.

Mas pensando por outro lado, é como se toda a psicotico-fantasia absurda inventada pela autora também pudesse significar os pensamentos e as idéias mais cabulosas que surgem em períodos de crise insustentável nas relações longas e estáveis junto com as infames competições de ego, os conflitos entre dominação e submissão, e recorrência de situações deterioriantes por conta de conveniências sociais. Tudo isso é abordado com bastante frequência na conflituosa, esquisita e doentia relação dos personagens.

Gillian também se utiliza de outros elementos sociais para incrementar todas as atmosferas hostis. Na primeira parte temos as citações dos períodos de recessão e crise imobiliária norteamericana como um dos grandes agravantes para a decadência da relação do casal, e na segunda parte temos a intensiva manipulação da mídia e sua violenta e poderosa influencia social no direcionamento de decisões.

Mesmo com uma grande reviravolta que a princípio surpreende, mas se desenvolve de maneira muito absurda e decepciona na sua conclusão, há grandes méritos que não devem ser ignorados que, de qualquer forma, fazem do livro um excelente entretenimento e uma literatura popular muito mais interessante e relevante do que os 50 Tons de Cinza por aí, até porque a narrativa de Gillian possui um ponto de vista feminino muito mais prepotente e digno de nota.

CONCLUSÃO...
Todas as reviravoltas e os arsenais misterioso e duvidosos utilizados, em sua mais pura essência, nada mais são do que uma tática comumente usada no cinema de ludibriar o espectador e que a autora soube muito bem utilizar no gênero literário para fazer o mesmo com os leitores. Toda a bagagem cinematográfica adquirida por Gillian Flynn enquanto jornalista pop foi muito bem aproveitada em palavras e composições bastante visuais em sua narrativa em uma obra que, por conta desses aspectos, poderá ser melhor aproveitada no cinema e com um final que não seja tão decepcionante, já que a autora terá oportunidade de melhorá-lo, pois ela também é a roteirista da adaptação e já foi informado que o final do filme será diferente para atrair a atenção dos que já leram e não tirar o interesse daqueles que ainda não conhecem o livro. Basta saber agora se Fincher aprendeu com a decepção de sua adaptação anterior.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

REBU MERECIDO...

★★★★★★★★☆☆
Título: O Rebu
Ano: 2014
Gênero: Suspense, Drama, Policial
Classificação: 14 anos
Direção: José Luiz Villamarim
Elenco: Patricia Pillar, Cassia Kis Magro, Tony Ramos, Marcos Palmeira, Dira Paes, José de Abreu,  Lima, Vera Holtz, Camila Morgado, Jesuíta Barbosa
País: Brasil
Duração: 25 min.

SOBRE O QUE É A TELENOVELA?
Um crime ocorreu na mansão carioca de Angela Mahler, o corpo bóia na piscina enquanto uma festa para a alta sociedade acontece. Os motivos para a vítima morrer são muitos, e muitas também são as razões que cada um da festa tinha para poder matá-lo.

O QUE TENHO A DIZER...
O Rebu foi uma readaptação de George Moura e Sérgio Goldenberg da novela original de Bráulio Pedroso, originalmente transmitida pela Rede Globo entre 1974 e 1975. A dupla de autores tem se destacado na teledramaturgia brasileira por adaptar histórias de diferentes fontes e desenvolver tramas policiais com suspense, intrigas e elementos dramáticos dentro de uma sofisticação narrativa que até então parecia algo muito distante para a televisão brasileira, como foi o caso das minisséries O Canto da Sereia (2013), adaptação do livro homônimo de Nelson Motta, e de Amores Roubados (2014), livremente adaptado de um folhetim de sucesso de Carneiro Vilela publicado em um jornal recifense entre os anos de 1909 e 1912. Por isso, não é à toa que O Rebu é a terceira colaboração consecutiva dos autores em menos de dois anos para a emissora.

A novela original foi um grande sucesso na época e a 20ª a ser exibida na faixa das 22h/23h, horário reservado para produções mais ousadas e polêmicas, proposta supostamente retomada pela Globo em 2011 com o remake de O Astro (2011). A produção causou uma revolução na televisão brasileira ao ir completamente contra a maré narrativa tradicional por situar sua trama em apenas 24 horas. O grande desafio na época foi manter a atenção do público por 112 capítulos dentro de um espaço temporal tão limitado, que entre tropeços e erros gravíssimos de continuidade conseguiu sobreviver no meio da audiência já entediada. Algo parecido já havia sido feito antes, como no filme Festim Diabólico (Rope, 1948), de Hitchcock, sobre um assassinato cometido durante um jantar e que também se passa em um período de 24 horas, mas fazer algo equivalente em um folhetim fez da versão original ser considerada um clássico da televisão brasileira, mas seu formato ousado e inovador na época nunca mais foi repetido em nenhuma produção nacional posterior.

Como excessão da trama principal, os próprios autores não a consideram um remake, já que todo o desenvolvimento, os personagens e as subtramas são diferentes, atualizados para os dias atuais em enxugados 36 capítulos. As subtramas e os acontecimentos da festa são mostrados em flashbacks, mas em nenhum momento definidos detalhadamente.

É considerada uma telenovela por manter a forte linguagem do formato com a incessante recapitulação de fatos junto com a constante nominação dos personagens durante diálogos ou acontecimentos para a todo momento situar a audiência flutuante dentro da história, mas ao mesmo tempo é uma evolução, ou aquilo que deveria ser o futuro das telenovelas. Isso se deve pelo roteiro enxuto proporcionado pelo menor número de capítulos, a alta qualidade da produção e valores cinematográficos agregados a ela, um feito raro e que definitivamente se absteve de fórmulas baratas comumente usadas nas produções da emissora, o que tirou muito do ranso de material reciclado e filmado em escala industrial para consumo em massa, como acontece com regularidade nas demais apresentadas entre as 19 e 22h (salvo raras excessões, como a última e belíssima Meu Pedacinho de Chão ou Cordel Encantado, apenas para citar).

As qualidades excedem o esmero do design de produção que se atentou a mínimos detalhes; da cenografia deslumbrante da locação argentina reestilizada para simular uma mansão carioca; ou da trilha sonora que presenteou a audiência com diversas pérolas nacionais e internacionais de Caetano, Gal, Nação Zumbi, Nina Simone, New Order, Amy Winehouse e até Bjork, uma variedade já vista nas duas parcerias anteriores dos autores. Ainda sobre a trilha sonora, vale destacar a trilha original composta por Felipe Alexandre, Eduardo Queiroz e Guilherme Rios, muito bem inspirada pela trilha original de Requiem Para Um Sonho (Requiem For A Dream, 2000), de Clint Mansel. Uma pena que essa trilha sonora original não seja encontrada além do tema de abertura, pois as demais inserções utilizadas mantiveram uma melancolia e precisão fundamentais para diversas sequências dramáticas.

Tudo vai muito mais além nos quesitos técnicos quando observados com atenção mais detalhada. O diretor José Luiz Villamarim, que também dirigiu as outras adaptações da dupla, mantém aqui o estilo que o tem destacado dos demais no cenário televisivo, novamente optando por algo mais fluido e aberto como também repete algumas outras tentativas que tiveram sucesso no passado.

Os enquadramentos mais amplos deram mais liberdade cênica aos atores que crescem em seus personagens por mérito e não por conta de truques de câmera ou edição. E claro que, dentro disso, não há como deixar de comentar sobre os planos sequência (ou contínuos), longas tomadas que seguem o eixo de ação dos personagens sem cortes. A técnica já foi utilizada anteriormente de maneira sutil em Amores Roubados, mas agora ele realmente explora o estilo com mais afinco e valor para a história. Esse artifício cinematográfico usado com gratificante excesso no formato folhetinesco é o que expôs a essência e o cuidado de toda a produção, já que cenas assim são consideradas como um "balé" por conta de sua natureza complexa que demanda ensaios e precisão. A sincronia perfeita entre a câmera, os personagens, coadjuvantes, figurantes e cenografia é obrigatória e o resultado disso são dezenas de situações sem cortes, com duração de 2 minutos para mais, espalhados nos capítulos. Não há como negar a importância que essa técnica teve para a densidade narrativa, de substancial impacto durante o confronto entre os personagens com diálogos contínuos e verossímeis, sem o cansativo ping pong habitual entre duas câmeras que claramente indicam a completa ausência de ensaio e domínio de cena, típica linguagem didática visual das novelas industriais. E ao invés de termos uma cena de ação e reação editadas e atores presos apenas nas expressões faciais por conta do limitado enquadramento superior, vemos mais que isso, vemos os personagens realmente ganharem vida com os atores usando todo o corpo como um objeto de linguagem numa fluidez quase teatral. Assim tivemos grandes e memoráveis cenas de Cássia Kis, ou da formal rivalidade contida pela conveniência, desempenhadas com atenção ao mínimo erguer de sobrancelhas de Patricia Pillar e Tony Ramos. Foi um prazer aos olhos e às sensações, inesquecível para quem aguardava há tanto tempo algo tão sofisticado em uma emissora aberta nacional.

O elenco grandioso e eclético formado excepcionalmente pela nata subaproveitada da emissora também mostra que não há idade para atores terem excelentes papéis e que telenovelas podem chegar a um patamar de qualidade que não subestime sua audiência. O que falta mesmo são grandes autores e textos mais nobres. E que texto! Diálogos retos, sem muitos floreios e tão espontâneos que muitas vezes parecem improvisos. Com excessão de uns ou outros, que nunca se limitaram a um único tipo de papel durante a carreira, foi uma grande quebra de preconceitos ver Tony Ramos interpretar o inescrupuloso Carlos Braga e sair de sua zona de conforto e da imagem de bom moço que a emissora sempre cultivou. O impacto foi tal como foi ver Regina Duarte interpretar a histérica e impulsiva Clo Hayalla no remake de O Astro, papel que também a deixou anos luz da mesmice enlatada na qual sempre foi condicionada. Bom também foi ver Mariana Lima reaparecer com destaque, ou o humor nato de Vera Holtz ter espaço pra se espalhar sem censura junto com a faceta cômica de Camila Morgado, significantes para aliviar o clima pesado da trama, tudo sem vulgaridade ou piadinha pronta pra sorriso amarelo.

A trama desenvolvida em três eixos temporais (presente: com a investigação; passado recente: a festa; passado distante e aleatório: as histórias individuais dos personagens) chegou em um ponto onde o significado do título teve total coerência com o emaranhado de casos e consequências que se desenvolveram, e os autores conseguiram compensar a previsibilidade de algumas resoluções com a imprevisibilidade de como eles ocorreram. Uma sacada interessante e que ficou longe da mesmice já vista antes em tramas similares. Houve críticas sociais e políticas espalhadas em todos os lugares, algumas explícitas e até aborrecedoras de tão didáticas, enquanto outras mais sutis condensaram melhor a história. A festa, que na obra original foi um acontecimento de destaque, infelizmente foi posta em segundo plano aqui, um tanto frustrante para aqueles que aguardaram tanto glamour boêmio. As atuações não foram de todas felizes também, como Dira Paes, que tem seu talento reconhecido, mas infelizmente caiu em uma atuação cliché quase que amadora, ou da voz monotônica de Jesuíta Pedroso, talvez para disfarçar seu sotaque pernambucano. Sophie Charlotte pode ter exagerado na mão na testa e mão na cintura, mas conseguiu surpreender em grandes cenas. O final também poderia ter tido uma resolução diferente, mas sua construção foi admirável e igualmente satisfatória, e nem o delegado conseguiu escapar do mau caratismo ao correr para o rabo de saia da investigadora Rosa quando o fogo da palha com Angela Mahler apagou. O mau caratismo e o interesse, defeitos inerentes do ser humano.

Mas infelizmente tanta qualidade e repercussão não foram suficientes para segurar o público. A audiência reduziu consideravelmente quando sua estréia é comparada com o fim. Mesmo com 36 capítulos e uma média de 25 minutos cada um, O Rebu teria sido melhor aproveitado se tivesse sido feito como uma mini série de 8 ou 10 capítulos. Os episódios curtos, editados para se encaixar no buraco da grade da emissora, desvalorizaram substancialmente o suspense progressivo da trama, passando a falsa impressão de monotonia ou de trama desinteressante para a audiência que viaja de um canal para o outro.

Além da audiência flutuante que não foi conquistada, os mais exigentes acabaram perdendo o interesse pela trama logo no primeiro capítulo, muito pela já instalada aversão pelo formato folhetinesco e a resistência de aceitarem uma proposta diferenciada por acreditarem que isso não é possível. Foi muito comum ler e ouvir negatividades daqueles que nunca assistiram mais de um episódio ou até mesmo mais de 5 minutos. Esse preconceito enraizado é culpa da própria emissora que nunca se preocupou com a qualidade mais do que com os números, que ao longo das décadas condicionou sua audiência para isso com produções que beiram a ignorância, responsáveis por atrofiar o senso crítico da massa.

O Rebu foi sem dúvida como uma macarronada em um jantar refinado. Um prato comum, mas valorizado nos ingredientes e na sua apresentação. Uma grande excessão que infelizmente foi subjulgada por muitos que acreditaram ser apenas mais uma novela qualquer como todas as outras. É claro que já vimos trama policial parecida, já vimos produções luxuosas assim, já assistimos um elenco formidável junto e o uso do plano sequencia não é novidade para ninguém. Sim, concordo. Mas nunca vimos tudo funcionar em conjunto e com tanta precisão na televisão brasileira porque isso nunca foi feito antes. Não aqui.

CONCLUSÃO...
Telenovela faz parte da cultura nacional, e O Rebu demonstrou que, sim, a televisão brasileira tem talento e capacidade para elevar esses níveis, mas não tem uma audiência pronta para isso, ou enquanto continuarem condicionando-a para isso.

domingo, 7 de setembro de 2014

NÃO É DESTA VEZ, MINGHELLA...

★★★★☆☆☆☆☆☆
Título: As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces Of January)
Ano: 2014
Gênero: Drama, Suspense, Crime
Classificação: 14 anos
Direção: Hossein Amini
Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac
País: Reino Unido, Franca, Estados Unidos
Duração: 96 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um casal norteamericano que está há alguns dias em Atenas é ajudado por um guia turístico que se sujeita a fazer parte de uma perigosa trama que ele não imaginava.

O QUE TENHO A DIZER...
Estréia do iraniano Hossein Amini na direção, com roteiro também escrito por ele. Hossein tem maior experiência como roteirista, cuja carreira é um tanto esquisita. Ele foi responsável pelo roteiro de filmes excelentes como Asas do Amor (The Wings Of Dove, 1999) e Drive (2011), mas ao mesmo tempo contribuiu com os péssimos Branca de Neve e o Caçador (Snow White and The Huntsman, 2012) e 47 Ronins (2013). Levando-se isso em consideração, as possibilidades dessa produção ser boa eram um tanto incertas, mesmo contendo grandes nomes para os personagens principais e por ser baseada no livro homônimo de Patrícia Highsmith, a mesma da obra que rendeu a excelente adaptação cinematográfica O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley, 1999), de Anthony Minghella.

Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst) é um casal norteamericano que está passando alguns dias em Atenas. Entre um passeio turístico e outro, Chester percebe que um estranho o observa. Colette consegue se aproximar de Rydal (Oscar Isaac) e descobre que ele é um americano que mora em Atenas e trabalha como guia turístico, pois ainda não decidiu o que fazer de sua vida pessoal e profissional. O casal contrata o guia e algumas semelhanças levam Rydal a uma fascinação por ambos que o sujeitará a ajudá-los quando Chester é perseguido pela polícia por motivos que para não são claros, mas que colocarão Rydal dentro de uma trama perigosa que ele não imaginava.

Depois que Anthony Minghella realizou o deslumbrande O Talentoso Ripley, elogiado pelo mundo todo pelas excepcionais qualidades visuais, técnicas e pela habilidade que ele teve em desenvolver a história com um cativante suspense progressivo e dramático, até mesmo ao incluir uma personagem que não existia no livro e aumentar sua participação apenas para dar mais destaque ao desempenho de Cate Blanchett, que ao invés de adulterar os rumos da história apenas incrementou ainda mais o tom hitchcockiano que ele deu à trama, o cinema ficou novamente carente de suspenses psicológicos sofisticados como aqueles entre as décadas de 40 e 60 referenciados e homenageados por Minghella.

Ao assistir o trailer de As Duas Faces de Janeiro a fotografia clássica juntamente com o estilo literário já conhecido da autora Highsmith, gerou uma grande expectativa pela estréia de Hossein, e referências à obra de Minghella foram inevitáveis. A tentativa de repetir a fórmula de sucesso da adaptação de O Talentoso Ripley são tão evidentes que um dos produtores executivos é Max Minghella, filho do falecido diretor.

Realmente não dá para evitar comparações, mas ao invés delas se tornarem referências nostálgicas e até uma excelente oportunidade para homenagear Minghella e os méritos alcançados por ele em um dos seus últimos grandes filmes, tudo se transforma numa experiência bastante frustrante em muitos aspectos.

A narrativa condensada, o suspense envolvendo o passado desconhecido dos personagens e acontecimentos chaves que ocorrem em momentos exatos logo na primeira meia hora conduzidos pela trilha sonora de Alberto Iglesias com grandes referências a Bernard Herrmann em Psicose (Psycho, 1960) claramente conduzem e preparam o espectador à atmosfera esperada. Mas infelizmente a robustez desse início perde a força quando o roteiro entra em um platô superficial que não ousa em momento algum abusar do passado e dos conflitos psicológicos individuais dos personagens que justifiquem de fato suas atitudes e os posicionem na trama como acontece no livro, principalmente a respeito de Rydal, o ângulo reto do triângulo que se forma.

O título do filme se refere ao deus romano de duas faces, Jano (ou Janus), guardião das transições, das portas, das decisões e do início, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro. Essa figura romana representa o ajuste de contas que Rydal fará com seu passado ao enfrentar as decisões perigosas do presente, além da história ocorrer no início de Janeiro, que também simboliza a oportunidade do grande recomeço na cultura popular. Na obra de Highsmith, essa associação do título com a trama se revela quando Rydal encontra uma estranha e penosa semelhança de Chester com seu falecido pai, e de Colette com uma garota por quem ele foi perdidamente apaixonado na adolescência. A transferência dessas duas fortes figuras de sua vida no casal é o que leva Rydal se manter próximo a eles na inconsciente busca pela resolução de sua traumática relação com seu detestável pai, e no romance interrompido com a garota na adolescência.

Motivos tão importantes como esses e as verdadeiras fundações de toda a trama não são exploradas da forma devida. Há apenas breves referências a respeito da semelhança física de Chester com o falecido pai de Rydal, sem maiores desenvolvimentos que esclareçam ao espectador o motivo dessa transferência de personas tão forte e a relação de amor e ódio que cresce entre eles. Os principais macroacontecimentos no filme seguem a mesma cronologia do livro, com algumas alterações que até beneficiariam a adaptação dentro do gênero proposto caso a atenção devida aos problemas já mencionados tivessem sido dados, mas ao contrário do suspense psicológico bem orquestrado do livro, tudo se transforma em uma história de crimes passionais comum no filme, com perseguição policial tola e um triangulo amoroso formado da maneira mais simples possível que explora uma ingenuidade de Colette inexistente, já que no livro sua infidelidade era recorrente. O resultado é um filme vazio, com um final banal que torna toda a trama redundante ao invés de significar o ápice dramático, a definitiva e esperada grande libertação de Rydal de seus conflitos, sua final jornada pela simbólica absolvição tão buscada.

Mesmo desenvolvendo um excelente trabalho, Viggo Mortensen tem seu talento deseperdiçado aqui por conta do filme esquecível que impressionantemente é. Kirsten Dunst ainda não aprendeu a ter uma postura sofisticada sem parecer estudante universitária, e como sempre suas melhores partes são quando as personagens sofrem maiores pressões. Desperdiçadas também são as locações na Grécia e Turquia, ao contrário do que foi feito por Minghella ao transformar a exuberância das paisagens italianas um grande adendo no misto de beleza e delicada crueldade contidas em O Talentoso Ripley. Oscar Isaac tem impressionantes momentos, talvez por conhecer a obra original e saber que seu personagem é muito mais complexo do que o roteiro apresenta, mas que para o espectador que é mal esclarecido por todos os 96 minutos, as atitudes de seu personagem soarão apenas como uma fixação vazia e romanticamente descabida, sem pretexto coerente algum.

CONCLUSÃO...
Uma adaptação banal e redundante para o espectador que foi muito mal introduzido e situado em todo o contexto, ao contrário da obra literária que conduz a história para um suspense psicológico baseado em um simbolo mitológico que justifica todo o ciclo dramático do personagem principal.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

PLURALIDADE SEM ESTEREÓTIPOS...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Deixe a Luz Acesa (Keep The Lights On)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ira Sachs
Elenco: Thure Lindhardt, Zachary Booth, Julianne Nicholson
País: Estados Unidos
Duração: 100 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Um jovem documentarista dinamarquês tem que lidar com as dificuldades de manter sua relação com seu namorado norteamericano, um advogado viciado em drogas e com grandes dificuldades de se reabilitar.

O QUE TENHO A DIZER...
O filme é dirigido pelo norteamericano Ira Sachs, com roteiro escrito por ele mesmo em parceria com o brasileiro carioca Mauricio Zacharias. Embora um diretor desconhecido no circuito comercial, já possui seis longas metragens no currículo. Zacharias foi responsável pelos roteiros de Madame Satã (2002) e O Céu de Suely (2006), dentre os mais conhecidos. Teve sua estréia no Festival de Sundance de 2012, o qual foi bastante elogiado, e ganhou o Festival de Berlim, além de ter concorrido ao Independent Spirit Awards. Foi um filme recorrente em festivais e ainda é em mostras internacionais do circuito GLBT pelo mundo.

Mesmo não dizendo isso em nenhum momento (nem ao menos nos créditos), curiosamente ele é baseado na vida do próprio diretor e sua complicada relação com Bill Clegg, um agente literário que publicou seu próprio livro de memórias, Portrait Of An Addict As A Young Man (2010), relatando as dificuldades que teve com seu vício nas drogas ao longo dos anos. Segundo o próprio diretor, ele ainda possui amizade com Bill, o qual o apoiou incondicionalmente na realização deste filme, o primeiro com referências autobiográficas na carreira do diretor.

A história vai girar em torno de Erik (Thure Lindhardt), um documentarista dinamarquês que vai para Nova York coletar relatos para sua nova produção a respeito do artista Avery Willard, e que passa a maior parte do seu tempo vago no telefone em grupos de conversa gay na intenção de esquecer seu ex-namorado e na possibilidade de conhecer alguma outra pessoa interessante. Entre sexos sem compromisso e encontros fúteis, acaba conhecendo Paul (Zachary Booth, de Damages), um jovem advogado que namora uma garota e tem dificuldades de assumir sua homossexualidade. Esse encontro acaba despertando uma paixão que faz com que Paul assuma sua sexualidade e também revele a Erik seu vício em crack. Erik, a princípio, acredita que Paul tenha controle sobre isso, a relação evolui para um casamento e, com o passar dos anos, aquilo que parecia um mero detalhe se transforma em um grande problema que interfere na sanidade e no relacionamento dos dois até atingir uma situação insustentável.

Embora o filme tenha temática gay e até trate de alguns assuntos recorrentes e que serão bastante familiares para a audiência homossexual masculina, como a poligamia, a falta de comprometimento, a superficialidade sentimental e material existente nos guetos, além da constante sombra da Aids, ele é bastante realista e verdadeiro na retratação das dificuldades sofridas pelos personagens como pessoas e não como exemplos ou pontos de referência, o que felizmente os deixam longe das estigmatizações ou estereotipações comumente vistas em filmes do gênero. Sutilmente o filme até brinca com determinados preconceitos logo no início, quando vemos Erik ao telefone agindo de forma bastante promíscua e depois com o comportamento sofisticado de Paul, para depois a história nos mostrar como é fácil nos enganarmos com as aparências.

Por um lado temos Erik que tem de lidar com sua obsessão por Paul, e por outro temos Paul que precisa aprender a lidar com o seu vício que aumenta todas as vezes que Erik tenta controlá-lo. Como enredo isso parece algo bastante simples, mas desenvolve uma história de dois círculos viciosos que se interceptam formando um elo que nunca poderá ser rompido unilateralmente. Os dois sofrem psicologicamente com esses dilemas, e tudo se desenvolve de forma bastante densa em meio a sexo, drogas, amor, vida, amigos e os argumentos entre tudo isso, fórmula pronta para o melodrama, mas o diretor e roteirista tiveram cuidado em não transformá-lo em um. Ao invés disso, o que vemos entre os anos de 1998 a 2006 na história, divididos em quatro partes, é justamente o que faz as dependências de Erik sobre Paul, e de Paul sobre as drogas, existirem. Essas idas e vindas e a repetitividade das situações ocorrem cada vez com maior intensidade por conta dos desgastes passados e das novas incertezas futuras. Eles se amam, e isso é evidente, mas o amor apenas não é o suficiente, independente dos esforços. O amor também é mostrado na sua forma mais pura e verdadeira, sem clichés românticos ou ideais, com cenas de sexo que poderão parecer explícitas para a audiência que se choca com maior facilidade, mas são muito mais eróticas e sensuais do que obcenas, pois são verdadeiras e representam a transparência da relação entre os dois personagens, e ao invés de serem dispensáveis, se tornam um forte complemento narrativo.

O roteiro de Zacharias também consegue explorar nuances sexuais e observacionais do cenário gay das metrópoles de uma forma bem menos americanizada do que poderia ser caso o roteirista fosse norteamericano, até mesmo pela variedade étnica que vemos e a referência direta à pluralidade social em todos os aspectos, algo que apenas um brasileiro saberia compreender o que isso significa e transpor para um roteiro de uma forma tão bem organizada como ele faz neste filme.

O elenco, mesmo formado por poucos conhecidos atores, talvez seja um dos maiores atrativos. Segundo o diretor, ainda há uma imensa dificuldade nos Estados Unidos em encontrar atores que se disponham a realizar filmes com cenas homossexuais românticas ou eróticas por conta de um conservadorismo recalcado que pesa sobre a indústria. Avy Kaufman foi a responsável pelo elenco. Ela foi a mesma a escalar o elenco de O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005). Mesmo com esta importante bagagem no currículo teve dificuldades em completar o casting. Eles acreditam que tanto os atores quanto seus agentes consideram os papéis nesses projetos um carimbo que os deixariam inelegíveis para futuros grandes papéis. Um grande preconceito que, segundo o diretor, seria bastante minimizado se a produção tivesse sido filmada na Europa e para o público europeu, mas aí a intenção não teria sido a mesma. O casal de atores principais pode ser convicente, mas a interpretação do dinamarquês Thure Lindhardt beira a perfeição nos sistemáticos detalhes que ele embutiu no personagem e que o identificam claramente na história, além de darem uma personalidade única com uma imagem ríspida e bastante masculinizada, mas com atitudes e expressões tão delicadas e sutis que por muitas vezes é impossível não se emocionar.

A linha temporal é dividida em quatro partes, com um espaço de três anos entre uma e outra, sendo esta a única referência de tempo que temos, pois entre uma parte e outra a passagem dos anos é notada apenas na narrativa e em algumas situações. Os cortes da edição são bruscos, há raras cenas de transição durante o filme todo. Então, uma cochilada é suficiente pra deixar muita gente perdida no espaço temporal do filme quando acordar.

Vale dizer que uma pequena parcela do ainda sim baixíssimo orçamento do filme foi pago através de doações realizadas ao Kickstarter por mais de 300 pessoas. E a título de curiosidade, o desconhecido e importante artista citado no filme (Avery Willard) realmente existiu. Ele foi um fotógrafo, cineasta, editor e ativista que, dentre seus trabalhos, está a retratação do cenário gay novaiorquino entre as décadas de 70 e 90 sob o pseudônimo de Bruce King. Uma biografia mais detalhada por ser encontrada AQUI. Durante o desenvolvimento do filme o diretor conseguiu material suficiente que posteriormente se transformou no documentário de curta metragem In Search Of Avery Willard (2012), dirigido por Cary Kehayan.

CONCLUSÃO...
Um filme realista e bastante interessante que, mesmo tendo abordagem homossexual, trata de assuntos bastante corriqueiros e universais na sociedade jovem atual, além de conseguir se abster de estrereótipos para contar uma história com diversas situações paralelas sem soar cliché ou parecer que foi feito para públicos específicos graças a articulação do roteirista brasileiro e da ampla abordagem social do diretor.

sábado, 23 de agosto de 2014

O ESPELHO DA RELAÇÃO...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Complicações do Amor (The One I Love)
Ano: 2014
Gênero: Comédia, Fantasia, Drama, Romance
Classificação: 14 anos
Direção: Charlie McDowell
Elenco: Mark Duplass, Elisabeth Moss, Ted Danson
País: Estados Unidos
Duração: 90 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Na tentativa de recuperar um casamento que está nos seus últimos suspiros, um casal resolve passar um final de semana em uma casa de campo para tentar recuperar o que resta, chocando frente a frente com os sucessos e fracassos de cada um.

O QUE TENHO A DIZER...
O que aconteceria se um casal tivesse a oportunidade de poder voltar a encontrar em cada um deles a essência daquilo que os deixaram apaixonados um pelo o outro? E como reagiriam se pudessem trocar o que são pelo que já foram? É essa a questão levantada na estréia tanto do diretor Charlie McDowell, quanto do roteirista Justin Lader. Mas ao contrário do que se espera, apesar de alguns tropeços aqui e alí, o filme é muito bem dirigido e o roteiro foi basicamente técnico, com apenas 50 páginas, já que a dupla de atores foi incentivada pelo diretor e pelo roteirista a improvisarem boa parte dos diálogos para manter um nível de cumplicidade maior e que com certeza são sentidas pelo espectador.

A história começa com relatos do casal a um terapeuta sobre a forma como se conheceram, como se apaixonaram e o esforço que ambos agora encontram para reinventar coisas que deem satisfação aos dois e a continuidade da relação. Esse início é bem parecido com A História de Nós Dois (The Story Of Us, 1999). Mas essa semelhança é interrompida logo depois de 4 minutos de filme, quando recebem uma proposta do terapeuta de passarem alguns dias em uma casa de campo, lugar onde muitos casais voltaram renovados, segundo ele mesmo diz. Até então imagina-se que esta será mais uma comédia romântica qualquer. Ledo engano para quem acreditar nisso.

Embora seja uma comédia romântica, também é um drama muito pontual com pitadas de uma ficção fantástica incorporada pelo roteirista apenas para os personagens, ao mesmo tempo que expressam seus sentimentos, também conseguem vê-los do lado de fora da relação quando se confrontam com aquilo que eles já foram, a essência de suas relações e como tudo seria se fosse diferente.

Embora o fenômeno principal que ocorre no filme já é revelado ao espectador logo nos primeiros 15 minutos, dizer logo de cara o que acontece pode tirar a breve e interessante expectativa que a história constrói.

Claro que dentro da proposta de Lader, os personagens irão lidar com sentimentos universais e assuntos corriqueiros de uma relação quando esta já se estagnou pela sua rotina ou pela confiança perdida por conta de alguma decisão errada tomada por uma das partes. Isso não é nada diferente do que outros filmes do gênero já fizeram, mas o diferencial aqui é a forma como Lader dispõe essas discussões e conflitos, e como ele articula tudo de maneira bastante incomum, original e envolvente, fugindo completamente dos clichés. E de situações que para o espectador normalmente seriam bastante familiares em outros filmes, se tranformam em uma experiência completamente distorcida do comum, e dentro dessa esquisitice existe um grande e curioso atrativo.

Com excessão de Ted Danson no papel do terapeuta, desconheço completamente demais trabalhos do casal de atores Mark Duplass e Elisabeth Moss. Duplass é também o produtor do filme juntamente com seu irmão Jay Duplass, e Elisabeth é a estrela do seriado Mad Man. O desempenho dos atores é fundamental para o desenvolvimento da história. Eles não apenas são bastante convincentes como um casal disposto a reconstruir a relação por respeito aos sentimentos verdadeiros que um sente pelo outro como também convencem mais ainda quando representam versões melhores deles mesmos. A edição do filme também foi fundamental para que os diálogos e as diferentes personalidades sejam mostradas sem confusão.

Sem dúvida o grande ponto positivo de todo o filme é a forma como o fantástico é embutido no conflito do casal, criando uma outra dimensão não apenas a eles como também ao espectador, erguendo questões fundamentais e uma forma diferente de se discutir a constante busca pela plena felicidade e os rumos que naturalmente levam a esse insucesso, bem como os excessos, ausências e a constante busca pelo novo e excitante, nos levando a decisões precipitadas para a satisfação momentânea, mas que nunca evitará, por fim, o mesmo fim. Nesse aspecto o filme também se assemelha à moral de Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011), mas ele não chega a ser tão dramático quanto o filme de Sarah Polley graças ao humor contido na surreal situação em que Ethan e Sophie se encontram.

Infelizmente o clima é quebrado quando o roteiro tenta, de alguma forma, dar explicação ao inexplicável que acontece, e no fim das contas essa redundância deixa tudo mais confuso do que a princípio já era, e aqueles que tentarem encontrar uma justificativa para tudo vai perder tempo e o foco principal da história.

CONCLUSÃO...
Uma história comum, com discussões comuns, dentro de acontecimentos surreais em um filme que, a princípio, é esquisito, mas quando abstrai-se o absurdo e compreende-se que ele foi apenas uma ferramenta para que os personagens possam conflitar saudavelmente entre si, a essência do filme é bastante relevante e atual, e o final acaba surpreendendo.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

VIRA VILÃ, VIRA HEROÍNA...

★★★★★☆☆☆☆☆
Título: Malévola (Maleficent)
Ano: 2014
Gênero: Fantasia
Classificação: Livre
Direção: Robert Stromberg
Elenco: Angelina Jolie, Elle Faning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Stauton, Juno Temple, Sam Riley
País: Estados Unidos, Reino Unido
Duração: 97 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma variação da história de A Bela Adormecida, dessa vez mostrada pelo ponto de vista da fada má, conhecida como Malévola.

O QUE TENHO A DIZER...
Malévola é o primeiro filme dirigido por Robert Stromberg, que já chegou a ganhar dois Oscars em Melhor Direção de Arte por Alice (Alice In Wonderland, 2010) e Avatar (2009).

O filme vai contar a história da Bela Adormecida pelo ponto de vista da fada má conhecida como Malévola, e se tem alguém que ainda não conhece esse conto de fadas da Disney é porque ainda não nasceu.

O que pouca gente sabe é que a versão que conhecemos é apenas mais uma variação de diversas versões e variações que a história sofreu durante os séculos. A primeira versão publicada é datada de 1528 e, da mesma forma, acredita-se que seja mais uma variação herdada de contos populares de origens desconhecidas. As versões mais famosas, além da versão da Disney, são as dos irmãos Grimm e a de Charles Perrault.

Tanto as histórias dos irmãos Grimm (sim, eles mesmos fizeram várias versões) quanto a versão de Perrault, são muito mais obscuras do que o conto de fadas adaptado pela Disney. Na versão de Perrault, a princesa chega até a ser estuprada por um rei, a engravidar e dar a luz, tudo durante o seu sono eterno que apenas é interrompido quando tem seu indicador chupado pela sua filha pequena, que suga a maldição injetada pela agulha da roca de fiar.

Não é possível ignorar o fato de que, mesmo tardio, o filme tenta pegar carona no sucesso de Branca de Neve e o Caçador (Snow White And The Huntsman, 2012) e pela rainha má do filme, vivida por Charlize Theron, ter chamado mais atenção do que a própria heroína e a história (lamentáveis por sinal). E é claro que depois de Shrek (2001/2004/2007) é impossível levar um conto de fadas a sério novamente e por essa razão a história mostrada aqui sofreu novas mudanças para se afastar da já conhecida e batida história da Disney, o que fica claro que Malévola é mais uma variação de diversas outras variações, sendo esta a pior delas, sem dúvida alguma.

A idéia principal é até interessante, e o alvoroço sobre o "retorno triunfal" de Angelina Jolie depois de quatro anos conseguiu alavancar o sucesso de bilheteria. Mas a verdade é que não há muita coisa que salve o filme de sua qualidade mediana, nem mesmo a própria atriz.

O filme começa com Malévola sendo apresentada como a fada das fadas, a única com as características que ela tem. Uma garota alegre, feliz, que mora em Moor, um território mágico e colorido almejado pelos homens comuns por conta de riquezas que o lugar esconde. Ela desconhece completamente a maldadade até se apaixonar por Stefan, um jovem plebeu do reino dos homens que a conhece quando criança e a beija pela primeira vez na adolescência, sumindo por anos depois disso. Com a promessa do rei de se tornar seu sucessor aquele que matar Malévola e o reino mágico ser conquistado, Stefan volta para a terra de Moors e, incapaz de assassina-la, arranca suas asas para provar ao rei sua vitória. Enganada, traída e usada, Malévola conhece o ódio pela primeira vez. É por esse ódio que toma conta que ela se torna a vilã que conhecemos. Bom... até certo ponto.

Malévola sempre foi, dentro do conto de fada da Disney, uma vilã sem passado para que julguemos que sua maldade seja uma característica nata. Dar um passado a ela agora deveria ter sido o foco principal e não apenas uma breve introdução. Por conta disso o filme já começa incoerente na forma como esse background doce e inocente do passado da personagem é apresentado, primeiro porque, sem qualquer razão de ser, ela é uma fada boa que possui fisionomia demoníaca e um nome que já carrega em si o significado da maldade. É a mesma coisa que ir pro céu e o anfitrião dizer "Bom dia, meu nome é Satanás". Ou seja, não cola. Não dentro do mundo perfeito e dicotômico da Disney. Frente a tantas mudanças estruturais que a história sofreu, teria sido mais coerente se a imagem da personagem tivesse passado por uma transformação resultante dessa força obscura que lhe tomou conta, e Malévola um pseudônimo adotado para representar toda mudança de caráter. 

Essa insistente mania de Hollywood em vitimizar vilões ou antagonistas para provar que a maldade pode ser transformada e assim morais sejam pregadas, exemplos negativos sejam evitados e apelações dramáticas existam, são os grandes inimigos de qualquer história quando utilizados de forma tão banal como é aqui, porque para Malévola ser personagem principal de um filme ela precisa ser uma heroína, mas como fazer isso com alguém que classicamente é uma das maiores e mais relembradas vilãs dos contos de fada? Dêem a ela o remorso e o arrependimento e assim de vilã ela vira heroína, o mais velho brinquedo da Disney.

A inabilidade do diretor, bem como o roteiro bem aéreo, não souberam ser hábeis o suficiente para dar uma maior percepção de passagem de tempo e profundidade na história, além de outras situações esquisitas como o reino humano e o reino mágico viverem em constante conflito, mas quando princesa Aurora nasce, mesmo sabendo que Malévola ainda vive, o rei Stefen não apenas convida as fadas de Moor para a festa como elas são incumbidas de cuidarem da criança. Ok, isso faz parte dos contos que conhecemos, mas é encaixado com esforço no meio dessa história. Esse é talvez o maior e mais incoerente buraco.

Realmente faltou uma evidente atenção no roteiro, isso porque ele foi escrito por Linda Wooverton, que no passado escreveu os excelentes A Bela e a Fera (Beauty And The Beast, 1991) e O Rei Leão (The Lion King, 1994), ambos da Disney. Explorar a imagem da atriz pode ter ajudado o filme, e a atenção visual dada pessoalmente por ela durante a produção também fizeram grandes diferenças na personificação da vilã, mas isso apenas não basta, até porque a presença de Angelina é sempre muito forte, mas ela nunca foi mais atriz do que estrela. Nem mesmo houve cuidado com os efeitos especiais que mais parecem uma animação mal feita em muitas vezes do que algo grandiosamente competente, como visto em O Senhor dos Anéis, por exemplo. Isso porque uma das experiências profissionais no currículo do diretor é como Supervisor de Efeitos Visuais.

Poderia ter sido um filme memorável e muito mais grandioso do que é caso não tivesse sucumbido às hoje antiquadas filosofias da Disney sobre suas produções, além de ainda acreditarem que a imagem de Jolie compensa um roteiro mal acabado. O resultado de tudo é apenas uma oportunidade para a atriz novamente ser caricata, usar seu horroroso e falso sotaque britânico e mostrar que o que ela realmente gosta é de personagens sombrias.

CONCLUSÃO...
Não vai fazer diferença para o público infantil, mas se a intenção foi de também conquistar o público adulto, ele falha com muita certeza. Apenas os fãs da atriz serão capazes de inventar qualidades para o filme que, em sua essência, pode até ter um ou outro momento, mas não cheira e nem fede, além de estar longe de ser uma variação relevante de um dos contos mais famosos do mundo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

PARAÍSO DAS DESCOBERTAS E DAS FRUSTRAÇÕES...

★★★★★★★★★☆
Título: Paraíso: Esperança (Paradies: Hoffnung)
Ano: 2013
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ulrich Seidl
Elenco: Melanie Lenz, Joseph Lorenz
País: Áustria, França, Alemanha
Duração: 92 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Enquanto sua mãe, Teresa, está passando o feriado no Quenia e sua tia, Anna Maria, está curtindo suas férias em penitência, Melanie vai para um acampamento de jovens para emagrecer e a dar seus primeiros passos nas descobertas e frustrações adolescentes.

O QUE TENHO A DIZER...
Esperança (Hoffnung, 2013) é, por fim, a última parte e a conclusão da trilogia Paraíso (Paradies), de Ulrich Seidl, com roteiro escrito por ele e sua mulher, Veronika Franz. 

A história acontece paralelamente às duas partes anteriores. Melanie, filha de Tereza e sobrinha de Anna Maria, vai para um acampamento de jovens enquanto sua mãe passa os dias de feriado em uma praia paradisíaca na costa do Quenia redescobrindo uma vida sexual cheia de decepções, e sua tia fica de férias do trabalho para pregar a palavra divina e oprimir seus próprios desejos carnais.

A princípio tudo parece nada demais no início dessa terceira parte, e como já foi exposto de forma muito breve e implícita na primeira parte da trilogia, Melanie é uma adolescente de 13 anos que lida com uma ausência paterna que não é esclarecida e que tem uma relação um tanto distante com sua mãe, caracteristicas bastante recorrentes e comumente vistas atualmente, pois essa sociedade moderna é a alma principal das análises de Seidl na trilogia.

O comportamento da personagem é como o de muitas outras garotas de sua idade. É desleixada, preguiçosa, sedentária e que passa seu tempo livre dentro de seu quarto mexendo em seu celular, o que não seria diferente no acampamento. Em um primeiro momento essa falta de ordem realmente chega a ser irritante até para o próprio espectador, que logo percebe que a adaptação da garota não será muito fácil por conta da rígida disciplina cobrada pelos monitores, mas nada que limita esse grupo de jovens a ter seus momentos de diversões e descobertas até mesmo fora de hora, situações que nunca são tratadas de maneira proibitiva pelos superiores, mas repreendidas com ponderação justamente para que eles aprendam determinados valores e limites necessários para o desenvolvimento do respeito e a educação.

Ir para o acampamento e conhecer outros adolescentes de sua idade e relativamente com os mesmos problemas é simbolicamente o grande momento em que a personagem deixará de ser uma menina para finalmente se deparar com as verdadeiras descobertas da adolescência. As trocas de confidências revelam no grupo que Melanie é a única virgem entre suas colegas de quarto e que nem ao menos sobre o beijo ela conhece além daquilo que observa nas pessoas a sua volta. De certa forma isso a coloca em uma posição desafiadora porque os testemunhos alheios despertam curiosidades e vontades que ainda permaneciam adormecidas em sua ingenuidade. É o momento em que Seidl começa a vagarosamente soltar seu arsenal de simbolismos e como cada vez mais está inevitável que os adolescentes sejam expostos a decisões e comportamentos precoces, bem como nenhum ambiente também os privarão de perigos e tendências desvirtuosas quando vemos o que acontece dentro do acampamento ou fora dele, em uma das noites em que Melanie e sua amiga resolvem "fugir" para se divertirem em um bar nas proximidades.

De maneira proposital ou não, talvez por lidar com um tema tão delicado como é a essa fase da vida, as descobertas, valores e como tudo isso implica na vida adulta futura, o diretor é bastante sutil e delicado no desenvolvimento do filme, mas ainda firme em suas abordagens e propósitos, principalmente quando coloca no caminho de Melanie um homem que representará a perda de sua ingenuidade.

O primeiro contato entre a Melanie com o médico do acampamento, e o tratamento especial dado por ele, despertam nela multiplos sentimentos que se transformam em confusas fantasias e expectativas. Pela ausência paterna e por estar sozinha em uma ambiente desconhecido, ela enxerga nele uma figura masculina segura que lhe falta, e por ser um desconhecido que a trata com certa proximidade sentimental, suas vontades sexuais naturalmente afloram. Ao mesmo tempo ela não enxerga a forte tendência pedófila que é conscientemente contida por ele, tentada a todo momento pela insistente persistência de Melanie em conquistá-lo com sua natural e incorrompida sexualidade que desabrocha. A diferença é que ele já é um homem esclarecido e maduro, e ela uma adolescente que ainda desconhece determinados limites. 

O interessante é que Seidl é tendencioso na condução de suas cenas, e mesmo sabendo do grande erro que seria caso a relação entre os dois personagens se consumasse, as situações são construídas de forma a nos convencer de que, no fundo, é isso o que esperamos e queremos que aconteça, nos colocando tanto na condição dela quanto dele. Essa perspectiva desafiadora do diretor deixa o próprio espectador em conflito e a se questionar até que ponto somos capazes de nos manter racionais, a não cairmos em tentações e nos livrarmos do mal, amém. Não é à toa que, em uma das sequencias mais tensas do filme, o médico cheira o corpo de Melanie que está esticado e inconsciente em um bosque, e ele o faz como um cachorro a farejar uma carcaça. Essa foi a metáfora mais clara do diretor para o despertar de nossos instintos mais animais e irracionais, uma cena perfeita que conclui com muita coerência e exatidão a idéia exposta no prólogo do primeiro filme sobre a inconsciência de nossos atos ser tal qual uma demência.

Depois de tanta densidade nos dois filmes anteriores, a apreensão pelo pior é inevitável. O espectador fica um tanto tenso na espera de que a qualquer momento algo muito chocante possa acontecer não apenas pelas condições em que os personagens se encontram, mas também pela maneira densa, precisa e estática como elas são mostradas, muito mais do que em Fé.

Para quem assistiu as duas primeiras partes da trilogia, notará que visualmente este filme é (felizmente) o menos chocante dos três, mas nem por isso deixa de ser forte e impactante.

De certa forma a história de Melanie e seus primeiros passos no mundo das descobertas e frustrações também é bastante parecida com aquelas sofridas por sua mãe no Quenia em Amor, o que nos remete a também pensar na perpetuação dos erros e sofrimentos pelas gerações seguintes, como se fosse uma condição genética. A grande diferença é que, nessa história, há diversas esperanças, incluindo a de que isso não ocorra mais.

CONCLUSÃO...
Siedl novamente não hesita em levantar questões sobre os problemas do mundo moderno, concluindo com chave de ouro uma trilogia de filmes que possuem diferentes histórias em diferentes locais e situações, mas todas dentro de um mesmo contexto. Amor, Fé e Esperança podem ser diferentes, mas todos eles se complementam não apenas no signficado da palavra que seus títulos carregam, mas também são a alma de três brilhantes histórias que exemplificam através de uma intensa linguagem semiótica social e comportamental coerente todos os mais diversos e complexos comportamentos humanos.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

PARAÍSO DA FÉ E DA CARNE...

★★★★★★★★☆☆
Título: Paraíso: Fé (Paradies: Glaube)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ulrich Seidl
Elenco: Maria Hofstatter, Nabil Saleh
País: Áustria, Alemanha, França
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Anna Maria é uma devota cristã que realiza seus trabalhos diários em casa e fora dele, bem como peregrinações levado consigo uma imagem de Virgem Maria e a palavra divina, julgando e condenando as decisões e os prazeres alheios, e pagando suas penitências para que possa continuar realizando o seus próprios pecados.

O QUE TENHO A DIZER...
Fé (Glaube, 2012) é a segunda parte da trilogia Paraíso (Paradies), do austríaco Ulrich Seidl, com roteiro escrito por ele e pela sua mulher Veronika Franz.

Enquanto na primeira parte da trilogia, Amor (Liebe, 2012), foi possível ver as experiências sexuais caóticas e não muito agradáveis de Teresa em sua viagem na costa paradisíaca do Quenia, nessa segunda parte veremos a história de sua irmã, Anna Maria, uma católica devota que, durante suas férias, passará seu tempo fazendo aquilo que mais gosta: seja cantando músicas sacras; seja em suas reuniões com seu grupo particular de orações; seja peregrinando pelos bairros pobres de Viena com uma imagem de 30cm de Virgem Maria, batendo de porta em porta na casa de estrangeiros pagãos para pregar a palavra divina; ou seja quando, confrontada pela descrença ou por atos pecaminosos testemunhados, ela se martiriza com penitências ortodoxas para evitar sucumbir às tentações que eles despertam, e não porque as ofendem.

Como muito bem dito por Nick Pinkerton, o prólogo de Amor talvez seja a maior definição sobre o que é a trilogia Paraíso e a condição humana que cerca seus personagens quando vemos os deficientes mentais se batendo desordenadamente uns aos outros com os carros elétricos no parque de diversões, onde as câmeras capturam objetivamente os choques e as reações de cada um deles, nos mostrando metaforicamente como nos chocamos violentamente uns contra os outros sem qualquer compreensão dos motivos e razões de fazermos isso. Se em Amor temos uma personagem se chocando com pessoas, culturas e a ausência de sentimentos sem muita consciência das razões de fazer isso, em Fé temos outra personagem se chocando contra ela mesma e com diferentes crenças e interpretações, com uma visão bastante intransigente que a aliena sobre as realidades e os motivos de agir dessa forma.

A história acontece em paralelo com a viagem de Teresa ao Quenia. Logo na primeira cena vemos Anna Maria se autoflagelar com uma chibata diante do crucifixo de um quarto tratado com esmero tal qual uma sagrada capela, ao mesmo tempo que também é sua sala particular para suas torturas, autopunições e castigos, já que, trancado em um armário, Anna esconde os mais diversos e bizarros instrumentos utilizados de maneira meticulosa para diferentes penitências. Assim ela acredita provar, através de sua carne e sangue, que sua devoção é maior do que suas mais íntimas vontades carnais e seus mais profundos desejos mundanos. Um presídio dentro de sua própria casa, a representação de sua doente psiquê e de como o mundo deveria ser, além de uma necessidade sagrada de estar dentro dele.

Novamente Siedl não poupa em ser chocante e constrangedor e nesse filme o seu estilo realista se mantém, mas de forma mais fria e distante. No primeiro filme tínhamos um leve e quase imperceptível humor dramático que a própria personagem carregava consigo, aqui não há espaço para isso. Há apenas um drama carnal que cresce progressivamente conforme Anna se confronta mais e mais com seus temores e o diretor consegue ser bruto e chocante tanto em cenas explícitas quanto naquelas implícitas, de tão forte como ele utiliza os ícones e a maneira que são representados nas cenas.

Em um determinado momento a personagem acredita estar sendo testada por Deus, pois ao invés de sentir mudanças relativas aos seus incansáveis esforços religiosos, ela só recebe em troca o descaso libertino ou o inadvertido retorno de seu marido paraplégico, um muçulmano que estava ausente há dois anos (talvez) pela intolerância ao fanatismo religioso de Anna.

Seidl usa esse conflito entre religião e sexo frequentemente para dar vazão a demais simbolismos que levam a outras relevantes discussões, bem como a hipocrisia que os acompanha, como o fato de Anna encontrar em seus rituais diários uma válvula de escape para seus medos particulares, em um fanatismo religioso que, como já dito, leva a personagem a alienar-se sobre as realidades e os próprios pecados cometidos. Mesmo quando consciente disso, ela acredita que sua purificação virá através da penitência. Esse círculo vicioso lhe dá o direito de agir livremente, assim como faz quando invade a casa das pessoas durante suas peregrinações. Sua presença chega a ser tão invasiva e brutal que é impossível não considerá-la como um estupro, sugerindo o sadismo subliminar da personagem, tal qual suas punições e autoflagelamento, métodos nos quais ela sente estar mais próxima da figura divina, quando na verdade é o prazer sadomasoquista que compensa a ausência dos prazeres sexuais em si.

A integral devoção de Anna à imagem de Jesus Cristo também deixa de ser uma fé quando vista dentro deste conceito, e passa a ser a representação da sua imagem particular daquilo que considera a figura masculina ideal dotada de um senso de justiça arbitrário, tal qual suas arbitrariedades sobre as coisas do dia a dia e pessoas que ela mal conhece.

Há também espaço para outras discussões, como o conflito caótico com seu marido, que também simboliza as questões sociais da intensa imigração de estrangeiros para a Austria, já que mais de 15% da população é imigrante, o que tem gerado ondas de intolerância e xenofobia, assim como uma preocupação também latente de um novo crescimento do anti-semitismo.

O filme foi recebido positivamente, onde muitos o consideraram um grande complemento à primeira parte da trilogia e uma excelente obra, porém difícil e perturbadora. Seus grandes problemas são em não defini-lo realmente como um acontecimento paralelo aos dois outros títulos e também nessa relação pouco esclarecida entre ela e seu marido.

De qualquer forma, o enorme número de simbolismos disponibilizados pelo diretor oferece possibilidade e liberdade para as mais diveras interpretações, o que também caracteriza o longa como bastante controverso e, ao mesmo tempo, um exercício de observação e associação com a realidade que vivemos. Talvez toda essa massiva simbologia utilizada não tenham sido tão intencionais como parecem, mas se encaixam perfeitamente dentro dos contextos tanto do filme como uma unidade, tanto como parte de um mesmo conceito.

CONCLUSÃO...
Muito mais denso e perturbador que a primeira parte da trilogia, sem dúvida Fé é um exercício de observação e associação com a realidade que vivemos devido aos inúmeros simbolismos utilizados e/ou que possamos identificar.

domingo, 10 de agosto de 2014

PARAÍSO DO SEXO E DAS DECEPÇÕES...

★★★★★★★☆☆☆
Título: Paraíso: Amor (Paradies: Liebe)
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos
Direção: Ulrich Seidl
Elenco: Margarete Tiesel, Peter Kazungu, Inge Maux, Dunja Sowinetz, Helen Brugat, Melanie Lenz
País: Áustria, Alemanha, França
Duração: 120 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
Uma mulher de meia idade resolve realizar um turismo sexual para um paradisíaco resort na costa do Quênia juntamente com outras mulheres da mesma faixa etária.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido por Ulrich Seidl com roteiro escrito também por ele juntamente com sua mulher, Veronika Franz. É a primeira parte de uma trilogia do diretor que contará três histórias paralelas. Por ter sido um filme com roteiro realizado fora dos padrões estéticos convencionais por conta do teor documentado proposto, o diretor chegou no fim das filmagens com material suficiente para mais de cinco horas de filme. Durante as edições percebeu-se que as histórias paralelas não tinham força para manter umas às outras dentro de um único contexto, e foi então que ele decidiu separá-los em três filmes distintos, já que cada um deles vai contar três episódios de três personagens, que ocorrem em três cenários diferentes, mas dentro de um mesmo espaço de tempo.

A história desse filme mostrará a viagem de Teresa (Margarethe Tiesel), uma austríaca de 50 anos que resolve passar alguns dias em um paradisíaco resort africano no litoral do Quenia juntamente com outras mulheres solteiras, viúvas ou desquitadas, dentro da mesma faixa etária e igualmente bem estruturadas financeiramente, que viajam para se aproveitar do intenso turismo sexual já conhecido por algumas.

Embora bastante independente e financeiramente estável, Teresa é uma mulher solteira e solitária, frustrada sexualmente em suas relações anteriores, e que não possui grandes preocupações além da sua casa, sua gata, sua filha e sobre algumas pressões sociais recorrentes na cultura ocidental a respeito dos padrões de beleza e estética.

No primeiro dia de viagem uma de suas amigas comenta sobre a facilidade de conhecer homens locais para sexo e que todas as mulheres austríacas os atraem independente do biotipo ou da idade, pois são bastante diferentes das mulheres locais. Teresa se envergonha sobre o assunto por conta de sua ingenuidade e inexperiência, embora sua curiosidade passe a ser alimentada por fantasias que ela nunca expressa.

Após uma frustrante tentativa de conhecer o primeiro homem na viagem, um segundo, chamado Munga, se aproxima de forma muito delicada e solícita que a cativa. Ele faz questão de andar de mãos dadas com ela pela cidade, dizendo que a ama e o quanto ela é atraente, o que inevitavelmente a leva a se apaixonar por ele. Alguns dias depois Munga mostra algumas realidades do precário modo de vida das pessoas, e solicita ajuda financeira para seu sobrinho que está internado, para a irmã que tem dificuldades e para a professora da escola local. Tereza doa grandes quantidades sem questionar, mas uma noite ele se nega a ter relações sexuais com ela dizendo que o dinheiro dado foi pouco, e que por isso ele a proibe de tocá-lo. Tereza vai embora e nunca mais tem notícias dele, até flagrá-lo na praia com sua mulher e filhos. E essa mesma história se repete com os demais homens que ela conhece por lá.

Desde o princípio o espectador sabe que a abordagem de Munga, bem como dos demais sobre ela e as outras mulheres, é apenas para explorar sua vulnerabilidade como turista, de sua carência e de uma certa ingenuidade que persiste em existir, e o momento em que Tereza é negada é o choque que ela tem com a realidade em perceber que esses homens são prostitutos que se aproveitam dessas suas fraquezas tanto quanto os homens antes dele também já fizeram. Esta situação rende uma das cenas mais dramáticas do filme, e do sentimento explícito da personagem de ter sido abusada, explorada e enganada mais uma vez.

Para quem assiste o filme é fácil perceber que a abordagem que a personagem constantemente sofre é um meio de vida dos habitantes locais disfarçadas de alguma forma, já que a prostituição no Quênia é ilegal. Isso se deve por conta dos altos índices de pobreza e desemprego (a renda média de um queniano é de 4 euros) o que leva a crianças e jovens à precoce prostituição para ajudar seus familiares financeiramente, com comida e outras necessidades.

Embora a realidade mostre que os índices de prostuição sejam mais altos no sexo feminino e o cinema explore isso regularmente, o diretor inverte os papéis para mostrar um ignorado ponto de vista sociocultural sobre isso. Enquanto os homens entendem o sexo como uma necessidade fisiológica e fácil de ser consumada, as mulheres entendem como uma consequencia (ou um resultado) de uma afinidade emocional. Siedl criou uma história utilizando mulheres na meia idade para intensificar a inibição social que elas sofrem dentro da tendenciosa cultura machista que descarta aquelas que estão fora de padrões de beleza ditados pelo sexismo ocidental e, por isso, construindo uma narrativa que mostra que o turismo sexual buscado por elas tem objetivos bastante diferentes dos homens. Elas também buscam o sexo e pagam por ele para, como diz uma das personagens, serem vistas e aceitas pela sua essência, já que não são mais aceitas pela beleza física que não possuem mais.

Todas essas situações se tornam muito mais interessantes quando percebemos que, embora as necessidades sexuais entre homens e mulheres sejam diferentes, as condições machistas e abusivas dos homens sobre elas continuam as mesmas, independente das mulheres serem as que recebem pelo sexo ou as que pagam por ele.

A beleza do filme se dá por lidar com essas sutilezas e incompreensões da sensibilidade sexual feminina de uma sociedade estável e, em paralelo, as terríveis condições determinantes que levam uma população de vida tão precária a encontrar no sexo a única alternativa viável de renda mais do que uma resposta de um sentimento. Mesmo mostrando duas culturas e comportamentos sexuais completamente diferentes, e como eles se interceptam, todos continuam sendo vítimas de um mesmo sistema cruel que por um lado dita regras comportamentais e por outro dita as regras sociais.

A maneira documentada de filmagem que Seidl utiliza para mostrar esses paradoxos e atores que estão completamente fora de qualquer padrão de beleza comumente explorados no cinema são os mais próximos da realidade que poderiamos encontrar e que direcionam o espectador a cenas de nudez explícita e aproximações sexuais sem soar vulgar. O erotismo natural em nenhum momento aparenta abusivo ou fora de contexto, até porque os personagens, mesmos despidos, estão expondo seus sentimentos e vulnerabilidades de forma mais explícita do que o próprio sexo.

Os cenários naturais da costa índica africana, filmados nas praias de Mombaça, são deslumbrantes, e a fotografia realista, bem como o filme em si, se atenta a retratação do cotidiano em ações e diálogos, e aquilo que vemos no filme é exatamente aquilo visto pelo diretor, sem nada a acrescentar ou a retirar daquela realidade, tanto que o elenco masculino é de moradores locais e amadores. É um filme logo e lento, que não consegue evitar sua previsibilidade por ser verdadeiro, além de bastante corajoso na sua temática e nas construção das imagens, utilizando um leve humor dramático para amenizar toda a crueza de duas grandes diferentes realidades sociais e comportamentais, nunca esquecendo também de pontuar levemente algumas (in)tolerancias raciais.

O filme venceu os prêmios de Melhor Filme, Diretor e Atriz no Festival de Filmes da Austria, além de ter concorrido a Palma de Ouro em Cannes e em outros festivais internacionais. Foi muito bem recebido pela crítica, embora bastante comparado ao francês Vers Le Sud (2005) que também conta três histórias paralelas sobre três turistas que viajam ao Haiti com o mesmo objetivo.

CONCLUSÃO...
Mesmo longo e previsível, é um filme belo e amargo sobre confrontos culturais, sociais e comportamentais entre a razão e a emoção, a valorização de insignificâncias e a desvalorização das poucas importantes que restam.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O GRANDE SINTOMA DA IMPUNIDADE...

★★★★★★★★★☆
Título: O Ato de Matar (The Act Of Killing)
Ano: 2012
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos
Direção: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn, (anônimo).
Elenco: Anwar Congo
País: Dinamarca, Noruega e Reino Unido
Duração: 115 min.

SOBRE O QUE É O FILME?
O documentário desafia os ex-líderes dos esquadrões de morte anti-comunistas indonésios, que atuaram durante o golpe militar de 65, a reencenarem seus assassinatos em qualquer gênero cinematográfico que eles desejarem, desde cenários clássicos de filmes hollywoodianos a exuberantes números musicais.

O QUE TENHO A DIZER...
Dirigido pelos norteamericanos Joshua Oppenheimer e Christine Cynn, e por um indonésio anônimo, o documentário demorou seis anos para ser finalizado, muito embora, de certa forma, as pesquisas já tenham tido início já em 2001, quando Opphenheimer e Cynn começaram a se aprofundar sobre os crimes indonésios que ocorreram na década de 60.

Esses crimes foram resultado de uma série de ações militares realizadas na Indonésia durante os anos de 1965 e 1966, após uma fracassada tentativa de um golpe militar no governo de Sukarno, o primeiro presidente indonésio que estava no poder desde 1945, responsável pela independência do país contra a Holanda e que defendia ideais comunistas e nacionalistas. A tentativa do golpe teve início com o assassinato de seis Generais, e membros do exército ligados ao grupo comunista, que por sinal era apoiado por Sukarno, foram acusados dos assassinatos. O golpe não teve sucesso, mas serviu como um grande motivo para os grupos separatistas e anti-comunistas, junto com o apoio dos Estados Unidos, a oprimirem e impedir o crescimento de ações comunistas no país. Isso levou a Força Armada a liderar uma campanha opressora e uma caçada impiedosa aos revolucionários, o que levou a morte de mais de 500 mil civis, muito embora estima-se que os números possam chegar a quase 1 milhão até os dias de hoje já que a população indonésia é ainda coagida pelas forças militares e paramilitares, como a Pemuda Pancasila (ou Juventude Pancasila), grupo fundado pelos gangsters que lideravam os esquadrões anti-comunistas de extermínio e ainda em intensa atividade. Esses líderes criminosos nunca foram julgados e vivem em liberdade apoiada pelo próprio governo até os dias de hoje.

A princípio o diretor queria fazer um documentário que focasse apenas as famílias das vítimas e seus relatos, mas durante as entrevistas muitos deles acabaram sendo presos e as filmagens ficaram sem conclusões levando a produção a seguir outro rumo quando ex-líderes de grupos anti-comunistas demonstraram interesse em falar sobre o assunto como forma de promover e manter a memória de uma época que eles consideram importante para o fortalecimento da nação, julgando que as gerações atuais e futuras devem conhecer esta história sangrenta para dar continuidade e impedir que o comunismo se reerga, já que esse controle militar ainda atua de maneira avassaladora.

Os relatos são dados principalmente por Anwar Congo, um dos mais importantes líderes dos esquadrões de extermínio daquela época, responsáveis por um dos mais sangrentos massacres da História moderna contra civis, muitos deles julgados aleatoriamente, apenas para promover o medo e o terrorismo psicológico para oprimir as oposições. Mas Anwar foi apenas um deles. Ele, assim como todos os outros líderes de esquadrões de extermínio, eram pessoas comuns que foram convocados pelas Forças Armadas anti-comunistas, aos quais eram dadas total liberdade de caçar, julgar e matar.

Ao mesmo tempo que o filme é um documentário, também pode ser visto como um ensaio cinematográfico. Pelos executores serem grandes fãs do cinema hollywoodiano, material relatado por eles como a principal fonte de inspiração para os métodos de execução que utilizaram, Oppenheimer então propôs que eles reproduzissem seus crimes dentro dos gêneros cinematográficos preferidos. Anwar, que se auto entitula um gangster, afirma que que as sessões de tortura e assassinato realizadas por ele e seus comparsas eram fortemente baseadas naquelas mostradas nos filmes western ou sobre a máfia. De forma muito natural chega a declarar diversas vezes e sem remorso que eles eram muito mais cruéis, pois buscavam maneiras para superar a crueldade que viam nos filmes.

Anwar e seus amigos expressam para as câmeras suas experiências e relatam seus métodos criminosos através de memórias e sentimentos positivos sobre as execuções acreditando que todo o genocídio cometido foi para manter o rígido controle e a ordem do país. Aos poucos as cenas são reproduzidas em um estúdio e interpretadas pelos próprios executores, com direito a atores de apoio, maquiagem e cenários construídos de acordo com suas vontades. As filmagens acabam tomando forma e até elementos míticos são incorporados nas cenas para dar um tom mais cinematográfico para a história que é construída. Oppenheimer se aproveita disso de maneira muitas vezes sensacionalista mostrando as cenas de torturas e assassinatos como um grande sintoma da impunidade, o que ele consegue fazer muito bem.

Anwar Congo acredita ter matado sozinho aproximadamente mil pessoas, geralmente utilizando arame para estrangular suas vítimas das formas mais engenhosas possíveis. A ferramenta também foi inspirada pelos filmes, pois ele observou que era uma das poucas que aderiam à pele de tal forma que a vítima não teria oportunidade para se defender, tamanha a covardia das atitudes brutais. Com o tempo ele aprimorou a ferramenta com novas técnicas e métodos de execução para que pudessem ser mais rápidas, práticas e menos "sujas".

O diretor também consegue fazer do material em produção uma verdadeira análise psiquiátrica quando inverte os papéis e o ponto de observação entre executores e executados. Anwar, que passou quase cinco décadas se gabando de seus atos anti-comunistas, além de ser a figura paternal mais importante do grupo paramilitar Pemuda Pancasila, resolve atuar no papel de vítima durante as filmagens já que ele diz conhecer o sentimento patriótico de um executor, mas desconhece o sentimento de ser um criminoso comunista em julgamento.

Conforme novas cenas são filmadas, toda a frieza e o passado sangrento de cada um volta a tona como um tsunami. Anwar não consegue levar as filmagens adiante no papel de vítima, chegando a sofrer até um colapso momentâneo no set de filmagem. Mas é ao assistir novamente as cenas em sua casa, junto com seus netos, que toda a verdade sobre sua falta de humanidade e suas cruéis atitudes se revelam a sua frente em um mar de horror interpretado por ele como um grande e infinito pesadelo. Em prantos, ele diz sentir a dor e o medo de suas vítimas, e Oppenheimer o confronta, dizendo que esse sentimento está longe de ser o verdadeiro, já que as vítimas tinham a certeza de morrer, enquanto ele sabia que tudo era apenas uma encenação. Anwar teme que sua alma esteja amaldiçoada e que ele sofra as consequencias disso quando morrer, pois ele acreditava que o que ele fazia era o correto, pois era obrigado a fazer, mas que suas noites mal dormidas e os pesadelos constantes o torturam.

Confrontando seu lado mais obscuro e irracional, o arrependimento tardio de suas sangrentas ações são exorcizados fisicamente entre ânsias e vômitos vazios vindo de uma alma carregada que finalmente não encontra mais forças para conter tanto remorso e, talvez, agora vulnerável o bastante para ser espancada pelas milhares de almas torturadas. Mesmo não sendo julgado e ser um homem livre, sua punição de conviver com isso o mantém preso dentro de um mundo hostil de dor e sofrimento.

As razões para se assistir esse documentário são óbvias, pois ele definitivamente nos coloca face a face com a crueldade e os arrependimentos, mesmo que tardios, bem como em deixar evidente um lado da história abafado e distorcido sobre a imagem divulgada sobre os comunistas ou revolucionários. Com este material é impossível evitar comparativos com momentos históricos no nosso país e de outros países no mesmo período, onde a ditadura militar também perseguiu, torturou e executou milhares de civis com a mesma crueldade e justificativa, dos quais muitos ainda são classificados como desaparecidos. Todas essas ações brutais foram apoiadas pelos Estados Unidos em políticas anti-comunistas que divulgavam aos governos ações de contenção e erradicação de qualquer movimento revolucionário, além de infiltrar e interferir diretamente em políticas sociais de outros países nas décadas de 60 e 70. A opressão sofrida pelos comunistas ou revolucionários ultrapassa uma simples posição política para se tornar claramente um genocídio injustificável. Como dito por um dos próprios comparsas de Anwar, contar e reproduzir a realidade dos fatos é mostrar para as pessoas que a História enganou a todos quando julgaram os comunistas como pessoas perigosas e cruéis, pois não foram eles quem executaram dezenas de milhares de pessoas ao redor do mundo da maneira mais brutal possível, destruindo e trazendo consequencias irreversíveis a milhões de outras pessoas. Também é impossível ignorar que, apesar dos pesares, vivemos em um país onde, hoje em dia, temos a liberdade de pensar e expressar nossas idéias, oposições e insatisfações graças a uma democracia que pode não ser 100% eficaz, mas que para algumas nações essa possibilidade ainda é remota mesmo no século XXI e um ideal que não pode nem ao menos ser expressado.

O filme, de 2012, só foi lançado nos Estados Unidos em 2013, o que o levou a concorrer ao Oscar de Melhor Documentário em 2014. Era o favorito até então, mas por razões até meio óbvias (já que o próprio governo norte-americano é responsável), perdeu para A Um Passo do Estrelato (20 Feet From Stardom, 2013). O material foi aclamado pela crítica mundial, mas é visto pelo governo indonésio como uma ameaça e uma fonte de informação enganosa e deturpada sobre os acontecimentos daquela época. O diretor Oppenheimer foi acusado de ter agido de má fé, informando ao governo e aos envolvidos que o material seria usado para um longa metragem que contaria a história dos grupos anti-comunistas, quando na verdade ele foi utilizado para um documentário histórico contra eles, o que é negado pelo diretor. Chegou até a ser comparado com uma reencenação dos crimes nazistas, o que o diretor afirmou estar longe de ser, já que o nazismo foi erradicado, enquanto na indonésia os criminosos ainda dominam.

Prevendo possíveis retaliações e perseguições dos grupos anti-comunistas, 48 pessoas da equipe de filmagem, incluindo o co-diretor, proibiram seus nomes de serem divulgados. Anwar Congo chegou a relatar em um programa da rede Aljazeera que ele tem alguns arrependimentos devido a negativa reação do governo sobre as declarações finais dadas por ele no filme e que agora estão lhe causando grandes problemas. A repercursão mundial ergueu grandes discussões ao redor do mundo, incluindo a ONU e entre os próprios indonésios sobre possíveis intervenções nas políticas humanas do país, mas que as dificuldades são grandes, já que os Direitos Humanos é tido pelo governo indonésio como uma inútil tentativa de controle externo e que não é permitida para dentro de suas fronteiras. Há uma crescente cobrança da população indonésia hoje em dia para que o caso seja aceito pela corte e os responsáveis julgados, muito embora eles não possam mais ser condenados porque os crimes já prescreveram, mas a cobrança de uma retratação pública sobre os erros e crimes cometidos em 1965 é mais do que uma exigência, é um direito.

CONCLUSÃO...
A Arte de Matar é um documentário chocante não por imagens, mas pelas discussões que ele levanta sobre os limites e o total desrespeito aos valores humanos e democráticos, ainda ignorados de maneira arbitrária, opressiva e justificável apenas por aqueles que veem na liberdade o grande obstáculo e o maior inimigo de seus objetivos e ambições. Uma verdadeira aula obrigatória sobre o lado mais cruel do ser humano e até que ponto ele pode chegar para concentrar o poder nas mãos daqueles que não sabem controla-lo.
Add to Flipboard Magazine.